— Tão linda e tão fria. Como uma manhã de primavera que ainda trás o frio do inverno. -

A voz dele era suave assim como o vento primaveril que corria sobre o jardim banhado em cores.

— Bom dia majestade. —

Seu tom era íntimo e seu semblante sereno. O mesmo nem conseguia acreditar que estava conseguindo manter seu nervosismo sobre um controle que nem sabia que tinha.

Já Elsa não poderia dizer o mesmo.

— O que está fazendo aqui ? -

A voz tentava sair autoritária, mas estava tremida.
Elsa então o via finalmente olhar para ela. E nos olhos dele a rainha viu apreensão.
Os gestos enganavam mas os olhos são sempre espelhos da alma.

— Tenho vários motivos. —

Ele se apoiava com uma das mãos no banco de pedra esculpida para se levantar e então aproxima se dela.

— Um deles e de seu interesse político. … já os outros…. —

Ele se aproximava ainda mais de vossa majestade e olhava intensamente para os olhos dela.
Ela também o olhava, mas não da mesma forma. Não deixaria levar se por ele como sua irmã o fez a dois anos atrás. E muito menos como quando ela fez quando eram crianças.

— É muita audácia volta a Arendelle depois de tudo o que fez. —

Elsa se surpreende ao vê lo se ajoelhar diante dela quase como uma queda, de joelhos.
Mas antes que ele pudesse continuar ele percebeu que era observado por Charlotte e Elrich que na verdade só queriam ficar no jardim.

— Minha rainha eu… -

— Melhor falarmos em outro lugar. —

A rainha de Arendelle olhava para os lados enquanto o príncipe afirmava com a cabeça concordando com as palavras de Elsa.
Dagmar então cedeu a biblioteca para os dois terem a sua conversa tão necessária.

Um grande ambiente com estantes do chão ao teto e a sua parede de mais de três metros de altura.
No meio uma grande mesa com livros abertos e marcados que Dagmar havia deixado.

O que iluminava ainda mais o claro ambiente era o sol que transpassa a janela.
Um dia tão lindo mas ao mesmo tempo tenso para os dois.

— Você disse que tem notícias de interesse político para mim. Pois então, continue. —

O modo ríspido que Elsa usou não abalou nem um pouco o jovem príncipe.

— Provavelmente você soube que houve um golpe de estado nas ilhas do sul. -

Elsa fez apenas um gesto afirmativo com sua cabeça enquanto ele recomeçou a falar.

— Meu irmão Haakon, ele subiu ao poder. Consegui fugir com meu sobrinho, não sei como. Mas a questão é; Haakon atacará Arendelle mais cedo ou mais tarde. —

O semblante de Elsa era de estranhamento.

— E por qual motivo ele iria querer atacar Arendelle ? Nunca demos motivos para tal. Muito pelo contrário. Vocês que deram motivo para isso. Ou diria você… -

— Quer uma resposta simples e sincera majestade ? E ele anseia destruir tudo o que amo. -

O silêncio preenchia aquela biblioteca enquanto os olhares eram direcionados um ao outro.

— E porque confiaria em alguém como você principe Hans ? Tentou matar a mim e minha irmã para tomar o poder. —

O tom que tentava usar era de imponência e seu olhar carregava amargura.

— Você não tem escolhas majestade. Ou acredita e vence essa guerra ou não acredite e perca Arendelle para meu odiável irmão. —

Hans então apoiava se na mesa atrás dele despreocupadamente, parecia que falava de bailes e afins em vez de uma possível guerra.

— Não tenho medo de seu irmão. -

Ao ouvir isso Hans dava apenas um leve riso um tanto debochado ao ver de Elsa.
O jovem então ia em direção a rainha a passos lentos.

— Ah minha rainha…. —

Estavam próximos demais, ela podia sair mas algo lhe parecia prender ali. Com uma das mãos ele pegava o queixo dela e levantava a cabeça da mesma para que olhassem nos olhos um do outro.
Sem as luvas Hans conseguiu pela primeira vez em muito tempo sentir o quão fria era a pele de Elsa.

— Deveria ter medo…. -

Hans parecia estar em transe por causa daquela proximidade. O mesmo ameaçava beijar a rainha.
Até que ela percebia as intenções dele e o afastava.

— Menos principe Hans! -

Mas seu coração batia no mesmo compasso acelerado que o dele.

— Perdão Elsa. —

O jovem se encontrava incrédulo. Mais uma vez ela se mantinha afastada.
Mas não desistia tão fácil; ainda mais se tratando de Elsa.
Pois sé havia algo que o príncipe ansiava mais do que sua redenção, esse algo era a rainha de Arendelle.
E estava determinado mais do que nunca estar ao lado dela.
Não pelo poder ou riqueza mas sim porque sempre a amou apesar de tudo.

O príncipe abria a boca para começar a falar até ser interrompido por ela.

— Você tem provas de que ele possa invadir Arendelle? Como sabe disso ? —

Elsa virava se para a janela que dava vista para o jardim e algumas casas mais distantes.
Tentaria evitar contato visual.
Hans se aproximava da mesma janela ficando ao lado de Elsa mas sem olhá la diretamente.
Viam-se somente pelo reflexo do vidro.

— Ele foi preso poucos meses depois do que eu. Na prisão ele sempre tentou me atrelar aos planos imbecis e ilícitos dele. Mas já havia me afundado muito naquelas tramoias. Então me afastei dele. -

— E foi quando veio a ameaça. —

A voz parecia ecoar na cabeça de Hans.

— Eu vou acabar com você Hans ! -

— Vou destruir tudo o que ama. -

— Vou matar todos eles na sua frente um por um : Lars, Elrich, Elsa, Dagmar, Charlotte…. Todos. E no fim deixarei você desfalecer aos poucos. Para você provar do tamanho do meu ódio. -

— Ele é um doente, um psicopata. —

Finalmente ele voltava seu olhar a ela que ainda estava ao seu lado na frente da janela. Mas os olhos dela ainda mantinha se na paisagem.

— Elsa...… acima de tudo, eu vim para alertá la, ajudá la. Pois não quero que sofra novamente por minha causa. Já lhe fiz mal o suficiente. —

Ela então finalmente olhava para ele que se ajoelhava diante de sua rainha.

— Estou aqui por sua causa, somente por sua causa. Não quero que pague pelo que fiz ou deixei de fazer quanto ao meu irmão. -

— Deixe me ajudá la. E quando tudo terminar eu voltarei a cumprir a minha pena. -

Pela primeira vez em muito tempo Elsa não tinha palavras. Seu pensamento era conflituoso mas acabou por falar sem nem pensar direito.

— Sim. -

Com tais palavras o príncipe se levanta satisfeito com um sorriso no rosto. A rainha parecia que ia falar mais algo até que era interrompida por batidas na porta.

— Príncipe Hans. A sua irmãs chamaram você e vossa majestade para o chá no jardim. -

Depois da resposta do príncipe que dizia que eles iriam a velha empregada voltava aos outros afazeres.
O príncipe então abria a porta que dava ao corredor e ia com Elsa até o jardim.

— Existe algum momento do qual não esteja com um livro em sua mão minha irmã ? -

Dagmar olhou para frente e viu novamente seu irmão que se aproximava com a rainha vindo pouco atrás dele.
O jovem se aproximava e puxava a cadeira para que Elsa sentasse a mesa ao seu lado.

— Uma meia dúzia de poesias e um chá me ajudam a pensar melhor. -

A mesa branca estava forrada com um lindo pano do mesmo tom e em cima havia os mais variados doces e pães a vontade além do delicioso chá que misturava o seu aroma ao do jardim coberto de flores.

— Não se acanhe Elsa. — .

Charlotte olhava com um sorriso para a rainha que assim como ela e Hans pegavam alguns doces daquela mesa também enfeitada com flores.
Um buquê de flores simples mas bem colorido, como um pequeno arco-íris em que contrastava com a mesa branca.

— Então gosta de poesia Dagmar ? Tem algum especial ? —

Elsa reparava no livro que Dagmar tinha em suas mãos ; capa dura em um vermelho desbotado e em prata gravado no couro : Poesias. Nem mais, nem menos. Bem sucinto.

— Quando penso em você me sinto flutuar,

me sinto alcançar as nuvens,

tocar as estrelas, morar no céu...

Tento apenas superar

a imensa saudade que me arrasa o coração,

mas, que vem junto com as doces lembranças do teu ser.

Lembrando dos momentos

em que juntos nosso amor se conjugava

em uma só pessoa, nós...

É através desse tal sentimento, a saudade,

que sobrevivo quando estou longe de você.

Ela é o alimento do amor que encontra-se distante...

A delicadeza de tuas palavras

contrasta com a imensidão do teu sentimento.

Meu ciúme se abranda com tuas juras

e promessas de amor eterno.

A longa distância apenas serve para unir o nosso amor.

A saudade serve para me dar

a absoluta certeza de que ficaremos para sempre unidos...

E nesse momento de saudade,

quando penso em você,

quando tudo está machucando o meu coração

e acho que não tenho mais forças para continuar eis que surge tua doce presença,

com o esplendor de um anjo;

e me envolvendo como uma suave brisa aconchegante...

Tudo isso acontece porque amo e penso em você...

William Shakespeare. —

— Muito bonito. -

Elsa sorria e pensava o quanto aquela situação poderia ser considerada estranha.
Tomando o chá da tarde com o príncipe traidor e suas simpáticas irmãs. Discretamente olhava para cada um.

Dagmar continuava a ler e recitar as poesias enquanto Charlotte pegava mais uma fatia de uma torta de frutas silvestres que havia na mesa. Já ao seu lado o príncipe parecia sério, abstraído em seus próprios pensamentos.
Tão abstraído que nem perceberá que a rainha olhava para ele.

Ela nada falava; apenas voltava a olhar para a frente .

Ali seus olhos voltavam se as flores do jardim que faziam lembrar que a primavera e momento de renascimento.