Canção Da Morte

24 Capítulo 24 - O Ladrão Dourado


Karen acordou num lugar escuro e úmido, sua cabeça rodava e sua última lembrança clara era da noite na casa do deputado. A noite em que ela reencontrara sua irmã, Karina. A noite em que Abel foi aclamado por todos. A noite em que tudo parecia estar perfeito. Mas como ela sabia, aparências enganam. Assim que ela viu o homem com cabelos e olhos dourados ela sabia que a noite não terminaria bem e logo que Azore entrou no salão através do vidro suas suspeitas foram confirmadas. Tudo aconteceu rápido demais, pessoas morreram, Peixes e sua irmã lutaram, Karina beijou Abel e o chamou de Imperador Hades. Karen lembrava-se da história que Azore contou-lhe e não queria acreditar naquilo, se ela fosse mesmo o corpo escolhido por Athena, então seu destino era matar aquele que ela mais amava nesse mundo. Não era justo. Como Athena que se dizia deusa da Justiça tinha coragem de fazer uma coisa dessas? Karen estava com raiva e levantou-se rapidamente, o lugar onde estava parecia um quarto, mas em alguma localidade bem pobre e bem suja pelas marcas nas paredes, ela moveu as pesadas e empoeiradas cortinas e viu-se dentro do que deveria ser um apartamento a muito tempo atrás, ainda havia mobília no local, objetos que um dia tiveram certa beleza, mas que agora não passavam de lixo. A porta estava trancada bem como as janelas. A geladeira exibia ferrugens na porta e o interior vazio, a tomada estava cortada na metade, o que desanimava Karen ainda mais. O relógio na parede marcava catorze horas e ela sentia fome. Uma goteira no teto pingava sobre o chão onde ela acordara e tudo o que ela mais queria era sair daquele lugar.

– Olá! Tem alguém ai! Alguém pode me ouvir? Socorro! – ela gritava perto da porta na esperança de ser resgatada.

Seus gritos atraíram alguém até o quarto, mas não a ajuda esperada. Pela janela ela viu um homem com uma armadura negra, seu rosto estava coberto por um capacete que lembrava um inseto e de sua armadura saiam quatro tentáculos. O vidro foi quebrado e o espectro de Hades entrou no recinto. Atrás de Karen a porta foi derrubada e outro espectro apareceu. Esse era bem baixo e tinha a armadura lisa, quase como se não existissem juntas nela. Ele agachou-se arqueando suas pernas, como um sapo que se prepara para o salto.

– Veja quem nós encontramos! A deusa que fugiu do castelo de nosso senhor Hades. – disse o primeiro espectro.

– Demoramos muito para encontra-la Athena. Agora seja obediente e venha conosco para o domínio de nosso mestre. – pediu o segundo espectro.

– Quem são vocês? – Karen perguntou. – O que querem de mim? – havia medo em sua voz.

– Eu sou Mario, o espectro de Verme. – falou o homem que entrou pela janela.

– Espectro de Sapo, Zeros. A seu dispor senhora. – falou o outro com uma risada de deboche na voz.

Antes que Karen pudesse ter qualquer reação, os tentáculos de Verme se moveram e enrolaram-se em suas mãos e pés. A tensão era grande demais e ela sentia seus músculos esticando-se conforme era puxada pelo espectro. Sapo por sua vez pulou para a janela e preparou-se para saltar quando foi lançado para trás. Um vento fortíssimo adentrou o quarto e toda a mobília foi arremessada para longe. Sapo caiu próximo da porta ainda se perguntando o que tinha acontecido. Os tentáculos de Verme foram cortados simultaneamente e Karen caiu ao chão, vendo que havia sido liberta.

– Azore? – ela perguntou ao vento, ainda procurando por alguma rosa que denunciasse a presença do amigo.

– Hm... Não. Tente outro nome Athena. – respondeu a voz de alguém que estava no quarto, embora não fosse possível vê-lo.

– Hikaru? – ela lembrou-se do nome do cavaleiro de Leão que estava com Peixes no reencontro com sua irmã.

– Sinto muito. Hikaru está um pouco... como posso dizer... morto no momento. – a voz tornou a falar.

– Mostre-se seu maldito! Lute conosco de modo justo! – gritou Sapo que já estava de pé.

– Justo? Hahahahahaha. Espectros pedindo justiça? Vocês merecem apenas a morte e nada mais. Porém atenderei seu pedido, para que se lembrem de quem tirou suas vidas miseráveis. – disse o homem misterioso que continuava a se esconder.

Verme estava no meio do quarto. Sapo estava próximo à porta olhando para todos os lados. Karen estava entre os dois, caída ao chão ainda retirando os tentáculos de Verme que permaneciam em seus braços, os hematomas mostravam a força aplicada pelo espectro. Ela foi a primeira a perceber o homem com armadura dourada surgindo atrás de Verme, ele simplesmente apareceu como se estivesse ali o tempo todo mas não estivesse visível. Ele era alto e forte, seus cabelos rebeldes eram de uma cor púrpura e escuros. Suas mãos pendiam junto ao corpo, entretanto a mão esquerda estava um pouco mais afastada do que a direita. Além da armadura ele também vestia uma capa branca que pendia de seus ombros e um capacete dourado de onde saíam dois chifres pontiagudos. Sapo foi o segundo a ver onde o homem estava, mas antes que pudesse alertar o companheiro a mão esquerda do homem moveu-se alguns centímetros e Verme tombou. Quando seu corpo tocou o chão dividiu-se em duas partes. O assoalho do apartamento tingiu-se de um vermelho vivo e Karen gritou de horror diante daquela cena. Zeros procurou fugir, porém quando se virou para a porta o cavaleiro de ouro já estava lá esperando por ele. Sua mão entrou em seu peito e perfurou seu coração, quando ele retirou o braço o espectro caiu, sem vida. O corpo inerte do homem ficou diante da porta, no seu rosto podia se perceber uma expressão de espanto, de susto.

Karen olhou bem para aquele homem e ficou com medo. Seria esse um dos cavaleiros de Athena? Será que todos eram assassinos tão frios assim? Ela observou bem o rosto do homem e por um momento pareceu reconhecê-lo. Ela sabia quem era aquele homem, de onde ela o conhecia? O cavaleiro evitava olha-la face a face, seu olhar era apreensivo como se quisesse se esconder de todo o mundo. De repente, num instante, Karen se lembrou de onde o conhecia e seu medo só fez aumentar. Aquele homem se chamava Kenshi e era conhecido por todos como “O ladrão dourado”. Ele era um grande assaltante que roubava bancos, joalherias e todo tipo de negócio lucrativo, mas sempre que saía dos lugares deixava uma moeda dourada como sinal de sua passagem pelo local. Aquela era sua marca registrada, uma maneira de dizer ao mundo quem era o responsável por tais crimes. E agora, um criminoso tão famoso como esse estava de posse de uma das armaduras de ouro. Quais eram suas intenções em usar aquela vestimenta sagrada? Karen sentiu-se muito insegura perto daquele homem. Kenshi voltou-se para ela e segurou seu braço.

– Athena, me escute, nós precisamos sair daqui. Venha comigo e eu te levarei para um lugar seguro.

– Não! Eu não vou com você! Você é um criminoso! Onde está Azore?

– O cavaleiro de Peixes está no Santuário comandando tropas para procurar por você. Os outros estão espalhados por todo o planeta lutando por suas vidas e pelas vidas da humanidade. Você tem que vir comigo, ele está esperando por você.

– Ele? Ele quem? Abel? Ele está esperando por mim? – Karen quase não podia acreditar, Abel estava mesmo esperando por ela são e salvo?

– O futuro Athena, ele espera por você. E tenho certeza que todos nós precisamos de você se quisermos ter um futuro. Agora vamos! – Kenshi colocou-a em seus ombros e dirigiu-se para a porta. Ela tentou lutar, mas foi inútil, não poderia vencer um cavaleiro de ouro, ainda mais um tão mal como esse.

Ao olhar para o quarto antes de saírem Karen viu o espectro de verme se movendo. Seria possível? Ela tinha o visto ser morto por Kenshi. O espectro moveu-se e olhou para o cavaleiro de ouro, sua careta de dor era horrorosa.

– Meu mestre vai encontra-la! Não importa onde se esconda, meu mestre vai acha-la e faze-la sofrer! Ouviu bem cavaleiro? Não há para onde fugir! Meu senhor vai perseguir todos vocês!

– Ótimo! – disse Kenshi para o espectro. – Diga ao seu mestre que estaremos esperando por ele no Santuário da Grécia. Diga que quando ele chegar deve procurar pelo cavaleiro de ouro mais poderoso dentre os doze. Diga que ele será morto pelas mãos de Kenshi de Capricórnio!

Ambos saíram pelo corredor, Sapo ainda estava caído no chão morto, mas assim que Kenshi passou por ele, Karen viu que ele estava se movendo também. Assim que alcançaram a porta do saguão principal, o cavaleiro dourado começou a correr, sua velocidade era assustadoramente incrível. Nem mesmo Azore é tão rápido, pensou Karen. Será que Kenshi estava dizendo a verdade? Ele iria leva-la mesmo para o Santuário? O Santuário não era um lugar qualquer, possuía defesas poderosíssimas contra qualquer invasor, segundo o que Azore havia contado. Mas ela sabia que para um ladrão tão bom quanto Kenshi, a maior dificuldade não era em entrar numa fortaleza e sim sair dela, de preferencia com vida.