Notas iniciais
Respeite o o passado, abrace o presente e tema o futuro.

Condado de Hampshire

Ao redor de um casebre isolado no meio de uma mata encontravam-se pedaços de rochas e árvores queimando e fincados no chão após caírem por conta da regressão imposta por Áker contra a estrela.

Dentro da localidade adentrava um caçador de rosto quase redondo e cabelo curto, meio loiro e meio espetado. Abriu a escancarada e decrépita porta do único quarto da velha casa, logo deparando-se com um grupo misto de sentinelas solares, a partir de então unidos numa só causa pelo declínio dos dois pilares do império.

O herdeiro de Yuga ficou silencioso por um instante, sem ter como reagir àquela estranha reunião.

— Sem me dar as boas-vindas? Por favor, não me façam perder tempo.

Um soldado aproximou-se para dizer-lhe a triste notícia.

— A batalha que nosso imperador tanto ansiou teve sua chance frustrada por um grupo de quatro. Três mortais, sendo um deles o mago do tempo que seria executado, e o arqueu anteriormente aliado da quimera... que também foi pega no mesmo golpe. — fez uma pausa, fitando-o com mistério — E nossa rainha, Sekhmet, foi morta por Lorde Yuga em um acesso de fúria.

"Acesso de fúria... Único fato que não chega ser novidade nessa história", pensou Mihos, meio desnorteado ao dar-se conta das perdas sofridas. De repente, os sentinelas ajoelharam-se em reverência, deixando-o inconfortável.

— Nós, a partir de agora, saudamos o magnífico imperador.

"É o que estou pensando que é...". Mihos esboçou um sorriso imodesto. "Nada mal... nada mal mesmo".

— Agora me deixaram indeciso. — disse ele, com um dedo no queixo ao pensar — Um memorial ou uma festa? Mas nada que uma votação não resolva. Eu voto pela festa. — ergueu de leve a mão direita, visualizando seus súditos — Alguém quer empatar?

— Senhor, poderia começar nos dando uma ordem para reparar os danos causados pelo fenômeno de destruição em massa. — sugeriu um sentinela.

— Ou escolher o próximo arauto já que Áker se deixou morrer para salvar os mortais. — citou outro.

Mihos deixou uma expressão surpresa escapar ao ouvir que fim levara seu ex-tutor.

— Foi isso mesmo? O serviçal quis bancar o herói?! — tentou segurar uma gargalhada — Que trágico. É como uma criança tentar salvar sua fazendinha de formigas. Mas sobre a ordem... Ouvi dizer que os mortais não sabem lidar com coisas que não entendem... Então que tal fazerem uma faxina, nas mentes deles, só pra variar?

— Áker nos pediu o mesmo pouco tempo atrás e o fizemos. — ressaltou o da frente.

— Então chegou o momento de expandirem o serviço. — disse Mihos, decidido e orgulhoso com o exército a comandar — Um mundo de humanos com medo de coisas como nós não seria nada divertido. É que o medo deixa a carne com gosto ruim.

***

Área florestal de Raizenbool

Os finos grãos de cinza vertiam-se do saco para um pote de vidro aleatório encontrado na dispensa, preenchendo-se pela metade.

O bem de grande valia a ser preservado por memórias que o tempo não apagaria.

Hector depositara o pote tampado na dispensa, o olhar taciturno e vago, e o coração apertado. Em sua visão, perder Rosie tinha um significado maior de derrota comparado ao sentimento próspero em libertar um amigo que mal havia conhecido direito há alguns anos. Não era conflitante. O peso do fracasso era como um todo. Nada surtiu o efeito desejado. A promessa foi em vão... como tentar segurar areia no meio de um deserto assolado pela ventania.

***

Contar notícias ruins era de uma tarefa que demandaria pulso firme e compostura na medida certa. Údon tentou do melhor jeito que lhe foi possível diante de sua eleita.

Primeiro devia-se lidar com a negação. As mãos do arqueu tentavam acalmar os ombros inquietos da vidente que, em pranto desesperado, tentava não acreditar no que acabara de ouvir.

Alexia deu-se conta após Údon explicar pormenorizadamente, levando a mão direita à boca enquanto os verdes olhos dilatados e aflitos transbordavam lágrimas de pesar doloroso.

O arqueu a fitou entristecido por alguns segundos, com certo dó. Um espontâneo abraço ocorreu. Údon afagava as costas da jovem, ao mesmo tempo em que ela debulhava-se em choro mais silencioso em soluços súbitos. Através da situação, Údon refletiu sobre a dificuldade dos mortais na aceitação de um fenômeno tão natural como a morte, chegando a imaginar como se sentiria caso perdesse aquela que o abraçava fortemente e na qual tinha o dever de consolar.

Ao abrir os olhos, Údon visualizou na soleira da porta uma figura que compensaria em dobro todo o luto manifestado pela vidente. A recompensa ideal para amenizar seu sofrimento estava à poucos metros. O arqueu desfez o abraço, virando Alexia para a direção e apontando.

Os olhos encharcados da vidente foram de encontro aos do mago do tempo que se via parado com um fechado sorriso de felicidade contida.

Passaram-se segundos até que Alexia conseguisse processar a realidade do que estaria vendo. Uma expressão inicial de confusão e estranheza... para depois do lampejo um júbilo preencher seu âmago como nunca antes em sua vida.

— É... É você mesmo? — perguntou, aproximando-se devagar.

Charlie andou ao seu encontro, pronto para abrir os braços, sem conter a emoção. Os passos foram tornando-se menos vagarosos. Os sorrisos mais abertos. E o luto menos predominante no lar.

Um longo e intenso abraço entre amigos que ansiavam para rever um ao outro em uma saudade que maltratou por longos dois anos.

Lester, que vinha por trás do mago do tempo, entrava na casa observando o comovente reencontro.

— Ahn... Eu acho que não devia te abraçar por muito tempo, porque... — disse Charlie, prendendo um riso, afastando um pouco seu corpo ao da vidente — Porque seriamente preciso de um banho. — sorrira.

— Eu concordo. — disse Alexia, em lágrimas de alegria, não controlando a risada.

Ambos deram as mãos, entrelaçando seus dedos em demonstração de companheirismo inabalável.

— Nem os deuses podem dimensionar a falta que eu senti. — disse Alexia.

— Penso o mesmo. — respondeu Charlie, sincero.

— Bem-vindo de volta. — declarou a vidente, assentindo com um sorriso em simultâneo à mais lagrimas.

Lester foi até Údon a fim de comentar.

— Olha... Aposto uma grana alta que isso ainda dá em casamento. — cochichou ele perto do arqueu.

— Algo me diz que não é preciso apostas nem premonições para chegar a uma conclusão. — disse Údon, orgulhoso ao assistir laços humanos serem restabelecidos.

***

41 dias depois

Área florestal de Raizenbool

Eram exatamente oito da manhã. O Casarão estava desocupado por três razões: 1 — Hector fora até o mercado comprar mantimentos — no período passado lançou-se em frequentes caçadas ao lado de Lester contra licantropos, vampiros e outros seres repulsivos, que pareciam envolvidos numa infestação, ao redor do país como que para extravasar toda a melancolia e desgosto de si mesmo. 2 — Lester recebeu uma ligação sobre a pista de um criatura não-identificada, mas que morde e possui garras que estraçalham a carne como as que costumavam enfrentar. 3 — Alexia e Charlie foram a um passeio na biblioteca. O mago do tempo vendera sua antiga casa a um velho homem que produzia artigos artesanais, depois cogitando alguns planos futuros ao lado de Alexia numa relação que emitia indícios de estar seguindo além da amizade vista há dois anos.

O pote dentro da dispensa ganhara acúmulo considerável de poeira. Naquele instante, no mais pleno silêncio da casa, seu conteúdo pareceu movimentar-se... como se fosse uma fera revolta querendo libertar-se da jaula.

Uma rachadura formou-se pequena. Em seguida, progressivamente alongando-se.

Alguns grãos escapuliam pela ínfima brecha, até irem se amontoando e assumindo uma direção para fora da dispensa. O pote começava a esvaziar-se a cada vez que a fresta alargava-se.

Como uma serpente no deserto, assim estavam as cinzas deslizando sobre o piso da cozinha e rumando ao banheiro cuja porta fora mantida entreaberta. Mais precisamente, a banheira era o alvo de instalação.

O pote quebrara-se por inteiro, deixando os últimos grãos seguirem o curso. Por fim, a "serpente" subira pela borda da banheira, concentrando-se no fundo após sair completamente de sua prisão.

Dentre segundos, um barulho peculiar e rascante se fez presente no recinto.

Cessado o barulho, três segundos depois brancos dedos com unhas bem cuidadas emergiram ao tocar a borda da banheira.

O corpo nu e reconstituído de Rosie Campbell levantava-se — os fios baixos dos cabelos pretos meio ondulados ocultando os seios. A jovem, assustada e quase boquiaberta, olhou para as mãos em uma torrente de confusão, principalmente ao não recordar-se de nada do que viveu após a refulgente luz divina abarca-la no Salão das Duas Verdades.

***

Após retornar, Hector fora até a cozinha, prestes a tomar uma decisão alternativa sobre a preservação das cinzas que muito se vinha pensando sobre executar ou não. A ideia consistia em enterrar o pote na frente do Casarão com uma pedra servindo de lápide e com escrito feitos em carvão com o nome da garota que jurou proteger até o fim.

Hesitou um pouco antes de abrir a porta da dispensa, mordendo os lábios.

Ao abrir para conferir, tomara um baque estremecedor: O pote estava em cacos.

— Não... Não pode ser... — disse ele, desesperando-se rapidamente, pegando o que restou do pote. — Estava bem aqui o tempo todo! Como... Como pode ter sido quebrado sem deixar nenhum vestígio? — disse, visualizando o chão e a mesa à procura de rastros. Estacou o olhar para pensar no que parecia improvável — A menos que...

— A menos que eu mesma tenha feito. — falou uma voz que o pegou desprecavido. O caçador virou-se velozmente, os olhos arregalando-se ao se deparar com uma visão que lhe soou fantasmagórica, fazendo-o involuntariamente deixando cair o pote destruído que estilhaçou-se totalmente.

Hector piscou inúmeras vezes, franzindo o cenho e balançando a cabeça inteiramente cético. A voz parecia falhar a cada tentativa de esboçar uma reação.

— Údon... — disse ele, apontando de leve para a jovem — É melhor parar. De forma alguma, eu vou cair em um truque desses, essa... habilidade sua, você deve ter planejado isso há um bom tempo. Deve haver algum sigilo gravado em algum ponto que ativou esse seu poder de ilusão para me pregar uma peça. Você foi de grande ajuda, eu sou eterna e imensamente grato, mas brincar com minhas emoções usando a imagem de Rosie é passar dos limites, nem se eu fosse o pior dos seus inimigos eu faria isso com você usando Alexia pra tortura-lo psicologicamente!

Rosie desatara a rir do manifesto do caçador.

— Eu mal ressurjo dos mortos e sou presenteada com a diversão que é ver Hector Crannon indo longe demais nas teorias e acabar paranoico.

— Não se aproxime. — disse ele, recuando — Encarei doppelgangers na semana passada. Você pode ser um integrante do mesmo bando.

— Hector, será que dá para você usar a cabeça nesse momento tão importante? — questionou Rosie, andando até ele, vestida com seu traje habitual, incluindo o manto vermelho de seu pai. Seu semblante amenizou — Essa sou eu de verdade. Não se belisque pra ver se está num sonho ou não. Não fique agindo como um cético incorrigível, você é um caçador, você luta contra coisas assustadoras que para as pessoas normais é pura fantasia. — parou numa curta distância, observando-o fita-la com nervosismo intenso. O olhou condescendente e deu de ombros. — O que mais eu posso dizer? Eu voltei. — sorriu em felicidade.

Alguns minutos foram necessários para o caçador processar o que estava bem diante de seus olhos.

— Údon disse... que, você, a fênix apoteótica só ressurgiria após mil anos. Não se passaram nem cinquenta dias desde que derrotamos Abamanu e Yuga. — fizera as contas de cabeça com rapidez, olhando para um canto — Sim, é isso. Se passaram 41 dias... o equivalente a... — voltou seu olhar impressionado à Rosie — Mil horas. — fez uma pausa, deixando um sorriso formar, a emoção tomando conta — Aquele filho da mãe. — dissera, quase rindo.

Rosie, com os olhos enchidos de lágrimas a derramar, sorria para o caçador. Ao mesmo tempo, ambos abraçaram-se apertadamente.

— E gostei do apelido novo. Deve ter uma história bem interessante por trás. — brincou ela.

— Ah, com certeza. — confirmou Hector, mal acreditando que estava vivenciando um instante de genuína felicidade após anos de tormentos contínuos — Uma interessante e longa história.

***

A rolha do champagne — cuja garrafa encontrava-se nas mãos de Hector — soltara-se com barulho, soando o glorioso princípio de uma comemoração noturna entre amigos que sobreviveram a um quase-apocalipse.

Mas a celebração não se limitava a escapar de ser devorado por um segundo sol. Era uma celebração com visões reflexivas a respeito do futuro.

Alexia e Charlie sorriam orgulhosos de si mesmos e de um do outro, segurando suas taças enchidas com o líquido dourado. Údon e Lester estavam próximos de si, em uma relação amistosa que apresentou melhoras com o tempo.

Rosie trajava um vestido carmesim com mangas curtas, cuja parte inferior descia à altura dos joelhos.

Hector, com seu costumeiro sobretudo de couro marrom, tomara as atenções para si como sua liderança inerente o movia a fazer, erguendo de leve a taça.

— Eu gostaria de propor um brinde mais que especial... — desviou o olhar contente para sua parceria de caçada — ... à Rosie. E seu retorno incrivelmente surpreendente e que tranquilizou nossos corações.

— Surpreendente ainda é pouco. — disse Lester, brincalhão — As cinzas estavam bem quietinhas no seu canto, mas a alma podia estar por aí. Quem além do Hector ia nos garantir que não fosse um fantasma? Sorte a dele que conseguiu nos convencer, ele é mestre nisso.

Todos riram. As seis taças chocaram-se em um suave tilintar, em seguida todos tomando seus goles.

— Ah, sim. — disse Alexia, de repente, depositando sua taça na mesinha de centro da sala, depois erguendo-se sorridente — Quase ia me esquecendo. — juntou as mãos, empolgada — Charlie e eu... — olhou para o mago do tempo — ... queremos contar uma novidade.

— Depende do teor da novidade. — disse Lester, soando comicamente exigente — Vão finalmente assumir de vez?

— Muita calma nessa hora, não precisamos ir tão rápido. — disse Charlie, sorrindo nervosamente — Mas se é a título de curiosidade... — virou o rosto para a profetisa — ... está na lista de planos. — segurou na mão esquerda, entrelaçando os dedos — Só vai depender de como os compromissos vão afetar nossa rotina pesada.

— Andem logo, esse mistério todo vai acabar nos cansando. — disse Rosie, ansiosa pela revelação.

Alexia riu timidamente, pronta para contar.

— Recebemos uma carta de ingressão para Oxford. Ficaremos em salas diferentes, mas em compensação vamos estar juntos em um só lar.

— Nossa, mas isso é ótimo. — disse Rosie, feliz por ambos pela grande conquista.

— Meus parabéns aos dois. — felicitou Hector, erguendo a taça como um sinal de congratulação. Os dois agradeceram em uníssono.

— Estou bastante feliz por vocês. — disse Údon, olhando-os com orgulho — Merecem essa vida pacata, longe de problemas sobrenaturais, como eu, por exemplo.

— Ah quê isso, barba cinza. — disse Lester, mostrando-se companheiro ao arqueu — Você foi para nós um herói tão corajoso quanto o ave de rapina foi. Aliás, sinto falta dele.

— Todos nós sentimos. — disse Hector, a expressão séria — Até Charlie que não teve uma oportunidade de conhece-lo melhor o reconhece como o verdadeiro salvador de nossas vidas.

— De todas as vidas humanas. — complementou Údon, assentindo e lembrando-se dos momentos que passou ao lado do ex-arauto do decadente Yuga.

— Eu quero propor um brinde — disse Rosie, de repente erguendo a taça com gosto — à memória de Áker. Aquele que... de início era só um mensageiro, que depois passou para nosso aliado fiel, quebrando regras e juramentos por nossas vidas... e no fim se sacrificou por elas. Por isso esse brinde é nossa demonstração do quão gratificados nós estamos e seremos até o fim.

As taças chocaram-se em um novo e fabuloso brinde dedicado como um memorial ao arauto.

— Ah, só tem mais uma coisa. — disse Charlie — No meio dos semestres, vou tentar conciliar meus estudos com pesquisas dos arquivos do meu pai para ver se consigo reaver meu potencial de mago do tempo e totaliza-lo em poucos meses, mas sendo realista eu diria que a expectativa seja de anos de reaprendizado. Abamanu só deixou 5% da minha capacidade intacta. Não posso abrir portais para outros mundos com os símbolos, não posso usar o selo de separação... Eu sinto muito ter me tornado inútil para enfrentar Mollock novamente...

— Não se sinta assim — aconselhou Rosie — , o importante é que você conquistou uma virada positiva na sua vida, vocês dois finalmente tem a chance de viverem uma vida normal, chance esta que nunca tive e fico orgulhosa por dois amigos alcançarem essa felicidade.

Após a jovem dizer tais palavras, Hector a olhou um tanto pensativo.

— Obrigado, Rosie. — agradeceu Charlie, assentindo.

— Nossa partida está agendada para... amanhã. — disparou Alexia, intencionalmente deixando a parte mais bombástica para o final. Lester quase engasgou-se com o champagne.

— Ué, mas já? — indagou ele, estupefato.

— Pois é. — respondeu Alexia, emocionada — Eu... Ai, caramba... — baixou um pouco a cabeça, sorrindo meio que sem jeito para dizer tamanha a emoção — Já estou com saudades... de todos. Pena não ter que me despedir do Adam e da Êmina, eles também fazem falta aqui entre nós.

— Com certeza fazem. — disse Hector, com firmeza. Rosie o olhou de relance, curiosa.

Batidas na porta interromperam o clima comemorativo, fazendo todos olharem para a direção.

Lester encaminhou-se para atender, deixando a taça sobre a mesa.

— Posso falar com vocês dois em particular um minuto? — perguntou Údon, dirigindo-se à Rosie e Hector.

— Ahn... Sim. — disse Hector, desconfiado da razão.

— Sim, claro. — disse Rosie.

O trio se direcionou à cozinha, enquanto Charlie e Alexia conversavam baixinho sobre os últimos detalhes da viagem e Lester atendia à visita surpresa.

— Olá... Em que posso ajuda-los? — perguntou o caçador, visualizando os três homens caucasianos com posturas que transpareciam certa elegância. O da esquerda — na visão de Lester — possuía cabelo loiro pentado de lado e rosto jovial e redondo com olhos azuis. Já o da direita tinha um cabelo preto comprido amarrado em um rabo de cavalo, sobrancelhas grossas e barba por fazer na face robusta. O do meio, claramente indicando ser o líder, tinha um charme nítido em seu modo de se portar, seu cabelo preto em corte social penteado de lado, um rosto quadrado e olhos pretos penetrantes graças às sobrancelhas meio grossas e arqueadas. Todos eles vestiam sobretudos pretos bem abotoados.

— Viemos à procura de Rosie Campbell e Hector Crannon. Somos enviados do Exército. Prometemos não demorar, já que... — disse o do meio, relanceando as taças com champagne -... estão no meio de uma ocasião especial.

— É, a gente tá numa festinha, nada demais... — disse Lester, olhando rápido para trás, depois voltando-se para os visitantes — Mas e então? São do Exército... É algum aviso, uma informação do General?

— É bem particular, na verdade. — respondeu o líder, secamente.

— Bem, eles estão tendo uma conversa particular agora lá na cozinha... Será que dá pra vocês esperarem um pouco? Ou melhor: Por que não se juntam a nós? A bebida está nota dez.

— Seria um prazer. Muito obrigado. — respondeu ele, gentilmente entrando.

***

A dupla pusera suas taças sobre a mesa da cozinha, atenta ao que Údon estava prestes a lhes falar.

Com a luz do luar atravessando a janela, Údon se posicionou próximo ao refrigerador, ficando parte de seu corpo com a luminosidade azulada do astro.

— Muito bem, eu também tenho algumas novidades a dizer. A começar por Sekhmet. — o arqueu aparentemente emitiu um sorriso — Ela se foi.

— Como é que é?! — soltou Rosie, espantando-se subitamente — Quem disse isso à você?

— Se isso é verídico, quem a matou? — perguntou Hector, igualmente surpreso.

— O próprio Yuga o fez, após rejeitar uma tentativa, bem frustrada, de sua esposa em querer trazer a mente de seu amado imperador de volta aos eixos. — disse Údon, sucinto — E minhas fontes atendem por nomes de sentinelas solares que agora respondem a um novo chefe... Não vão acreditar.

— Deixa eu adivinhar.... — disse Rosie, fechando os olhos por uns segundos, depois abrindo-os de forma estreita — Mihos?

— Acertou. — confirmou o arqueu, sorrindo fechado — A razão de não vermos nada sobre a supernova nas páginas dos jornais é graças a ele, tecnicamente.

— Então grande parte do mundo teve sua memória apagada? — questionou Hector, curioso — Um evento dessa proporção chegaria a cancelar planos de guerra.

— Isso explicaria porque o memorial às vítimas de Raizenbool foi associado a um ataque nuclear. — disse Rosie, sem dúvidas.

— Bem, nós podemos ter nos livrado daqueles dois patifes desgarrados, no entanto não significa que estão livres de problemas do mesmo nível que enfrentamos hoje. — alertou Údon, assumindo seriedade no tom e na face, o que os deixou com a atenção ouriçada — Entendam. Os demiurgos podem atingir uma força expansiva de modo a colapsar com todo o universo. Imaginem centenas de milhares como Yuga se tornou. Essa parte já foi resolvida com um simples contrato de sigilo entre todos os seres que compartilharam dessa informação. Foi muita sorte isso ter acontecido exatamente ao mesmo tempo do julgamento de Chronos, que, infelizmente, foi condenado a uma prisão específica. Nunca se sabe quem está de fato com aptidão para administrar o próprio poder. Em outras palavras, nenhum deus é totalmente confiável no que se refere às intenções com o uso de seus poderes superiores, eles também são corruptíveis. Yuga e Abamanu são a prova viva disso. Mas... — andou para um lado — ... a ordem natural exige um curso que satisfaça seu equilíbrio. Hoje nós testemunhamos um armagedon de luz... E amanhã? E o futuro? A resposta está em vocês. Nas suas ações daqui em diante. Minhas habilidades premonitórias foram inibidas temporariamente devido a sobrecarga que sofri no exorcismo e na abertura do Vazio. Levará um tempo até eu me recuperar. Não basta prever o que irá acontecer daqui há anos, a ordem natural deve ser mantida de qualquer forma e o que ocorreu hoje deixou tudo esclarecido. Se houve um armagedon de luz... é necessário que haja um armagedon de trevas. E vai haver, de um jeito ou de outro.

— Vamos estar preparados. — disse Rosie, voltando-se para Hector em seguida — Para o que der e vier.

O caçador assentira positivamente para ela com firmeza.

— Chegou a hora. — disse o arqueu, esfregando de leve as mãos, deixando uma ponta suspeita na dupla.

— Hora para quê, Údon? — perguntou Hector.

O arqueu suspirou.

— De me despedir. Áker não se preocupou a toa quando contestou minha ideia de abrirmos o Vazio sem uma autorização do Conselho Geral. Fiz parecer que estava errado, mas foi a urgência do tempo que não me levou a nenhuma outra opção. Me desculparia por isso, mas naquele momento o tempo não podia esperar. E o deixei ir. Agora devo seguir driblando as consequências.

— Espera aí — disse Rosie, aproximando-se dele -, não precisa fugir nem seguir uma estrada perigosa sozinho. Não faz sentindo você ir embora quando podemos protege-lo, você encontrou um lar aqui, o seu lugar no mundo.

— Não, está enganada. — retrucou Údon — Quebrei uma regra extremamente rígida. Agradeço todo o acolhimento, mas... posso sobreviver com os meus meios. Trilhando meu próprio caminho. Me mantendo aqui vou estar expondo vocês a riscos maiores, o Conselho é implacável, na primeira chance serão autuados como cúmplices, não quero que os vejam como meus parceiros de crimes. Como o julgamento de Chronos encerrou há poucos dias, a primeira ordem será caçar o arqueu que julgou dois deuses violadores ilegalmente. Ponham isso na mente de vocês e não tentem questionar. Estou falando sério.

— Está bem. — aquiesceu Rosie, cedendo á decisão — Já que é assim... Na verdade, faríamos você se sentir um prisioneiro nosso e nos sentiríamos mal em mante-lo num lugar em que sua segurança está comprometida ao nosso lado, porque pelo que parece nós ficamos famosos entre os deuses. — disse, referindo-se à ela e Hector.

— Respeitamos e compreendemos sua decisão, Údon. — disse Hector, andando até o arqueu com a mão estendida — E eu agradeço à você... por tudo. Obrigado por existir. — apertaram as mãos.

— Disponha. — disse Údon, sorrindo — Ainda nos veremos de novo... amigos.

Rosie fez que sim com a cabeça, o semblante suavemente alegre.

A figura de Lester irrompeu da cortina.

— Ahn, pessoal, — disse, olhando para a dupla dinâmica -, tem três caras que se dizem subordinados do Exército, e parecem que estão bem apressadinhos pra falarem com vocês dois aí... — apontou para eles.

— Mencionaram o General Holt? — perguntou Hector, empertigando-se.

— Disseram que só falariam o essencial apenas a vocês dois. Sinto cheiro de coisa grande. Pelo visto, vou ser o último a saber. Nada fora da curva. — disse o caçador, sentindo-se preterido.

— Tudo bem, pode chama-los. — disse Rosie, concordando.

— Bem, se me derem licença... — disse Údon -, vou deixa-los a sós com seus supostos novos amigos.

— Ei, espere, Údon. — disse Hector, tocando-o no ombro e fazendo-o estacar. — Me ocorreu agora uma dúvida sobre a viagem no tempo que Rosie fez através de Áker. Você era a fonte que transmitiu à ele imagens da previsão que teve com relação a vitória de Abamanu. Sabe me dizer como funcionam as viagens temporais?

— Há uma coisa que devem saber. — disse Údon, segurando uma risada ao virar-se para ambos — Eu não deveria achar engraçado, mas não consigo controlar. Eu... — apontou com o polegar á si mesmo — ... não sou exatamente quem vocês pensam.

— Engraçado, eu disse mais ou menos isso quando estava naquele futuro horroroso na hora que revelei à Êmina sobre que eu estava morta naquela linha do tempo. — disse Rosie, a crescente suspeita, concentrada em seu olhar para o arqueu, a levando diretamente à uma conclusão irrefutável — Espera um minuto aí... então você é...

— Exato. — disse Údon, seguro de si — Voltei três anos no tempo para corrigir a história. Mesmo sabendo que não mudaria em nada na época de terror que presenciei. Deveria existir uma história a ser escrita com um final menos trágico. Estamos nela agora.

— Então quer dizer que... nesse sentido, de não mudar nada no futuro, quer dizer que... — Hector estava visivelmente incerto — Duas linhas existem paralelamente? Se fôssemos para lá agora... alteraríamos o rumo de tudo, mas também não mudaríamos o que ocorreu na outra linha do futuro, mas se voltássemos a partir dali para criarmos um outro futuro, nós... — passou uma mão no rosto — Não, melhor parar antes que minha cabeça exploda.

— Áker nunca me disse isso. — declarou Rosie.

— Pelo fato de ele querer dar a impressão de que só existiria um único futuro existente. — explicou Údon.

— Então se você é o Údon do futuro — quis saber Rosie, a sua grande dúvida do momento -, deve ter uma cópia sua nesta linha do tempo. Onde ela está? Por que não deu sinais até agora?

— Porque eu a matei. — revelou Údon, para o estarrecimento imediato da dupla. — Vou me despedir dos outros mais tarde. Boa noite. — desaparecera em nanosegundos, deixando os dois congelados de estupefação pela revelação honesta e direta.

— Aqui estão eles. — disse Lester, trazendo os três homens misteriosos que entravam na cozinha por detrás dele — Cadê o barba cinza?

— Ele foi tomar um ar. Estava sentindo um pouco cansado. — mentiu Rosie, não parando de dar olhadelas constantes aos tais homens.

— Ah, sei. — disse o caçador, fingindo acreditar. — Vou indo nessa. Foi bom conhecer vocês. — disse, saindo do cômodo a passos rápidos.

— Igualmente. — respondeu o líder, com educação. O elegante homem virou-se devagar à dupla. — É uma prazer finalmente conhece-los. — estendeu a mão direita à Hector que apertou. — Sou Derek Marshall, recrutador e recentemente nomeado chefe de operação pela iniciativa DECASO.

— DECASO? — indagou Rosie, estranhando.

— Departamento de Controle de Ameaças Sobrenaturais. — respondeu Derek, logo em seguida lançando um olhar interessado á jovem. — Engavetado pelo General Holt há dois anos. Reativado por ele mesmo há duas semanas.

— Não tiveram suas mentes apagadas, o que significa... — disse Hector, juntando as peças.

— Significa que fomos poupados por supostos infiltrados especiais no QG que também podem ser os responsáveis por deletarem as lembranças de boa parte da humanidade sobre o sol devorador. — falou o de cabelo loiro. — O General disse que foi a gota d'água.

— Harrison tem razão. — disse Derek, apontando para o parceiro com o polegar esquerdo. — Este ao lado dele é Nick, — o rapaz de cabelo amarrado e face dura — não fiquem magoados, eles não é de socializar muito. Nos abstemos de nossas funções militares para nos comprometermos a esta causa de tão grande relevância. Queremos dispor dos melhores agentes que saibam combater ameaças que não podem vir a público. Vocês dois encabeçam a lista, o que automaticamente os tornam prioritários.

— Prioritários!? — a voz de Hector soou impressionada — Não podia esperar isso do General...

— Ele quer enterrar as desavenças passadas. — disse Derek, interrompendo-o. — Agora a parceria com o Colégio de Caçadores tornou-se oficialmente vitalícia. — Nick entregara à ele uma prancheta com dois papéis anexados. Derek estendeu o braço para entregar à Hector — A folha de contrato e o relatório da primeira investigação, respectivamente.

O caçador analisou com minúcia cada detalhe escrito no relatório. As descrições lhe trouxeram enjoos e eriçamentos nos pelos da nuca.

— Três testemunhas indicaram terem visto um grande e forte homem com características de... um lobisomem rondando um vilarejo, sendo confundido com um forasteiro. A polícia local estaria associando mortes de professores da escola a ele, já que perambula, sempre à noite, pelas redondezas. Suas ações parecem se concentrar somente em Londres.

Rosie e Hector entreolharam-se sérios como se quisessem dizer um ao outro telepaticamente: "Está pensando o mesmo que eu?"

— Pode deixar. Já tenho algumas teorias em mentes. É uma descrição bem familiar. — garantiu Hector, virando a folha para ver o contrato que possuía duas linhas pontilhadas. Assinara na primeira. — É para um bem maior. Não tem porque eu recusar. Err... Caso não tenham percebido, Lester, o cara que atendeu vocês, ele é meu amigo e também é um caçador, somos da Legião, um grupo especial que o diretor Vannoy oficializou há anos. Eu vou chama-lo.... — deu dois passos em direção à cortina.

— Ei, espera aí! — disse Rosie, agarrando-o pelo braço direito. O caçador a olhou com certo dó contido. Rosie olhou de soslaio para os três, desconcertada pela reação súbita — Podem nos dar um segundo.

Derek fez que sim com a cabeça. permitindo.

Ambos foram a um canto da cozinha conversarem reservadamente.

— Que diabos você pensa que está fazendo? — perguntou Rosie, soando irritada, em tom baixo.

— Lhe dando uma oportunidade de ver uma janela se abrir na sua vida. — disse Hector, decisivo — Ela representa o caminho mais curto para você buscar seus verdadeiros sonhos.

— Meu verdadeiro sonho? Posso estar a um passo de descobri-lo. — retrucou ela. — Mas não tem a ver com o que você se culpava de ter me privado. Quer saber de uma coisa? Acho que meu pai queríamos nós dois juntos não apenas para fugir, ou você me manter em segurança, mas principalmente para lutarmos. A razão de nos conhecermos se resume à isso. Ele sabia que com você ao meu lado eu aprenderia a me adaptar ao mundo que estava oculto pra mim até ler aquela carta. Aquela carta... tudo começou com aquela maldita carta. Você pode ter falhado comigo uma vez... mas merece uma chance de fazer valer a promessa que fez. Não se trata de proteger a mim e esquecer de si. Mas de protegermos um ao outro. De aprendermos um com o outro. Então, Hector, eu estou lhe dando uma chance de você não sentir mais essa culpa.

O caçador não tinha palavras para mensurar o quanto aquele manifesto lhe fez perceber com clareza que a presença de Rosie em sua vida era uma essencialidade oferecida pelo destino.

Os segundos de silêncio para definir uma reposta pareceram mais tempo.

Os olhos de Rosie abrilhantaram-se quando Hector aproximou a prancheta e a caneta às suas mãos.

— Eu acredito em você. Sempre vou. Você se adaptou a esse mundo estranho. A culpa? — balançou a cabeça negativamente devagar, comovido — Ela simplesmente desapareceu. Graças a você.

Rosie sorrira abertamente para ele, logo escrevendo seu nome na segunda pontilhada abaixo da primeira.

A jovem se virou para os três homens, esbanjando determinação.

— Tem todo o meu apoio nesse iniciativa. O mundo está mudando e quero fazer parte desta mudança como uma força positiva.

— E isso soa como... um sim? — perguntou Derek, querendo uma resposta concreta.

Rosie assentiu firmemente.

— Eu tô dentro.

Notas finais
Não me passou pela cabeça que isso tudo ia render 67 postagens! Dado o volume de todo o conjunto textual, achei que seria bem mais, achei que chegaria à pouco mais de 80, sem exagero nenhum. Pra se ter uma ideia, TODOS os capítulos que compreendem o segundo arco da temporada ultrapassavam fácil o limite de palavras exigido pelo site. Resultado da empolgação e do entusiasmo de um autor que se vinculou a sua obra tal como um elo familiar. Foi excedido? Sim, absurdamente. Mas vejo um lado positivo nessa consequência. Aprendi a me colocar no lugar do leitor com o intuito de fazer o melhor que posso para impedir que a leitura canse-o ao invés de empolga-lo para o próximo capítulo. 5.000 ou 6.000 palavras já está bom? Vocês quem menos? É um limite aceitável? Pois é exatamente nisso que a série vai prosseguir da temporada seguinte em diante. Nem menos nem mais, ao meu ver é o bastante para minha consciência ficar tranquila e abrandar os arrependimentos. Agradeço a quem deu uma segunda chance por ter lido antes (ou nem perto disso) e se espantou com esse doido aqui que não mediu palavras e tacou mais de 8 mil crente que todos iriam tolerar numa boa. Fui inocente e olhei só pro meu umbigo, então, comprovado o meu êxito na missão, digam adeus aos capítulos enormossauros, ou seja, nada de repartir capítulos fechados (a menos que eu determine que tal capítulo seja duplo ou triplo no caso de um plot mais extenso, mas ainda assim não fugindo à limitação de palavras). E obrigado a quem conheceu só agora. Isto é uma republicação. A versão 1 tinha todo o primeiro arco com capítulos imensos postados inteiros e quando fui me tocar da merda que fiz acabei tendo que dividir os capítulos do segundo arco e, na época, bateu a preguiça de refazer todo o processo para os capítulos anteriores (dividindo-os, obviamente). Esta republicação é, digamos assim, o meu mea culpa para aqueles que talvez tenham largado a série pelo número de palavras completamente fora de um limite sensato. Conto com o apoio (sendo fantasma ou opinando) de quem leu até aqui na próxima temporada, até!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!