No Casarão, Hector limitava-se a andar vagarosamente de um lado para o outro na sala, próximo à uma das janelas, ora pondo juntando as mãos e pondo-as diante dos lábios, ora esfregando-as de leve.

Alexia e Údon permaneciam pacientes, sentados cada um em sofás diferentes. O arqueu estava reflexivo com os braços apoiados sobre os joelhos e inclinado à frente, enquanto que a vidente roía uma de suas unhas da mão esquerda sentada com as pernas cruzadas. Do lado de fora, não havia mais indícios da fumaça provinda da devastadora explosão em Razienbool.

O silêncio que reinava absoluto, enfim, quebrara-se. Hector reagiu com sobressalto ao toque do telefone, logo correndo para atender.

— Lester? — disse, crente que seria o amigo. — É você?

No banco, o caçador estrategista verificava após passar pelas faixas amarelas e dizer-se um agente federal, falando num telefone conectado à parede ao mesmo tempo em que observava o que havia sobrado das vítimas que sofreram a ira do poder de Yuga.

— Sim... Cara, você não vai acreditar.

— Por que não tenta? Estou quase ciente de que não há nada vindo de Yuga que possa me surpreender ainda hoje. — disse o caçador, ansiando pelas informações.

— Bem, segundo algumas testemunhas sobreviventes, era uma garota loira, pálida e aparentemente fantasiada. Por muita razões ela chamou bastante atenção. Só pra encurtar a história, um grande clarão de cegar os olhos foi visto, teve até gente que ficou literalmente cega só de encarar por muito tempo. Todo mundo aqui dentro virou sopa, se é que você me entende.

— Quer dizer então que... — Hector estreitou os olhos — ... os corpos das vítimas foram liquefeitos?

— Afirmativo, capitão. — confirmou Lester, fitando o chão coberto por uma gosma quente, meio rosada meio avermelhada com várias roupas grudadas no fluido que se misturava à pedaços de carne derretidos. — Melhor eu ir... Todo esse fedor, essa loucura toda tá me deixando enjoado, então vou desligar, já tô começando a sentir a bile subir pela garganta.

— OK. Volte o mais rápido que puder e ignore qualquer caçador que esteja planejando matar Rosie, nem tente convence-los de que estão enganados. — aconselhou Hector. — Está bem. Até. — desligou, logo fechando os olhos por um segundo pelo teor da notícia lhe deixar um gosto amargo na boca.

— Chacinas sem sentido também fazem parte de todo esse joguinho sádico? — questionou Alexia, inconformada. — Hector... — levantou-se depressa — ... agora que lembrei, temo pela vida de Eleonor, se Croydon for o próximo alvo...

— Fique calma, Alexia, o jeito é torcermos para que os lugares onde nossas famílias estão não sejam atingidos. — declarou o caçador, tentando aclama-la ao se aproximar dela — Uma cidade a cada meia hora. Ele não foi muito específico. Plantou essa dúvida em mim para testar meu desespero. Primeiro Raizenbool. Qual será a próxima? Londres, Birmingham, Liverpool, Cambridge... e se não for apenas restringido à Inglaterra?

— Meus tios vivem na Irlanda e meus pais em Cambridge... — disse a vidente, o ar aflitivo. Balançou a cabeça negativamente, atormentada, andando alguns passos — Ai, se tudo piorar, vou acabar enlouquecendo, esse monstro maldito tem que ser parado e responder por tudo o que fez seja lá em qual inferno ele tiver que ser jogado pra apodrecer. — falou, seu tom manifestando raiva.

— E ele vai pagar. — disse Hector, a expressão de decisão pulsando. Ele se voltou a um silencioso Údon, andando alguns passos na direção dele — Estou pronto. Não temos mais tempo a perder.

— Por um instante, pensei que só resolveria nos últimos minutos quando tudo estivesse à beira do colapso. — disse o arqueu levantando-se — Não vou demorar. — falou, dirigindo-se à Alexia — Realmente está preparado?

— Mais do que nunca. — respondeu o caçador, exalando firme seriedade. Tocou no ombro do arqueu.

Údon assentiu positivamente. Ambos teleportaram-se em nanosegundos, deixando a jovem vidente sozinha no aguardo pelo retorno de Lester.

Porém, ela lembrara-se do Dr. Lenox e suspirou com desânimo ao ouvi-lo reclamar do chuveiro por conta do fornecimento de água prejudicado pela explosão.

***

Croydon

Cravada no solo, à frente da sua casa, estava uma tábua de madeira cuja parte superior tinha pregada uma placa branca que dizia "Aluga-se" em letras garrafais. O olhar emocional e prematuramente saudosista de Eleonor durou por uns bons minutos de pura reflexão sobre os momentos que vivenciou naquela residência com a jovem mulher cuja vida transformara de certa forma, ajudando-a a converter-se numa garota assustada demais com seu dom a uma mulher forte que se adaptou em pouco tempo e aceitou seu destino mesmo que houvesse um caminho seduzente e, em essência, sombrio. "Adeus, Alexia. Onde quer que esteja, espero que um dia encontre a paz que você não achou ao meu lado. Mas em compensação a fiz crescer e desejo, profundamente, que use essa evolução a seu favor contra qualquer dificuldade que surgir pelo caminho. A vida de um profeta é repleta de espinhos, abismos e pedras. E sei que vai conseguir dar a volta por cima quando estas horas difíceis chegarem, eu a encorajei a despertar esta força. Agora chegou a hora de seguir meu caminho.".

A bruxa usava um vestido preto com alças que ia até os joelhos, além do seu inseparável colar de esmeralda. Ao enxugar uma lágrima, respirou fundo e sorriu com orgulho. Pegara sua mala e virou-se em direção ao seu novo rumo onde sua esperançosamente almejava reencontrar Evelyn.

Para sua surpresa, havia um táxi estacionado numa rua quase deserta, em um ponto vizinho a um parque ecológico com árvores altas que faziam sombras convidativas. Apertou o passo, animada.

Ao nota-la, o motorista acenou com o polegar para cima confirmando a carona. A bruxa pediu licença para por a bagagem no porta-malas. Após feito, entrara e sentara-se no banco de trás, exibindo felicidade que mal aquietava. Notou um embrulho no banco ao lado do motorista, mas ignorou.

— Direto para a estação, por favor. — pediu ela, o tom suave.

Uma pequena demora de pouco mais de 5 segundos pareceu estranha. O motorista virou-se... porém, o que a bruxa viu pareceu esmagar seu entusiasmo. Foi como um soco no estômago que lhe privava de ar.

— Você... Não... Não pode ser... — disse Eleonor, a face sendo tomada pelo medo.

Uma de suas perseguidoras roubara o veículo, disfarçando-se com a roupa cinza e o quepe da mesma cor, sendo esta uma bela mulher ruiva de sorriso de batom vermelho infame e, em simultâneo, atraente. Eleonor, num ato desespero, tentou abrir uma das portas.

— Bem, é mesmo uma pena que não terá a chance de admitir a derrota. — provocou ela. Eleonor a olhara aturdida e boquiaberta — Nos vemos no inferno, vadia.- disse a bruxa, sacando um detonador conectado ao tal embrulho.

Apertou o botão e o carro explodira instantaneamente, a nuvem de fogo, misturada a uma fumaça negra, erguendo-se à altura das arvores.

***

Palácio subterrâneo de Abamanu

O local onde foram parar era de um aspecto tenebrosamente cavernoso. Hector, ao lado de um temeroso Údon, esquadrinhou com os olhos as paredes rugosas, com algumas tochas que ofereciam uma aceitável iluminação, daquele que acreditava ser o possível confinamento do estimado e sofrido mago do tempo.

— Tem certeza de que é o lugar certo? — perguntou o caçador, ainda desconfiado.

— A mais absoluta certeza de todas. — disse Údon, logo visando uma sombra robusta que aproximava-se deles à poucos metros. — Talvez seja melhor você assumir daqui. Boa sorte, amigo.

Hector assentiu para o arqueu que desapareceu num piscar de olhos.

Como um espectro umbroso, Abamanu surgiu na direção do caçador e soltou um grunhido de espanto ao se deparar com ele, estacando no mesmo instante com a luz das tochas banhando-o.

Encarando-o com seriedade, Hector manteve-se numa postura corajosa.

— Dessa vez não estou com uma pedra mágica no meu corpo.

— É tranquilizante. — disse o deus lunar — Por um instante, me passou pela cabeça que ele estivesse tentando me enganar para me fazer cair numa armadilha do tipo que me deixasse sem saída a ponto de não ter escolha de, no fim das contas, enfrenta-lo com este corpo. Pela primeira vez em tempos, ele foi honesto comigo.

— Se cruzaram para um confronto? — quis saber o caçador, dando uns passos adiante.

— Eu cometi um erro. — disse Abamanu, soando lamentoso — Agora entendo o preço da confiança exacerbada. Me dói profundamente ter de admitir isso, mas tenho de fazê-lo. Não posso conseguir sem você. Eu preciso de você, Hector. — foi se aproximando — Não tenho mais nada a perder. Meu exército foi massacrado pelas chamas do ódio que aquele miserável sente por mim.

— E você acreditou que eu deveria me sensibilizar por seu luto? O seu orgulho ferido? Você realmente não me conhece. — retrucou Hector, severo. — Meu coração pode conseguir ser tão frio quanto o seu, mas jamais me entregaria em sacrifício. Não foi pra isso que vim. Minha barganha é bem diferente.

— Já posso adivinhar. — disse Abamanu, com cinismo — Tem a ver com um certo mortal com potencial divino desperdiçado... — apontou o polegar esquerdo para trás — ...que está logo ali atrás se martirizando em lamentos.

— Não seja ingênuo se pensa que vou dizer sim para deixa-lo entrar em troca da liberdade de Charlie. — declarou Hector, a expressão rígida — Preciso que o liberte pois precisamos do sangue dele para realizar a abertura do portal do Vazio e prendermos Yuga. É isso ou... — fez uma pausa, estreitando os olhos — ... podemos considerar destrancar sua cripta como medida desesperada.

— Já ressaltei no nosso último encontro que a cripta deve permanecer lacrada. — enfatizou Abamanu, o tom rascante e áspero. — Lembra-se do que falei a respeito de minha filha e de meu ato inconsequente? Eu não posso me dar ao luxo de persistir neste erro para rivalizar com Yuga. Além do mais, o poder está fixado á ela, o que torna impossível uma transferência ao antigo portador. Teria de prender nós dois caso saíssemos da linha.

"Na verdade, esse é o plano", pensou Hector, estabilizando a paciência.

— Então aceite libertar Charlie. Só precisamos de apenas uma arma divina para criar a chave. Údon fará o ritual.

— É claro que fará. Somente um arqueu idiota é capaz de abrir a pior de todas as prisões. — disse Abamanu, soando ríspido. — Aliás, eu percebi sua presença. Aquele covarde...

— Vai matar as saudades se entrarmos em um consenso. — garantiu Hector.

Um grito distante e agitado quebrou a atmosfera, ressoando pelo subterrâneo. A voz soou inconfundível aos ouvidos do caçador que alterou sua expressão.

— Hector! É você? Hector!!! Estou aqui!!!

— Charlie... — disse ele, em tom baixo, sendo atraído pelo chamado implorante. Correu na direção. O deus lunar teleportou-se para barrar sua passagem em clara demonstração de suspeita em relação ao plano. — Saia do meu caminho, eu vou vê-lo!

— Determino que só o verá quando eu decidir se aceito ou não ser parte disso.

— O tempo está se esgotando! — disse Hector, exaltando-se — Em um prazo de 5 horas o mundo será vítima de um fenômeno que pode destruí-lo completamente. É o ponto de partida da sua expansão imperial sendo perdido por causa da sua arrogância! Disse à Yuga que você é o menor dos nossos problemas e ele me testou... até o baixíssimo golpe de mexer com meus sentimentos sobre Rosie.

— Sou eu quem digo agora:- disse, inclinando-se para o caçador — Eu deveria me importar com sua perda? — fez uma pausa, fitando-o — Somos mais parecidos do que imagina.

— Acho que tem razão. — respondeu Hector, concordante. — Mas quero fazer valer nossas diferenças. Você pelo império e eu por Rosie. É o que acontece quando há inimigos em comum.

Um breve momento de silêncio pareceu durar minutos. Era de se esperar um certo azedume por parte de Abamanu em ser obrigado a unir forças com aquele que rejeitou seu destino.

O deus lunar estalou os dedos, logo destrancando a cela na qual Charlie estava confinado. O mago do tempo franziu o cenho, levantando-se do chão totalmente confuso. Viu uma sombra familiar se avizinhar. "Não posso acreditar... Deve ser um truque, algum tipo de ilusão... Hector nem deve estar...". Seu ritmo cardíaco acelerou ao divisar a forma do acompanhante de Abamanu, quase ignorando a presença do deus lunar para focar sua atenção no visitante.

— Isso é mesmo real? — se perguntou o jovem, seus verdes olhos realçados.

Hector finalmente aparecera à luz das tochas esboçando um sorriso fechado e amigável.

— Hector... — o mago do tempo deixou formar seu sorriso de alegria para depois correr até o caçador como se mal controlasse as pernas. Um forte, longo e apertado abraço realizou-se. Abamanu assistia ao reencontro com uma expressão dura e indiferente.

— Finalmente você voltará para casa, para junto de nós. — disse o caçador, emocionado. — Alexia o espera ansiosa.

— Eu sei. — disse Charlie, derramando uma lágrima em sua expressão comovida e ao mesmo tempo feliz. — Espero por isso há dois anos. — relanceou Abamanu, ficando sério ao vê-lo com o escudo prateado — Agora me diz como isso foi possível.

— Temos um plano formidável para deter Yuga. — informou Hector para acalma-lo — Abamanu nos dará sua espada como a arma que falta para abrirmos o portal.

— Espere um minuto. — disse o jovem, alarmando-se de repente — Pretendem jogar Yuga no Vazio com Rosie ainda possuída? Me diga que esse não é o único jeito, por favor...

— Não, é claro que não faremos isso, de forma alguma. — negou Hector, tocando-o no ombro — Felizmente temos alguém especialista em desfazer possessões.

— O medíocre traidor. — disse Abamanu, com amargor.

— O seu escriba. — disse Charlie. — Como você especulou, realmente ele se aliou à Legião.

— Podemos ir agora. — disse Hector, preparado, assentindo positivamente ao deus lunar. — Já detectou a energia do sigilo de Onúris?

— Como uma agulha no palheiro. — disse Abamanu, tocando em ambos e teleportando-os diretamente à uma gruta praticamente fechada. A parte de cima possuía aberturas finas por onde transpassavam-se fachos de luz solar que penetravam no solo arenoso e "paredes" com rochas cinzentas e vigorosas parecendo toscamente empilhadas.

Charlie sentiu um incômodo que fez florescer suspeitas em sua mente.

— Estranho... — disse, ao explorar a gruta. Pegou uma pedra aleatória e a jogou para cima. A mesma pairou devagar no ar durante a descida até certa altura cair mais rápido no chão. Sua expressão de desconfiança reforçou-se — A gravidade parece instável... — respirou fundo — ... o ar está rarefeito... — virou-se para Hector e Abamanu — O que está acontecendo? Sei que tem relação com Yuga, mas preciso saber. O que está causando esses efeitos?

— Yuga criou uma espécie de estrela parecida com o sol que vai crescer de tamanho à medida que absorver matéria. — disse Hector, sem rodeios.

O mago do tempo fechou os olhos em nervosismo.

— Não pode ser...

— Agora Údon precisa aparecer e nos dar boas novas. — ansiou Hector, a impaciência dominando-o.

— Estou bem aqui. — disse o arqueu, surgindo por detrás de Charlie, assustando-o um pouco.

Abamanu realçou sua expressão ansiosa e presunçosa em simultâneo ao rever, após eras, o seu antigo confidente com o qual reservou segredos valiosos. A emoção do reencontro manifestou-se na forma de puro rancor alimentado pela dor de uma traição imperdoável. Um entreolhar tenso durou uns segundos até que o deus resolveu falar com um sarcástico sorriso:

— Há quanto tempo... parceiro.

***

Área florestal de Raizenbool

A volta de Lester aliviou um pouco as palpitações no coração de Alexia. Andando pela sala, o caçador franziu o cenho ao estranhar a ausência de Hector.

— Ué, cadê o Hector e o barba cinza?

— Já faz mais de meia hora que foram ao encontro de Abamanu. — disse a vidente, se levantando do sofá. — Údon deixou Hector assumir o controle da situação por acreditar que sua presença só deixaria Abamanu zangado e diminuiria as chances do plano dar certo. Então ele voltou para buscar um objeto que guardou segredo sobre o que era. — fez uma pausa, estreitando os olhos para Lester meio suspeitosamente — Tinha dito que ficou xeretando o quarto desocupado. Fui olhar depois que ele saiu, mas está trancado. Quando você entrou, percebeu algo além de papéis colados na parede?

— Olha, não faço a menor ideia do que aquele vira-casaca ficou tramando dias desses. — declarou Lester, dando de ombros — Mas vai saber né? De repente, eu teria virado pó se tocasse na porta com um daqueles desenhos mágicos gravado, o que pode até explicar ele não ter avisado pra não criar suspeitas. Sorte minha que a porta estava escancarada. Ele não deu nenhuma mísera dica?

— Não sei se posso considerar "a arma secreta que deixará os dois de castigo" uma dica satisfatória. — respondeu Alexia, não ficando convencida com o que o arqueu dissera antes de sair às pressas.

Áker surgira de repente, para a total surpresa de ambos.

— Como estão indo as coisas? — perguntou o arauto, aproximando-se.

— Você não devia estar em um lugar seguro agora? — indagou Lester, aparentando não ter entendido o compartilhamento de ocultação sensorial.

— Mas aqui é um lugar seguro. — retrucou o arauto, franzindo o cenho — Aliás, todos os lugares onde vou são perfeitamente seguros. Para Yuga é como se eu tivesse desaparecido, mas ele com certeza pouco se importa se saio vivo ou morto disso.

— Então você realmente ficou fora do encalço de qualquer um? Não pode ser rastreado? — perguntou Lester, avidamente curioso.

— Absolutamente por ninguém. — respondeu Áker. — É exatamente o contrário. Posso andar livre por qualquer lugar em vez de escondido e temeroso.

O Dr. Lenox aparecera no cômodo vindo do corredor dos quartos, logo surpreendendo-se com Áker.

— Não me disseram que tinham um mordomo.

Alexia se pusera entre os dois, apresentando-os.

— Ahn... Áker, Dr. Lenox. Dr. Lenox, Áker. — disse ele, sorrindo.

— Um nome bastante peculiar, devo admitir. — afirmou o cientista, estendendo a mão ao arauto. — É uma prazer.

— Ouvi muito falar do senhor. — disse Áker, apertando a mão dele. — Inclusive do seu sequestro. Sinto muito que Abamanu tenha lhe obrigado a agir em favor dos seus interesses malignos.

Uma expressão de confusão se desenhou na face de Lenox.

— O... O quê?! Ma-Mas... Mas como você pode saber disso? Presumo que devia ser confidencial...

A fim de pôr os panos quentes na situação, Alexia e Lester entreolharam-se nervosos e um deles precisava intervir.

— Err... — disse Lester, intrometendo-se — É que nosso mordomo possui fontes secretas... ahn... através dos sonhos, ele é tipo um médium...

— O quê? Não entendo... — dizia Lenox, de repente, em seguida, sendo assaltado por uma lancinante dor de cabeça que preocupou os três de imediato.

— Doutor, o que foi? — perguntou Alexia, querendo ajuda-lo.

— Provavelmente é Údon. — especulou Áker, parecendo indiferente ao sofrimento do cientista por confiar na ideia quase certamente absoluta.

— Que esquisito. O barba cinza sofre com o mesmo lance psíquico que ele também fez na Rosie. — disse Lester, apresentando dúvida.

— Aquilo foi por causa de Yuga e sua atual condição que lhe dá uma sobressaída. — explicou o arauto, assistindo o homem gemer em dor enquanto a vidente tentava apoia-lo. — Ligações psíquicas podem variar de acordo com o que o emissor tem a mostrar e os efeitos também variam de receptor para receptor. No meu caso, a dor foi ausente.

— Vamos, doutor, me diga... — Alexia insistia, tocando-o com preocupação — O que o senhor viu?

Um tanto grogue, Lenox fez um esforço para se reorientar a fim de organizar as ideias repassadas para melhor explicação das mesmas.

— Eu... Eu realmente não faço ideia de por onde começar. Isso é bárbaro. — disse, logo olhando para a profetisa — Imagens de uma pequena esfera de fogo bem perto do planeta foram enviadas à minha mente... como um filme mudo e acelerado... Esse poder tem uma força magnética equivalente a 1 milhão de imãs juntos... cada vez que se alimenta de uma determinada quantidade de matéria sua massa triplica. Eu não posso acreditar! Como isso aconteceu? — seu semblante foi assumido pelo desespero enquanto recuava alguns passos, suas pupilas trêmulas fitando os três. — Eu quero que me digam a verdade! — apontou para Áker — Ele é mais do que um mordomo! O mais próximo do sobrenatural que cheguei foi ter conhecido um monstro de armadura que se dizia deus. E de repente, sou bombardeado psicologicamente com imagens de uma catástrofe iminente!

— Doutor, acalme-se. — pediu Alexia, erguendo de leve uma mão. — Só nos diga o que pode acontecer se essa coisa ficar ainda maior.

— O que pode acontecer!? — disse ele, logo dando uma risadinha irônica, depois recompondo a exasperação — Sendo direto e realista, toda a massa do planeta será consumida por esse gigante vermelho que, por enquanto, ainda é um bebê. Seja lá o que tenha criado essa supernova, chamemos assim, simplesmente tem capacidade suficiente para fazer o planeta retroceder exatos 4,5 bilhões de anos no tempo. Nas aulas de ciência, vocês lembram de ter aprendido o que era a Terra nesse período?

— Acho que na época isso ainda não tinha sido descoberto... — disse Alexia, meio embaraçada.

— Ah, tem razão. — aquiesceu Lenox, suspirando — Fiquei tão perturbado com isso que esqueci que não faz mais do que 4 anos que novas teorias sobre a origem da Terra foram lançadas. Mas respondendo a pergunta: Uma bola de fogo em fusão. Mas em vez de transformar, irá destruir. E não para por aí. O magnetismo pode alcançar um pico que coloca em risco todo o sistema solar. — tirara os óculos imerso em aflição e passara a mão no rosto. — Não temos tecnologia para enfrentar uma coisa dessas. Seremos extintos.

— Se depender de Hector, não. — disse Áker, sucinto.

— Então o destino da humanidade está nas mãos de um homem que vive numa casa no meio da floresta!? — disparou Lenox, incrédulo.

— Olha, é muita informação pro doutor processar... — disse Lester, intervindo na conversa — ... seria melhor a gente se concentrar em esperar por notícias, boas ou ruins. OK? Não vamos nos precipitar.

— O Sr. Cooper tem toda a razão. — disse Áker, concordante. Virou-se para Lenox — A propósito, essa mensagem que foi enviada ao senhor... incluía uma localização específica?

O cientista, atordoado, permaneceu inerte e pensativo por vários segundos. Engoliu a saliva, mal conseguindo se adaptar à ocasião ímpar.

— Eu vi uma caverna. Parecia ser uma. E uma placa com a palavra "Kéup".

— A gruta da região de Kéup. — disse Lester, estalando os dedos. — É lá que eles estão. — se encaminhou à porta a passos largos e rápidos.

— Espere, Lester, aonde você vai? — perguntou Áker, o tom reprovativo.

— Não é óbvio? — indagou ele, franzindo o cenho com um sorriso presunçoso, puxando a maçaneta — Você acha que vou ficar aqui esperando o telefone tocar quando estou há poucos quilômetros de ver um espetáculo sobrenatural? Nem que a vaca tussa. — abrira a porta e saiu apressado.

Áker demonstrou preocupação ao se virar para Alexia.

— Espero que ele esteja se referindo ao exorcismo.

CONTINUA...