Capuz Vermelho - 3ª Temporada
64 Hecatombe (Parte 2)
Proximidades de Raizenbool
Bastante perto do topo de um morro, Yuga contemplava a relativamente grande cidade, sob o azul anil do céu. Cidade esta onde a profetisa de seu inimigo uma vez se refugiou para escapar de um hipotético destino cruel.
A brisa fazia a capa vermelha de Rosie esvoaçar lateralmente com beleza somada a luz solar que deixava a tonalidade ainda mais nítida e chamativa. O deus solar formou um sorriso ansioso, visualizando cada ponto da cidade à vários metros de seus pés, completamente vulnerável.
— Acho que o lance dos 30 minutos é passível de desconsideração. Meu acordo... minhas regras.
Lentamente foi esticando o braço direito, abrindo devagar a mão em direção ao centro da cidade.
A luminosidade amarelada característica irradiou com rapidez começando dos olhos e parecendo canalizar-se para os braços e, por fim, na mão que mirava seu alvo. Os fios dourados do cabelo de Rosie ventavam devido a imensa concentração, além da forte luz que envolvia o corpo.
Em algum ponto da cidade, uma menina de cacheados cabelos loiros e de vestido azul claro voltava acompanhada de sua mãe do mercado. Parou a caminhada logo ao notar uma estranha luz no alto do longínquo morro. Primeiro veio a confusão para em seguida deixar entrar a empolgação.
— Olha mamãe! — disse ela, apontando com entusiasmo — Viu só? Eu disse que elas existem! As fadas existem mesmo!
A mãe permaneceu em silêncio sem saber no que pensar ao acompanhar o olhar da filha.
— Filha, isso não parece nada com...
Antes que a mulher concluísse, a energia canalizada de Yuga foi disparada como um raio solar retilíneo que se enveredou até Raizenbool em alta velocidade.
A esmagadora explosão veio num tempo de 15 segundos após o disparo. Yuga entreviu uma forte ondulação de poeira irromper por toda a extensão seguido do brotar assustador e robusto "cogumelo de fogo".
O deus solar, indiferente ao retumbante estrondo que parecia não ter fim, foi envolvido por uma alastrante e densa nuvem de poeira aquecida.
***
Área florestal de Raizenbool
— Segurem-se em alguma coisa! — exclamava Údon, em total desespero em meio ao intenso terremoto provocado pela explosão que aniquilou toda a população da cidade mais próxima. O arqueu estava recostado com as mãos quase grudadas numa parede que rachava-se, sentindo as pernas bambas enquanto a casa sacudia-se violentamente. Numa estante, alguns vasos de vidro eram conduzidos direto ao chão devido à vibração potente.
Alexia tentara refúgio no segundo andar, mais tropeçando do que subindo. Já Lester deslizou no chão para debaixo da mesa da cozinha a fim de proteger dos pedaços do teto que caíam aos montes.
— Caramba! Isso é o fim do mundo! — disse o caçador, aturdido pela brutalidade do tremor.
Subitamente, o abalo cessou. Údon via pela janela quebrada uma enorme fumaça misturada à poeira cobrir a floresta como uma névoa abafada engolfando as árvores.
— Vocês estão bem? — perguntou ele, correndo para ajudar Alexia que se segurava firmemente no corrimão da escada. Lester, por sua vez, saíra da cozinha quase cambaleando. Údon olhara para ele enquanto ajudava a vidente a se levantar. — Como se sente, rapaz?
— Sinto meu corpo vibrar feito um liquidificador. — reclamou ele, com uma mão na cabeça meio zonzo.
Alexia tremia de nervoso, apoiando-se em Údon.
— Que coisa horrível... Foi assustador. — disse ela, a expressão atordoada. — Mas... acho que não foi pior do que o aperto que senti no meu coração. Údon, é a minha visão...
— O quê?! Se refere a...
— Previmos coisas diferentes sobre Rosie, certo? É o que quero dizer. Esse impacto, essa energia... As lembranças dessa visão maldita estão voltando à tona, a profecia está se cumprindo.
A entrada repentina de Hector fez todos arregalarem os olhos de atenção. O caçador deixou a porta escancarada, adentrando com urgência e ofegando.
— Hector. — disse Lester, indo em direção ao amigo, em seguida abraçando-o. — Achei que aquele desgraçado tinha feito você virar carne defumada. — olhou profundamente nos olhos — O que diabos foi isso? O que foi que ele... quero dizer, ela... — balançou a cabeça em negação rapidamente — Enfim, você sabe que merda acabou de acontecer?
— Eu estou bem, Lester, não se preocupe. — disse Hector, tocando no ombro do caçador em agradecimento, logo olhando para Údon e Alexia — Enquanto corria no meio do terremoto, olhava para trás e tive a leve impressão de ter visto uma nuvem de explosão enorme... vindo de Raizenbool.
— Por isso toda essa fumaça... — disse Alexia, a fala comovida. — Ai, não... — seus olhos marejaram ao imaginar a situação — Ele não teve... não teve essa coragem...
— Sim, Alexia, acredite, ele fez. — interrompeu Hector, olhando-a sério. — Agora não se trata mais só de Rosie. Mas do mundo inteiro. A morte de todas essas pessoas... — baixou a cabeça — Eu juro que não terão sido em vão. Eu juro! — falou, erguendo a cabeça ao segurar as lágrimas numa expressão de ódio profundo pelo ato traiçoeiro cometido pelo deus que vai contra um dos termos.
A vidente desviou o olhar lacrimoso para um canto, prestes a desabar em prantos pelas vítimas do fatal ataque.
— Mas que miserável, filho da... — disse Lester, revoltado, cortando a frase para não soltar um palavrão. — A gente tem que correr com esse plano. Esse deus maluco passou dos limites.
— É aí que você se engana. — retrucou Hector para o amigo, depois voltando os olhos para Údon — Vocês ainda não viram nada. — neste instante, Lester foi em direção à porta para fecha-la
— Hector nos fale de uma vez. — pediu Údon, ansioso — O que Yuga decidiu aprontar para deixar você assim tão agitado? Está tenso demais e certamente não foi só a explosão.
— O que pode ser pior do que todo o planeta ser transformado num campo minado? — questionou Lester, voltando à conversa.
— O planeta ser devorado por um tipo de estrela similar ao sol em poucas horas. — disparou Hector, firme no tom, mas ao mesmo tempo não escondendo seu medo — Ele se tornou tão poderoso ao nível de criar estrelas e inserir nelas habilidades diversas. E a função da que ele lançou no espaço é exatamente consumir matéria sólida até... — encarou o nada, tensamente pensativo — até atingir o tamanho do nosso sol. Talvez até esse estágio... já nem haverá mais chance de sobrevivência.
Alexia se mostrou inconformada ante a postura pessimista do caçador.
— Está falando como se quisesse desistir! — disse ela, aproximando-se a passos largos numa expressão de reprovação. — Pense em como Rosie se sentiria caso tivesse a chance de saber o que Yuga está fazendo. Como ela ia se sentir se soubesse através dele que seus amigos falharam. Hector, não estou te recriminando, mas pense um pouco. Pessoas inocentes morreram. Jurou que não ficaria por isso mesmo. Agora é sua vez, a sua oportunidade de fazer dessa promessa uma realidade.
A concordância de Údon se exibiu clara.
— Ela tem razão. Yuga está testando a todos nós, mas é você que ele deseja atingir em primeiro lugar porque você é a coisa mais próxima de um irmão que Rosie teve. Portanto, deve se decidir quanto a negociar com Abamanu a liberdade do mago do tempo e, claro, a última arma que falta para o ritual.
O caçador passara alguns segundos imerso em pensamentos confusos que se amontoavam em uma espiral de dúvidas e incertezas alimentadas pelo medo crescente.
— Ele disse que... a ampulheta foi virada. Agora sei o que quis dizer. A ampulheta possui dois compartimentos de vidro, tendo o de cima uma quantidade de areia que será escoada ao de baixo. A Terra simboliza o compartimento superior... e a estrela o inferior. É... — deu um fraco sorriso nervoso — De alguma forma subestimei a esperteza dele, admito.
Áker surgira de repente no meio do recinto, assustando a todos.
— Peço perdão se demorei muito. Sei tudo o que aconteceu nos últimos minutos. A população da cidade há quilômetros daqui... foi completamente dizimada.
Alexia suspirou com forte pesar após o arauto dar a certeza absoluta dos fatos.
— Consigo sentir uma energia familiar... — disse Áker, pensando no detalhe que o intrigava — ... emanando constantemente e aos poucos aumentando. Está inerte, mas sob controle.
— Yuga pretende destruir o planeta com um sol criado por ele mesmo caso eu não recorra a Abamanu e faça o acordo. — informou Hector. — Temos apenas 5 horas, segundo ele.
Údon foi se aproximando do arauto para um ato prestativo. Colocara sua mão esquerda sobre um ombro do sentinela solar com os olhos fechados, transferindo algum tipo de energia.
— De nada. — respondeu o arqueu, com um leve sorriso amigável.
— O que foi isso? — indagou Áker, franzindo o cenho — Eu não entendi. Você...
— Precisa se manter fora do nosso rastro se quiser sobreviver à isso. — recomendou Údon — Não é que estejamos preterindo você, mas a questão, na verdade, é relacionada a possíveis represálias de soldados que Yuga não sabe estarem subordinados à Sekhmet. Por via das dúvidas, dividi com você minha ocultação de energia no caso dele deduzir ser você o mandante dos ataques. Nos deseje sorte no plano.
— Não sei o que dizer, é... é muita gentileza sua, Údon. — disse o arauto, gratificado. Olhou para o trio de mortais — Vocês vão conseguir. Especialmente você Hector. — estendeu a mão direita ao caçador que retribuiu em um aperto amistoso — Cuidado redobrado quanto à Abamanu. Lembre-se daquela vez na fábrica. Ele quase teve você na palma da mão.
— O farei cair. Údon, por sinal, esteve trabalhando numa ideia que pode ser crucial quando chegar a grande hora. — disse Hector, olhando com orgulho para o arauto — Salve-se.
— Irei tentar. — disse Áker, sorrindo levemente, tomando seriedade logo em seguida ao se afastar. — Boa sorte a todos. — assentiu aos demais e, por fim, sumira num piscar de olhos.
O telefone tocara, surpreendendo aos presentes, sobretudo Lester. Ligações àquela hora crítica passavam anos-luz de serem aguardadas ou tratadas com importância.
— Alô? — disse Lester logo ao atender. — Sim, sou eu George, Lester Cooper, ao seu dispor. O que você me traz? — deu uma olhadela aos demais — Espera aí, vai devagar... Sim... Ah, então você era um dos recrutados do Exército nas operações de resgate... O quê? Rosie... OK... deixa isso por minha conta, eu a conheço melhor, fomos praticamente namoradinhos de infância — nesse instante, Alexia revirara os olhos — ... Ótimo, sei onde é... George, é sério, deixa comigo, eu sei que é estranho, mas posso fazer isso sozinho, não tentem ir longe demais pois podem acabar morrendo do mesmo jeito... Tudo bem... Até mais. — desligara, depois fitando as expressões preocupadas de Hector, Alexia e Údon. — Pessoal, a coisa esquentou em um banco lotado em Londres, literalmente. Um dos caçadores estava nos arredores e viu quase tudo. O deus pirado atacou de novo. Tenho que investigar.
— Até onde essa sede de morte e caos pode ir? — se perguntou Alexia, nervosa. — Se todo esse poder acabar matando-o, vai matar Rosie também.
— Eu duvido. — disse Údon, um tanto incerto. — Lembre-se que a ligação que Yuga possuía com sua energia bruta foi restabelecida e agora compartilha do poder da fênix apoteótica.
Hector retirara do bolso as chaves do carro e jogara-as para Lester.
— Tome muito cuidado, Lester.
— Pode deixar. — disse ele, pegando as chaves e indo em direção à porta. Porém, virou-se demonstrando dúvida — Você fala de mim ou do carro?
— Pra ser honesto, de ambos. — disse Hector, dando um sorriso de canto.
Algumas agitadas batidas na porta quebraram o silêncio.
— Eu atendo. — disse Alexia, prestando-se a ir até a porta.
Ao abrir, a surpresa foi instantânea.
— Você é...? — indagou a vidente, estranhando o tal homem de meia idade que vestia uma roupa característica de um safari.
— Oh, que bom estar ocupada. — disse, ajeitando os óculos ao olhar o interior do Casarão — Muito prazer, me chamo Maximilliam Lenox, talvez tenha ouvido falar de mim, sou um honrado cientista. — falou, dando um aperto de mãos em Alexia — Não pude deixar de lado minha vontade de invadir essa casa, confesso, mas minha educação falou mais alto. Estava no meio de uma pesquisa de campo conjunta quando o chão estrondou de repente e logo que vimos a fumaça corremos, querendo lutar por nossas vidas, imaginando ser um bombardeio nuclear inimigo. — fez uma pausa, olhando-a meio desconcertado — Estou tagarelando, não é?
— Ahn... Olha, eu não sei se devo...
Hector cortara a fala da vidente logo quando se direcionou ao pequeno corredor da entrada para ver de quem se tratava. Foi difícil para o caçador disfarçar o espanto.
— Dr. Lenox?!
— Olá... jovem. — respondeu o cientista, sorrindo meio nervoso. — É o proprietário desta casa?
— Um deles. — disse o caçador — Ouvi um pouco do que o senhor disse... Se quer um refúgio para se acalmar, então achou o lugar certo. — mostrara-se solidário com a situação do homem perdido — Pode entrar.
***
No ponto mais movimentado do centro de Londres, algumas pessoas paravam suas andanças ao testemunharem um estranho fenômeno que consistia basicamente em seus acessórios pessoais sendo atraídos para cima como se um imã invisível estivesse pairando sobre os céus.
Relógios, anéis, colares, brincos e pulseiras eram puxados por algum tipo de força magnética, deixando seus proprietários estupefatos e, consequentemente, sendo alvos das atenções confusas e intrigadas das pessoas ao redor que, segundos depois, também foram "roubadas", arrancando delas arquejos de pânico. Indagações paralelas tomaram conta e o estado de temor generalizado consumava-se e espalhava-se como um vírus.
Acima da exosfera, o pequeno sol começava a obter volume. Já haviam se passado 30 minutos.
***
O exército de 50 quiméricos marchava rumo ao confronto que decidiria o futuro, em meio a uma área despovoada e carente de vegetação sendo composta, em grande parte, por morros, planaltos e serras.
O refulgir da luz solar fazia brilhar as pelagens azul-acinzentadas dos lobos bípedes — armados com suas lanças prateadas. Sob o comando daquela "orquestra" mortífera, estava o amargurado Cavaleiro da Noite Eterna, andando na frente sem o menor resquício de desistência lhe fazendo dar meia volta.
Dos amarelos olhos lupinos de sua receptáculo, Mollock, transbordava toda a ira de um coração traído que só alimentava um sentimento que perdurou desde o fim do primeiro embate: vingança.
Andar em plena luz do dia deixava-o aborrecido, entretanto inevitável era a escolha. O fracasso do plano anterior, infelizmente, o forçou a apelar para seus inveterados guerreiros, por piores que fossem as possibilidades imaginadas, levando em conta o quão imprevisível tornou-se Yuga.
O deus solar surgira diante do aqui-inimigo surpreendentemente, com o mesmo sorriso debochado no rosto de Rosie Campbell.
— Apontem! — bradou Abamanu, ordenando os soldados a miraram as pontas de suas lanças em Yuga.
— Senti sua energia em movimento, mas acho que me levei demais pelas expectativas. — disse o deus solar, olhando-o dos pés à cabeça.
— Não fale comigo como se fosse um mero encontro casual. — retrucou o deus lunar, quase espumando pela boca. — Já fazem séculos. E durante todo esse tempo só fiquei a pensar em um modo menos trabalhoso de extermina-lo com minhas garras.
— Vamos mesmo levar essa discussão adiante? — indagou Yuga, arqueando uma sobrancelha — Nem está apto a lutar comigo de forma justa. Pode mandar seus lacaios atirarem, não me importo. Eu quero uma vingança perfeita. Você sabe bem do que estou falando.
— Continua arrogante achando que pode jogar as melhores cartas só porque está na frente do jogo. — disse Abamanu, controlando seus impulsos. — Com um exército de um soldado só.
— Se quer um trabalho bem feito faça você mesmo. — rebateu o deus solar, dando de ombros. — Não troco este poder único por um bando de soldados patetas. Já tenho tudo. Você, por outro lado... — olhou-o com escárnio — Numa casca degradável e no comando de um exército reduzido. Não chega nem perto do deus implacável que teve o privilégio de me enfrentar por horas a fio. Nesse cenário, percebo que não está muito longe de se qualificar como a besta quadrúpede e desprovida de inteligência que devia ser desde o início. Uma coleira no seu pescoço cai muito bem ao invés de uma armadura super-resistente.
— Por acaso já se viu num espelho hoje? — questionou Abamanu, tentando zomba-lo. — Não vou mentir... Está bem desprezível para alguém que reluzia feito ouro. — fez uma pausa, mantendo a postura soberba — Vou tomar suas ofensas como um convite aos meus subordinados para descarregarem tudo em você.
— O abismo que nos separava cresceu potencialmente. — declarou Yuga, andando para seu lado direito — Você vir até aqui tão confiante é como querer fazer um buraco num profundo oceano congelado, mas não tem forças para sequer arranhar a superfície.
— Nossas diferenças não foi exatamente o que motivou nosso desafeto. — disse Abamanu, querendo referi-se sobre o quanto sentiu-se desvalorizado e enganado durante todo o acordo.
— Ah... elas foram sim. — disse Yuga, esticando lentamente seu braço direito aos quiméricos — Eu cumpri minha parte do acordo. Você jogou sujo. Como esperava que eu reagisse? — o braço enchera-se de labaredas — Mas agora... tenho um parceiro que certamente não vai ousar me trair. Não de novo.
Yuga lançara sua assoladora rajada de fogo contra todo o exército quimérico, um por um sendo cruelmente incinerados, suas lanças caindo no chão queimadas.
— Nãããoooo!! — gritara Abamanu, atônito, sua voz quase soando um rugido e suas presas à mostra. Assistira cada um de seus soldados reduzirem-se a cinzas. Por um instante, pensou em avançar. Mas um lampejo de sensatez o convenceu que o melhor ataque seria a paciência.
O deus solar sorriu, esbanjando satisfação ao ver que do exército oponente sobraram apenas "poças" de fogo.
— Então... sobre o meu novo parceiro... — disse Yuga — ... ele é uma das peças que falta para ficarmos pareados. Dei a ele um tempo-limite para que o achasse e não vai demorar.
— Hector está vindo atrás de mim?! — perguntou o deus lunar, o tom ríspido. — Mas o que...
— Desculpe atrapalhar o reencontro caloroso — disse Sekhmet, por trás de Yuga, interrompendo-se bruscamente a conversa -, mas agora é assunto de família.
— É melhor espera-lo. — disse Yuga, olhando desdenhoso para a esposa e dirigindo a palavra a Abamanu — Se duvidar, ele já pode estar lá agora mesmo. Como estou no controle, decido como será. — voltou seus olhos ao imperador — Será uma luta justa se o destino for cumprido. Se preciso, abra sua cripta secreta. Pensa que não sei o que há lá?
— Tudo, menos isso. — devolveu Abamanu, encolerizado. Relanceou uma impaciente Sekhmet. — Droga... — teleportou-se de volta ao palácio, rendido à curiosidade.
— Enfim, a sós. — disse Yuga, claramente desinteressado em continuar de onde pararam. — Você não vai me deixar em paz nem por um minuto, não é? Eu tinha deixado claro que não jogamos mais no mesmo time.
— O pacto que selamos foi um caminho sem volta. — argumentou a deusa, séria — Ainda somos família, goste ou não. Mihos entrou em contato e me disse ter realmente tentado mata-lo. Disse também que você cavaria sua própria cova estando viciado nesse poder.
— Sei medir meus limites. — retrucou Yuga.
— Não, não sabe! — disse Sekhmet, aproximando-se com aborrecimento — Eu daria tudo para sofrer a sua dor. Foi essa minha intenção desde o início. Mas você decidiu confundir minha consideração com egoísmo. Não confiou em mim. Preferiu insistir numa rixa estúpida, e eu fui a egoísta na história. Eu quis salva-lo!
— Não, Sekhmet, você queria sentar confortavelmente no meu trono. — disparou o deus solar, sem dó. — Se olhar mais a fundo, poderá perceber que, no fim das contas, o objetivo sempre foi o império de volta aos tempos de glória. Você não acreditou em mim, eu não acreditei em você. Ficamos nesse impasse. — deu as costas devagar, emanando mistério — A partir do momento em que Rosie Campbell beneficiou o meu destino em detrimento do próprio, vi ali a chance de fazer minhas regras sem me agarrar a mais nada. — retirou uma adaga dourada que Rosie havia guardado no cinto, passando o indicador sobre a lâmina — Quero me divorciar do império. De tudo que me prendia.
— Mas e quanto a mim? — perguntou Sekhmet, tocada, chegando perto. — Ainda significo algo pra você? Existe aí dentro um vestígio do rei que escolhi ter ao meu lado?
Alguns segundos de silêncio tornava o clima desconfortável. O olhar triste da deusa ganhou mais brilho.
— Não. — respondeu Yuga, logo virando-se de inesperado ao cravar a lâmina dourada no abdômen do receptáculo da deusa. A beijou nos lábios como que para facilitar o desapego ou satisfazer o desejo da deusa pela última vez num lapso de piedade. A faca havia sido transmutada de uma convencional para uma especial, a mesma que Mihos usara na tentativa frustrada de matar o pai. Sekhmet, boquiaberta, exprimiu gemidos lentos, baixando os olhos para a mancha de sangue formada na roupa de espiã de Betsy Rossman — Não há mais império. Nem mais família. Nem você e eu juntos.
O último olhar dado pela deusa fora de pura frustração antes da luz amarela irradiar de dentro para fora sinalizando sua morte. O corpo de Betsy Rossman carbonizava-se até, enfim, cair — a luz que saía dos olhos e da boca apagando-se rápido.
— Covarde! — gritou uma voz masculina. Tratava-se de um dos sentinelas aliados à Sekhmet, com mais outros dois, todos abismados com a morte trágica daquela que sucederia o reinado.
— Era só o que faltava... — disse Yuga, visualizando-os com desprezo. Abriu os braços. — Vamos lá, façam seu julgamento! Eu fiz o que tinha que ser feito!
— Nós também faremos o que achamos ser certo. — disse o do meio, olhando para os companheiros. — Prontos? — perguntou, cerrando os punhos. Os dois sentinelas tocaram nos ombros de seu líder com os olhos fechados. Uma centelha de energia brotou do peito do líder, cujos olhos e boca irradiaram, descarregando-a na forma um raio reto que atingiu Yuga certeiramente.
Porém, o tempo de efeito não foi o estimado. O deus solar se manteve de pé, com filetes da energia do ataque passando pelos braços e no rosto como se fossem veias.
— Mas o que... O que deu errado? — se perguntou o líder, consternado.
— Foi só isso? Ela mandou que atacassem sem dar maiores detalhes sobre o alvo? E justo com esse golpe tão previsível...
— É como se tivesse... absorvido. — disse o da esquerda, recuando. — Vamos fazer a transferência novamente?
— Eu acho que não. — decretou Yuga, erguendo sua mão direita e movendo-a como se espantasse uma mosca numa só vez. Imediatamente ao movimento, os três sentinelas foram varridos em cinzas como poeira se dissipando no ar.
Pouco depois, o céu produziu trovões com algumas nuvens carregadas e parecia abrir-se num círculo do qual despontava uma forte luz. Mais uma tentativa de ataca-lo brutalmente.
Ao olhar para cima, o deus não intimidou-se e abriu novamente os braços — os cabelos e a capa esvoaçando com ondulação de poeira ao seu redor.
— Podem vir. — disse ele.
A rajada solar — controlada por mais de 20 sentinelas em algum lugar não tão distante dali — desceu retumbante até o solo, atingindo o deus com toda a potência, além de causar estragos em seus arredores próximos.
CONTINUA...
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