Canção da Sereia
26 Preces - RS
Notas iniciais
Willian
Meus ossos estão me matando. Empurrar uma baleia pro mar, com duas costelas quebradas e escoriações pelo corpo não é fácil.
Ficamos por umas três horas ali e só conseguimos devolver uma baleia pro mar. Somos poucos e me preocupa muito o fato de estar escurecendo. Até agora aquela coisa só atacou pesado de noite.
Talvez essa fosse a hora de se dar por vencido. É de partir o coração todos esses animais assim. E nem mesmo podemos pedir ajuda, porque não tem rádio algum que funcione, ou barco nesse fodido lugar.
– Vamos voltar. — Eu digo.
George está acabado. Nos esforçamos demais. Todos nós.
Kall é o primeiro a se afastar. Ele passa a mão pelos cabelos e volta em silêncio para casa. Eu sei que para ele, que é apaixonado por animais, perdê-los assim é como perder membros de sua família.
Gideon e George o seguem. Steve dá uma última olhada e então os segue. Lancey, pra variar, não se move. Esse garoto é um problema.
– Vamos Lancey. — Ele não me olha, continua próximo a uma baleia, passando a mão em sua pele. — Agora, Lancey.
Ele finalmente para e me olha.
– Você sabe não?
– Sei o quê?
– Alguma coisa causou isso.
É, alguma coisa causou sim. Hoje é noite de lua cheia, a maré subirá, estará em seu máximo. Animais encalhados são bem comuns depois disso. Eles nadavam muito perto da costa quando o nível do mar sobe e quando começa a baixar é tarde demais para se afastar, causando assim muitos encalhamentos. Mas, isso seria amanhã. A maré não subiu ainda. Começava, mas ainda não tinha. Estudei o histórico da ilha antes de vir. Não havia registro de qualquer tipo de testes com equipamentos de sonar ou outro tipo na região. Então, não é por causa de humanos isso. Então, só sobra a criatura.
– Seja o que for, é melhor entrarmos. Nossa situação não nos permite fazer uma pesquisa mais ampla sobre os porquês. A não ser que você queira tanto saber o motivo, a ponto de dar sua vida. Aí você pode continuar do lado de fora e fazer suas próprias pesquisas.
Me viro e começo a andar de volta pra casa. Meu corpo chegou ao limite. Tudo que eu preciso agora é de um banho quente e quem sabe uma massagem de Nora, se ela não estiver muito zangada por mais cedo.
Espero que ela possa entender que eu tive que fazer uma escolha. Ou ajudava a os animais, ou vigiava ela. Fazer as duas coisas não daria certo, uma coisa acabaria tirando atenção da outra.
– Nós precisamos sair daqui. — Lancey diz, ele caminha a meu lado agora. — E depois voltar. Com ajuda.
– Sinceramente Lancey, acho que deveríamos voltar com muitas bombas e afundar de vez esse inferno, para que ninguém mais passe por esse pesadelo. — Verdade. Pra que deixar em pé esse lugar? É praticamente uma ratoeira. E adivinha quem são os ratos?
Ele não me responde sobre isso. Prefiro que ele fique calado de qualquer forma. Ele me irrita. É um garoto irresponsável. Pensa que tudo tem que ser feito de seu jeito, por isso quase foi morto, por isso eu quase morri e por isso quase perdemos Nora. Imprudência governa o corpo desse garoto.
Nora!
E por falar em Nora. Eu vejo como ele a olha. Com cobiça. Como está sempre por perto dela e a tocando. Não tem limite algum.
– Você e Nora tiveram alguma coisa? — Pergunto tentando parecer natural.
– Não. — Ele diz apenas isso.
– Vocês parecem próximos. — Tento de novo.
Ele suspira.
– Nossos pais foram muito amigos na juventude e eu basicamente fui adotado pelos pais dela depois que o meu faleceu.
De certa forma me sinto aliviado. Exceto pelo fato que ela também olha para ele com cobiça. Eu notei isso também. Mas talvez, o motivo seja esse. Eles são familiarizados um com o outro. Nada mais.
– Vocês são tipo irmãos então.
Ele ri.
– Não diria tanto, mas tipo isso.
Alcançamos a porta.
– Elas sumiram. — Kall começa a dizer e saí da casa apressado.
– Sumiram? — levo alguns minutos para perceber sobre o que ele fala — As garotas?
– Sim. — Quem responde é Mason. Ele tem um corte na testa.
– Que porra! — Lancey entra apressado para casa.
Gideon nos alcança com Steve e George.
– Mellow sumiu. — Eles avisam.
– Merda.
Lancey saí de novo, anda apressado em direção a floresta.
– Onde você vai? — Grito pra ele que me ignora. — Cacete. — Digo irritado. Por que ninguém me escuta nesse lugar? — Vamos sair atrás delas. — Aviso. — Steve e George, vocês ficam, caso elas voltem.
Na verdade é porque eles vão nos atrasar.
– Willian – Mason segura meu braço. — Você não está em condição.
– Estou ótimo.
– Não está. Deveria ter repousado o dia todo e invés disso ficou se esforçando. Dessa forma só vai agravar seus ferimentos.
Vejo Kall seguindo para flores atrás de Lancey e Gideon começa a ir no mesmo lugar.
– Estou indo Mason, você vem?
O homem relaxa.
– Vou ficar.
Começo a me afastar, mas então paro.
– Você se lembra de alguma coisa? Viu algo que pode ajudar?
Ele nega.
– Eu estava olhando pela janela, para vocês na praia, quando fui atingido. Bati a cabeça na cômoda quando caí e não lembro de mais nada.
– Mellow que te atacou?
– Eu estava de costas, como já disse, não vi. Mas não acredito que as garotas fariam isso. A menos que não fossem elas...
Ando em direção a onde os rapaz foram. Gideon e Kall estão me esperando. Kall está desesperado, inquieto. Assim que me junto a eles continuamos.
– Megan? — Kall grita.
– Kall, fica quieto! — Gideon chama sua atenção.
– É a maneira mais rápida de achá-las. — Kall responde irritado.
– É de contar nossa localização a criatura.
Ele lança um olhar assustado a nós dois e se cala.
– E se elas foram pegas pelo bicho? E se estiverem mortas? — Meu amigo de pele escura leva a mão ao rosto, tentando impedir as lágrimas de molhar suas bochechas.
Me lembro da faculdade, quando conheci Kall. Megan era minha colega de sala e havíamos feito amizade. Nada além disso. Mas os caras a viam como já tendo um dono. Lembro que Kall nos interrompeu numa lanchonete certo dia e disse que a viu no começo do ano letivo e ela era linda e tudo que ele podia pensar nas ultimas semanas era em como adoraria levá-la para casa de seus pais e apresentá-la como sua. Ele disse que se eu quisesse matá-lo, ele morreria feliz por pelo menos ter dito isso a ela. Claro que ela adorou aquilo e daquele dia a diante ele se tornou parte de nossa vida. Eu não poderia imaginar Megan sem Kall. Ou Kall sem Megan. Era como se as coisas estivessem fora do lugar.
– Vamos achá-las. — Eu lhe digo. Mas a verdade é que eu já não posso mais dar sequer um passo. Meu corpo inteiro implora para que eu desista e me deite ali mesmo, no chão.
Estamos os três sem camisetas. Nós as tiramos e usamos para manter as baleias molhadas. Acho que ninguém pensou realmente que iria precisar dessa peça. Mas agora, já de noite, o vento começa a nos despertar para a realidade. Mas, frio ou não, dolorido ou não, as garotas ainda estão desaparecidas e correm perigo fora da segurança da casa e das armas. Isso se já não for tarde demais. E ainda tem aquele idiota do Lancey que correu a nossa frente. Gideon e Kall não viram para onde ele foi.
Me lembro de Nora. De como ela estava bonita mais cedo, corada pelos meus beijos. Eu não estou pronto para perdê-la ainda. Mal a conheci. Quero descobrir sobre ela, através dela. Quero, quem sabe, levá-la para um lugar legal quando sairmos da ilha. Fazer as coisas apropriadamente. Uma ficada, algo mais, quem sabe. Mas não esse final trágico que promete ser a única coisa a nos esperar no futuro.
Se eu vê-la de novo, juro a mim mesmo não desperdiçar um segundo sequer pensando em qualquer coisa que não seja fazê-la implorar por mais de mim. Em todos os sentidos.
Eu rezo silenciosamente, enquanto obrigo meu corpo a continuar. Peço a deus que guarde as garotas. E o estupido do Lancey. Peço para que saiamos vivos dessa ilha maldita e de preferência sem sequelas e inteiros.
Peço a deus uma segunda chance. Ou, no meu caso, uma terceira.
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