Canção da Sereia
40 Quebra cabeças - Parte 2 - Rs
Notas iniciais
Willian
– Willian, miserável! Essa é Nora, seu idiota! — Lancey diz.
Aquela criatura de olhos em luz e cauda é Nora.
Somos enxotados do quarto. Apenas Lancey e Megan permanecem lá. É isso que eles estavam escondendo. Murmurando pelos cantos. A cauda. Pela cara de dor que de Nora, o fato de se curar rápido tem haver com isso. Ela sofria e muito.
Subitamente as lembranças da visão voltam. Coisas que eu não lembrava antes. Eu vi outras mulheres como Nora. Eu matei várias delas também. Na visão, quero dizer.
– O que foi isso? — George está eufórico. — Eu sabia que elas existiam. Estávamos procurando e tínhamos uma bem de baixo de nosso nariz.
Ele caminha de volta para a porta de Nora.
– Já chega. — Digo a ele, que me olha irritado.
– A nossa descoberta está do outro lado da porta, Willian! O que estamos procurando há anos. Está bem aqui. — Ele aponta pra porta e então sorri.
– George... não é isso que estamos procurando.
– Estamos atrás de uma sereia. Ela é uma. Fim!
– Ela foi transformada, tenho certeza disso.
Sim, eu tenho certeza. Começo a me lembrar de coisas. Coisas que eu não vivi. Lembranças do que vimos naquela sala.
– Certeza? Como? Estava gritando que era a criatura! Não sabe nem quem é Nora, como pode saber de algo assim?
Eu não pretendia esconder dos outros o que aconteceu no quarto. Na verdade, eu iria juntá-los assim que estivesse descansado e contaria tudo. Agora não adianta mais me preparar, ou planejar formas de dar uma noticia dessas.
– Eu vi. — Aponto para a porta. — E eles também.
George me fuzila com os olhos. Steven se coloca a seu lado. Gideon, Mason e Kall ficam em silêncio, apenas nos assistindo.
– Nós fomos possuídos por alguma coisa e nós vimos. E bem, tenho uma teoria, baseada em que vi e no que aconteceu com Nora. — Teoria recém criada. — No pier, quando chegamos... não foi um tubarão que a atacou. Acho que foi uma espécie... semelhante ao que Nora virou. Mas de qualquer forma, nada disso é natural.
– O que está querendo dizer, Willian? — O rosto rechonchudo de George fica vermelho.
– Estou querendo dizer que estamos no meio de uma fogueira de bruxas.
George
Willian nunca acreditou em mim. Mas eu sempre soube o que vi há sete anos atrás. A longa cauda da mulher, misturada a seu sangue. Ela o salvou daquele tubarão e então sumiu. Ele sempre disse que eu estava alucinando. Mas agora, depois de tanto tempo, a prova está aqui.
– Ela foi transformada. — Ele insiste.
Nós descemos, nos reunimos na sala. Steven fica quieto. Mas sei que ele partilha das minhas ideias.
– O que você acha que viu, então? — Kall pergunta. Ele tem se mantido controlado, mas eu bem sei que essa natureza calma não faz parte dele. Kall é curioso, espontâneo e adora desvendar um bom mistério, por isso eu o indiquei para essa equipe. Imagino que todo esse controle seja por preocupação com Meg.
– Há muitos anos – Willian começa. Ele está sentado no sofá, com as costas bem coladas ao encosto. — Houve uma feiticeira. Tipo, muitos anos mesmo! — Ele gesticula com as mãos. — Ela foi queimada. Mas cada vez que um corpo era destruído, ela ocupava outro e voltava. Isso se tornou um circulo vicioso. Então, decidiram não queimá-la mais, mas banir. Essa ilha deveria ser uma prisão. Milhares de outras mulheres foram enviadas pra cá. As pessoas acreditavam que se uma podia fazer isso, as outras também. Por anos, eles enviaram mulheres acusadas de bruxaria para essa ilha.
– Você viu tudo isso? — Pergunto a ele. Não acredito nisso. Quer dizer, possessão é algo que acontece. É fato! Eu mesmo presenciei a Srta. Ryle passando por um momento desses. Mas a forma que ele está contando... ser possuído e ver o passado? Isso parece mais com um espirito brincalhão possuindo ele e nos enganando. Não posso acreditar nisso.
Noralys Ryle é uma sereia e isso é tudo que eu preciso saber. E o mundo! Finalmente vou provar a todos que não sou um velho delirante. Isso significa muita coisa. Vou recuperar o respeito no meio acadêmico e cientifico. Recuperar o respeito dos meus filhos. Eu estava certo. Sempre estive!
Noralys irá a publico. Não me importo com o que acontece nessa ilha, vou passar por cima de tudo e tirá-la daqui, mostrar ao mundo a minha descoberta!
Paro de ouvir Willian, só consigo pensar no que vi no quarto. Aquela cauda era maravilhosa. Eu preciso de amostras, de fotos. De tudo que eu puder por as mãos. Se ela morrer depois de ser exposta, será melhor ainda. Poderei dissecá-la! Tantas coisas, tantas ideias poluem minha mente. Eu preciso sair dessa ilha e preciso levá-la comigo. É uma questão de honra!
Willian
Oh deus, me sinto péssimo. Ela vai me odiar pra sempre agora.
Mas por que diabos ela não me contou? Pela cara de Lancey, essa não foi a primeira vez. Ele sabia. E Megan também. Por que elas não me contaram? Puxa vida, estou ao lado de Megan há anos. E Nora... tá certo que não nos conhecemos direito, mas estamos dormindo juntos há uma semana. Isso não é motivo suficiente para dividir uma cauda? Eu quase pirei ao ver aqueles olhos... droga, a joguei longe e com força. Aquilo deve tê-la machucado.
George está decidido. Posso ver isso em seus olhos. Mesmo sabendo que isso não é natural, percebo que ele pode ter razão sobre o acidente com o tubarão, sete anos atrás. Talvez eu tivesse sido salvo por uma sereia, de fato. Mas não é uma espécie realmente, não se o que ele viu se parecia com Nora. Isso é fruto de bruxaria. Pura magia negra.
– Há muitos anos – Digo com desespero. Preciso que George me ouça. Ele precisa entender que nada disso é natural, ou vai fazer uma besteira. Puxo em minha memória as lembranças da visão que tive. — Houve uma feiticeira. — Me lembro daquela época ruim, onde doenças governavam e a idade máxima de vida era 40 anos. Época de grandes guerras, onde as mulheres perdiam seus pais, filhos e esposos a todo instante.– Tipo, muitos anos mesmo! — Me lembro de ver tudo isso em um corpo. Um homem. Naquele tempo ele era procurado com frequência. Um curandeiro, diziam. E havia uma garota a beira da morte, Helena. Ele a amou em segredo e a salvou por esse motivo. Dividiu sua alma com ela. — Ela foi queimada. — Junto com a nova alma, ela ganhou seus dons e não demorou até que isso lhe subisse a cabeça. Ela se tornou má. Tão má quanto é possível o demônio ser. Não demorou para que ela fosse apontada como bruxa e condenada a fogueira. Mas seu espirito não morria. Ele apenas escolhia outro corpo e voltava para fazer mais maldades.– Mas cada vez que um corpo era destruído, ela ocupava outro e voltava. — Me lembro quando ela se revelou durante a fogueira. A cada corpo perdido, ela assumia outro e se revelava. Brincando com a mente das pessoas! Então era queimada na mesma fogueira novamente. Naquele dia, muitas vidas foram perdidas. E foi percebido, tarde demais, que não adiantaria matar aquele monstro.– Isso se tornou um circulo vicioso. Então, decidiram não queimá-la mais, mas banir. — Me lembro do feiticeiro ter se levantado naquele dia e sugerir o banimento dela. Claro que ele teve que usar de seus dons para calá-la. Ou ele seria entregue como um semelhante.– Essa ilha deveria ser uma prisão. – Com o tempo outras bruxas foram apontadas, enviadas para esse lugar. Todos pensavam que elas eram iguais, que todas as bruxas tinham almas imortais.– Milhares de outras mulheres foram enviadas pra cá. — O feiticeiro viu, por anos e mais anos, mulheres serem enviadas para esse lugar. As épocas mudavam e ele continuava assistindo. Mas, como Helena, apenas sua alma era imortal. Seu corpo morreu, incontáveis vezes pelo longo dos séculos. Ele tomava para ele corpos novos, vidas novas.– As pessoas acreditavam que se uma podia fazer isso, as outras também. Por anos, eles enviaram mulheres acusadas de bruxaria para esse lugar.
– Você viu tudo isso? — George me pergunta.
Se eu vi? Eu vivi tudo isso. As memórias ainda estão voltando. Eu vivi séculos em algumas horas. As coisas não estão tão claras ainda, mas, de uma coisa eu sei, Helena ainda está nessa ilha. E ela tem vivido através de todas as pessoas que viveram nesse lugar. Ela tem vivido e destruído tudo com sua maldade. Brincando de deus e decidindo quem vive e quem morre.
Minha mente está confusa. Minha cabeça dói. Mas, aos poucos tudo fica claro.
Preciso contar isso a Nora. Quando ela me perguntou, eu não me lembrava de tudo isso. Me lembrava do feiticeiro. Me lembrava da mulher prateada... Helena. Não mais que isso. Mas agora, tudo faz sentido. Eu me lembro!
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