Canções De Apartamento
4 04 - Cecília E Os Balões
Notas iniciais
Cecília e Os Balões
Sábado, 11 de maio.
A Lana veio me ajudar, não posso ir hoje. Me desculpa. ela leu outra vez no celular. Provavelmente era a quarta vez que lia a mesma mensagem e tentava imaginar alguma desculpa ou chantagem boba para responder. Não havia nada que pudesse dizer que o fizesse chegar ali quando ela queria.
Cecília suspirou e guardou finalmente o aparelho no bolso, observando devagar enquanto o balão do pai de Ana subia com uma família estrangeira qualquer. Ela e a amiga teriam de buscá-los depois com o carro, então relaxou mais um pouco antes pegar o volante. Aquilo tinha se tornado um passatempo algumas vezes por mês, mas normalmente era acompanhada por João.
Poderia estar com ele naquele momento, observá-lo estudar ou apenas esperar ele falar algo bom e bonito. Ao invés disso, estava ali paralisada com o olhar no horizonte e a mente enojada com a própria obsessão por essas bobagens. Bobagens apenas! Ela imaginou e ensaiou o próprio vômito imaginário. Desde quando tinha se tornado essa pessoa egoísta?
Que ressaca desgraçada. Ana falou, arrancando Cecília dos próprios devaneios.
Ela piscou várias vezes sem dar conta e balbuciou:
Ressaca do quê?
Ana gargalhou, estava claramente divertindo-se nos próprios pensamentos, imaginando os vários motivos de distração da amiga. Chegou a coçar um pouco os próprios olhos antes de tentar animá-la! Tentou e tentou, mas nada parecia funcionar.
Nossa, essa sua dependência está me matando, Cecília. ela resmungou Da próxima vez, me avisa se for ficar desse jeito.
Foi mal. Cecília respondeu entre um suspiro e uma mordida nos lábios É que já é a terceira vez que ele fica em casa fazendo alguma coisa com uma professora lá. Não que eu esteja com ciúmes, longe disso, mas é porque eu...
Ana soltou um muxoxo que interrompeu a frase da outra, deixando-a fora do sério. Ciúmes? Aquilo já era claro, mas a saudade de pouco tempo longe já começava a pinicar na pele dela. Pinicou e doeu.
De repente, uma buzina soou para as duas antes que entrassem no carro. O pai de Ana já havia saído com o balão e elas tinham de segui-lo, mas quando viram outro automóvel a frente pararam para observar. Daniel saiu do carro com um sorriso de ponta a outra. Já fazia um tempo desde que ele e Cecília conversaram de verdade pela última fez.
Por que não estou surpreso em encontrar vocês por aqui? ele falou com uma risada.
Ana rapidamente fechou a porta e correu para abraçá-lo, enquanto Cecília a seguiu em seu próprio ritmo.
Achei que não gostasse dessas coisas. Cecília começou a falar ainda andando. Quando chegou ao lado do rapaz, percebeu que ele a olhou de cima a baixo como se não se falassem há séculos Sério, achei que nunca fosse aparecer por aqui.
Falei com a Ana ontem, para falar a verdade, mas fiquei do outro lado do campo. Queria ter encontrado vocês mais cedo.
Já vai embora?!
A frase saiu tão ligeira da boca de Cecília que a própria Ana sentiu algo, o que fez seu sorriso desmanchar de vez e sua expressão ficar nebulosa.
Ainda não. Daniel falou, enfiando as mãos nos bolsos da calça Estava pensando em chamar vocês para tomar um café ou coisa do tipo comigo e com o Fernando, mas parece que já estão meio ocupadas.
Elas atravessaram o olhar por cima do ombro do rapaz e perceberam que dentro do carro estava Fernando escutando música alta. Infame foi a palavra que Cecília pensou, mas seu silêncio foi apenas o que ele recebeu.
É, eu tenho que ir atrás do meu pai agora. Ana murmurou, fixando o olhar na feição distraída da amiga Vamos?
Um olhar preguiçoso e lá estava Ana no carro sozinha, enquanto Cecília ia com Daniel para a casa de Fernando.
O céu começou a escurecer e o vento soprava bastante, algo que a própria moça gostava, mas os rapazes fecharam os vidros do carro. Pediu até por alguma música que pudesse animar a situação e então começou a cantarolar qualquer música que tocasse.
Odeio essa música. ela sibilou pra si mesma enquanto cantava e olhava pela janela, recostando-se na porta traseira da caminhonete de Daniel. Naldo, que horror...
Sua distração estava tamanha que ela nem sequer percebeu que eles cantarolavam com a música ou conversavam entre si sobre o Flamengo. Ficou rodando a cabeça enquanto as luzes dos postes começavam a acender e passar por ela. Estava ficando cada vez mais longe de casa, então imaginou em pedir para sua mãe buscá-la ao invés de pegar um táxi. Faria aquilo, certamente.
O único problema da viagem que Cecília fazia em sua própria cabeça foi a sua falta de precaução. Tinha retirado os pés no chão e flutuava sozinha como se estivesse num mundo aleatório.
Quando Daniel estacionou o carro do outro lado da rua do apartamento de Fernando, os dois saíram do carro com calma e não perceberam que ela atravessou a pista olhando para cima. Daniel e Fernando foram capazes apenas de escutar o grito de Cecília e o cantar do pneu de uma moto.
Muito sangue manchou o estofado do carro e os gritos desesperadores dela ecoaram na cabeça de Daniel mesmo depois que eles chegaram ao Hospital e a moça fora levada para dentro com enfermeiras e um médico. Ele e o amigo sentiram-se culpados de imediato e explicaram várias vezes o que aconteceu quando a mãe de Cecília e outras pessoas apareceram.
Costuras e gesso na perna e ela estava finalmente deitada na cama da enfermaria.
Mamãe, já pode parar com o drama. Cecília falou com um sorriso. Seu rosto ainda estava arranhado e tinha curativos por todo o corpo, principalmente pelo braço. Foi só um acidente de moto.
Só um acidente de moto?! a mãe de Cecília choramingou Você sabia que tem uma prima da sua tia avó que ficou em coma porque foi atropelada por uma moto?
Cecília soltou um muxoxo e cochichou para Ana rapidamente:
Imagine se fosse um parente próximo, ela estaria surtando...
Deixe sua mãe em paz, ela ficou desesperada quando soube. Ana retrucou e sentou-se ao lado da amiga devagar demais para o seu ritmo frenético de sempre Eu não devia ter te deixado.
Como se você soubesse que aconteceria, boba. Está tudo bem, vocês estão aqui e eu estou viva. ela disse e as duas sorriram com sua doçura E os meninos? Que horas são, Ana?
Ana olhou para o relógio e falou que marcava pouco mais nove horas. Logo sairiam do hospital, estavam esperando apenas pela última passada do médico ali e poderiam ir para casa.
Daniel e Fernando despediram-se com a cabeça baixa, no fundo sentiam-se culpados de alguma maneira pelo que havia acontecido, e, quando foram, as outras duas deixaram escapar que o carro tinha ficado horrível com o monte de sangue da perna de Cecília. Ela ficou ainda pior que eles.
Quando finalmente chegaram ao apartamento da mãe de Cecília, Clarice, as três tiveram uma sensação estranha e aliviada. Ana chegou a fazer uma ou duas piadinhas sobre como ela teria que tomar banho ou como andaria pela faculdade com as muletas e a perna engessada.
Eu vou fazer um desastre se não comer nada, estou morrendo de fome. Cecília resmungou como brincadeira, e sua mãe foi imediatamente para a cozinha preparar algo.
Cecília com fome, que novidade! a outra falou, ligando a televisão. A novela estava passando. É bom você ligar para o João, ele estava desesperado para falar com você no hospital.
Um nome e um estalo.
Você falou para ele do acidente?
Lógico! Ana exclamou com uma risada.
Então Cecília parou um instante, mirou a televisão e voltou novamente a fitar a amiga, falando:
E ele não foi ao hospital me ver?
Não. Ele pediu para ligar quando você chegasse em casa que ele viria. Ana comentou, ainda observando a novela. Foi quando percebeu a expressão tristonha e cabisbaixa que Cecília fez, deixando uma mecha de cabelo cair sobre a testa machucada. Ei, não fica assim... Ficou complicado para ele ir, mas ele ainda vem para cá se você ligar. Liga que ele te explica o motivo melhor do que eu.
Depois eu ligo para ele. Cecília falou como se estivesse magoada e não tivesse processado o que a amiga disse. Vou morrer de fome e sono por causa dos remédios, melhor não ter a visita de ninguém...
O interfone tocou. Seria João? Com a mera possibilidade de ser o rapaz, Cecília contorceu-se por dentro. E o toque irritante continuou até que Dona Clarice atendesse, largando a sopa que fazia.
João está subindo, querida. ela falou.
A moça franziu a testa e voltou a assistir à novela, desta vez cruzando os braços debaixo dos seios. Entretanto, em menos de dez segundos o episódio acabou.
E eu acho que não vou ficar aqui de vela. Ana riu de si mesma quando a feição emburrada de Cecília a atingiu. Relaxa um pouco, estressada.
Despediu-se de Dona Clarice e, no instante que abriu a porta para ir embora, João estava prestes a tocar a campainha. Os dois primos riram e ele a abraçou com o carinho que apenas seus braços proporcionavam. Cecília, sentada no sofá na frente da televisão, começou a mudar os canais inusitadamente para não ver como o rapaz chegava, cumprimentava sua mãe e a olhava docilmente.
Pare de me olhar assim, deixe que eu fique com raiva e nada mais. As palavras eram estas, mas não saiam de sua boca.
E então, fraquinha, como foi que isso aconteceu? Achei que estava pior... João falou devagar, sentando-se ao seu lado e encarando a perna engessada apoiada numa cadeira.
Ela fitou seus olhos escuros e disse:
Foi só um acidente com uma moto quando eu fui para a casa do Fernando.
Ana me falou. E você, como está se sentindo? Ainda dói muito? suas palavras saíram e ele passou os dedos pela lateral de seu rosto, como sempre fazia.
Cecília assentiu com um movimento de cabeça. Queria perguntar o motivo de ele não tê-la visitado no hospital durante as míseras horas em que ela esteve com a perna e os braços sendo costurados por conta dos mil rasgos que um simples baque de moto causou. Lana veio à mente dela e o sangue ferveu de imediato, mas nada disse, apenas enrijeceu o maxilar.
João comprimiu as próprias sobrancelhas, deparando-se com a maneira como ela estava.
Queridos, a sopa está pronta. Dona Clarice anunciou, indo para o quarto e voltando em seguida com uma bolsa e as chaves do carro João, você pode ajudá-la? Tenho que buscar os irmãos dela na casa da minha mãe.
Pode deixar, dona Clarice. Cecília vai tomar a sopa direito. ele falou rindo.
BAM da porta e lá estavam os dois sozinhos no apartamento sem o menor movimento ou comentário. João imaginou que algo estava errado, mas foi capaz apenas de levantar-se e ir à panela pegar uma tigela para que a namorada tomasse um pouco como deveria.
Não havia nada na televisão, então as bufadas de Cecília tornaram-se mais altas. Sua perna latejou e os curativos ainda doíam um pouco. Acabou por não resistir ao silêncio.
Pode me entregar o analgésico? Mamãe deve ter deixado em cima da bancada da cozinha. pediu com frieza. Lanas e mais Lanas entravam na sua cabeça.
Então João veio com a tigela de sopa, um copo de água e os comprimidos em seus passos desengonçados e seu sorriso quieto, fazendo com que ela se sentisse ainda pior. Sentaram-se lado a lado devagar com cuidado por causa da perna. Entretanto, quando ela pegou a colher, João puxou-lhe a cabeça e beijou seus cabelos próximos à orelha.
Desculpa não ter ido ao hospital. ele falou e o coração de Cecília palpitou. Eu e Lana estávamos na faculdade quando Ana ligou. Tentei ir, mas o trânsito estava impossível e eu ainda tinha que entregar uns papéis para o professor, então liguei para a Ana e disse que vinha para cá depois.
É, você ainda tinha que terminar o trabalho. Cecília falou, recostando-se no estofado do sofá.
Agora me responde o que você tinha na cabeça quando não viu a moto chegando? o rapaz falou, soltando um pequeno riso, mas ela não riu. Digo, como você consegue simplesmente andar sem pensar, Cecília?
Pensando demais, na verdade. Tenho que parar de agir sem pensar... Mas vamos mudar de assunto? Estou cansada de pessoas perguntando pela minha perna dilacerada.
Ele sorriu, dizendo rápido:
Dilacerada? Não foi para tanto, haha. Mas podemos sim mudar o assunto! Como foi o festival hoje?
Muito bom.
Um porre. Você deveria ter ido. Queria você comigo, não com a Lana.
Só isso? Só muito bom? João falou e percebeu a tensão hesitante dela. Por um lado sentiu-se culpado por aquela reação, mas por outro simplesmente não entendeu. Ele estava ali, ele sempre estava. Nada de novo?
Ela passou os olhos pela sopa e teve um rápido lapso, fitando o rosto dele, com as palavras:
Tenho uma filosofia nova.
João riu quando a viu sorrir com o próprio comentário.
Qual a filosofia, fraquinha?
Balões, música e sentimentos humanos. Bem, a sensação que eu tenho quando vejo os balões de ar quente subindo e de querer pairar com eles no céu, é um sentimento que eu tenho quando escuto música e tomo toneladas de aspirina, entende? Cecília falava sem acreditar nas próprias palavras e embaralhando as idéias na cabeça. O sono bateu e ela soltou um levíssimo bocejo enquanto João ria ainda mais E então eu fico ainda mais pensativa com toda essa idéia de calmaria e leveza. O que deveria ser o contrário, eu não deveria pensar em nada! Ta entendendo? E é assim que é o sentimento do amor. Como música e como balões de ar quente. O pensamento que se resume à leveza e ao peso que as pessoas nem imaginam que um balão tem. Uma música curta, mas que chega a milhões e aperta os corações, criando mil histórias e interpretações.
Por outra vez, Cecília bocejou, mas agora tentando disfarçar que coçava o olho. Finalmente os remédios estavam fazendo efeito.
Pensamento interessante esse seu. ele falou e passou a mão no cabelo dela Deveria anotar e patentear quando escrevesse o próprio livro.
Estou com sono demais para isso. Precisava te contar antes que eu esquecesse, João. Porque o nosso amor tem peso e é leve ao mesmo tempo. A gente não sente o peso que ele tem direito por ser tão bonito.
Ele sorriu naquele instante e segurou seu rosto para beijá-la dois movimentos de lábios que Cecília interpretara como as suas declarações de amor sem vacilo ou hesitação. Outro beijo e não havia mais nenhum pensamento sobre Lana, professor de matemática ou perna machucada.
Vai terminar de tomar a sopa, sonolenta? João brincou e ela apenas negou com a cabeça. É uma pena, sua mãe vai ficar bem chateada comigo.
Antes que Cecília pudesse comentar qualquer coisa, o rapaz passou uma de suas mãos entre suas costas e o sofá e a outra em baixo de suas coxas, levantando-a num esforço hercúleo e bizarro. Todos sabiam que João não era exatamente a pessoa mais forte do Rio de Janeiro, o que tornou a cena que tinha intuito romântico em algo cômico, arrancando risadas altas e exageradas da própria moça.
João a levou pelo corredor do apartamento até seu quarto e a pousou devagar na cama, correndo para pegar os travesseiros para poder acomodar a perna engessada. Esforços que a própria Cecília cortou ao comentar entre risos:
Você sabe que eu não vou dormir, não sabe? Eu tenho que tomar meu banho ainda.
Eu sei. ele disse, ainda arrumando o quarto e tudo que podia para ela E você sabe que se ficar no sofá vai dormir. Então, como eu não posso te dar um banho ainda, você vai esperar pela Dona Clarice acomodada como a fraquinha que você é, certo?
Algo se remexeu dentro dela.
Vem cá, por acaso você era algum escritor de romance gay na outra encarnação?
Uma gargalhada longa e de repente os dois viram-se em silêncio, ela deitada e ele senado ao pé da cama, mexendo em alguma coisa qualquer em seu celular. A mãe de Cecília chegou e, junto a ela, seus irmãos fazendo barulho para poder riscar o gesso. Animação e mais animação, antes que um barulho soasse do celular de João e quatro palavras ele dissesse, ainda mirando o aparelho:
Acho que já vou.
Os dois pequenos foram para seus quartos finalmente, e assim o rapaz pode se apoiar na cabeceira da cama de Cecília para poder beijá-la.
Espero que você não se vá se eu não tiver nada mais para te contar. Cecília falou ritmada, mas não cantou. Esperou por um instante que ele falasse qualquer coisa que fosse sobre a música, com de costume. Ele não falou Thiago Pethit, já escutou?
Já sim, mas agora eu tenho que ir. Amanhã não posso vir, mas depois venho passar o dia com você, está bem? João falou sorrindo.
Está sim...
O sorriso de João não de desmanchou até que ele desse de costas, o que por um segundo confortou Cecília. O único problema foi que assim que cruzou a porta do seu quarto para poder falar com Dona Clarice, ele atendeu uma ligação do celular.
Oi, Lana. É, estou saindo da casa da minha namorada e posso passar aí. Amanhã também está de pé, vou por volta das três horas, pode ser? Está ótimo. Até já então.
Não queria sentir ciúmes, muito menos ficar chateada por pequenas coisas com João afinal ele sempre esteve incrivelmente presente ao seu lado. Chegou a imaginar que ele a teria mimado demais daquela maneira e que, no primeiro sinal de distância, já a deixara paranóica.
É melhor esquecer isso tudo e dormir um pouco, ela pensou com um bocejo quase forçado.
BAM, a porta do apartamento fechou e ela soube finalmente que ele havia saído. Sentiu uma pequena vontade de chorar e colocar a culpa na dor da perna.
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