Capuz Vermelho - 3ª Temporada
2 O que você fez no verão passado? (Parte 2)
Notas iniciais
O exuberante jardim do hospital possuía um detalhe contrastante com todo o verde magnífico das plantas e as cores vivas das flores. No gramado jazia um corpo estraçalhado da cabeça aos pés. Ao que parecia, o último golpe teria sido no pescoço, tendo o assassino degolado sua vítima e deixando aberta uma profunda ferida por onde escorria um sangue de preto vivo, corroendo o solo até certo ponto com sua fervura acima da média.
Os olhos do Dr. McGrant estavam negros e abertos, tal como a boca meio torta, criando-se, assim, uma expressão de pânico. Uma poça do líquido negrejante rodeava seu corpo já exalando um odor fétido e pútrido. Pelo que Hector pudera constatar, o infectado naquele estado que morresse, seria vítima de um processo mais acelerado de decomposição, com pequenas diferenças em relação a humanos não-infectados. Médicos que trabalhavam no hospital naquele dia vasculhavam todo o jardim às pressas, à procura de Rosie, os olhos negros pulsando de fúria.
— Avancem até a floresta! — ordenou um deles, um cirurgião atraente e corpulento. Logo virou-se para Liv, que estava ao lado do cadáver do Dr. McGrant, com os olhos totalmente pretos e fuzilantes.
Ela se virou para ele, encolhida de arrependimento.
— Senhorita Medley, a sua situação agora torna-se um problema para todos nós. — disse ele, aproximando-se dela. — Violar o termo de conduta é um ato imperdoável! Lorde Abamanu,em poucas horas, ficará sabendo do que aconteceu e punirá a todos!
— Me desculpe! Tentei apressar demais as coisas, mas estava tudo nos conformes! — disse Liv, seu tom de desespero enquanto relanceava o corpo de Henry fumaçando um vapor quente. — Se aquele garota não fosse tão esperta, eu teria...
— Você teria de ser substituída! — vociferou o médico, colocando-se frente à frente com ela. — Além disso, a morte de Henry foi a prova da sua incompetência ao ter de seleciona-lo para a tarefa que teria sido minha!
— Sua!? — questionou ela, franzindo o cenho. — Você, assim como vários, não chegou nem perto de ser cotado! Se quer mesmo saber a verdade, para mim foi uma honra ter conduzido a predestinada até a sala do Dr. Henry, mesmo que isso resultasse numa possível desvinculação ou punição severa, não importava! Eu presumi que ela fosse acordar em pouco tempo e solicitei a ajuda do Dr. Henry para que administrasse o aprimoramento.
— Sem o consentimento do Lorde?! — esbravejou ele, cada vez mais colérico.
— Eu não tive escolha! — exclamou ela, dando dois passos desafiadores até o médico. — Os sinais vitais dela já estavam estáveis há pelo menos duas semanas e isso bastou para que eu o procurasse. Ontem verifiquei novamente e concluí uma melhora de 90% no quadro clínico. A catatonia já estava abandonando seu organismo em saltos impressionantes.
O cirurgião emudecera, avaliando a justificativa da enfermeira Liv e vendo se havia algum detalhe que favorecesse-a e a livrasse do imprevisível castigo pela violação do termo.
Com um suspiro, ele voltou a olha-la firmemente, os olhos pretos sibilantes.
— De qualquer forma, foi uma quebra de protocolo. Estamos acabados. — afirmou ele, voltando-se para o corpo ao seu lado. — Se vocês dois tivessem sido mais cautelosos e pacientes, nada disso teria acontecido. Quem o matou, obviamente a levou para uma área onde não existam fábricas.
Liv o fitou, insegura.
— O alerta já deve ter soado... — disse, em voz baixa. — Logo mais um dos soldados virá até aqui...
— E os culpados virão à tona! Ou seja, nós! — esbravejou ele, cortando a frase da moça. — Mas que na verdade foram a senhorita e o Dr. Henry! Não vai me surpreender eles não aceitarem nenhuma desculpa, já que o contrato afirma claramente: "A predestinada deve ser submetida ao aprimoramento após um período de 7 dias após seu despertar. Durante este tempo devendo ser mantida sob custódia dos selecionados, o aplicador e a testemunha".
Possesso de fúria, o cirurgião dera as costas à enfermeira e saíra andando a passos firmes e largos pelo jardim, na direção em que um dos grupos de médicos se encaminhou para procurar por Rosie.
— O que vai fazer? — perguntou Liv, se detendo antes de tentar segui-lo.
— Suspender a busca! Esteja pronta! — disse ele, irrompendo pelas samambaias altas e piscando os olhos deixando o preto sumir como mágica, mostrando seus verdadeiros olhos azuis claros que lhe davam certo ar de autoridade.
***
A vários quilômetros dali, havia um recinto elegante, concebido para ser o local de reverências, saudações, ordens dadas e acatadas e boas notícias dos processos que consistiam no plano de dominação global arquitetado pelo proprietário. Naquele momento estava sendo palco de uma sequência de reclamações, cujo tom reverberava por todo o espaço.
A sala possuía um aspecto deslumbrante, com papéis de parede laranja, um teto alto forrado com concreto mas enfeitado por afrescos criados pelos próprios soldados — os quais retratavam os mais gloriosos eventos do reinado de Abamanu, o que incluía as diversas conquistas de povos, riquezas e tesouros, conflitos armados e até momentos da vida pessoal do deus: idas até confraternizações entre seus conterrâneos e irmãos de espécie, participações em júris no Conselho Divino e relacionamentos amorosos com quimeras que lhe atraíam por onde quer que passasse. O piso era de granito cinza e as lamparinas a óleo de luminosidade alaranjada proporcionavam à ambientação um tom de equilíbrio sublime.
Levantando-se de seu colossal trono de mármore adornado com "espinhos" e linhas sinuosas, Abamanu bufava enraivecido com a notícia que lhe foi dada sobre o local onde sua preferida estava confinada por dois anos em estado catatônico. Estava vestindo uma armadura prateada que lhe conferia uma postura austera para o robusto corpo de seu receptáculo.
— Levada por quem, afinal? — perguntou Abamanu, os olhos amarelos intimidadores.
— Ainda estamos analisando as suspeitas, majestade. — disse um soldado, ajoelhado à sua frente, mantendo a lança em pé. — Além disso, um dos miméticos foi encontrado morto no lado de fora, supostamente executado pelo salvador da predestinada.
O deus virara-se para um lado, pondo a mão no queixo e refletindo sobre quem seria o responsável. Após alguns instantes, sentiu um lampejo clarear suas deduções.
Virou-se de modo súbito para o soldado, os olhos esbugalhados. "Ele deveria estar cativo assim como os outros... Não pode ser verdade.".
— O senhor ficou silencioso de repente. Não tem nada a dizer sobre a situação? — indagou o soldado.
— Eu tenho uma suspeita, na verdade. — disse ele, voltando para seu trono e sentando-se. — Aquele caçador petulante. Ele conseguiu sobreviver à queda.
— E por que o senhor não ordenou traze-lo junto aos outros? — perguntou o soldado, erguendo os olhos amarelos para seu Lorde.
Abamanu dera uma risadinha presunçosa, como se houvesse escondido um detalhe importante.
— Ele deveria estar vivo para vir me enfrentar sozinho, depois que tentasse recolher informações sobre meu plano e as localizações dos cativeiros de seus aliados. Se assim fosse, eu lhe daria uma condição para que a sua amada Rosie fosse libertada. — ele inclinou-se para observar o soldado, esperando uma reação. — Algo que faria vocês torcerem os focinhos de tanto desconforto.
— E o que seria, senhor? — o soldado o fitou, sem a menor ideia do que esperar.
O Cavaleiro da Noite Eterna fizera alguns segundos de suspense propositalmente.
— Que se tornasse meu receptáculo provisório enquanto eu estivesse enfrentando meu algoz, Yuga. — disparou ele, sentindo um doce sabor de excitação, olhando para o soldado cheio de expectativa.
— Não acha esta ideia... um tanto equivocada, senhor? — perguntou o soldado, reprimindo sua reação de surpresa.
— É, à primeira vista não é o melhor dos planos. E funcionaria se ele não tivesse encontrado Rosie Campbell. Ao meu ver, ela acordou cedo demais.
— Senhor, não acha que seria um erro utilizar um receptáculo humano para batalhar contra seu inimigo? As consequências são óbvias, mas...
— Eu descartei esta ideia. — interrompeu Abamanu, falando depressa, cruzando os dedos das mãos abaixo do queixo formando um "triângulo". — Seria um plano sublimemente funcional. Mas eu faria isto por que sei o que Yuga quer... assim como ele também sabe muito bem o que quero. Ele vai tentar ser mais rápido.
O soldado agora parecia estar tremendo diante de uma possível investida que Yuga perpetraria, caso visualizasse o ousado plano de seu inimigo, tendo em vista o caráter notoriamente impulsivo do deus solar, o que denunciaria um ataque rápido, cuja intenção seria pegar o exército rival desprevenido e privando-os de qualquer chance de defesa, além da perigosa conduta da guarda baixa que poria fim a qualquer oportunidade de Abamanu em organizar uma ofensiva eficiente.
— Mas como meu próprio peão deste meu jogo arruinou todas as nossas chances, resta-me considerar que Yuga poderá agir secretamente. — especulou Abamanu, fechando os olhos em meditação.
O soldado, ainda exibindo sua insegurança, se levantou com pressa erigindo sua coluna em perfeita postura e tirando a lança com uma estranha ponta vermelha do chão.
— E quanto ao lugar onde a predestinada estava confinada? O que faremos com eles?
Após alguns minutos de puro silêncio, Abamanu fora trazido de volta à realidade apenas para proferir a ordem final do dia. Abriu lentamente os olhos, fixando-os no soldado, a expressão dura.
— Destrua-os. Leve mais alguns soldados com você, eles devem achar que apenas um de meu exército virá até lá. Derrubem o lugar assim que terminarem o serviço. — ordenou ele, o tom frio ecoando no recinto.
O subordinado virara as costas para seu soberano após assentir com reverência. No meio do caminho, estacou, ficando alguns segundos parado. Parecia ainda estar afogado em dúvidas.
— Sem misericórdia, senhor?
Sorrindo para si, o Lorde se deliciou com as revisitações mentais sobre sua última batalha contra Yuga, casando-a com o massacre que estava prestes a ocorrer nos arredores daquele hospital.
— Sim. — disse ele, as presas brancas destacando-se. — Sem misericórdia.
***
A cerca de 7 metros abaixo, o segundo ponto subterrâneo abrigava uma série de masmorras pedregosas construídas durante o reemergir do império do Cavaleiro da Noite Eterna. O gotejar incessante vindo das pontiagudas estalactites era o único som audível, que ecoava profundamente.
Em uma das poucas celas iluminadas — todas elas pelas chamas de velas postas em castiças pequenos -, jazia uma figura abatida, sentada no chão úmido e sujo, com o corpo curvado para frente, os braços apoiados nos joelhos e a cabeça baixa denotando estar deprimido. À sua esquerda havia um prato de porcelana com farelos de comida sendo consumidos por um pequeno camundongo cinzento, que, àquela altura, parecia lhe ser a única companhia que surgira para preencher seu vazio naquela verdadeira cela de prisão no inferno.
A luz alaranjada das velas cintilava parte de seu corpo. "Depois que eu for usado... talvez eu vá estar condenado a passar o resto da minha vida aqui. Descartado. Jogado aos ratos... depois aos vermes quando meu corpo apodrecer em morte. Morte por fome... por sede... por medo. Ele vai me roubar aquilo que me tornou mais forte. A luta acabou. Eu os perdi... e agora estou sentenciado a perder mais anos de minha vida cooperando com o mal. Talvez seja minha última missão neste mundo... e vou cumpri-la com esmero, para que no terrível futuro que me espera eu possa me sentir menos arrependido.", pensava a alma desesperançosa.
Foi erguendo a cabeça devagar.
Os olhos de Charlie apresentavam um aspecto taciturnamente mórbido... como se já se sentisse morto há muito tempo.
***
O sol do entardecer abrilhantava cada vez mais a lataria do carro roubado por Hector, estacionado próximo ao local onde seria o novo esconderijo da dupla. Localizada em uma pacata e silenciosa floresta no norte do país, havia uma casa relativamente grande, com uma estrutura suficiente para abrigar pouco menos de 30 pessoas. Se vista de cima a uma considerável altura, a residência poderia ser entendida como um "pontinho marrom" em um vasto espaço verdejante.
No interior do local, mais precisamente na cozinha, Hector, de braços cruzados e encostado numa parede com o semblante sério, observava Rosie devorar diversas tipos de frango assado que o caçador preparada horas antes, revelando que o mesmo estava deveras confiante no êxito do resgate. A fome voraz da garota parecia não ter controle. Em suas mãos, duas coxas sendo mordidas com gosto.
"Os sedativos especiais com certeza não foram suficientes para nutri-la. Ela me parece mais pálida, embora muito revigorada. Enfim, não há com o que se preocupar sobre isso, ela já provou estar pronta para enfrentar qualquer obstáculo.", pensou ele, considerando a importância que Rosie teria nas missões e de como a parceria renovada ajudaria a reacender a chama de uma amizade mais sólida.
Ao terminar a refeição, Rosie afastara os pratos da mesa para sentir-se mais à vontade, colocando os cotovelos sobre o móvel e juntando os dedos sob o queixo, tornando a observar o caçador incisivamente.
— Bem, agora é a parte em que finalmente você tira minhas dúvidas.
Hector se desencostara da parede e foi andando até ela.
— Está bem, Rosie. — disse ele, olhando vagamente para o chão. — Primeiramente, saiba que nosso país está envolvido em uma nova guerra.
— Espera aí... — murmurou ela, levantando-se com alarme. — Disse... guerra!? Do tipo conflitos bélicos e interesses políticos em jogo como no passado?
— Sim, infelizmente. — assentiu, esfregando os olhos. — No entanto, esse é o menor dos nossos problemas, é claro. Não vamos dar atenção ao que ocorre naqueles campos de batalha.
— E eu suspeitando que não estávamos em 1941. — afirmou Rosie, pensativa quanto ao problema.
O caçador franziu o cenho, perdido.
— Disse com tanta certeza que ficou dois anos em coma... Por que desconfiou disso?
Desviando o olhar para ele, Rosie lhe lançou um sorriso discreto.
— Em um mundo repleto de mentiras e depois de ter sido violentada por um deus... fica difícil distinguir o que é verdade ou ilusão. Honestamente, quando acordei ainda achava que estava dormindo e presa em um sonho. Nada parecia real. — baixou os olhos para a mesa, parecendo exausta.
Hector ficara alguns instantes avaliando-a. "Devo envolve-la nisso? Se eu deixa-la fugir livremente para recomeçar sua vida, ela não saberá nada do que me tornei. No entanto, vou estar sozinho na caçada e sinto que, mesmo com minhas novas habilidades, não vou ser capaz de lidar com isso sozinho... o apoio dela é crucial, e o Exército parece estar trabalhando isoladamente... Vamos Hector, decida de uma vez!".
— Olha aqui. — disse Rosie, abruptamente, erguendo os grandes olhos azuis para ele. — Nem pense em me deixar de fora dessa. Ouviu bem? — seu tom era categórico. — Nossos amigos podem ter sido levados. Alexia, Adam, Lester, Êmina... Charlie. — se viu com um pesar na voz. — E eu estou disposta a fazer qualquer coisa, me arriscar de corpo e alma, para salva-los.
O caçador chegou um pouco mais perto, pondo uma mão no ombro dela, condescendente.
— Sinto em dizer... mas eles realmente foram levados. — revelou Hector, o tom cada vez mais sério. — Vou lhe contar mais assim que terminar de tomar um banho.
— Você ou eu? — indagou ela, confusa. — Ou nós dois juntos? — assumira um tom brincalhão. — Pra ser sincera, você precisa de um banho mais do que eu.
O caçador sorrira fraca e discretamente para ela, com um suspiro.
— Você, Rosie. Além disso, eu trouxe suas roupas. Como eu fui o último a acordar, eu vi suas roupas largadas pelos escombros e sujas. Quando encontrei esta casa e a tomei como propriedade, guardei elas com cuidado, estão no primeiro quarto... o seu quarto.
— Ótimo. Me conte mais sobre ter sido o último a acordar... — disse ela, encaminhando-se para o banheiro. — Na situação em que estamos, com certeza não vai querer ou conseguir guardar segredos. — afirmou ela, com ar provocativo.
Hector resolveu não olha-la entrar no box do banheiro, tornando a se sentar na cadeira, pondo as duas mãos no rosto em sinal de cansaço. "Pelo visto, ela conseguiu ler minha mente.".
***
Conferindo seu relógio, Hector expirara um ar aliviado, constatando que não se passou tanto tempo quanto ele pensava. Marcava 14:16. Restava tempo de sobra para fazer novas investigações... ao menos para provar à Rosie que o que iria revelar-lhe eram fatos, sendo que possuía provas concretas para fortalecer seus argumentos caso ela viesse a esboçar desconfiança. "Não exponha seu outro lado", aconselhou a si mesmo, embora temesse que haveria uma hora em que seus instintos menos racionais fossem acionados sem nenhum controle .
A estonteante figura de Rosie cruzava a soleira da entrada que dava para o corredor à direita onde se localizavam os quartos — os de hóspedes ficavam no andar de cima. As botas cor de vinho e o capuz com capa vermelhos eram os acessórios de maior destaque. Hector se levantara da cadeira, parecendo animado ao vê-la preparada.
— Bem, podemos começar a entrar em ação, agora que já está uniformizada. — disse ele, sorrindo.
— Engraçadinho. — retrucou ela com um olhar reprovativo, andando até a mesa.
Hector levantou uma sobrancelha, parecendo não ter entendido.
— Isso não foi uma piada.
— Bem, o que temos aqui? — desconversou Rosie, concentrando suas atenções no mapa da Inglaterra que fora colocado sobre a mesa.
— Um mapa fornecido pelos caçadores selecionados pelo Exército. — revelou Hector, colocando na outra extremidade da mesa, de frente para Rosie e analisando as localizações. — Nele estão localizadas as fábricas que Abamanu construiu para conseguir produzir a substância venenosa, é através desses pontos que ele dissemina esta praga.
— Espera. — disse Rosie, fazendo uma cara de desconforto. — Desde quando o Exército tem conhecimento da existência dos caçadores? Você tem trabalhado junto com aqueles caras fardados?
— Na verdade, o Colégio dos Caçadores é quem se permitiu a buscar a ajuda do Exército... depois que eu relatei as implicações da crise. — contou Hector, olhando para ela, firme. — Não sei se por medo, mas... acabei ajudando aos caçadores de aluguel semi-profissionais indiretamente, com instruções de uso de armas de fogo e cortantes, além de técnicas básicas, mas muito eficazes. Isso tudo por telefone e gravações, depois que me foi concedida a permissão do general Holt, que está engajado no controle de ameaças sobrenaturais e que fogem à compreensão humana. — fez uma pausa. — Para que isso fosse possível, eu me dispus a agir anonimamente para os caçadores que entrariam nos postos de batalha para desmanchar as fábricas.
Rosie pareceu não estar muito convencida e enxergava claramente as lacunas daquela história.
— Não entendo. Por que esconder sua identidade à pessoas que fazem o mesmo trabalho que você?
— Em parte, por incentivo do Exército. — afirmou Hector. — Eles prezam pelo anonimato quando o solicitador tem motivações convincentes. A revelação de que recebiam aulas de um caçador da Legião os fariam ficar pressionados demais... Acho que foi uma decisão correta. — disse ele, assentindo, baixando os olhos para o mapa.
— Afinal, quem administra o Colégio de Caçadores? Foi essa a pessoa que solicitou a ajuda do Exército?
Hector dera um suspiro pesado, como se não quisesse prolongar o assunto e irem direto ao ponto central da situação.
— Sim. Walter Vannoy, o homem que me ensinou tudo o que sei sobre caçar coisas malignas. — disse ele, parecendo rememorar uma breve lembrança do Mestre e idealizador da iniciativa. — Ele e o general Holt firmaram uma aliança perto do final de 1938, depois do meu alerta. Durante os dois últimos anos, ele coordenou várias operações de desmanche das fábricas de Abamanu, mas hoje quem detém esse posto é Edgar, um veterano no acampamento. Ele não chegou a entrar para a Legião por causa de problemas familiares e teve que voltar para sua terra natal. — apontou para vários pontos do mapa, nas áreas marcadas em vermelho com um "x". — Veja. São as fábricas desativadas. Edgar e um exército de 50 caçadores foram responsáveis por derrubarem mais de 25 delas. Pode parecer pequeno... mas é um largo passo, sem dúvidas.
— Então é delas que provém aquela água negra... — disse Rosie, pondo a mão no queixo, pensativa.
— Na verdade... — interrompeu Hector, com um sorriso misterioso, como se tivesse satisfeito por ela estar enganada. — O líquido negro é só uma das formas de disseminação. Nas fábricas eles utilizam uma suposta tecnologia de vaporização... o que logo sugere...
— Uma espécie de gás venenoso!? — arriscou Rosie, alarmada, cortando a frase do caçador. — É isso?
— Sim. — confirmou Hector, com um leve meneio de cabeça. — Esse gás tóxico se propaga rapidamente, e o mais curioso é que, quando espalhado, ele inicialmente apresenta uma coloração preta característica, mas quando uma boa quantidade se dissemina ela parece se fundir com o ar... tornando-se praticamente invisível e facilmente inalável. — revelou, o tom de preocupação claro como água. — Quanto a forma líquida da substância, ela só é administrável em hospitais... exatamente o que tentaram fazer com você, Rosie.
A jovem se pegara vislumbrando o mapa, engolindo em seco aquelas revelações, embora sentisse na pele a dificuldade de processar toda aquela realidade obscura e aterrorizante. "Pensando bem... olhando pra isso me parece que o coma era um paraíso... e agora me encontro presa no inferno.".
Hector inclinara-se para mais perto dela a fim de lhe dizer algo importante.
— Fiz algumas confirmações. — disse ele, sua voz quase beirando a um sussurro. — Pra começar... eu tinha capturado um infectado e o mantido em cárcere privado.
— Você o quê!? — ela arqueou as sobrancelhas, como se não houvesse ouvido direito ou acreditado.
O caçador assentiu positivamente com rapidez e tirou de um bolso interno de seu sobretudo uma amassada folha de papel dobrada, abrindo-a e pondo-a sobre o mapa.
— Eis a prova. — apontou para os desenhos que fizera. — Estes são os estados de infecção. E se voltarmos para analisar o mapa... nota-se algo bem interessante. — ele afastou o papel, mostrando alguns pontos específicos do mapa. — Liverpool, Sheffield e Birmingham são os três estados que abrigam as fábricas que possuem uma segurança mais reforçada. Agora... — novamente pegara a folha e destacando os desenhos. — ... repare nos três estados de infecção.
Rosie observou com atenção a folha virada para ela, mas parecendo não compreender as relações que as fábricas tinham com aquelas etapas. "Aonde ele quer chegar?".
Hector prosseguira:
— Tudo começa com a inalação pelo gás ou injeção do líquido na corrente sanguínea. Eu denominei o primeiro estado de Submissão, que é quando o infectado passa a agir sob as ordens de Abamanu, jurando lealdade e veneração eterna à ele, — apontou para a cabeça do homem desenhado, enfatizando os olhos pretos. — É nesta fase em que eles apresentam olhos negros, revelando sua verdadeira face. — passou o dedo pelo segundo desenho, mais abaixo. — É agora que as coisas começam a ficar... sinistras. Neste estado, chamado de Inquietação, o indivíduo começa a ter um súbito acesso de fúria. Tive sorte que o local que escolhi fosse resistente o suficiente, eles adquirem uma força tremenda. Esta fase dura cerca de 4 dias, e posso dizer que não consegui dormir por causa dos gritos insanos daquele homem. — contou ele, fazendo uma careta de incômodo.
— E este aqui? — perguntou Rosie, mais curiosa. — Me parece ser a destruição completa do hospedeiro... Não é? — olhou para ele, como que querendo adquirir uma confirmação.
O desenho mostrava o corpo do homem estourando em milhares de pedaços, e a riqueza de detalhes com a qual Hector usou nos traços tornou aquele projeto cada vez mais horripilante.
— Este é o estado em que o infectado, literalmente, explode. — disse ele.
Rosie parecia ligeiramente surpresa, mas de forma contida.
— Não conseguindo resistir — continuou Hector — as supostas dores no corpo inteiro, ele simplesmente estoura feito um balão. O lugar ficou completamente banhado em gosma preta e espessa. E as coisas ficam mais interessantes no terceiro e último estado... — correu o dedo até o último desenho. — A explosão é a consequência do segundo estado e uma ponte para o terceiro. É quando as gotículas de líquido negro, das mais pequenas às mais mais volumosas, se fundem até criarem uma forma humanoide...
Ao olharem simultaneamente para o último desenho do terceiro estado de infecção, ambos, subitamente, se entreolharam. Rosie, assustada e impressionada. Já Hector, uma expressão que indicava a certeza mais absoluta de toda sua vida.
— Meu deus! — bradou ela, cobrindo a boca. — E... o que houve depois?
— Ele fugiu. — disse Hector, sucinto. — Nesse estado, o infectado age de modo independente e não há como para-lo, pois se tentar ele pode infecta-lo com apenas um toque. Deve haver centenas neste estado espalhados por aí.
Sentindo seus pelos se eriçarem pelo corpo todo, Rosie vislumbrou o último desenho: Uma figura humana, parecendo uma sombra espectral, completamente negra, emergindo de uma poça de líquido de mesma cor e pondo-se de pé depois. Seus olhos já indicavam seu pavor. "Se for assim, Abamanu praticamente vai tornar os seres humanos em aberrações!", pensou ela, estupefata.
— Rosie, ouça com atenção. — disse Hector, inclinando-se mais para perto dela. — Não percebe a ligação entre essas coisas? As três fábricas mais proeminentes localizadas em três estados ingleses... Há três estados de infecção... a substância em sua forma líquida pode ser congelada, tendo também sua forma gasosa. — olhou-a com mais expectativa. — Estados ingleses. Estados de infecção...
Rosie estalou os dedos, rapidamente pegando a ideia, esboçando um leve sorriso.
— Estados físicos da matéria. — afirmou ela, sem esconder a surpresa. — Sólido, líquido e gasoso.
O caçador soltara o ar dos pulmões em um forte suspiro, satisfeito por Rosie ter entendido.
— Exato. E considerando a importância destas três fábricas específicas...
— Pode ser nelas que nossos amigos estejam sendo mantidos! — interrompeu Rosie, completando o raciocínio de Hector, seus olhos radiantes de empolgação. — O que nós estamos esperando? Precisamos ir logo, de preferência começando por Liverpool. — ela já se direcionava para a porta da cozinha, apressada.
Em um gesto de reprovação, Hector segurou-a pelo braço, impedindo-a de sair.
— Espere, Rosie! — disse ele, puxando-a levemente de volta. — Irmos agora seria nos precipitar.
— Nos precipitar!? Hector, o tempo está se esgotando e mais pessoas correm o risco de serem infectadas! — disse ela, fuzilando-o com o olhar. — Se nos unirmos aos caçadores, podemos invadir as fábricas, resgatarmos nossos amigos e arranjar um jeito de, sei lá, conseguir uma cura para isso!
— Chega a ser assustador você falar como se fosse tão fácil. — retrucou Hector, soltando-a.
— Agora o grande Hector Crannon está com medo?! — provocou ela, aborrecida. — Olha, eu sei muito bem o que estava pensando. Queria me largar para que eu seguisse meu próprio caminho, que ficasse alheia a toda essa loucura que está acontecendo no mundo. — passou a fita-lo com um ar decidido. — Você pensa que vou dar as costas aos meus amigos para ter uma vida normal? Que bom que não segui sua ideia, porque não sou egoísta.
Virara-se para a porta da cozinha, saindo a passos firmes e largos e irrompendo pela cortina da ampla sala de estar, bufando enraivecidamente. Hector balançou a cabeça em negação para si mesmo, culpando-se, logo seguindo-a no mesmo ritmo.
— Rosie! — chamou ele, a voz grave ressoando pelo aposento. — Ao menos pare para me escutar, por favor.
A jovem estacara hesitantemente, cerrando os punhos e mordendo os lábios em sinal de aborrecimento. Virou-se para o caçador, encarando-o como uma leoa feroz.
— O que foi? Vai dizer que estava errado?
— Sim, eu me equivoquei ao pensar dessa forma. — afirmou ele, aproximando-se dela. — Na verdade, eu quero você ao meu lado... Que lutemos juntos nesta guerra. — fez uma pausa, respirando fundo. — Há uma fábrica... há quilômetros daqui, recém-instalada. Posso mostra-la como funciona... do lado de fora, obviamente. Como uma preparação. Aceita?
"Por que me sinto tão dominada por essa... incerteza? Ele parece ser o mesmo de antes, mas percebe-se claramente que... ele está diferente de alguma forma, alguma coisa nele que não parece ser típico dele. Ansioso demais... é como se estivesse faminto ou sedento. Talvez seja só necessidade de adrenalina mesmo.", pensou ela, em vários instantes de reflexão sobre decidir se iria ou não acompanha-lo até a zona de perigo considerada a mais próxima dali.
Ela assentiu, meio relutante, meio insegura da decisão.
— Tudo bem. Se é essa a proposta... Acho que vale dar uma olhada.
***
Percorrendo pelas trilhas sinuosas, a floresta transmitia a natural impressão de ser um labirinto infindável, com árvores posicionadas como se estivessem ali para parecem uma espécie de "muralha", fileiras em diversos lados. As copas altas proporcionavam sombras esguias nas partes gramadas e repletas de folhas secas, reluzindo ao sol escaldante daquela tarde. Quando, por fim, chegaram ao fim das trilhas, passando a caminhar por um solo baixo e cheio de galhos e raízes espalhadas, teve-se a sensação de estarem indo em direção a um covil de algum monstro que espreitava naquele lugar. Rosie ia a passos relutantes atrás de Hector, desde o início da caminhada sem dizer uma só palavra. O caçador carregava consigo a mesma faca com dentes que usara para matar o Dr. Henry McGrant.
Em dado instante, notou algo ligeiramente estranho em Hector. "Tudo nele está estranho. Até o jeito de andar!". Suas atenções voltaram-se para o nariz do caçador movendo-se... como se estivesse farejando como um cão atrás de sua presa. Se segurou para não soltar alguma pergunta a respeito.
De repente, ele parara, apontando para uma pequena tábua de madeira afixada verticalmente no solo como uma trave.
— É a partir deste ponto. Estamos quase lá. — disse ele, logo tornando a seguir em frente.
Voltando a segui-lo, Rosie se viu vítima de mais uma dúvida.
— Espera aí! — bradou ela, sem aviso. — Você já esteve aqui antes?
— Foi a penúltima coisa que fiz antes ir procurar por você. — respondeu, apressando o passo e cortando as plantas que bloqueavam a passagem com a faca.
— E qual foi a última? — perguntou Rosie, intrigada.
— O carro roubado. — disse Hector, o tom endurecido e nada simpático. — Olha, eu sei que pode estar achando essa minha ideia um tanto suspeita... mas não precisa entrar em seu natural estado de desconfiança, eu sei o que estou fazendo.
— Na verdade, você me parece tenso... ansioso, eu diria. — disse Rosie, exibindo um tom de preocupação. — Está suando bastante, pelo que vejo. E olha que nós só estamos andando...
— É o calor! — disparou ele, agora realmente demonstrando tensão. — Temos que ir mais rápido... já estamos na zona de perigo e existe um limite de tempo. — suas botas pisavam no solo com força.
— Por que será que estou com a sensação de que estamos perdendo tempo? — indagou Rosie, visivelmente impaciente. — Hector, nós não...
— Shhh. — murmurou ele, pedindo silêncio e erguendo uma mão, os olhos fixados no caminho à frente, atentos e penetrantes. — Ouvi algo... bem ali. — apontou, com o máximo de cautela.
A jovem franziu o rosto, apurando sua audição com esforço.
— Não estou ouvindo nada. — respondeu ela. Tornou a olhar para ele com estranheza.
— Mas eu sim. — afirmou, saindo em disparada para o a direita, segurando firmemente a faca. — Continue seguindo em linha reta! Alcanço você depois! — e desaparecera através da vegetação densa.
Embasbacada, Rosie sentiu-se petrificada, sem entender absolutamente mais nada. "O que foi que deu nele? Está o maior silêncio aqui!". Ergueu o capuz, pondo-o sobre a cabeça, e cedera ao pedido do caçador, andando cuidadosamente pelas sombras das árvores, a atenção redobrada. Sua intuição feminina lhe alertava alguma espécie de perigo iminente... e que ele poderia estar mais próximo dela do que se imaginava. "Hector... Você me provou que o mundo mudou bastante no tempo que fiquei naquela cama de hospital... mas, acima de tudo, ainda me provou que você mudou de forma ainda mais clara. Quanto mais eu perceber que você tenta disfarçar, mais vou me sentir insegura. O que aconteceu com você? É só o que quero saber. Mas preciso olhar para mim mesmo... preciso achar um modo adequado de perguntar, além de ter que lidar com a descoberta, seja lá o que for... eu sei que vai acarretar em consequências diretas à mim.", pensou ela, sentindo uma onda de abatimento tomar conta de seu humor.
Após cerca de 8 minutos se passarem em uma rápida travessia pela floresta, a jovem se sentira em um ponto culminante que parecia ressoar uma voz na leve brisa dizendo algo como"Você chegou ao seu destino".
Algo à sua direita lhe chamara a atenção de imediato, sua infalível visão periférica lhe denunciando algo concretamente suspeito. Seus olhos, junto com sua cabeça, foram se voltando para um espaço mais aberto na floresta, o solo meio arejado, meio gramado. Seu sangue gelou no mesmo instante. Recuando alguns passos, Rosie não conseguia tirar os olhos daquela horrenda cena de crime, logo fazendo uma cara de desconforto puro.
A resposta sobre o autor que lhe veio à mente não poderia ser mais óbvia.
Um verdadeiro mar de corpos de quimeras nível 3 — soldados de Abamanu — sucumbidos e ensanguentados.
***
Há poucos quilômetros dali, Hector estava sendo alvejado por duas pontas de lanças em riste, ameaçadoras, o metal reluzente apresentando um aspecto nem um pouco mundano. Seus portadores, quimeras licantrópicas usadas como receptáculos de soldados de Abamanu de menor escalão, rosnavam em simultâneo, suas pelagens cinzentas fazendo-os parecerem lobos do ártico modificados geneticamente. O caçador se mantinha em guarda precisamente alta entre ambos, posicionado como o bom lutador que era.
Em um movimento surpreendente, largara a faca no chão, erguendo as mãos em um aparente sinal de rendição. Sua expressão denotava certa satisfação, com um zombeteiro sorriso, cuja discrição fora bem executada.
— Vamos, aproximem-se! — pediu ele, gesticulando com a cabeça para um deles. — Vocês tem a mim agora. Reconheço minha desvantagem, suas armas claramente são mais bem dotadas que a minha velha e surrada faca. Podem vir... — lançou um olhar escarnecedor para ambos. — Ou estão com medo?
Um deles se exaltara de súbito, chegando o mais perto possível de Hector com pressa, a lança em punho e ameaçando perfurar a qualquer momento.
O outro o imitou, sem admitir aquele tom petulante.
Assim que puderam estar a poucos centímetros do corpo de Hector e antes que pudessem executar algum movimento para prende-lo, o caçador se mostrara mais ágil em um pulo selvagem, desferindo dois chutes nos soldados — um para cada. Rapidamente pegara uma das lanças e a apontou para um soldado caído. O mesmo rolara pelo chão antes que recebesse um golpe. Ele pulara, rolando na horizontal e pondo-se em posição de combate espumando pela boca.
O outro veio com um ataque violento seguido de um feroz rosnado. Hector agarrara a lança antes que fosse ferido e, com um chute certeiro, golpeara o soldado no rosto, logo fazendo a ponta da arma voltar-se para ele. Cravara violentamente a lança no torso do soldado, fazendo o mesmo abrir a enorme boca e urrar de dor, bem como irradiar uma intermitente e curiosa luz azulada pelo corpo enquanto o metal frio da arma ainda estava atravessando todos os tecidos de sua pele.
Hector arrancara a lança fortemente, deixando o corpo do soldado cair desfalecido no chão... e erguera a mão direita para agarrar o pescoço do outro que logo veio para investir contra ele em retaliação pelo companheiro perdido. A criatura, já sentindo-se sufocada pela enorme força exercida pelo caçador, se debatia para se usar as garras, mas sentia parte das articulações paradas. Seus pés ciscavam o solo com violência e intensidade já fazendo um fundo buraco, na tentativa de avançar contra aquele mero humano insolente.
Hector apertou com mais força com os dedos, os pelos da mão crescendo vertiginosamente e as garras se acentuando.
— Vocês morrem fácil demais. — disse ele, voltando-se para sua vítima, os olhos alterando-se com a pupila diminuindo e a íris desaparecendo por completo. — Será que esse momento prova, de alguma forma, que sou especial? Posso vence-los... Eu tenho o poder... para mata-los sem que eu meça esforços. — dera um sorriso, exibindo brancos dentes, as presas crescidas em evidência.
Com um bem treinado movimento, quebrara o pescoço do soldado com a mão que o apertava. A técnica incluía medir com máxima precisão as regiões mais frágeis do pescoço, desde que alguns ossos estivessem facilmente táteis. Canalizada a força diretamente à mão, o usuário deveria fazer a cabeça da vítima inclinar-se levemente para trás durante o golpe simultâneo ao ruído característico de uma grave fratura.
O "creck" ecoou pela floresta. Após larga-lo no chão, Hector podia ainda ouvir seus pulmões funcionando normalmente. Cravou a lança no peito, fazendo irradiar a mesma luz azul pelo corpo inteiro do soldado, que dera seu último e forte arquejo.
Olhando para os lados a fim de se certificar de que ninguém estava por perto — principalmente Rosie -, o caçador voltara seus olhos alterados para suas duas presas... sem resistir ao impulso e tornando a se transformar por completo, em um rápido meneio de cabeça, os cabelos e pelos de seu rosto aumentando de volume, a pele enrugando-se e as presas à mostra pingando saliva. Seu rugido foi controlado de modo a não chamar a atenção de alguém que supostamente estivesse próximo.
Avançara vorazmente contra um dos soldados, abocanhando sua cabeça, fazendo um denso jato de sangue espirrar pelo ar.
CONTINUA...
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