Canção Da Morte
25 Capítulo 25 - Canção da Morte
Azore estava feliz. Mais que isso. Ele estava radiante. Primeiro Hikaru havia ressuscitado. Dias atrás uma pequena esfera de luz adentrou a quinta casa durante o amanhecer. Do pátio da casa de Peixes ele conseguia ver tudo o que se passava no Santuário e ele viu quando incontáveis raios de luz solar fugiram para fora da Casa de Leão. A alma de Hikaru estava de volta a seu corpo, os relâmpagos de plasma voaram por todo o céu e mesmo ao longe foi possível ouvir o rugido de um leão. Hikaru estava de volta.
Mas sua felicidade não parou por aí. Pouco mais de uma semana depois um homem entrou no Santuário. Um cavaleiro de ouro que nunca fora visto por ninguém. Sua capa branca balançava enquanto ele andava, sua armadura reluzia sob a luz do luar, seu elmo cobria apenas parte de sua face, seus cabelos de um tom púrpura escuro eram longos, um palmo abaixo dos ombros, talvez dois. Os chifres de seu elmo eram pontiagudos e brilhantes. Mas o que mais impressionou o cavaleiro de Peixes e a todos os outros era o que aquele homem trazia consigo. Em seus braços, parecendo dormir tranquilamente, estava Karen. Ou melhor, Athena. Depois de tantos esforços para encontra-la, ela estava entrando no Santuário, dormindo calmamente nos braços de um cavaleiro de ouro que dava passos lentos para não perturbar o sono da menina. Pela primeira vez Azore olhava para ela e via o que ela realmente era. Não era uma deusa de épocas antigas. Não era uma lutadora excepcional. Não era a senhora da sabedoria e da guerra justa. Era apenas uma menina. Uma doce e linda menina que já devia ter sofrido muito em sua curta vida. Azore sentiu-se mal por saber que aquela jovem criança teria que assumir a responsabilidade de salvar toda a humanidade. Era algo difícil demais para alguém aguentar. Talvez nem o Grande Mestre fosse capaz de suportar tal peso sobre seus ombros.
Agora estavam reunidos. Todos eles. O Salão do Grande Mestre estava, pela primeira vez nesta Guerra Santa, ocupado por todos os cavaleiros de ouro. Duas filas se formavam diante do trono onde o patriarca estava sentado. Virados de frente um para o outro, os cavaleiros se olhavam com desconfiança. Do lado esquerdo do trono estavam perfilados seis cavaleiros: Ichiro de Áries, Aldebaran de Touro, Leônidas de Gêmeos, Aoshi de Câncer, Hikaru de Leão e Ryoji de Virgem. Diante deles estavam os outros seis: Nero de Libra, Hayato de Escorpião, Maximus de Sagitário, Kenshi de Capricórnio, Magnus de Aquário e Azore de Peixes.
Ichiro e Maximus se encaravam, tentando intimidar um ao outro , na esperança de que o outro desistisse de ser o “líder” dos doze, para que o vencedor pudesse assumir o comando. Azore mantinha os olhos no alto do salão, onde ao lado do trono do mestre estava uma cadeira de onde Kida assistia tudo com um olhar que era um misto de curiosidade e preocupação. Magnus tinha os olhos quase fechados, como se quisesse dormir. Talvez já estivesse dormindo. Nero evitava olhar para frente, o medo de Ryoji ainda estava com ele e a tranquilidade do cavaleiro de Virgem era estranha demais para ele. Ryoji por sua vez mantinha os olhos fechados, o que não significava que ele não estivesse vendo tudo o que acontecia. Todos os outros mantinham seus olhos no Grande Mestre, esperando por suas palavras.
– Muito bem! Estou feliz por ter todos vocês aqui! É incrivelmente complicado, em tempos como esse, reunir os doze cavaleiros dourados. Vocês são a elite do Santuário, os mais poderosos cavaleiros de Athena. Nossa vitória nessa batalha depende grandemente de vocês doze. Kenshi aproxime-se!
O cavaleiro de Capricórnio saiu da formação e caminhou em direção ao patriarca. Ele se ajoelhou sobre um joelho e olhou para a máscara e para o elmo que o homem usava.
– Você é conhecido como um grande ladrão. Seus atos criminosos são famosos internacionalmente. Creio que você se apossou dessa armadura de maneira indevida. Mas você encontrou Athena e a trouxe até nós. Algo que nós não tínhamos sequer ideia de como fazer. Responda-me: Porque fez todas essas coisas?
– Anos atrás eu estava na Grécia. Um cliente havia me contratado para realizar um roubo para ele. Não era um trabalho difícil. Mas enquanto eu passava pelas redondezas, eu senti um poder estranho. Um poder muito forte que me chamava, me pedia para ir ao seu encontro. Eu já havia despertado meu cosmo naquela época e usava meus poderes para melhorar minhas habilidades como ladrão. A velocidade era a principal delas, posso afirmar sem dúvida que sou o mais rápido destes doze que estão aqui. – essa fala arrancou risadas de Hikaru e de Aoshi. Kenshi não se importou e continuou. – Eu subi a montanha e encontrei este Santuário. Não foi difícil entrar. Eu subi todas as escadas muito rapidamente, o poder que me chamava vinha da décima das casas. A Casa de Capricórnio. Eu entrei e encontrei que poder era aquele. A armadura dourada era o que estava me atraindo para ali. Eu toquei nela e descobri a verdade. Era meu destino vesti-la, dominar seu poder. Ela havia me escolhido. Assim que vesti a armadura eu fugi. Enquanto estava na Vila Rodório eu senti uma energia parecida com a da minha armadura. Eu vi um homem, um cavaleiro de ouro subindo a montanha sozinho. Eu não conhecia aquele homem, mas hoje posso afirmar sem dúvida que ele era você Ichiro. – ele disse se virando para o cavaleiro de Áries.
– Então, quando eu voltei daquela missão. A energia que eu senti saindo do Santuário era você? – Ichiro parecia surpreso.
– Sim. Nos anos que sucederam eu conheci cada vez mais a armadura e a história dos homens que a vestiram antes de mim. Conheci as técnicas e poderes, conheci as fraquezas e tudo o que pude sobre a Guerra Santa, sobre Hades e sobre Athena. – ele olhou para Karen. – A armadura me dizia aonde ir e o que fazer. Foi assim que invadi a casa de Pandora para descobrir a localização do castelo de Hades, só não contava com a presença de um espectro e de três cavaleiros lá no mesmo momento que eu.
– Aquele vento... Aquela silhueta amarela correndo pela rua... Você estava lá! Porque não se apresentou? Porque não nos ajudou? – Nero gritou com o homem.
– Porque, por ser um antigo ladrão, eu sabia que vocês não me aceitariam e me olhariam da mesma maneira que estão olhando agora. Não é Sagitário? – Maximus não respondeu, mas continuava a fitar o novo cavaleiro.
– Eu fui até o castelo e não encontrei Athena por lá. Nem mesmo o hospedeiro de Hades estava naquele lugar. Felizmente eu consegui ouvir parte de uma conversa entre Pandora e Hypnos. Hypnos repreendeu Pandora por ter deixado a irmã na Zona Cósmica e ela respondeu que a menina não seria um perigo naquele lugar. Acredito que eles não tivessem certeza de que ela era mesmo a hospedeira de Athena, se tivessem já a teriam matado. – Karen arregalou os olhos, ela não acreditava que Karina seria capaz de mata-la, embora a irmã já tivesse tentado antes. – Então eu abri uma fenda para a Zona Cósmica e procurei por ela. Salvei-a antes que caísse no rio dos mortos, se o barco do deus sol passasse por ela, não seria possível salva-la. Eu trouxe-a de volta para esse mundo e deixei-a num hotel barato, um lugar que não levantaria suspeitas, mas ela começou a gritar e atraiu dois espectros, felizmente eu cheguei a tempo e consegui derrotar ambos. Depois disso eu a trouxe para cá.
– Você fez bem. – disse o velho depois de ouvir atentamente. – Agora, o que me intriga é: podemos depositar nossa confiança em você? Alguém que invadiu nosso Santuário, roubou uma das armaduras e agiu pelas nossas costas? Ou será que devo mandar um dos outros cavaleiros acabar com sua vida para evitar transtornos no futuro? – a voz do homem era firme, se ele entendesse que a morte de Kenshi traria o menor benefício possível com certeza não hesitaria em fazê-lo.
– Senhor, sinceramente, eu não conseguiria trair Athena nem mesmo se tivesse vontade. Essa armadura exerce uma grande e poderosa influencia sobre mim. Desde que eu a vesti, tudo o que eu anseio fazer é proteger Athena e conseguir minha redenção. Eu sou leal a ela de corpo e alma. – Kenshi disse. Kida olhou para ele com espanto, estaria ele sendo mesmo sincero?
– Ótimo! – disse por fim o Patriarca. – Seja bem-vindo então. Retorne ao seu lugar. – Kenshi obedeceu e voltou ao seu lugar na fila. – Agora, Ryoji, que informações você traz para mim?
O cavaleiro de Virgem permaneceu imóvel, seus olhos fechados e sua expressão séria. Todos olharam na direção dele, esperando alguma reação, mas o homem sequer respirava.
– Ryoji? Consegue me ouvir? – falou o Grande Mestre.
De repente uma luz começou a envolver o cavaleiro dourado. Uma aura dourada cobriu todo o seu corpo. A cada segundo a luz ficava cada vez mais forte e todos os onze cavaleiros e Kida tiveram que fechar os olhos devido a intensidade da luz. E então o brilho começou a diminuir. Foi ficando cada vez mais fraco até que sumiu e a imagem de Ryoji reapareceu diante de todos. Ele abriu os olhos e fitou o rosto de Nero, tão fixamente que causou certo incomodo no cavaleiro de Libra.
Contudo, logo após o brilho se apagar, um tremor muito forte tomou conta do Salão do Grande Mestre. As paredes racharam, pedaços do teto soltaram-se, o chão tremia com força. Mas o tremor não era somente nas superfícies. Quase que imediatamente o ar tornou-se mais pesado, a pressão que estava sendo exercida naquele local era assustadoramente gigantesca. As portas do salão partiram-se em dezenas de pedaços menores, revelando que cinco cavaleiros de bronze estavam do lado de fora, observando e ouvindo tudo o que se passava do lado de dentro. Pégaso, Dragão, Cisne, Andrômeda e Unicórnio foram tão surpreendidos quanto os cavaleiros de ouro. Assim que as portas quebraram, os cinco caíram para dentro e além da pressão e dos tremores um ruído muito alto pode ser ouvido, um som ensurdecedor que fez com que os guerreiros dourados tapassem seus ouvidos, todos menos Ryoji. Ele parecia calmo, sereno, tranquilo. Íllias tapou seus ouvidos e olhou para os companheiros, todos estavam sofrendo com aquele som. Ele também percebeu que os olhos de Zaru exibiam novamente um brilho amarelado.
– Khan! – Ryoji gritou em meio a toda aquela confusão. Sua voz parecia mais um sussurro do que um grito.
E então, tudo parou. Os tremores, a pressão no ar, o ruído. Tudo se acalmou, como se nada daquilo tivesse acontecido. Não havia mais nada que incomodasse nenhum dos presentes. Todos estavam curiosos sobre o que teria causado tudo aquilo.
– Perdoe-me mestre. – Ryoji falou por mim. – Mesmo não estando aqui antes, eu ouvi tudo o que foi dito. Vim até aqui em pessoa somente porque ouvi seu chamado. Infelizmente eu me esqueci dessa ressonância. Deveria ter contado de novo e ter percebido que estamos os doze aqui. Prometo que não se repetirá.
– Está tudo bem Ryoji. Até mesmo eu me esqueço do perigo que é manter todos vocês juntos no mesmo ambiente. Mas agradeço por sua intervenção.
– Esperem, alguém pode me explicar o que houve aqui? – Cleon falou.
– Foi a ressonância. Isso sempre acontece quando as doze armaduras de ouro estão juntas no mesmo local. É um fenômeno causado pela quantidade de poder que todas elas contem. É poder demais para ficar unido, seja por quanto tempo for, por isso que Athena resolveu dividir o poder dado por ela. Nas Eras Antigas, os deuses escolhiam somente uma pessoa para representa-los. – Aldebaran respondeu.
– E isso geralmente era um pouco... Catastrófico. – Aoshi informou.
Íllias ouvia tudo aquilo, mas sua mente estava focada em outra coisa. Quem era aquela linda menina que estava sentada do outro lado do salão? Seria Athena? Íllias não sabia explicar o que estava sentindo, mas ele sabia que queria estar perto dela. Seus olhos não se desviavam por um segundo que fosse, a beleza dela era estonteante, algo jamais visto pelo cavaleiro. Nenhuma das amazonas era tão bela quanto ela.
– Ryoji, eu preciso que você e Kenshi elaborem um plano para invadirmos o Castelo de Hades. Como ambos sabem a localização, eu espero que vocês criem uma estratégia que garanta nosso sucesso e que seja a menos arriscada possível. – Enquanto o Grande Mestre falava, Kizumi de Grou chegou até a porta do salão. Seu rosto parecia apreensivo, mas o velho continuou com sua fala. – Precisamos agir rápido! O quanto antes encontrarmos Hades melhor. Assim terminaremos essa guerra sem muitas baixas.
– Grande Mestre, acho que não teremos tanta dificuldade em encontrar Hades. — disse Kizumi. Sua voz soava preocupada e todos fitaram o olhar nela quando disse isso.
– Porque diz isso Kizumi? – Ichiro perguntou a sobrinha.
– Porque Hades acabou de entrar no Santuário.
Todos se assustaram diante daquela afirmação. Seria possível que o senhor do Submundo tivesse invadido o Santuário de Athena? Um a um os cavaleiros de ouro correram para fora, descendo as escadas em direção ao pátio principal. O último a sair foi Ryoji. Ele parou próximo a porta, próximo a Íllias. Seus olhos estavam abertos e exibiam o mesmo tom castanho de quando haviam se conhecido. O cavaleiro de Pégaso ainda estava caído, um pouco tonto, devido aos efeitos da ressonância. Ryoji se agachou diante de seu discípulo e sorriu para ele.
– Eu sabia que se tornaria um cavaleiro. Estou muito orgulhoso de você. Levante-se, venha comigo. – Ryoji segurou-o pela mão e levantou-o do chão.
– E onde você está indo? Posso saber? – Íllias perguntou em tom de brincadeira.
– Claro! Estou indo salvar o mundo! – ele disse como se fosse algo fácil de fazer. E então ambos desceram as escadas.
O Grande Mestre acompanhou Karen enquanto ela se dirigia para fora do salão. Ryu, Aquiles, Cleon e Zaru olhavam surpresos para aquela que seria a salvadora da humanidade. Ela passou por eles e Zaru se pronunciou:
– Ei princesa, não é seguro ir até lá embaixo. O deus da morte está lá esperando por nós. Será melhor se você esperar aqui, enquanto nós resolvemos isso. – Unicórnio advertiu a jovem.
– Ele não é o deus da morte. – Karen falou com a voz fria e baixa, quase um sussurro. – Ele é meu namorado. E não está esperando por nós. Está esperando por mim. – ela olhou para o cavaleiro com raiva, depois se virou e continuou seu caminho.
Diante daquela afirmação os cavaleiros de bronze ficaram ainda mais assustados. Athena e Hades eram namorados? Como isso iria interferir na Guerra Santa? Será que cavaleiros e espectros deixariam de ser inimigos? Algo estava muito errado naquilo tudo.
– Bom, — Aquiles falou por fim. – eu acho que isso complica um pouco as coisas.
– Como se elas já não estivessem complicadas o suficiente. – Ryu desdenhou. – Vamos lá assistir. Na pior das hipóteses essa vai ser a pior briga de casal da história.
– E eu não perderia por nada! – Cleon acrescentou.
Os doze cavaleiros de ouro estavam parados diante de um jovem de aproximadamente dezenove anos de idade. Um garoto que não parecia representar perigo nenhum, mas que todos sabiam que era o principal algoz da humanidade. Karen não acreditava que ele estava tão próximo, contudo, Abel estava diferente. Seus olhos lacrimejavam e ele segurava seu braço direito como se estivesse quebrado. Karen não percebeu, pela roupa preta que ele vestia, mas Maximus reconheceu que o tecido estava manchado por um pouco de sangue.
Os cavaleiros formavam quatro fileiras que separavam Athena e Hades. Junto de Karen estavam Azore, Aldebaran, Hayato e Leônidas. Logo a frente deles estavam Nero, Aoshi, Magnus e Ichiro. Na linha de frente, logo adiante se colocaram Hikaru, Maximus, Ryoji e Kenshi. O Grande Mestre se posicionou diante de todos, acompanhado por Íllias, Aquiles, Ryu, Cleon e Zaru. As amazonas ficaram escondidas, caso fosse preciso uma ação emergencial, além delas, outros cavaleiros de bronze e alguns de prata também estavam em seus esconderijos.
– Quais são suas intenções aqui Hades? – perguntou o Grande Mestre.
– Hades? Não. Sou eu, Abel. – o rapaz falou com a voz ainda frágil. – Karen! Sou eu! Porque está se escondendo de mim?
Karen ouviu a voz do rapaz. Mesmo passando tanto tempo longe dele, ela ainda sentia algo por ele. Ela se lembrava dos momentos difíceis que havia passado e de que ele sempre estivera lá para ajuda-la. Agora ele estava chamando por ela, e não seria correto deixa-lo sozinho. Ela não poderia fazer algo assim. E então ela saiu detrás dos cavaleiros e correu na direção do seu namorado.
Mas sua corrida não durou mais que alguns passos. Antes que ela pudesse chegar até Abel, todos os doze cavaleiros já estavam cercando-a novamente. Seus movimentos eram extremamente rápidos, ela não conseguiria alcançar Abel nem se quisesse, e como ela queria.
– Não vá com ele. – Azore disse para Karen. – Eu sei que você pensa que ele é o mesmo rapaz que você conheceu, mas não é. Aquele é o imperador do Submundo, alguém que tem somente ódio em seu coração. Alguém que não hesitaria em matar nenhum de nós. Aliás, creio que seja por isso que ele está aqui. Não é Hades? Veio aqui para nos matar não foi maldito? Saiba que mesmo mortos, Athena nunca sairá deste lugar! – ele gritou para que Abel ouvisse.
– Karen, qual sua decisão? – Abel perguntou. – Você não vai mesmo vir comigo? – seus olhos olhavam-na com apreensão, como se implorasse por sua companhia.
– Abel, porque você não fica aqui comigo? Não precisamos sair daqui, fique e esperaremos essa guerra terminar. Nós podemos ficar aqui no Santuário. Fique por favor.
– Então é essa a sua escolha? Você quer permanecer aqui? Está escolhendo a eles ao invés de a mim? – sua voz parecia alterada, seu tom de voz estava bem mais grave do que o normal. Havia raiva em seu modo de falar. – Pois bem, este será seu maior erro Athena.
Kenshi percebeu a alteração no cosmo do garoto, ele correu até Karen e pegou-a em seus braços, mais rápido que qualquer um ele levou-a até o Templo de Athena e ordenou que ela esperasse ali. Alguns segundos depois Azore e Aoshi entraram no Templo. Ambos ficaram com a missão de vigiar a deusa e Capricórnio voltou para o pátio principal, onde um rapaz totalmente diferente se colocava diante do Grande Mestre.
Os cabelos de Abel que eram curtos e brancos, agora estavam negros e muito longos. Seu olhar exibia ódio e suas lágrimas já tinham desaparecido. A pressão no ar era tão grande que o cavaleiro de Capricórnio já não conseguia se mover tão rapidamente. Contudo, ele conseguiu se aproximar o suficiente para ouvir as palavras de Hades.
– Essa guerra já está decidida velho. Você sabe que eu sou muito mais poderoso que vocês. Sabe que não pode me derrotar. Você e eu já nos enfrentamos uma vez, porém agora eu estou muito mais poderoso. Você consegue perceber isto. Portanto, serei generoso e lhes darei mortes rápidas. Isso se desistirem de toda essa luta e se renderem. Do contrário, sofrerão as consequências como todos os outros. O que me diz?
– Nós já o derrotamos uma vez, vamos derrota-lo novamente. Não vamos desistir e nem nos render enquanto não separarmos seu corpo e sua cabeça seu desgraçado. – o velho respondeu.
– Hm... Que proposta interessante. Então vamos tornar este jogo um pouco mais justo. Eu prometo que não ressuscitarei mais meus espectros. Faço uma promessa pelo meu nome, pelo nome de Zeus, Poseidon e todos os outros deuses. Prometo pelo Olimpo, pelos Elíseos e Asfódelos, prometo pelo rio que corre no Submundo, não usarei mais meus poderes sobre a morte para ressuscitar meus espectros. Com isso vocês ainda tem certa desvantagem numérica, mas não é nada que não possa ser superado não é mesmo? Ao menos vou poupá-los do trabalho de ir até o Submundo e colher os frutos da Mokurenji e assim ninguém precisará se sacrificar, não é? – ele olhou para Ryoji e sorriu, como se desdenhasse o cavaleiro de ouro.
O Grande Mestre permanecia impassível diante de Hades. Seu elmo caía sobre seus olhos, o que impedia os outros de saberem o que se passava com o velho homem, mas todos sabiam que ele estava observando tudo. Ele não respondeu a pergunta feita pelo deus. Seu silencio indicava que ele não havia aceitado a proposta que lhe foi feita.
– Ok. Mesmo que não aceitem eu vou lhes dar essa vantagem. Espero que aproveitem. Uma nova canção está para ser composta. Uma canção que levará toda a humanidade ao mais sublime de todos os paraísos. Uma música que será capaz de libertá-los de todo o sofrimento que vivem neste mundo e embalará o sono eterno de cada um de vocês. A Canção da Morte está prestes a começar. Até lá, tentem me impedir, se vocês forem capazes. – ele virou-se para o cavaleiro de Pégaso. Seu olhar era o mesmo que se dirige a uma criança, o olhar destinado a alguém que não representa ameaça, um olhar terno, como o de um pai que cuida de seu filho. – Eu espero, — ele disse para Íllias. – que você sobreviva até o fim da Guerra Santa. – Ele virou-se e desapareceu enquanto caminhava. Mesmo assim todos conseguiram ouvir sua voz dizendo as últimas palavras. – Espero que meu servo não seja muito rude com vocês, mas ele tem umas contas para acertar com alguém que o insultou. Um ladrãozinho muito ingênuo, que pensa que pode ser herói.
Kenshi sentiu a provocação no tom de voz de Hades. Mas o que ele estava querendo dizer? Que servo era esse que Hades mencionara? O instinto do homem dizia que algo muito ruim estava por vir, e então ele começou a bolar uma estratégia para se defender. Porém o tempo de que dispunha não era suficiente e o solo tremeu com a chegada de um espectro. Kenshi olhou e viu um homem alto, vestindo uma armadura púrpura, uma súrplice. Seu cabelo era branco, mesmo ele aparentando ser jovem. Seu elmo era grande e possuía um bico de pássaro na ponta, as asas de sua armadura eram imensas e ele era acompanhado por outros espectros menos poderosos, entre eles estavam Sapo e Verme, ambos que haviam sido mortos por Kenshi.
Hikaru dispensou apresentações e partiu para o ataque. Ryoji sumiu diante de todos, parecia estar preocupado com outra coisa. Leônidas se teleportou e reapareceu perto de Aquiles e Cleon, antes que pudessem dizer qualquer coisa os cavaleiros de bronze se viram no pátio do Salão do Grande Mestre. Íllias e Ryu sentiram o ar ao redor deles se mover e leva-los para trás, quando o ar parou, ambos perceberam que estavam nas escadas da Casa de Libra. Nero olhou para eles do degrau superior e sorriu. Hayato e Aldebaran correram para auxiliar as amazonas e cavaleiros de prata que estavam espalhados ao redor do Santuário. Maximus resolveu atacar junto com Hikaru, mas foi impedido por Ichiro que ordenou que ele colocasse o Grande Mestre em segurança. Sem discutir com o cavaleiro de Áries, Maximus voou carregando o velho até o Templo de Athena, onde estaria seguro.
Hikaru atacava com toda a força, mas seus golpes sequer arranhavam a armadura do inimigo. O homem deu um soco no cavaleiro de leão usando as costas da mão. Hikaru foi arremessado a vários metros de distancia. Ele se levantou, mas não conseguiu voltar para a zona de batalha. Uma barreira feita de pura energia surgira diante dele. Hikaru observou que Ichiro era o responsável por tal barreira. Aquela era uma versão gigante do Cubo de Cristal. Ichiro estava do lado de fora, mantendo os espectros presos do lado de dentro.
Contudo, Kenshi e Magnus permaneciam do lado interno do cubo. O cavaleiro de Aquário estava sentado na posição de lótus olhando fixamente para o espectro. Ao lado dele Kenshi estava em pé, em posição de ataque. Suas duas mãos estavam levantadas e abertas, o que deixou Hikaru intrigado. Como aquele homem iria desferir socos se suas mãos não estavam fechadas?
– Ichiro, você pode fazer com que essa barreira fique ao redor do Coliseu? Acredito que lá será um lugar melhor para lutarmos. – Kenshi falou.
– Eu poderia, mas precisaria desfazê-la e fazê-la novamente e isso não é uma opção. A menos que você tenha um plano.
– Eu tenho. Faça daqui a cinco segundos.
– Cinco segundos? Como eu...?
Mesmo sem muito tempo para pensar, Ichiro desfez rapidamente o Cubo de Cristal e recolocou-o ao redor do Coliseu. Seus olhos não acreditavam como Kenshi, Magnus e os espectros haviam aparecido lá tão de repente. Poucos segundos atrás eles estavam no pátio e agora se encontravam no Coliseu.
– Muito inteligente cavaleiro. – disse o espectro com cabelos brancos. – Mas essa barreira não vai nos conter.
– Essa barreira não é para vocês! É para mim. Ela vai impedir que eu destrua o Santuário, mas não vai impedir que eu destrua vocês. – enquanto ele falava Magnus se levantou e tomou assento na arquibancada do Coliseu. O cavaleiro de Aquário bocejou e encostou-se mais no degrau. Kenshi percebeu que naquela luta ele estava sozinho.
Minos de Griphon ordenou que seus espectros esperassem pelo fim da luta, que segundo ele não estava muito distante. Kenshi ficou em posição de batalha e esperou, mas antes que ele pudesse ver sua derrota havia chegado.
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