Capuz Vermelho - 3ª Temporada
66 Hecatombe (Parte 4)
Região montanhosa de Kéup
Três horas e meia já haviam se passado.
Charlie matinha-se paciente e encostado numa rocha, sentindo um leve tremor de terra sob seus pés e vendo a luz do sol que passava pelas frestas à alguns metros acima, gradualmente, adquirir uma tonalidade alaranjada que o deixava em estado de tensão no nível máximo.
Abamanu e Údon esforçavam-se para ignorar um ao outro e Hector parecia andar em círculos sentindo o suor frio das mãos intensificar-se a cada minuto... a cada grão de areia que caía.
— Údon, já não aguento mais. — disse o caçador, nervoso — Só resta apenas uma hora e meia! Onde esse miserável está? Será que por acaso ele também descobriu uma maneira de ocultar seus rastros?
— Estou tentando com o que posso, rapaz. — disse o arqueu com os olhos fechados em sua procura extra-sensorial por Yuga — A todo momento tenho a ligeira impressão de senti-lo fugir de mim. A coisa não anda nada bem lá fora.
— O quê? — quis saber Charlie. Ouviu-se um estrondo bastante próximo só para alimentar a apreensão.
— Quero dizer... a tal estrela devoradora está do tamanho de algum monumento histórico deste mundo. Talvez da pirâmide de Gizé, suponho.
— Uma pirâmide. — disse Hector, passando a mão pela boca — Nada sugestivo.
— Está mais preocupado com uma bola de fogo que pode ser facilmente destruída do que continuar persistindo em segui-lo até fazê-lo vir. — reclamou Abamanu, de braços cruzados, olhando com reprovação.
— Sua queixa não vai me estimular a ir além dos meus limites. — retrucou Údon. — Ele só está jogando conosco. Nos fazendo perder tempo para achar que somos dependentes dele.
Subitamente, o procurado chegara, pegando a todos desprevenidos, posicionado à alguns metros de distância com as mãos na cintura. Todos viraram suas atenções, sobretudo Údon que abriu os olhos no exato momento. Abamanu cerrara os dois punhos ao ver a face do inimigo novamente, buscando algum auto-controle àquela altura onde era tudo ou nada.
— Isso é algum tipo de pegadinha? — indagou Yuga, estranhando. Deu de ombros depois — De qualquer forma, foi divertido deixa-los ansiosos feito donzelas esperando serem salvas.
Údon ergueu sua mão direita e estalou os dedos, fitando o deus solar com um semblante sério.
O sigilo de Onúris acendeu-se instantaneamente sob Yuga.
— Mais alinhado do que última vez. — disse o deus, debochante — Só que agora não passa de um simples desenho. — falou, estalando os dedos em seguida e apagando completa e facilmente o sigilo.
Boquiabertos, Údon, Hector e Charlie se entreolharam terrificados.
Abamanu era apenas desaprovação em sua postura.
— Idiotas. Realmente esperavam que esse sigilo funcionaria dentro do nível que ele alcançou?! Todas as soluções que tinham em mãos antes dele ser trancado numa cela tornaram-se obsoletas. Que dirá o exorcismo!
— Então é isso?! Queriam tentar de novo? Insistir no mesmo erro? — perguntou Yuga, andando.
— Teria funcionado naquela ocasião — disse Hector -, claro, se não tivesse ameaçado a vida de Alexia forçando Údon a abandonar o plano.
Charlie olhou um tanto tímido para Údon, como se pedisse algo.
— A propósito, obrigado. — disse o jovem, baixinho.
— Pelo quê? — indagou Údon.
— Por ter protegido Alexia. — respondeu ele. — Obrigado.
Meio sem jeito, o arqueu acenou com a cabeça, voltando sua atenção à Yuga.
— Hector, Hector... — dizia o deus solar ao caçador — Ou você é teimoso por natureza ou não é temente o bastante à morte. Fui claro nos meus termos e você novamente me decepciona. Vim aqui na esperança de ver esta maldita quimera sem estar nesse saco de carne podre e essa peça de sucata que ela chama de armadura.
— Permito-lhe a testar a resistência dela se caso tivermos que lutar assim mesmo. — propôs Abamanu, altivo. — Não faz ideia do quanto estou me segurando...
— Viram só? Ele deseja a mesma coisa. — disse Yuga, pretensioso, levantando uma sobrancelha — Podem dispensar o mago do tempo — relanceou Charlie com uma piscadela -, porque somente Hector é quem será realmente útil.
— Esse acordo está cancelado e ponto final. — disparou Hector, ousado. — Se serei útil para algo... será para assistir você ser derrotado humilhantemente. Ter Rosie de volta e salvar o mundo são minhas únicas metas e não servir de armadura para nenhum deus ou qualquer outra porcaria sobrenatural que exista. Eu faço o meu destino!
Cinicamente, Yuga estava sorrindo ao ver o manifesto rebelde do caçador.
— Admiro sua perseverança, mortal. Querer salvar um mundo que não pode ser salvo... Acho que detectei mais uma diferença entre deuses e mortais. Alguns desistem fácil... — olhou para Abamanu que rosnou como resposta -... já os mortais, aaahh... a maioria deles nunca se dá por vencido, a começar por acordar todas as manhãs e fazerem suas obrigações monótonas porque sem isso não existe propósito. Sem propósito não há vida. E sem vida este mundo torna-se bem chato. Mas as circunstâncias demandam que ele seja destruído.
Charlie escutou um barulho provindo de trás , parecido com passos de som baixo. Virou o rosto disfarçadamente, mas acabou se atentando ao notar a forma humana. Bastante familiar, por sinal.
— Perdi alguma coisa? — perguntou Lester, falando baixo enquanto chegava perto. Olhou à sua esquerda, parecendo mal acreditar. — Peraí... É você mesmo ou algum fantasma?
— Sabia que me perguntei o mesmo quando vi Hector? — disse Charlie, sorrindo de canto.
— Nossa... — disse o caçador, sorrindo e olhando-o dos pés a cabeça. — Pior que nem posso te abraçar agora... — olhou de soslaio, alterando a expressão.
— Tem razão. É uma hora crítica. — aquiesceu Charlie. — Melhor ter cuidado e não dar com a língua nos dentes.
— Tá de brincadeira né? Minha boca é um túmulo. — disse o caçador, ficando mais perto do mago do tempo como se precisasse manter-se ou sentir-se isolado. — Aliás, é bom te ver de novo.
— Igualmente. — respondeu Charlie, atento ao próximo movimento de Údon.
Abamanu se mostrou favorável ao acordo entre Hector e Yuga, para o desprazer do caçador.
— Sem nenhum meio de neutraliza-lo para o exorcismo, sobra a única opção viável. — disse o deus lunar, fitando o seu real pupilo com presunção.
— Não mesmo. — rebateu Hector, opondo-se. — Ainda há um jeito.
— Que seria...? — indagou Yuga, severo no tom.
— Este aqui. — disse Údon, novamente estalando os dedos. Um sigilo circular apareceu em volta. Sigilo este capaz de imobiliza-lo e utilizado por Áker no Palácio Subterrâneo no desastroso encontro, outrora com pacificidade, entre o deus e Rosie. A artimanha o fez sentir a garganta secar e o sangue ferver em ebulição. Desconcertado, não sabia se encarava um relativamente despreocupado Hector ou um implicante Yuga.
— Espere... eu devo estar enganado. — disse Abamanu, tentando acreditar numa hipótese alternativa — O sigilo inibidor é para garantir que vou prestar bom comportamento enquanto possuo Hector. — fez uma pausa, suando em profusão — Não é? — indagou, elevando a voz raivosa. — Digam que sim, seus vermes!
Hector se limitou a acenar lenta e negativamente com a cabeça.
— Inacreditável... — o ar de desapontamento no deus lunar era nítido — ... Eu seria a única forma de fazer Yuga se colocar no seu devido lugar quando não tivessem mais como para-lo. Eu dei a minha espada... Me doei a esse plano com minha generosidade... E é assim que você me retribui?! — pausou, ofegando com a boca aberta — Sabe de uma coisa, Hector? Eu devia ter matado você nas Ruínas Cinzas. Cruel e dolorosamente. Todos vocês... esmagados e caídos!
— Não tiro sua razão. — disse Hector, firme — É o que você é. Força-lo a trabalhar conosco pedindo por boa vontade foi até demais, e isso o irrita pois vai contra a sua natureza. Teve três chances de me matar e desperdiçou covardemente. Agora eu tenho só uma... para derrota-lo de vez e não vou perder.
Yuga dava constantes risadinhas infames ao observar a situação do rival.
— Nunca pensei que me deleitaria tanto em vê-lo preso numa armadilha tão patética.
— Cale a boca! — revidou Abamanu, enfurecido — Onde está a sua tão sonhada revanche contra mim? Hein? Ah sim... ela está completamente arruinando diante dos seus olhos! — vociferou, algumas gotas de saliva respigando.
— Acho que revi minhas prioridades. — determinou Yuga, olhando seus oponentes. — Vou destruir e recriar este universo de acordo com minhas regras.
— Ouviram? É isso que vão deixar acontecer? É isso que vão permitir? — questionava Abamanu, no ápice do estresse. — Esqueceram da parte importante do manual? Mil anos! Você costumava ser mais inteligente, Hector. E você Údon... consegue fazer melhor do que isso. O que está acontecendo com vocês? A menos que tenham... um ás debaixo da manga. Fizeram isso para impedir nosso confronto. Vão me condenar ao vácuo infinito, mas Yuga sofrerá o exorcismo depois... — desviou o olhar dilatado para o deus solar. — De alguma forma, podem drenar a energia.
Údon andara em direção a um pequeno conjunto de rochas pequenas largadas.
— Se enganou mais uma vez. — disse o arqueu, misterioso — No entanto... existe um ás. — agachou-se e fez surgir um objeto metálico que Lester e Charlie, de início, estranharam.
O arqueu arremessara-o contra ambos os deuses com rapidez.
De repente, Abamanu viu seu braço esquerdo ser prendido por uma espécie de algema adequada para o seu tamanho ligada por um fio com outra menor que prendera Yuga.
— Mas o que significa isso? — perguntou Yuga, notando sigilos inéditos entalhados nas algemas especiais. — Nunca vi... Nunca vi esses sigilos antes! O que você fez, arqueu?
— Menos de cinco dias foram necessários para testar inúmeras combinações de sigilos inibidores. Eis o resultado. Me sinto um Da Vinci olhando satisfeito para sua Monalisa terminada. — disse Údon, logo em seguida desfazendo o véu que tornava as armas divinas invisíveis.
— Então aquele monte de papel rabiscado foi para isso?! — disse Lester, não contendo a admiração. — Uou! Agora senti firmeza! — empolgou-se, esfregando as mãos ao ver os dois encurralados. — Você definitivamente conseguiu meu respeito infinito. Vocês se ferraram, babacas.
— Obrigado. — agradeceu Údon, feliz pelo caçador reconhecer seu valor.
— Charlie. — chamou Hector, sacando uma faca e jogando-a para o mago do tempo. — Faça sua parte.
— Com todo prazer. — disse Charlie, pegando a faca e se encaminhando até as sete armas enquanto realizava um corte não muito profundo na palma direita. Fechou o punho e deixou as gotículas de sangue caírem sobre os artefatos, banhando-as com o sangue puro de alguém genuinamente conectado ao poder de um deus. "Ainda que distante e prestes a ser punido por ter me ensinado... farei isto em retribuição... em gratidão por todo o conhecimento repassado sabiamente. Obrigado, meu eterno mestre.".
— Não dou garantia de que isso vá funcionar. — disse Abamanu, provocador. — Charlie me disse certas palavras... que talvez possam murchar suas esperanças.
— Não diga asneiras, sua aberração. — disse Yuga, fitando o grupo com extremo ódio. — O plano foi pegar a nós dois no mesmo momento esse tempo todo! Pagarão caro... muito caro por afrontarem a um deus absoluto como eu.
— Mesmo vulnerável você continua se achando. Que desprezível. — retrucou Abamanu, enojado.
Hector mostrou-se interessado em saber do que Charlie disse que o deus fez parecer tão sério para arruinar o plano.
— O que Charlie disse à você?
— Seu potencial de mago do tempo supostamente reduziu com o tempo de inatividade.
— Como é que é? Isso é verdade? — quis saber Lester, alarmado.
Após terminar de enrolar um pano para estancar o corte, Charlie virou-se para andar na direção de Abamanu esbanjando uma confiança surpreendente.
— Quer a verdade? Eu menti. — disparou ele, sem medo, ficando próximo demais do deus. Deu um sorriso vitorioso — E mal podia esperar só para ter que revelar isso bem na sua cara.
As presas do deus lunar ficaram à mostra enquanto produzia um rosnado furioso.
— Ora... seu...
— O gosto da liberdade nem se compara a satisfação em ver você assim. — disse Charlie, estreitando os olhos. — Chega de ficar preso à correntes. Vou seguir em frente, tentando recuperar o tempo que você me fez perder, seu monstro assassino.
Uma curiosa risadinha zombeteira adveio de Abamanu.
— O que acha tão engraçado nestas condições? — perguntou Charlie, sério. — Você perdeu.
— Ah... com certeza você recuperará o tempo perdido. — disse o deus, rapidamente levantando a mão direita e a colocando sobre a cabeça do jovem que exprimiu um gemido doloroso ao cerrar os dentes e apertar os olhos pelo efeito incutido contra ele.
— Charlie! — disse Hector, hesitando se aproximar. — O que está fazendo com ele? — perguntou, ríspido.
O mago do tempo caíra desacordado, sendo, em seguida, apoiado por Lester e Hector que deu olhadelas de repúdio à Abamanu.
— O que você fez, seu desgraçado? — perguntou Lester, colocando o braço esquerdo dele sobre sua nuca ao levanta-lo.
— Eu lhe dei uma boa razão para correr atrás do prejuízo. — disse Abamanu — Boa parte de suas lembranças como mago do tempo foram todas... apagadas. — deu um riso nervoso devido ao efeito da algema — Eu nunca deixo pontos sem nó, que fique registrado.
— Não pode ser... — disse Hector, incrédulo. — Não pode ser verdade!
— Você confirmará quando ele despertar. Mollock será um grande estorvo sem a conveniente habilidade do mago do tempo em usar os tais selos.
— Tenho que admitir — disse Yuga, respirando com dificuldade -, isso foi estupendo. Perspicaz, aliás. Eu teria feito o mesmo.
— Isso foi um elogio? — indagou Abamanu, confuso — É difícil saber quando está sendo irônico ou não.
— Não, você fez exatamente o movimento certo, tem minhas congratulações, embora isso não mude nada entre nós.
— Nunca irá mudar. — salientou Abamanu, o tom revoltado.
Údon se posicionou diante das armas com as mãos abertas direcionadas à elas, recitando o dialeto divino a ativação para realizar a criação da chave de abertura. Segundos depois, os artefatos, que tremiam e pareciam ficarem mais próximos, refulgiram uma luz branca e intensificante até suas formas não ficarem visíveis. A claridade ganhou destaque ao tornar-se ofuscante, fazendo os dois caçadores quase protegerem os olhos com os braços.
— Uma guerra sem vencedores. — disse Yuga, lamentando — Iremos juntos remoer nossos fracassos na escuridão profunda. — olhou-o de esguelha — Ter trazido nossa divergência à este mundo foi o seu pior erro.
— Engana-se. — retrucou Abamanu — Confiar em você foi meu pior erro. Portanto, nem ouse me pedir para agradece-lo. Já não reconheço mais o aliado que jurou contribuição eterna em prol da sobrevivência do meu império. Você foi a minha maior decepção e o meu pior castigo. — declarou, encarando fervoroso.
A luminosidade diminuíra rápido, desaparecendo até mostrar um objeto preto do tamanho de um cubo mágico. Possuía formato losangular e de certa finura. O segundo passo concluiu-se com êxito. Hector e Lester tentavam fazer Charlie reaver a consciência, mas o jovem parecia imerso num sono profundo. Údon manipulava telecineticamente a chave com as mãos, andando em direção à uma das rochas que estava à frente dos dois sentenciados.
— Ouça, arqueu. — disse Yuga, o tom provocativo — Não faz ideia do pecado que está cometendo. Subtende-se que tem noção do extremo risco que é julgar um deus sem a autorização do Conselho ou o conhecimento dele. Ainda mais sendo dois. Somente o Conselho Geral tem essa liberdade. Será perseguido, caçado até os confins do universo por sua inconsequência. Espero que quando o capturarem, o torturem sem misericórdia em uma morte lenta!
Ignorando todas as palavras do deus solar, Údon fizera a chave atrair-se à rocha na mesma velocidade do magnetismo de polos opostos. Hector foi o único a se atentar ao aviso aparentemente grave e uma ponta de preocupação o deixou em aflição contínua.
Enquanto o arqueu recitava a abertura, a chave produziu linhas retas de luz meio alaranjada partindo das quatro pontas e ligando-se ao minúsculo círculo. Este, por sinal, foi crescendo de tamanho conforme a chave dividia-se em quatro partes em afastamento, criando um buraco na rocha que aumentava progressivamente até atingir o tamanho correto e carregava uma intensa corrente de vento que parecia querer sugar o que estivesse por perto.
Yuga parecia querer resistir ao imenso poder de arranco do portal — os cabelos loiros pertencentes a Rosie esvoaçando com força, ora uns fios batendo no rosto, ora pelos lados. Os sigilos nas algemas brilhavam em amarelo a cada vez que o anseio por libertação os dominava.
Com a mão aberta e o braço esticado para os julgados, Údon proferia o recitamento do exorcismo pois a combinação permitia realizar um duplo numa vez só, algo que certamente seria inviável com um sigilo de Onúris para cada um.
— Acham mesmo que conseguirão? — questionou Yuga, resistindo com mais afinco — Minha estrela vai se tornar auto-suficiente assim que desfeita a ligação! E seu poder será aumentado em uma força que nem podem imaginar! Não existe nada ao alcance de vocês para destruí-la, não há vencedores!
— Acharemos um jeito. Sempre há uma saída. — afirmou Hector, a expressão de determinação.
Por fim, Údon terminara de recitar o exorcismo.
— Ainda vamos nos encontrar, Hector. E quando esse dia chegar... não vou poupa-lo! — disse Abamanu, seus coléricos olhos lupinos fulminando o caçador, logo em seguida de seus olhos e boca irradiando uma luz azulada. — Nããããoooo!!! — Uma sombra espectral e fantasmagórica se projetou para fora do corpo de Mollock e tragada direto ao abismo. Em Yuga, o mesmo resultado. Os olhos e boca brilharam refulgentes e um "fantasma" iluminado similar a imagem da estátua no museu saindo do corpo de Rosie e absorvido direto ao portal.
Ambos os corpos tombaram ao chão em ritmo quase lento e ao mesmo tempo.
Hector correu para se pôr diante do portal, estendendo o braço direito com a mão aberta após Údon lhe dizer como se fecha o portal. As quatro partes da chave retraíam-se em velocidade até o fechamento completo para depois ir à Hector como se ele a atraísse diretamente à sua mão .
O caçador estudou o objeto por breve, passando os dedos com suavidade. "Temos uma dívida de gratidão com você Údon. Nem sei o que seria de nós sem você do lado com toda essa sabedoria".
— Caramba, isso foi super tenso. — opinou Lester, quase sem fôlego, literalmente — Ué... — expressou desconforto na face — Sou só eu... ou mais alguém aqui tá com uma falta de ar desgraçada?
— É a estrela. — disse Charlie, para o alívio de todos com seu despertar.
— Charlie. — disse Hector indo até ele, agachando-se. — Como se sente?
— Estou bem, obrigado. — respondeu, levantando-se esforçadamente. — Mas a descarga que Abamanu lançou em mim foi como... se tivesse sugado mais do que minhas memórias, minha disposição também. Por isso me sinto um tanto fraco.
— Pode deixar, eu te seguro. — se prestou Lester, assentindo. — Então é isso? A supernova também absorve o oxigênio, a atmosfera?
— Supernova? — indagou Hector, confuso.
— Ahn... Foi esse o nome que o Dr. Lenox deu pra essa coisa.
— Fiz um contato psíquico para que pudesse usar seu conhecimento científico e explicar à Alexia e Lester. — revelou Údon, guardando a chave losangular no bolso. Andou até o trio — Muito bem, pessoal. Devido à alta demanda de energia que o exorcismo somado à abertura do Vazio consumiram, fico impossibilitado de me teleportar por pelo menos 40 minutos.
— Isso tudo?! — queixou-se Lester. — Então vamos ficar lá em cima assistindo o mundo acabar? Por que o ave de rapina não pode ser achado e você não pode usar seus poderes...
— Ele vai aparecer. — disse Hector, confiante. — É melhor vocês dois irem na frente. — olhou depressa para o corpo de Rosie, cujos cabelos voltaram a coloração e textura normais.
— Então vai lá caçador, beije sua branca de neve. — brincou Lester, levando um enfraquecido Charlie para a superfície. Hector soltou um riso rápido e fraco, logo desviando um olhar meio desconsolado à sua protegida. Encaminhou-se até ela em passos vagarosos enquanto poeira caía sobre ele por conta do cataclisma que estava ocorrendo do lado de fora.
Entretanto, seu sangue gelou, sua espinha ouriçou... ao observar cada parte do corpo da jovem ser convertida em cinzas puras, sobrando apenas as vestes. Uma cremação instantânea e indolor.
— Não... — disse ele, temorizado, a pupila dilatada. — Isso... — uma lágrima não foi contida — Não pode estar acontecendo... a... a... — a voz parecia falhar tamanha comoção.
As cinzas foram sorvidas em direção a um saco marrom no chão. Pertencido a ninguém menos que Údon. O caçador o olhou com certa desilusão. O arqueu amarrou o saco com um nó apertado e o entregou ao caçador sem nenhum vestígio de surpresa ou emoção na face.
— Não entendo... Você sabia disso o tempo todo? — perguntou Hector. — Se sim... Por que escondeu? Justo de mim. — a demora do arqueu em explicar o enfezou — Responde, Údon! — disse ele, o tom rude e tocando no ombro do arqueu.
— Esse é o destino absoluto da fênix apoteótica, rapaz. O mito que vocês mortais conhecem possuía um fundo de verdade. Toda lenda talvez possua. Este detalhe é real. É a consequência final. O ciclo da fênix é inevitável. Das próprias cinzas ela se foi. E delas vai ressurgir. Quando a possessão se desfez, foi como se a energia desbloqueasse esse efeito pois a ligação a superaqueceu. Agora ela quer um descanso. Um longo descanso. — tocou no ombro com amistosidade — Eu sinto muito, Hector. Sinto muito mesmo. Não contei para não deixa-lo mais perturbado do que estava.
— Em quanto tempo... isso acaba? — perguntou Hector, derramando mais uma lágrima ao segurar o saco.
— O mesmo que leva para abrir a porta do Vazio. — disse Údon, sucinto. — Mil anos.
O arqueu virara as costas para sair do lado oposto ao qual Lester e Charlie foram.
Hector, amargando numa torrente de sofreguidão, agarrou o saco em seu peito como se estivesse predestinado a proteger um objeto valiosamente único. "Não precisa ser forte o tempo todo" As últimas palavras que ouviu dos lábios da bela jovem ecoaram na sua mente afundada em tristeza.
Assim que se virou para sair, o rosto encharcado em lágrimas, notou uma ausência estranha.
A armadura de Abamanu encontrava-se vazia e largada. Viam-se rastros sinuosos de sangue. "Ele escapou... Maldito Mollock. Ainda o pegaremos. E vou dar seguimento à minha vingança por Josh", pensou, a face séria e irritada ao vasculhar pela caverna algum sinal de que ele estivesse por perto.
***
Enfrentando uma ventania de caráter brutal, Lester e Charlie saíam para fora da gruta com dificuldades. Pedaços de grama erguiam-se junto às pedras de todos os tamanhos, tudo sendo arrastado para a mesma direção. O caçador arriscou olhar para cima e sentiu os pelos eriçarem — alguns fios do seu cabelo preto curto agitavam-se com o vento em escala anormal.
— Meu deus. — disse ele, boquiaberto e estupefato ao fitar a supernova, em um céu misturado com tons de vermelho e laranja, num nível de poder e tamanho assustador. Era como estar em outro planeta de condições severas que sofresse com a influência maligna de seu sol localizado em uma curta distância.
Údon correra até ele.
— Foi bom te conhecer, barba cinza. — disse Lester, aceitando que ali poderia se tratar do fim.
— Yuga avisou — disse o arqueu, os longos cabelos grisalhos adejando no rosto — que quando sua ligação com a estrela fosse perdida, ela ficaria fora de controle! Posso sentir! — assustou-se com uma enorme rocha subindo aos céus ao sofrer a atração destrutiva. — Nossa única saída é contar com Charlie e o que restou de suas habilidades!
— Dá pra ser mais específico? — exigiu Lester, preocupando com o estado do mago do tempo e também desesperado com o caos á sua volta.
— Me refiro à viagem interdimensional! — disse ele, sua voz abafada devido ao poder do vento.
— Não posso... — falou Charlie, a voz entrecortada e meio grogue.
— O quê? Não pode desenhar aquele símbolo numa porta e nos mandar pra outro universo? — perguntou Lester, inquieto. — Como você fez naquela vez pra resgatar Rosie! Lembra?
— Não sabia que magos do tempo podiam fazer algo tão extraordinário. — disse o jovem para a infelicidade da dupla.
— É, acho que isso responde a questão. — disse Lester, rendido ao terrível fato.
— Tudo bem! A simples equação: tempos de desespero mais pessoas desesperadas igual a medidas desesperadas! — declarou Údon, mal acreditando no que diria a seguir — Resta menos de trinta minutos até a estrela atingir seu pico. Nesse meio tempo vou extrair todas as minhas forças para nos levar até o palácio de Abamanu e tentar chegar a um acordo com um Coletor. Eles abrem brechas no espaço-tempo para outros mundos!
— Údon... — chamou Charlie — Se caso optarem por essa ideia... eu serei a moeda de troca.
— Você ficou maluco?! É óbvio que a gente não vai embarcar nessa ideia de jerico! Tem que haver outro jeito! — contestou Lester.
— Mas é a mim que eles querem. Eles terão uma oportunidade de terem o que sempre queriam além de que vai beneficiar vocês. Eles vão aceitar. A minha morte é a salvação!
Hector chegou em passos acelerados ouvindo o pedido de Charlie.
— Não vamos sacrifica-lo, Charlie. Testei o amuleto para chamar Áker e parece ter funcionado.
O carro de Hector, outrora estacionado próximo a uma das entradas da gruta, estava sendo arrastado pelo solo gramado até ser elevado com suas peças sendo retiradas pela força magnética, inclusive a lateria sendo despedaçada como papel.
— É difícil dizer adeus né? — perguntou Lester a Hector que o olhou com reprovação — Brincadeira.
— Hector! — chamara Áker, rumando até os companheiros — Onde está Rosie? O que aconteceu?
— Ela está aqui. — disse o caçador, seus cabelos agitando com o vento, mostrando o saco enchido com as cinzas da garota. — Não tenho tempo pra explicar assim como você não tem tempo para se despedir. Mas fazendo um resumo... nós conseguimos.
— Agora precisamos que você e sua tropa reúna máxima quantidade de energia para bombardear a estrela! — sugestionou Údon, apreensivo, com uma das mãos perto dos olhos para protege-los da poeira e das pedras que rolavam no ar aos montes.
— Não é necessário. — afirmou o arauto, com decisiva segurança. — Posso resolver isso sozinho.
— É sério? Essa pago pra ver! — disse Lester, cético e, ao mesmo tempo, temeroso.
— Áker, tem certeza? — indagou Hector, com um pé atrás — Parece mais do que consegue suportar.
— Talvez eu consiga inverter os polos. — especulou Áker, estudando brevemente a enorme bola de fogo devoradora. — Sendo direto, posso expandir minha aura numa certa altitude como um escudo para a atmosfera e posteriormente, com a inversão, absorver a estrela em vez do contrário. Tudo isso numa escala que nunca alcancei. — baixou os olhos para Hector, tocando-o no ombro — Você e Rosie significaram muito mais pra mim do que qualquer um dos meus sentinelas. Posso imaginar o que aconteceu. Cuide bem dela. É a pessoa que melhor consegue fazer isso.
Fortemente emocionado, o caçador o abraçou com os olhos marejados. Feliz com o gesto, o arauto retribuiu.
— Será lembrado como um herói. — disse Hector, não contendo as lágrimas que voavam ao vento — Obrigado. Por tudo. Você vai conseguir. Adeus, amigo.
— Adeus, Hector. — disse o ex-arauto de Yuga parecendo tocado pela emoção — Farei por este mundo. — foi caminhando até Údon, Lester e Charlie.
— Então é mesmo um adeus? — perguntou o caçador, segurando-se. — Olha, não tive tempo de te agradecer, então... Obrigado. Afinal, você me salvou duas vezes. Sempre vai estar na memória da Legião, isso eu garanto. — estendeu a mão para ele num aperto amigável.
— Adeus, Lester. — disse Áker, sorrindo de leve. Olhou para o mago do tempo que lhe acenou com a cabeça e acenou de volta. Voltou-se para Údon.
— É melhor se apressar. Quinze minutos. — disse o arqueu, logo apertando a mão do arauto — Não estranhe, nunca fui muito sentimental. — falou, sorrindo de canto — Vê se tenta regenerar.
— Dificilmente. — disse Áker, sentindo-se orgulhoso por ter amigos como aqueles. Finalmente começara a proceder em direção ao seu propósito de existência há pouco tempo assumido. Os membros da Legião observavam o arauto percorrer o caminho em passos firmes até a ponta de um barranco.
Na metade do percurso suas costas exibiram marcas de brasas queimando a parte de trás do smoking preto em duas linhas retas em meio à chuva invertida de pedras, areia e grama.
Dois feixes de luzes alaranjadas irromperam das aberturas ganhando um formato que o quarteto, perplexo, divisava com facilidade a cada segundo. Lester foi o que mais exibia espanto.
— Esse engomadinho me enche de orgulho.
Um par de asas douradas se fez reluzente. Como nunca antes se tinha visto, o arauto materializou suas asas provando o que para muitos de seus aliados era tido como impensável. Na ponta do barranco, contraiu as pernas para, enfim, lançar-se para cima em um super-voo. O bater de suas asas à distância proporcionava uma sensação digna de ser comparada a observar o voar de um pássaro.
À cerca de 80 metros, em apenas 30 segundos, o ex-mensageiro de Yuga elevou a potência de sua energia a um nível que no passado considerava inalcançável e que beirava à insanidade.
Sua aura se expandiu a ponto de fazer as nuvens repelirem-se depressa. Não demorou para que os quatro sentissem o ar voltar fluir normalmente.
— A atmosfera... — disse Údon — ... parece ter sido privada do efeito da supernova.
Em uma aproximação ainda mais estreitada e veloz, Áker soltara um rugido grave com toda pujança, fazendo seus olhos irradiarem uma poderosa luz amarela que se alastrou pelo corpo e nas asas.
Estando numa distância curta, os primeiros resquícios de energia da esfera flamejante começavam a serem sorvidos numa forma meio afunilada. Forma que diminuiu bruscamente quando o arauto literalmente adentrou na estrela, atingindo seu máximo potencial de absorção.
Gradativamente, a supernova reduzia seu tamanho para o florescer do alívio de Hector e dos demais.
Vista da lua, parecia um pequeno sol a apagar-se. Áker permaneceu a voar mesmo depois de tamanha carga de energia fulminando em sua essência em temperatura inimaginável. Seu voo pelo espaço soou numa velocidade tal qual uma estrela cadente vista da Terra. Porém, a diferença é que esta progredia exponencialmente... ao ponto de se igualar a própria velocidade da luz.
A faísca superveloz atravessara uma brecha dimensional que rompeu devido ao seu estado. Àquela altura, nem mesmo Áker reconhecia o lugar onde tinha ido parar — um planeta aparentemente inabitável com um céu azul esverdeado e planícies vermelhas. Ao se dar conta o arauto desvencilhou-se do peso de carregar aquele poder abismal, deixando liberar a energia por todo a área que sofreu com uma avassaladora explosão cuja tendência ameaçava o planeta como um todo.
CONTINUA...
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