Canções De Apartamento

5 05 - Eu não tenho um barco, disse a árvore.


Notas iniciais
Capítulo grande e tristinho pra compensar a demora :/ eu fiquei chateada por fazer o que fiz com meu casal predileto, mas era preciso para seguir a história corretamente.

Eu não tenho um barco, disse a árvore.

Segunda-feira, 10 de junho.

– Que dia feio. Tinha que ser segunda-feira. – Cecília falou tão lentamente que era possível espiar seu sono pelos olhos e pelo movimento dos lábios. – Eu estava tão feliz na minha caminha, terminando de organizar os papéis de um estágio que eu posso perder, até que você me arrastou para esse buraco que você chama de casa.

– Mas é arrumadinha, Cecília. – Ana retrucou, esticando-se como podia para pendurar um cacho de balões em cima de um armário da própria sala, mas sem sucesso foi capaz apenas de jogá-lo no topo e bufar – Papai e a namorada ainda estão chegando com o bolo e com meus avôs.

Cecília bateu a cabeça na parte de trás da poltrona que estava sentada. Não podia ajudar Ana por conta da perna engessada e apoiada num banquinho da cozinha, então se ocupou em abrir saquinhos de amendoim e salgadinhos para organizá-los de entrada para os convidados.

O aniversário de Ana sempre foi uma desculpa para que muita gente se encontrasse e se comprimisse no minúsculo apartamento de seu pai, sempre escutando música de um DVD e fingindo que os vizinhos não se incomodavam com o barulho. Quando os tios começaram a chegar, a animação se multiplicou. Vez ou outra a pergunta sobre o que havia acontecido com a perna da melhor amiga da aniversariante se repetia.

– Por isso não atravessem a rua sem olhar para os dois lados. Quebrar a perna dói, mas o gesso faz coçar que é uma beleza! Acreditem, essa é a pior parte. – ela brincava com os sobrinhos de Ana, o que causou maior alvoroço e divertimento entre eles.

– Mas agora eu tenho que pegar emprestada a engessada para me ajudar a lavar os pratos. – a moça se intrometeu com risos, arrancando birra dos pequenos.

– Ah, tia Ana! – Cecília riu sozinha ao se levantar com o apoio da cadeira – Eu bem que podia continuar aqui fazendo o seu papel de dona da festa.

As duas riram e foram em direção à cozinha devagar – Cecília ainda mancava bastante, mas a maior parte se dava ao drama que gostava de fazer. Por um instante começaram a cochichar sobre a roupa de uma tia brega, mas os risos chamaram a atenção do irmão mais novo de Ana, que frisou o fato de não terem pratos limpos.

E cada vez mais o interfone tocava. E cada vez mais a campainha berrava. Conseguiam escutar absolutamente tudo de dentro da pequena cozinha, o que deixou um pequeno receio por conta dos comentários um tanto maldosos sobre a tia de Ana.

– Eu deveria ser uma boa anfitriã, não acha? – Ana murmurou, secando um prato de louça com detalhes azuis, enquanto a amiga lavava o resto. – Digo, eu realmente deveria abrir a porta ou mandar o meu irmão fazer isso por nós.

– E eu concordo que você devia ficar no meio da festa, mas de jeito nenhum seu irmão devia ficar perto dos pratos. Ele é mais desastrado que eu!

Cecília riu sozinha, vez ou outra mexendo a perna. Não agüentava ficar muito tempo em pé, mas aquilo era o mínimo que podia fazer para realmente aproveitar a companhia da amiga, coisa que há algum tempo estava sendo afastada sem querer.

– É melhor eu chamar o Luiz. Você também precisa sentar.

Foi então que a campainha tocou outra vez e Cecília apontou para a porta que dava da cozinha para a sala, falando:

– O dever te chama!

Depois de um bocejo, Ana correu para a fora, forçando o sorriso quando pediram uma foto e assentindo com a cabeça ao mostrar os copos de cerveja vazios. Outra vez a campainha tocou.

– Já estou indo! – ela berrou, ignorando completamente os pedidos nada carinhosos dos convidados. Por um instante retorceu o nariz e se perguntou por que não tinha combinado algo fora de casa, teria um mundo para limpar depois.

Entretanto, ao abrir a porta, todos os pensamentos e não pensamentos que ela tinha se dissiparam.

– Parabéns, aniversariante! – João falou com uma grande sacola de papel na mão e um sorriso estampado no rosto.

– Obrigada, Deus, por esse glorioso dia em que o meu primo veio me ver no lugar de ir pra faculdade! – ela berrou e praticamente pulou para abraçá-lo. Queria rir por causa da situação, mas seu humor foi cortado completamente quando percebeu alguém atrás do rapaz que ria acanhada. – E esta é...?

João olhou para trás e chamou a moça alta de cabelos longos, mexas loiras pranchadas, rosto fino e nariz empinado. Por causa da sua aparência já chamativa e sua aparição nada conveniente àquela casa, Ana olhou-a de cima a baixo já imaginando quem era.

– Olá. – ela falou meigamente.

– Ana, essa aqui é Lana. Rimou, que engraçado. Convidei-a para vir, tem algum problema?

De repente, um grande barulho apartou o som e a conversa. Um prato tinha se quebrado na cozinha.

– Eu realmente espero que tenha sido o Luiz. – Ana murmurou para si mesma, em seguida voltando a olhar para os dois e amarelando mais o sorriso do que estava quando seus convidados a importunavam – Vamos entrando, pessoal!

Assim que os dois puseram os pés para dentro do apartamento, a moça correu para a cozinha sem se importar em fazer apresentação nenhuma de Lana. Quando entrou no lugar, Cecília estava espiando num canto da porta.

– O que ela está fazendo aqui? – Cecília falou baixinho e puxou Ana pela manga do vestido que usava. – Eu vou ma-tar alguém.

– Quebrar o prato não bastou? – ela tentou rir, mas a expressão da amiga era assustadora.

– Ana, eu estou falando sério. Por que diabos ele trouxe ela para cá? E nem me falou nada, eu nunca nem vi essa mulher. O pior é ela parece ser tão bonita nas fotos do facebook.

– Ela não é tão bonita assim, sua louca. – a outra falou como se estivesse se divertindo – Ela tem o cabelo ressecado e é mais alta que você, só isso.

Cecília enfiou o rosto no meio das mãos e se recostou na pedra do balcão. Queria sentar e agarrar os próprios joelhos, mas, infelizmente, estava impossibilitada.

– O que eu vou fazer quando ele vier falar comigo? Eu não consigo fingir simpatia com essa mulher. – ela murmurou antes de ter um lapso e levantar o rosto para o teto com uma expressão confusa – Ele nem sequer perguntou onde eu estava, perguntou?

– Amiga, ele nem deve saber que você está aqui...

– Mas ele sabe, eu mandei uma mensagem. – Cecília a interrompeu, ainda mais conflituosa – Ele não me respondeu.

Ana coçou a cabeça. Não era a primeira vez que esses desencontros entre os dois aconteciam, mas ela se perguntava se tinha de acontecer justamente naquele dia, no seu aniversário. Por um lado, sempre gostou do relacionamento da melhor amiga e do primo, entretanto aquilo se tornava mais difícil quando algo acontecia e nada resolviam entre si. Cecília nunca falava nada.

Então a morena levantou-se devagar, respirando fundo com um ar de conformidade e voltou para a louça. Queria escutar e processar as coisas boas que a outra dizia e queria ir falar com João.

Nada fizeram as duas por um longo instante.

– Olha só o que eu encontro aqui na cozinha. – a voz de João soou na porta e ambas levaram um susto.

Cecília murmurou um “olá” quase mudo e permaneceu com a boca entreaberta, desejando sumir dali – de preferência com ele e apenas ele.

– Cansou da tia Gabriela? – Ana brincou, recostando-se numa parede em baixo do relógio rústico que tinha.

No momento que ele ia assentir, notou algo e voltou-se para a sala, retornando no segundo seguinte com a mão envolta no pulso de Lana. A cabeça de Cecília se desmanchou com aquilo e outro prato quase escapuliu para o chão.

– É, eu estava sentindo falta da dona da festa e acabei encontrando meu amor lavando os pratos com essa perna engessada! – João brincou, mas ninguém riu. As duas moças o olhavam com o cenho fechado e Lana acuava-se atrás de suas costas, sabendo que não pertencia àquele lugar – Cecília, por que não está sentada?

Ela soltou um meio riso e se virou para a pia, limpando-a rapidamente enquanto falava:

– Estou só ajudando já que ninguém quis ajudar a aniversariante. Por sinal, Ana, é melhor você voltar pros seus convidados. Você também, João, sua família também está aí e a Lana não conhece ninguém.

As palavras saíram com tamanha naturalidade que nem o rapaz nem Lana escutaram quando a jovem Cecília fungou. Ana, entretanto, notou.

– Vem, Lana. – Ana retrucou, seguindo na sua direção e sorrindo rapidamente para ela – Me ajuda com os salgadinhos?

– Ajudo sim. – a voz dela era mansa e grossa, e atingiu o peito ciumento de Cecília.

João ameaçou segui-las, mas fora repreendido pelo olhar censurador que a prima fez antes de bater a porta no seu nariz. E assim ficaram sozinhos com outro fungado de Cecília.

– E então, chegou cedo não é? – Cecília falou rapidamente, agora pegando um pano para enxugar os pratos.

Ele aproximou-se dela e pegou outro pano para ajuda-la com os pratos, sorrindo enquanto dizia:

– Meu recorde esses dias, e ainda deu para comprar o presente.

Ligeiramente, Cecília espiou seu sorriso e sentiu a amargura de seu ciúme corroê-la. Por que estava assim? Por que tinha raiva daquele sorriso? Pensava e se desmanchava antes de recostar a cabeça no ombro do rapaz. Ele riu por isso e pegou o prato que ela tinha em mãos.

– Você deveria chegar mais cedo às vezes, sabia? Nem que fosse uma vez só na semana.

– E você deveria sentar, fraquinha. Sua perna não está cem por cento. – João brincou e chacoalhou o ombro para que ela fosse, mas ela não foi.

– Me deixa ficar só mais um pouco aqui antes de você voltar para ela. – à medida que ela falava, as palavras diminuíam o tom e o volume.

– Do que está falando?

Cecília arrependeu-se das próprias palavras e virou o rosto, pousando a testa, desta vez, no encontro do seu ombro com o peito. Aquele ponto quente e gostoso só ele tinha.

– Não é nada, deixa para depois... Depois de ter você pra que querer saber que horas são...?

Por um instante, o rapaz não entendeu o significado daquele momento em que permaneceram em silêncio. E por muito tempo não conseguiu entender e nem ver como ela estava ali: Sentindo-se sozinha.

– Cecília, é melhor você ir sentar. Estou falando sério. – João falou com a voz rouca. – Você bem que podia chamar a Lana para se conhecerem melhor.

Foi assim que ela bufou repentinamente e desencostou-se do seu braço com o rosto fulminando.

– Para o inferno com a minha perna. – Cecília resmungou, mancando para fora da cozinha.

– Ei, o que foi? – ele balbuciou, secando as mãos e se apressando para acompanha-la.

Todos os convidados espremidos observaram quando ela pegou a própria bolsa e digitou furiosamente o número do táxi no celular.

– Cecília, o que houve? – Ana se aproximou meio receosa.

A moça suspirou e respondeu graciosa como nunca tinha sido antes:

– Vou para casa, estou morrendo de dor na perna e dor de cabeça.

Muitos se voluntariaram para levá-la, mas de nada adiantou. Sua cota de paciência com a própria perna tinha se esgotado e, se possível, iria andando sozinha para casa apenas para pensar melhor. Desceu pelo elevador como um raio sem olhar para João e esperou que ele não a seguisse, pois não queria ter que olhar para seu rosto e perceber a boba e infantil reação que tivera.

O número do táxi estava ocupado e ocupado. Cansou e ligou para a primeira pessoa que imaginou já praticamente do lado de fora do condomínio.

Daniel chegou em menos de quinze minutos com um sorriso de ponta a outra e uma satisfação extraterrestre.

– Quer dizer que ele está te trocando pela Lana? – ele perguntou logo depois da grande e exagerada explicação que ela deu sobre o trágico aniversário.

– Não é “trocar” a palavra! Está mais para transplantar lenta e dolorosamente a atenção que dava à namorada para um projeto de Barbie paraguaia. – Cecília resmungou, fungando para não começar a chorar pela própria decadência em abrir-se daquela maneira feia e egoísta. – Eu só queria poder ficar lá com ele num silêncio eterno, mas ele repetia mais e mais vezes para eu sentar, então perdi a paciência.

– E quando você foi embora ele não foi atrás de você? – Daniel murmurou e um estalo correu pela cabeça de Cecília.

– Eu não posso me dar ao luxo de pedir que ele venha atrás de mim, Daniel. Mas, para ser sincera, eu realmente queria que ele fosse e que cuidasse de mim como cuidava no início.

O carro parou com o sinal de trânsito e o rapaz soltou um grande suspiro.

– Há quanto tempo mesmo estão juntos? Um mês? Dois?

– Mais ou menos uns cinco meses. Não temos uma data certa, entende?

– E ele é seu primeiro namorado, não é, Cecília? -

Ele apenas assentiu com a cabeça. Ambos acabaram ficando em silêncio, escutando a música aleatória que tocava na rádio.

Cecília desligou o rádio e recostou a cabeça na janela, desejando do fundo do coração que aquela raiva fosse TPM e que passasse. Queria deixar para lá.

– Só escuta, Cecília: a gente só fica com alguém se essa pessoa nos faz bem. Se não faz, se a gente fica só do lado da pessoa, não há motivo para continuar.

As palavras dele tinham sentido, mas ela tentou ignorar por sentir que eram vãs e até mesmo pretensiosas.

Quarta-feira, 12 de junho.

Enquanto almoçava no bandejão da faculdade, recebeu uma mensagem e a apagou rapidamente, batendo furiosamente o garfo no próprio prato. Ao seu redor algumas pessoas olharam. A maioria ali podia ser sua conhecida, mas não deixou de achar estranho.

O vento soprou e o arroz esfriou enquanto Cecília lembrava-se das palavras e se maldizia por ter apagado o que parecia ser: “Feliz dia dos namorados, Cecília. O que acha de comemorarmos na sexta-feira com um jantar lá em casa?”. Ensaiou uma resposta, mas alguém chamou sua atenção. Esqueceu a mensagem em menos de quinze minutos.

“Feliz dia de São Valentim também hehehe!” a outra mensagem chegou no meio de uma aula, mas a moça ignorou.

“Mais tarde te ligo, pode ser? Talvez eu até consiga sair cedo daqui.”

“Não consegui sair. Me liga assim que puder, ok?”

“Bem, você não atende minhas ligações então boa noite...”.

Sexta-feira, 14 de junho.

João olhou-se no espelho do elevador lentamente, não esperava que ele fosse rápido, pois o andar dela não era um dos primeiros. A porta se abriu e lá estava a porta de madeira pesada que dava entrada ao apartamento. E por um instante ainda hesitou antes de tocar a campainha, estaria ali de surpresa com um presente em mãos. Será que ela gostaria?

Tocou, bateu na porta e esperou inquieto em seu próprio canto. Quando finalmente Cecília abriu a porta, tinha um riso alegre por estar provavelmente brincando com seus irmãos e se desmanchou ao vê-lo ali parado na sua porta.

– Nossa, o que está fazendo aqui? – ela falou como se tivesse perdido o fôlego.

– Eu vim te ver, é claro! – João riu-se de repente e a abraçou. O único problema foi a rigidez do corpo dela em seus braços, parecia estar desconfortável num abraço que nunca mais trocaram. – Estou te devendo um jantar de dia dos namorados, não estou?

Ela assentiu com a cabeça, falando devagar:

– Você poderia ter pelo menos me avisado que viria. A casa está uma bagunça só...

– Podemos sair se você quiser, é sexta-feira.

– Você queria me mandar sentar a cada dois segundos antes de ontem e quer que eu saia hoje? – Cecília falou friamente sem perceber a insistência dele – Entra, eu fiz um bolo agora a tarde.

Ela não falaria da mágoa nem sob tortura, ainda estava com um pé para trás e fazia questão de imaginar que ele seria o engessado por ser o mais pesado.

Já era noite de sexta-feira e não havia nada na televisão, mas a moça fazia questão de passar compulsivamente os canais. E aquela situação perdurou por alguns momentos enquanto João comia as várias garfadas de bolo fofo. Vez ou outra alguém entrava ali e o cumprimentava, comentando sempre que o bolo de Cecília tinha passado do ponto.

Os dois também, ela imaginava e se aquietava ainda mais. Os dois teriam passado do ponto?

– Eu tinha me esquecido de contar para você na festa da Ana, recebi meu visto do consulado americano. – João comentou depois de engolir um pedaço a seco.

Ela mordeu o próprio dedo e sorriu tristemente.

– Isso é bom. Muito bom.

– O maior problema vai ser o frio, mas você até que vai gostar de me visitar lá. Imagina só passar um tempo nos Estados Unidos.

– Tenho certeza de que não aproveitaria a viagem. – Cecília murmurou amargamente. – Pessoas como a Lana ficariam melhor para acompanhar sua viagem e seus estudos.

João riu um riso bobo e desacreditado do que tinha acabado de escutar, e aquilo ferveu os neurônios e a calma dela.

– Me diz uma coisa? Você está com ciúmes da Lana? – falou, pegando outra garfada do bolo.

Mas ela nada respondeu. Imaginou, entretanto, que aquilo estava claro desde a primeira vez que ele tocara no nome dela, então respirou fundo e cambaleou para fechar a porta da cozinha. O rapaz chegou a sibilar sem som algum “eu sabia”, mas ela o ignorou com aquilo.

– Por que você acha isso? – Cecília disse com um sorriso de lado que o confundiu. – Quero dizer, a Lana é sua amiga não é? Por que eu teria ciúmes dela?

– Eu teria ciúmes se fosse o contrário. – ele admitiu e um raio passou por ela, fazendo com que sua cabeça baixasse.

– É melhor deixar pra lá...

– Não, Cecília. Não deixa para lá. Você tem que parar com essa mania de deixar a coisa ir embora.

E então ela se calou e fechou o cenho.

– Não há nada para falar, então eu deixo sim para lá. – Cecília resmungou baixo e percebeu quando ele rangeu os dentes. Calmamente soltou um suspiro, não era aquilo que queria. Aproximou-se da cadeira do namorado e quando tentou passar a mão no rosto dele, assim como o próprio sempre fazia, João afastou o rosto. – É só que não precisamos nos preocupar com isso agora, podemos deixar passar que vai passar. Basta nós ficarmos juntos, talvez.

– Talvez? – João balbuciou. – Quer dizer que só talvez nós fiquemos bem e continuarmos sem dizer o que incomoda um ao outro?

– Mas nós somos assim! Não tem o que se preocupar, acredite. – falou e ficou em silencio um tempo, tentando olhar para qualquer lado que não fosse para ele – O “talvez” foi só porque nós estamos meio diferentes já há um tempo.

João coçou o nariz e aproximou-se dela, falando e fixando o olhar em seu rosto:

– Cecília, diferente como? Só sei do seu surto no aniversário da Ana!

Ficaram em silêncio outra vez com aquilo. Tudo parecia tão limpo na cabeça da moça, toda a mágoa e a certeza de sua própria imaturidade por ter escolhido ser assim.

– Eu não teria agido daquela maneira se você não tivesse sido tão ruim...

– Ruim? – ele resmungou e colocou o braço sobre a mesa – Ruim como? Eu te destratei? Eu por acaso fiz algo de errado?

– O problema é tudo o que você não faz há tempos! Você consegue se lembrar da última vez que disse que me amava?! Eu não lembro pelo menos!

João franziu a sobrancelha e tentou passar a mão no cabelo dela, mas já era Cecília que se esquivava.

– Cecília, eu te amo. Você sabe que eu te amo e que eu quero ficar sempre com você. – ele falou devagar e cheio de ternura, mas suas palavras não retorciam mais o coração da moça. – Se você quiser que eu peça desculpa, eu peço.

– Esse não é o único problema, João. – Cecília murmurou e sacudiu a cabeça – Eu não te vejo nunca mais, eu não sei mais notícias suas! Você não me procura mesmo sabendo onde eu estou, você recusa claramente os meus carinhos e você simplesmente não me via há tempos, mas quando viu você jogou a Lana para perto de mim.

– Porra, o que ela tem a ver com isso?

– Tudo! João, você estava sempre com ela! Sempre que eu tentava falar com voc-

– Tentava falar comigo? – ele a interrompeu. – Cecília, há semanas você não me liga. Há semanas eu não tenho notícias sobre o que você faz ou o que você deixa de fazer. Eu soube do seu acidente porque a Ana me ligou e você não fez questão nenhuma de falar comigo.

Ela bufou e se levantou, caminhando até o balcão que havia ao lado da geladeira.

– Como eu poderia falar com você se desde o meu aniversário você mal sai da faculdade? E, lógico, está sempre com a Lana, não é? E no meu acidente você não foi nem me ver no hospital.

– Eu não consegui nem sair da Ilha do Fundão naquele dia! – a voz rouca de João se tornou fina de uma vez por ter aumentado seu volume involuntariamente. – Eu fui quando consegui para o seu apartamento para conseguir te ver. Eu sempre vou atrás de você.

– Eu sei...

Cecília admitiu devagar e pesadamente. Pensava em tudo o que ele já havia feito por ela e nesse pequeno intervalo de tempo que estavam juntos. Não havia um motivo exato para aquela sensação de falta. Não havia sequer uma boa razão para discutir aquilo.

– Mas isso não é suficiente, não é? – João disse, levantando-se da cadeira e aproximando-se dela. Os dois se recostaram no balcão e se entreolharam por um longo instante num silêncio feroz até que o rapaz tomasse fôlego – Eu te deixei só, não foi?

– Não só, apenas distante. – ela assentiu com a cabeça, tentando não encará-lo. – A gente sem querer se tornou assim: Monocromáticos e sem fitas nem músicas para salvar.

– Sem música?

E pela última vez em muito tempo, Cecília cantarolou uns versos sem ritmo nem melodia para acompanhar. Os dois não deram nenhum basta, não disseram em momento algum que aquele era o fim, mas tudo parecia levá-los àquilo. O fato de não fazerem menção alguma ao silêncio transformou algo nos dois.

“Nós dois já tivemos momentos, mas passou nosso tempo. Não podemos negar, foi bom. Nós fizemos histórias pra ficar na memória e nos acompanhar. Quero que você viva sem mim. Eu vou conseguir também.”

Quando João finalmente chegou ao próprio apartamento, jogou a mochila em qualquer canto e andou rapidamente para seu quarto, guardar o presente que tinha escondido debaixo da cama num buraco qualquer do guarda roupa. E ao finalmente deitar-se na cama, sentiu que não havia jeito depois de tanto piorar sem que ele soubesse. Ele a amava como podia e como jamais outro alguém poderia amar. Era uma pena ela não ter entendido isso direito.

Notas finais
Lista das músicas do capítulo: 1. DEPOIS DE TER VOCÊ - Adriana Calcanhotto 2. DEPOIS - Marisa Monte Decididamente, se a Ana e o João não fossem primos eles seriam perfeitos um para o outro kk a Cecília é muito dramática e dá ouvidos demais pro Daniel humpf. O ruim é que eu sou autora e fico achando ruim o que eu escrevo kkk nem tudo é um mar de rosas! Próximo capítulo: João e o Pé de Feijão o/