Capuz Vermelho - 3ª Temporada

3 O que você fez no verão passado? (Parte 3)


Já distanciada da trilha de corpos de lobos bípedes com a qual se deparara, Rosie andava de um lado para o outro, em um misto de desespero e aflição. Juntou as duas mãos e colocou-as na frente dos lábios, imaginando o pior. Foi quando um som de passos rápidos veio se aproximando na sua direção.

Ela se virou de modo abrupto, quase como um sobressalto.

Um pesado suspiro de alívio foi tudo o que pôde fazer. Seu coração batia descompassado, ainda com a dantesca imagem que vira minutos antes gravada na memória.

Hector viera até ela, ofegante, o estado ainda mais deplorável do que pouco antes. Rosie torcera o nariz, afastando-se dele.

— Onde você esteve? — perguntou ela, fazendo uma cara de ojeriza. — Argh! Ainda por cima está... fedendo a cadáver!

— Soldados de Abamanu. — respondera ele, voltando a seguir pelo caminho à frente. — E foi absurdamente fácil acabar com eles.

Por alguns segundos, Rosie entreviu alguns pigmentos vermelhos no rosto do caçador, o que confirmou sua suspeita. "Então é lógico que foi ele que fez aquela carnificina.", pensou ela, voltando a segui-lo. "Mas a pergunta que não quer calar é: Como pôde ser tão fácil?".

Antes que pudesse proferir alguma outra dúvida relacionada àquilo, uma estrutura cinzenta, austera e metálica emergia à sua frente como uma montanha à medida que avançava, chamando sua atenção. Percorreu seus azuis olhos até o alto... até chegar ao topo de uma chaminé industrial por onde saía uma fumaça negra, expelida com abundância.

— E aqui está. — disse Hector, parando bem em frente à fábrica. — Uma das instalações erguidas sob as ordens de Abamanu. Não duvido que seja a primeira de muitas que virão a ocupar boa parte dos hectares dessa floresta. — afirmou, voltando os olhos para o alto, logo apontando para o gás negrejante que saía pela chaminé. — Nem preciso explicar o que seja aquilo, não é? — olhou para Rosie.

A jovem tinha uma expressão franzida, discretamente recuando alguns passos.

— Hector... — sentiu seu coração voltar a bater aceleradamente. — Você já considerou a possibilidade de nossos amigos terem sido infectados? — voltou-se para ele, os olhos marejados de desespero.

— Rosie... — começou Hector, baixando a cabeça, a expressão séria. — Eu me odiaria se eu desistisse quando eu passasse a encarar essa possibilidade como a única e mais provável. Mas nós estamos aqui agora... Desprotegidos, arriscando nossas vidas. Não quero que isso acabe com suas esperanças, assim como quase acabaram com as minhas. — tornou a olha-la incisivamente. — É uma possibilidade real, sim. Abamanu tomaria essa medida para nos atrasar quanto ao único resgate.

— Como assim "único resgate"? — indagou Rosie, esboçando inquietação.

— Se o que tememos realmente aconteceu... — disse Hector, lançando olhares perdidos para o chão. — ... então significa que Charlie é quem deve ser resgatado. Abamanu o levou primeiro, Charlie é um mago do tempo... Isso evidencia que aquele maldito quer tirar proveito das habilidades de Charlie para expandir seu império para mais mundos. Ele pode estar sob custódia na fábrica de mais alta segurança, talvez a mais secreta dentre as 20 restantes.

— E o que você sugere que façamos? — questionou Rosie, soando ríspida. — Que devemos abrir mão de salvar nossos amigos, priorizando Charlie sem saber onde ele exatamente está? Olha, eu agora quero mais do que tudo afastar esse pensamento da minha cabeça. Eu prefiro arriscar. — afirmou, o tom desafiador.

— Mesmo que no final a surpresa seja desagradável? — perguntou Hector, o ar pessimista.

— Ao menos iremos desmanchar mais fábricas. — retrucou ela, insistente. — E uma hora ou outra você vai ter que se revelar para os caçadores, afinal é com eles que deveríamos estar agora. — lembrara-se da surpreendente aliança entre o Exército e o Colégio dos Caçadores.

— Sabe, eu estive pensando em algo melhor: Você como líder de uma das operações, enquanto eu continuou anônimo. O que acha? — propôs Hector, olhando-a com certa expectativa.

Rosie balançara a cabeça, passando a língua entre os lábios.

— Nem pensar, mocinho. — negara ela, sorrindo de canto de boca. — Disse que me queria ao seu lado... e eu vou estar. Mesmo não esquecendo o que me fez passar há dois anos...

— Está bem, você venceu. — interrompeu Hector, encaminhando-se de volta a floresta. — A pior coisa que aconteceria nessa nossa nova parceria seria nós dois sermos vítimas das mágoas passadas. Melhor nós irmos logo, não podemos ficar aqui mais do que 20 minutos. — disse, enquanto descia um caminho íngreme.

Novamente seguindo-o, Rosie exibiu um certo sorriso de satisfação para si mesma.

— Por que o gás não está simplesmente se espalhando com a ajuda do ar? — indagou ela.

— A disseminação é limitada por um raio de apenas 30 quilômetros. — dissera Hector, apertando o passo. — Se você tiver reparado, percebe-se que as paredes dessa fábrica são revestidas por uma liga metálica ainda desconhecida. A comunidade científica adoraria assumir os riscos apenas para estudar esse metal... se o plano de Abamanu deixasse de ser secreto.

— Tenho uma ideia: Que tal irmos ao centro da cidade comprar mantimentos. — idealizou Rosie, pondo-se lado a lado a Hector, caminhando em ritmo apressado. — Dei uma olhada na dispensa depois do banho... Ou você deve ter comido tudo o que estava lá ou não deve ter comprado nada.

— Ótima ideia. — redarguiu Hector, indiferente à tentativa de Rosie em descontrair o clima. — Vamos precisar dos nutrientes mais essenciais se quisermos estar dispostos para quando a operação começar. — fez uma pausa, tirando um papel amassado, o mesmo que continha os desenhos com os três estados de infecção pela substância tóxica. Virou-o no verso, vislumbrando um número de telefone e uma data. — Devemos nos encontrar com os caçadores daqui a 5 dias. Eu mesmo agendei a operação, mas não esperava que eu tivesse que abandonar meu anonimato.

— Fique tranquilo. — aconselhou Rosie, o tom suave, denotando auto-confiança. — Em vez de pressionados, talvez eles se sintam... inspirados. — forçou mais o capuz, quase ocultando os olhos, parecendo encabulada.

Olhando-a de relance, o caçador notara seu acanhamento sem dificuldade. "Ela ainda se sente insegura estando comigo. Ah, seu eu pelo menos pudesse... Não. Preciso me segurar até o dia da missão. Por sorte, ela acordou do coma no exato dia em que eu viria busca-la. Coincidência? Talvez. Preciso manter essa boa relação enquanto não enfrentamos Abamanu diretamente... Mas ainda há um porém assustador...", pensou ele, tornando a fita-la novamente. As palavras da jovem na fatídica noite nas Ruínas Cinzas ainda giravam em sua mente. "Rosie é um troféu... disputado por duas entidades divinas. Agora que estou praticamente conseguindo me controlar e ter comprovado que posso matar facilmente os soldados de Abamanu... talvez agora, mais do que nunca, seja a hora ideal para mostrar meu valor como protetor. Onde está você Eleonor? Gostaria que me dissesse o verdadeiro motivo pelo qual escolheu me transformar no monstro que hoje sou. E, por falar em você... ainda não li sua carta... e, embora intrigado e chateado com aquela sua atitude, eu sinto sua falta. Que coisa estranha...". Correra os dedos por um dos bolsos externos do sobretudo, como se estivesse acariciando o que havia no interior.

Eleonor mandara-lhe uma carta há um ano, cujo conteúdo jamais fora verificado por Hector. O caçador, na época, ainda mantinha-se um tanto ressentido pelo ato perpetrado por ela para que o impedisse de segui-la. Encarou o envelope com o mesmo olhar aturdido daquela noite. Um sentimento de traição lhe corroeu as esperanças. Pensou se tal fato tivesse sido um castigo por ter proporcionado à Rosie a mesma sensação. Mas, no fim das contas, outro pensamento sempre se sobrepunha àquele. Um propósito escondido? Um preço a se pagar para que deixasse alguém ir embora de sua vida? Imaginava se ela ainda esmorecia por alguma culpa ou estivesse vivendo forçadamente nos países que mencionou, testemunhando o horror e pânico gerado pela guerra entre potências.

Rosie despertara Hector de suas divagações.

— Melhor ficarmos em alerta. — comentou ela, olhando para os lados, séria. — Você ter matado aqueles soldados pode ter atraído a atenção de outros, eles podem ter se espalhado. — voltou-se para ele. — Vou precisar me defender. Tem uma outra arma aí guardada?

O caçador pareceu relutante à ideia e a olhou com reprovação.

— Minha faca pode resolver boa parte do problema. Se formos atacados, só basta você se esconder...

— Fugir está longe de ser uma opção pra mim! — disparou ela, virando-se para ele com um olhar fuzilante. — Pode ao menos dar a minha adaga? — estendera a mão, pedindo.

Hector bufara pesadamente, tirando de um dos bolsos internos a arma mais requisitada pela parceira. Entregando-a, expressou um semblante preocupado e incomodado.

— Também imaginei que tivesse pegado minhas armas também. — disse ela, pegando-a e pondo-a no cinto. Andara mais depressa, mantendo-se cautelosa para fazer o menor barulho possível ao andar por aquele solo repleto de folhas e galhos caídos. — Vamos. E é melhor irmos de carro para o centro.

— Eu já havia pensado nisso. Não somos de ferro, afinal. — retrucou Hector, andando na mesma velocidade.

***

O sol poente do fim da tarde criava um aspecto agradavelmente inebriante ao ambiente momentaneamente calmo das ruas daquela cidade, que durante a noite seria palco de rondas de policiais para promover o toque de recolher. Nem parecia que o desespero causado pela guerra afetava aquelas pessoas calmamente andarilhando por direções diferentes. Crianças brincando com piões, bolas e correndo, idosos em uma praça alimentando os pombos, homens vestindo ternos voltando dos locais de seus ofícios, alguns conversando outros isolados, e donas de casa carregando cestas de compras atravessando as pistas enquanto os carros e bondes não passavam.

Rosie estava parada diante de um muro feito com tijolos vermelhos e retangulares, sua capa e capuz vermelhos chamando atenção das pessoas que passavam. A surpresa repentina por ter descobrido estar em Raizenbool — cidade não-afetada pela infestação do gás tóxico e tampouco pela guerra — foi varrida de seu âmago ao se deparar com aquela imagem... estampada no papel grudado naquela parede.

Seus punhos cerrados tremiam e uma ânsia intensa quase a fez engasgar com a própria saliva.

Esperava Hector voltar do mercado trazendo todas as coisas de que precisavam.

"Não posso acreditar... ", pensou ela, olhando com raiva para a folha de papel afixada com um prego. "Realmente aconteceu muita coisa nesses dois anos...".

Sentiu alguém vindo e desviou os olhos para sua direita... de onde vinha Hector carregando várias e pesadas cestas com mantimentos, sem se importar com o peso .

Semi-cerrando os olhos, Rosie o fitou por alguns segundos com uma expressão de desconfiança. Voltou a olhar para o pequeno cartaz na parede... que mostrava uma espécie de retrato falado do caçador com os traços desenhados com uma fidelidade estupenda às descrições.

Abaixo do rosto, havia um escrito que dizia: "Procurado. Assassino brutal. Se tiver informações reais sobre ele, ligue para este número..."

Quando o caçador estava em um momento de distração, parando para olhar uma loja de armas, Rosie aproveitara a deixa... e arrancara o papel da parede, dobrando-o duas vezes e, por fim, enfiando-o dentro da bota direita.

***

O ardor em suas costas era lancinante a cada minuto, devido ao calor infernal que fazia naquele deserto cinzento e com odor de mármore.

Em suas mãos formavam-se bolhas e feridas... de tanto jogar escombros pelos lados como um completo desesperado.

Hector freneticamente remexia naqueles blocos maciços e destruídos, em qualquer parte daquelas ruínas já no limite da decadência. Procurava por mãos, dedos, roupas... qualquer coisa que reavivasse sua esperança de encontrar seus amigos ainda vivos. Sentiu sangue nas unhas, o mármore maltratando seus já frágeis dedos. Olhou para as mãos, desalentado e sentindo-se derrotado.

Passou a ofegar cada vez mais baixo... até fechar os olhos e cerrar os punhos de vez, colocando-os diante do rosto. Duas lágrimas escorreram enquanto seu corpo tremia completamente. O nó em sua garganta torturava-o e mil pensamentos percorreram sua mente, dos mais nebulosos aos mais terríveis. "Não pode ser... O que aconteceu com eles? Rosie... Onde está você? Charlie... Onde estão todos?Eu... eu não posso ficar aqui sozinho, preciso de vocês."

Baixara as mãos no quente mármore, cabisbaixo, deixando seu pranto jorrar compulsivamente em soluços angustiantes. Pela primeira vez em muitos anos, Hector Crannon chorara de um forma tão dramática de modo a sentir como se um vazio imenso acometesse seu coração.

Seus sentidos novamente se alertaram quando uma áspera mão tocou-lhe o ombro de forma amigável. Sobressaltado, o caçador virou-se rapidamente, olhando suspicaz para o sujeito.

Pôs-se a ficar de pé, quase caindo para trás em meio à pilha de escombros. Deparou-se com um jovem de cabelo preto baixo, de estatura mediana e vestindo um uniforme militar do Exército.

— Quem é você? — perguntou ele, estudando a figura dos pés à cabeça.

— Por favor, acalme-se, eu só quero ajudar. — disse o homem, a fala rápida, os esbugalhados olhos quase saltando.

— A população próxima ao deserto não chega nem a 2%! — disse ele, ríspido. — É do Exército, certo?

— Sim e não. — respondeu ele, a voz trêmula, fitando Hector com certo medo.

— Como assim? — o caçador aproximou-se com ameaça. — Me diz logo quem é você e de onde veio!

— Você obviamente não é o único que está soterrado aqui, então eu...

— O que disse? Então... então o Exército resgatou meus amigos? Se sim, quem os chamou? — perguntava o caçador, segurando o homem fortemente pelos ombros, a aflição estampada em sua face.

— Olha, na verdade... — o rapaz pigarrou. — Eu sou um caçador. Fui convocado para uma operação sigilosa supervisionada pelo Exército a fim de barrar ameaças extraordinárias. — ele fez uma pausa, acanhando-se. — Desculpe ter chegado tão tarde, nós tínhamos visto uma equipe médica descer aqui...

— Espera, um fato de cada vez. — pediu Hector, erguendo o indicador. — Está me dizendo que... o Exército e o Colégio dos Caçadores... firmaram uma parceria? — indagou ele, incrédulo.

O jovem caçador assentira com rapidez. Hector, por fim, largara seus ombros, tornando a ficar pensativo quanto àquilo.

— Olha cara, você me parece muito desesperado. Acho melhor você vir comigo até a nossa base instalada a uns 30 quilômetros daqui. — disse ele, demonstrando preocupação. — Está muito ferido, precisa de cuidados médicos. Mas pra isso vai ter que confiar em mim.

Percebendo a completa falta de escolhas a fazer, o caçador assentira, cedendo ao pedido, despreocupado quanto a esperar o que viesse a lhe acontecer. Seguira o jovem soldado irrompendo pelos fortes ventos que traziam a areia aquecida pelo sol. Ambos protegiam-se com um velho cobertor marfim clocados sobre suas cabeças.

Ao chegarem, adentraram em um pequeno recinto com paredes de pedra lotado de pesados equipamentos tecnológicos fazendo ruídos de todos os tipos e homens andando para vários lados, trabalhando atentamente. Sentados em mesas de madeira pequenas, haviam caçadores vestindo as roupas características do grupo, escrevendo vários relatórios, outros estavam verificando alguns dos aparelhos.

— Bem, aqui estamos. — disse o jovem, apresentando a sala. — É nossa sala de controle e vigilância... por tempo limitado, é claro. — ele sorrira, dando uma risadinha para si mesmo.

Um corpulento caçador dirigia-se à Hector, já lhe estendendo a mão para cumprimenta-lo. Era meio ruivo — os cabelos bem penteados -, pouco sardento, alvo e com uma barba destacante. Seus olhos verdes foram de encontro aos de Hector.

— Muito prazer, me chamo Edgar. — apertara a mão do caçador. — Sou o chefe da operação primordial. Fico feliz que ainda esteja vivo.

Hector parecia perdido.

— Há quanto tempo estão aqui?

— Desde a noite em que uma facção de atiradores vestidos de vermelho lutou contra um grupo de sete pessoas, além de um monstro andando pelas Ruínas Cinzas... — respondeu Edgar, com um semblante enigmático.

— Espere aí. — interrompeu Hector, o olhando confuso. — Seu subordinado mencionou vigilância. Então quer dizer que... andaram observando nossos passos até chegarmos ás Ruínas Cinzas? Mas como?

— Conseguimos proximidade suficiente para coletarmos alguns dados... relevantes. — afirmou Edgar, semi-cerrando os olhos para Hector. — Através de binóculos e telescópios. Antes de mais nada, Hector, me perdoe.

— Pelo quê?

— Desde que aquele raio de luz desceu dos céus, nós ficamos intrigados sobre vocês terem sobrevivido ou mão. — relatou Edgar, com certo pesar na voz. — Ficamos sem saber como proceder e demoramos a mandar alguém ir lá verificar. Uma equipe médica desceu de aviões, mas com nossa suspeita achamos que não encontraram nada. Pelo que foi constatado, até agora, apenas você sobreviveu.

O caçador estremecera, passando a encarar Edgar com um olhar de ceticismo.

— O tempo irá provar que estão errados. — retrucou ele.

— Infelizmente, o tempo não está do nosso lado. — disse Edgar, encaminhando-se para uma mesa no centro da sala. — Veja isto. — apontou para um chamuscado aparelho quadrado e verde escuro, com uma espécie de "velocímetro" na parte central e duas antenas. — Este é nosso detector, criado especificamente para encontrar sinais de ameaças sobrenaturais. Ele queimou assim que o marcador ultrapassou a marca de 300. — ele fitou Hector por alguns segundos, parecendo ainda impressionado. — Uma atividade dessa magnitude jamais foi vista. Você sabe exatamente o que aconteceu. Tudo o que disser vai fortalecer a profundidade dos relatórios que estamos enviando para o general Holt e o Mestre Vannoy.

— O general Holt também está envolvido nisso!? — bradou Hector, franzindo o cenho. — Isso não faz o menor sentido. O Mestre um dia prometeu a si mesmo que jamais se aliaria ao Exército, nem mesmo em uma crise de alto grau.

— O que testemunhamos o fez repensar suas escolhas. A crise que estamos enfrentando é algo bem mais assustador do que a guerra que se aproxima. — redarguiu Edgar, suspirando. — E como você é a única das sete pessoas que achamos, resolvemos então recrutar você. O General Holt irá aceita-lo, pode ter certeza.

— Quantos dias se passaram desde aquela noite? — perguntou Hector, impaciente.

— 7 dias. — disparou Edgar, sucinto. — Você passou 7 dias desacordado. Só hoje que criamos coragem para se certificar de que ainda restou alguém. Novamente, Hector, me perdoe. — pôs uma mão no ombro do caçador, olhando-o tristonho.

— Ahn... Não é preciso se desculpar, Edgar. — disse Hector, sentindo-se pouco à vontade naquele ambiente relativamente movimentado. — Não parece que cometeu tantos erros quanto eu.

Uma pausa fez ambos se entreolharem incisivamente, como se quisessem estabelecer uma comunicação quase telepática. Através do toque amistoso, Hector sentira um lampejo de confiança invadir-lhe o âmago. "Não parece um cenário armado. Basta ver em seus olhos... é tudo real... por mais que eu não queira acreditar.".

Um dos caçadores viera até Edgar para informar-lhe algo a respeito da primeira operação a ser realizada nas primeiras cidades afetadas pelo nefasto plano de Abamanu.

— Sim. O que foi?

— O general Holt acabou de autorizar o início da operação em Croyton. — informou o caçador, quase aos sussurros. — Além disso, o Mestre Vannoy exigiu que Hector fosse-lhe seu informante em relação à crise.

Hector empertigou-se, alertado pela afirmação.

— O Mestre ainda não sabe do que está havendo?

— Não. — respondeu Edgar, virando-se para ele. O fitou com um olhar puramente sério. — Muito bem, Hector. Sei que está com várias dúvidas. A primeira delas é do porque eu sei o seu nome.

— É a última coisa que eu perguntaria. — rebateu o caçador, sorrindo levemente.

— Na verdade, eu verifiquei as fichas dos caçadores mais exemplares dos últimos anos... e eu vi sua foto. Entrou para a Legião sem nem ao menos chegar a ser um caçador de aluguel. — ele sorriu de modo misterioso. — É uma oportunidade para poucos e, devo dizer, invejável.

— Todos aqui são caçadores de aluguel? — perguntou Hector, com ar de urgência.

Edgar dera uma risadinha, já notando o desespero súbito do caçador-detetive.

— Está tudo bem, Hector. — garantiu ele. — Na realidade, eu e meus homens fomos contactados por termos sido desvinculados por motivos de força maior em nossos tempos de convocação para a Legião. Os verdadeiros caçadores de aluguel ficarão por sua conta. — disparou ele, sem aviso.

Hector arqueou uma sobrancelha, olhando-o como se não houvesse escutado direito.

— Você quer dizer que...

— Foi uma ideia minha. — interrompeu Edgar, acalmando-o. — O Mestre com certeza vai aceitar, já que você é o único da Legião que não está desaparecido. No entanto, terá de passar pelo general Holt, ele precisa lhe conceder permissão.

— Porque simplesmente não posso ir até o Mestre? Afinal de contas, foi ele quem pediu a ajuda do Exército, e além disso Holt não me treinou. Sou um caçador da Legião, etão nada mais justo do que eu ir ao homem que me transformou em um herói.

Edgar dera mais um suspiro pesado, fitando o chão com um olhar vazio.

— Não, você não pode fazer isso. Holt usou o argumento de que possui mais influência e que por isso tem todo o direito de receber o supervisor legalmente. — ele fez uma pausa, voltando a olhar para Hector. — Holt lhe autoriza, você se torna um incentivo para os caçadores que participam das operações e pode enviar informações para o Mestre sempre que for necessário.

Engolindo em seco a proposta desafiadora, Hector assentira, concordante.

— Supervisor, certo? É, acho que a esta altura tenho muito mais a ensinar, depois de inexplicavelmente ter escapado da morte.

Edgar gesticulou com a cabeça para segui-lo até uma mesa redonda em um canto distante da sala. Nela jazia um imenso mapa da Inglaterra, alguns estados circulados com pincel marcador.

— Veja. Nestes três estados, segundo as últimas informações que recebemos, foram construídas instalações misteriosas. Apenas duas delas estão funcionando: Liverpool e Sheffield. Houve relatos de pessoas agindo estranho por lá... — disse ele, apontando para o mapa, tornando a olhar para Hector seriamente. — E os caçadores enviados para as principais cidades desses estados associaram estes comportamentos a uma espécie de gás preto... que se eleva de uma chaminé da instalação.

Hector sentira seu sangue gelar. "E é assim que Abamanu pretende dar seu pontapé inicial para conseguir seu reinado absoluto.".

— Tudo isso em apenas 5 dias. — reclamou Edgar, inconformado. — Espero que me conte em detalhes no caminho tudo o que sabe a respeito de quem está por trás disso.

O caçador pareceu não entender.

— Espere. Como assim "no caminho"? Achei que eu ficaria aqui por mais alguns dias... pelo menos para me recuperar.

— Lamento, mas não há tempo pra isso. — disse Edgar, andando em direção a uma porta nos fundos da sala, ziguezagueando por entre as mesas. Hector foi seguindo-o. — Uma equipe de enfermeiros e médicos o espera no avião para tratar seus ferimentos. Eu vou junto e você me contará tudo o que sabe, tintim por tintim.

— Vocês possuem um avião próprio?

— Óbvio que não. — disse Edgar, olhando-o por cima do ombro e reprimindo um riso. — Oferecido pelo Exército e com um certo contragosto. Não é dos melhores, mas é aceitável. Holt pode ser bom em esconder seu preconceito, mas parece que nunca vai aprender a ocultar a avareza.

Hector o seguiu com mais empolgação. Já estava começando a gostar daquele caçador truculento e que ligeiramente o lembrava de seu melhor amigo. "Adam. Onde você está?"

— Tem uma cabine especial onde você pode ficar à vontade. — disse Edgar, abrindo a porta e deixando a forte luz da manhã esquentar sua pele. Avistara o avião estacionado a alguns metros à frente e apertara o passo. — Rápido. Partiremos em um hora.

***

O breu tomava conta de toda a ampla sala de estar. O chão amadeirado era, em pequena parte, banhado pela luz do luar formando uma perspectiva fantasmagórica, digna do que se pode julgar de "casa mal-assombrada", e as cortinas das janelas esvoaçando com a brisa levemente fria.

No relógio circular e folheado a ouro, localizado na parede que se estendia até a larga escada que levava ao segundo andar, à esquerda, marcavam 19:10.

Um tilintar de chaves e o ruído característico de um trinco abrindo-se, quebraram o silêncio predominante no recinto.

Rosie e Hector entraram, expirando um ar fadigado. O caçador colocara as cestas numa mesa próxima à entrada da cozinha. Virou-se para a jovem, respirando fundo, andando até ela.

— O que houve? Não disse uma só palavra no caminho todo. — disse ele, a expressão condescendente.

— Não é nada demais. — respondeu Rosie, balançando a cabeça, parecendo abatida. — Só estou um pouco cansada... E atordoada. — expeliu o ar dos pulmões, fechando os olhos, como se quisesse acordar daquele aparente pesadelo quando abrisse-os.

— Sei como se sente. — disse Hector, tentando consola-la, o tom tímido.

— Sabe é? — perguntou ela, soando incrédula. — Sabe como é se sentir dividida por duas forças opostas que você não pode vencer? — ela riu baixinho, balançando a cabeça negativamente, voltando os olhos para a janela. — Hector, não partilho do seu otimismo... Sinto que esse Yuga vai intervir nos nossos planos a qualquer momento... a partir daí, tudo pode estar acabado, dependendo do que o destino me reserva.

Pondo a mão no ombro de Rosie, Hector mostrou-se acolhedor.

— É, devo dizer que isso também me assusta... Mas não acho que os papéis vão se inverter.

— O que quer dizer?

— Insinuo que Abamanu está tentando lhe passar uma imagem de vítima nessa história. Ele culpa Yuga pela ruína do império, mas se recusa a enxergar seus próprios erros nesta guerra. Ele cometeu aqueles crimes por livre vontade, porque sabia das implicações — afirmou Hector, assentindo, a luz da lua batendo em parte de seu rosto. — E com isso, eu quero dizer que Yuga, se caso intervir, pode não ser exatamente aquilo que pensamos.

— Que bom eu não ser a única que temia que ambos fossem inimigos. — disse Rosie, arqueando uma sobrancelha.

— Só existe um inimigo neste guerra, deve-se ressaltar. — bradou uma voz grave e masculina, parecendo vir de algum canto escuro da casa.

Ambos estremeceram e tornaram a olhar freneticamente para os lados.

— Quem disse isso? — perguntou Rosie, exasperada, andando para trás.

Uma vaga e espectral silhueta humana próxima à escada — sendo iluminada fracamente pela mortiço luar da janela próxima ao topo — foi o máximo que Hector pôde divisar, apertando a visão. Manteve-se na frente de Rosie, caso algo viesse a ameaça-los. Ouvia-se o ressoar de uma ventania do lado de fora, prenunciando uma tempestade.

— Ainda é cedo para abandonar a esperança. É para isso que estou aqui. É para isso que fui enviado. — o homem misterioso fizera uma pausa de suspense. — Vou precisar que reconheçam minha importância, embora eu seja apenas um peão neste vasto jogo que, infelizmente, foi armado contra suas vidas. Inocentes e puras vidas humanas... sem direito a sofrer o mal que não entendem.

Um clarão de um relâmpago seguido de uma retumbante trovoada revelara a fisionomia esguia daquela figura misteriosa, por poucos segundos, evidenciando o que pareciam ser sombras das asas de um pássaro na parede atrás do homem.

Hector sacara seu rifle com uma extrema rapidez e apontara para o tal homem.

— Quem é você? — indagou, aos berros.

Um "click" fora ouvido. Era a luz alaranjada de um pequeno abajur que fora acendido por Rosie, iluminando uma determinada parte da sala.

O ser misterioso irrompera da escuridão a passos tranquilos. Atentos, a dupla observou com cuidado a pessoa que se aproximava. Hector, ao perceber a expressão desprovida de medo de Rosie, percebera que ela estaria sentindo uma certa afeição imediata por aquele homem, logo explicando que não o via como inimigo. Abaixara a arma, fitando-o com uma observância meticulosa.

O homem parara, olhando para os dois com um semblante sério e decidido. Vestia um smoking preto e era afro-descendente. Sua careca bem lustrada brilhava levemente. Por um breve instante, Hector pensou ter visto a figura de Josh diante dele, ou uma espécie de reencarnação. Mas com certeza não acreditava naquela ideia. O homem parecia era mais velho, aparentando ter uns 35 anos ou um pouco mais, e exibia uma face dura, embora bastante jovial.

— A intenção de minha vinda passa longe de conflitos. — disse ele, andando para um lado, sem tirar os olhos da dupla. — Além do mais, vim para ser breve, como um bom arauto deve ser.

— Arauto? — indagou Hector, intrigado. Um lampejo o fez arregalar os olhos. — Não me diga que...

— Você viu minha sombra. — afirmou o homem, a voz firme. — Eu sei quem você é e sei que sabe reconhecer coisas como eu. Não devia ficar tão surpreso. — fez uma pausa, desviando os olhos para Rosie. — Vim em nome de vossa majestade, Yuga. Ele quer garantir sua sobrevivência, Rosie Campbell.

A jovem andou alguns passos à frente, hesitante.

— Vai precisar mais do que garantias pra me fazer confiar em você... principalmente em Yuga!

— Não tem obrigatoriedade alguma de confiar em mim, sugiro que siga o que seus instintos lhe dizem. Apenas vou repassar o que me foi ordenado, esse é meu trabalho.

— Então diga o que Yuga deseja? — questionou Hector, inflexível. — Tem algo a ver com o poder oculto que Rosie esconde?

— Hector... — disse Rosie baixinho, tentando conte-lo.

— Não, tudo bem. — disse o homem, sem se importar. — Ele está certo, embora mal esteja se aguentando de curiosidade. Os humanos conseguem suportar suas dúvidas, mas não os temores causados por uma guerra que está ocorrendo em seu mundo. Tempos de desespero, é claro.

— Vá direto ao ponto. — exigiu Rosie, aproximando-se dele. — O que Yuga quer comigo?

— Ele tem uma oferta a fazer. — disse ele, referenciando seu mestre com orgulho. — Não diria tentadora, mas sim corajosa. A recusa, na minha opinião, seria inesperada, mas problemática. — fez uma pausa, olhando-a mais incisivamente. — O inimigo de majestade está avançando assustadoramente rápido. Nossas frentes de combate ainda estão esperando uma ordem definitiva. E como única opção encontrada para barrar os avanços do inimigo, Rosie Campbell, é usando-a... como receptáculo provisoriamente, como forma de aniquilar as forças daquela mente doentia que arrasou com sua espécie.

Aquilo pegara Rosie desprevenida, fazendo-a sentir como se um raio houvesse atingindo-a. Hector encarara, boquiaberto e em pensamentos negativos, a realidade que se avizinhava... se caso sua parceira aceitasse aquela proposta desesperada.

— No meu caso — prosseguiu ele — esta foi a casca mais próxima que encontrei. Um mordomo mal-pago que teve sua família inteira assassinada por pessoas intolerantes em uma cronologia angustiante. — fez uma pausa, estudando o corpo de Rosie. — Não há outro modo. Você é o receptáculo perfeito, além de possuir a energia bruta que majestade depositou em você. Ele a preparou para esta decisão... e o momento é agora, Rosie Campbell. — inclinou-se levemente, fitando-a com expectativa. — Dê-me sua resposta.

A jovem tremia em nervosismo.

— Esta é minha única chance?

Ele assentira devagar em negação, mantendo a expressão séria.

— A generosidade é uma característica muito nobre, a qual nosso inimigo não se dispõe a ter. Majestade lhe deu a liberdade para decidir o momento adequado para sua resposta. Pode ser amanhã, depois ou daqui a meses... Ou pode ser agora.

— Não. — disparara Rosie, sem aviso. — A resposta é não. — seu tom era decidido e severo. — Diga para Yuga avaliar melhor essa proposta, porque não vou deixar que usem meu corpo como um mero artifício para vencer essa guerra.

O homem suspirou, parecendo vencido pela negação da jovem.

— É, eu devia imaginar. — disse ele, encaminhando-se para a porta dos fundos. — Você tem tempo de sobra para decidir se quer ou não ser parte disso. Aliás, não há como você deixar de fazer parte.

— Aonde você vai? — perguntou Hector.

— Eu me despeço, por ora. — disse o homem, em seguida, tirando algo do bolso do smoking. — Tomem. — jogara para ambos dois pequenos amuletos redondos dourados, com pontas no contorno que lembravam raios de sol. — Usem-os quando quiserem se comunicar comigo. Me chamo Áker.

Desafiando as percepções, o arauto fora embora, sumindo em um piscar de olhos.

Rosie e Hector entreolharam-se, estupefatos com o que presenciaram. A jovem se viu tocando o símbolo dourado na palma de sua mão com uma expressão de medo e incerteza pulsando.

Sentiu, de forma mais completa naquele dia, que o pesadelo se materializara por completo... rememorando a sinistra visão que tivera antes de acordar.

"Eu caí sem sequer tocar o sol... Agora tenho a chance a alcança-lo?".

CONTINUA...