Capuz Vermelho - 3ª Temporada
10 Você não suporta a mudança (Parte 1)
Notas iniciais
"Cansei de fugir do que penso ser a coisa certa a fazer. Estou cansada de segredos, de fatos importantes escondidos de mim como se eu não fosse forte o suficiente para encara-los.
É hora de me libertar dessas amarras! É hora da vítima interrogar o criminoso... da presa enfrentar o predador!"
Trecho do Diário de Rosie Campbell; Pág 105.
***
4 dias depois.
Área florestal de Raizenbool; 08h50.
Os exaustos olhos de Hector visavam, alternadamente, o chão e os ponteiros do relógio de parede. A mão que agarrava firmemente o fone tremia e suava por tamanho anseio desesperado. "Vamos logo, alguém atenda de uma vez!". A cada minuto passado, a paciência esvaía-se, dando lugar à irritabilidade iminente. Havia dedicado, nas últimas noites, todas as suas energias em fervor para parar um monstro imbatível... que residia dentro de si. Enervar-se naquela hora certamente seria um desperdício. O controle conquistado com um doloroso empenho não deveria se deixar perder por um simples telefonema demorado. Contudo, aquilo lhe era prova suficiente de que estava absurdamente distante de qualquer chance para manter o domínio sobre o "demônio da lua".
Fechou os olhos e rangeu os dentes em impaciência. Dois toques de chamada lhe fizeram sobressaltar.
— Alô? — atendeu uma voz masculina e vigorosa.
— Aqui é... — o caçador hesitou por uns segundos, suspirando pesadamente. — Aqui é Hector Crannon. Preciso que passe a ligação para o General Holt, imediatamente.
— Lamento senhor Crannon. — respondeu o homem, mantendo o tom de voz duro e frio. — No momento, ele está cuidando de outras tarefas, sem absolutamente nenhum tempo para falar com ninguém. Especialmente com pessoas que não lhe passaram boas impressões. — disse ele, atacando Hector acerca da custódia do caçador e das suspeitas do crime.
O caçador preferiu a solução mais adequada: Silêncio. A ideia de estar semi-desvinculado não lhe perturbava mais do que a própria ansiedade em reencontrar Rosie. Assim que saíra da escura e empoeirada sala, logo no início do alvorecer daquele dia, procurara pela jovem em todos os cômodos. Sem sucesso na busca — que se estendeu também pelos arredores próximos da floresta, baseado na suspeita de que ela teria armado algum tipo de barraca ou cabana improvisada por ter decidido manter distância dele -, o caçador se viu assombrado pela possibilidade restante: Rosie sequestrada e mantida em cativeiro por Abamanu, sendo qualquer resgate inegociável.
O soldado prosseguira:
— Se desconfia que seus pertences foram confiscados... então é melhor que venha aqui e falar com o General pessoalmente sobre o que ocorreu à eles.
— Não tem nada a ver com meus pertences. — respondeu Hector, o tom baixo. — Você não parece ser de nenhum pelotão de batalha. — disse ele, franzindo o cenho.
— Bem... é verdade, eu apenas cuido da manutenção de equipamentos e rastreamento. — confirmou ele. — Ainda assim, estou inteirado de alguns assuntos bem polêmicos que andam circulando por aqui. No entanto, não sei exatamente tudo. Posso repassar seu recado ao General se me disser o que quer falar com ele. Talvez ele agende um encontro com você após a missão... — o homem cortara abruptamente a frase, como se tivesse percebido que cometeu um erro.
Hector, intrigado, arqueou as sobrancelhas, adquirindo forte curiosidade para saber do que se tratava tal missão aparentemente mencionada de modo acidental.
— Do que está falando? O General autorizou a primeira missão de resgate na qual eu me revele como supervisor?
— Mais ou menos. — respondeu ele, rapidamente. — Obviamente, você participará dela de cara limpa. Nada mais de gravações com sintetizadores de voz. Além disso, a senhorita Campbell deverá estar junto do senhor. — ele fez uma pausa de suspense. — No entanto, não se trata de uma missão para resgatar os caçadores.
— E do quê então? — Hector elevara o tom, deixando transparecer seu nervosismo.
— Olha, era para ser uma informação sigilosa até que você tivesse a ideia de se encontrar com o General em algum momento. Lá mesmo você saberia disso com todos os detalhes, os quais eu não posso fornecer. Mas eu tenho a localização do grupo armado enviado, juntamente com alguns caçadores.
— Então pode-se dizer que Holt... — ele pigarreara fortemente, corrigindo a si mesmo. — Quero dizer... o General presumiu que eu fosse até o QG a tempo de Rosie ter sua licença validada?
— Exato. — confirmou o soldado, secamente. — Mas não contava que fossem se passar 4 dias em que não desse mais notícias, o que o forçou a mentir para a senhorita Campbell de que o senhor ainda estaria sob custódia, sem revelar o tempo predeterminado. — fez uma pausa um tanto longa. — Sendo assim, ela passou os últimos dias sob a supervisão de alguns soldados, recebendo orientações em períodos selecionados.
Segurando o fone tremulamente, Hector sentia-se levemente surpreso com a atitude de Holt. "Ele mentiu para Rosie, convencendo-a de que eu ainda estava preso. Talvez essas orientações serviram para que ela se familiarizasse com o Exército até que eu aparecesse. Será que Holt determinou que a licença de Rosie só seria oficializada somente quando eu surgisse e aceitasse o cancelamento do meu anonimato? Só existe um forma de descobrir, é claro.".
— Senhor Crannon? — perguntou o soldado. — O senhor ainda está na linha?
— Ah! Sim. — disse Hector, largando seus devaneios. — Se a missão for urgente, preciso que me diga onde estão.
— Não sei exatamente o caráter da missão. — disse ele, frio como um iceberg — Mas, em compensação, posso lhe dizer onde eles se encontram. É melhor que tenha caneta e papel.
"Desnecessário.", pensou Hector, enquanto o soldado começava a informar a localização, abusando de sua memória eidética ainda bastante funcional e eficiente. Respirando com mais alívio, o caçador dera uma última olhadela no relógio. "Ainda está bem cedo.".
— Ótimo. Já anotei. — mentiu Hector, a expressão séria.
— Muito bem. — disse o soldado. — Eu até gostaria que me dissesse por onde estava andando, mas isto seria abuso de minha parte. Espero que tenha a chance de dizer ao General os motivos que o levaram a ficar afastado ultimamente.
Sem nenhum aviso, Hector desligara com rapidez, deixando o soldado encarregado do rastreamento embasbacado com tal ato, dando-lhe a sensação de ter sido ignorado ou descartado. O caçador se encaminhara até a porta a passos largos e apressados. "Não tenho mais tempo a perder. Principalmente com alguém que certamente possui um pobre acervo de informações.".
Ao sair do casarão, dirigiu-se ao carro preto estacionado logo à frente, ajeitando seu surrado sobretudo de couro marrom e o sangue em ebulição. A sensação de adrenalina voltara novamente à tona. "Consegui domar a fera novamente. Se eu estiver a mercê deste fardo eternamente... que venham mais quatro anos de domínio sobre ele.".
***
A névoa dificultava o trajeto, e parecia engradecer quanto mais se avançava. Hector dirigia com boa vontade, pulsando a expectativa por um encontro que fosse digno à situação que lhe foi reservada. Cofiou de leve sua barba já um tanto crescida, lembrando-se, com certa saudade, de seu único pensamento naquele instante: Rosie. "Agora que retomei o controle sobre a fera, seria sensato revelar à ela os fatos que deixei ocultos naquela noite? Não. Você está terrivelmente enganado.", pensou ele, apertando o volante com força. "Eu pagaria um preço menos alto se tivesse sido honesto desde o início. Talvez eu consiga dizer algo... se eu obliterar esse medo de como ela vai reagir.".
As árvores foram ficando mais visíveis ao longo da estrada de cascalho, a neblina parecendo se dissipar com a aproximação de Hector em direção à um veículo militar de grande porte estacionado próximo a um grande tronco seco. O caçador parara, logo saindo do carro e sentindo contínuas lufadas de ar frio em sua face séria. Se viu criando um fraco sorriso quando avistou Rosie a poucos metros ao lado de alguns soldados do Exército Britânico. No entanto, à medida em que andava, percebia um detalhe que lhe causou estranheza. "Aquele homem disse que havia caçadores também. Não vejo nenhum.". A bruma gélida dava a impressão de um inverno fora de época.
Rosie o fitava com as mãos na cintura, parecendo meio insegura estando no meio daqueles austeros homens fardados. "Uma completa estranha no ninho'.
Prontamente, um dos soldados marchara até o caçador a passos firmes e com uma expressão igualmente séria e dura.
— Bom dia, senhor Crannon, é um prazer conhece-lo. — cumprimentou o homem oferecendo um aperto de mãos.
O caçador não entendeu o significado daquele gentileza, tendo sabido que sua prisão, provavelmente, causou inúmeros cochichos pelas bases espalhadas pelo país. Retribuiu assim mesmo. O soldado se virara para Rosie e gesticulou com a cabeça para que ela se aproximasse.
— Nosso estagiário de manutenção nos avisou que viria pouco depois do senhor ter telefonado. — afirmou o soldado.
— O quê? Estagiário? — indagou Hector, franzindo a face, claramente surpreso pela mentira contada pelo homem que o atendera mais cedo. — Achava que era funcionário fixo. Agora estou desconfiado quanto as informações que ele me deu.
— As quais são...? — o soldado deixou a pergunta no ar.
Hector apontara para Rosie, que chegava mais perto.
— Em algum momento de minha custódia, Rosie recebeu treinamento por parte do Exército?
— Correto. — disse ele, assentindo.
— Ainda há outra questão. — insistiu Hector, visivelmente inquieto. — Posso não estar por dentro do agendamento das operações de resgate... mas não teria sido mais adequado o General ter me colocado como supervisor da primeira missão logo após me liberar?
— Por enquanto, não vai cumprir seu ofício até que o General autorize sua nova licença, agora desprovida da permissão de seu anonimato. — ele fez uma pausa, olhando de soslaio para Rosie. — Além do mais, ambos irão ter conhecimento do planejamento para os resgates no momento em que o General decidir.
— E quanto ao Mestre Vannoy? — questionou Hector, o tom desafiador. — Me é estranho que ele pareça totalmente excluído. Talvez nem esteja sendo bem informado.
— O que o leva a pensar assim? — perguntou o soldado, cruzando os braços. Seu tom parecia prenunciar uma inevitável irritação.
— O General deixou bem claro. — afirmou Hector, encarando o homem com fervor. — Está omitindo informações importantes à ele. Deixando-o a ver navios. Desconsiderando seu papel para com o acordo e o problema que estamos enfrentando.
Sem titubear, o soldado soltara um grunhido raivoso e levantou o queixo como se quisesse lembrar o caçador sobre quem proferia as ordens naquele dia.
— Olhe aqui, senhor Crannon...
— Está bem, já chega. — murmurou Rosie, olhando para ambos, preparada para apartar uma eventual discussão. — Que tal irmos direto ao ponto? De preferência que seja breve.
— Você não exige nada aqui. — retrucou o soldado, ríspido.
— Foi somente um pedido adequado. — disse Hector, defendendo a postura da jovem. Olhou para ela de modo amigável, depois voltando-se para o insatisfeito soldado. — Diga-nos para quê viemos até aqui.
O homem carrancudo bufara, andando alguns passos à frente. Logo apontou para um caminho de cascalho que serpenteava pela floresta rodeada de densos arbustos. Com a névoa apaziguando era possível avistar o limite da curta estrada, nada mais do que 15 km.
— Exatamente naquela direção — começou o soldado. — há uma suposta base de refugiados, provavelmente subterrânea. Nós até pensamos em ir até lá e verificar... Mas a zona de perigo se estende em um raio de 30 km, então não houve como se aproximar sem estar equipado com objetos de proteção.
— Os quais vocês ainda não providenciaram, creio. — disse Hector, estreitando os olhos.
— Não se cria tecnologia de ponta da noite para o dia, senhor Crannon. — rebateu ele, a expressão de incômodo. — Estamos investindo o quíntuplo de nosso orçamento para combater esta calamidade. Em breve todos terão suas proteções. Acredito que, com sorte, vamos estar armados com o melhor que a ciência dos homens que foram contratados pode oferecer.
Rosie se aproximou, bastante focada ao observar o caminho, percebendo a neblina esvaindo-se do ambiente.
— Tem alguma ideia de quantos estão lá? — perguntou ela, interessada.
— Ao que parece, o térreo tem estrutura suficiente para comportar cerca de 30 pessoas. — respondeu o soldado. — Certamente devem haver mais no subterrâneo, possivelmente o verdadeiro esconderijo.
Hector se empertigara, preparando-se para agir.
— Esta área parece desolada pelos efeitos do gás. — conjeturou ele, olhando em volta. — Talvez explique a névoa e a temperatura relativamente baixa. — fez uma pausa, olhando o caminho com mais atenção. — Podem ser moradores de residências próximas que foram obrigados a se refugiarem em bunkers por conta das ocorrências de infecção.
— Esta foi a hipótese que nos soou mais plausível. — disse o soldado, recuando alguns passos na intenção de dar passagem aos dois aventureiros. — Segundo o General, é uma missão de teste que servirá para avaliar o desempenho de ambos e, assim, confirmar a licença do senhor Crannon como co-supervisor.
A última frase pegara Hector desprevenido. Para ele, Holt formava totalmente suas ideias muito em cima da hora... ou fazia questão de esconde-las e revela-las no momento que achasse necessário.
— Espera, eu pensei que...
— Sim. — interrompeu o soldado, o tom frio. — Seu anonimato foi cancelado, mas não significa que deva deixar de participar das operações. No entanto, não no meio dos combatentes. É como se seu posto fosse transferido para a senhorita Campbell de um modo mais limpo... e justo. — disse ele, fitando o caçador com quem zomba de outrem internamente.
Seguiu-se vários segundos de silêncio, o vento leve e gelado ressoando por entre as vestes dos ocupantes daquele espaço.
Friorenta, Rosie aqueceu as mãos e seguiu em frente, percebendo que era inútil fazer questionamentos àquela altura do campeonato. "Isso Hector. Fique aí, perdendo tempo com esse imbecil que não está dando a mínima se vamos vencer ou falhar. Eu prefiro ir adiante e lutar.".
Vendo que foi deixado para trás, Hector desvencilhou seu olhar rebelde dos do soldado e decidira acompanhar Rosie caminhando com pressa a fim de alcança-la.
O clima se amenizava gradualmente. Enquanto isso, o descontentamento de Rosie com a metodologia só aumentava. Correu os dedos por um de seus cintos de utilidade. Puxou o zíper de um bolso tático e de lá tirara um papel que fora dobrado quatro vezes. Finalmente, Hector encontrava-se lado a lado com ela, ambos percorrendo o caminho no mesmo ritmo apressado.
— Ainda quero saber as razões que levaram o General a prender você. — disse Rosie, não escondendo sua incessante curiosidade.
— É confidencial. — redarguiu Hector, lacônico.
— Por enquanto. — respondeu ela, logo mostrando o papel que retirara. — Não vai acreditar no que tem aqui. — ela desdobrara a folha com rapidez. Exibira-a por fim, bem próximo do rosto do caçador.
O coração de Hector praticamente saltou pela boca ao dar de cara com um registro, cuja foto no canto superior direito era-lhe deveras familiar. "Mas... O que significa isso?".
— Rosie... — balbuciou ele, ainda estupefato. — Onde conseguiu isso? Aliás, como conseguiu?
— Foi durante uma das pausas das minhas aulas. — disse ela, guardando a folha. — Eu estava numa sala repleta de armários com várias gavetas, parecia ser o gabinete de algum funcionário. Acho que do criptógrafo. Na mesa haviam alguns papéis espalhados e... bem, você deve já imaginar o que fiz. — disse ela, deixando que o caçador complete o resto da história mentalmente.
Alguns instantes de reflexão passados, Hector teve um assustador lampejo de compreensão.
— Então... — proferiu ele, sem saber muito bem como falar. — Isso só pode significar uma coisa.
— Está pensando o mesmo que eu, certo? — perguntou Rosie, olhando-o com uma seriedade equilibrada.
Assentindo, ele continuou a fitar o caminho à frente, sem se desprender das divagações aterradoras que lhe vinham à mente. "Se o que penso for verdade... Supostamente isto facilitou minha liberdade.".
— Sim, exatamente. — soltou ele. — O General pode estar sendo ameaçado ou até mesmo aliado. Ela é mais rápida e esperta do que pensei. Já era óbvio que tentasse tirar proveito da situação.
Continuaram seguindo, permanecendo em silêncio e atentos à missão, embora aquele fato fosse naturalmente perturbador.
O registro que Rosie carregava consigo pertencia à espiã do Exército Britânico Betsy Rossman... também conhecida como sendo o receptáculo de Sekhmet.
***
Enquanto a dupla rumava em direção à misteriosa base ocupada por supostos sobreviventes, o soldado que se encarregara de informar o caráter da missão estava falando através de um rádio-transmissor, atrás do veículo, aparentando prezar pela privacidade. Os outros se mantinham mais à frente, no início da trilha de cascalho, à espera de Rosie e Hector. Pelo que foram convencidos a acreditar, a tarefa seria rápida e não exigiria muitos esforços físicos. Aquela era somente a visão prévia.
O soldado carrancudo apertara um botão no rádio. Apertou-o contra o ouvido ao passo em que olhava de esguelha para os outros homens que estavam distraidamente pacientes.
Uma estática entrecortada se fez irritante.
Alguém, por fim, havia atendido.
— E então? Como está indo aí? — perguntou uma voz áspera e soturna do outro lado da linha.
— Tudo nos conformes, senhor. — respondeu o soldado, não deixando de olhar para seus homens. — Pode-se dizer que caíram feito patinhos. — deu uma risadinha zombeteira.
— Ótimo. Presumo que o senhor Crannon esteja armado.
— É, ao que parece ele trouxe sim uma arma. Não sei quanto à senhorita Campbell.
— Como lhe disse antes: Rosie Campbell possui algo de extraordinário. — inteirou o homem, falando de modo solene. — Vamos tirar a prova hoje mesmo. Se saírem vivos de lá, dois fatos se elucidarão: Campbell realmente possui uma força oculta dentro de si e Crannon detém algum tipo de habilidade sobre-humana.
O soldado franzira o rosto, desconfiado.
— Ué, achei que Crannon não estivesse incluído na vigilância. Qual a base dessa suspeita?
— Hoje cedo os peritos me forneceram dados muito convincentes no último relatório. Os corpos, conclusivamente, foram trucidados por mãos humanas, mas que possuíam características evidentes de um ataque animal. As digitais eram de Crannon. Se estivessem lá em pouca quantidade, poderíamos supor que ele tivesse domado um grupo de feras e mandado-as atacar as vítimas. Mas não. Ele tocou em todos os corpos... e isso o torna um assassino foragido. Além disso, se as feridas brutais nos corpos se assemelham à de ataques selvagens... ainda assim não parecem ser de nenhum animal conhecido.
A afirmação fizera o soldado ter calafrios. "Hector Crannon... parece ser um homem de vários segredos. O que ele é?"
O General Holt continuara.
— Para que cheguemos a uma conclusão definitiva, precisaríamos somente de uma amostra sanguínea. Mas, obviamente, a esta altura isso é inviável.
— É verdade, ele desconfiaria. — aquiesceu o soldado, engolindo a saliva, tenso.
— Deveria te-lo avisado quando ele ligou para sua sala hoje.
— Não acha que seria mais apropriado pega-lo de surpresa... depois que os resgates forem feitos? — sugeriu ele, pouco à vontade.
— Desculpe, soldado. Sua ideia não me é muito eficaz. — retrucou Holt, descontente. — Lembre-se que os sequestrados são membros da Legião dos Caçadores. — falou, com certo enojo na voz. — Eles vão se unir novamente, e, é claro, vão precisar do apoio de Crannon para derrotar quem está por trás disso. Se isso ocorrer, vamos intervir como último recurso e como reforços se caso solicitarem nossa ajuda.
— Ahn... — o soldado parecera um tanto inseguro. — Não acha que foi... meio equivocado deixa-los irem sem nosso equipamento de proteção? O tempo limite é de 20 minutos, assim que entrarem na base já estarão expostos.
— Ora, deixe essa preocupação desnecessária. — resmungou Holt, aborrecido. — Se forem tão especiais quanto nós suspeitamos, não há porque temer que eles sofram danos graves. — argumentou, curto e grosso.
— É... acho que faz sentido. — concordou o soldado, incerto quanto à conjectura do General.
— Muito bem. Volte ao seu posto. Mantenha-me informado.
— Pode deixar, senhor. — disse ele, logo em seguida encerrando a transmissão.
Mais uma vez, o General Holt provara sua genialidade quando o assunto era ludibriar seus alvos.
Aquele soldado era aquele com o qual confidenciara as informações que permaneceriam ocultas fora do QG principal e também encarregado de vigiar Rosie — a partir daquele momento Hector também seria observado a cada vez que pisasse no mesmo solo que os homens fardados. Além disso, fora ele quem havia falado com o caçador poucas horas mais cedo. Não havia nenhum estagiário. O soldado havia recebido, secretamente, uma sala própria, cuja linha telefônica para o número com qual Hector ligara foi transferida para lá. Praticamente um teatro armado.
Também sobre a questão da tecnologia para enfrentar os infectados e sua influência... Estavam todos prontos, aprovados após sucessivos testes.
Agora só restava aguardar os resultados da perigosa missão.
CONTINUA...
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