Carnaval no Mar da Capital

4 Cap. 4 - Listen to your heart


Notas iniciais
Gostei do capítulo de hoje. Este desafio está legal, porque posso treinar várias coisas em mim (inclusive minha narrativa, que ainda é meio fraca.), neste de hoje, percebi que preciso ser só um pouquinho mais detalhista sobre as coisas (e ser mais atenta também. Minha falta de atenção fez as falas do primeiro capítulo serem indicadas por tracinhos e não travessões). Está sendo proveitoso. :3

Cap. 4 — Listen to your heart

Deixei Júlio para trás. Ele provavelmente ficou sentado naquela mesa com cara de bunda a noite toda.

Me aproximei do pessoal que jogava Just Dance, percebi M. vindo em nossa direção também. Amanda e Anna surgiram por lá também, o que significava que elas dominariam a 'pista de dança' na sala. Se elas dominariam, elas provavelmente chamariam alguém para dançar junto, o que me deixava um pouco ansioso.

– J.? M.? Por que vocês não dançam com a gente? – Anna chamou, agitando as mãos para o dispositivo de reconhecimento do vídeo game. – Que música nós escolhemos?

– Y.M.C.A.? – Amanda coçou a nuca, sugerindo a única música que conseguia coreografar com sucesso.

– Não, essa tá batida! Pega o 4 e vamos dançar Call me Maybe! – Ela me olhou – Algum problema, J.?

– Sem problemas. – Na realidade, seria hilário. Vi M. dar de ombros, o que provavelmente significava que para ele, estava tudo bem.

A música iniciou, nós nos movimentávamos seguindo os personagens da tela, às vezes um batia no outro e pequenos desastres aconteciam, porém, esse tipo de coisa faz parte quando se joga Just Dance. É impossível não se bater com alguém, impossível não ter contato físico. Em determinado momento, abri meus braços e acertei os rostos da minha irmã e o de M. Ouvi um 'out' uníssono e parei a dança, preocupado com os dois. Amanda acenou, como se dissesse "deixa disso, eu estou bem", enquanto M. massageava de leve a testa.

– Cara, foi mal. Mesmo. – Murmurei de forma quase incompreensível.

– Acontece... mas, doeu um pouco. – Me abaixei um pouco para ver onde minha mãe tinha batido. Bem de perto, pude observar o rosto de M. Uma pele branca quase tão translúcida como o pó facial da Etude House que Amanda usa; olhos verdes, com alguns pontos castanhos; algumas sardas; lábios finos, atrativos... enfim. Ele era simplesmente muito bonito. Ao invés de prestar atenção na testa vermelha do homem, eu estava olhando para os lábios dele. – Er... – Tratei de desviar meus olhos para sua testa. – Uau! Ficou bem vermelho! Não é melhor colocar gelo? – Amanda tocou meu ombro.

– J., posso cuidar disso. – Minha irmã inclinou a cabeça em direção ao sofá, indicando discretamente que Júlio esteve observando tudo aquilo e certamente teve a impressão errada. – Qualquer coisa, grite. Eu dou conta dele. – Dei uma risada amarga. Minha irmã mais velha, mais alta e fit que eu. Amanda não era nenhuma fisiculturista, mas os anos praticando poledance fizeram com que seu corpo se fortalecesse mais que o meu, um nerd magricela e sedentário (antigamente ela era uma nerd gordinha e sedentária, nunca menos linda). – O Júlio parece furioso. Vamos tirar o M. daqui antes que ele perca alguns dentes pro seu namorado.

– Tudo bem, vou cuidar disso. – Que meu namorado era um ciumento doentio, todos sabiam. Nunca imaginei até onde esses ciúmes o levariam, e sinceramente, não gostaria de ver. Ele já agrediu pessoas por minha causa, já tivemos discussões muito feias, e ele chegou a me ameaçar. Sobre as ameaças, não quis contar para ninguém. Amanda faria eu me separar dele na mesma hora, acho que tanto ela, quanto Anna cortariam relações com ele. Não gostaria de ser quem desfez a amizade dos três, nem ser visto como a vítima do namorado ciumento. Eu dou conta do Júlio. Minha irmã se afastou muito dele desde que começamos a namorar. No início, pensei que fossem ciúmes de irmã, o lado protetor dela falando mais alto, mas era outra coisa. Amanda conhecia Júlio há algum tempo, sempre soube qual era o rumo que todos os relacionamentos dele tomava, sempre acabava do mesmo jeito. Por isso desconfiava dele.

Sentei ao lado de Júlio no sofá, observando Amanda e Anna sumindo pelo corredor. Respirei fundo olhando para ele. Me olhando de volta, perguntou:

– Ele se machucou muito? – O tom de voz aqui utilizado indicava que tudo que ele não queria saber era se M. estava bem ou não.

– Acho que não foi nada. As meninas vão colocar gelo, pra não ficar roxo. – Encostei a cabeça em seu ombro, contudo, ele levantou de supetão e me agarrou pelo braço.

– Vamos embora. – Puxei meu braço de volta. Aquilo doeu um pouco, e eu não queria ser tratado daquela forma.

– Vamos descer e conversar lá embaixo.

– Você disse "em casa a gente conversa".

– Não. Vamos conversar lá embaixo. – Se ele me agredir, eu faço alguma coisa para incomodar os vizinhos até que alguém chame a polícia. Perfeito. Ou não.

Ele me olhou de cima a baixo. Parecia bêbado. Estava bêbado. Desci com ele e me sentei no degrau do bloco. Júlio estava de pé, me lançando um olhar acusador.

– Júlio, não importa o que você esteja pensando. Aquilo não foi nada. – tremi ao falar aquilo. Sabia o que vinha a seguir.

– Você quase beijou o cara. Você nunca pede a oportunidade. Com todo mundo é assim. Você fica amiguinho de toda cara nova que aparece, para depois me dar facadas nas costas! – Ele disse irritado, com o tom levemente alterado. Confesso que me atraí por M., mas não trairia Júlio dessa forma. Conheci o cara hoje, não havia nenhuma razão lógica para eu querer algo com ele naquele momento. Ele estava exagerando. O discurso foi muito exagerado. Meu namorado não pensa. Ele sabe que não agi fora do normal, não entendo porque ele se queixa do meu jeito de ser com as pessoas.

– Você não pensa. Por que eu te trairia? Por que na sua frente? Você me subestima, Júlio. Eu estava sendo legal com ele. Minha mãe me ensinou a acolher as pessoas, eu estava agindo do jeito que você sabe que eu agiria. – Aumentei meu tom de voz gradualmente – Não consigo te entender. Por que a surpresa? Que medo é esse que você sente? Não se acha bom o bastan...? –Senti meu estômago doer. Ele me chutou, e eu caí de lado no chão do bloco. Doeu. Muito. Fiquei indignado, porém, não conseguia levantar. Algo em mim não deixava, uma parte de mim não queria acreditar naquilo. Estava preparado para mais agressões, mas ele foi embora andando.

Passei alguns minutos na mesma posição. Não chorei, não gritei, não fiz nada. Senti meu celular vibrar no bolso da bermuda. Peguei o aparelho e atendi, sem falar nada.

– J.? – Era minha irmã.

– Oi...

– J., vocês estão indo pra casa? Ligo lá e ninguém atende... – Me preocupei com Júlio. Preferi assumir que ele não atenderia o telefone hoje.

– Mandy... olha... – Acariciei minhas têmporas com os dedos. – Desce aqui, eu estou no bloco. – Levantei, me sentando na escadinha outra vez. Ainda doía um pouco.

– Tudo bem. Estou descendo. – Ela não perguntou mais nada e eu agradeci. Quando ela visse a marca da sola de sapato na minha camiseta, ficaria mais fácil explicar. Ela desceu sozinha, assim que abriu a porta e me viu, correu em minha direção. Olhou para a marca na minha camiseta e não disse nada, apenas me abraçou. Depois de um tempo abraçados, ela me perguntou:

– Ele fez mais alguma coisa? – Fiz que não. – Vamos pra casa, vou avisar a Anna.

– Amanda... – Solucei o nome dela. Ela me olhou séria. – Eu não quero isso pra mim. Acabou.

– Tudo bem. Faça o que for melhor para você, mas por hoje, vamos descansar. Você precisa de um banho e de mimos. Amanhã nós passamos no apartamento dele e pegamos suas coisas.

Ela me estendeu a mão, eu a peguei e levantei. Tirei a poeira da bermuda e fomos juntos para o carro.

Durante o caminho, ela parecia a Amanda de antigamente. Não falou uma palavra, estava pensativa. Ao chegar em casa, ligou para Anna explicando melhor o que aconteceu. Antes de irmos embora, ela somente avisou pelo interfone. Depois de conversarmos um pouco com nossa amiga, ela me trouxe uma toalha e uma calça de moletom cinza (dela). Me mandou imediatamente para o banheiro e foi atrás.

A banheira estava cheia, a água estava morna, com cheiro de baunilha (ela colocou essência, sabe que amo o cheiro). Amanda se sentou no vaso e eu me despi, entrando no banho.

– Quer conversar? Estou aqui para te ouvir. – Ela disse.

– Mandy. Só fica aqui comigo. – Antes de falar, preciso ouvir meu coração.

– Tudo bem. Eu fico. Você precisa de supervisão para não se afogar na banheira, baixinho. – Dei uma risada baixinha.

– Gosto de você assim, moço. Rindo. Agora, pense o quanto quiser. Estou aqui.