Can't let you go.
9 Capítulo 9
Clara buscou Ivan na escola e o levou para uma lanchonete.
– Então a senhora vai passar uns dias fora?
– Sim, meu filho. E eu ainda não sei bem quanto tempo. Mas eu prometo voltar assim que puder, eu só preciso...
– Achar a Marina.
– É. – Clara pegou sua mão.
– E eu preciso que você fique na sua tia Helena. Seu pai ainda nem arrumou um lugar decente para ficar, então é melhor que você fique com ela mesmo.
Ivan assentiu. Sentiria falta da mãe, mas sabia que era uma viagem necessária.
– Tomara que a senhora consiga trazer ela de volta.
– Tomara. – Clara sorriu apertando sua mão. – Eu te amo muito, sabia?
– Também te amo, mãe.
O tempo se arrastava até o dia da viagem de Clara. Estavam todas ansiosas, ela e as meninas do estúdio. Vanessa estava até mais prestativa afinal também queria Marina de volta ali, não queria sair do Brasil agora. Emprestou à Clara alguns casacos de frio, já que ela não tinha roupas adequadas para o clima europeu. E tinha até perguntado se ela queria que ela avisasse Marina sobre sua visita. Clara já tinha pensado sobre isso também, mas, por mais que pudesse ser mais difícil chegar lá sem Marina estar sabendo, tinha medo de que a fotógrafa ainda não quisesse vê-la. Tinha medo de que Marina fugisse dela novamente, afinal era isso que estava fazendo em Londres. Preferiu deixar como estava e contar com a sorte e todos os anjos do mundo para que tudo desse certo para ela.
O dia finalmente chegou. Helena, Juliana e Ivan estavam no carro com Clara em direção ao aeroporto. Foi no banco de trás, segurando a mão de seu filho o tempo todo. Sabia que morreria de saudades do pequeno. Mas estava animada. Ansiosa, com um certo medo também, mas animada.
– Tá nervosa, mãe?
– Muito.
– Vai dar tudo certo.
– Se comporta lá na sua tia Helena, heim? Não dá trabalho para ela. Faz o dever direitinho, não se atrase para escolha.
– Pode deixar, mãe! A senhora já falou. E eu já não sou mais criança.
– Ah, num é, não? — Clara riu. — Meu homenzinho.
Chegaram e Clara se apressou em fazer o check-in.
– Tudo pronto. – Respirou fundo com lágrimas nos olhos.
– Boa sorte, minha irmã. – Helena a abraçou.
Clara a puxou pro lado, falando baixinho.
– Leninha, fique de olho no Cadu. Não deixa ele, sei lá, tentar fazer a cabeça do Ivan contra mim ou a Marina. E.. toma conta do meu filho! Ai, o Cadu é pai dele e eu sei que ele não vai fazer nada ruim, mas.. ele está com o orgulho ferido e você sabe como mãe preocupa a toa. Então qualquer coisa que, sei lá, você achar suspeita, entra em contato comigo. Vou estar com o meu celular o tempo todo. Se pudesse, eu levava o Ivan junto. Mas essa viagem já está saindo uma nota preta, imagina para dois! E falando nisso. Muito obrigada. – Pegou suas mãos. – Pelo empréstimo, pelo apoio, pela força.
Helena abraçou.
– Imagina, Clara. Eu só quero que você seja feliz.
– Se der tudo certo, eu serei.
– Olha, se me perguntar você está certíssima. – Juliana se aproximou. – Tem mais é que correr atrás da sua felicidade mesmo. Correr atrás da mulher amada. – Riu. – Aquela fotógrafa não é pouca coisa não, heim? Um mulherão. Imagina só! O Cadu vai morrer de ciúmes.
Clara riu. – Ai, larga de ser boba, Ju.
– Perdeu uma gatona dessa pra outra. – Riu. – Vocês até que foram um casal fofo. Já estava passando da hora de você largar seu marido. Só pensava nela o tempo todo. Tem mais é que ir atrás dela mesmo. Boa sorte, viu?
– Obrigada, obrigada. – Clara a abraçou também e então procurou por Ivan.
– Vem cá, meu bichinho. – Ivan correu no seu colo. – Vou sentir muito sua falta, meu amor. – Chorou.
– Eu também.
Ivan enxugou as lágrimas da mãe.
– Manda um beijo para Marina.
– Pode deixar.
– Pode ter certeza que vai ser a primeira coisa que sua mãe vai fazer. – Juliana riu e Helena a cutucou com o cotovelo.
– O quê? – Perguntou baixinho. – Tô mentindo?
Clara olhou para ela fingindo irritação. Voltou para Ivan, beijou sua testa.
– Se cuida, heim? A gente se vê pelo skype. Assim que a mamãe chegar lá. – Abraçou – o uma última vez. – Te amo, meu filho.
Após se despedir de todos, Clara foi para a sala de embarques. Involuntariamente, reviveu as memórias do dia em que esteve ali para tentar impedi-la.
– Como eu queria ter chegado mais cedo. – Falou para si mesma, suspirando.
No avião, estava bem nervosa. Não era a primeira vez que voava, mas era a primeira vez em um avião tão grande e uma viagem tão longa. Enquanto decolavam, olhou pela janela o Rio de Janeiro ficando para trás. Segurava o papel com o nome do hotel na mão como se sua vida dependesse daquilo. Bom, parte dela dependia. Fechou os olhos e encostou a cabeça na poltrona, seria um longo voo.
“I.. can’t let you go, can’t let you go!”
– Oi, meninas! – Já estava com saudades de vocês.
Marina estava no skype com Vanessa, Flavinha e Giselle.
– Nós também, chefa. Ops, ex chefa, né? – Vanessa brincou.
Marina riu. – Sua palhaça. – Suspirou. — Londres continua linda.
– Claro, né? Ai, gente, imagina! – Giselle começou a falar. – Aquelas ruas, as lojas, os lodrinos. Falou piscando para Flavinha.
– Ou londrinas. – Vanessa defendeu, fazendo Marina sorrir novamente e se lembrar da ruiva.
Embora todas estivessem em clima de brincadeira, sabiam que não estavam nada bem. Marina sentia falta de casa, das amigas, de Clara. Queria perguntar se ela havia aparecido por lá, se tinha dito qualquer coisa, se estava com saudades. Mas não falaria nela.
– Então, está dando tudo certo aí com o balanço? Tem algum documento faltando? Alguma enrolação? Quanto mais rápido a gente resolver isso, melhor.
As meninas se entreolharam, causando uma certa curiosidade em Marina.
– E então?
– Desculpa, Marina. – Giselle foi quem interveio. – Nós não tivemos muita cabeça para fazer tudo ainda. – Falou com tristeza.
– Tudo bem. Só me deixem por dentro das coisas. Tô achando que nem vou esquentar a cama aqui não.
– Mas como assim? Já? Tá pensando em ir pra onde? — Flavinha perguntou se desesperando, pensando em Clara.
– Ah, não sei. Acho que vou ver onde meu pai está, vou fazer uma visitinha para ele.
– Mas você nem aproveitou o lugar.
– Ah, não é a primeira vez que estou aqui e.. não tô com cabeça. – Fez careta. — Devia ter trazido pelo menos uma de vocês comigo. – Deu um sorrisinho amarelo. – Nunca me senti tão... sozinha. – As meninas se entristeceram com Marina. – Mas, eu vou lá, faço uma visita pro velho, mato a saudade.
– Fica mais um pouco, Marina. – Agora realmente Marina estava curiosa. O que importava a elas sobre onde ela estava? Não fazia diferença. Olhou para elas confusa.
– É.. eu.. – Limpou a garganta. – Queria que você comprasse uma coisa para mim, aproveitando que está aí mesmo. Londres tem roupas ma-ra-vi-lhosas.
– O quê? Você não falou nada!
– Ah, sei lá! Qualquer coisa lá na Oxford Street.
– Vanessa! – Agora Marina estava realmente desconfiada. – Você nem..
– Ai, Marina. Só estou com saudades desses mimos, e você sabe que amo aquelas lojas. Você me conhece, vai saber o que comprar.
– Ah, eu também quero presentes.
– Tá bom, tá bom. Presentes para todo mundo. – Sorriu, levantando os braços.
– Tá nervosa?
– Ah, oi? Desculpa. O que você falou? – Era o passageiro do seu lado, um senhor de cabelos grisalhos.
– Parece nervosa desde que pisou no avião. Seu primeiro voo?
– Não. Primeira vez para fora.
– Ah, você vai amar Londres. É uma cidade divina.
– Imagino. – Sorriu.
– Trabalho ou férias?
– Nenhum. – Suspirou. – Estou atrás de alguém.
– Deixa eu adivinhar. Está atrás de um novo amor?
– Está mais para recuperar um amor.
– Ah, então boa sorte, minha filha. – Bateu a mão em seu ombro. – Uma viagem romântica. – Riu. – Há quanto tempo não se vê isso. Deve ser um cara de muita sorte.
Clara ficou sem graça.
– Desculpa, não devia me intrometer.
– Ah, não. Não é nada disso. Que isso. É só que... Não é um cara, é a minha amiga. – Olhou pela janela, triste. – Minha melhor amiga.
– Ah! Então é uma senhorita de sorte. Vocês duas são. Ao contrário do que todo mundo pensa, se apaixonar pelo seu melhor amigo é uma benção. Vivi os melhores anos de minha vida com a minha mulher, minha melhor amiga. Está lá me esperando.
Clara sorriu para ele.
Já havia amanhecido quando pousaram. Assim que pisou no aeroporto e viu todas aquelas pessoas, o movimento, os letreiros, as vozes... se sentiu completamente perdida. Perdida no meio de uma multidão, sozinha, fora de casa. Teve medo, mas logo se lembrou de seu propósito. Valeria a pena. Enquanto pegavam as bagagens, Clara pediu ao companheiro de viagem ajuda sobre troca da moeda, táxi e algumas outras informações. Logo já estava com tudo pronto.
Conseguiu um quarto num albergue próximo indicado pelo senhor, por ser um local já acostumado com brasileiros, assim ela não teria muitas dificuldades. Jogou suas malas na cama e já ligou o computador para avisar a família que havia chegado bem. Era bem cedo no Brasil, então ainda estavam dormindo, mas deixou uma mensagem. No seu email havia uma mensagem de Vanessa. “Fica esperta, Marina já falou em ir atrás do pai. Ela não deve ficar aí por muito mais tempo. Espero que tenha feito uma boa viagem.” Era estranho Vanessa estar se comportando, mas ela sabia que todos queriam Marina de volta, então era melhor deixar as diferenças de lado por enquanto. Correu para o banho, não podia perder tempo.
Marina estava em uma loja escolhendo o presente das meninas, quando seu celular tocou.
– Oi, pai. Liguei. Sim. Estou em Londres. Pois é. Onde você tá? Queria te ver! Ah, sério? Tá pertinho. Eu pego um trem para aí ainda hoje então. Também estou com saudades, pai. Até.
Sinalizou para a vendedora que já havia feito sua escolha. Pegou suas sacolas e retornou ao hotel. Falou com o gerente que estava pronta para fazer o check-out e subiu para o quarto para refazer suas malas.
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