Canção da Sereia
43 Partes de mim - Parte 2 - RS
Notas iniciais
Lancey
Dizer que elas estavam zangadas era um eufemismo.
– É uma assassina, Lancey, você não consegue ver? — Megan gesticula com raiva.
– Ela teve um motivo. — Eu rebato.
– Que motivo? — Nora esta debruçada, com metade do corpo quase pra fora — Ela assassinou pessoas. Muitas delas.
– Para conter algo mal.
– Para conter algo mal que ela mesma criou!
– Por pena. Ela foi benevolente.
– Não! — O grito agudo de Nora faz com que meus ouvidos ardam. Megan e eu levamos a mão a orelha e tampamos com força. O vidro do espelho racha e o do box segue o mesmo exemplo. Nora leva a mão a boca assustada e a cauda, que até então estava quieta, volta a vida com tudo, derrubando tudo a nossa volta. Encaro Megan para me certificar que ela está bem. Um fio de sangue saí de seu nariz. Empurro ela pra fora do banheiro.
– Você está bem? — Pegunto um pouco alto demais. Ela concorda.
Encontro uma mala e tirou uma camiseta a entregando pra ela.
– É melhor você nos deixar sozinhos, Megan. É a segunda vez que você é prejudicada por Nora. Vá lá pra baixo, ou pro quarto. Tenta falar com seu marido.
Ela pressiona a camiseta no nariz. Concorda e me pega de surpresa ao me abraçar.
– Volto logo. – Ela diz.
Destranco a porta e a deixo sair.
Willian e Gideon estão parados do outro lado, nos encarando assustados. O barulho de vidro caindo toma conta do quarto e Willian passa por mim, me empurrando. Vou matar esse cara.
O alcanço no banheiro, ele olha assustado para Nora. Mais uma vez não tem reação nenhuma. O puxo pelo braço e o empurro pra fora.
– Sai daqui! Ela não precisa desse seu olhar preconceituoso no momento.
– Ela... ela vai voltar ao normal?
Como Helena disse, ela voltaria depois que amanhecesse. Agora eu me lembrava com mais clareza. Eu vi acontecer. Várias e várias vezes. Helena sempre as jogava no buraco. As via se transformar noite após noite nas luas cheias e então um dia secavam. Isaac precisava de uma sereia para sair do mar. Uma que tivesse pernas por tempo suficiente para que ele fizesse algo contra Helena. Por isso ela as deixava morrer.
Se era errado? Sim. Mas fazia sentindo pra mim. De uma forma bem doentia, como se eu mesmo tivesse feito tudo isso e entendesse a lógica, como um plano meu.
– Ela vai ficar bem. Agora você tem que ir.
Ele apenas concordou e deixou o quarto. Eu o vi sentar no corredor, próximo a porta e ali ficar. Isso me irrita. Ele não merece Nora.
Helena bem que podia fazer um favor a todos nós e levar esse cara. Respiro fundo e me dou conta do que estou pensando. Empurro esses pensamentos negativos para longe e entro. Tranco a porta.
Nora está na banheira, chorando. O vidro rachado do box e do espelho foram a baixo. A cauda finalmente parou de mexer. Um problema a menos. Não sei bem o que fazer. É evidente que continuar a conversa não vai trazer benefícios a nenhum de nós. Aparentemente ela não deve ficar irritada. Coloco um pé dentro da banheira, depois outro. Ela me olha confusa. Então a puxo para a frente e me sento atrás dela, a deixando entre minhas pernas. Puxo sua cabeça para encostar em meu peito e acaricio seu cabelo. Não disse nada a ela, mas o cabelo também está diferente. Ganhou um tom avermelhado. Agradeço mentalmente a Megan por não ter comentado sobre isso e a orelha. Nos poupou de mais drama.
Rodeio meus braços a sua volta, a prendendo. Deslizo uma mão sobre sua cintura e ali faço círculos com o polegar em sua pele. A outra mão vai pro seu ombro, repetindo o movimento. Como antes, sinto coisas ao tocá-la. Eu poderia me acostumar com isso. Poderia me acostumar em ter Nora em meus braços. E todas essas sensações diferentes. Eu a aceitaria mesmo assim. Com cauda e temperamental.
Ela relaxa em meus braços. Percebo que a água da banheira ainda está quente. Do tempo que a colocamos aqui... mas Nora também tem a pele quente. Talvez seja ela que esteja fazendo isso.
– Por que você sempre me ajuda? — Ela pergunta baixinho.
– Porquê... — Eu não posso dizer o porquê. Ela fugiria. Mas posso dizer parte da verdade. — Porque somos amigos, Noralys Ryle. E eu sempre vou cuidar de você.
– Eu sou má com você! — Ela diz.
– Eu sou mau com você, também.
– Falo mal de você para as garotas. Para que elas te deem o fora.
– Falo de você para o garotos, para que eles te deem o fora.
Ela ri.
– Já menti sobre você para meu pai. Disse que havia me batido uma vez. Quando você queria em obrigar a sair do quarto.
Eu sabia disso! Daniel me confrontou naquela vez.
– Eu te espanquei mentalmente, várias vezes. Então, tá valendo.
– Nós passamos por muitas coisas juntos.
– Sim... muitas coisas. — Não gosto dessa conversa. Até parece uma despedida.
– Sabe, Lancey, acho que está na hora de você parar de se preocupar comigo.
– Noralys Ryle, pare com isso! Eu estou exatamente onde deveria estar.
– Você tem que ir embora. — Palavras cruéis. E sem sentido algum.
– E pra onde eu iria, Nora? Estamos presos em uma ilha, esqueceu?
Ela levanta suas mãos e segura o meu braço com força.
– Tem um barco. O do Steven. Talvez você possa consertá-lo. Você costumava consertar coisas com meu pai. Você tem que tentar.
Como ela pode pensar que eu iria embora sem ela? Eu nunca a deixaria para trás. Eu trocaria minha vida pela dela sem ter que pensar. Depois de tanto tempo ela ainda não percebeu isso?
– Nora... eu amo você, mais que a mim mesmo. – Como é fácil se denunciar em momentos de desespero. E como é fácil falar tudo quando se começa... — Não percebe? Como eu poderia ir sem você? Como poderia dar as costas a você?
Ela não responde nada. Mas seu corpo está tenso.
– Eu não quero uma resposta, Nora. Não disse isso querendo algo em troca.– Sussurro em seu ouvido. Nunca iria cobrar algo dela. Eu sei, melhor que ninguém, o quanto ela é frágil quando se trata disso. Andrew destruiu mais no que se pode ver. — Eu só quero que entenda que eu não vou te deixar pra trás. Nunca.
Tinha esperanças de me sentir melhor ao dizer isso, mas não é o que acontece. Eu deveria ter dito outra coisa. Deveria ter batido na tecla “amigos”. Usado e abusado da desculpa “somos quase irmãos”. Mas não, Lancey idiota, tinha que ter falado a verdade. Agora ela irá fugir. Tenho certeza disso, é só as pernas dela voltarem e as coisas vão ficar complicadas de novo.
– Não fuja de mim.– Eu peço com o coração na mão. Eu estou quase saindo da banheira e me ajoelhando, pedindo perdão por todas as baboseiras que não pude guardar para mim.– Por favor...
Ela não responde e eu desisto dessa insistência. Isso só irá assustá-la ainda mais. Fico em silêncio, esperando pacientemente que tudo volte ao normal.
Nora
As palavras de Lancey me assustam. Ele é meu amigo. Sempre foi assim. Agora as coisas parecem fora do lugar. Será que tudo se perdeu? Será que nunca mais seremos amigos de novo?
Não poderei olhar para Lancey como antes. Ainda mais sabendo que estive com Willian, intimamente, algumas horas atrás. A culpa de antes volta com força. Talvez eu já soubesse disso, que Lancey gostava de mim. A forma como ele me tratava... mesmo me xingando ele conseguia ser gentil e sempre esteve ao meu lado. Me ajudou a enfrentar meus traumas com Andrew. Ele até mesmo escolheu meu apartamento. Me lembro dele ligando e dizendo que tinha encontrado um buraco que era a minha cara. Ninguém faz essas coisas por alguém que não gosta... que não ama.
Lancey para de falar. Eu não tenho nada a dizer nesse momento. Acho que o magoei. Isso é tudo.
Ele me mantém apertada a seu corpo. Relaxo, me sinto exausta. Esse lugar está me fazendo envelhecer mais rápido. Noites mal dormidas, dores terríveis e estresse pra lá de alto. Quantos anos meu rosto não deve ter ganho nesses dias. Me concentro nos movimentos circulares que Lancey faz em minha cintura e meu braço. Isso me acalma.
Penso tanto, em tantas coisas. Meus pensamentos são pesados demais pra mim. A água quente me faz relaxar, o calor de Lancey ajuda muito também. Quando dou por mim estou lutando entre ficar acordada e dormir. O cansaço me vence e eu opto pela segunda opção.
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