Canção da Sereia
27 Dor - RS
Notas iniciais
Nora
A primeira coisa que sinto ao despertar é dor. Abro meus olhos, eles ardem. Tudo em mim dói terrivelmente. Posso ver a lua. Grande, brilhante, bonita.
Olho ao meu redor. Estou em um buraco. Talvez em um buraco dentro de uma casa, pois posso ver o que antes fora um telhado. Uma parte dele não existe, mas não todo, é por essa abertura que eu vejo a lua. Tento me levantar, mas a onda forte de dor me faz parar.
Eu preciso sair desse lugar.
– Socorro! — Começo a gritar, mas minha voz quase não saí. E a dor... tão forte.
Fico parada, tentando me acalmar e suportar todas as sensações que meu corpo enfrenta. Não sei quanto tempo passa, mas parece muito. Então os gritos começam. Os mesmos gritos que tem habitado minha cabeça nos últimos dias. Eles são altos, perturbadores.
Andrew me bateu muitas vezes. Mas nenhuma delas se comparava a ultima vez, quando decidi deixá-lo. Aquele dia, acho que ele queria me matar. E quase conseguiu. Essa foi a experiência mais amedrontadora que eu já tive na vida. Até agora.
Os gritos me arrepiam até a alma. Eu preciso sair desse buraco. Preciso voltar para casa. Para Willian, Lancey e os outros. Luto contra a dor que toma conta de cada membro do meu corpo. Estou nua e com muito frio. Imagino como fui ficar dessa forma e como vim parar nesse lugar. Não me lembro de nada.
Tateio o chão a minha volta em busca de minhas roupas. Qualquer coisa que me faça sentir menos indecente. Sinto apenas pedaços de madeiras a minha volta. Parecem gravetos, se quebram facilmente. Pego um punhado e levanto onde a luz da lua ilumina. Não consigo identificar. Tateio ainda mais o chão a minha volta. Encontro algo oval. Parece ser do mesmo material, eu o ergo. Tem buracos e algumas rachaduras. Eu estudo o máximo que posso com quase nada de iluminação. Então, me dou conta do que é. É um crânio. Eu o solto e grito. Grito o mais alto que posso, com desespero, com dor. Só quero ir pra casa. Mas ninguém me escuta.
Me arrasto para trás, trombando em uma pilha de ossos. Me obrigo a ficar em pé e consigo, finalmente. Me lanço na parede, tentando encontrar fendas para poder escalar. Mas não há nada. É como se fosse um poço bem grande. Estou há uns 3 metros de distância da borada. É impossível sair. Mas me agarro a esperança. Se eu perdê-la não me restará mais nada.
Eu grito até minhas cordas vocais ameaçarem estourar. Então paro pra me recuperar. Os gritos continuam fortes lá fora. Ou não. Não sei se estão apenas na minha cabeça ou se realmente vem lá de fora. Caso seja algo vindo de fora, audível a todos, então não adianta nada que eu grite por ajuda. Ninguém me ouvirá nesse inferno.
Então, quando eu penso que nada mais pode piorar... Minhas pernas falham e caio de cara no chão. Uma dor de matar começa em meu útero. Como se alguém estivesse mexendo com meu corpo pelo lado de dentro. A dor é tão intensa quanto mil cólicas ao mesmo tempo. Tenho certeza que perco a consciência por várias vezes. Mas a mesma dor que me leva embora, me traz de volta. Fico por, quem sabe, horas nesse estado meio vivo, meio morto de consciência. As vozes parecem diminuir, ou talvez seja apenas meu corpo falhando pela dor. Se não bastasse a maldita dor no útero, minhas pernas parecem ser arrancadas. Ardem como se estivessem sendo amassadas sob um caminhão. Eu quero morrer. É tudo em que consigo pensar. Eu queria minha arma, assim poderia acabar com esse sofrimento.
Eu quero morrer. Por favor deus, eu quero morrer. Por favor...
Minha visão está embaçada. Não consigo ver se há alguém aqui comigo, se alguém é responsável por todas essas dores. Não consigo ver nada.
As coisas pioram, a começar pelo centro entre minhas pernas, é como se grandes agulhas estivessem sendo enfiadas em minha pele, fechando cada espaço disponível. A dor não vai diminuindo, ela apenas se alastra. Continuando nos mesmos pontos e indo além. Agulhas parecem ser enfiadas em minhas coxas e logo elas estão juntas, grudadas. É como se eu estivesse sendo costurada. Ou talvez o contrário. Eu apenas posso estar sendo estripada enquanto estou viva. A dor chega a meus pés e é a pior parte disso tudo, talvez.
Eu não aguento mais.
– Volta por favor...
Lancey
Elas haviam sumido, eles disseram. Eu entrei e peguei a lanterna na mala e meu canivete. Saí sem dar atenção a qualquer um deles.
Nora foi levada, bem debaixo de nosso nariz. A última coisa que eu preciso agora é perder tempo com papo furado.
Eu tento refazer o caminho para a caverna. É possível que ela tenha sido levada para lá. Mas pela floresta é uma péssima ideia. Não demoro muito a me perder. Então aqueles malditos gritos começam, me deixando ainda mais desnorteado. Ligo a lanterna e começo a andar sem rumo. Não sei por quantas horas ando sob aquele céus de vozes malignas ecoando esse maldito canto de dor. Almas amaldiçoadas, almas no inferno. É isso que parece. Mas então eu escuto uma voz distinta. Uma que eu conheço bem. Ela grita, como se estivesse sendo queimada viva, ou coisa do tipo.
– NORA! — Eu chamo por ela. A voz parece mais próxima, mas não sei de onde vem. Os gritos só pioram, os das vozes e os dela. Eu posso sentir sua dor dentro de mim. Merda, ela não estará mais viva quando eu encontrá-la.
– NORA!
Avisto uma casa no meio da floresta. Pelo menos parece uma casa. Eu corro em direção a construção de madeira. A porta está trancada. Chuto e ela cai de primeira. O lugar é velho, está quase caindo. O grito dela vem daqui. Ando pela casa em busca do lugar de onde vem a sua voz. Vejo uma escada no fim do cômodo e ilumino os degraus. Não percebo o buraco no meio do lugar e despenco. Bato com força num chão duro. Provavelmente quebrei algo nessa queda.
Alguma coisa se move a meu lado. A voz é quase um sussurro agora, mas eu a reconheço. A lanterna está acessa, mas caiu longe. Eu me arrasto em direção a ela e jogo a luz para trás de mim, esperando o pior. Centenas de ossos cobrem o chão do lugar. Mas a pior parte não são os ossos, é a garota no meio desse horror.
Me aproximo para ficar a seu lado. Os olhos estão fechados e as bochechas manchadas pelas lágrimas. Lágrimas de sangue, como antes na caverna. Nora respira com dificuldade, não sei se ela vai aguentar.
Direciono a luz da lanterna para o seu corpo, atrás de ferimentos. Ela está nua da cintura pra cima. Desço a lanterna e a deixo cair. Busco ela no chão e volto a iluminar Nora, que da cintura pra baixo tem um corpo diferente do que deveria ter. Quer dizer, uma garota não deveria ter cauda de peixe, certo?
A longa cauda deveria ter um metro e meio. As escamas variavam entre laranjado e vermelho. Parecia em chamas. Toco sua cintura e desço os dedos tentando encontrar o começo dessa fantasia, mas não há. É pele e escamas ligadas. Aquilo realmente faz parte dela. Me lembro das escamas em sua pele mais cedo. As minhas saíram com facilidade, as dela não.
Checo seu pulso, ela ainda está viva. Só não sei se voltará ao normal. Eu nunca imaginei em minha vida que veria algo assim. Especialmente sendo em alguém que faz parte da minha vida a tanto tempo. Eu acaricio seu rosto, encosto minha testa na sua.
– Volta pra mim... volta por favor...– Tento sentir sua respiração na minha bochecha, ainda está lá. Mesmo que fraca. Ela ainda está viva. Mas por quanto tempo? Eu deveria gritar por ajuda e esperar que os outros nos achassem? Como ela veio parar nesse buraco?
Alguém a trouxe e a abandonou aqui. A minha pergunta é, quem? e por quê?
Ela deveria, tecnicamente estar na água. Certo? Não há água aqui, nem uma misera gota sequer. Será que isso a levaria a morte?
Fico em pé e tento sair do buraco. Sem chance, é alto demais. Não quero gritar, se eu o fizer, posso atrair não só Willian mas também a criatura. Não me resta mais nada a fazer agora, a não ser esperar e pedir por um milagre.
Me sento perto dela e ergo seu corpo. Está realmente pesada agora. Consigo posicioná-la com o corpo em meu colo. Deixo sua cabeça descansar em meu peito e acaricio seu rosto. Puxo seu cabelo para frente e cubro seus seios nus. Ela é linda. E agora então... é uma visão que nunca esquecerei na minha vida. Encosto minha testa na sua. Preciso que ela volte. Preciso que ela viva. Ela vale o mundo todo pra mim. Vale mais que tudo e eu preciso que ela saia dessa e tenha uma boa vida depois desse inferno de ilha.
Eu preciso que ela seja feliz, porque eu a amo.
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