Canção Da Morte
10 Capítulo 10 - Fantasmas e Liberdade
Poder demais é algo realmente perigoso, principalmente para quem não está acostumado com ele. Essa era uma lição que Íllias lembraria por toda sua vida. Quando ele ouviu Miro falar que as armaduras intensificavam o cosmo daqueles que as usavam, ele não levou muito a sério. Agora que estava voando tão veloz quanto um avião, ele acreditava nas palavras de seu avaliador. Sua memória não estava muito bem, talvez devido a pancada na cabeça, mais ele lembrava-se exatamente do velho que havia o lançado contra a parede interna do templo da deusa Athena. Lembrava também da raiva que sentiu enquanto esteve na presença de Anteros, deus da discórdia. Será que era esse o poder de um deus? Conseguir controlar a mente das pessoas? Ele queria atingir esse nível, queria muito tornar-se poderoso, ser reconhecido e admirado.
Talvez aquele velho soubesse o que estava fazendo quando o jogou contra a parede, uma parede falsa por sinal, mas mesmo assim bem dura e resistente. Depois de acordar dentro do templo, Íllias viu uma abertura no lugar onde sua cabeça havia batido, sua vontade no momento era de sair e dar uma surra no deus e naquele velho arrogante, porém sua curiosidade foi maior que tudo. Uma intensa luz azul estava saindo daquele buraco, uma luz muito semelhante àquela produzida por seu cosmo quando queimava, bastaram apenas alguns leves socos e toda a parede foi ao chão. Aquela construção era usada para esconder um depósito, um pequeno quarto onde o Cavaleiro de Touro guardava algumas coisas, como uma capa igual a outra que Íllias tinha tirado dele, alguns papéis retangulares com uma escrita em grego: Aθηνά (Athena).
Se fosse há três meses, ele não conseguiria nem ler na sua língua natal, mas felizmente Ryoji conhecia várias línguas e o ensinou a ler e escrever no tempo em que estiveram juntos, além de que ele pôde praticar e aprender novos idiomas no Santuário que abrigava cavaleiros de diversas nacionalidades.
Além desses papéis com o nome de Athena, existiam outros, mas esses possuíam anotações diferentes. Algumas das palavras escritas neles eram: Rosas Diabólicas, Execução Aurora, Supernova Titânica, Relâmpago de Plasma, Outra Dimensão, entre outras... Todavia nada disso era importante para o jovem guerreiro, depois de passear seus olhos pelo lugar, um objeto atraiu sua atenção, uma grande caixa de bronze, sua cor era acinzentada e ela apresentava gravuras semelhantes às presentes em outros recipientes como aquele. O desenho desta mostrava um cavalo, um grande cavalo com asas em suas costas. Se Íllias não estivesse errado, o conteúdo era uma armadura, uma armadura de bronze.
Quando ele se aproximou para abri-la, a luz que ela emanava ficou mais forte e a caixa foi aberta, a armadura saiu de dentro e ficou flutuando diante dele, de repente suas peças começaram a se separar e revestir todo seu corpo. Seus braços, pernas, tórax, abdômen e cabeça ficaram protegidos por aquela vestimenta que ele aguardava tanto usar. Ele ainda estava verificando como a armadura tinha se adaptado ao seu corpo quando sentiu um grande tremor que abalou as estruturas do lugar, seus reflexos rápidos fizeram-no sair daquele depósito improvisado e procurar uma saída; quando voltou para dentro do templo, uma coluna quase caiu sobre ele. Precisava sair dali o quanto antes, sua mente estava confusa e não trabalhava direito, não conseguia pensar rápido o suficiente para criar uma saída. Então ouviu uma voz dizer em sua mente:
- Deixe o cosmo fluir.
- Como assim? Quem é você? – ele perguntava assustado.
- Faça, libere o poder do Pégaso. – a voz continuava.
Ele obedeceu, concentrou-se no poder que corria dentro de si, relaxou e permitiu que outra identidade tomasse o controle, várias informações passaram por sua cabeça durante esses instantes, vários nomes vieram até ele: Tenma, Sasha, Alone; Seiya, Saori, Shun e muitos outros. Porém somente dois nomes permaneceram com ele: Athena e Hades. As lembranças de antigas guerras foram vistas, como se ele tivesse presenciado mais de três milênios de batalhas entre forças poderosíssimas.
Numa explosão de energia, seu corpo foi jogado para cima e atravessou o teto do templo, sua altitude aumentava a cada segundo que se afastava do lugar, enquanto voava ele viu o velho deitado no chão, e teve a impressão de que o cavaleiro estava rindo. Sua vontade agora era de partir para o campo de batalha e se juntar aos seus amigos guerreiros. Mas não era ele quem tomava as decisões, a armadura passou voando sobre o cenário de desolação da Vila Rodório, seu alvo era um ponto mais alto, mais distante, mais familiar.
O Santuário era muito mais belo visto de cima, o Coliseu, o Pátio, As Doze Casas, tudo parecia perfeito, como se cada coisa tivesse sido planejada em todos os seus detalhes. Seu voo continuou até que ele passou para o outro lado da montanha, chegando lá ele pousou numa rocha na encosta do monte, um ponto de observação privilegiado de onde ele teve a chance de ver o nascer do sol, um fenômeno incrível que muitos não param para admirar, os primeiros raios de luz chegaram iluminando todo o ambiente, fazendo Íllias perceber que estava bem próximo do Cemitério dos Cavaleiros, o local reservado para o descanso dos guerreiros de Athena.
Sua mente retomou o controle sobre seu corpo gradativamente, seus movimentos, pensamentos e vontades eram todos determinados por ele novamente, a entidade lendária representada pela armadura de Pégaso já havia deixado de controla-lo. Tudo o que ele sentia agora era paz, uma profunda paz que fluía por todo o lugar, parecia que essas circunstâncias eram comuns para ele, como se sempre fizesse isso.
Porém sua paz durou pouco tempo. Foram necessários apenas alguns minutos para que dezenas de soldados de Ares entrassem pelo Cemitério dos Cavaleiros, eles pareciam procurar por algo que não conseguiam encontrar de maneira nenhuma, espalharam-se rapidamente para localizar seu alvo, mas assim como Íllias eles também foram surpreendidos. Um forte cosmo invadiu todo o lugar, um cosmo poderosíssimo, porém sereno, firme, inabalável. A imagem de Ryoji surgiu diante de todos, ele flutuava a metros do solo, estava sentado na posição de Lótus e seus olhos permaneciam fechados, sua armadura dourada brilhava devido aos raios solares, sua expressão era totalmente séria. Logo que viram seu inimigo, os servos do deus da guerra se prepararam para ataca-lo, aguardando apenas a ordem de seu superior, um homem forte que carregava uma clava, seu capacete possuía três chifres, ele estava parado na porta do cemitério.
- Matem esse cavaleiro! – gritou o comandante enfurecido.
- Poupem seus esforços. – Ryoji se antecipou. – Eu trouxe vocês para esta área justamente para evitar conflitos desnecessários. Este é o Cemitério dos Cavaleiros, um lugar especial para todos aqueles que lutam ao lado de Athena, ele representa o sacrifício feito por bravos guerreiros que nunca permitiram que Hades destruísse esse mundo, homens e mulheres que deram suas forças e suas vidas para garantir a vitória e a paz para a próxima geração.
- Nos trouxe até aqui? Quem você acha que é? Você não tem poder para nos comandar! – respondeu o líder do exército vermelho.
- Não preciso usar palavras para fazer com que me obedeçam, creio que não perceberam, mas no caminho até aqui havia uma bifurcação na trilha, qualquer um que segue o caminho até o Santuário pode vê-la, mas eu usei meu cosmo para criar uma ilusão em suas mentes, forçando-os a ver apenas um caminho, que os trouxe até aqui. – Virgem explicou.
- Chega de suas palavras sem sentido! Vamos mata-lo imediatamente! Guerreiros ataquem! – ordenou o chefe dos soldados rubros.
Um após o outro os soldados atacaram, seus golpes vinham de todas as direções, alguns atacavam de baixo, outros de cima, mas nenhum de seus ataques surtiu algum efeito no cavaleiro dourado que permanecia imóvel. Íllias observava os esforços dos guerreiros que ao tentarem atingir seu mestre, apenas passavam por ele, como se ele fosse um fantasma, como se não estivesse realmente ali.
- Já chega, assim como essa terra abriga os corpos de inúmeros guerreiros ela abrigará os seus também. Este lugar representa morte para muitos de nós, e agora vai ser o mesmo para todos vocês. – Ryoji anunciou.
Sem fazer um único movimento, Ryoji começou a elevar seu cosmo lentamente. De repente sombras começaram a sair do chão e envolver os inimigos, seus gritos ainda podiam ser ouvidos no momento em que todas as sombras desapareceram, levando todos consigo, sem deixar rastros da presença de qualquer um deles.
Íllias estava muito impressionado com o que tinha visto. Como alguém pode derrotar dezenas de oponentes sem elevar seu cosmo ao máximo? Será que aquele era o mesmo Ryoji que ele tinha conhecido meses atrás?
Essa era a primeira aparição que ele fazia desde que haviam se despedido em frente ao Coliseu. Mas seu coração dizia que aquela figura que estava diante de seus olhos não era o Cavaleiro de Virgem, não completamente, ele parecia não estar ali, ou melhor, estar ali e em outro lugar simultaneamente. Seria isso possível?
Depois que a imagem de Ryoji desapareceu, o cavaleiro de Pégaso desceu até o cemitério e andando pelo lugar ele viu que até a terra foi consumida pelas sombras nos lugares onde os guerreiros estavam minutos atrás. Ele gostaria de permanecer e prosseguir com sua investigação, mas uma risada bem familiar foi ouvida ao longe, alguém parecia estar se divertindo, e se suas suspeitas estivessem corretas, a diversão era uma batalha. Ele abandonou o repouso dos antigos cavaleiros e correu em direção ao Santuário.
Na entrada do Santuário se encontravam mais guerreiros de Ares; como eles haviam chegado até lá ele não sabia, mas torcia para que esses inimigos não fossem os mesmos que estavam lutando contra seus companheiros. Não esperou um único segundo e partiu para a batalha, seus golpes estavam muito mais eficazes, sua força aumentara, seus reflexos eram muito mais rápidos. Ele pulava, corria, atacava de todas as maneiras, seus adversários não conseguiam acompanhar sua velocidade. Até que um de seus inimigos tentou atingi-lo com sua espada, ele estava de costas para boa parte do exército vermelho, e enquanto atacava outros soldados, um deles tentou cravar sua lamina em seu crânio, felizmente um amigo apareceu para salvá-lo. Sua risada de alegria ecoava pelo lugar, sempre que lutava ele se sentia feliz e seu riso era uma demonstração disso.
O machado de prata dividiu a arma em duas, bem como o guerreiro que a possuía. O cavaleiro de prata girava freneticamente, seu machado fatiava e cortava todos que surgiam em seu caminho e em poucos instantes vários inimigos estavam caídos aos seus pés, mortos.
- Isao da constelação de Órion. É bom te ver de novo. – Íllias cumprimentou o amigo cavaleiro.
- Íllias não é? Você progrediu bastante rapaz, quando eu deixei o Santuário você era apenas um novato, agora posso ver que conquistou a armadura de Pégaso. – Isao replicou.
- Bom, não foi bem uma conquista, mas a armadura me escolheu. – o jovem explicou.
- Entendo, mas não se preocupe. Isso ocorre com os melhores guerreiros. Sempre acontece em uma Guerra Santa.
- Então, me diga Isao, quando você retornou? Ficou sabendo da guerra de Ares? – Pégaso questionou.
- Retornei ontem à noite. Vim para pedir reforços ao Grande Mestre, nem tinha noção sobre esse conflito. Fora do país já detectei vários espectros em atividade, muitos são poderosos demais. Estava pensando em levar Miro comigo para me ajudar nas batalhas, ou até mesmo um pequeno grupo de cavaleiros de bronze. – Órion respondeu.
- Acho que nós é que estamos precisando de seus reforços. Eu ainda não sei o estado em que se encontram os outros.
- Então vá até eles, eu vou ficar por aqui e guardar o Santuário contra possíveis invasores que possam surgir.
- Você não vem comigo? Não vai nos ajudar nessa guerra?
- Sinto muito garoto, mas meu trabalho não é aqui, minha missão é outra. Talvez nos encontremos novamente, mas agora eu tenho assuntos a tratar com o Grande Mestre. Adeus. – Isao disse enquanto corria para o Grande Salão.
- Ele é mais preguiçoso que o Magnus. – Íllias pensou.
Descer aquela montanha novamente o fez lembrar-se do dia em que ele e seus amigos estavam correndo na direção da Vila Rodório, a aventura deles estava apenas começando e ninguém poderia sequer imaginar que tanta coisa aconteceria em tão pouco tempo. Seus passos conduziram-no até a sua armadura, sua tão sonhada armadura de bronze, a prova de que agora ele era um cavaleiro, a certeza de que ele era importante para alguma coisa, a garantia de que aquele garoto que morava nas ruas se encaixava em algum lugar. Sua alegria aumentava a cada passo que dava, seu sorriso estava maior que o de Azore, sua felicidade não podia ser medida naquele momento. Ele não pensava no que estava acontecendo na vila logo abaixo, ele iria para lá ajudar seus amigos. Sua força estava crescendo dentro dele, seu cosmo queimava intensamente. Então ao pular de uma rocha ele voou, não como tinha feito antes, esse era seu voo, totalmente controlado por ele, desejado por ele. As asas do Pégaso estavam levando-o a um destino desconhecido, mas a um destino de vitórias, um destino pelo qual ele estava esperando durante muito tempo.
E ele subia cada vez mais alto, indo de encontro ao céu, um ambiente familiar para a sua constelação, mas que em breve seria para ele também.
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