Canção da Sereia
32 Invocando - RS
Notas iniciais
Willian
Não acredito quando vejo o que causa o grito de dor de Nora. Ela tem uma faca atravessada em sua mão. Megan grita assustada pela cena e Lancey segura a mão da garota erguida.
– Ajuda aqui, porra! — Ele grita.
Mason, que falava comigo, atravessa a cozinha em passos rápidos e coloca um pano sobre a mão de Nora, então puxa a faca sem enrolação, mantendo o pano pressionado no ferimento. Ela grita e se agarra ao estagiário que está a seu lado .
Me aproximo de Megan a sacudindo.
– O que houve?
– Ah... — Minha amiga chora e olha para Lancey. Será que ele fez isso a ela?
– Você fez isso?
Ando em direção a ele.
– Eu fiz! — Nora grita.
– Alguém busque minha maleta. — Mason pede. Gideon que, no susto, apontou a arma para Nora e Lancey, abaixa devagar o objeto e me entrega, então saí da sala.
Eu não estava olhando pra ela. Não vi o que aconteceu. Mas certamente não foi ela. Por que diabos uma pessoa iria se esfaquear?
Toco o ombro de Mason quando Gideon está de volta.
– Leva ela pra sala.
Ele me olha e depois pra Lancey então a ajuda a levantar e segue pra sala. Lancey está indo atrás, mas eu o empurro e o soco.
Megan não faria isso. Só resta ele.
– O quê você tem na cabeça? Será que foi possuído também?
Minhas costelas doem pelo esforço que eu fiz. Gideon se coloca entre Lancey e eu.
– Você fez aquilo?
– Ele não fez nada. — Megan me empurra e ajuda o loiro a levantar. Ele me encara com ódio.
– Tem sorte de estar todo quebrado Dr. Caso o contrário...
Ele limpa o lábio machucado.
– Ela fez isso sozinha. Nós não a tocamos. — Megan diz nervosa. Kall está ao lado dela, tentando acalmá-la.
Me afasto deles e vou pra sala. Nora está quieta agora. Está sentada no sofá e Manson limpa o ferimento.
– Foi grave? — Sento ao lado dela.
– Felizmente não. — Mason responde.
– O que aconteceu...? — Pergunto a ela.
Nora respira fundo e encosta a cabeça no meu ombro.
– Eu fiz isso. Queria saber se curaria tão rápido quando os outros ferimentos.
O quê? Paciência, cadê você?
– Está protegendo Lancey? — Pergunto tentando manter a calma.
Ela me olha brava.
– Lancey nunca me machucaria. Eu fiz isso, como acabei de dizer.
– Então, você é mais idiota do que parece. Me levanto e sento no outro sofá, a encarando.
Lancey passa por nós e depois de dar uma olhada na mão de Nora sobe as escadas. Megan senta ao lado dela.
– Não se atreva a me insultar.
– Por que fez isso? Você é louca?
Estou tão bravo com ela. Ou ela está acobertando um deles ou de fato pirou.
– Eu só queria saber como iria ficar.
– Isso é um motivo de merda, Noralys!
– Pra você que está todo quebrado sim. Mas eu me curo de uma noite pra outra.
– Já que é assim eu vou arrancar uma perna sua, o que acha? Vamos fazer uma experiência, ver se cresce de novo.
– Você é um idiota!
– E VOCÊ UMA LOUCA! — Explodo com ela. Subo para o quarto para me acalmar. Se ficar perto dela nesse momento, posso perder a compostura e lhe dar umas boas palmadas.
Como ela pode se auto mutilar? O que tem haver se curar rapidamente com auto-mutilação? Talvez esse lugar esteja fazendo mais mal a ela do que imaginei.
Ela estava com Megan e Lancey quando aconteceu isso. Hoje mais cedo eles estavam juntos também. Conversavam algo que não queriam dividir.
Alguma coisa mais séria esta acontecendo. Se isso for possível. E os três estão envolvidos. Provavelmente tem haver com o que Nora fez hoje. Eu preciso descobrir.
Espero que ela suba por conta própria, quero pressioná-la. Mas ela nunca chega. Se passa mais duas horas e nada dela vir.
Desço e ela não está mais na sala. Kall me diz que ela subiu com Megan. Provavelmente estão com Lancey! Como eu odeio esse cara.
Dou uma passada rápida na cozinha e janto. Steve fez sopa, que não caiu muito bem. Esse lugar ta quente, faz um calor dos infernos, tomar sopa só piora as coisas.
Gideon está parado na janela, observando. George me faz um discurso de como Nora é louca e que deveríamos soltá-la na praia e deixar a criatura pegá-la, dessa forma poderíamos sair da ilha com vida, talvez. Pior que ouvir isso dele, é saber que ele está, de fato, falando sério.
Subo as escadas. Primeiro paro no quarto de Nora. Ela não está lá. Tento o de Megan, vazio. Vou até o de Lancey. Está apenas encostada a porta. Abro e entro. Encontro os três de mãos dadas e olhos fechados no meio do quarto.
– Que merda, vocês estão fazendo? — Abro a porta com brusquidão. Eles não me respondem é como se não percebessem que estou aqui.
Me aproximo deles já de saco cheio e tento separar as mãos mas o efeito é totalmente inesperado. Invés de separá-los e acordá-los, sou levado para um lugar diferente. Como se tivesse sido teleportado.
Nora
– Você é doida. — Megan me diz enquanto subimos para o quarto de Lancey.
– Eu precisava saber. — Me defendo. — É agoniante não saber se aquelas dores infernais vão voltar. Eu deveria estar morta depois de tudo aquilo. A merda da facada doeu, mas não chega aos pés do que aconteceu naquele buraco maldito.
Megan suspira.
– Ao menos deu certo? — Ela me pergunta.
– Não tenho certeza. Sinto dor. Talvez daqui algumas horas.
Megan tem Sardinha no colo, nós o apanhamos no meio do caminho. Eu até pensei em procurar velas, mas isso chamaria muita atenção depois do meu pequeno show.
Lancey não está no quarto quando chegamos, mas mesmo assim nós entramos. Nos acomodamos em sua cama, uma de frente para outra e colocamos Sardinha no meio.
– Isso vai funcionar? — Megan pergunta descrente.
– Nos filmes funciona. — Só que sempre liberta alguma força maligna que mata a todos. Mas essa parte não preciso compartilhar. — Se não der certo podemos ir pra frente do espelho e ficar repetindo seu nome. Quem sabe ela não vem nos matar.
– Ok... isso é uma lenda urbana. — Megan passa as mãos no cabelo — Essas coisas não existem! — Megan diz e logo se dá conta de nossa situação – Inferno garota. Eu só queria vir pra esse lugar pesquisar os animais. Como foi que eu acabei sendo o recipiente de um fantasma e agora participante de uma sessão espirita?
– Relaxa. — Digo a ela. Mas, nem mesmo eu estou relaxada. Estou nervosa e precisando de respostas com urgência.
Sardinha tenta sair do centro. Mas eu o prendo com minhas pernas. Ele mia irritado. Estendo as mãos para Megan que faz careta e as segura.
– Repita comigo: Pearl venha pra nós!
Megan me olha horrorizada.
– Não vou repetir isso. Ela no minimo vai vir é pra mim. Que tal... Pearl, venha pra Nora!
– Isso não vai funcionar.
– Como é que você sabe?
– Eu vejo filmes!
– Por favor – Lancey entra. Ele tem os cabelos molhados e está sem camisa. Usa uma toalha ao redor do pescoço. — Me digam que vocês não estão fazendo o que estou pensando...
– Podemos dizer: Pearl venha para o Lancey! – Megan diz animada em ver outra pessoa para servir de recipiente.
– A porra que vão.
Sardinha escapa e Lancey fecha a porta antes que ele saia. Meu amigo caminha até o guarda roupa e tira uma camiseta branca, a veste. Não acredito que ele teve todo o trabalho de guardar suas coisas no guarda roupa. Ele é mais organizado que eu.
Sardinha mia com vontade.
– Acho que vocês conseguiram o que queriam. — Lancey diz se afastando do gato.
Sardinha tem os olhos verdes e está sentado lambendo a pata. Me levanto e vou pra perto dele,mas evito tocá-lo. Megan fica atrás de mim.
– Pearl, precisamos saber o que houve. Precisamos de respostas. Suas dicas não fazem sentido nenhum. — Digo ao gato. Me sinto meio louca agora.
Não tive muitos bons momentos com essa fantasma. Mas eu sinto uma paz quando ela está por perto. Preciso acreditar que isso é algo bom. Que ela quer, de fato, nos ajudar e não matar. Mas, de qualquer forma, não há muitas opções no momento.
O gato levanta e caminha em direção a Megan que dá um passo pra trás, depois fica parada enquanto o gato passa pelo meio de suas pernas, relando o corpo em sua pele. Então ele deita a seus pés e os olhos da minha nova amiga mudam de cor.
– Não posso ficar muito tempo. — A voz fantasmagórica diz. — Mas eu posso mostrar.
Se podia mostrar, porque não fez isso antes?
– Ok...
Isso ainda me dá arrepios, mas um pouco menos agora. Talvez sejam as vozes em minha cabeça que tenham feito isso parecer quase algo normal.
– Me dê sua mão. — Ela pede.
– E eu? — Lancey pergunta, ele sim está visivelmente assustado com a cena a se desenrolar a nossa frente.
– Nunca consegui possuir um homem, não sei se é possível lhe mostrar. Mas tentarei.
Ela estende a outra mão para ele. Ficamos os três de mãos dadas então algo começa a mudar. Os sons vão ganhando vida, ficando mais fortes. Primeiro parece que estamos em uma cachoeira, ou dentro da água. O barulho de água é inconfundível. Então o chão muda. Não estamos mais no quarto. Não estamos mais em lugar nenhum. Estou sozinha e uso uma saia comprida.
– Pearl! — Uma voz chama de trás e eu me viro involuntariamente. Começo a acenar. E correr em direção a mulher de cabelos loiros e vestidos compridos. Estamos na ilha agora. Na praia.
Ordeno o meu corpo a parar, mas ele não me obedece. Percebo então que esse não é o meu corpo. Essa não sou, e essa não é a minha história. Estou possuindo o corpo de Pearl.
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