Canção Da Morte
12 Capítulo 12 - Dificuldades e Aprendizado
Muita coisa havia mudado no Santuário depois da batalha contra o exército vermelho. A maioria dos cavaleiros de prata que continuava vivendo lá havia sido mandada para o campo de batalha, pelo visto os soldados da Vila Rodório eram apenas um terço do total de homens que havia no exército de Ares. Muitos ataques foram percebidos em diferentes localidades do planeta e os cavaleiros prateados ficaram responsáveis por lutar contra os soldados e impedi-los de causar mais destruição. Pelo menos Miro continuaria como instrutor dos guerreiros de bronze, pelo menos era o que Ryu pensava.
- Como assim você vai sair do Santuário? – perguntou o cavaleiro de dragão.
- Preciso me juntar aos meus companheiros. As forças inimigas são realmente poderosas e toda ajuda é bem-vinda. – respondeu Cérbero.
- E quem vai nos treinar e nos ensinar a sermos ótimos cavaleiros?
- Vocês têm mestres não tem? Cavaleiros de ouro que trouxeram vocês para cá, eles irão ensiná-los.
Depois que Miro partiu, uma dúvida surgiu na mente de Ryu: quem seria o professor de Dante? O guerreiro sem mestre havia despertado seu cosmo e chegado ao Santuário sozinho, não havia alguém que pudesse treiná-lo. Enquanto saía do Coliseu, o jovem viu Fênix e Leão caminhando para fora do Santuário, ambos estavam carregando suas armaduras.
- Eles estão indo treinar. O Hikaru será o professor do Dante por um tempo.
- Ah, Íllias... Não percebi que estava ai. O cavaleiro de Leão será o mestre do Dante?
- Foi o que eu ouvi. Disseram que o próprio Grande Mestre pediu que Hikaru treinasse o Dante. Eles se tornaram amigos depois daquela experiência na Zona Cósmica. Bom, pelo menos Fênix conseguiu um mestre que possa ensiná-lo.
- Se você quiser eu posso falar com o mestre Hayato para treinarmos juntos.
- Não será necessário. Acabei de falar com Aquiles sobre isso, eu treinarei com Maximus. O que me preocupa realmente não é a ausência do Ryoji, mas sim o motivo dela. Algo está acontecendo na Casa de Virgem e algo me diz que não gostaremos do resultado.
- E quanto ao Cleon? Você o viu por aí?
- Da última vez que nos falamos ele estava indo para a Casa de Aquário, disse que Magnus o havia chamado.
A penúltima das Doze Casas era uma bela construção no clássico estilo grego, como boa parte das edificações do Santuário. A escadaria que levava até a entrada possuía duas estátuas ao seu lado, ambas representavam uma mulher segurando um recipiente acima da cabeça, um vaso de onde caía água, a representação do signo de Aquário. Ao entrar na residência de Magnus, Cleon encontrou seu mestre dormindo, como se não estivesse acontecendo uma guerra no mundo lá fora, ele parecia tão calmo que transmitia tranquilidade a todo o ambiente da casa. Cisne dirigiu-se para a biblioteca em busca de algum livro que pudesse conter ensinamentos sobre o domínio do cosmos e o desenvolvimento das mais poderosas técnicas. As estantes estavam repletas de livros, dicionários, relatórios e todo tipo de documento, um dos maiores volumes era um livro de capa dura e uma cor azul marinho onde estava escrito:
Relatos de Aquário – Camus. Havia outro semelhante a este, mas o nome em sua capa era Dégel, provavelmente o autor do livro, assim como o anterior. Cleon decidiu ler os relatos de Dégel e enquanto folheava suas páginas encontrou um capítulo que chamou sua atenção, seu título era Os Marinas, porém o cavaleiro não teve tempo para lê-lo completamente.
- Você não deveria estar lendo esse livro. – Disse Magnus ao entrar na sala.
- Eu gostaria de aprender todas essas técnicas como, por exemplo, essa do frio absoluto.
- Hahahaha. Você mal consegue fazer o Pó de Diamante sem usar uma grande quantidade de energia e quer aprender essa técnica? Levará mais tempo que imagina. – falou o mestre enquanto procurava um lugar para deitar-se.
- Então, por onde começamos?
O cavaleiro de Aquário deu um olhar para o seu discípulo que fez o mesmo repensar se o treinamento era realmente uma boa ideia. Talvez não fosse tarde demais para desistir.
As montanhas das cidades próximas eram ótimos lugares para treinar. Algo que Ryu acabou descobrindo muito rápido, ele e Hayato estavam a apenas algumas horas no local e uma enorme sensação de paz era compartilhada por ambos, era possível de olhos fechados sentir as árvores balançando com o vento, os pássaros voando metros acima de suas cabeças, as nuvens deslocando-se no céu e os vermes se movendo no subsolo. Tudo era tão simples e parecia estar tão conectado que o menor distúrbio poderia destruir todo aquele equilíbrio. O cavaleiro de Escorpião olhava atentamente para o ambiente, como se esperasse por algo ou alguém.
- Então, vamos começar. Primeiro, quero te explicar que nessa guerra, nem sempre os mais poderosos vencem. É preciso algo mais além do poder bruto, é preciso estratégia. Consegue entender isso?
- Sim, mestre. – respondeu Ryu.
- Muitos cavaleiros acreditam que a força bruta é a solução para vencer todos os combates, preferem destruir tudo a procurar uma solução mais inteligente. A maioria nem se dá ao trabalho de aprimorar suas habilidades, achando que basta tirar a vida do adversário que estará terminado. Meus métodos são diferentes, eu gosto de ser sutil, de não deixar pistas, gosto dos detalhes. Em meio a uma guerra, poucos são aqueles que atentam para as pequenas coisas, todos se preocupam somente com o que podem ver e ouvir e se você pode enganá-los nesse ponto posso garantir que será vitorioso. Mas vamos a prática, está vendo aquela árvore ali? Quero que a ataque, faça seu melhor.
- Entendido.
Ryu posicionou-se a alguns metros da árvore e preparou seu ataque, seu alvo era o caule da planta, ele concentrou seu cosmo e lançou uma descarga de energia na forma de um grande réptil verde, a técnica denominada Cólera do Dragão. Seu dragão de energia atingiu em cheio o ponto escolhido, partindo a árvore em duas, uma parte que agora estava caída no chão com suas folhas e outra que saía do chão até terminar num caule quebrado.
- Muito bem. Agora é minha vez, escolha uma árvore qualquer.
- Eu escolho aquela. – disse Dragão apontando para a maior árvore de todas que estavam ali.
- OK. Vamos lá. – disse Hayato.
O cavaleiro ficou muito distante de seu alvo, Ryu pensou se seu ataque poderia alcançar a árvore a uma distância daquelas, ele não tirava os olhos de seu professor, não queria perder nenhum movimento, mas estranhamente ele não se mexia, Escorpião estava parado sem fazer um movimento sequer. Em poucos instantes Ryu pôde perceber um leve balançar das folhas da árvore provavelmente era o vento mais uma vez. Então Hayato voltou para o seu lugar anterior.
- Está feito.
- O que? Mas você não fez nada! Eu estive observando, você nem se moveu! A árvore continua de pé!
- Olhe de novo.
Um forte ruído ecoou pela floresta, as raízes da árvore se desprenderam do chão e logo a mesma veio abaixo, levando outras consigo. O jovem não acreditava no que havia presenciado.
- Surpreendente! – exclamou o garoto ao ver o resultado do trabalho de seu mestre.
- Entendeu o que eu falei sobre ser sutil?
Íllias e Aquiles esperavam por Maximus fora da Casa de Sagitário, ambos estavam ansiosos pelas aulas com um dos mais poderosos cavaleiros de Atena desta geração, talvez de muitas gerações. Em pouco tempo o cavaleiro de cabelos negros, olhos penetrantes e expressão rígida juntou-se a eles, sua primeira ordem foi para que se separassem.
- Aquiles, eu quero que se dirija para os fundos da Casa e espere por mim lá e não toque em nenhum dos equipamentos que eu coloquei lá até que eu chegue. Íllias espere aqui enquanto vou buscar alguém que o ajudará com seu treinamento.
- Mas mestre... Não vamos treinar juntos? – Aquiles questionou.
- Vocês podem até lutar juntos em alguma ocasião, mas suas habilidades são diferentes, não posso dar o mesmo treinamento para ambos. Agora faça o que mandei.
Andrômeda caminhou até a parte de trás da Nona Casa e aguardou por seu mestre que continuava a falar com Íllias.
- Olhe Pégaso, já ouvi falar de muitos que vieram antes de você e pelo que ouvi da batalha da Vila Rodório, você é diferente de muitos deles. Você consegue controlar plenamente a capacidade de voar, mas não sabe como usá-la perfeitamente. Por isso chamarei uma amiga para ajuda-lo.
- Uma amiga? Quem? – Íllias perguntou interessado.
-Você verá.
Ele assobiou e esperou por alguns instantes, Pégaso não entendeu que tipo de chamado era aquele, mas esperou ansiosamente. Longos minutos se passaram e ninguém apareceu até que um som muito característico se ouviu e sobre a Casa pousou uma águia, uma ave de grande porte, bela, com penas escuras e um bico tão dourado quanto a armadura de Maximus. O animal repousou no braço de seu dono que parecia estar acostumado com o peso já que seu braço não se moveu um centímetro.
- Íllias, esta é Serenity. Ela será sua instrutora de voo. Espero que aprenda muito com ela. Vocês deverão voar daqui até o Coliseu e voltar, repita isso até superá-la. Acha que consegue?
- Uma águia? Minha instrutora?
- O que? Acha que é muito difícil? Se for eu posso parar o treinamento.
- Não! Eu faço.
- Tudo bem. Boa sorte, você vai precisar. – disse Maximus indo encontrar-se com Aquiles.
Dante não estava muito feliz por ter que treinar com Hikaru, mas ele reconhecia que precisava melhorar suas habilidades e somente alguém mais experiente seria capaz de ensiná-lo como fazer isso. O cavaleiro de Leão havia se tornado um amigo dele depois que ambos voltaram da Zona Cósmica, mas ainda sim Fênix não se sentia a vontade, era como se algo faltasse em sua vida, algo que ele não poderia mais recuperar.
- Preparado para o treino Dante? – Leão perguntou.
- Creio que sim. Derrotei um deus não foi?
- Eu também derrotei, não esqueça. Entretanto isso não significa nada se você sair derrotado também.
- Como assim? Do que está falando?
- Você reconhece este objeto? – disse Hikaru enquanto pegava uma arma quebrada na metade.
Dante reconheceu a espada de Deimos imediatamente, afinal, não fazia muito tempo desde sua luta contra o deus do pânico.
- Quando encontrei você na ponte do arco-íris, esta espada estava perfurando seu abdômen. Em circunstancias normais você estaria morto.
- Como? Eu não me lembro de ser atingido por Deimos.
- Mas você foi atingido em cheio garoto.
- Se isso é verdade, então como posso estar vivo?
- Sua constelação. Cada uma das oitenta e oito constelações protetoras dá habilidades distintas aqueles que elas escolhem, alguns recebem força fora do comum, outros podem voar, existem aqueles que controlam os elementos, muitos são mestres em criar substancias e situações para atingir seus inimigos e existe você: o guerreiro imortal.
- Imortal? Eu?
- Creio que já tenha ouvido falar sobre a história da Fênix. Ela não é apenas um pássaro de fogo, é um símbolo de imortalidade. Uma ave como essa pode viver por muitos e muitos anos, enquanto durar sua chama de vida, até que em certo momento seu fogo se acaba e seu corpo é consumido, sobrando apenas as cinzas. Então, surpreendentemente, das mesmas cinzas que restaram, surge uma nova Fênix, totalmente restaurada. Assim é com você, mesmo que morra, sua constelação irá protegê-lo fazendo-o voltar à vida. Acredito que por estar na Zona Cósmica, seus poderes foram ampliados e você não foi mandado para o Submundo, mas se estiver nessa dimensão e morrer, prepare-se para entrar no território de Hades, deus dos mortos. Por isso, vou treiná-lo a se defender melhor e não somente sair destruindo tudo o que vê pela frente, porque mesmo podendo voltar do mundo dos mortos, eu garanto que aquele é um lugar onde não vai querer estar.
Hikaru lançou a espada o mais longe possível, a lamina entrou no solo e ficou presa no chão daquele campo aberto onde haviam decidido treinar. Seu aluno observava-o atentamente esperando que ele desse alguma ordem.
- Quero que se defenda de meus ataques. Entendeu?
- Quer que o q...?!
Dante mal acabava de falar e Leão já estava desferindo golpes contra o jovem, seus socos eram tão velozes que Dante não conseguia acompanhar, ele apenas esquivava dos ataques que podia usando seus reflexos, mas não era o suficiente. Em poucos minutos ele estava no chão, sentindo dor em vários pontos de seu corpo e sem forças para sequer erguer-se do solo. Por outro lado Hikaru mantinha-se de pé, sem aparentar cansaço e sem uma única gota de suor em seu rosto.
- Seus reflexos são bons Dante, porém em algumas situações é preciso antecipar os movimentos do inimigo, algo que você ainda não é capaz de fazer. Volte amanha e continuaremos com o treinamento.
Magnus havia escolhido uma região bem calma para realizar o treinamento de Cleon, algumas árvores em volta, uma leve brisa que percorria todo o lugar e um rio que não possuía uma correnteza muito forte, mas ainda sim era o principal elemento de treino. Cisne estava impaciente com a tranquilidade de seu mestre que permanecia deitado sob a sombra de uma árvore.
- E então, vamos treinar ou você vai ficar dormindo?
- Quero que entre no rio.
- O que? Entrar no rio? Onde isso vai ajudar no treino?
- Faça o que eu mandei.
O jovem cavaleiro dirigiu-se para o riacho que corria próximo e entrou nele, a água corria vagorosamente assim como era seu professor, os poucos peixes que haviam ali pareceram não se assustar com a presença daquele intruso.
- Pronto e agora? Quer que eu pesque alguma coisa?
- Até que não seria ruim, mas não. Sua missão é congelar este rio.
- Este riozinho? Vai ser moleza, espero que a próxima tarefa seja mais fácil.
Cleon preparou-se para lançar sua técnica nas águas, mas foi interrompido por um som estranho, sob seus pés ele sentiu algum tipo de vibração e até os peixes sentiram-se incomodados com algo que estava vindo. Uma forte enxurrada desceu o rio e atingiu Cisne em cheio, em poucos instantes aquele rio calmo transformou-se em um rio caudaloso com uma forte correnteza, o jovem tinha dificuldades até para manter-se de pé. Ele conseguiu observar por alguns instantes que seu instrutor possuía um pequeno brilho azulado em uma das mãos, era Magnus quem estava controlando a água do rio, ele era o responsável pela repentina mudança da correnteza, enquanto afundava, o garoto conseguiu ouvir a voz de seu mestre:
- Seja rápido meu rapaz ou morrerá afogado.
O jovem cavaleiro estava ficando desesperado com a situação, a cada segundo a água cobria-o mais e mais, seu corpo já estava quase tocando o fundo do rio, ele não conseguia reunir seu cosmo e algo lhe dizia que se ele se afogasse seu mestre não faria o menor esforço para resgatá-lo, sua preguiça era tão grande que ele era capaz de deixar seu aluno morrer. Cleon já estava submerso por um bom tempo, seus sentidos estavam sumindo, sua mente trabalhava mal, então ele esqueceu-se de tudo ao seu redor, parou de pensar naquela situação em que se encontrava e começou a sentir paz, uma paz enorme surgiu em seu coração e de repente veio o frio, um frio contagiante que alcançou todo o corpo daquele rapaz no fundo do rio.
Fale com o autor