Canção Da Morte
8 Capítulo 8 - Ressurgindo das cinzas
Dois dias no inferno. Dante não aguentava mais procurar por uma saída e não encontrá-la. Um labirinto não é um lugar muito agradável para se estar, muito menos quando dentro dele vive uma criatura metade homem e metade touro querendo te matar. Fugir parecia uma tarefa quase impossível, já que ele havia procurado um modo de escapar e não tinha obtido sucesso. Lutar seria uma opção, mas seu último encontro com o Minotauro havia deixado marcas, ou melhor, havia deixado um buraco em sua perna, feito pelo chifre de seu inimigo mitológico.
Deimos havia jogado-o ali para testá-lo, queria ver se ele podia suportar uma situação de pânico. Uma situação onde não há opções e você é obrigado a pensar rápido para não acabar morto. Ele achava o teste difícil só pela parte do labirinto, pois a sensação de ficar preso em algum lugar é algo excruciante para quem esteve sempre em liberdade, mas, além disso, ainda foi acrescentado um monstro que mata por diversão.
Ele andava pelos corredores do lugar encostando-se a parede para que não caísse no chão devido a fadiga, sua perna sangrava e doía, dificultando ainda mais sua caminhada. Ao longe se ouviam os gritos do Minotauro ecoarem por todo o labirinto, um lugar que aquele ser conhecia melhor que Dante, o que lhe dava uma vantagem enorme sobre o jovem.
Ao entrar em um dos corredores, Dante encontrou uma mulher debruçada no chão, ao seu lado o sangue escorria, formando uma longa linha vermelha que ia até a parede oposta. O garoto aproximou-se dela para tentar prestar algum socorro, porém ao reconhecê-la era ele quem precisava de auxílio.
Sua mãe estava muito ferida e pelo que aparentava não iria resistir muito tempo. Dante tentou acordá-la e depois de alguns segundos ela despertou. A visão de seu filho era um colírio para seus olhos, um alívio para todo o sofrimento e dor que lhe foram impostos.
- Dante, que bom te ver meu querido – falou com a voz num tom bem fraco.
- Por favor, mãe. Não se esforce. Eu vou tirar você daqui, vai ficar tudo bem. – As lágrimas já corriam pelo rosto do rapaz.
- Eu o avisei, eu sabia que os dois estavam vindo. Eu senti filho, eu percebi a aproximação de ambos. – ela tentava explicar para o filho.
- Sabia o que mãe? Quem você avisou? Eu não estou entendendo. – Dante não sabia do que se tratava aquele assunto.
- Eu tentei impedi-los, porém eles foram mais fortes. Meu cosmo não foi o suficiente. – sua mãe continuava a falar.
- Por favor, mãe, não faça mais esforço. Tente repousar. – o jovem insistia.
- Filho, lembre-se de uma coisa: o hospedeiro é sempre mais forte. Ele pode reverter a dominação. – Ela disse em seu último suspiro.
Em seus braços, Dante segurava um corpo sem vida, o corpo daquela que havia lhe dado a vida, que havia permitido que ele vivesse até aquele momento. Sua mente não trabalhava direito, seu coração estava acelerado, porém procurou uma solução para aquilo. Pensou que podia ser mais uma das ilusões de Deimos, já que o deus do pânico tinha o costume de criar situações para fazer suas vítimas ficarem desesperadas. Era isso, só podia ser uma ilusão. Deitou o corpo de sua mãe no chão e olhou para cima, as altas paredes do labirinto cresciam paralelas sobre ele.
- Eu não vou acreditar nessa sua mentira Deimos! Ouviu? Eu não vou cair nessa ilusão seu maldito! Eu sei que minha mãe está viva! – gritou para que o seu inimigo pudesse ouvi-lo até no mais distante ponto do labirinto.
- Não é uma ilusão, garoto idiota! – uma voz falou de trás dele, uma voz já conhecida. – Sua mãe está realmente morta e em breve você estará também. – falou Deimos, que havia surgido do nada.
- O quê? Por que você fez isso? Ela não estava envolvida nessa guerra. – Dante não se conformava com a morte de sua mãe.
- Pelo contrário moleque, ela fazia parte dessa guerra. Ela conseguiu sentir que eu e Fobos estávamos vindo para essa dimensão e ainda teve a audácia de tentar nos impedir. – o deus explicou.
Nesse momento o monstro entrou no mesmo corredor em que estavam e agora Dante estava cercado por Deimos a sua frente e o Minotauro atrás de si. Sabia que não teria forças para lutar contra os dois juntos. O Minotauro deu alguns passos a frente, o garoto olhou para o corpo de sua mãe, deitado no chão. Não podia permitir que sua morte não fosse vingada. Uma raiva imensa começou a surgir dentro dele, um sentimento que parecia lhe dar uma força extra. Seu cosmo elevou-se cada vez mais, suas mãos já estavam em chamas quando ele se dirigiu a Deimos:
- Mande-o embora ou eu o matarei. – Dante foi sério em sua fala.
- Não creio que seja capaz. Se você tivesse capacidade para matá-lo já o teria feito, visto que não o fez, é sinal de que é incapaz. – o deus respondeu. – De qualquer forma, não estarei aqui para ver a morte de ninguém, voltarei para a Terra e terminarei minha missão. – disse enquanto voava cada vez mais alto, deixando-os sozinhos novamente.
A criatura correu na direção do jovem, sua alta velocidade e sua grande força já não eram desconhecidas para Dante, que mesmo assim não se moveu e aguardou que seu adversário chegasse. Quando sentiu que ele estava bem próximo, virou-se e perfurou seu corpo com a mão esquerda, que ainda estava em chamas. O Minotauro soltou um grito de dor e logo em seguida caiu morto.
Dante corria por mais e mais corredores tentando achar uma saída daquele lugar, agora que o Minotauro estava morto poderia cumprir essa tarefa com uma maior facilidade. Sua perna continuava doendo, mas sua raiva superava toda dor. Havia perdido a única pessoa que era importante para ele, não havia conhecido seu pai, portanto, sua mãe era tudo que tinha, e agora ela estava morta. Se existia alguma chance de se vingar, mesmo que mínima, ele iria aproveitá-la.
Enquanto corria pelo labirinto ele se deparava com esqueletos espalhados por vários lugares, provavelmente de outros que estiveram presos ali antes dele, porém não conseguiram sobreviver. Via também ratos e baratas correndo de um lado para o outro, em confusão. Mas ao entrar em um dos corredores algo lhe chamou a atenção. Uma grande caixa metálica estava no caminho. A caixa se parecia muito com aquelas mochilas quadradas que os outros Cavaleiros carregavam. Ele se aproximou e viu que era uma daquelas caixas, perdida no labirinto.
Em suas laterais havia gravuras, como em todas as outras, mas a gravura desta representava um pássaro voando, não um pássaro qualquer, era um com penas de fogo. Uma ave gigantesca, assustadora e completamente coberta de chamas. Dante abriu a caixa e tirou a armadura de dentro dela, ao vesti-la pode sentir o poder fluindo por seu corpo com uma intensidade muito grande. Seu ferimento foi curado, sua dor já não existia mais, sua mente só pensava em uma coisa: vingança. Tinha que encontrar Deimos e matá-lo. Agora sim tinha uma chance de ser vitorioso e nem mesmo o deus do pânico seria forte o suficiente para deter o mais novo Cavaleiro de Athena: Dante de Fênix.
Ele reuniu seu cosmo sob seus pés, agachou-se levemente e deixou o poder fluir para o chão abaixo dele. Uma explosão impulsionou para cima e em instantes estava voando, voando como um pássaro. Ele sabia que não fazia muito tempo que o deus havia saído do labirinto, então não deveria estar muito distante. O cavaleiro olhou ao redor e viu uma silhueta indo para o norte com grande velocidade, não hesitou e voou naquela direção, o labirinto já estava a dezenas de metros de distância e agora um grande mar se abria logo abaixo, as águas passavam diante de seus olhos rapidamente, mas ele não reparava muito na paisagem. Tinha um alvo fixo, um alvo que cada vez mais se aproximava, a forma de Deimos foi ficando cada vez mais nítida, até que Dante pudesse reconhecê-lo claramente.
Finalmente seu alvo estava ao seu alcance e a luta que ele tanto aguardava teria início. Fênix não tinha ideia de como derrotaria um deus, mas estava certo de que usaria todo seu poder para fazê-lo, não se importava com o custo que isso teria, já que tudo que considerava mais importante ele já havia perdido. Tentou atacar Deimos enquanto se aproximava, mas o deus sentiu sua presença e esquivou-se, fazendo Dante golpear o ar e passar alguns metros do ponto onde Deimos estava anteriormente; o cavaleiro virou-se e encarou seu inimigo com raiva no olhar.
Deimos não era muito alto, sua altura estava próxima de um metro e sessenta e cinco centímetros. Seus cabelos possuíam um tom púrpura, semelhante ao de seu irmão Fobos, porém mais escuro. Seus olhos tinham uma expressão de superioridade, como se tudo tivesse que se submeter a sua vontade. Ele vestia uma armadura prateada que refletia intensamente a luz solar. Não estava carregando espada nem escudo, mas Dante sabia que, se quisesse, Deimos teria qualquer arma a sua disposição. Seu cosmo era extraordinariamente poderoso, tão poderoso que poderia ser sentido com uma grande intensidade mesmo a quilômetros de distancia. Depois de ver que o jovem cavaleiro estava vivo, o deus o parabenizou:
- Parabéns! Você é o primeiro que consegue sair vivo daquele lugar. Vejo que encontrou a armadura de Fênix, espero que faça bom uso dela. – Ele disse.
- E farei, vou usá-la para me ajudar a matá-lo, seu maldito! – Dante respondeu.
- Não pode me derrotar, garoto. Eu sou um deus, sou muito mais poderoso do que você. Fuja, enquanto tem tempo para isso. — Deimos advertiu.
- Vou te avisar uma coisa, seu desgraçado: talvez você não saiba, mas poder é uma coisa manipulável. Cada um controla o poder que tem, fazendo aumentar, diminuir ou até mesmo transferi-lo para alguém. E não vou permitir que você ou qualquer outro me diga que tenho pouco poder. Você se acha poderoso? Eu vou te mostrar o que é poder! – Fênix desafiou seu oponente.
Logo que terminou de falar, Dante investiu contra o deus do pânico e desferiu uma série de golpes contra ele, Deimos procurava se esquivar, mas seu adversário era realmente rápido, alguns dos ataques estavam atingindo-o e causando um dano aparente em sua armadura. Em dado momento, quando o rapaz tentou acertá-lo com um chute, sua perna foi segurada pela forte mão do inimigo, que o girou seguidas vezes no ar e o lançou para cima. Enquanto Dante subia, o deus atacou-o com socos no rosto e um chute no abdômen. Quando o cavaleiro se abaixou por causa da dor na região golpeada, nesse momento Deimos tentou atingi-lo com as mãos unidas, fazendo um movimento parecido com o de um machado.
Entretanto, não foi bem sucedido, porque antes de receber o impacto, o rapaz já havia desaparecido no ar. O deus virou-se para tentar encontrá-lo, mas ao se virar, seu rosto foi atingido por um labareda de fogo que o fez se afastar. Dante estava de pé, sangue saía de sua boca, sua expressão era de dor, mas ele permanecia resistindo. Seu desejo por vingança era maior que qualquer dor que poderia sentir.
- Moleque insolente! Vou matá-lo por isso. – Deimos gritou, fazendo com que surgisse uma espada em suas mãos.
Ele atacou novamente, desta vez com sua arma em punho. Dante tentava fugir o mais rápido que podia, pois a lâmina afiada daquela espada seria fatal se o atingisse. Muitas vezes teve que aparar os golpes com as mãos, felizmente a armadura de Fênix protegia-as também. Porém não tanto quanto era necessário e rapidamente as palmas de suas mãos estavam vermelhas de sangue. Até que Deimos tentou acertá-lo movendo a espada de cima para baixo, mas o jovem foi inteligente e prendeu a espada entre sua mãos, usando muita força para impedi-la de continuar seu trajeto, direto para a sua cabeça. Dante não estava resistindo muito mais, então deixou que o poder da Fênix tomasse conta de seu corpo, ele já tinha ouvido Ichiro de Áries dizer que as armaduras possuem memórias de outras guerras, elas podem tomar o controle numa batalha, controlando o corpo do usuário e intensificando seu poder. Mas era preciso ter cuidado para não perder o controle de sua própria mente e sucumbir ao poder contido nas armaduras. Sua mente relaxou e uma nova identidade tomou conta, uma identidade mesclada de várias outras, vários outros rapazes que haviam usado aquela armadura, tudo que eles tinham estava sendo mostrado a Dante: suas lembranças, suas habilidades e seu poder. Desde a primeira Guerra Santa até a última, quando um adolescente chamado Ikki lutou com esta vestimenta.
As mãos do cavaleiro começaram a pegar fogo, e foram ficando cada vez mais quentes, até que as chamas afetaram o metal da espada de tal modo que ele foi perdendo sua solidez. O rapaz fez um simples movimento e quebrou a espada em duas. Deimos afastou-se com um olhar de surpresa pela façanha que o inimigo acabara de fazer, nunca nenhuma de suas armas havia sido inutilizada.
- Esta luta acaba agora. – Disse Fênix.
Ele começou a fazer uns movimentos parecidos com o bater de asas de uma ave, a cada movimento feito as chamas cresciam mais e mais ao redor dele, até que seu corpo ficou completamente envolto pelo fogo.
- Ave Fênix! – gritou o cavaleiro enquanto voava na direção de Deimos e sua mão perfurava a armadura e o coração do deus.
O corpo do inimigo havia perdido a coloração, seu rosto estava totalmente pálido, o jovem retirou a mão de seu coração e deixou que ele caísse em direção ao mar que estava logo abaixo. Porém, enquanto o deus caía, Dante percebeu que todo aquele ambiente era uma das ilusões criadas por Deimos. O céu onde antes brilhava o sol, agora estava ficando escuro e coberto por um tapete de estrelas, uma infinita quantidade de estrelas estava surgindo, não apenas acima dele, mas em todo lugar.
O mar onde o deus caiu, agora já não existia mais, tudo estava desmoronando.
O universo se estendia para o infinito, numa mistura de planetas, estrelas, supernovas, meteoros e todos os outros tipos de corpos celestes. A imensidão que se apresentava era algo incrível demais, totalmente sem precedentes. Dante havia recobrado sua consciência por completo, todo o controle estava novamente em suas mãos, as memórias dos antigos guerreiros ainda não tinham ido embora e ao acessá-las, o rapaz viu que ele era o único entre todos os cavaleiros de Fênix que havia estado naquele lugar, alguns haviam passado por ali, mas não permaneceram mais que alguns segundos, ele era o único que teve a oportunidade de contemplar o espaço. De alguma forma seu corpo não foi reduzido a pó, não foi esmagado, nem sofreu qualquer dano, ele não conseguia perceber como isso poderia estar acontecendo, até que lembrou-se de sua armadura, o artefato mais poderoso que carregava, a vestimenta que tinha a função de protegê-lo de qualquer perigo, realmente estava cumprindo seu objetivo.
O cansaço começou a tomar conta dele, a batalha contra Deimos havia desgastado-o muito, deixar seu corpo ser controlado significava lutar sem preocupar-se com sua saúde, sem medo, sem dor, todavia, essa atitude possuía um custo: sua vitalidade era sugada de forma exponencial e seu cosmo reduzia-se a quase nada. Mas ele estava bem, afinal, a missão de vingar sua mãe estava cumprida. Porém a promessa que havia feito a si mesmo de tornar-se o mais poderoso lutador estava longe de se concluir.
Dante olhou para baixo de seus pés e viu algo realmente estranho: uma ponte atravessava o espaço, como se estivesse conectando um lado do universo a outro. A ponte parecia estar muito longe de onde ele estava, mesmo assim ele conseguiu observar o chão daquela estranha construção. As cores que faziam parte do solo da ponte eram semelhantes as cores do arco-íris, porém bastante misturadas entre si.
- A ponte do arco-íris. – Disse lembrando que já tinha ouvido sobre isso em algum momento de sua vida, talvez em uma das histórias de sua mãe.
Não resistiu ao cansaço e desmaiou, o sorriso em seu rosto permaneceu mesmo depois de inconsciente. O sentimento de satisfação ultrapassava as barreiras da mente. Seu corpo caiu em direção a ponte, talvez ela o levasse de volta para casa.
Fale com o autor