Canção Da Morte
9 Capítulo 9 - Dimensão de todas as crenças
Infinitamente fantástico. Essas eram as palavras que passavam pela mente de Hikaru quando ele olhou para aquele novo ambiente. Há poucos segundos ele havia caído numa fenda espacial criada pelo deus do medo, Fobos; agora ele admirava uma nova dimensão, da qual ele nem sabia da existência. O Cavaleiro de Leão estava de pé sobre uma ponte cujo chão era coberto de uma diversidade de cores, ao seu redor existiam infinitas estrelas brilhantes, de todos os tamanhos. Além das estrelas ele podia ver também planetas, asteroides, meteoros e luas, ele não sabia como isso era possível, mas tinha certeza que aquele lugar era repleto de poder, um poder fortíssimo que fluía para todos os lados.
Estendendo mais sua visão, Hikaru olhou para baixo da ponte, numa diagonal para sua esquerda, em algum ponto, bem distante dele, uma luz brilhava, ela não estava parada como as estrelas que ele já tinha visto, pelo contrário, essa luz se movimentava em linha reta.
Aquele estranho brilho dourado seguia uma trajetória, iluminando tudo que estava ao seu redor, Hikaru não tinha certeza se o que estava vendo era certo, porque aquela esfera luminosa parecia estar apoiada em alguma coisa, como se algo estivesse transportando-a. Seus olhos lhe disseram que tal transporte era um barco, um gigantesco barco que possuía características totalmente diferentes dos barcos comuns, esse parecia ser mais antigo, mais rústico. Sua mente confirmou suas suspeitas quando percebeu uma movimentação debaixo da embarcação misteriosa, uma ondulação que é possível ver na superfície da água quando ela é agitada. Ele lembrou-se das histórias que tinha ouvido quando era garoto, se elas fossem realmente verdadeiras, ele sabia quem era o dono daquele estranho navio.
Seus pensamentos foram interrompidos pela chegada de Fobos, que entrou na mesma fenda onde ele havia caído momentos atrás. O deus já demonstrava uma expressão de superioridade antes, contudo, ela se acentuou logo que Fobos entrou nesta dimensão, parecia que este lugar era natural para ele, era sua “casa”, ali seus poderes estariam aumentados. E Leão pôde sentir isso claramente. Mas se aquele barco era realmente o que ele imaginava então Fobos era o menor dos seus problemas.
- É exatamente isto o que está pensando. – o deus falou como se pudesse ler sua mente.
- O quê?! – ele questionou, ainda sem acreditar.
- Aquela embarcação, logo abaixo de nós. Sim, ela pertence ao deus-sol. Nesse momento ele está fazendo sua habitual travessia pelo rio do mundo espiritual. – Fobos respondeu.
- Impossível! – Hikaru não aceitava tal ideia.
- Preste atenção cavaleiro, olhe em volta, veja a imensidão desse local. Este lugar é chamado de Zona Cósmica. Uma dimensão comum a vários seres, alguns venerados pelos humanos, outros temidos por toda forma de vida. – o deus do medo explicava. – Todas as crenças dos humanos falam de um lugar onde seus deuses vivem, um mundo espiritual, uma dimensão totalmente diferente da Terra, um lugar que abriga todas as suas fantasias e seus medos. – ele disse com um tom de voz mais sério.
- Mundo espiritual? Então eu estou morto? – Leão queria saber.
- Não, você não está morto, ainda não. Algumas pessoas têm a oportunidade de vir até esta dimensão. Alguns são hospedeiros de deuses e recebem o dom de transitar livremente por aqui, e muitas vezes eles nem sabem como fazem isso ou nem percebem que fizeram. Eles passam por aqui em frações de segundos, geralmente usam esse local como um atalho para ir de um lugar a outro que é muito distante.
Fobos abriu uma nova fenda com seu braço direito e Hikaru pode ver a Muralha da China, como que numa janela. Então com seu outro braço ele fez outro buraco no espaço e diante dos olhos do Leão surgiu a imagem da Estátua da Liberdade. Lugares muito distantes que pareciam tão próximos nas mãos do deus do medo.
- Vê? O espaço aqui é totalmente manipulável, centímetros nesta região podem representar quilômetros naquela outra. E como eu dizia, alguns são hospedeiros divinos que conseguem chegar até aqui, porém existem aqueles que chegam por conta própria, eles têm um poder tão grande que podem abrir caminhos para vir até esta dimensão, mas eles possuem certas restrições.
- Que restrições? – Hikaru interessou-se pelo assunto.
- Na Terra, há lugares onde é mais fácil abrir passagens para a Zona Cósmica. Locais onde o fluxo do cosmo é mais constante, como por exemplo, o Santuário de Atena, onde vocês malditos vivem agora. Vocês não tem a mínima noção de quanto poder aquele lugar possui, o cosmo da deusa e de cada um de vocês está impregnado em cada canto. – Fobos continuava sua explicação. – E é claro que também existem artefatos de poder, objetos que funcionam como chaves para esta região, abrindo portas para que qualquer um entre aqui.
Enquanto ele falava, Hikaru foi surpreendido por uma figura que passou voando ao lado da ponte, vindo de baixo dela e subindo até desaparecer de vista. Pelo que ele viu, essa criatura se parecia com um homem, porém tinha asas, grandes asas brilhantes. Ele vestia uma armadura e carregava uma espada na bainha. Se ele não estivesse enganado, aquilo era um anjo.
- Como eu disse, estamos todos aqui. – Fobos falou com um sorriso no rosto.
Se o barco do deus-sol estava navegando por ali, se anjos voavam livremente naquela região, então Leão já não tinha dúvidas sobre que ponte era aquela e até onde ela levava.
- Creio que você já descobriu que ponte é esta, a quem pertence e quais os lugares que ela conecta. – o deus do medo considerou.
- Esta ponte chama-se Bifrost. Ela é propriedade dos deuses do norte e faz ligação entre o Reino Eterno e qualquer ponto do universo. – O cavaleiro respondeu.
- Correto. – disse Fobos.
- Então qual é o objetivo de me trazer até aqui? Não foi para um passeio turístico foi? – Hikaru desafiava seu inimigo.
- Não, não tenho esta intenção. Trouxe-o até aqui para ver até onde vai seu poder, eu sabia que lutar naquela dimensão iria inibi-lo, fazendo com que não usasse sua real força, porque estaria com medo de machucar os outros. – ele respondeu.
- Quer saber até onde vai meu poder? Vai até o momento em que você estiver morto. – Leão afirmou.
- Isso é o que veremos. Faça seu melhor cavaleiro.
O deus do medo sacou sua espada e preparou-se para atacar. Seu cabelo com uma leve cor roxa cobria parte de seu rosto. Sua altura era de aproximadamente um metro e oitenta, três centímetros mais alto que Hikaru, mas isso não era nenhuma desvantagem.
Leão retirou as ombreiras de sua armadura, ambas tinham o formato de garras de leão, depois de retirá-las ele vestiu-as como se fossem luvas, ficando assim com verdadeiras patas de leão. A espada de Fobos era longa, afiada, feita de uma lâmina dourada que refletia a luz das dezenas de estrelas que os cercavam.
Fobos partiu para o ataque, sua velocidade era grande e tudo que Hikaru podia fazer era defender-se com suas luvas, a espada do deus fazia fissuras no ouro, abrindo caminho para chegar até a pele de Hikaru. O cavaleiro tomou distância para sair da linha de ataque e logo após começou a correr de volta para atingir seu oponente, essa estratégia era muito usada quando ele precisava de alguns segundos para assimilar a situação e bolar um contra-ataque. Ao se aproximar de Fobos ele pulou para atingir o inimigo por cima, porém esqueceu-se que aquele lugar era diferente da Terra, a gravidade não agia do mesmo modo que no seu planeta natal, imediatamente ele sentiu seu corpo elevar-se a uma altura maior do que a espera com aquele salto, mas depois de alcançar determinada altura seu corpo parecia voltar ao chão. Enquanto ainda estava no ar o adversário saltou em sua direção para ataca-lo, sua velocidade era impressionante e o deus parecia ter total controle de seu corpo, sem ser surpreendido pelos efeitos da Zona Cósmica. Fobos girou sua espada no ar para atingir Leão, todavia o guerreiro de cabelos vermelhos mostrou-se mais inteligente e agarrou a arma do combatente, em um incrível movimento ele rodopiou algumas vezes carregando a lâmina e consequentemente seu possuidor. Depois de darem voltas e voltas o deus sentiu o impacto de seu corpo chocando-se contra a ponte, sua arma já não estava em sua mão e o cavaleiro de Leão estava em pé diante dele com um sorriso de vitória no rosto. A raiva correu por seu corpo, aquela situação era inaceitável, perder para um mísero humano não era algo digno do deus do medo; então Fobos resolveu usar seus poderes divinos, um de seus maiores trunfos.
O senhor da fobia levantou-se rapidamente e segurou o pescoço do cavaleiro dourado, com sua outra mão ele tocou a testa do inimigo, buscando invadir sua mente, querendo chegar no seu inconsciente, fazer uma completa varredura em seus pensamentos, seus sonhos, seus desejos e principalmente, seus medos. Finas linhas vermelhas saíam da cabeça de Hikaru, seu sangue estava indo direto para o dedo indicador de Fobos, levando suas memórias e todo tipo de informação que sua mente poderia fornecer, até que em certo momento o deus afastou-se dele com uma expressão de felicidade no rosto, tudo o que o cavaleiro sabia fora revelado a seu inimigo, sem segredos, sem restrições. O deus começou a reunir seu cosmo, com seus olhos fechados ele aparentava estar vasculhando toda aquela informação recebida para usá-la contra o oponente.
- Agora sim, prepare-se para conhecer seu maior medo, Hikaru de Leão! – Fobos falou enquanto analisava as memórias do cavaleiro.
Aproveitando a distração do adversário, Hikaru retirou de sua armadura um pequeno frasco com uma substância vermelha, derramou seu conteúdo sobre as garras em suas mãos e lançou o recipiente fora; ele depositava toda sua confiança nesse ataque, então levantou a guarda e esperou pela investida do oponente. Quando o deus do medo abriu os olhos uma aura vermelha rodeava-o por completo, fazendo seu cosmo aumentar sobremaneira. Ele olhava fixamente para o chão da ponte, esperando que algo surgisse de lá, seu cosmo aumentava conforme sua expectativa sobre o que poderia levantar-se do solo colorido que compunha aquela estrutura. Porém, nada aconteceu. Nenhuma criatura, imagem ou objeto apareceu para ajudá-lo em seu combate.
- O que? Como isso é possível? – ele recusava-se a crer que sua técnica tinha sido ineficiente.
- Você tentou usar um ótimo golpe contra mim. Seu plano era vasculhar minha mente e com isso descobrir meus medos para usá-los contra mim. Seria muito eficiente, mas você não atentou para um detalhe. – Hikaru contou.
- Que detalhe? – Fobos estava realmente curioso para saber.
- Eu não tenho medo de nada. – disse o cavaleiro de Leão, surgindo bem próximo de seu inimigo, movendo-se com uma rapidez assustadora.
Ele começou uma sequencia de golpes contra o deus, suas garras atacavam, mas Fobos desviava e procurava defender-se com os braços que estavam cobertos pela armadura. Até que Hikaru conseguiu arranhar seu rosto e o estranho líquido vermelho misturou-se ao sangue do inimigo, o cavaleiro tomou distância do adversário, esperando alguma reação. O deus correu para pegar sua espada caída, mas não conseguiu levantá-la porque seus braços não se moviam, tentou mais uma vez, porém agora suas pernas falharam, levando-o ao chão. Em poucos momentos seu corpo estava paralisado e ele não tinha poder para mover um dedo que fosse. Sua respiração passou a ser mais lenta e apenas seus olhos e ouvidos continuavam funcionando normalmente; ele tentou falar, mas tinha certa dificuldade.
- Oq... O quê é isso? C-C-Como você fez isso comigo? – perguntou.
- Vocês deuses sempre se acham mais inteligentes, mais fortes, sempre pensam que são superiores aos humanos em tudo, mas não são. Antes mesmo que vocês chegassem ao nosso mundo nós estávamos preparados. O Grande Mestre nos alertou que uma aliada dele sentiu sua presença se aproximando de nossa dimensão. Na noite anterior àquela em que vocês chegaram, nós nos reunimos e preparamos um plano de ataque, devo admitir que algumas coisas saíram do controle, mas a nossa luta era algo planejado por mim desde que soube que o deus do medo estava vindo. – Hikaru falava lentamente. – Naquela mesma noite em que fomos avisados, eu fui até Hayato de Escorpião e pedi uma pequena dose de seu veneno escarlate, pequena mas concentrada, uma dose que pudesse paralisar qualquer um, incluindo um deus.
- Não importa. Mesmo que me derrote não vai libertar seus amigos da minha nuvem do medo. Nesse momento, eles estão presos na minha armadilha, vivendo seus piores terrores na pele. Seus pesadelos estão tornando-se realidade bem diante de seus olhos. – Fobos revelou.
- Mas assim que você morrer eles serão libertados. Eu tenho certeza disso. – Leão disse.
Ele caminhou até seu adversário e o segurou pelo pescoço, suspendendo-o no ar, suas garras de ouro entravam em sua pele e perfuravam suas veias, injetando mais veneno em sua corrente sanguínea.
- Faça boa viagem, deus do medo. Até a próxima Guerra Santa. – O cavaleiro falou enquanto soltou seu inimigo no espaço e viu-o cair até sumir de vista.
Hikaru colocou suas ombreiras de volta, certificando-se antes de limpar todo o veneno presente nas pontas das mesmas. A luta estava acabada, mas ele ainda precisava sair daquele lugar, precisava retornar para o Santuário. Se seus amigos estavam correndo perigo, ele tinha que voltar para lhes dar auxílio. E com tantos outros deuses e seres poderosos naquela região, não seria nada seguro ficar por ali.
Enquanto pensava nos seres que podia encontrar naquele local, ele viu que alguém estava vindo de cima dele, a uma distância grande, mas que se encurtava a cada segundo, um rapaz mergulhava de cabeça em direção à ponte do arco-íris, seus cabelos eram de uma cor azulada e ele vestia uma armadura, uma armadura que Hikaru reconheceu rapidamente.
O cavaleiro saltou a tempo de pegar o jovem que caía, evitando assim seu forte choque contra a ponte logo abaixo. Dante repousou calmamente depois do cavaleiro de Leão deitá-lo no chão. Se não fosse pela sua intervenção o jovem certamente estaria morto.
Agora além de sair da Zona Cósmica ele precisava garantir também o retorno do Cavaleiro de Fênix. Sua mente não conseguia bolar um plano de fuga, seus olhos não enxergavam a saída daquele lugar. Suas esperanças estavam acabando, Hikaru já começava a pensar se sairia dali um dia. Entretanto, uma ajuda surgiu do nada. Bem diante de seus olhos ele viu duas fendas se abrirem, os guerreiros rubros passavam de um lado para o outro, como se estivessem sendo arremessados por alguém. Eles entravam por umas das fendas e imediatamente eram empurrados para a outra, voltando para o mundo onde estavam anteriormente. E outras fendas semelhantes foram se abrindo ao seu redor, sempre que os soldados vermelhos passavam pela segunda fenda, a mesma se fechava, e assim era com todas elas.
Ele sabia que precisava ser rápido, pois aquilo não duraria muito tempo, tinha também que ter ótimos reflexos, já que não podia prever onde a próxima passagem se abriria. Leão foi até Dante que permanecia deitado e tentou acordá-lo, o garoto demorou a levantar-se, demonstrava estar confuso com toda aquela situação.
- Hikaru? O que você está fazendo aqui? – ele questionou seu companheiro.
- Eu estava lutando com Fobos, deus do medo. Minha surpresa é você estar aqui.
- Logo depois que você desapareceu, Deimos me trouxe para essa região para avaliar minha coragem.
- Sei bem como é isso, mas ande não temos muito tempo. Está vendo essas fendas? Precisamos entrar por elas para voltarmos à Terra. Tente ser rápido.
- Entendido. Vamos lá.
Logo que as duas passagens para o outro mundo apareceram, cada um pulou na direção de uma, usando seus cosmos para impulsioná-los. Deixando para trás toda uma dimensão extraordinária e também assustadora. Seres extremamente poderosos, deuses de outras civilizações, memórias que deveriam ser esquecidas, dores que permaneceriam sempre com eles. Contudo, a certeza de voltar para casa era algo que os deixava felizes, a oportunidade de rever seus amigos e de poder lutar ao seu lado novamente.
Mas seus corações continuavam perturbados com o fato de que, do mesmo modo que eles tinham entrado nesse lugar, seres nunca vistos antes pelos humanos poderiam entrar no seu mundo. E se entrassem, será que os Cavaleiros teriam força para fazê-los voltar ao seu lugar de origem?
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