Cantos de primvera
21 O jardim
— Tão linda e tão fria. Como uma manhã de primavera que ainda trás o frio do inverno. -
A voz dele era suave assim como o vento primaveril que corria sobre o jardim banhado em cores.
— Bom dia majestade. —
Seu tom era íntimo e seu semblante sereno. O mesmo nem conseguia acreditar que estava conseguindo manter seu nervosismo sobre um controle que nem sabia que tinha.
Já Elsa não poderia dizer o mesmo.
— O que está fazendo aqui ? -
A voz tentava sair autoritária, mas estava tremida.
Elsa então o via finalmente olhar para ela. E nos olhos dele a rainha viu apreensão.
Os gestos enganavam mas os olhos são sempre espelhos da alma.
— Tenho vários motivos. —
Ele se apoiava com uma das mãos no banco de pedra esculpida para se levantar e então aproxima se dela.
— Um deles e de seu interesse político. … já os outros…. —
Ele se aproximava ainda mais de vossa majestade e olhava intensamente para os olhos dela.
Ela também o olhava, mas não da mesma forma. Não deixaria levar se por ele como sua irmã o fez a dois anos atrás. E muito menos como quando ela fez quando eram crianças.
— É muita audácia volta a Arendelle depois de tudo o que fez. —
Elsa se surpreende ao vê lo se ajoelhar diante dela quase como uma queda, de joelhos.
Mas antes que ele pudesse continuar ele percebeu que era observado por Charlotte e Elrich que na verdade só queriam ficar no jardim.
— Minha rainha eu… -
— Melhor falarmos em outro lugar. —
A rainha de Arendelle olhava para os lados enquanto o príncipe afirmava com a cabeça concordando com as palavras de Elsa.
Dagmar então cedeu a biblioteca para os dois terem a sua conversa tão necessária.
Um grande ambiente com estantes do chão ao teto e a sua parede de mais de três metros de altura.
No meio uma grande mesa com livros abertos e marcados que Dagmar havia deixado.
O que iluminava ainda mais o claro ambiente era o sol que transpassa a janela.
Um dia tão lindo mas ao mesmo tempo tenso para os dois.
— Você disse que tem notícias de interesse político para mim. Pois então, continue. —
O modo ríspido que Elsa usou não abalou nem um pouco o jovem príncipe.
— Provavelmente você soube que houve um golpe de estado nas ilhas do sul. -
Elsa fez apenas um gesto afirmativo com sua cabeça enquanto ele recomeçou a falar.
— Meu irmão Haakon, ele subiu ao poder. Consegui fugir com meu sobrinho, não sei como. Mas a questão é; Haakon atacará Arendelle mais cedo ou mais tarde. —
O semblante de Elsa era de estranhamento.
— E por qual motivo ele iria querer atacar Arendelle ? Nunca demos motivos para tal. Muito pelo contrário. Vocês que deram motivo para isso. Ou diria você… -
— Quer uma resposta simples e sincera majestade ? E ele anseia destruir tudo o que amo. -
O silêncio preenchia aquela biblioteca enquanto os olhares eram direcionados um ao outro.
— E porque confiaria em alguém como você principe Hans ? Tentou matar a mim e minha irmã para tomar o poder. —
O tom que tentava usar era de imponência e seu olhar carregava amargura.
— Você não tem escolhas majestade. Ou acredita e vence essa guerra ou não acredite e perca Arendelle para meu odiável irmão. —
Hans então apoiava se na mesa atrás dele despreocupadamente, parecia que falava de bailes e afins em vez de uma possível guerra.
— Não tenho medo de seu irmão. -
Ao ouvir isso Hans dava apenas um leve riso um tanto debochado ao ver de Elsa.
O jovem então ia em direção a rainha a passos lentos.
— Ah minha rainha…. —
Estavam próximos demais, ela podia sair mas algo lhe parecia prender ali. Com uma das mãos ele pegava o queixo dela e levantava a cabeça da mesma para que olhassem nos olhos um do outro.
Sem as luvas Hans conseguiu pela primeira vez em muito tempo sentir o quão fria era a pele de Elsa.
— Deveria ter medo…. -
Hans parecia estar em transe por causa daquela proximidade. O mesmo ameaçava beijar a rainha.
Até que ela percebia as intenções dele e o afastava.
— Menos principe Hans! -
Mas seu coração batia no mesmo compasso acelerado que o dele.
— Perdão Elsa. —
O jovem se encontrava incrédulo. Mais uma vez ela se mantinha afastada.
Mas não desistia tão fácil; ainda mais se tratando de Elsa.
Pois sé havia algo que o príncipe ansiava mais do que sua redenção, esse algo era a rainha de Arendelle.
E estava determinado mais do que nunca estar ao lado dela.
Não pelo poder ou riqueza mas sim porque sempre a amou apesar de tudo.
O príncipe abria a boca para começar a falar até ser interrompido por ela.
— Você tem provas de que ele possa invadir Arendelle? Como sabe disso ? —
Elsa virava se para a janela que dava vista para o jardim e algumas casas mais distantes.
Tentaria evitar contato visual.
Hans se aproximava da mesma janela ficando ao lado de Elsa mas sem olhá la diretamente.
Viam-se somente pelo reflexo do vidro.
— Ele foi preso poucos meses depois do que eu. Na prisão ele sempre tentou me atrelar aos planos imbecis e ilícitos dele. Mas já havia me afundado muito naquelas tramoias. Então me afastei dele. -
— E foi quando veio a ameaça. —
A voz parecia ecoar na cabeça de Hans.
— Eu vou acabar com você Hans ! -
— Vou destruir tudo o que ama. -
— Vou matar todos eles na sua frente um por um : Lars, Elrich, Elsa, Dagmar, Charlotte…. Todos. E no fim deixarei você desfalecer aos poucos. Para você provar do tamanho do meu ódio. -
— Ele é um doente, um psicopata. —
Finalmente ele voltava seu olhar a ela que ainda estava ao seu lado na frente da janela. Mas os olhos dela ainda mantinha se na paisagem.
— Elsa...… acima de tudo, eu vim para alertá la, ajudá la. Pois não quero que sofra novamente por minha causa. Já lhe fiz mal o suficiente. —
Ela então finalmente olhava para ele que se ajoelhava diante de sua rainha.
— Estou aqui por sua causa, somente por sua causa. Não quero que pague pelo que fiz ou deixei de fazer quanto ao meu irmão. -
— Deixe me ajudá la. E quando tudo terminar eu voltarei a cumprir a minha pena. -
Pela primeira vez em muito tempo Elsa não tinha palavras. Seu pensamento era conflituoso mas acabou por falar sem nem pensar direito.
— Sim. -
Com tais palavras o príncipe se levanta satisfeito com um sorriso no rosto. A rainha parecia que ia falar mais algo até que era interrompida por batidas na porta.
— Príncipe Hans. A sua irmãs chamaram você e vossa majestade para o chá no jardim. -
Depois da resposta do príncipe que dizia que eles iriam a velha empregada voltava aos outros afazeres.
O príncipe então abria a porta que dava ao corredor e ia com Elsa até o jardim.
— Existe algum momento do qual não esteja com um livro em sua mão minha irmã ? -
Dagmar olhou para frente e viu novamente seu irmão que se aproximava com a rainha vindo pouco atrás dele.
O jovem se aproximava e puxava a cadeira para que Elsa sentasse a mesa ao seu lado.
— Uma meia dúzia de poesias e um chá me ajudam a pensar melhor. -
A mesa branca estava forrada com um lindo pano do mesmo tom e em cima havia os mais variados doces e pães a vontade além do delicioso chá que misturava o seu aroma ao do jardim coberto de flores.
— Não se acanhe Elsa. — .
Charlotte olhava com um sorriso para a rainha que assim como ela e Hans pegavam alguns doces daquela mesa também enfeitada com flores.
Um buquê de flores simples mas bem colorido, como um pequeno arco-íris em que contrastava com a mesa branca.
— Então gosta de poesia Dagmar ? Tem algum especial ? —
Elsa reparava no livro que Dagmar tinha em suas mãos ; capa dura em um vermelho desbotado e em prata gravado no couro : Poesias. Nem mais, nem menos. Bem sucinto.
— Quando penso em você me sinto flutuar,
me sinto alcançar as nuvens,
tocar as estrelas, morar no céu...
Tento apenas superar
a imensa saudade que me arrasa o coração,
mas, que vem junto com as doces lembranças do teu ser.
Lembrando dos momentos
em que juntos nosso amor se conjugava
em uma só pessoa, nós...
É através desse tal sentimento, a saudade,
que sobrevivo quando estou longe de você.
Ela é o alimento do amor que encontra-se distante...
A delicadeza de tuas palavras
contrasta com a imensidão do teu sentimento.
Meu ciúme se abranda com tuas juras
e promessas de amor eterno.
A longa distância apenas serve para unir o nosso amor.
A saudade serve para me dar
a absoluta certeza de que ficaremos para sempre unidos...
E nesse momento de saudade,
quando penso em você,
quando tudo está machucando o meu coração
e acho que não tenho mais forças para continuar eis que surge tua doce presença,
com o esplendor de um anjo;
e me envolvendo como uma suave brisa aconchegante...
Tudo isso acontece porque amo e penso em você...
William Shakespeare. —
— Muito bonito. -
Elsa sorria e pensava o quanto aquela situação poderia ser considerada estranha.
Tomando o chá da tarde com o príncipe traidor e suas simpáticas irmãs. Discretamente olhava para cada um.
Dagmar continuava a ler e recitar as poesias enquanto Charlotte pegava mais uma fatia de uma torta de frutas silvestres que havia na mesa. Já ao seu lado o príncipe parecia sério, abstraído em seus próprios pensamentos.
Tão abstraído que nem perceberá que a rainha olhava para ele.
Ela nada falava; apenas voltava a olhar para a frente .
Ali seus olhos voltavam se as flores do jardim que faziam lembrar que a primavera e momento de renascimento.
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