Canção da Sereia

44 Gentilezas - RS


Notas iniciais
Boa leitura!

Nora

– Oh meu deus! Oh meu deus!

Desperto com a voz alta de Lancey e seu corpo se debatendo abaixo do meu. A água está fria agora. Abro meus olhos lentamente. As mãos de Lancey estão erguidas a meu lado e cobertas de... sangue. Grito assim que percebo a banheira toda coberta do líquido vermelho.

Nos levantamos apressados, assustados. Ele me estuda e eu a ele.

– Você tá ferida? — Ele me pergunta com desespero.

– Não, não! Você está?

Ele nega e leva a mão aos cabelos loiros salpicando-os de vermelho.

– Pernas! Pernas!

Ele me ergue em um abraço de urso e me deposita de volta no chão. Então percebo minhas pernas. Oh que saudade delas!

Sorrio para ele, estou tão feliz! Até dou um saltinho, mas então caio de bunda na banheira sangrenta, espirrando o conteúdo pelo banheiro e por Lancey.

– Que nojo! Agora sei como Carrie se sentiu!

Ele sai apressado da banheira e pega algumas toalhas, joga uma pra mim e junta duas delas em sua mão. As usa para empurrar o vidro pra longe do box e então liga o chuveiro. Ele tem um sorriso grande e bonito nos lábios. Sai do banheiro, enquanto tento me levantar de novo. Ele volta com um tênis, tenho certeza que é de Willian.

– Pé de moça! — Ele faz questão de comentar. Se abaixa e me pega no colo, indo direto pra baixo do chuveiro. A água caí sobre nós, nos lavando e deixando coisas demais a mostra. Estou seminua. Apenas a camiseta, quase transparente, me cobre. Me sinto envergonhada, especialmente porque as palavras de Lancey começam a voltar. Junto com as imagens da minha noite com Willian.

– Posso fazer isso sozinha! — Aviso a ele.

– Não estou olhando a sua bucetinha, Nora!

Minhas bochechas aquecem. Esse é o Lancey idiota que eu conheço.

– Como eu te odeio!

Levanto a cabeça para olhá-lo. Ele está olhando justamente para minhas partes nuas.

– Mentiroso!

A sua risada toma conta do cômodo.

– Felizmente, eu não sou cego, peixinha. E também não sou nenhum super-homem. Se você puder se lavar rápido... ou vou te deixar cair, gorducha!

Idiota até a raiz desse cabelo loiro!

Seguro com força em seu ombro, com a mão que esta passado por cima dele. Com a mão vaga eu alcanço o sabonete e me ensaboo. Pelo menos nas partes que são possíveis. Lancey para de me olhar, ele foca sua atenção no teto.

– Mais rápido, gorducha. Vou despencar a qualquer momento.

– Já pensou em malhar, Lancey? — O provoco. — Talvez seja por isso que não tem namorada!

Ele ri alto.

– Pensei que era porque alguém falava mal de mim para as garotas!

– Cala a boca, idiota.

Limpo o que dá. Deixo a mão em conchinha em baixo da água e lavo o rosto.

– Acabei!

Ele volta o olhar pra baixo e sai do banheiro comigo, ensopada. Me joga na cama sem cuidado nenhum e volta pro banheiro rindo. Fecha a porta.

Me levanto rápido demais. Acabo caindo de joelhos. As minhas pernas estão fracas. Puxo a mala que está perto, é a minha. Encontro um biquíni limpo e um vestido verde que para no joelho. Na minha atual situação é melhor optar por roupas leves. Nunca se sabe quando vai perder as pernas!

Me forço a ficar em pé e com muito esforço consigo. Me troco rapidamente. Lancey, no entanto, demora no banheiro. Quando ele sai já estou trocada. Estou sentada na cama, com a cabeça apoiada nos joelhos. Ele está apenas com uma toalha em volta da cintura e o cabelo molhado.

– Eu vou ficar com você, ok? — Ele me pergunta. Me sinto aliviada por não ter que ficar sozinha, mas o constrangimento começa a surgir entre nós.

Concordo.

– Mas não nesse quarto, Nora. Me desculpe, mas isso é muito nojento.

Tenho certeza que ele não está só falando do sangue no banheiro...

Ele me estende a mão e eu aceito. Nós caminhamos para a porta e ele destranca.

Willian está sentado no corredor. Ele nos encara, então fica em pé.

Não estou pronta para vê-lo ainda.

– Pernas! — Ele diz antes de me abraçar e encher minha boca com a sua. E isso, nossa, parece tão errado.

Lancey não o afasta, na verdade é ele quem vai para longe.

Empurro Willian, mas ele é muito forte, me puxa de novo pra junto dele.

– Sinto tanto Nora. Me assustei com seus olhos, pensei que fosse uma daquelas coisas. Sinto muito, amor!

Amor? Quando foi que isso aconteceu.

– Me solta, Willian. — Peço a ele que nega.

– Não. Não vou te soltar.

– Vai sim, idiota! — A voz grossa de Lancey faz Willian se afastar por um momento.

Ele está parado a cinco passos de nós, com uma bermuda azul e sem camisa.

– Você já se intrometeu demais, estagiário.

Lancey parte pra cima de Willian que, já machucado, leva a pior.

– Não... — Toco o braço de Lancey que se afasta do moreno. — Willian, só me deixa em paz, ok? Conversamos outra hora.

Os olhos tristes dele são de partir o coração. Mas vou com Lancey, para o quarto que ele ocupa agora. Nunca deveria ter caído tão fácil na do Willian. Me sinto uma puta.

– Por que é que você só gosta de idiotas, Nora?– Lancey pergunta depois de fechar a porta.

– Quem sabe... – Me sento na cama. É de casal. Tem TV no quarto, mas não é como se servisse pra alguma coisa, já que nada pega nesse lugar.

– De onde veio todo aquele sangue na banheira? — Pergunto.

Lancey senta ao meu lado. Pega a minha mão. Arrepios sobem pelo meu corpo com seu toque.

Ele levanta a minha mão e passa um dedo desde o pulso até o cotovelo.

– Não era sangue. Era sua cauda. Havia muitas escamas também.

Automaticamente levo minha mão ao pescoço e a cintura. Não há mais nada ali.

– Só não tenho certeza se esse processo de... derretimento... seja o correto. Não pelas lembranças de Helena.

Fecho os olhos. Esse nome de novo. Esse monstro. Lancey parece diferente. Pelo menos em relação a essa tal de Helena. Decidido e mais agressivo. E isso, definitivamente, não é normal. Outra coisa não normal foi aquele grito infernal que dei no banheiro. O que mais posso fazer?

– Helena por acaso te mostrou o que mais eu posso fazer?

Sua mão volta a deslizar do meu cotovelo para meu pulso e então para palma da minha mão. Ele entrelaça os seus dedos nos meus. Me causa sensações estranhas. Apavorantes na verdade. Não quero passar por isso de novo, ter esses sentimentos sufocantes dentro de mim.

– Há algumas coisas... mas... a maioria delas eram bruxas. Não sei o que esperar de você... Mas seja o que vier a seguir, nós vamos ficar bem.

A história de Lancey esclarecia muita coisa, apesar de ser absurda. Mas tudo nesse lugar é absurdo. Só que tinha algo que não encaixava. Pearl. O que ela me disse antes... O corpo tomado é o sacrificado. A morte é a chave. A canção que entoam. O que isso significa? Por que parece tão importante para Pearl?

– Estou cansada. — Lhe digo afastando nossas mãos.

Lancey levanta.

– Você fica na cama, eu vou arrumar um colchão pra mim e achar sardinha.

Sardinha... gato traíra!

Ele caminha até a porta, então para e me olha.

– Você ficou linda de verde. — O sorriso largo que estampa seu rosto me faz corar. Ele mesmo está corado também. — Combina com seus olhos.

Oh não, porque ele tem que fazer isso?

Batidas na porta me assustam. Lancey pisca pra mim e dá mais alguns passos para abri-la.

– Hey vocês! — Ele diz animado e dá espaço para Megan entrar. Ela tem sardinha nos braços e Kall logo atrás, com uma bandeja. Parece que eles se acertaram.

– Nós fomos ao outro quarto... — Kall começa – Parecia uma cena de crime.

– É... parecia mesmo. Mas estamos bem! — Lancey pega sardinha do colo de Megan e vem para meu lado na cama. O gato traidor levanta a cabeça e fica em encarando. Solta alguns miados e escapa para meu colo.

– Seu traidor! — Eu digo afagando as orelhas dele.

– Trouxemos comida. — Megan diz.

– Obrigada. — Agradeço a ela. — E sinto muito por antes.

– Tudo bem. Eu estou bem! — Ela diz com sinceridade. Parece que arrumei uma boa amiga nesse lugar.

Megan e Kall deixam a bandeja e saem do quarto. Minha vontade é comer quando acordar, mas Lancey me obriga a comer antes. Enquanto ainda mastigo, me lanço na cama. Lancey sai do quarto por um momento e meu gato traidor se acomoda entre meus pés.

O sono é muito e não demoro nada deixar ele me dominar.

Notas finais
Quanta fofura né? Mas já ta na hora de agitar essa bodega XD Bj bjs =)