Notas iniciais
(SEASON FINALE - Finalmente hahah) Capítulo 3x16 Boa leitura!

Em algum lugar de Oxônia, Oxford


Mãos pálidas, magras e um pouco enrugadas datilografavam com precisão o que aparentava ser uma carta para alguém com grande influência. O ambiente — um quartinho meio vazio de paredes cor creme e piso em madeira — exalava certa calmaria. O remetente matinha-se confortável estando próximo à única janela do recinto, favorecido pela ótima luz solar da manhã que atravessava o vidro.

"Primeiramente, peço que não se atreva a desconsiderar este manifesto quando souber o nome de quem o enviou. Sei que não solidificamos uma relação muito próxima do que poderia ser chamada de parceria, mas seria deselegante de sua parte tratar minhas palavras como poeira ao vento. Em primeiro lugar: Saiba que se enganou quanto ao meu conhecimento dos fatos recentes. Acredite se quiser... Eu sei absolutamente tudo. Minhas fontes captaram, sem deixar rastros, toda e qualquer informação que o senhor e sua equipe intencional e desprezivelmente ocultaram de mim e, sendo franco, não me advém nenhuma obrigação de esclarecer a respeito.

E em segundo lugar: Desejo falar sobre nossos pontos em comum. Não pense, nem por um minuto, que nós estamos na retaguarda. Estamos travando a mesma guerra. Portanto, quero lhe dizer, com todo o respeito, o que posso ter a oferecer para que nossa união torne-se mais próxima, na medida do possível — o que, em todo caso, vai depender de suas escolhas.

Quero lhe falar sobre o futuro."

***

QG Alternativo do Exército Britânico

Os leitores avançados da sala de controle religaram-se subitamente em um comportamento anormal, com seus ponteiros praticamente executando uma "dança" frenética e trêmula. Segundos depois, começaram a dispersar várias faíscas agressivas e exalar uma fumaça abafada que preenchia o ambiente.

O soldado encarou, lívido e petrificado, a atividade elevada demonstrada pelo que pensava ser Rosie, cuja aura intensificava-se a cada segundo a ponto de afetar a vidraça que começava a formar pequenas rachaduras graduais, além do tremor que parecia querer sacudir o pequeno compartimento. "Esse lugar se transformou numa sauna de repente! Tenho... Tenho que avisar ao General!!", pensou ele, conseguindo recuar alguns passos, sem desviar a visão estarrecida para a jovem encapuzada que o fitava com os olhos resplandecendo uma luz amarela que lhe conferiam certa imponência.

Yuga esboçara um presunçoso sorriso ao fitar o reles mortal afastando-se, como que deliciando-se ao observar o pavor estampado na face do indefeso homem.

Antes que pudesse tocar a maçaneta, o soldado sentiu o perigo lhe fazer arrepiar a espinha.

Num súbito golpe, o deus solar abrira a boca refulgindo a luz amarela em crescente elevação, seguida de um zumbido ensurdecedor.

O soldado mal ouviu seu grito quando encarou o arrasador impulso explosivo de chamas sendo liberado para enfim destruir toda a sala, logo sendo varrido em cinzas pela poderosa onda flamejante.

***

O alarme soou estridentemente por todos os corredores do QG.

Uma horda de soldados devidamente uniformizados direcionava-se a passos apressados por um corredor, os sons das botas ecoando pelo espaço, cada um portando metralhadoras de grosso calibre.

A porta metálica que levava a outro corredor à direita encontrava-se literalmente derretida — parecia ter virado uma espécie de pasta alaranjada e fumegante. A alta temperatura implicava dizer que ocorrera há poucos minutos. Um soldado da linha frontal fitava em um misto de estranheza e medo.

— Jamais esperava que houvesse algo capaz de derreter metais pesados em tão pouco tempo...

— Então sinta-se atualizado. — disse Yuga, com a voz de seu receptáculo vinda do outro lado do corredor, fazendo todo o grupo se virar com alarde quase simultaneamente e apontando suas armas. O deus solar sorriu debochado — Minhas inclinações permitem-me fazer isso e um pouco mais.

Sem aviso, todo o pelotão descarregara suas munições para cima do corpo de Rosie.

A saraivada barulhenta de balas mal penetravam o deus solar, mas sim uma espécie de campo de força invisível gerado em volta dele que fazia-as virarem cinzas assim que encostassem, criando algumas ondulações não muito extensivas. Alguns soldados notavam pequenos grãos de cinzas caindo ao chão enquanto ingenuamente persistiam.

— Nunca aprenderam que desperdiçar energia é um ato de extrema estupidez? — questionou Yuga, lançando-lhes um olhar entediado. O tiroteio cessara de súbito, alguns "clicks" sendo ouvidos de algumas metralhadoras esgotadas e seguidos de murmúrios de frustração.

Após um sorriso sacana, Yuga resplandecera novamente sua explosão de luz solar flamejante, fazendo a boca e os olhos brilharem ao mesmo tempo que produzia um rugido retumbante. A intensa energia liberada avassalou contra o grupo que fora dizimado em cinzas de uma única vez e suas armas tendo o mesmo fim que o da porta.

***

Em um ponto, viu-se um buraco — cuja borda queimava — se fazer no chão do amplo espaço do hangar de aeronaves, se desfazendo em cinzas com a mesma eficácia de lava vulcânica. Emergindo dele em um bem executado voo, Yuga observou por um instante todo o alarido na forma de gritos apavorados e chamados de emergência em um corre-corre louco.

Cerca de quatro soldados ousaram apontar suas armas, para enfim dispararem.

Não perdendo tempo, o deus solar investira ao correr superveloz e derruba-los como pinos de boliche.

Alçou-se em pleno voo ao perceber a vinda de mais soldados correndo em sua direção, ficando pouco mais de 6 metros do chão.

— Parada! Nenhum movimento brusco! — gritou um dos homens.

Um deles, completamente incrédulo, comentara:

— Isso é algum truque? Ela está voando mesmo? É sério isso? — se perguntou, estupefato.

Antes que pudessem disparar, foram surpreendidos por uma ação inesperada. Yuga lançara sua rajada óptica contra o chão claramente no objetivo de barra-los e determinar tal ponto como fim da linha.

Os soldados viram-se, obviamente, sem saída a não ser parar e observar, impressionados, a figura que estava sendo gravada no solo de concreto.

— Que isso sirva de aviso. — declarou Yuga, o tom altivo, olhando para cada um dos meros mortais — Ultrapassem a marca e todo o seu povo vai estar a um passo da aniquilação total.

A ameaça fora assimilada conforme o símbolo marcado transparecia certa imponência.

O disco solar, emblema oficial do império, havia sido desenhado como uma demonstração de um orgulho que não abalou-se com a rendição ao poder absoluto. Em brasas, o símbolo possuía um tamanho semelhante a uma caixa de areia de um parque infantil. O bastante para intimidar a armada britânica, somado a outros fatores óbvios.

Por fim, o deus solar deu seu último olhar desdenhoso aos auto-proclamados heróis do país — os cabelos loiros de Rosie, alisados até as pontas devido a influência da meditação fortalecedora, esvoaçando de leve com o vento tal qual a capa e o capuz — e em seguida iniciou um voo supersônico em velocidade arrasadora.

— Senhor, não podemos fazer absolutamente nada. — disse um aflito soldado, se aproximando do General Holt que correra até ali — Senhorita Campbell e suas ameaças deixaram todos de mãos atadas. E levando em conta com o que estamos lidando, não estamos mais em posição de tomar decisões.

— Vai ser o nosso fim se avançarmos. — disse um outro — Até agora contabilizaram cerca de 80 mortos aqui dentro. Não temos aparelhamento e nem recursos para enfrentar algo dessa proporção.

Holt estudou com uma minúcia invejável aquele grupo de homens que pareciam acovardados mediante à um obstáculo intransponível e intocável. Por dias quis fazer a luta contra essa sensação valer a pena de forma que encorajasse seus homens a fazerem de tudo, menos ficar de braços cruzados enquanto alguém que se proclama superior em todos os aspectos decide fazer o que bem entende, forjando suas próprias regras e princípios apenas por possuir tudo ao seu alcance para fazer daqueles que são vulneráveis as suas peças que pode mover e quebrar ao seu bel prazer.

A velha regra da sobrevivência do mais apto. Do mais forte sobre o mais fraco.

— Fiz um juramento aos meus 18 anos... — disse Holt, o tom determinado — E não será agora que vou andar na contramão do meu destino para satisfazer o ego de uma abominação da natureza. — fez uma pausa, respirando fundo, tendo toda a atenção voltada para si — Evacuem as proximidades. Alerta de bombardeio alemão. Não deixem o que ocorreu neste Quartel-General vazar ao conhecimento público. Nenhuma fagulha desse caso pode ser compartilhada ou acidentalmente escapada. Agora vão.

O pelotão se dispersava depressa em uma prontificação eficiente. Holt sabia que sua tensão não foi totalmente disfarçada, mas não o bastante para acender a chama da desconfiança sobre a verdade.

"E, no fim das contas, Crannon era a voz da razão que rejeitei por puro orgulho. Aquele miserável estava certo e agora o mundo foi colocado no meio de um tabuleiro onde não passamos de meros peões. A que ponto chegamos? Será que... existe algo maior... olhando por nós... em algum lugar? Se há exceções entre tantos políticos desonestos... porque não existir uma entre deuses assassinos? Pelos tempos que vivemos, talvez não sejamos dignos de misericórdia.".

***

Em uma área montanhosa e relativamente deserta, a tão destemida Sekhmet encontrava-se sem sua habitual confiança sendo expressada diante de seus leais seguidores. A deusa solar andava alguns passos, de costas a cinco dos vários sentinelas renegados que se curvaram aos propósitos da esposa de Yuga. O sol forte abrilhantava os cabelos lisos do receptáculo da deusa.

— Por que chamou apenas nós? — perguntou um deles, de braços cruzados, um caçador de cabelos castanhos meio bagunçados e rosto relativamente fino — Seremos promovidos a alguma posição privilegiada? — esboçou um sorriso contido.

Sekhmet virou-se, o semblante extremamente sério.

— Estou prestes a tomar a decisão mais difícil de toda a minha existência. Meu amado se encontra em um estado de completo descontrole. E pareço ser a única que pode obter algum sucesso na tentativa de trazê-lo de volta.

— Majestade comprovou ser impossível há poucos dias. — ressaltou outro, desconfiado quanto as intenções da deusa — O que quer que vá tentar, não existe nenhuma chance, não importa como aja.

— Eu sei disso. — retrucou ela, o tom rude, alguns fios de cabelo movimentando-se com o vento na frente do rosto — Sua irradiação se manteve baixa por ter estado confinado numa prisão desconhecida. Por alguma razão, ele se rendeu aos mortais subordinados ao General Holt. Agora se libertou e elevou seu nível a algo capaz de massacrar todo o exército sem o mínimo esforço.

— E o que deseja que façamos? — perguntou mais outro.

— É apenas uma questão de tempo até que a quimera reúna sua tropa e aceite combatê-lo, a menos que ele tenha uma outra ideia o que é bastante improvável. — declarou Sekhmet, andando por um lado, mantendo-se de frente aos súditos. — Portanto, preciso que avisem aos demais para agirem em conjunto. Extraíam o máximo de energia para atacarem com poder total. Não se contenham nem por um segundo. Se tiverem que morrer, morrerão com honra. Não acredito que direi isso, mas... — aparentou estar pouco à vontade — ... sinto orgulho de ter guerreiros fiéis.

— Nós é quem nos orgulhamos, ó grande imperatriz. — disse o de cabelo castanho, fazendo uma reverência. — Faremos o que estiver ao nosso alcance para salvarmos o império. — olhou para os companheiros que assentiram positivamente. No entanto, restava uma dúvida latente — Como vossa majestade se encaixa nisso tudo? Qual papel vai exercer?

— Como eu disse, sou a única que pode ter uma chance de reaver o imperador ajuizado que ainda amo. — disse ela, com determinação na face — Em outras palavras, a ação de vocês se tornará prioridade caso a minha fracasse. Mas não se preocupem, não vou errar a mão tão fácil quanto ele espera.

***

Área florestal de Raizenbool


Era como se uma vertigem aguda acometesse a mente e o corpo da jovem vidente. Cada sussurro com o mesmo peso de intensas badaladas de um sino que resultava em insuportáveis dores de cabeça.

Alexia, liberando um frio suor que molhava seus cabelos ruivos alaranjados, andava pelo corredor em cambaleios que, até certo ponto, a faziam segurar-se na parede tamanha era a concentração sensorial que fora descarregada. Sua face estava tomada pela aflição pulsante que descompassava o coração a cada efeito subsequente.

"Mas que tipo de energia é essa? Faz parecer que quer me derrubar ou me enfraquecer até a morte!"

Údon, sentado em um dos sofás da sala de estar, ouvira o arfar incessante vindo do corredor dos quartos e aguçou a atenção. Levantou-se depressa ao ver o estado da profetisa, correndo para apoia-la.

— A-Alexia?! O que está havendo? O ar está rareando demais pra você?

— Obrigada pela ajuda, Údon. — agradeceu, sendo conduzida pelo arqueu. — E por acertar o primeiro sintoma também. — sentou no sofá, pondo as mãos na cabeça com os olhos fechados. — Senti como se... — sua respiração ainda mostrava-se debilitada — ... como se um raio invisível tivesse me atingido, mas ao invés de sentir meu corpo queimar... a minha cabeça, minha mente, foi que sofreu o dano. Como uma bomba explodida e você afetado pelo pulso mesmo sem estar no lugar.

Naquele instante, Údon ficara pálido ao depreender, com máxima certeza, a razão.

— Isso não é nada bom. — disse ele, em tom baixo, como que esperando que sua eleita não ouvisse.

— O que disse? — indagou Alexia, virando o rosto para ele, à sua direita.

— Ele escapou... — disse o arqueu, transparecendo preocupação — O maldito liberou uma quantidade insana de energia a ponto de afetar você. Mas isso é normal. Aconteceu pelo simples fato de um profeta estar ligado e próximo a um arqueu numa curta distância.

— Espera, se refere a Yuga? — perguntou Alexia, se levantando. De uma de suas narinas escorria um filete de sangue — Então foi isso?! Por que não me disse antes?

— Esqueceu que inibi meu sensor justamente para não ser achado? Digamos que no fundo eu esperava você sofrer efeitos colaterais caso Yuga se libertasse com estardalhaço e agora esse momento passou, hora de nos concentrarmos em uma forma de agilizarmos as coisas. — disse Údon, enfático e firme. Visualizou o sangue saindo do nariz da profetisa, meio tímido ao apontar — Ahn... — apontou ao próprio nariz — ... está sujo aqui. Não se preocupe, certas descargas causam hemorragias momentâneas, o que não quer dizer que nesse caso seja grave só por estarmos lidando com algo...

— Só pare de falar, por favor. — disse Alexia, interrompendo-o, limpando o nariz com uma mão e depois pressionando com a cabeça inclinada para trás para estancar o sangramento.

Hector descia num ritmo rápido a escada que dava acesso ao segundo andar, no qual, em um dos quartos, está um depósito com algumas caixas pequenas de papelão que serviam de "reduto nostálgico" para fotografias e objetos caídos em desuso há tempos. O caçador trazia consigo uma das poucas fotos coloridas do "baú" onde nela mostrava Eleonor, em plenos 70 anos, segurando um bebê alvo como a neve e de realçados olhos cor de lápis-lazúli.

No mesmo instante, Lester retornara após realizar um check-up nas proximidades.

— Muito bem, pessoal. Tudo limpo. Sem armadilhas, sem subalternos babacas com seus brinquedos de ouro... Resumindo: Perda de tempo. — disse o caçador, olhando ao redor à procura de Áker — Cadê o ave de rapina? Isso foi ideia dele, só pra constar. Queria dizer à ele que precisa levar esse lance de possíveis ameaças um pouco menos a sério senão vai ficar paranoico. Mas em compensação, até que serviu para tomar um ar fresco, mesmo achando que poderia estar na minha cama sonhando que voltei à casa dos meus pais para comer a divina torta de maçã de Mra. Cooper. — olhou para Hector — E aí, Hector?

— Olá Lester. — cumprimentou-o, dando olhadelas na foto — Vou tomar a liberdade de resolver isso por minha conta. De uma forma ou de outra.

— Teve a ideia errada na hora certa, rapaz. — disparou Údon, arqueando uma sobrancelha — Yuga está à solta. Alexia sentiu a extensão do seu poder e pelo estado dela pude concluir que... — balançou a cabeça negativamente — ... ele maximizou a energia através da meditação. Há cinco dias parecíamos formigas, agora somos bactérias.

— Há quanto tempo foi isso? — perguntou Hector, preocupando-se.

— Poucos minutos. — disse Alexia, parecendo abatida — E pelo modo como senti... Tudo deve ter sido bem caótico.

— Nem posso imaginar como está o QG agora. — disse Hector, pensativo e desesperado. — General Holt... — voltou-se à Údon — Preciso arriscar uma opção. — destacou a fotografia — Rosie está lá ainda, em algum lugar, e devo tirar a prova ainda que minha vida se coloque em risco.

Údon mostrou-se um tanto irritado com a postura completamente teimosa do líder da Legião.

— Você deve? — indagou ele, o tom rude. Tomara a foto do caçador com rapidez — Me deixe ver... — olhou-a, arqueando as sobrancelhas — Bela senhora... bebê fofinho. Sim, é óbvio que esta foto é nossa garantia de salvação, já que Yuga, no nível de frieza e poder que alcançou, vai se deixar levar pelos sentimentos de sua escolhida que com algum esforço assumirá o controle até... sei lá, expulsa-lo com toda a sua força. — ironizou, devolvendo a foto.

— Não fico surpreso por reagir assim. — retrucou Hector, pegando de volta — E nem vou gastar minha saliva para convencê-lo. Eu acredito e confiarei nessa esperança até que uma luz surja e indique que as coisas voltarão a ser como eram.

— A única luz que provavelmente você verá pode pulveriza-lo até o último átomo. — rebateu Údon, descrente quanto à opção selecionada por alguém claramente movido a desespero — Sentimentalismo barato não vai trazê-la de volta. Yuga a pôs para dormir... Não serão meras lembranças do passado que vão desperta-la...

Repentinamente, o arqueu sofrera um baque súbito na forma de uma dor de cabeça que lhe pesava como blocos maciços de trocentas toneladas. Ganhando a atenção e preocupação de todos ao seu redor, Údon inclinou-se à frente com a coluna curvada e as mãos na cabeça, além de exprimir grunhidos rascantes.

— Será que isso pode ser Yuga? — perguntou Hector, tentando ajuda-lo.

— Não. — disse Alexia, afligindo-se — Ele não me disse que arqueus podiam sentir energia próximo a profetas, mas sim o contrário. Ou talvez seja algo diferente.

— Alguém tem uma aspirina? — indagou Lester, sem saber como auxiliar.

— Údon, tente se concentrar. — pediu Hector, tocando-o nos ombros — O que está sentindo? Aliás, o que significa essa dor?

— Esse... — dizia o arqueu, aos poucos recompondo-se, por fim abrindo os olhos — Esse desgraçado.

— O quê? Foi Yuga? — perguntou Alexia, curiosa.

— Ele sabe minha localização. — disse Údon, depois olhando para Hector com urgência — Exige que você vá ao encontro dele imediatamente. Caso recuse, virá até aqui e me matar.

— OK, o que esse monstro planeja dessa vez? — se questionou Lester, aborrecido pelo chamado.

— Hector precisa ir se quiser descobrir. — recomendou Údon, assumindo a gravidade das ameaças. — Provavelmente é sobre a negociação com Abamanu. A propósito, estive elaborando algo sobre aquele plano, por isso me tranquei naquele quarto vazio.

— Ah sim, isso explica as paredes estarem preenchidas com um monte de papel rabiscado. — apontou Lester, visualizando o arqueu com certa suspeita. — O que você tá escondendo?

— Saberão quando chegar a hora. — respondeu ele, com um sorriso levemente misterioso. Voltou-se para Hector, sério. — Tome cuidado, Hector. Ele tornou-se mais forte do que somos capazes de lidar.

O caçador assentira, o semblante que exteriorizava arrojo e revelava sua confiança inabalável.

***

Em algum ponto da floresta, Hector atentamente esquadrinhava com os olhos os seus arredores mantendo-se alerta a qualquer aparição surpresa que pudesse lhe soar perigosa, tendo em vista que o imperador solar culminara em sua irrefreável ambição destrutiva e sem qualquer limite.

— Vamos logo, apareça. — disse Hector, aborrecendo-se. — Não tenho o dia todo.

— Saiba que eu também não. — dissera Yuga, surgindo a alguns poucos metros de distância por trás do caçador que se virou estremecido, fitando-o com ódio além de notar as mudanças físicas que introduziu no corpo de Rosie, como por exemplo os cabelos alisados e mais compridos — Vamos direto ao negócios, Hector? Porque sinceramente separar uma quantidade de força só para tortura-lo até que se submeta aos meus termos não seria muito vantajoso para nós dois. Certo?

O caçador respirou fundo para enfrentar a tensão de modo seguro.

— O que você tem a mente agora? Só para deixar Údon e os outros longe das suas garras.

— Digamos que você precise abortar a missão número um, que é jogar aquela besta direto no limbo. — disse o deus solar, o tom sério, as mãos na cintura — Afinal, o ritual só pode ser feito uma vez a cada mil anos. O que vou fazer sem meu persistente inimigo na ativa logo quando mais quero rasga-lo em pedaços até não sobrar nada?

— Nunca acreditei que fosse dizer isso, mas... — Hector esboçou um fraco sorriso de canto — ... ele é o menor dos nossos problemas agora. Não vai se safar tão facilmente, usufruindo do corpo de Rosie como uma simples armadura... — sua postura tornara-se fragilizada — Jamais vou deixar de acreditar na força que ela possui. Isso era o que a movia a lutar, o que não a permitia desistir.

— Lamento informa-lo, pois ela já está quase no limite. — declarou Yuga, soando zombeteiro usando o belo sorriso de sua eleita para transmitir seu cinismo enojante — Eu a ouço gritar seu nome o tempo inteiro. Não faz ideia de como ela está sofrendo um inferno psicológico aqui dentro... O que quer que esteja disposto a tentar, ela não vai ouvi-lo. Em meu estado de paz interior e fortalecimento, criei uma barreira psíquica que impede que ela ouça até a si mesma. — estreitou os olhos — Escuto berros de dor, mas o que ela ouve não passam de sussurros vãos, não importa o quão forte ela tente ser.

Inesperadamente, Yuga expressou um desconforto que parecia aumentar a cada segundo, como se estivesse sendo vítima de uma profunda náusea. Inclinou-se para frente, aparentando sentir-se mal.

— Oh, veja só Hector... — disse o deus solar, a voz esganiçada e cansada — ... parece que sua amada... sua amada Rosie está querendo trapacear...

Tais sensações semeavam em Hector alguma esperança de que aquilo indicasse uma resistência. "Não estive errado no fim das contas? Será verdade que...", pensou ele, olhando com expectativa Yuga contorcer-se em grunhidos e gemidos dolorosos.

Em um instante, o desconforto cessou. O semblante entristecido no rosto de Rosie ergueu-se para o caçador que automaticamente elevou sua confiança.

— Hector. — disse a voz doce da jovem, olhando-o comovida. — Me diz como está todo mundo. Minha avó... o Áker, o Lester... qualquer um dos nossos amigos...

— Ro-Rosie...? — indagou o caçador, dando uns passos adiante em lentidão, a expressão de incerteza — É você? Como conseguiu alternar o controle?

— Não sei... — respondeu ela, balançando a cabeça — Não sei, eu... O que isso importa? — tentou sorrir — Eu consegui. É exaustivo, mas é possível. — uma lágrima escorrera pela maçã do rosto — Olha, antes que ele volte, só quero dizer... — ao que parecia, o deus solar forçava-se para reassumir o comando.

— Sim... Diga o que quiser. — disse Hector, empolgando-se, sem conter a emoção ao toca-la nos ombros.

— Eu... Eu am... — um brusco arquejo cortou a frase, fazendo-a baixar a cabeça a ponto dos cabelos loiros lisos ocultarem parte do seu rosto.

Uma tremulação nos ombros da jovem seguiu-se de uma risada infame. Confuso, o caçador procurou afastar-se, temendo, a partir dali, ter voltado a estar de frente ao deus. No entanto, pairava uma dúvida que talvez rejeitou devido aos sentimentos aflorados que o cegaram quanto a intuição.

O riso de Yuga tornara-se cada vez mais escarniante logo ao reerguer a coluna.

— O que é isso? O que é tão engraçado? — perguntou Hector, ríspido.

— Sua fragilidade com relação a... sentimentos, torna você digno de pena. — afirmou Yuga, intercalando com o mesmo riso — Mas enfim... Minha imitação foi convincente?

Um rosnado de cólera foi solto por Hector, reforçado pela sua face furiosa, quase que por impulso avançando contra o deus solar.

— Vou arrancar você dela... Não importa o que isso vá me custar!

— O seu mundinho triste e obtuso é que pagará o maior preço, a menos que... — disse Yuga, levantando uma sobrancelha e deixando a frase no ar por alguns segundos. Dera um novo sorriso sacana — Reconsideremos o acordo. — de repente, erguera de leve sua mão direita e a cravara no peito com extrema força, causando dano físico ao corpo de seu escolhida.

— O que está fazendo? — indagou Hector, estupefato, sua voz soando alarmada.

De dentro, o deus solar removera o coração ainda pulsante de Rosie e o mostrara ao caçador.

— Além de estar torturando-a por dentro, tem a ousadia de machuca-la fisicamente. — disse Hector, tentando não expressar insegurança. — Acha que isso me amedronta? Não conhece meu histórico.

— Não faz ideia do quanto eu conheço. — retrucou Yuga, em seguida relanceando o órgão que segurava com a mão direita encharcada de sangue. — Só para sua informação, eu posso fazer isso incontáveis vezes. Agora mesmo um novo coração está sendo reconstruído. Mas, por um instante, me ocorreu a ideia de perambular pelos cantos sem esse importante elemento de sobrevivência, pelo menos até que você e seu pequeno grupo de mentecaptos desistisse da ideia de me prender considerando que a quimera não representa um problema maior do que me tornei.

— Está dizendo que... — Hector fechou os olhos por um segundo, cansando-se daquela conversa — Cogitou deixar Rosie sem um coração para nos fazer desistir. Mas posso garantir que a ideia inicial era prender Abamanu. Você estava em segundo plano o tempo todo.

— Isso me deixa magoado. — disse o deus solar, claramente irônico. — No entanto, não o farão. O seu arqueu será inutilizado com meu ultimato. Acabo de ter uma excelente ideia. — jogara fora o coração da jovem para trás tal como um pedaço descartável de lixo — Esse poder... que me entorpece... confesso que me escapa a maneira correta de segura-lo. — fechara o punho — Muito embora ele me permita fazer pequenas coisas que podem se transformar em grandiosas. — abrira a mão, sendo que da palma crescia uma pequena esfera de luz alaranjada similar a um sol. — A quebra de fidelidade que você me fez suportar, Hector, me forçou a radicalizar os meus termos do contrato. — o caçador visualizava o pequeno sol com apreensão. O deus solar, telecineticamente, alçou a pequena esfera de energia solar aos céus. Por uns segundos, Hector acompanhou o lento elevar daquele que seria o trunfo infalível.

— O que significa isso? — perguntou o caçador, voltando seus olhos para o deus.

— Significa que a ampulheta foi virada. — afirmou Yuga, o tom ameaçadoramente sério. — Como eu disse antes, o seu mundo, este mísero pequeno planeta, pagará as consequências da sua desobediência. — mostrara a palma da mão esquerda — Este planeta tem apenas 5 horas até a destruição completa. A estrela que lancei é semelhante a que vocês conhecem, mas com alguns... aditivos. E em apenas 5 horas este planeta vai ser completamente consumido, a não ser que você entre em consenso com a quimera e se entregue de corpo e alma para que nossas diferenças sejam resolvidas de uma vez por todas.

— Exijo uma prova. — disse Hector, desafiador — Sei reconhecer um blefe quando vejo um.

— Então sua inclinação para tal está bem enferrujada. — rebateu Yuga, com sarcasmo. — Mas chega de delongas. O tempo está correndo. Logo mais saberá do que sou capaz quando me deixam esperando por um momento muito importante. Só depende de você. Além disso, estou pensando em algo que sirva de estímulo para que você seja diligente dessa vez. — fez uma pausa, propositalmente esperando que o suspense fizesse o caçador corroer-se em inquietude. — A cada 30 minutos uma população será varrida através dos meus incríveis poderes. Se não quiser que a pilha de corpos e toda a fumaça polua o ambiente... então eu sugiro que se apresse.

A postura de Hector resumia palidez e temor puros.

— Não... Não, não precisa seguir esse tipo de...

— Tarde demais. A estrela já ultrapassou a atmosfera. — disse o deus solar, interrompendo-o. — Melhor correr agora que os primeiros grãos de areia vão começar a cair... ou subir. — deu uma risadinha canalha. Por fim, desaparecera dali em nanosegundos.

Perdido em devaneios aflitivos, Hector, meio boquiaberto, encarava a assustadora gravidade que se cristalizava à sua mente enquanto inerte por alguns segundos no meio da floresta.

Aquele era o verdadeiro terror de sentir uma responsabilidade pesada demais aos seus ombros.

CONTINUA...