Canção Da Morte
11 Capítulo 11 - Meteoros de Pégaso
Chuva é um fenômeno muito natural, algo com que Cleon já estava habituado. Mas uma chuva de meteoros não é algo que se vê todos os dias, principalmente se ela for provocada por uma pessoa.
Depois de verem Hikaru sumir diante de seus olhos, assistirem Dante ser levado pelo deus do pânico e se depararem com o sofrimento dos cavaleiros de ouro que estavam presos numa espécie de nuvem, os jovens guerreiros sentiram-se perdidos. Tinham que lutar sozinhos contra dezenas de soldados vermelhos, inimigos que não morriam de maneira nenhuma e sempre que eram derrotados se levantavam e começavam a lutar novamente. Aquela situação estava ficando insuportável e todos sabiam que não resistiriam muito tempo.
- Cleon, preciso que feche as passagens da cidade. Não podemos permitir que esses caras saiam daqui. Mesmo que sejamos derrotados, não deixaremos que alcancem outros lugares para destruí-los assim como fizeram aqui. – Ryu disse ao cavaleiro de cisne. – Aquiles, sei que não podemos entrar naquela nuvem para resgatar os cavaleiros de ouro, mas precisamos da ajuda de algum deles, será que você pode lançar suas correntes e tentar puxar alguém para fora? Tenha cuidado, pois já tentei entrar e recebi uma descarga elétrica vinda de lá.
Rapidamente Cisne foi até as saídas mais próximas e criou verdadeiras muralhas de gelo, obstáculos que até ele teria dificuldade para atravessar. Se alguém tentasse quebrar aquelas paredes levaria algumas horas para fazê-lo; mesmo o sol, que já estava nascendo, não poderia derreter o muro criado por ele. Andrômeda, por sua vez, posicionou-se a alguns metros de distância da nuvem que cobria os cavaleiros de ouro, seus gritos de dor e sofrimento podiam ser ouvidos ao longe, ela não sabia o que estava acontecendo lá dentro, mas sabia que não era nada agradável. Concentrou seu cosmo em suas correntes que logo pareceram ganhar vida e começaram a se mover; ele tinha que ser preciso, certeiro. Sua mente pensava em qual de seus amigos ele iria resgatar: Azore? Maximus? Ichiro? Aoshi? Hayato? Quem quer que fosse, tinha que ser alguém poderoso para derrotar aquele exército. Então num único movimento ele lançou sua corrente com aponta afiada; ela voou como uma flecha e perfurou aquela nuvem num instante, porém uma intensa descarga de eletricidade percorreu sua corrente e atingiu-o em cheio. Sua dor era forte, contudo ele resistiu e começou a puxar sua corrente de volta logo que percebeu ter alcançado alguém. Sua expectativa era tão grande quanto sua dor e num movimento rápido ele trouxe o cavaleiro dourado para fora.
Leônidas estava caído com uma expressão de surpresa no rosto, aparentava não acreditar no que estava acontecendo, finalmente estava liberto daquele pesadelo, mas a batalha não havia acabado. Ainda havia um exército para derrotar, pessoas para salvar e muito que viver. O Cavaleiro de Gêmeos se levantou com certa dificuldade, mesmo fora da nuvem, a dor continuava a atacá-lo. Ao visualizar a situação ele percebeu que estavam em desvantagem, não apenas pelo número de inimigos ser maior, mas também pelo fato de esses inimigos não morrerem de jeito nenhum. Distraído em seus pensamentos ele não percebeu a aproximação de Aquiles e Ryu, que já haviam bolado um plano para derrotar aqueles adversários imortais.
- Escute Leônidas, nós precisamos reunir todos eles em um único lugar, fazer com que fiquem próximos para que possamos acertar todos eles. Você concorda? – Ryu disse.
- Sim, sim. Eu acho que sei como juntar esses soldados, uma técnica antiga dos cavaleiros de gêmeos, algo que eu posso modificar um pouco. Mas como iremos destruí-los depois? – Gêmeos preguntou.
- Deixe o resto conosco. – Respondeu Aquiles. – Eles não poderão se regenerar se seus pedaços forem separados. O Cleon vai congelar seus corpos e depois Ryu e eu vamos lança-los o mais longe possível. Será assim que...
- Pó de Diamante! – Cleon gritou enquanto sua rajada de gelo atingia um dos guerreiros rubros que tentava atacar seus amigos. – Isso não é um jogo onde temos um momento para conversar sobre nossas estratégias! Isso é uma guerra! Prestem mais atenção, ou acabarão mortos.
O guerreiro que estava preso no gelo foi despedaçado pelas mãos de Cisne que estava se preparando para congelar todos os inimigos ao mesmo tempo.
- Quando quiser Leônidas. – Ryu advertiu.
- Outra Dimensão! – o cavaleiro de ouro lançou seu golpe sobre os primeiros oponentes, depois sobre outros e outros, até que todos estavam unidos em um único local. – Pronto, agora é só atacar.
- Esperem! Não ataquem ainda! – dizia uma voz bem familiar, uma voz vinda do meio dos soldados vermelhos.
Logo que Hikaru e Dante pularam para longe dos inimigos, eles autorizaram Ryu e os outros a atacar, porém o cavaleiro de dragão havia percebido outra coisa. Aquele guerreiro que Cleon havia destruído não tinha se regenerado, ele permanecia no chão, desfeito em minúsculos pedaços de gelo. Isso significava que Fobos e Deimos estavam derrotados e agora eles tinham uma chance de vencer a batalha.
Mas nem todos estavam em condições de lutar. Leônidas já havia caído vencido pela dor da técnica de Fobos e pelo cansaço de atacar com a Outra Dimensão diversas vezes. Uma técnica de ataque consome uma parte considerável do cosmo de alguém, por isso muitos cavaleiros atacam com sua força apenas, sem utilizar muito de seu cosmo. Algumas técnicas consomem pouca energia e não prejudicam quem as lança, porém outras consomem tanta energia que podem levar até a morte. Hikaru e Dante pareciam exaustos, o lugar onde estiveram não deveria ser um lugar agradável e talvez lutar contra deuses também não fosse uma tarefa fácil. Aquiles e Cleon não conseguiam esconder o cansaço que estavam sentindo, afinal, eles só haviam lutado no Santuário e não estavam prontos para dois dias de batalha, mesmo sendo um curto espaço de tempo era demais para eles. Até o próprio Ryu sentia suas pernas e braços doerem, seu corpo implorava por um repouso, por um momento de descanso. Como eles poderiam derrotar tantos inimigos se não conseguiam forças para isso?
Aquiles estava se preparando para atacar, mesmo com dor ele não se entregaria facilmente. Ele deu dois passos em direção aos adversários, não podia perder tempo senão eles iriam se dispersar novamente, mas algo que ele viu chamou sua atenção e o fez parar. Uma sombra começava a se formar no chão, uma sombra que ficava cada vez maior a cada segundo, ao sentir aquele cosmo se aproximando ele relaxou e caiu no chão, não precisava se preocupar com nada mais. Assim que viu seu amigo cair Cleon foi ajudá-lo, mas ele não estava ferido ou coisa parecida.
- Olhe pra cima. – Aquiles pediu.
Cleon percebeu que Dante e Ryu já estavam observando o céu com um sorriso no rosto e quando ele mesmo viu o que estava acontecendo, abriu um sorriso também. Íllias estava caindo sobre eles com uma grande velocidade; seus punhos já estavam fechados, como se preparasse um soco, e então ele golpeou todos os servos de Ares de uma vez.
- Meteoros de Pégaso! – gritou o mais novo dos cavaleiros de Athena.
Uma surpreendente chuva de meteoros azuis saiu de suas mãos e impulsionados por seu cosmo destruíram todos os inimigos que estavam logo abaixo. O cavaleiro de Pégaso caiu em uma das crateras abertas por seus meteoros, sua expressão de felicidade mostrava que ele era um dos poucos que tinha forças para lutar contra todo aquele exército novamente se fosse necessário, mas felizmente não seria preciso.
Alguns minutos depois, os cavaleiros de ouro já haviam sido libertos de sua prisão de medo, a nuvem que foi lançada por Fobos tinha se dissipado, um sinal de que o deus estava morto e que não traria problemas, pelo menos por uns duzentos anos. Muitos estavam exaustos, alguns estavam feridos e todos estavam famintos. A quantidade de energia que haviam usado para vencer a batalha tinha sido grande demais, todos queriam voltar para o Santuário o mais rápido possível, mas ainda restavam questões para serem resolvidas, como a reconstrução da Vila Rodório, o surgimento de dois novos cavaleiros de ouro e a punição dos cavaleiros de bronze que desrespeitaram as ordens e entraram na batalha.
— Muito bem, — começou Maximus – a cidade foi muito prejudicada com a nossa luta, portanto é nossa responsabilidade restaurar tudo o que foi destruído. Quero todos, sem exceção participando do processo de reconstrução. Nero e Leônidas escutem: vocês foram escolhidos pelas armaduras, agora vocês fazem parte de nosso grupo de cavaleiros, quando voltarmos ao Santuário, o Grande Mestre dirá tudo que vocês precisam saber, espero que não nos desapontem.
- Com certeza não iremos. – Nero afirmou.
- E com relação aos cinco cavaleiros de bronze que desobedeceram nossas ordens e vieram até o campo de batalha, prestem atenção: vocês serão punidos de maneira exemplar, para que isso não se repita. Ordens são ordens! Vocês poderiam ter morrido nessa guerra! Nunca se deve entrar em uma luta que você sabe que não pode vencer. – Ele continuou.
- Mas nós sabíamos que venceríamos. Por isso viemos. – Aquiles argumentou.
- Não. Vocês achavam que podiam vencer, é diferente. Seu treinamento não havia completado nem um mês e vocês já pensam em entrar numa batalha desse nível? Vocês serão castigados para aprenderem a pensar antes de agir.
- Ora, ora, eu me lembro de você quando jovem e você também era muito impulsivo, não é Maximus? – perguntou um velho de capa que estava chegando ao local.
- Adalberon da constelação de Touro. Eu imaginava que você voltaria mais cedo ou mais tarde. – respondeu o cavaleiro de Sagitário.
- Me chame de Aldebaran, por favor. Eu penso que seria melhor não aplicar um castigo, mas sim dar tarefas para que esses jovens realizem. Mantê-los na prisão do Santuário não vai resolver nada e também não vai torna-los mais fortes.
Íllias estava se perguntando quem era o jovem que estava amparando Aldebaran, apoiando-o em seus ombros para que não caísse. Mas ao ver seu elmo com um chifre saindo dele foi fácil saber de quem se tratava. A armadura de Unicórnio possuía uma cor roxa, bem escura que podia facilmente esconder-se nas sombras durante a noite. Zaru, o jovem que a vestia era sem dúvida o mais forte de todos os cavaleiros de bronze, não apenas no aspecto físico, mas também em seu cosmo, que parecia ter um potencial imenso, Íllias havia percebido isso sem ao menos vê-lo lutar. O cavaleiro de Unicórnio era um jovem com cabelos esverdeados com um tom relativamente claro, sua pele estava bronzeada, talvez devido a uma alta exposição ao sol, seus olhos estavam sempre atentos, observando tudo e todos quase que simultaneamente, parecia que ele podia ler as mentes de seus companheiros apenas com o olhar.
— Pois bem, eu concordo. Além de ajudarem na reconstrução da Vila, eles terão que executar tarefas escolhidas por nós, cavaleiros de ouro. – Maximus reconsiderou.
— Não demonstre suas habilidades perto do Zaru. – Dante avisou Íllias.
- Por quê? O que há de errado?
- Confie em mim. Aqueles olhos são olhos de um espião. É difícil guardar segredos deles. – Fênix explicou.
Todos já estavam voltando para o Santuário quando Aquiles encontrou algo sob os escombros, um objeto que o fez parar e pensar em suas origens. Em suas mãos estava um cap de um policial, talvez um dos primeiros que tentaram parar o exército de Ares, talvez uma das primeiras vítimas dos Guerreiros Rubros, o que o fez lembrar-se de seu pai, um militar que havia deixado a casa e a família para lutar em uma guerra em que seu país estava envolvido. Uma guerra que já durava oito anos, oito longos anos em que um menino não podia compartilhar a companhia de seu pai. A raiva começou a crescer dentro dele, um sentimento de frustração. Do que adiantava lutar se ninguém iria lembrar-se de você? Porque arriscar sua vida para salvar pessoas que nem mesmo agradeceriam por seu sacrifício? Ele lembrava que dois anos depois que seu pai saiu de casa, sua mãe já havia encontrado outro cara, havia se esquecido de seu marido. Sua irmã mais nova já chamava o padrasto de pai e ninguém sequer falava sobre aquele homem amoroso e honesto que vivera naquela casa. Será que ele estava tomando o mesmo caminho? Será que alguém se lembraria dele ou será que alguém agradeceria por ser salvo de Hades e seus espectros? Aquiles achava que a vida era muito injusta.
- Mestre! Será que essa é a nossa missão? Olhe em volta! Nós salvamos esse lugar e nenhum dos moradores veio nos agradecer. Nós arriscamos nossas vidas por pessoas que não vão nem lembrar que nós existimos. Nós vamos mesmo morrer por um mundo que não merece o nosso sacrifício? – ele perguntou a Maximus.
Sagitário parou de andar e colocou-se diante de um monumento que todos observaram atentamente, um dos poucos objetos que permaneciam intactos mesmo depois da batalha. A estátua de Albafica de Peixes, o cavaleiro de ouro que havia dado sua vida para salvar a Vila Rodório, o homem que havia morrido para salvar pessoas que tinham pouquíssimo contato com ele. Um exemplo de sacrifício pela humanidade, um dos melhores cavaleiros de Athena de todos os tempos, alguém de quem todos lembravam, não por sua morte, mas por seus atos em vida.
- Sim, nós vamos. – Sagitário respondeu a pergunta feita por seu discípulo.
Todos permaneceram calados e continuaram caminhando até o Santuário. Deixando para trás medo, pânico e discórdia e seguindo para seu futuro. Um futuro desconhecido no qual a única certeza era a de que haveria muitas lutas pela frente, em algumas eles teriam vitória e em outras conheceriam a derrota, mas certamente todas valeriam a pena.
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