Notas iniciais
Ai ai, meus amores.

Saiu do banho e procurou por algum traje mais especial. Estava tão ansiosa que mal tinha paciência para se arrumar tão bem como queria, mas se obrigou a se acalmar um pouco. Afinal, tinha chances de se encontrar com Marina em pouco tempo, e queria estar linda. Colocou um vestido casaco cinza claro, que tinha uns botões pretos na frente, com um cinto e botas pretas. Soltou os cabelos, fez uma maquiagem leve e se perfumou. Parou um pouco para se ver no espelho. Estava satisfeita. Sorriu ao ver um brilho bobo de esperança em seu olhar. Pegou sua bolsa e saiu.

Com muita dificuldade, conseguiu um táxi. Entregou o papel com o nome do hotel para o motorista para não ter que arriscar tentar falar com ele. O motorista assentiu e saíram. Já havia sido informada no albergue de que o The Trafalgar não era perto, o que aumentava ainda mais sua ansiedade. Passou as mãos nas coxas, preocupada, sentindo seu coração pular no peito.

No entanto, não demorou muito para relaxar. Estava com tanta pressa antes que não havia se permitido aproveitar a cidade, mas, agora no táxi, estava encantada. Londres era, sim, tão linda quanto falavam. Se aproximou da janela e ficou olhando maravilhada. Os prédios, as ruas, as pessoas, os monumentos. Não foi a toa que Marina escolheu aquele lugar, era simplesmente lindo. Seu coração descompensou com o pensamento de Marina. Imaginou passear por ali com ela e sorriu. Num momento de devaneio, Clara pôde vê-las de mãos dadas andando pelas ruas e Marina toda falante, gesticulando, dando uma guia turística. Pôde se ver absorta, olhando para ela e só conseguindo ouvir suas palavras porque sua voz era tão encantadora quanto seu rosto. Pôde imaginar calando-a com um beijo.

Esse último pensamento lhe causou um arrepio que a despertou. Um beijo. Não demorou muito a se perder em seus pensamentos novamente. Mordeu seu lábio imaginando beijá-la, acariciar seu rosto macio e sentir seus lábios vermelhos contra os seus. Clara ruborizou e sorriu. Não havia tido este prazer ainda, o que era mais um de seus arrependimentos. Mas já havia imaginado inúmeras vezes o seu primeiro beijo com ela. Suspirou e sorriu novamente. Estava a cada segundo mais próxima dela, podia sentir isso.

Marina fazia suas malas rapidamente. Enquanto guardava os presentes comprados parou um pouco encarando um deles. Clara. Fechou os olhos tentando se controlar. Havia comprado um presente para Clara com a desculpa de ser para ela mesma. Mas sabia que não era, porque assim que viu o vestido, viu Clara dentro dele. E acabou comprando, fingindo que era para ela. Seria dela, mas ela sempre saberia o real motivo de ter aquela peça.

– Como você é boba, Marina. – Falou triste e jogando a peça pro lado.

Terminou de guardar suas coisas e correu o olho no quarto para ver se não estava esquecendo nada. Cogitou deixar o vestido por ali mesmo, alguém acabaria ficando com ele. Mas não conseguiu. Não tinha nada da Clara ali com ela, nada que lembrasse Clara, não tinha levado nenhuma foto das duas, nada. Mas agora tinha aquela peça de roupa que ficaria perfeita em Clara. Sentia uma conexão estranha.

– Boba, não. Ridícula. – Falou enfiando o vestido na mala e olhou para cima piscando várias vezes para conter as lágrimas.

Mais quinze minutos no táxi e chegaram. Clara olhou bem para o prédio e conferiu o nome no papel, mesmo sabendo que estava certo. Já tinha aquele nome gravado em sua cabeça. Olhou o taxímetro para conferir o preço, já que não entendia muito do que o motorista falava, e o pagou.

– Thank you. – Acenou e saiu.

Parou em frente à porta do hotel respirando fundo e tomando coragem. Fechou os olhos e, ao invés da escuridão, viu Marina olhando para ela com aquele sorriso bobo e o olhar inconfundível. Era tudo o que precisava. Passou pela porta e ficou impressionada com o tamanho, o brilho, do local. Um hotel de luxo, com certeza. Não lembrava de ter estado num lugar como aquele antes. Olhou para os lados e viu um local de recepção.

– Good morning. How can I help you? Miss…? (Bom dia, como posso ajudá-la? Senhorita...?)

Um homem de meia idade, num terno elegante, se dirigia a ela. Por um minuto Clara entrou em pânico. Tinha treinado algumas frases que a ajudaria, mas não entendia o que eles falavam.

– Hmm... My name is Clara. (Meu nome é Clara)

– Clara. – O homem repetiu com certa dificuldade.

– Yes. I’m looking for Marina. Marina Meirelles. (Sim. Estou procurando Marina. Marina Meirelles)

– Oh, miss Marina. Yes, she checked out some minutes ago. I’m not sure if she’s still present. (Ah, senhorita Marina. Sim, ela fez o check out há alguns minutos. Eu não tenho certeza se ela ainda se encontra aqui.) – Disse procurando informações dos hóspedes.

Clara olhava para ele visivelmente confusa e o homem percebeu que ela não fazia idéia do que ele estava falando.

– Marina? – Clara perguntou a ele novamente, apontando para o livro de hóspedes e tentando dizer que queria o número de seu quarto.

O recepcionista deu um sorriso amarelo e olhou ao redor tentando pensar em alguém que pudesse ajudá-lo a explicar a situação. Mas não precisou procurar muito, pois logo a porta do elevador se abriu e ele viu uma figura conhecida.

Marina passou pela porta do elevador já olhando para os recepcionistas para ver se havia alguém disponível para atendê-la. Já havia pedido que fechassem sua conta e deixado seu cartão por lá. Sentiu uma pontada no coração quando viu a pessoa com quem o recepcionista conversava e parou onde estava. Não era de dor, era.. não sabia explicar. Como se seu coração estivesse parado e agora tinha voltado a bater de repente. Sentiu seu coração acelerado e sua respiração ficando pesada, seu tórax subindo e descendo rapidamente. Sua cabeça não fazia ideia do que estava acontecendo, mas seu coração já.

Em alguns segundos, ela entendeu sua reação. A mulher com o recepcionista a lembrava de Clara. Mesma altura, mesma cor e comprimento de cabelo, mesmo físico. Seu coração se acelerava ainda mais enquanto fazia essas conclusões. Não podia ser, não era. Respirou fundo, se repreendendo, e voltou a se mover, indo até eles.

O recepcionista sorriu aliviado ao ver a hóspede Marina Meirelles se aproximando e apontou em sua direção com a cabeça para Clara. Clara também sentiu seu coração querendo sair do lugar quando ele fez isso. Marina. Marina estava lá, podia sentir. Começou a respirar com dificuldade, seu coração batia com tanta rapidez que a deixou zonza, e seu corpo parecia estar travado.

Marina se aproximava, lentamente, sem tirar os olhos da mulher e sentindo seu coração saltar cada vez mais, sentiu até umas lágrimas brotando em seus olhos e balançou a cabeça. Não era, não podia ser.

Clara finalmente se libertou do estado em que estava e se virou para ver se estava certa. Se virou e deu de cara com Marina, a poucos metros de distância. Soluçou chorando e sentindo lágrimas molharem seu rosto ao vê-la. Colocou as mãos na boca, como se não acreditasse que ela estava ali. Os olhos de Marina se arregalaram e as lágrimas voltaram a brotar. Olhava para ela extremamente confusa, também não acreditando em nada. Pensou até que estava sonhando. Mas sabia que não estava. Clara sorriu vendo seu amor ali, tão perto finalmente.

“But watching you stand alone

All of my doubt suddenly goes away somehow



One step closer

Time stands still

Beauty in all she is

I will be brave

I will not let anything take away

What's standing in front of me

Every breath

Every hour has come to this



One step closer.”



Enxugou as lágrimas e correu até ela.

– Marina. – Falou engasgada parando em sua frente. Sua respiração se acelerou. – Marina, meu amor. – Repetiu, rindo e se jogando contra ela.

Marina estava parada no meio da recepção, segurando sua bagagem, estática, quando sentiu os braços de Clara a envolvendo. Seu corpo todo se arrepiou com o contato, com o cheiro, tinha sentido tanta falta. Clara apoiou a cabeça em seu ombro e a abraçava o mais forte que podia, como se pudessem fundir seus corpos. Marina chorou ao sentir o coração da mulher que estivera tentando esquecer com tanto esforço bater com tanta força quanto o seu, no mesmo ritmo, no mesmo descompasso.

Clara a soltou e colocou as mãos em seu rosto e Marina soltou suas malas no chão.

– Marina. – Falou novamente com um sorriso imenso.

– Clara?

– Eu estou aqui.

Marina queria entender. Perguntar como ela havia chegado ali. Por que ela estava ali? Mas não conseguia falar. Sua cabeça estava uma bagunça, seus sentimentos tão desorganizados quanto. Só conseguia olhar para ela. Olhar para o rosto, o sorriso, os olhos dos quais sentia tanta falta, a boca.

– Clara. O.. O que.. – Fechou os olhos tentando organizar as palavras. Respirou fundo e os abriu novamente. Colocou suas mãos, que até então estavam paradas no lugar, sobre as mãos de Clara, que estavam em seu rosto.

Virou o rosto sentindo o perfume de Clara inundar seus sentidos e fechou os olhos novamente, roçando o nariz na palma de sua mão. Engoliu com dificuldade e afastou suas mãos, para que pudesse, com as suas, enxugar suas lágrimas.

– O que você está fazendo aqui?

Clara se aproximou novamente. – Eu vim atrás de você, é claro. – As lágrimas saltaram de seus olhos. – Não consigo viver sem você, Marina. – Pôs as mãos em seu rosto novamente. – Eu não consigo. Eu.. eu te amo. – Falou olhando no fundo de seus olhos.

Marina não conseguia acreditar no que estava ouvindo e ficou tão atordoada com a última frase que nem percebeu que Clara agora fechava a distância entre seus rostos. Sorriu, não conseguindo conter as lágrimas, e deu um beijo de esquimó em sua fotógrafa favorita.

– Eu te amo. – Falou novamente com seus lábios quase encostando-se aos dela e finalmente os selou.

Marina demorou alguns segundos para voltar a si e corresponder ao tão sonhado beijo, o que havia deixado Clara preocupada. Mas assim que sentiu os lábios dela se movendo com os seus, sorriu e aprofundou o beijo. Era muito melhor do que todas as vezes que havia imaginado. Marina a beijava de maneira gentil, mas tão apaixonada. Clara estava embriagada com o seu toque, o seu cheiro, o seu gosto. Estava atordoada com a eletricidade que percorria seu corpo, com as nuvens que se formavam em sua cabeça, com o inchaço que parecia sentir no seu coração. Sentia tanta coisa ao mesmo tempo que já havia se esquecido completamente de onde estava. Passou a ponta da língua no seu lábio inferior pedindo permissão, o que Marina consentiu ao mesmo tempo em que envolveu sua cintura puxando a para si.

Logo, ar se tornou necessário e elas afastaram os lábios, mas não os corpos. Clara encostou sua testa na dela, rindo.

– Eu te amo. – Envolveu seus braços em seu pescoço puxando a para outro abraço apertado.

Durante o abraço, Marina começou a ter algum controle sobre si mesma novamente.

– Como você chegou até aqui? — Se desvencilhou dela.

– Chegaria aonde quer que você estivesse. – A abraçou novamente.- Que saudades de você! Nem acredito. Esses últimos dias foram um inferno. – Passou as mãos em seu cabelo, e a respirou. – Que saudades do seu cheiro, da sua voz, do seu abraço. – Beijou sua cabeça. — Eu tive tanto medo, Marina. Tanto medo de não conseguir te ver de novo. – Começou a chorar novamente e abriu os olhos. – E... e tá todo mundo encarando a gente. – Ruborizou.

Marina riu e se surpreendeu com o próprio riso. Não havia rido realmente desde o fatídico dia. Clara se afastou, mas segurou sua mão.

– Nós precisamos conversar.

– Precisamos. Só um segundo. — Marina soltou sua mão e tentou se recompor, andando até o recepcionista.

Clara sentiu sua falta imediatamente e foi atrás. Não podia ficar nem um pouquinho longe dela. Não estava pronta. Parou atrás dela e colou a mão em suas costas. Precisava de contato. Não arriscou olhar para o recepcionista, ainda estava com um pouco de vergonha por ter saltado em cima dela na frente de todo mundo. Marina recuperou seu cartão e perguntou se podia recuperar o quarto também. O recepcionista assentiu, não conseguindo conter o sorriso com toda aquela cena que havia assistido.

– Vem. Vamos pro quarto.

Marina pegou suas malas novamente, mas um funcionário apareceu pegando – as para ela. E assim que sua mão estava livre, Clara se apressou em segurá-la novamente. Marina olhou para suas mãos unidas e olhou para Clara que ainda tinha um sorriso imenso no rosto.