Canção da Sereia

33 Minha vida Parte 1


Joana me encontra na praia e me abraça. Ela está feliz, hoje é o dia de seu casamento.

Eu sou a filha mais nova, então Max tem que casar com ela. A primogênita. Isso é frustrante. Max e eu sempre fomos muito chegados. Eramos amigos. Nunca chegamos a planejar algum futuro juntos. Não a menos que alguém pedisse Joanna antes. Mas nossas mentes voavam para essa direção. Apenas parecia certo para nós estarmos juntos. Minha mãe dizia que se nos casássemos algum dia, nossos filhos seriam como anjos. Ambos tínhamos cabelos douradas e olhos azuis. Eramos facilmente confundidos como irmãos.

Quando os pais de Max anunciaram a ele que nossas famílias se uniriam, esperamos ansiosos pelo anuncio de Joanna. Imaginando que ela estaria noiva e que Max e eu nos uniríamos em matrimonio finalmente. Mas as coisas não foram assim. Dois dias depois do anuncio da família de Max, ele bateu a nossa porta e pediu minha irmã mais velha para ser sua esposa. Ele nem mesmo me olhou naquela noite.

Nós rompemos sem mesmo chegarmos a ter algo.

Hoje, minha irmã teria seu casamento com o único homem que eu imaginei me casar algum dia. Mas isso não é culpa dela. Essas são as regras. As leis da nossa sociedade.

(…)

O casamento deles foi perfeito. Era tudo que eu sonhei... pra mim. Hoje eu perdi um amigo. Max me ignorou. Eu não posso culpá-lo, também dói em mim.

Depois da festa, eu caminho pela praia. É lua cheia, o mar está alto. Nossos pais não nos deixam andar até tarde em lua cheia. Eles dizem que coisas estranhas acontecem sob essa lua. Mas hoje, com todos bêbados depois da festa, duvido que alguém note.

Me sento na praia, assisto as ondas negras se quebrarem nas rochas. Mas há algo diferente. Algo que não deveria estar nesse cenário. Escuto vozes. Risadas na verdade. Me aproximo das rochas e espio sobre elas. Há mulheres. Várias delas. Elas estão todas nuas. A luz da lua é a única coisa que as ilumina. Ela dançam sem música. Parecem felizes. São todas bonitas, mesmo que seu rosto esteja encoberto pela noite. A aura delas é especial, é bela. A sensação de segurança que emana delas me faz pensar que podem ser anjos. Anjos que caíram do céu. Até que noto entre elas um homem. Eu acho que o conheço. Mas é difícil dizer. Uma das mulheres está montada sobre ele, ela se mexe freneticamente sobre sua cintura. As outras dançam a sua volta e riem.

Será esse o prazer secreto que minha mãe nos descreveu antes de morrer? Ela disse que depois do casamento, nossos maridos nos mostrariam o prazer secreto. Aquele que gera uma criança.

Talvez esse homem seja seu marido. Mas como podem fazer algo assim entre tantas outras pessoas? Então a mulher saí de cima dele e outra assume a posição. Ele será casado com todas elas?

Meus pais nos disseram que um homem só pode ter uma mulher. Se tiver mais que uma, ele será condenado ao fogo do inferno. Esse homem parece que irá direto para lá, sem julgamento.

Me afasto bem lentamente das rochas, mas escorrego, deixando um gritinho escapar.

Escuto barulho na água. Devo correr, mas quero saber o que esta acontecendo.

Me levanto e espio sobre a rocha mais uma vez. As mulheres não estão mais lá. Só duas delas. Elas me encontram com o olhar e sorriem. Então mergulham sumindo na escuridão das águas. O homem levanta. Parece desnorteado, está completamente nu. Eu posso ver seu rosto agora, eu o conheço. Ele mora perto de minha casa, é casado com Josefine, uma amiga de minha irmã.

Ele olha em minha direção. Torço para que a noite tenha encoberto meu rosto. Seguro as abas do meu vestido e corro em direção a vila.

(…)

Elias veio jantar com Josefine em nossa casa. Ele não parece ter me reconhecido. Mas as vezes eu gostaria que tivesse. Assim, eu poderia lhe perguntar quem eram aquelas mulheres.

Escapei após o jantar e fui para a praia. Queria saber quem eram. No entanto não as encontrei. Mas juro que ouvi risos. E eles vinham do mar.

Fugi quase todas as noites depois da janta. Ficava andando pela praia em busca de alguma coisa. Não consegui mais vê-las.

Na ultima vez que rondei o mar algo ruim aconteceu.Voltei apressada para casa, para que meu pai não sentisse minha falta. No entanto, desastrada do jeito que sou, não cheguei até a minha casa. Tropecei em minha saia e caí.

(…)

As vezes as pessoas que passam pela ilha contam histórias. Das mais variadas.

Certa vez ouvi sobre um homem que se afogou e foi salvo por um desconhecido. Mas apesar de respirar e ter seu corpo funcionando, ele dormiu por três meses antes de realmente ficar consciente.

Quando acordei e minha irmã me contou que eu quase perdi a vida depois de bater minha cabeça, não acreditei. Então ela me contou que além disso, eu havia perdido uma semana inteira dormindo. Como alguém pode dormir assim por tanto tempo? É desconsertante.

Talvez isso seja castigo por ter espiado aquelas mulheres na praia. Ou por procurá-las por tanto tempo. Talvez seja um aviso para deixar pra lá. Esquecer.

(...)

Estou caminhando pela praia com meus sobrinhos. Stefan tem 6 anos e Mia 4. Eles são meus amores. Parte de cada uma das pessoas que mais amo no mundo.

Há um barco negro ancorado. Uma mulher caminha pelo pier, acho que acabou de desembarcar. Pelo menos nunca a vi aqui antes. Não é parente de ninguém que eu conheça. Quer dizer, as novidades correm rápido aqui. Se alguém estivesse a espera de um parente a ilha toda já saberia.

A mulher caminha decidida, sem falar ou olhar para lado algum. Ela é tão bela e chique, parece deslocada nesse lugar de pessoas caipiras. Pelo menos é o que Joanna diz sobre nós, habitantes da ilha. Caipiras. Ela viajou para fora ilha uma vez e agora adora jogar na cara dos outros como é chique. Bem, perto dessa mulher ela é apenas mais uma caipira.

A mulher entra na floresta. Não sei para onde vai. Não há nada lá. Nada além da bruxa. Minha mãe contou que uma feiticeira vive lá e que nunca devemos ir até ela.

A feiticeira não faz mal a ninguém desde que não seja incomodada, dessa forma podemos coexistir. Ela foi esquecida por nós. Pelo menos pela maioria. Nós a chamamos de mulher da floresta. Ninguém sabe qual é sua aparência, apenas sabemos onde ela vive. No interior na ilha. Onde a mata é mais densa, os animais são mais furioso e as almas vagam de um lado para o outro.

Caminho em direção a floresta, com intenção de alertar a mulher, mas sou distraída por meus sobrinhos que começam uma briga. Pego Mia no colo e vou para a boca da floresta. Não há sinal de ninguém.

– Oi... alguém? — Eu grito – É perigoso andar pela floresta.

– Quero a mamãe. — Mia começa a chorar e decido deixar a mulher por conta própria.

(…)

Muito tempo se passa até que eu encontroa mulher novamente.

É lua cheia e todos estão seguros em suas casas. Eu me sinto sufocada em casa. Meu pai está doente, passa grande parte da noite acordado, reclamando de dor. Dessa vez Joanna se ofereceu para cuidar dele, já que Max saiu para buscar mantimentos com outros homens fora da ilha. Uma vez ao mês eles fazem isso.

A mulher está no pier. O vestino fino não parece protegê-la do frio. E os cabelos que pareciam loiros na primeira vez que vi, agora parecem prateados.

A iluminação vem de tochas acessas ao longo da ponte. Ela está sentada, atenta a escuridão que reina nas águas. Ela é tão linda.

Perguntei a Joanna, na primeira vez que a vi, se ela sabia quem era a mulher da cidade que estava na ilha. Joanna disse que não havia mulher nenhuma da cidade na ilha.

Eu até me atrevi a vasculhar pela floresta um dia. Perguntei aos funcionários do pier. Ninguém sabia nada sobre uma mulher vinda da cidade. Era como se ela não existisse. Como se só eu a tivesse visto. E agora, ela está aqui, sozinha. Essa é minha chance de tentar saber alguma coisa.

– Oi... — Digo ao me aproximar. Ela me olha curiosa.

– Oi... — Sua voz é tão doce que me causa arrepios. É como se estivesse enrolada em veludo. Ela pode ser um anjo. — O que faz aqui? Essa é uma noite perigosa para uma mulher andar por aqui.

– Você também é uma mulher.

Me coloco ao seu lado, olhando para as ondas escuras pela noite.

– Uma perigosa. — Ela conta.

– Você é uma bruxa? — A pergunta escapa da minha boca antes que eu possa pensar.

Levo meus dedos aos lábios. Repreendendo a mim mesma.

– Algo assim não existe, minha criança.

– Mas você vive na floresta... com a feiticeira.

Seu rosto vira levemente para em encarar. Olhos verdes, que ganhavam um efeito arrebatador pelas chamas das tochas a nossa volta. Embora, algumas vezes, as chamas parecem fazer parte de seu olhar, não apenas reflexo.

– Está na hora de você voltar, criança. — Ela temo olhar fixo nas ondas novamente.

Então os risos começam. Como no dia em que minha irmã se casou.

Depois do meu acidente, nunca mais tentei encontrá-las. Mas agora...

– VÁ! — A mulher grita com voz grossa e diferente, me assusta. Seguro minhas saias e corro.

Aquela mulher pode muito bem ser apenas uma ilusão. Afinal, é lua cheia. Coisas estranhas acontecem na lua cheia.

Não volto para casa, vou ao rochedo, para ver do ponto mais alto. Aquela mulher me assustou muito, mas ainda tenho grande vontade de saber sobre as damas sorridentes que dançam felizes e nuas na beira da praia.

Eu espero por tanto tempo que decido que não vale a pena esperar. Quando estou saindo, eu as vejo. Várias mulheres dançam e sorriem na beira do mar. Há homens entre elas, todos estão nus. Homens que eu conheço. Eles dançam com elas, as beijam, as tocam de modo impuro. Fazem com elas os prazeres secretos de um casal.E suas esposas? Por que as traem assim? Que significado os votos matrimoniais tem para esses homens?

Hoje há mais iluminação e eu consigo reconhecer alguns dos rostos ali. Entre eles está Max.

Eu não posso mais assistir isso. Corro. Me sinto traída. Machucada. Max não teve opção na hora de casar com Joanna. Isso eu podia entender e perdoar. Mas essa cena... Isso não tem perdão.

Não vou para minha casa, mas para de Joanna. Então conto a ela. Conto sobre o que vi. Conto sobre os outros homens casados também. Eu lhe digo que não são mulheres da vila. Que nunca as vi entre nós antes.

No dia seguinte. Joanna me leva com ela para casa de uma amiga, onde mais tarde aparece varias mulheres. Elas contam que seus maridos saem todas as noites de lua cheia enquanto elas dormem. A maioria demorou muito tempo para perceber. Mas agora elas sabem da traição.

Mulheres não tem voz aqui, nem vez, nem razão. Nem aqui ou em qualquer outro lugar. Um matrimonio de sucesso é aquele onde o homem mantém tudo sob controle. Onde ele controla toda a situação e sempre tem razão. Então, se o castigo não pode ser dado aos homens, quem sobra para ser castigado?