Capuz Vermelho - 3ª Temporada
62 A calmaria antes da tormenta (Parte 4)
Arrebentado por uma sequência incontável de socos, Lester admitiu que nunca antes sentiu-se tão impotente e fraco mediante a um ser sobrenatural em toda a sua trajetória.
O coletor deliciava-se com cada ferida gerada pelos golpes, mantendo-o contra a parede como um aquecimento para um esquartejamento posterior. Suas mãos encontravam-se banhadas em sangue.— Por que tá demorando, desgraçado? — indagou Lester, cuspindo um volume de sangue. Sua face estava marcada por hematomas e cortes — Põe suas garras de fora... Acaba comigo se você é tão implacável como me disseram que é.— E nós somos. — respondeu o coletor, sibilante, pronto para o próximo soco — Mas às vezes preferimos uma diversão longa o bastante para que o alvo se dê conta de sua insignificância. — rira zombeteiramente — Então quer dizer que é um deles, não é? Achavam mesmo que com tamanha imprudência conseguiriam sair como entraram? Aposto que sabiam que isso ia acontecer para obterem uma informação sobre o plano-mestre. Se é assim, vou sanar suas dúvidas: O que nosso aliado tem em mente para esses vermes é...A frase foi bruscamente cortada quando Hector, em supervelocidade, o pegara pelo pescoço, vindo de outro corredor, colocando-o contra a parede. O que Lester viu e sentiu ao ter seu corpo largado foi apenas um vulto super-rápido e uma fina corrente de vento, respectivamente.Hector tivera de despertar sua licantropia controlada para ao menos fazer frente aos coletores por um tempo indeterminado, embora soubesse que era pouco.— E veja só o que me aparece... — disse o coletor, sorrindo com canalhice, agarrado pelas mãos fortes do caçador possuído pela fúria lupina que rosnava com as presas à mostra e os olhos com pupilas reduzidas e sem íris. Lester tentava se recompor enquanto assistia ao embate, notando uma aura diferente no companheiro.O caçador o jogara à uma distância considerável no corredor. Ao virar-se para Lester, sua face foi modificando aos poucos ao voltar ao normal, nem um pouco surpreso pela reação do amigo.Sem espera, o pegou, transformando-se novamente, entrando em uma das escuras salas que serviam de depósitos para as armas. Pegara o tridente, porém, o coletor surgira na entrada fechando a porta telecineticamente.— É seguro dizer que a brincadeira acabou.— Ai caramba... E agora? — se perguntou Lester, olhando de soslaio para Hector licantropo com certo estranhamento. — Me dá isso aqui. — tomara o tridente das mãos de Hector, apontando-o para o coletor.— É melhor cair fora senão vai virar poeira cósmica! — bradou ele, ameaçando. — Tô avisando! — segurou o mítico artefato com as duas mãos.— Lester, o que pensa que está fazendo? — questionou Hector, puxando-o pelo braço. Mas o caçador resistiu e insistiu no ato, esperando algo impressionante acontecer.O coletor, por sua vez, desatou a rir com escárnio por vários segundos.— Estou segurando o vômito para não ter que sujar este lindo terno... mas está difícil. É... é simplesmente patético. — riu novamente — Apenas mortais sob influência divina podem usufruir do poder de qualquer arma. Um lixo como você por acaso foi tocado por um deus? Hipnotizado?— Não, mas quase fui morto por um. — retrucou Lester. — Independente de ser ou não ligado, não vou desistir.— Por misericórdia vou facilitar pra você: Largue o tridente e direi qual o plano. — chantageou o coletor. — Sinto que sou o único do meu bando que apela para isso, então considere-se um homem de sorte.— Lester é melhor fazer o que ele diz. — aquiesceu Hector, voltando ao normal.— Tá brincando?! Quero acreditar que a gente já venceu essa.— Não teremos certeza disso se morrermos aqui! — disse o caçador, irritando-se. — Além do mais, Abamanu quer as armas leiloadas para alguma artimanha contra Yuga, isso envolve pessoas inocentes. Precisamos saber mesmo que só uma pequena parte dessa loucura tenha dado errado.— Eu já disse que não vou ceder! — vociferou Lester, sentindo uma bravura inexplicável percorrer sua alma. Rastros fosforescentes de energia de cor azulada passeavam pelo tridente indicando algo extraordinário, o que, de repente, alterou a expressão do coletor de infâmia para descrença. A energia ficara mais realçada e intensa até ser rapidamente canalizada às três pontas.Por fim, o produto final viera na forma de uma descarga elétrica disparada das pontas do tridente contra o coletor incrivelmente assustado com tal manifestação. O coletor fora pulverizado pelo raio devastador, suas cinzas esparramando-se pelo chão.Lester encarou aquilo boquiaberto. Hector estava sem palavras. Como o tempo urgia, precisavam agir imediatamente para sair com os dois prêmios.— Vamos. — disse Hector, pegando-o pelo braço — Áker vai cura-lo. Falta pegarmos o elmo.— E fingir que isso não aconteceu? — contestou Lester, franzindo o cenho, sentindo-se por baixo diante de seu incrível feito.— É, talvez. — respondeu Hector, transformando-se e saindo da sala em supervelocidade, arrastando Lester com ele para irem ao encontro de Áker. ***O leilão número dois em Londres terminara com a vitória de um homem que obteve o mjonir, o famigerado martelo do deus do trovão Thor. A dupla dinâmica conseguira somente três armas."Agora onde ele se enfiou para contar a novidade?", pensou Alexia, sentindo-se desleixada por não percebido a ausência de Údon antes. "Me deixou aqui achando que eu fosse dar conta sozinha...".
Levantou-se ao mesmo tempo em que as pessoas das fileiras próximas que estavam para saírem, passando por algumas delas pedindo licença."Não... Ele não está tentando isso agora, é loucura, é claro que não!", pensou ela, entrando escondida em dos corredores que levavam aos depósitos. A cada passo seu temor apenas elevava-se. Por um instante, cogitou chamar pelo nome do arqueu, mas desistiu por ser inconveniente.Parou entre dois corredores, o espaço imerso em um silêncio pressionador. "Como oculta sua identidade, isso praticamente bloqueia nossa ligação. Nem consigo sentir sua energia... Caso ele estragasse o disfarce, sim. Será que...".Cortando seu pensamento abruptamente, a vidente sentira algo atravessar seu corpo, mais precisamente na região da barriga. Baixando seus verdes olhos aflitos, viu uma ponta negra parecida como uma raiz de uma árvore apodrecida.O coletor se revelara por detrás da jovem ao deixa-la cair retirando a garra.— Bem que eu estava sentindo um odor fétido de intrusos. — disse ele, debochante ao caminhar na direção da vulnerabilizada profetisa.Alexia tentou virar o rosto para vislumbrar o rosto do autor daquele cruel ataque, sentindo a mão que pressionava a ferida encher-se de sangue. Tentou rastejar demonstrando seu completo desespero e instinto de sobrevivência.— Não... — balbuciava ela, o tom choroso e com uns fios dos cabelos ruivos alaranjados em sua face.— Ah sim... Vamos nos divertir bastante. — disse o coletor, estralando os dedos em aquecimento. O som reproduzido era similar ao de galhos fragmentando.Porém, outro som ainda mais potente ressoou de modo violento no recinto, afetando Alexia que tapou os ouvidos com os dentes cerrados e os olhos fechados sinalizando o quão insuportável era sentir aquela onda sonora extremamente aguda transpassar o canal auditivo.O coletor caiu ajoelhando-se com as duas mãos na cabeça e gritando em dor.Údon estava atrás dele com o braço direito esticado e a mão em forma de "garra", executando sua onda psíquica com toda a força que reuniu para salvar sua escolhida.— Ora, seu... — dizia o coletor, sendo torturando pelo som bárbaro e de seus olhos saindo filetes de sangue que escorriam.— Cadê as nossas armas? — perguntou Údon, severo, mantendo o nível.— Vai se ferrar! — retrucou o coletor, ousadamente, mal aguentando-se.— Você quem sabe. Ou nos diz onde...— Údon! — chamou Alexia, o tom suplicante — Para! Chega!— O quê?! — indagou ele, voltando sua atenção à vidente. — Alexia, o que você...— Também estou sendo afetada! Por favor, pare! Não vai adiantar, ele não vai falar!O arqueu cessou a onda psíquica rapidamente ao ouvir o apelo da jovem. O coletor, por outro lado, se recompunha com facilidade, ofegando intensamente.— Oh, não... — disse Údon, após teleportar-se para perto de Alexia, percebendo o ferimento profundo ao ajuda-la se levantar. — Eu sinto muito...— Não diga nada. Só me tira daqui, por favor. — pediu, aos prantos.— Suas armas!? Não me faça rir... — disse o coletor, erguendo sua cabeça mostrando estar, literalmente, com sangue nos olhos na expressão colérica. — Tenho que admitir... são poucos os que conseguem a façanha de nos enganar assim... desses poucos nenhum sobreviveu para contar. Farei com que não seja diferente com vocês. — levantou-se por inteiro.Para fugir de um inesperado ataque, Údon teleportou-se com Alexia a uma sala que, graças a quebra do véu, emanava energias significativamente conhecidas.O arqueu entreviu na escuridão três armas. Fez com que Alexia apoiasse-se na mesa pata pega-las.— Logo isso vai passar. — disse ele, reunindo-as. — Aguente firme, por favor.— Vai rápido... — disse Alexia, queixando-se da forte dor provocada pela lesão. — Estamos expostos... mais deles vão vir...— Hora de irmos. — disse Údon, pegando no braço esquerdo dela.Entretanto, o mesmo coletor aparecera no exato momento.— Não vão escapar.— Tarde demais, patife. — provocou Údon, teleportando-se no mesmo segundo que ele alongara uma de suas garras... que não fora rápida o bastante, assim penetrando na parede.— Não! Droga!! — vociferou ele, esmorecido. ***Área florestal de Raizenbool A profetisa havia sido deitada bruscamente no sofá por Údon que, vendo-se numa situação desesperadamente aflitiva, fitava a eleita arquejar em dor profunda tocando em seu ferimento aberto na barriga que manchava seu vestido bege de seda com o sangue fresco. A sensação de não saber por onde começar o deixava mais irrequieto, suas pupilas frenéticas visualizando a ferida que não cessava sua hemorragia. "Aquele maldito coletor... Sabia que estava acontecendo algo, mas acabei forçando um lado guerreiro que não faz parte de mim e por causa disso ela está assim... esteve sozinha... eu não fui feito para o campo de batalha e neguei meu verdadeiro instinto. Se não fizer algo agora, vou me odiar para sempre!".— Alexia, por favor, tente aguentar só um pouco mais...— Não... — dizia ela, ofegando e gemendo — Não pode... Não pode me curar? — perguntou, olhando-o com semblante desconfortado — Olha... É melhor ir se acalmando. Já estive em situações piores...— Pressione bem forte. — disse o arqueu, tocando na mão esquerda da jovem e levando-a à ferida para estancamento. — Não diga isso. Um mortal indefeso encontra sua sentença de morte certa diante de um coletor com as garras à mostra. Mas vendo pelo bom lado... fizemos o nosso melhor.— Sim... é verdade. — disse ela, com os olhos fechados e sorrindo fracamente.Áker, Hector e Lester surgiram repentinamente por teleporte do arauto.— Alexia... — disse Hector, preocupando com o estado da vidente ao se aproximar. — O que aconteceu? — perguntou à Údon.— O previsível. — respondeu o arqueu, mantendo o estancamento — Ela tentou obstruir minha parte.— Você é ingrato, sabia? — disse Alexia, irritada, os dentes trincados devido a dor — Fala como se pudesse bater de frente com aqueles idiotas e eu fosse sua boneca que devia ficar quietinha no canto.O telefone tocara nesse instante e Lester fora atender de imediato.— Que esse tipo de teimosia não se repita. — orientou Údon. — Sei que foi intencionalmente altruísta, mas o fato é que estava além do que podia enfrentar. Meu medo de perde-la por aquelas aberrações quase pôs tudo a perder. — Deixe comigo. — disse Áker, prestando-se a cura-la. Údon cedeu passagem, afastando-se enquanto o arauto direcionava sua mão direita à lesão grave. Uma luz amarelada emanou da palma, cauterizando todo o ferimento.— Obrigada. — agradeceu Alexia, comovida, levantando-se com a ajuda de Údon.Hector pusera as três armas sobre a mesa próxima da entrada da cozinha, contudo observava-as com suspiros de desalento. Sua atenção, aos poucos, desviava-se para o tom da conversa que Lester estava tendo e que, por sinal, aparentava ter um caráter de boas novas.— Está ótimo, então. — disse o caçador — Pode ser hoje à noite, às dez, de preferência. OK. Até. — desligara, logo em seguida esboçando um semblante que forçava-se para soar misterioso. — Boa notícia: Os caras conseguiram três armas, virão à noite. — foi andando até o grupo — Má notícia: Dois desapareceram sem nenhum vestígio. O que falou comigo disse que fez o possível. — olhou para Hector — Até esqueci de perguntar: Que história você inventou pra convencer todos eles?— Criaturas sobrenaturais não identificadas que esperam criar um exército de pessoas controladas mentalmente com posse de artefatos mágicos destrutivos. — respondeu Hector. — Não revelei fontes.— Nem um pouco original, mas o que importa é que sobrevivemos. — disse Lester, demonstrando alívio. Andara até a escada — Bem, se me dão licença, vou indo tirar esse disfarce e voltar a ser o verdadeiro Lester.— Acho que ele está certo. — aquiesceu Alexia, ao lado de Údon sentindo-se perfeitamente recuperada — O pior já passou. Mesmo aos trancos e barrancos, ficamos um passo à frente. Já temos as seis armas de que precisamos.— Engano seu, Alexia. — disse Údon, voltando-se para Hector — A parte difícil ainda nem começou. E são sete armas , não seis.— Ah, é verdade. Essa confusão toda me fez esquecer. — disse ela, pondo uma mão na cabeça.— Eu poderia teleporta-lo agora mesmo — disse Áker — ao Palácio de Abamanu... por via das dúvidas.
— O que quer dizer? — perguntou Hector, franzindo a testa.— Dois desaparecimentos transparece algo bem óbvio. — argumentou o arauto, andando vagarosamente pela sala — Esses caçadores podem não ser tão confiáveis quanto pensam. Lester fez parecer que agiriam em retaliação caso houvessem baixas nessa tarefa.— Mas eles caíram no conto de Hector, o que torna improvável que vão culpa-lo por terem os colocado numa cilada. — disse Údon, contra-argumentando — Porque... venhamos e convenhamos, era mesmo uma cilada.— O ponto em que quero chegar é: Se exigirem uma troca. Uma informação, sendo exato. — disse Áker — No nicho de caçadores deve haver bastante desconfiança.— Tem razão, Áker. — disse Hector, o tom sério — Mas talvez não signifique que por causa de dois sumiços vão me caçar ou virão até aqui atrás de informações ou, pior, me sequestrar exigindo uma confissão em troca das armas. São caçadores honestos. Perderam companheiros, mas foram orientados a não irem fundo demais nisso tudo.— Então garante que vão seguir seu conselho à risca? — questionou Áker, levantando uma sobrancelha.— É o que espero. Por mais que me doa ter se aproveitado da inocência deles. — disse o caçador, ruminando o sentimento vergonhoso que se fez necessário lidar para seguirem em frente. Parecia que a sensação pérfida de traidor o perseguia recorrentemente. Rosie... A Legião... Caçadores inexperientes... Restava saber se a terceira proporcionaria consequências temidas por Áker.— Lembre-se que é por um bem maior. — disse Údon. — De qualquer forma, você decide o momento em que deve se encontrar com Abamanu e negociar. A sua espada é o último item que falta.— E se acontecer o que Áker supôs? — perguntou Alexia, temerosa. — Se assim for, toda a chance que temos vai por água abaixo.— Não vai acontecer. — disse Hector, com firmeza. — Amanhã mesmo irei. — determinou, olhando para o arqueu e o arauto — Mas saibam que... ainda não estou plenamente confiante. "Desculpem-me não ser tão honesto, mas uma grande parte de mim acredita que Rosie pode ser chamada, que está lá dentro gritando por ajuda... e não há nada que me impeça de tentar.". ***Croydon Aquela correspondência não parecia estar largada próxima à porta há tanto tempo. Eleonor estacou quando passava para subir as escadas, visualizando, com suspicácia, o envelope retangular branco que obviamente fora passado pela soleira, um gesto atípico dos carteiros pois existia uma caixa apropriada para depositar, como todas as outras casas vizinhas.Rendida à curiosidade, a bruxa, afastando uma mecha do seu cabelo castanho liso para atrás de sua orelha direita, caminhou para apanha-la. "Já é pouco comum eu receber cartas. Mais estranho ainda ser desse jeito.".Abrira o envelope, tirando uma carta dobrada ao meio. Seus belos olhos verdes realçaram-se ao perceber a importância do conteúdo."Espero que ainda esteja viva para ler. Aqui é a Evelyn. Lembra de mim? Fomos colegas de quarto no convento... antes de sermos expulsas pelas nossas práticas indecentes. Não escrevi isso para te relembrar do passado, sei o quanto isso atormenta nós duas, mas para que vivamos um novo presente. Juntas. Deve se lembrar de Cassandra, certo? Pois bem... Tive a péssima sorte de esbarrar com ela há alguns dias. Eu não sabia que ela tinha descoberto que éramos cúmplices. Deve ter fontes, espiãs em toda parte, em cada esquina pode haver uma delas pronta para vigiar cada passo se nos reconhecerem. Portanto, quero lhe fazer um pedido sincero, velha amiga: Venha até mim. Cassandra só não me matou porque foi você quem cometeu o erro de tomar o soro por benefício próprio. Aliás, o erro foi meu. Aquela ideia idiota foi minha. O que faz de você um bode expiatório. Eu quis te retribuir com um presente que provasse minha gratidão eterna por você. Aquele frasco não apareceu magicamente debaixo do seu travesseiro. Digamos que... entrei sem autorização. Me desculpe. Desculpe ter ido embora sem me despedir, eu juro que foi com a melhor das intenções, nem passava pela cabeça a hipótese de você se deixar seduzir pelo poder. Mas não te culpo. Quem nunca tem seus momentos de fraqueza? Você é humana. Não posso julga-la, éramos bruxas egoístas e famintas por aprovação e poder. De fato, todas nós éramos iguais, traçando um só destino. É só o que peço a você. Me procure. Vivo em um refúgio subterrâneo que achei depois das ameaças de Cassandra. O endereço completo você pode ver abaixo: [...]Espero revê-la em breve. Evelyn."Eleonor terminara de ler a carta com olhos marejados e a mão tapando a boca em demonstração de pura perplexidade. Uma lágrima caíra sobre o papel."Evelyn... Por que? Por que tinha que fazer isso, sua grande estúpida! Mas está bem, não vou negar um reencontro. Eu vou... Eu entendo você. Foi inocente demais. Seu erro foi a causa do meu. Bem que eu já estava imaginando que meu dias nessa casa estariam contados...", pensou ela, olhando para a sala de estar ao seu redor. "Amanhã mesmo vou embora daqui. É, Alexia... Acho que aquela sua carta foi sim um adeus.". ***QG Alternativo do Exército BritânicoApreciando a beleza do luar que transpassava a grande janela quadriculada de seu gabinete — localizada poucos metros atrás da mesa -, General Holt dava goles demorados em seu uísque de boa qualidade. Ao perceber que acabara, suspirou longamente como quem não consegue vencer o tédio, andando à sua mesa depois para saciar-se com mais um copo.A conversa tida com Hector mais cedo ainda estava fresca na memória como se tivesse ocorrido há poucos minutos. Antes que inclinasse a garrafa à borda do copo, um de seus subordinados entrara trazendo um envelope de papelão.— Com sua licença, senhor. — disse ele, logo ao entrar, fechando a porta em seguida. Encaminhou-se ao chefe militar em passos firmes, destacando a encomenda — O resultado do plebiscito.Holt franziu o cenho de início, mas um lampejo na lembrança o fez recordar da ideia que tivera há dois anos quando os ataques de lobisomens à Raizenbool e Londres ganharam as páginas dos jornais, com boa parte dos veículos midiáticos amenizando o teor da noite sangrenta com títulos que tinha clara intenção de pôr os panos quentes fazendo parecer um simples confronto político sobre o barril de pólvora cujo pavio ficara bem menor no ano seguinte.Querendo saber as opiniões da sociedade a respeito da iminência de uma verdade oculta estar para ser desvendada e sobre a forma como o Exército deve se portar diante da problemática, Holt emitiu ordem para uma votação geral que resultaria ou não na empreitada de renovar e aprimorar recursos que fizessem frente às tais ameaças anômalas.Ao abrir o envelope, o General não esperava nenhum tipo de surpresa quanto à resposta. "Essa iniciativa teve sua validade anulada logo quando aquele ser extraordinário travestido de mordomo se colocou um passo à frente na tentativa de fazer as pessoas não lidarem com a verdade. Ele tinha razão. O foco das primeiras páginas continuou sendo a guerra entre nós, meros humanos. Uma prova cabal facilmente detectada.", pensou ele, subindo a folha, pulando a leitura de parágrafo em parágrafo até chegar no que interessava. "Eu sabia". Voltou seu único olho ao soldado, depois colocando o papel sobre a mesa.— E então, senhor? Depois dos casos recentes, eu optaria por uma medida rigorosa contra esses... sobrenaturais que se veem acima de nós. — disse o soldado. — Se é que minha opinião vale alguma coisa.— Não, está correto. — aquiesceu Holt, indo até um armário de madeira com várias gavetas. — Se eles possuem meios para destruir o mundo, nós podemos conseguir os nossos para mante-lo seguro. — passou o dedo indicador direito por entre as gavetas ao tentar lembrar onde havia guardado. Por fim, abriu a que estava bem diante dele, retirando do meio de uma papelada de arquivos uma espécie de dossiê com páginas meio amarelas. — Há exatamente dois anos, emiti esse compilado de propostas para uma futura organização que, a priori, tinha como meta recrutar especialistas do desconhecido. — olhou para o soldado mostrando o arquivo — Eu era um dos poucos que confiaria a minha boa vontade numa aliança com caçadores como uma saída menos estressante. Então, pensei em um projeto que uniria laços improváveis para um bem maior.— E por que desistiu de tentar? — perguntou o soldado, curioso.— Escolheu mal as palavras. — retrucou Holt, andando até a mesa para pôr o dossiê ao lado do envelope. — Não chamo isso de desistir. Cai melhor a palavra estratégia. Saber mostrar sua arma secreta no momento que realmente exigir o uso dela. E a hora, soldado, não podia ser mais propícia. — sentou-se na cadeira, entrelaçando os dedos abaixo do queixo — Estou cogitando reabrir a iniciativa de criar um Departamento de Controle de Ameaças Sobrenaturais. Acho que esse nome soa melhor abreviado. DECASO. O que acha, soldado? Geralmente a opinião de vocês não é mesmo muito relevante à mim em alguns casos, mas agora preciso dela.— Eu acho que é a coisa certa a fazer. — disse ele, com toda a sinceridade. — Do fundo de minha alma, desejo o sucesso dessa ideia em todos os seguimentos.— Muito bem, soldado. — elogiou Holt, sorrindo levemente de canto — Nosso trabalho não é espalhar a verdade ás massas, mas controla-la para não cair em mentes erradas. — fez uma pausa, levantando-se depressa — Portanto, eu quero que repasse aos correspondentes no Colégio de Caçadores. Avise que o projeto DECASO será reativado dentro de poucos dias. "Queria ser uma mosca só para ver a reação de Vannoy".— Sim, senhor. — disse o soldado, reverenciando-o.Ao virar-se em direção à porta, o soldado esboçara um sorriso satisfeito... e um brilho amarelado em suas pupilas. ***Um dos controladores da sala de contenção ficava a observar meio hipnotizado o imperturbável estado meditativo que Rosie Campbell imergira misteriosamente — para suas mentes desinformadas.Yuga permanecia em sua posição de meia lótus, ainda envolto de sua aura dourada, naquele instante estando diante da vidraça e do controlador. Bocejando, o empregado, depois, lançou olhadelas suspeitas para o deus solar enquanto desligava os leitores.— Seu soninho de beleza não vai durar muito. Mal posso esperar pra testar as placas elétricas. — disse ele ao andar para ir embora.Desligou o interruptor por último, logo em seguida fechando a porta.Não durou mais do que cinco segundos até que Yuga pudesse, subitamente, reabrir seus olhos preenchidos por uma luz amarela tão intensa quanto o sol.
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