Capuz Vermelho - 3ª Temporada
1 O que você fez no verão passado? (Parte 1)
Notas iniciais
Boa leitura!
"Minha avó certa vez me disse que na hora da morte nós refletimos sobre a vida e enquanto vivos nós refletimos sobre a morte. Não importava porque ela falava aquilo com tanta convicção ou perguntar se ela já experimentou o gosto indefinível da partida definitiva. O problema é que... quando sinto que estou perto da morte — ao invés do que ela disse sobre uma luz ir se apagando aos poucos — eu sinto que uma luz irradia de meu corpo e se materializa diante de mim, como algo vivo e que está prestes a me consumir. E, agora, eu me pergunto: Como lidar com uma força que reside em seu interior — incontrolável, excitante e intensa — que parece pouco à pouco sugar toda a sua essência e convertê-la em algo que você sabe que será incapaz de consertar?" — trecho do Diário de Rosie Campbell; Página 92.
***
O espaço parecia ser um imenso vácuo infinito. Aquele jovem corpo feminino pairando no que se sentia ser o universo em sua forma mais crua.
Rosie estava posicionada com os braços estendidos para os lados e as pernas unidas... como uma cruz humana. Seus olhos foram se abrindo lentamente, as pálpebras pesadas... como se algo estivesse impedindo-as de fazer com que a visão se deparasse com o que as deixava daquela forma.
Estranhamente, não sentiu dor ao vislumbrar, com os olhos azuis totalmente abertos, aquela colossal e poderosa centelha de luz que se fazia presente como um ser majestoso e imponente. Uma luz alaranjada e vigorosa.
A boca foi sendo aberta junto com o arregalar dos olhos... criando-se uma genuína reação de espanto absoluto. "Mas... o que é isso?!", se perguntou ela em pensamentos.
"Isso... é o outro lado?", pensou ela, encarando o elemento magnífico que produzia aquela forte luminosidade. "Estou caindo... caindo rumo à morte!"
À medida que ia declinando naquele espaço vazio, a imensa bola de fogo ia se distanciando. Ergueu um dos braços e o estendeu para frente, em uma ingênua e vã tentativa de querer "agarrar" aquele astro luminoso e pulsante como a força arrasadora de um vulcão.
De repente, vira algo passar. Como um vulto sombrio ocultando a densa esfera luz.
Mas este ficara permanente. Em frações de segundo, a bola flamejante fora tomada por uma camada de breu completo... deixando apenas alguns filetes de luz ao redor... tal ocmo um eclipse solar. Sentiu seu corpo cair vagarosamente... depois um pouco mais rápido.
E, rapidamente, a queda foi mais brusca... a estrela obscurecida se tornando longínqua a toda a velocidade... até não se ver mais.
Em seguida, escuridão completa.
Rosie despertara subitamente com um arquejo seguido de um rápido sobressalto, fazendo-a ficar sentada... no que parecia ser uma cama dura e nada confortável como a que pertencia ao seu quarto.
Ofegava enquanto os sentidos voltavam à tona. Primeiro sua visão foi clareando, seus olhos aflitos começaram a percorrer o lugar à sua volta. Sentia um sabor amargo em sua boca. Ouvia os ruídos intermitentes de equipamentos hospitalares à sua esquerda. Tateava o colchão de péssima qualidade no qual estava sentada e o cobertor de tecido branco e fino. Um suor gélido descia pela sua testa até as bochechas. Seus belos, lisos e ondulados cabelos pretos estavam molhados e oleosos.
"Foi apenas... um pesadelo!?".
Tocou várias vezes o seu corpo como que querendo se certificar de que realmente havia acordado. "Estou em um quarto de hospital!? Como vim parar aqui?".
O lugar era frio e exalava um odor nada reconhecível, mas que de fato era incômodo. Uma janela à direita de Rosie deixava atravessar fachos de luz solar que denotavam ser das primeiras horas da manhã. Rosie virou o rosto assim que refletiu sobre o estranho sonho casando com a imagem dos fachos na janela. "Aquela luz... sinto que... que deveria alcança-la.".
O barulho de um girar da maçaneta da porta a fez desvencilhar-se de seus devaneios, fazendo-a erguer os olhos diretamente para frente. Uma gentil figura entrava com ar calmo... pelo menos até ver o que a esperava à diante. Era uma jovem enfermeira — com o famoso chapéu com a cruz vermelha -, cujo penteado esbanjava certa elegância para seus cabelos castanhos e seu batom vermelho e o rosto fino embranquecido. Levara um susto assim que viu Rosie acordada, pondo a mão no coração. Logo sua expressão surpresa foi se alterando para uma de alívio com um leve sorriso e um olhar suave.
— Oh! Deus seja louvado! Finalmente acordou! — comemorou ela, se aproximando da cama com entusiasmo e um sorriso mais aberto.
Rosie, por outro lado, a fitou com estranheza.
— Não estou entendendo. Como vim parar aqui?
A enfermeira deu um suspiro de seriedade enquanto se postava ao lado da cama. Pegou uma cadeira e sentou-se.
— Há muitas coisas de que realmente precisa saber. — destacou ela, o tom tranquilo.
— Ótimo. — disse Rosie, assentindo com relutância. — Que tal começar pelo mistério de eu ter sido levada pra cá?
— Você esteve em coma por um bom tempo. — disparou ela, sucinta. — Diria que... uns dois anos.
Rosie franziu o cenho, demonstrando desorientação. Virou o rosto para a parede próxima à janela e viu um calendário. Cobriu a boca, estupefata.
"Março... de 1941!?".
Voltou-se para a enfermeira com urgência, o olhar desesperado.
— Aposto que quer saber o motivo de eu ter acordado assim tão de repente, certo?
A profissional apenas assentiu, o semblante igualmente sério.
Rosie se empertigou um pouco para encontrar um modo menos cansativo de discorrer o que vira.
— Eu... eu tive um sonho. — começou ela. — Na realidade, foi um pesadelo. Não sei direito, só sei que me pareceu tão real... que quando acordei eu não tinha certeza se estava ainda sonhando ou se tivesse despertado. Eu estava vestindo as mesmas roupas que usei nas Ruínas Cinzas e me sentia como se estivesse no vazio total. Além disso, eu estava caindo devagar... e quando abri os olhos vi uma enorme bola de fogo na minha frente, foi assustador. — ela fez uma pausa, engolindo a saliva e deixando uma lágrima brotar. — Depois eu caí mais rápido... mais rápido... até que aquele sol praticamente se apagou, como se uma sombra tivesse engolido ele.
— Um eclipse? — arriscou a enfermeira, entretida com o relato.
Rosie assentira, confirmando.
— Sim, exatamente. Após isso não vi mais nada, foi como se eu estivesse caindo em um abismo sem fim. E aí acordei. — finalizou ela.
— Bem, Rosie...
— Espera! — interrompeu ela, o tom de desconfiança. — Sei do que me lembro antes de ter vindo para cá: Eu estava nas Ruínas Cinzas correndo contra o tempo junto com meus amigos para deter uma ameaça para o mundo e acabei sofrendo um acidente quando fui levantada do ar por um deus lunar com poderes inimagináveis e fui jogada ao chão junto com vários escombros de mármore, ficando soterrada e desmaiada. Sei que parece loucura, mas é verdade, eu juro. — ela fez uma pausa, olhando incisivamente para a enfermeira. — Se entrei em coma imediatamente após a queda... então como você sabe meu nome?
A mulher adquiriu uma postura de insegurança nítida, — piscadelas rápidas, olhares de relance para os lados e face meio pálida — mas fez seu jogo para recompor a calma com a qual entrou na sala.
— Bem, enquanto nossa equipe conduzia você até ao avião... você, de repente, acabou despertando de modo súbito e...
— Eu acordei? — perguntou Rosie, alarmada.
— Sim. — respondeu a mulher, notando com apreensão a curiosidade da jovem. — E por conta disso nós acabamos sabendo de seu nome. Você não parava de repetir aos gritos: "Pra onde você levou Charlie, seu maldito? Vou destruir você ou não me chamo Rosie Campbell.", além de que se debatia como se estivesse convulsionando, o que de imediato nos preocupou. Então aplicamos um sedativo em você... e daí em diante você não acordou mais, o coma havia alcançado seu estado definitivo.
Rosie ficara alguns minutos pensando a respeito daquela situação ligeiramente desconfortante. Tentou vasculhar nos confins de sua mente algum resquício daquele evento, mas não obteve nada. Dera um voto de esperança a si mesma para que alguma hora pudesse se lembrar aos poucos, como as peças de um quebra-cabeça se montando. Tornou a olhar para a enfermeira, sem diminuir o tom intrigado.
— Mas como eu fui encontrada? Aquele lugar é um completo deserto! — sua voz adquirira certa rispidez.
— Está enganada. — disse a mulher, com um sorriso enigmático. — Existe um vilarejo naquelas proximidades e um dos habitantes havia cruzado a fronteira daqueles morros com a parte mais ampla do deserto. Ele nos contactou e, a julgar pela urgência do pedido de socorro, providenciamos aviões com equipamentos médicos de propriedade deste hospital.
— E se estive mesmo em coma... de que forma fui alimentada? Me sinto tão... bem. — indagou Rosie, semi-cerrando os olhos.
— Você, obviamente, me parece bem nutrida, o que é animador. — disse a mulher, analisando o estado físico da jovem minuciosamente. — E isto graças a um soro fisiológico ideal para tratar a desnutrição inserido por tubos intravenosos que foram retirados ontem.
"Achei que fosse com doses cavalares de sedativos.", pensou Rosie, ainda puramente desconfiada. "O que está havendo aqui, afinal? Alguma coisa com certeza está muito errada.".
Ela pusera suas pernas para fora da cama, demonstrando querer se levantar.
— Muito bem, eu agradeço pelo apoio durante estes dois anos que passei como um urso hibernando. — disse ela, calçando as pantufas brancas colocadas no chão. — Mas agora eu preciso pedir, encarecidamente, que me leve até a saída. Isto é, claro, depois de pegarmos minhas roupas.
— Como quiser. — disse a enfermeira se levantando da cadeira e dirigindo-se à porta. — Mas antes preciso que veja alguém que quer muito conhece-la. — afirmou ela, lançando um sorriso aberto para Rosie ao abrir a porta para a mesma.
— Ah é? — indagou a jovem, saindo primeiro, com um sorriso leve e sobrancelhas franzidas.
As duas caminharam pelo extenso corredor com paredes metade branca e metade marrom com pequenos retângulos. Rosie sentia o peso do silêncio mórbido do local enquanto esquadrinhava com os olhos o corredor iluminado por lâmpadas fluorescentes com insetos de grande porte voando em torno delas e seus zumbidos quase inaudíveis. Reparou na sujeira nas paredes à medida que avançavam. Parecia que haviam dado pinceladas de tinta preta de modo baderneiro. "Que péssimo gosto para decoração.", pensou ela reparando com desconforto aqueles detalhes.
— Quem essa pessoa, afinal? — perguntou ela, caminhando por trás da enfermeira.
— É um dos nossos médicos mais célebres. — afirmou ela, com orgulho. — Dr. Henry McGrant.
Calada, Rosie pareceu pouco interessada... mas não menos desconfiada. "Por que eu deveria conhecer um médico específico daqui? Será que... ele acompanhou meu caso durante os dois anos?".
— Por que faz tanto frio aqui? — perguntou ela, aquecendo seus braços.
— Os dutos de ventilação parecem estar com problemas. Mas ultimamente não tem estado tão quente lá fora. — disse ela. — Então, dizendo isto significa que o calor do seu sonho foi, em parte, agradável, certo? — olhou para a paciente por cima do ombro, em uma clara intenção de descontrair o clima.
Rosie dera uma risada de um jeito tão forçado quanto o que achara da suposta piada. "Depois de tudo o que contei, ela ainda chama aquele pesadelo de agradável!? Isso aqui só pode ser outro sonho!".
Avançaram mais alguns metros chegando, por fim, à metade do corredor. Os sons dos passos da enfermeira Liv eram ecoantes devido aos saltos de seus sapatos. Rosie fez suas atenções ganharem alerta extra.
Passaram por uma placa próxima ao teto.
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PSIQUIATRIA
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Assim que vira a tal palavra, Rosie, estranhamente, sentiu um arrepio instantâneo percorrer todo o seu corpo continuamente. A flor do desespero desabrochara novamente.
— Psiquiatria!? Eu achei que estivesse me levando para conhecer um médico! — disse ela, ficando lado à lado com Liv.
— É exatamente o que estou fazendo. — disse ela, fazendo pouco caso da aflição da jovem. — Ele é um exímio psiquiatra deste hospital. Vai saber como ajuda-la.
— O quê!? Mas estou completamente sã! — jurou ela, a fala rápida. — Você mentiu pra mim descaradamente! Queria me surpreender? Ótimo, você conseguiu!
— O Dr. Henry apenas vai fazer um exame para ver se há alguma possibilidade de um distúrbio psíquico ser desencadeado. — garantiu ela, com toda a tranquilidade.
— Eu não acredito nisso! — retrucou Rosie, a vontade de sair correndo pelo lado oposto pulsando dentro de si. — Como paciente, eu tenho direito de recusar. Exijo sair daqui agora mesmo!
— Para sua informação, menina, você não exige nada aqui. — afirmou Liv, assumindo um tom decididamente severo. — É necessário que o Dr. Henry avalie se você possui as condições mentais ideias para que eu possa lhe dar alta.
A informação fizera a jovem estremecer de ansiedade. Os passos de Liv tornaram-se mais apressados.
— Isso não pode estar acontecendo! — reclamou Rosie, enraivecida, também adquirindo a mesma velocidade dos passos da mulher. — Só pode ser um engano! Olha, eu posso ter delirado naquela hora, mas não significa que eu esteja insana! O fato de eu estar aqui, falando com você normalmente, já prova que isso é desnecessário!
Contudo, Liv permaneceu irredutível perante aquele argumento, sem nem se dar ao trabalho de mover a cabeça para vislumbrar a expressão de pura apreensão da jovem. Uma pausa pesarosa quase fizera Rosie perder as estribeiras e, talvez, iniciar uma choradeira sem fim em uma súplica dramática. "Isso aqui é mesmo um hospital? Será possível que Abamanu tenha a ver com isso?"
— Já estamos chegando. — disse Liv, pegando-a pelo braço com uma força bruta surpreendente.
A porta do consultório do Dr. Henry McGrant estava a poucos metros dali, no fim do extenso corredor sujo. Rosie se debateu, tentando se desprender daquela mão esmagadora que apertava seu braço com violência. Seus pés logo começaram a praticamente deslizar no chão como parte de uma tentativa desesperada de se libertar e sair correndo dali sem olhar para trás.
— Me larga! — bradou ela, relanceando com os apavorados olhos a porta no fim do corredor. — Socorro! Socorro! Socorro! — gritava ela em um tom estridente como se quisesse que os deuses ouvissem seu pedido de ajuda.
Liv a puxou mais forte ao mesmo tempo em que acelerava as passadas largas. Definitivamente, aquela mulher possuía uma força digna de um levantador de toneladas de peso ou boxeador profissional para um corpo tão moderadamente magro/esbelto de uns 52 quilos.
Por fim, haviam chegado diante à porta. Liv abrira-a com um rápido empurrão e largando Rosie com certa violência dentro da sala. A jovem quase tropeçara ao ser soltada como um animal sendo mal-tratado. A porta se fechou com um baque seco ecoando no silêncio do recinto.
McGrant estava diante de sua mais nova paciente, encostado em uma cama com um colchão fino. Era um homem de meia-idade, vestindo o característico jaleco branco e uma camisa azul listrada por baixo. Tinha cabelos grisalhos, uma barba por fazer e possuía uma certa calvície, além de algumas poucas rugas pela face. Rosie encarou por vários segundos o rosto quadrado e robusto do psiquiatra, cuja autoridade que emanava soava quase impenetrável. Os olhos frios do médico eram de um cinza intimidador.
Recuando alguns passos, Rosie olhou de esguelha para uma pequena mesa de objetos cortantes logo a sua esquerda, focando sua atenção em uma espécie de perfurador metálico.
Henry assumiu uma postura falsamente condescendente e lançou um sorriso generoso para Rosie.
— Sei que inúmeras perguntas estão martelando sua mente nesse exato momento. — sua voz era grave. — Está tudo bem, Rosie. Farei com que isso pare.
— Me diga o que está havendo! — pediu Rosie, a voz trêmula, aos poucos se aproximando da mesa.
— Fico deveras feliz que tenha acordado. — disse ele, aproximando-se dela com calma. — E não poderia ser em uma hora mais apropriada.
— O que quer dizer?
— Que você renasceu... para abraçar seu destino. — ele parou, por fim, logo virando para uma mesa pequena com uma caixa branca de primeiros socorros. — Você me parece mais esperta do que imaginava, e, devo confessar, isto é maravilhoso e excitante. — seu tom era soturno de um jeito único.
Aproveitando a deixa, Rosie rapidamente pegara o mini-perfurador de metal com a mão esquerda e o escondera atrás de si segurando-o firmemente, enquanto Henry abria a caixa e preparava algo suspeito.
— O que pretende fazer comigo? — perguntou ela, encarando-o.
Mcgrant não respondera. Tirou de dentro da caixa uma seringa com agulha e um pequeno tubo de vidro com um diminuto botão em uma extremidade e na outra um ínfimo "bico" por onde passaria o que estava dentro e chegaria à seringa. O cilindro vitrificado continha um estranho conteúdo: Um líquido negro e espesso. O pôs abaixo da seringa. Apertando o botão, a amostra subiu à seringa até enche-la por completo.
— Não se preocupe, Rosie. Vai terminar antes que perceba. — garantiu ele, admirando a seringa por alguns instantes... e deixando seus olhos ganharem uma tonalidade de preto vivo com uma única piscada. Sorriu satisfatoriamente, logo virando-se para Rosie.
O total negrume assustador de seus olhos sumiu velozmente e ele voltara a sua atuação — que àquela altura já não parecia tão convincente quanto o planejado.
Rosie engoliu em seco ao ver a seringa com a agulha ameaçadora. A mão que segurava o perfurador tremia, mas ela se mostrava resistente na medida do possível, mantendo os olhos desconfiados fixos no psiquiatra.
— Está pronta? — perguntou ele com um sorriso presunçoso, balançando a seringa de leve.
— Eu exijo saber onde estão meus amigos. Aqui neste hospital?
— Garanto a você que se encontram em total segurança. — disse ele chegando mais perto, a agulha da seringa reluzindo à luz solar que atravessava a janela à direita de Rosie. — Mas não aqui.
— O que é essa coisa? — indagou Rosie, fazendo uma careta ao olhar para o líquido preto com desconforto. — Acha mesmo que vou deixar você injetar isso em mim?
Os passos de McGrant ficaram mais sorrateiros.
— Você não tem escolha. — salientou ele com um sorriso de canto de boca.
— Não preciso de escolhas... e sim de respostas! — esbravejou ela, impaciente. Assim que ele estivesse a poucos metros, jurou a si mesma que usaria o perfurador com toda a força e coragem. "Vamos lá, Rosie. Arranque informações.... antes que ele enfie essa agulha no seu braço!".
— As respostas — dizia Henry — encontrará assim que for aprimorada.
— Aprimorada!? Com isso aí!? — Rosie suava constantemente. — Eu quero saber: Quem está por trás disso? Quem é a mente maligna por trás dessa loucura?
McGrant parara abruptamente, sem desviar os olhos dela, a seringa ainda erguida em sua mão esquerda. Fechou a cara em austeridade. Já não se encontrava mais tempo para enrolar mais do que o necessário. O planejado havia sido claro: Conduzir Rosie, mantendo-a convencida de que realmente estava sendo protegida, até o consultório do Dr. Henry McGrant para que, enfim, o mesmo pudesse revelar-lhe a verdade e encurrala-la em uma armadilha, sem espaço para rodeios ou enrolações.
Repentinamente, os olhos do médico foram completamente tomados por um preto vivo e aterrador.
— Todos saúdam à Abamanu. — dissera ele com firmeza na voz.
Ao ver a escuridão tomar conta daqueles olhos, Rosie sentiu-se acometida por um embrulho profundo no estômago seguido de uma exaustão aguda.
— Ah cacete. — sussurrou ela para si mesma.
Sem esperar nem mais um segundo, a jovem exibira o mini-perfurador e, com um movimento veloz, o cravara diretamente no olho direito de Henry. O médico lançou um urro de dor animalesco inclinando a cabeça para trás e se afastando de Rosie.
A jovem chutou-o no tórax, fazendo com que caísse alguns metros próximo à sua mesa de trabalho, derrubando alguns objetos e papéis. Tomou-lhe a seringa e retirou a agulha com cautela, largando-a no chão. Guardou a amostra no bolso da camisola branca que vestia e se dirigiu à porta. Agarrando a maçaneta e sacudindo-a, logo viu que estava trancada. "Merda!". Henry veio por cima dela com brutalidade. Antes que pudesse ser golpeada, Rosie se abaixara e correu para o outro lado. McGrant estava armado com uma barra de ferro pontiaguda que havia quebrado uma pequena parte da parede.
Correu até onde Rosie estava, o olho direito gorgolejando o mesmo líquido negro e espesso que ele inserira na seringa. A jovem chutou uma cadeira fazendo-o tropeçar fortemente em seguida.
Sabendo que ele não demoraria a se levantar, ela idealizara uma ação que necessitava imprescindivelmente de rapidez e precisão. Pegara a barra de ferro enquanto Henry partia ao meio a cadeira de madeira fortificada com uma força extrema. A jovem correu em direção à janela, tomando certa distância ao quebrar todo o vidro da mesma com o ferro.
McGrant tentou uma nova investida, estendendo os braços para agarra-la, mas lhe era tarde.
Antes que pulasse a janela, Rosie golpeara Henry no rosto com a barra de ferro em um ataque violento, o sangue negro espirrando no ar. Largando a arma improvisada, tomou cuidado com os estilhaços de vidro e conseguira pular com segurança. Se levantando, Henry rangeu os dentes e soltou grunhidos de raiva ao correr ate à janela, sua boca sangrando o líquido preto aos jorros. Enxergou Rosie ziguezaguear desesperadamente pelos jardins, seus cabelos pretos cintilando com a luz do sol da manhã. Sem perder tempo, sacou um revólver de seu jaleco e disparou com gosto, mirando o máximo que podia com apenas um olho à disposição. Os sete tiros acertaram diversas plantas e roseiras espalhadas pelo espaço. Pulara a janela em um movimento rápido e bem executado. Sua corrida no encalço de Rosie foi desenfreada a ponto de não sentir nenhum indício de cansaço.
***
Enquanto a perseguição frenética ocorria, um vulto acompanhava os movimentos de Rosie atentamente percorrendo as plantas mais altas e densas dos jardins. Irrompia por entre as samambaias e grandes arbustos, esperando alcança-la o mais rápido possível.
Entreviu outra figura a uma certa distância por entre as folhagens, vestindo um jaleco branco e segurando o que parecia ser um revólver preto de grosso calibre.
Passou a correr de modo que possibilitasse sua chegada até Rosie antes do furioso perseguidor.
***
Sabiamente escolhendo as médias árvores plantadas poucos centímetros uma perto da outra, cujas folhagens eram de um vivo verde que transmitia certa tranquilidade. Esgueirando-se por entre os troncos, Rosie enfurnava-se em um espaço praticamente fechado, logo temendo encontrar um suposto beco sem saída. Achou uma parte íngreme do solo gramado e foi descendo com cautela, até, por fim, se esconder em uma das árvores, encostada no tronco, ofegando suada. "Será que o despistei?", se perguntou ela, olhando com precaução para trás da árvore, visualizando o caminho por onde passou.
Minutos antes de cessar a corrida, teve a impressão de ter ouvido um grito abafado e rápido a uma certa distância. Tentou afastar o pensamento de que ele estaria à espreita, sorrateiramente se aproximando para pega-la desprevenida.
No entanto, seus nervos não tornaram-se tão calmos quanto ela desejava. Esbugalhou os olhos assim que sentiu um fria mão tocar-lhe o ombro. Seu sangue gelou e ela petrificou, hesitante em querer olhar para à sua direita. "Eu fui pega!".
— Rosie... — sussurrou uma voz ofegante... e extremamente conhecida por ela. — Está... está tudo bem. Sou eu.
"Mas... essa voz...", pensou ela, enquanto ia virando o rosto lentamente. "Só pode ser brincadeira!".
O inconfundível tom firme lhe causou um estranha sensação. Não sabia dizer se era alívio ou angústia. Mas sabia que, inegavelmente, estava salva.
Lágrimas surgiam nos olhos aflitos da jovem ao ser ver diante daquela figura alta e que transparecia uma bravura sem igual. O sobretudo de couro marrom estava praticamente em frangalhos: sujo, rasgado em algumas partes e velho. Empunhava um facão com dentes e lâmina curvada na qual pingava a gosma preta e espessa.
Hector a fitava radiante, como se houvesse encontrado um tesouro milenar. Forçou um sorriso e quis abraça-la por vários minutos. Por outro lado, uma tristeza maçante assaltou Rosie quando ela o analisava da cabeça aos pés, atônita pelo seu estado deprimente apesar da coragem e instinto de proteção exalantes do caçador. Trazida junto à angústia, uma dor de cabeça latejante fizera Rosie produzir gemidos quase inaudíveis. Foi como se uma sobrecarga ocorresse de modo desenfreado, um turbilhão de dúvidas se criando em sua cabeça tal como nuvens de tempestade se unificando, prontas para trovejar e relampejar incessantemente.
Não conseguiu tirar os olhos dele por vários segundos. "O que ele faz aqui?". Desviou o olhar para a arma branca que o caçador portava, o líquido fervente como piche sem parar de gotejar da ponta.
— Eu não entendo... — dizia ela, a voz embargada de emoção. — Você... assim como eu e os outros... fomos todos jogados ao chão como se fôssemos parte de uma pilha de lixo e ficamos soterrados e desacordados. — ela respirou fundo, continuando a fita-lo. — Qual foi o seu método de sobrevivência, Hector?
O caçador suspirara, como se não soubesse bem como responder. De repente, se viu virando o rosto para à sua esquerda antes que pudesse falar. Seu semblante tornou-se seriamente austero, denotando urgência. Limpou rapidamente a lâmina da faca com a barra do sobretudo e a guardou em um dos bolsos internos. Virando-se para Rosie, o caçador exibia uma expressão decidida.
— Não há tempo para perguntas. — disse ele, olhando enviesadamente para o lado. — Estão vindo...
De súbito, iniciou uma caminhada a passos largos e rápidos pela floresta, confiante de que Rosie fosse acompanha-lo sem questionar.
— Espera! Como você sabe? — perguntou ela, começando a segui-lo e tentando adquirir o mesmo ritmo.
— Eu posso sentir. — disse ele, fazendo mistério. — Além disso, consegui aniquilar um deles. Se ficarmos parados, mesmo que por poucos minutos, corremos o risco de sermos encontrados. É bom que não fale alto demais também. — orientou ele, quase que começando a correr.
— O acidente fez você ganhar audição sobre-humana? — indagou ela, soando irônica.
"Na verdade, isto foi em outro acidente. Arquitetado por ninguém menos que sua avó!", pensou ele, rememorando a figura de Eleonor como um flash de luz em sua mente.
— Melhor deixar as perguntas para quando chegarmos lá. — disse ele. — E não pergunte "Lá aonde?". Confie em mim. Venha, corra. — finalmente correra por definitivo.
Cedendo ao pedido e evidentemente sem escolhas, Rosie tornou a correr atrás daquele que prometeu protege-la como se houvesse feito uma promessa ao desafortunado Richard Campbell. Tentava afastar os pensamentos no Dr. Henry McGrant com os olhos inteiramente negros em posse do recipiente com o líquido misterioso. "Todos saúdam à Abamanu.", dissera-lhe ele. "Então é esse o modo de escravidão que Abamanu encontrou para submeter a humanidade ao seu domínio completo?", pensou ela, deixando a questão pairar no ar durante todo o percurso.
Irromperam por entre galhos e um amontoado de folhagens, correndo em disparada em direção a um robusto carro preto que cintilava à luz do sol. Hector derrapou próximo ao automóvel, ofegando e apoiando-se na porta do motorista enquanto a abria. Rosie, instintivamente, abrira a porta do carona e fechara com força. Hector encarara aquele movimento um tanto surpreso, a olhando com certa estranheza.
— O que está esperando? Anda logo! — disse ela, apressada, o tom ansioso.
— O acidente fez você abrir os olhos quanto as pessoas que realmente querem o seu bem? — perguntou ele, entrando no carro.
— Por que diz isso? — indagou ela, desconfiada.
— Achei que fosse hesitar. — retrucou ele, girando a chave ao ligar o motor.
— E na verdade eu ia sim. — respondeu ela, ríspida. — Se não fosse por você ter dito que estávamos sendo procurados. Logo, você é a única pessoa que está disponível pra salvar minha vida. Por mais que eu quisesse que isso não fosse verdade.
Dando, por fim, a partida, Hector a olhou discretamente, como se quisesse extrair dos pensamentos da jovem alguma fagulha de confiança ou otimismo. Para sua infelicidade, a maldição que carregava dentro de si naquele instante não lhe conferia tal dom. Na verdade, as habilidades que definiam seu novo "eu" eram exatamente o oposto do qual ele desejava. Naquele momento, passou a sentir certa saudade de sua memória eidética, a qual lhe parecia desvalorizada por si mesmo e agora aparentava estar a anos-luz de distância, como se as consequências do ataque que sofrera na casa de Rosie apagasse todos os traços que compunham sua essência, aquilo que o tornava único.
O carro acelerou pela estrada, cantando pneus e deixando alguns rastros no caminho. O sol forte da manhã fazia a lataria da máquina brilhar estonteantemente.
***
No interior do automóvel, Rosie se limitou a ficar de braços cruzados, fitando a vegetação ao lado com uma expressão insegura. Mordeu os lábios, sentindo uma enorme vontade de expor todas as suas dúvidas e ser recompensada com respostas devidamente convincentes. Virou-se para Hector abruptamente, encarando-o com fervor.
— Como você sabia que eu estava internada naquele hospital? — perguntou ela, desobedecendo o combinado.
— Rosie, por favor. — disse Hector, demonstrando desconforto e acelerando cada vez mais. — Como eu disse: Melhor deixarmos as perguntas para quando chegarmos. — fez uma pausa, olhando para ela de relance. — Não se preocupe, estamos indo o mais longe possível. Um lugar seguro.
— Ao menos me diga onde conseguiu esse carro! — insistiu ela, elevando o tom.
— Tudo bem. — disse ele, suspirando. — Eu roubei.
"Ah, que ótimo. Não fico surpresa.", pensou Rosie, olhando-o e balançando a cabeça, decepcionada.
— Aquele médico... — começou Hector -... bem como todos os outros que trabalham naquele hospital, estão todos infectados. Mais uma vez Abamanu provou sua engenhosidade. Estamos nos deslocando para bem longe da zona de perigo. O mais espantoso foi saber que eles possuem olhos e ouvidos em todos os lugares.
— Por que eu sou o alvo. — arriscou Rosie, inquieta.
— Exato. — confirmou Hector, assentindo levemente, sem desviar os olhos da estrada. — Aqueles ali tiveram sorte de encontra-la e confina-la no hospital. Mas eu compreendo. Não havia chance de fugir, e presumo que você foi levada ainda inconsciente.
— Na verdade... — dizia Rosie, se detendo por alguns segundos. — Eu acabei acordando enquanto me levavam. Foi como se eu tivesse alucinada... com uma visão.
— Que tipo de visão? — perguntou Hector, curioso.
— Não sei por onde começar. Foi tudo tão rápido. E agora está nebuloso na minha mente. — disse ela, com uma expressão de desânimo. — Segundo a enfermeira que passou os últimos dois anos cuidando de mim... eu mencionei o Charlie.
Hector fizera uma curva no asfalto, a afirmação de Rosie quase o fazendo perder a direção. Se concentrando novamente, olhou para ela estupefato.
— Você viu Charlie em algum momento nessa alucinação?
— Não exatamente. — respondeu Rosie, semi-cerrando os olhos, pensativa. — A imagem de Abamanu o levando embora ficou gravada na minha memória... e naquele delírio eu pensei que ainda estava flutuando no ar, sem poder me mover. Eu só conseguia pensar no que ele faria com Charlie e eu jurei que iria destruí-lo. Depois eu apaguei de novo... e fiquei em coma.
Vários minutos de silêncio se passaram.
De fato, Rosie esperava alguma reação por parte do caçador que caracterizasse a opinião do mesmo acerca de toda aquela confusão que ocorria nos devaneios da jovem como redemoinhos violentos.
— O que foi? — perguntou ela, voltando sua visão para a paisagem arborizada ao lado. — É estranho vê-lo calado depois do que eu disse. Perdi dois anos da minha vida deitada em uma cama de hospital. Tudo por causa da maldita ganância de um deus semi-decadente. — desabafou, apertando a camisola com as mãos trêmulas indicando sua raiva pelo tempo irrecuperável.
— Honestamente, foi uma das coisas que pensei... — disse Hector, suavizando a expressão. — ... enquanto eu procurava por você durante este tempo.
Empertigando-se no banco, Rosie arregalara os olhos e voltara-se para ele, alarmada.
— Você me procurou por todo esse tempo... e considerou que eu estaria em coma?
— Não foi bem assim, na realidade. Aconteceram várias outras coisas no meio dessa minha busca irrefreável por você. Você estar em coma foi só uma das possibilidades que relevei. Considerei, com 74% de chance, que você estivesse consciente, mas mantida em cativeiro em algum compartimento secreto do hospital. — revelou ele.
Recostando-se do banco novamente, Rosie bufara ao fechar os olhos, em um estranho misto de exaustão e alívio. Em sua cabeça ainda martelavam questões pertinentes que mal se aguentavam se manterem abertas por tanto tempo. "Eu vou enlouquecer se não souber o que está acontecendo! Que merda, eu odeio ser a última a saber!".
— Não precisa ir tão rápido. — disse ela, preocupada com o limite de velocidade estabelecido para a estrada.
Hector exibira seu relógio de pulso — o mesmo que utilizara desde o início de sua jornada com Rosie — para conferi-lo.
— Já fazem precisamente dez minutos que saímos de lá. — disse ele. — Ainda estamos na zona de risco, então, a partir de agora, tenho que manter a velocidade constante. — ele fez uma pausa, avaliando-a brevemente. — Está se sentindo bem?
— Nunca me senti mais viva. — redarguiu ela, logo o estudando novamente. — O mesmo eu não posso dizer de você, não é?
Como que por reflexo, Hector relanceou os olhos para suas vestes em péssimo estado. Um suspiro de decepção foi tudo o que ele produzira para mostrar sua reação.
— Como eu disse: Aconteceram outras coisas, intercaladas com minha busca por você.
— Está parecendo um mendigo. — comentou ela, desconfortável. — Cairia bem uma tesoura passando nesse cabelo. Vai ter que me contar tudo. Como sobreviveu, por onde andou, quem encontrou e o que fez durante esses dois anos. Me prometa.
— Estou aqui para cumprir uma única promessa. — salientou ele, alterando o tom. — Acredito que seja óbvio para você.
— Então admite que não é forte o suficiente para prometer algo a ponto de guardar segredos? — disparou Rosie, sem dó, fitando-o com um olhar incisivo.
— Qual parte de "Melhor deixarmos as perguntas para quando chegarmos" você não entendeu? — indagou o caçador, seu tom soando rigoroso.
— Essa pergunta não tem nada a ver com a situação em que estamos. — rebateu ela, no mesmo nível.
— É por isso mesmo. Devemos nos focar nela, nesta crise em que nós estamos envolvidos. — ele fez uma pausa, se preparando para dizer algo importante. — O que você sabe, até agora, é que Abamanu, de fato, está operando sua influência aqui na Terra através de uma substância venenosa.
— Eles queriam injetar aquilo em mim. — disse Rosie, fazendo uma careta de nojo ao lembrar do líquido negro na seringa. — O psiquiatra disse que eu deveria abraçar meu verdadeiro destino.
— Sendo uma escrava de Abamanu, é claro. — afirmou Hector, com convicção.
— Uma escrava privilegiada. — disse Rosie, recordando-se do que o deus havia afirmado na última noite de que se lembrava.
Olhando-a como se estivesse ficado louca, Hector pareceu não entender o sentido da frase, como se não partilhasse das memórias daquela fatídica noite nas Ruínas Cinzas, no instante em que as esperanças voaram como poeira levada ao vento com a chegada de Abamanu.
— Do que está falando? — perguntou ele.
— Lembro que ele havia dito que queria me proteger de algo... — ela fizera uma pausa, detendo-se. — Que ele tinha um inimigo...
— Yuga. — murmurou Hector, interrompendo-a.
— Exato. — concordou ela, o tom animado por ter se lembrado do nome da divindade solar, oponente de Abamanu. — Sim, talvez faça sentido. Yuga, segundo Abamanu, me abençoou com uma energia de poder incalculável que reside dentro de mim, o que explica aqueles acessos de estresse que eu tive.
— Mas não se iluda tão facilmente, Rosie. — disse o caçador. — Temos muitos trabalhos a fazer. E tentar uma aliança com um dos dois certamente não é um deles. Principalmente com Abamanu.
O carro agora avançava para uma área montanhosa fazendo curvas a cada cinco minutos. Por um momento, Rosie pensara estar sendo conduzida até Kéup. No entanto, Hector negara, afirmando que o local onde outrora abrigava o QG da Legião estava densamente infectado pela tal substância ainda de origem desconhecida pela jovem. Logo percebeu se tratar de um lugar totalmente diferente e irreconhecível... mas, ainda que visto de longe, aparentando ser seguro.
CONTINUA...
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