Capuz Vermelho - 3ª Temporada
9 Deuses entre nós (Parte 3)
Os soldados que faziam guarda na entrada do salão do imperador cruzaram rispidamente suas lanças, impedindo a passagem de Rosie. O som rascante dos metais se cruzando soou como uma ordem de afastamento. A jovem fechara a cara em aborrecimento e fulminou ambos com o olhar.
— O que é agora? Não me digam que vão usar algum tipo de burocracia estúpida para que eu tenha permissão de passar. — disse ela, relanceando o interior do aposento e entrevendo uma conhecida figura lá presente.
Um dos soldados que a acompanhavam se aproximou e assentiu, indicando que todas as exigências feitas foram cumpridas devidamente.
— Deixem-a entrar! — ressoou uma voz pesada e monstruosa.
Hesitantes, mas obedientes, os guardas deram rosnados simultâneos e quase inaudíveis ao descruzarem as lanças e abrirem passagem para Rosie. A jovem passara, fixando sua atenção para frente.
Por fim, adentrara no imenso salão imperial de Abamanu. O trono era, claramente, o item mais destacável em todo o recinto. Fora a primeira coisa que Rosie avistou logo ao entrar. Depois passeou os olhos pelas paredes pintadas de laranja forte, os candelabros de cristais com suas luminosidades aprazíveis, e uma mesa de jantar colocada no centro, além de vários soldados parados nos dois lados, observantes com suas lanças em punho. À medida que avançava, Rosie sentia o escárnio e o ódio profuso daqueles lobos bípedes em seus olhos amarelos e suas bocas animalescas rosnando sem parar.
"Que belo comitê de boas-vindas".
A jovem baixara o capuz, deixando à mostra seus cabelos pretos. Mal acreditava que estava ali como anfitriã de seu mais pérfido inimigo. Abamanu a aguardava com paciência, sentado à mesa. as mãos cruzadas. Sorrira para si mesmo ao vê-la se aproximar, o corpo voluptuoso dela chamando bastante sua atenção.
— Não faço ideia do porque me chamou. — disse ela, sentando-se, forçando para estar à vontade. — Estou desarmada. Seria mais justo se seus guardas também estivessem.
— Medida de precaução, apenas. — retrucou o deus, sentando-se melhor.
— Já falei que estou desarmada. — alegou Rosie, adquirindo uma face colérica.
— Isso não é garantia de segurança. Estamos partilhando da liberdade de suspeitarmos um do outro. — salientou Abamanu com um sorriso sacana.
— Pode acreditar que sim. — respondeu Rosie, assentindo, sem alterar o semblante sério. — Se for sobre Charlie, eu...
— Não é nada relacionado ao mago do tempo. — interrompeu ele, pegando uma taça com um líquido vermelho dentro. Dera um gole demorado, saboreando a bebida peculiar. — Quero lhe fazer... uma generosa oferta. — deixara a taça em seu lugar, lambendo a boca. Olhara para ela com curiosidade. — Vamos lá. Dê uma chance aos meus pareceres. Eu já sabia de sua decisão antes mesmo que a fizesse.
Estremecendo na cadeira, Rosie se viu atemorizada com aquela declaração.
— Como se não bastasse... você também resolve se aproveitar de mim. — disse ela, os nervos em ebulição. — Se vai fazer alguma chantagem... é melhor não chamar mais isso aqui de encontro pacífico.
— Como eu disse em nosso primeiro encontro: Eu estou tentando salva-la. — disse Abamanu, inclinando-se levemente à ela.
— E que tipo de salvação você planeja pra mim? — indagou Rosie, intrigada. — Você matou um homem. Levou meus amigos e os trancafiou em lugares diferentes. Está por trás de uma proliferação infecciosa massiva... — ela bateu fortemente na mesa com o punho fechado, inclinando-se para ele com uma expressão furiosa. — O que você acha que eu espero?
— Que se una à mim. — disse o deus, sucinto. — Yuga deturpa os próprios princípios, minha cara. E presumo que seu mensageiro não especificou totalmente as razões. A propósito, qual é a posição atual dele?
Rosie revirou os olhos, cada vez mais impaciente.
— Foi apenas pra isso?! Tentar me convencer de que Yuga é quem deve ser parado ao invés de você? Ele apenas está esperando. Você é quem está espalhando o caos!
— E o mensageiro, provavelmente, a colocou sob proteção até que pudesse se decidir. — disparou Abamanu, acertando em cheio o alvo.
A resposta pegara Rosie desprevenida. "Droga! Como ele pode saber?"
— Não vou ser presunçosa a ponto de não dizer que está certo. — disse ela, respirando fundo para manter-se calma. — Mas como pode saber de algo assim?
— Fonte misteriosa. — afirmou ele, deixando um ar de suspense. — Uma triste notícia foi alardeada neste espaço. Um dos meus nobres aliados Coletores foi eliminado. Por traição.
— Sekhmet. — disse Rosie, em tom baixo, semi-cerrando os olhos. — Então você sabia que ela estava, de alguma forma, ligada aos Coletores?
— Não, até sabermos da morte de um deles. Este, em especial, cuidava da preservação dos artefatos de outras entidades, roubados durante o início do julgamento de Chronos. Quem nos informou foi outro Coletor, provavelmente coagido por ela para se tornar um substituto. No entanto, agora ela deve estar ciente de que estou muito bem informado e supostamente decidiu alterar suas diretrizes.
Rosie sentia-se, a cada minuto que se passava, aprisionada em uma gaiola e prestes a ser conduzida para qualquer tipo de obrigação cruel que fosse passar.
— Isso significa que não está aliado à ela, certo? — perguntou Rosie, se vendo como uma detetive em pleno interrogatório.
Abamanu soltara uma gargalhada estarrecedora, fazendo a mesa vibrar.
— O que é tão engraçado?
— Eu jamais cometeria uma estupidez dessas. — afirmou ele, recompondo-se. — Não sei absolutamente nada sobre ela. Contudo, pelo que me foi dito, ela estaria tendo você como alvo.
Rosie franziu o cenho, notando uma certa lacuna nesta história.
— Espera... O Coletor estava morto e a aliança entre ele e Sekhmet parecia ser bem secreta. Como os outros souberam dessa traição após a morte dele?
— Os Coletores — começou Abamanu, empertigando-se na cadeira. — possuem uma brilhante habilidade de se apossarem das memórias de seus irmãos. Em outras palavras, quando um deles se aproxima de seu irmão morto, este se apodera de suas lembranças. Não necessariamente deve-se chegar perto, apenas basta um rápido contato telepático...
— Tudo bem, tudo bem! — disse Rosie, abruptamente se levantando, não conseguindo suportar nenhum minuto a mais naquele lugar. — Já entendi. E minha resposta é não. E não me chantageie ameaçando as vidas dos meus amigos!
Levantando-se também, Abamanu assumiu uma postura rigorosa, sua robusta armadura prateada auxiliando nesse feito.
— Sei o que está a incomodando. Perdoe-me meus soldados... — olhou de esguelha para a sua esquerda. — Eles ainda não se acostumaram com sua presença. Mas creio que brevemente irão.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Rosie, o tom de desconfiança.
— Nada demais. — respondeu ele, dando de ombros. — Sugiro que venha comigo para conhecer o laboratório onde fabricamos nosso produto. — pediu, dirigindo-se a uma pesada porta metálica à direita.
O instinto de fuga de Rosie se aflorou imediatamente. "Ele quer me mostrar como se faz a substância!?"
— Há alguém que deseja conhece-la. — acrescentou Abamanu, olhando-a por cima do ombro.
— Aquela enfermeira infectada disse a mesma coisa... Não vou cair na mesma armadilha de novo!
O deus lunar dera uma risadinha.
— A principal diferença é que ele não está infectado. Aposto que irão se dar muito bem. — disse ele, ordenando um soldado a abrir a enorme porta.
Uma estranha centelha de esperança acometeu o coração da jovem, tão descompassado. Era lhe plausível o fato de outra pessoa estar coibida a produzir mais da substância, sendo este indivíduo seu criador original. Aceitando o passeio pelo laboratório, teria-se o conhecimento de toda a produção da praga, além de uma possibilidade de se conseguir uma brecha para arrancar informações do criador. Posteriormente, repassaria todos os detalhes obtidos para os caçadores e facilitaria a compreensão da natureza do problema. Lembrou-se da amostra que havia pegado no hospital antes de escapar. "Se o General Holt tiver contato com cientistas, posso apresentar a amostra e, quem sabe, eles consigam criar uma cura, por mais difícil que seja. Sim, isso pode ser possível.", pensou Rosie, resistindo em querer transparecer qualquer sinal de júbilo.
— Está bem. — decidiu-se ela, por fim, aceitando. — Se for apenas uma demonstração, eu pretendo ver sim.
— Sem exigir nada em troca. Interessante. Não podia esperar menos — disse Abamanu com certa ironia, mergulhando na escuridão do outro lado.
Um ar gélido fez os pelos de Rosie se eriçarem ao atravessar a soleira, despertando sua curiosidade sobre onde o palácio do Cavaleiro da Noite Eterna se localizava. "Já estava um pouco frio antes. Agora... acho que quanto mais eu andar, mas rápido vou congelar.", pensou, sentindo a presença de dois soldados andando atrás dela com lanças em riste. O corredor era absurdamente sombrio, as paredes cobertas com lodo seco, um forte indicativo de que o ambiente havia inundado-se.
— Se me espetarem, eu juro que... — disse Rosie irritada, cortando a frase ao lembrar-se que estava sem suas adagas e estacas de prata. "E de que adiantaria? Não são mais as quimeras de Robert Loub..."
Abamanu caminhava rápido pelo espaço escuro... até parar numa parte um pouco mais iluminada. "De onde vem aquela luz?", estranhou Rosie, divisando algumas paredes em torno de um espaço semi-circular, além de uma luminosidade branca e mortiça logo à direita.
Quando se aproximou mais um pouco, entreviu uma figura espectral no centro do compartimento.
Quando menos se esperava, um par de olhos emitindo um brilho alaranjado revelou a identidade de quem estava ali parado.
— Vejam só... — disse Abamanu, sorrindo cinicamente. — O príncipe finalmente veio salvar sua donzela.
— Áker!? — soltou Rosie, quase que por reflexo, a expressão tensa.
Abamanu levantara uma mão pedindo para que não se aproximasse.
Recitou algumas palavras incompreensíveis... sendo elas parte do dialeto do deuses e, especificamente, de uma técnica extraordinária.
De imediato, linhas com um brilho amarelado se desenharam no chão ao redor de Áker, cercando-o. O arauto olhara para baixo, estupefato. "Isso não pode estar acontecendo!"
Surgira um símbolo no formato de um círculo com um trapézio dentro e um triângulo no meio — no qual estava sobre. Como se perdesse toda sua envergadura, Áker se ajoelhara com uma expressão de dor.
Assistindo, Rosie procurava entender o que significava aquilo.
— O que fez com ele? — perguntou ela, desesperada e aborrecida.
— Lhe dei uma lição. — disse ele, olhando para o arauto de seu inimigo com desdém.Virou-se para Rosie, fitando-a com ameaça. — Logo você também aprenderá a sua.
Um arrepio percorreu a pele de Rosie, seguido de um embrulho no estômago.
— Nada pode desprende-lo. — afirmou Abamanu, deliciando-se com o sofrimento de Áker. — Uma técnica primorosa de aprisionamento, cuja finalidade é enfraquecer sua vítima até que seus atributos sejam completamente absorvidos pelo fluxo de energia. Até a próxima meia hora sua casca não passará de lixo descartável.
— Áker, me desculpe! — exclamou Rosie, sentindo-se culpada por envolvê-lo, os olhos marejados.
— Não, Rosie. Você não sabia. — retrucou o arauto, rangendo os dentes tamanha era sua sofreguidão.
Voltando-se para Rosie novamente, Abamanu estalara os dedos. Depois deu uma ordem aos soldados, inicialmente com um meneio de cabeça para o caminho à direita.
— Levem ela daqui.
Quando se deu conta, Rosie se vira presa por fortes e grossas algemas de ferro. Esbugalhou os olhos e os desviou para encarar o deus com toda sua raiva.
— Desgraçado! — vociferou ela, enquanto os soldados a agarravam pelos braços, conduzindo-a para o laboratório.
O deus lunar voltara-se para Áker, observando com um olhar sádico todo o tormento pelo qual o mensageiro passava, tendo sua energia sugada para a terra através de um símbolo bastante utilizado pela armada de ambos os impérios.
— Grave minhas palavras, arauto: A última coisa que quero é mata-la. Eu realmente esperava que viesse em algum momento. No entanto, sua presença denuncia que eu devo... agracia-la com o que tenho a oferecer. — afirmou ele, logo sorrindo abertamente.
***
"Essa é a coisa que é responsável por produzir aquela gosma preta e nojenta?!", pensou Rosie, sendo soltada pelos guardas com brutalidade, quase sendo jogada. Seus belos olhos azuis cravaram-se no gigante de metal que se postava diante dela. Uma verdadeira máquina opulenta e robusta, como um imenso botijão de gás de cozinha fumaçando um abafado vapor a cada 5 segundos. Nas laterais, cilindros lisos e volumosos de ferro rubro conectando-se à mais outras quatro máquinas repletas de tubos... por onde saía um líquido negro e espesso, sendo o mesmo conduzido até um recipiente de vidro com mais de 3 metros localizado à esquerda do montante de ferro. Abamanu ia explicando, exaustivamente, todo o processo de fabricação, como se fosse um guia turístico apresentando um monumento prestigioso e de valor histórico. Todavia, Rosie mal lhe dava ouvidos. Pôs o capuz de volta sobre a cabeça, como uma forma de se sentir sozinha naquele espaço com paredes de concreto cinza e resistentes, além de luminárias no teto forrado.
Um dos soldados viera até Abamanu.
— Lorde, lamento informar, mas o Dr. Lenox trancou-se em seu quarto e se recusa a vir se juntar a nós. — relatou ele.
Rosie virara-se rapidamente para eles, denotando curiosidade súbita.
— Quem é esse Dr. Lenox?
— O cientista contratado por mim para ajudar a dar vida às minhas ideias. — declarou Abamanu, chegando um pouco mais perto dela, a armadura de prata fazendo alguns ruídos enquanto andava.
— Correção: Sequestrado. — rebateu Rosie, com fogo nos olhos. — Quero vê-lo.
— Não ouviu meu soldado? — indagou o deus, apontando com o polegar para o subordinado atrás dele, franzindo as sobrancelhas. — Ele se nega a vir, embora eu não tenha lhe concedido a permissão para agir por conta própria.
— Então cabe à ele uma punição! — manifestou o soldado, revoltado.
— Calado! — retrucou Abamanu, severo, suas presas aparecendo. — Lenox ficará onde exatamente está.
— Sou sua privilegiada, não sou? — indagou Rosie, numa tentativa de instigar o deus a trata-la de forma gentil se quisesse tê-la na palma de sua mão, embora fosse óbvio que a jovem não facilitaria depois.
— E o que espera conseguir depois de descumprir o protocolo? — questionou o deus rispidamente, desmoronando o "plano" de Rosie. — Com ou sem o Dr. Lenox presente, você será aprimorada.
— É isso que vamos ver. — disse ela, desafiadoramente, cruzando os braços em um postura brava.
***
Áker já não sentia-se mais o mesmo. Mal se reconhecia. "Estou morrendo.".
Suando demasiadamente, o arauto estava de quatro no centro do símbolo brilhante, respirando com dificuldade enquanto suas últimas energias iam se esgotando pouco à pouco. A promessa que cumpriu estaria fadada ao revés se morresse ali, sentindo-se humilhado e patético. "Rosie será envenenada com aquele agente contaminante abominável! Era esse o plano o tempo todo! O sonho de majestade... se arruinará... se for feita esta atrocidade... com a privilegiada de nosso império!". Cravou seus dedos no chão úmido, intensificando uma resistência.
Após alguns minutos de tentativas em vão, Áker sentira, estranhamente, que não estava sozinho. "Estou delirando? Será que...". Ergueu a cabeça e se surpreendeu com o que viu. "Ah... Como tiveram coragem?".
Á sua frente estavam dois homens de pé com faces rígidas e sérias, vestindo fardas do Exército Britânico. Um era meio loiro, com olhos azuis e rosto meio redondo, enquanto o outro era pardo com feições antipáticas.
— Seu emblema emitiu um sinal de alerta, senhor. — disse o loiro, firme.
— Pensamos em agrupar mais, mas parece que estão sob o controle de Sekhmet. Seria um perigo para o senhor e para a privilegiada se caso um deles fosse expor suas suspeitas. Além do mais, libertamos Hector Crannon sob as ordens do mortal que foi supostamente atacado por Sekhmet.
O soldado caucasiano tirara do bolso um amuleto com o formato do emblema do império. Disse algumas palavras em dialeto divino, fazendo o objeto brilhar uma luz amarela e logo flutuar no ar e voar alguns centímetros acima brilhando cada vez mais forte. O soldado pardo erguera uma mão, dizendo algumas palavras. O símbolo que aprisionava Áker desaparecera no mesmo instante, libertando-o por fim.
O arauto se levantou depressa, arquejando fortemente, o ar novamente entrando nos pulmões.
— Obrigado. Juro, pela honra do império, que vou retribuir o favor. — prometeu ele, tocando o soldado no ombro e vislumbrando outras marcações de símbolos no chão proporcionadas pela influência do amuleto flutuante, não muito próximas umas das outras. — Vieram em boa hora. — ele sorriu fracamente.
— E esta técnica também. Sempre a pratiquei para que um dia tivesse a oportunidade de libertar um dos nossos. Maldita quimera. — disse ele, olhando para as marcações deixadas por Abamanu premeditadamente, armando um cerco de emboscadas para possíveis resgates. Felizmente, ele não contava com aquela façanha igualmente perspicaz.
O amuleto deixara de reluzir e caíra rumo ao chão. O soldado que o manipulara pegou-o a tempo e guardou-o.
— Vamos. Rosie está em perigo. — disse Áker saindo na frente, após assimilar os pontos exatos onde as marcações estavam, ziguezagueando por entre elas.
***
As lanças estavam perigosamente apontadas para Rosie, suas pontas vermelhas em evidência. A jovem recuava vários passos, furiosamente encarando o grupo de seis soldados que a ameaçavam.
— Não abuse da auto-confiança. — afirmou Abamanu, assistindo ao desespero da jovem com as mãos para trás. — Eles não vão atirar, mesmo que queiram.
— E estas coisas atiram? — indagou Rosie, incrédula, olhando para ele.
— Se eu ordenasse um ataque direto, seria a última coisa que veria. No entanto, isto não vai ocorrer, já que a quero plenamente viva. A menos que ceda ao meu pedido, estará liberta do sofrimento que Yuga poderá causar à você se caso abraçar a sua proposta sórdida.
Um barulho ecoante de portas se abrindo fez o deus e seus subordinados se viraram em simultâneo.
— Não apodreça a mente de Rosie com suas mentiras. — afirmou Áker, entrando no laboratório, destemido, juntamente com seus dois asseclas à sua direita e esquerda.
Abamanu soltara um rosnado de ódio, fuzilando o arauto com seus olhos amarelos.
— Aaaaah! Mas como?
— Nós temos nossas saídas de emergência. — disse ele, sorrindo levemente. — Agora acho uma boa ideia seus soldados encontrarem as suas.
— Nos impondo rendição!? — disse Abamanu, logo soltando uma risada alta e amedrontadora. — Yuga fez crescer seu ego ao invés de fazer o império prosperar? Você se tornou uma espécie de "filho bastardo" dele! O caminho de Rosie até aquela máquina é a ponte para seu declínio.
— Não se nós evitarmos. — retrucou Áker desafiante e sério. — Rosie corra e se afaste! — bradou ele com urgência na voz grave.
Obedecendo ao pedido sem titubear, a jovem correra para um lado, se esgueirando no emaranhado de fios, cabos e pequenas maquinações praticamente empilhadas. Aqueles eram, provavelmente, os projetos fracassados do Dr. Lenox, também formado em engenharia genética e mecânica. Rosie se escondia por entre as montanhas de ferro, procurando alguma saída alternativa.
Áker e seus sentinelas — os únicos que aceitaram apoiar os ideais de Yuga -, emanaram quantidades de energia adequadas para ser liberada. As três mãos direitas superaqueceram, brilhando uma luz laranja e flamejante, além dos olhos que apresentavam pupilas faiscantes. O soldados de Abamanu correram em investida com suas lanças em punho, com sede por guerra. Conseguindo calcular uma boa distância, Áker bradara para atacarem e, por fim, lançaram, com toda a potência, suas rajadas de energia solar.
Antes que pudessem alcança-los, os soldados do Cavaleiro da Noite Eterna foram pegos pelo castigante ataque, gritando dolorosamente ao passo que seus corpos reduziam-se à cinzas em questão de segundos... silenciado-os para sempre, deixando somente as lanças intactas e largadas ao chão.
Ganhando tempo, Áker aproveitou para neutralizar Abamanu antes que o mesmo pensasse em sair à procura de Rosie por toda a sala. Erguera uma mão com rapidez na direção do deus, sussurrando para si mesmo algumas palavras. Um símbolo amarelo e brilhante no formato do emblema do império de Yuga cercara Abamanu antes que ele pudesse esboçar qualquer movimento. O deus lunar rangia os dentes pontudos, quase a espumar pela boca.
— Não! — gritou ele, colérico. — Voltem... voltem correndo. Batam suas asas e digam àquele miserável que sua prometida... está sob meu controle!
— Não mais. — declarou Rosie, saindo das sombras e se juntando aos seus novos companheiros. — Agora que sei basicamente como se cria aquela substância, não há nada que você possa fazer para tentar algo contra mim. Um sequestro seria, no mínimo, previsível, e, além disso, Áker tem a função de me proteger de qualquer uma das suas ameaças, por mais que eu não goste de admitir que ele tenha que se dar ao trabalho de assumir esse papel. — fez uma pausa, colocando-se lado à lado com o mensageiro. — Quando nos encontrarmos de novo, vai ser quando eu estiver pronta para resgatar meus amigos! Me sinto mais forte do que nunca e ninguém que eu conheça pode negar isso!
— Está errada! — rebateu Abamanu, mal conseguindo se mover. — Está lutando com as armas erradas e do lado errado. Yuga a envenenou com algo que ele mal consegue controlar. — dera uma risadinha de escárnio. — Estes soldados atrás de você... e este "garoto de recados" que se diz seu protetor... não conhecem a natureza de Yuga da forma como eu conheci durante aquele confronto. O dia que jamais irei me esquecer. — disse ele, pensativo ao rememorar o maior confronto de sua vida.
Sem fôlego para suportar mais alguns minutos, Rosie o olhara friamente, virando-lhe as costas em silêncio. Chegou mais perto de Áker, para lhe sussurrar algo no ouvido.
— Eu odeio estar confusa. Então só faz o favor de tirar daqui. — fez uma pausa, suspirando com certo desânimo ao olhar para os soldados. — Mas não vou esconder o fato de que o que ele disse... me despertou muitas dúvidas.
***
No QG do Exército Britânico alastrava-se uma infindável quantidade de burburinhos e cochichos referentes ao incidente ocorrido ao General Holt, como um vírus mortal e apavorante. Um dos tenentes que substituía por tempo determinado algumas funções de Holt dera uma ordem seriamente categórica: Sigilo total e absoluto. Nenhuma informação relatada pela vítima deveria cruzar as paredes do prédio e alcançar o mundo externo. Em outras palavras, não se devia facilitar o risco de um vazamento que, especialmente, chegasse ao conhecimento do Colégio dos Caçadores. Ao que parecia, Holt preocupava-se com a parcialidade das informações para com Walter Vannoy e ninguém ousava questionar as razões pelas quais ele agia assim. O mentor de vários caçadores experientes se negara a participar das operações, sem nem mesmo considerar uma supervisão. Tampouco ligava para a forma como era visto e tratado pelo Exército Britânico, além de que suspeitava de que estava sabendo menos que o necessário. A aliança era plástica e superficial, pois sabia-se que o responsável — dadas as informações de Hector — era uma ameaça potencialmente extraordinária. No entanto, a informação de que o cabeça daquela onda de infecções em massa seria um deus lunar não havia sido dita a nenhum dos dois.
E novamente Holt saíra na frente graças ao ataque repentino e violento de Sekhmet. "Deuses... Aqui. Neste mundo!?". A deusa parecia querer cooperar com informações que somente ele teria direito a saber, o que, por um lado, seria uma vantagem para o General, tornando-o inteirado de fatos que jamais chegariam ao canal auditivo de Vannoy. "Ele continuará avistando somente a ponta do iceberg.", pensava Holt.
Estava sendo tratado na enfermaria, uma sala pintada toda de branco vivo e com apenas uma janela que deixava a luz da lua adentrar com esmero. O médico contava com um abajur que iluminava seu rosto e o de Holt.
Infelizmente, aquele foi o preço a ser pago. O olho esquerdo em troca do bom comportamento e colaboração de Sekhmet. Além do amuleto dourado fragmentado no chão, um bilhete dobrado havia sido colocado sobre a mesa. "Certa vez um infame chamado Seth arrancou fora o olho de meu amado. Eis seu castigo, General, por ter desafiado minha autoridade. No entanto, vou recompensa-lo com fatos que irei coletando à medida que minha presa estiver mais próxima. São meus termos. Coopere."
O papel foi jogado no lixo imediatamente, sem ser visto por mais ninguém além do próprio destinatário. Holt, sentado em uma cama para examinação e semi-desfardado, imaginava, da pior forma, as implicações e possibilidades aterrorizantes. "Meu exército inteiro... à mercê de alguém que se diz onipotente. Devo me livrar desse meu ceticismo... Encarar os fatos como eles se apresentam. Não foi sonho, pesadelo ou alucinação. Há mesmo forças ainda mais além da nossa pobre compreensão. Por mais inaceitável que seja para mim... Acho que não tenho escolha.", pensava ele, apertando o colchão tremulamente, como se não segurasse a própria exasperação.
A anestesia já estava quase cessando. A limpeza do canal ocular vazio, bem como as pequenas cirurgias, haviam sido bem sucedidas. O doutor pegara sua maleta e deu alguns breves avisos prévios para Holt. Depois acenou com a cabeça e se despediu. Holt assentira de volta, sentindo-se mais melhor.
Um soldado que observou os procedimentos médicos veio por trás do General e lhe colocou um tapa-olho preto. A face robusta de Holt estava mais severa e áspera do que nunca.
— Senhor, posso fazer uma pergunta? — pediu o soldado, não muito à vontade.
— Mas é claro. — concedeu Holt. — Presumo que seja em relação ao meu terrorista.
— Ela era, de fato, uma deusa? — indagou ele, fazendo uma cara confusa. — Não acho que faça muito sentido. Se deuses realmente existissem não se apresentariam como... seres humanos. Seres que, sei lá, nos desprezam por sermos inferiores e...
— Está errado. — disparou o General, interrompendo o soldado. — Ela assumiu o controle de Betsy Rossman. Corpo, mente e alma. É óbvio que nossa agente mais requisitada deixou de existir. — desviou os olhos para a janela, com ar desanimado. — Eu vi minhas crenças morrerem junto com aquele soldado. E... o pior de tudo é que me sinto incapaz de fazê-la pagar. Ela pode ficar impune, mas não me darei à humilhação de me rebaixar.
O soldado assentiu para si mesmo com perseverança, motivando-se com aquelas palavras.
— Eu também não, General. — afirmou ele, pondo as mãos para trás e empertigando-se. — Vamos seguir o protocolo que o senhor estabeleceu com honra.
Cortando o clima da conversa, um outro soldado entrara de surpresa na sala. Parecia ter algo relevante a informar.
— Desculpe se interrompi algo... mas o caçador chamado Edgar veio nos informar por telefone que Rosie Campbell aceitou a licença. — contou ele, olhando fixamente para o General.
Um sorriso estranho e irônico se formou nos lábios de Holt.
— Algo mais?
— Bem... No entanto, poucos minutos depois, alguém do grupo de caçadores recebeu uma ligação. Era ela pedindo que adiassem sua admissão como líder para amanhã. — informou o soldado.
Holt fizera uma cara de suspicácia para o homem, levantando uma sobrancelha, como se quisesse um contato quase telepático a fim de surrupiar os motivos que levaram a jovem a decidir aquilo.
— Não especificou o motivo?
— Disse que teria um outro compromisso esta noite. Não revelou nada mais a respeito. — concluiu o soldado, prestes a se despedir.
— Está dispensado. Acho que passarei a noite aqui. Mantenha-me informado.
Assentindo, o soldado saíra da sala, fechando a porta tranquilamente.
O outro que ficara como observador se aproximara, pondo-se ao lado de Holt. Ambos compartilhavam um sentimento de desconfiança pura.
— Como vamos proceder, senhor? A tal deusa disse que a senhorita Campbell é uma ameaça... Vai relevar um argumento desses?
— Ela foi bastante enfática quando mencionou que Rosie Campbell representa um perigo real ao nosso exército por esconder uma espécie de energia oculta dentro de si. — disse o General, suspirando pesadamente. — Claramente estava falando muito sério. Foi por causa disso que fui obrigado a libertar o senhor Crannon antes do tempo previsto.
— Mas, considerando que isso seja verdade, como vamos agir? — insistiu o soldado, parecendo tenso. — A senhorita Campbell pode ser um atrativo perigoso para aquela deusa cravar suas garras e revelar outros planos. E... isso pode possibilitar mais sacrifícios desnecessários.
Holt parecera reflexivo por vários segundos. Voltou-se para o soldado com um olhar presunçoso.
— Estive, até agora, confidenciando á você várias informações importantes. Portanto, você será a testemunha da oficialização da licença. — disse ele, com certa empolgação. — E também... será o principal encarregado a ficar de olho em Rosie Campbell.
CONTINUA...
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