Canção da Sereia

41 Partes de mim - Parte 1 - RS


Notas iniciais
Boa leitura!

Nora

Doeu muito ganhar cauda de novo. No entanto, eu acho que a dor foi menor que antes. Talvez isso seja porque meu corpo está se acostumando. Ou porque estou me curando mais rápido.

No entanto, a sensação de incomodo é pior que a anterior. Me sinto fraca e cansada. Mal tenho forças para me mover. Quer dizer, da cintura pra cima. Essa cauda maldita parece ter vida própria. Não consigo controlá-la.

Lancey e Megan estão comigo. Vejo que meu amigo está realmente preocupado. Ele não diz nada, mas sei que se culpa por tudo isso. Megan me ajuda a colocar uma camiseta que acha no quarto, com certeza é de Willian. Mas, não posso nem pensar nele nesse momento.

– Você parece desidratada. — Lancey fala enquanto estuda meu rosto.

– E você tem mal hálito. — Digo e ele perde a compostura e ri.

– Fui acordado no meio da noite, me desculpe se não tive tempo de escovar os dentes!

– Você comeu merda, Lancey? Sério...

Ele aproxima o rosto do meu e solta o bafo em meu nariz. Estapeio ele, mas junto com a minha mão, a cauda se move. Batendo em várias coisas na cômoda e as derrubando sonoramente. Lancey coloca a mão sobre ela, a segurando.

– Desculpa.

– Vocês são dois idiotas! — Megan reclama, mas ela está sorrindo. Se aproxima da cama e senta ao meu lado, tocando meu ombro.

– Vou buscar água. — Ela diz.

– Eu estava pensando... — Lancey diz enquanto me olha. — Podemos colocá-la na banheira. — Ele volta a olhar minha cauda. — Ou o que couber dela lá.

– Mas Pearl disse...

– Para ela não ir para o mar. — Ele completa.

– Bem... podemos tentar.

– Você pode encher a banheira, então? Vou tentar carregá-la.

Megan concorda e vai para o banheiro.

Lancey toca minha cauda de novo.

– Sente alguma coisa?

– Uma dor dos infernos!

Ele sorri.

– Mais cedo, lá no quarto, quando você me tocou...

Ele também sentiu...

– Eu senti algo estranho... — Lhe digo — não tão intenso como antes... — Coro pela lembrança do chuveiro. Realmente aprecio o fato dele não ficar jogando isso em minha cara.

– Eu também senti...

Isso significa que o problema é comigo. Provavelmente a cauda é a culpada. Mas, eu senti isso antes, com Willian. Antes de chegar no barco. Por quê?

– Tenho que mover você. — Ele muda de assunto.

Lancey se inclina, ficando a centímetros do meu rosto. Passo meus braços ao redor de seus pescoço. Ele dá um meio sorriso antes de começar a me erguer. Me seguro como posso. Estou fraca, é difícil colaborar.

– Vamos lá... sua gorda.

Lancey me puxa com força. Me pegar da forma tradicional não dá certo. Minha cauda incontrolável acerta tudo e o faz perder o equilíbrio. Então, estamos tentando de outra forma agora.

Estou presa a ele, que respira ofegante pelo esforço. Minha cauda está arrastando no chão e mexendo em todas as direções. Mais cedo ele e Megan puxaram os moveis e tiraram algumas coisas do quarto. Sardinha havia fugido enquanto eles faziam isso. Nem mesmo ele pode com essa monstruosidade.

– Será que sua carne é comestível? — Lancey pergunta ofegante. Como ele pode ser tão idiota?

– Te odeio tanto Lancey Morrison!

– Não odeia não. Só odeia o fato de eu ter um cabelo melhor.

– Ai! — Minha cauda bate com força contra a parede.

– Oh meu caramba! Eu não aguento mais. Você pesa mais que chumbo, Nora!

– Idiota!

Estou com dor, estou com medo e estou sorrindo mesmo assim. Esse é o efeito Lancey nas pessoas.

Megan saí do banheiro e contorna nós dois. Lancey respira fundo e me solta por alguns segundos, enquanto me pega no colo da forma “correta”. Megan segura a cauda.

– Ela parece ter vida própria. — Ela diz e então me olha de cenho franzido. — E se tiver realmente? E se for um espirito controlando isso?

– Isso é rídicu... — Começo a dizer.

Megan solta a cauda no mesmo instante que Lancey tenta me empurrar. Como ainda seguro firme em seu pescoço, tombamos para trás e caio sobre ele. Meu braço bate com força e tenho certeza que machucou por causa da dor. Mas, segundo depois começa a sumir e sei que estou me curando ainda mais rápido, se isso é possível.

– Você me soltou, Lancey!

– Sua cauda ta possuída! O que você esperava?

– Minha cauda não está possuída, seu animal!

– Ela parece possuída por mim! — Megan fala de trás de nós.

– Você são idiotas!

– Como sabe que ela não está possuída? — Ele me pergunta segurando pra não rir.

– E como você sabe que está?

– Ela mexe sem controle. E você sabe, da última vez que você perdeu o controle eu quase fui pro saco!

Não tenho nada a dizer. Ele tem razão. Será que minha cauda está possuída? Levanto a cabeça e tento olhar para trás, para ela, que se debate. Me concentro em tentar sentir as minhas pernas. Respiro fundo e então penso nelas paradas. Lancey está dizendo alguma coisa, mas estou o ignorando no momento. Preciso controlar essa coisa.

– … não é legal! — O escuto dizer.

A cauda aos poucos vai diminuindo o movimento frenético, até sobrar apenas alguns espasmos. Sorrio com isso e volto a encarar Lancey. Ele tem o rosto vermelho e uma mão tampando os olhos.

– Estou te machucando? — Pergunto alarmada. Ele disse que eu sou pesada com cauda e nesse momento estou em cima dele. Não pensei nisso antes, mas posso estar o esmagando.

– Vocês são incríveis! — Megan fala e eu ergo a cabeça para encará-la. Ela está corada e desvia o olhar. — O que eu devo fazer, puxá-la?

– Lancey...? — O chamo preocupada.

Ele baixa a mão que cobre seus olhos. A outra mão está na minha cintura, me apertando.

– O que você disse antes? — Pergunto.

– Não acredito que estou passando por isso! — Megan diz de onde está, sem nos encarar.

– Eu disse... ficar “rebolando” em cima do meu pau não é legal!

Meus lábios abrem um pouco. Só então percebo a protuberância em minha barriga!

– Maldito! — Tento me mexer, sair do lugar. A cauda fica incontrolável de novo e as duas mãos de Lancey vão pra sua cabeça.

– Para de se mexer, Nora! — Ele diz vermelho como um tomate.

– Alguém me mate! — Megan continuava repetindo de algum lugar do cômodo.

Eu partilho desse mesmo pensamento com ela, isso é mais que constrangedor. É insano. Eu fui atacada, possuída, virei um peixe, tive um orgasmo com um toque e agora estou abusando sexualmente do meu melhor amigo. E sem querer!

Já é quase de manhã, dá pra ver os primeiros sinais do sol do lado de fora da janela. Batidas voltam a soar na porta. Willian tem voltado várias vezes e tentado entrar. Em todas as vezes Lancey e Megan o tem dispensado.

– Suma, maldito! — Lancey grita e então o barulho para.

– Ela está bem?– Escuto a voz de Willian do outro lado. Isso me deixa mais ansiosa e isso parece ser a causa de toda a movimentação do meu novo membro.

Sem aviso, Lancey me empurra pro lado, me fazendo sair de cima dele e o libertando.

– Ela está morta! Agora suma.

Ele tem repetido isso a cada batida.

– Sinto muito Nora...– Willian diz isso toda vez que volta. Essa não foi diferente. E eu não fiz diferente também. Me mantive em silêncio.

Estou envergonhada. Transei com Willian há poucas horas atrás e isso me causa sentimentos conflitantes. Culpa, raiva, desejo. Ele me tratou como um monstro. Não se espera isso de um cara que está dentro de você! Mesmo que você se transforme em um peixe, oras!

– Ok, vamos fazer isso.

Lancey levanta e sem aviso segura meus braços, me arrastando pro banheiro.

Tento não olhar para o volume em sua bermuda. Ele não me olha, continua corado e desviando o olhar. Megan para perto da minha cauda quando estamos do lado da banheira, ela tenta segurá-la, mas leva um golpe forte, sendo empurrada com força na parede.

– Merda. — Lancey solta meus braços com cuidado e vai até ela. — Machucada? — Ela nega.

– Droga! Sinto muito Megan. — As coisas parecem piorar a cada minuto.

Eu gostaria que aquela criatura tivesse me pego no pier. Talvez agora eu estivesse morta. É covardia, eu sei. Mas as vezes, a morte é a única coisa capaz de libertar.

Levo a mão a meu rosto, tentando impedir as lágrimas e os soluços de escapar. Sinto uma eletricidade passar pelo meu corpo e abro meus olhos.

Lancey está se joelhos ao meu lado, inclinado sobre mim. Seu polegar acaricia minha bochecha.

– Chorar não vai mudar a situação. — Ele começa a dizer. Eu já conheço isso. Já ouvi tudo isso antes. — Ou você engole essas lágrimas e luta comigo pra que as coisas melhorem, ou pode ficar ai no chão, se lamentando. Se autodestruir e detonar ainda mais a vida das pessoas que estão a sua volta. — Lancey me disse isso quando eu saí do hospital. Eu costumava ser apenas uma bola de massa depois de Andrew. Encolhida o tempo todo, chorando e com medo. Até ser confrontada.

Lancey é um idiota. Sempre foi. Mas é um idiota que me conhece como ninguém. Eu teria desistido de viver de bom grado se tivesse o matado algumas noites atrás. Estendo meu braço, passando em volta de seu pescoço. Ele sorri e me puxa. Logo Megan está do outro lado e passo meu braço em seu pescoço também. Eles me levantam com dificuldade e me colocam na banheira cheia de água.

No momento que meu corpo encosta na água, um tremor toma conta de mim. Mas quando sou coberta pelo líquido morno, me sinto bem. Mais que bem. Posso sentir meu corpo ganhando vida de novo e a dor... ela diminui tanto!

– Uau.

– Caramba!

Minha cauda não cabe toda na banheira, no entanto, a parte que pende pendurada está quieta. Parada. E vermelha. Muito vermelha.

Encaro meus amigos. Megan tem a mão na boca.

– Sabe, Nora... — Lancey tem a testa franzida. — Acho que não foi uma boa ideia... — Ele ergue o cotovelo dele e aponta, me fazendo erguer o meu e olhar.

Oh sim, as coisas sempre podem piorar!

Notas finais
Nada a declarar. Bj bjs.