Can't let you go.
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Clara retornou ao estúdio pela primeira vez depois de toda a discussão com Marina, depois de sair sem saber se voltava. Não sentia aquela sensação familiar de felicidade por estar ali, no seu local de trabalho, no seu recanto artístico. Saber que ela não estava, só o tornava um lugar estranho.
Na porta, parou um pouco, ainda teve aquela pequena esperança de que Marina estivesse ali, em paz, trabalhando. Que ela tiraria os óculos e correria para os seus braços, como de costume. No entanto, foi recebido com frieza pelo ambiente. O vazio do local, mesmo esperado, era um baque. Tudo parecia estar no lugar, pois o estúdio não havia sido desmontado ainda, mas não estava. Afinal, Marina já não estava mais ali.
– Clara? – Flavinha a recebeu surpresa.
– Eu não acredito! Tá fazendo o quê, aqui? Eu não estou acreditando que teve a coragem de aparecer depois de tudo que você causou. A minha vontade é de.. — Andava em sua direção.
– Calma, Vanessa. – Flavinha interveio, segurando seu braço. – Clara, você precisa de alguma coisa? Nós estamos ocupadas.. fechando o balanço do estúdio.
– Para fechar. – Clara falou baixinho.
– É. Aliás, como você sabe? Quem te contou? A Marina te ligou?
Clara balançou a cabeça, triste que a fotógrafa nem havia se despedido.
– Claro que não, ela não queria falar com você. – Olhou para Flavinha, que dava de ombros.
– Eu tinha que tentar. Pena que..
– Pena que não deu tempo.
– Oi?
– Eu fui ao aeroporto, mas como não tinha passagem não pude entrar na sala de embarques. Não consegui falar com ela a tempo.
– Você tentou? Você foi ao aeroporto?
– Fui. Muito obrigada por ter me ligado. – Clara pegou sua mão.
– Foi até lá, por quê? Para infernizar Marina ainda mais?
– Não, Vanessa. Fui até lá porque eu AMO a Marina!
Vanessa ficou surpresa, mas não se deixou abalar. – Ah, ama? Engraçado! Por que até três dias atrás você não amava.
– Eu tinha medo. Das conseqüências, de tudo. Mas quando a Flavinha me ligou eu percebi que meu maior medo era ficar sem ela.
– Pena que a ficha caiu tarde demais, né? Já ficou.
– E é por isso que eu preciso da sua ajuda, Vanessa.
– Minha ajuda?
– Eu não consigo, não consigo viver sem ela. Eu vou atrás dela. Me diga onde ela está? Não deem entrada nos papeis ainda. Deixa eu tentar. Eu vou trazê-la de volta.
Flavinha a abraçou. – Ai, Clara! Fico tão feliz.
Vanessa riu. – Mas nunca que eu vou te ajudar a ir atrás da Marina, tá louca? É muito melhor para ela ficar lá, longe desse tumulto que você trouxe pra vida dela. Ela vai ficar bem.
– Vanessa! Você não prefere a Marina aqui? Nesse estúdio? Trabalhando com a gente? Tudo de volta ao normal? – Flavinha perguntou incrédula. – Ela saiu daqui arrasada.
Clara ruborizou, se culpando.
– Pra quê? Se eu posso tê-la só para mim?
– Espera aí, você.. vai se encontrar com ela? – Clara perguntou.
– Claro que vou. Só fiquei para organizar a situação aqui.
– Vanessa..
– Não, Clara. Deixa eu falar. – Flavinha interrompeu. – Vanessa, você sabe muito bem que não é assim. A Marina já deixou bem claro que vocês duas não têm volta. E não é só porque ela está lá e possa esquecer a Clara que ela vai voltar correndo para você. Sabe que a Marina não é disso. Além do mais, ela está infeliz. Você viu! Você sabe dos sentimentos dela. Quantas vezes você ouviu ela dizer o quanto ama a Clara? – Clara sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. – Desde o primeiro dia, naquela exposição. Ela não falava em amor ainda, claro. Mas dava pra perceber o olhar dela. E quantas vezes você ouviu ela falar assim de qualquer outra pessoa? De paixão, sim. Mas de amor? Você sabe disso! Porque foi desde esse dia que você começou a querer ela de volta. Você só deve estar com ciúmes, por não querer perder a Marina pra Clara. Mas você sabe que ela a ama. Esse amor pode, sim, ter sido muito tumultuado pra ela. Mas era uma situação complicada mesmo. E pelo visto, agora elas vão se acertar, né, Clara? – Olhou para ela esperançosa.
– É o que eu mais quero. – Clara enxugou uma lágrima e Flavinha sorriu.
Embora não gostasse do que ouvia, Vanessa sabia que Flávia tinha razão.
– Tá bom. — Passou a mão na testa, nervosa, e escreveu num papel. – Tá aqui o nome do hotel em que ela está. Mas eu não vou te ajudar em mais nada. E elaa está lá por enquanto! Fica esperta, porque se ela decide dar um passeio... na Europa você pega um trem e para em outro país. E outra coisa! Eu não tenho nada a ver com isso. Se der tudo errado, eu não te ajudei. Eu fui coagida. Não tenho nada a ver com isso.
– Obrigada. – Clara a abraçou sorrindo, deixando Vanessa surpresa. – Eu vou trazer nossa Marina de volta.
– Vê se faz a coisa certa pelo menos uma vez.
– Vou fazer.
– Vem cá, seu maridinho sabe dessa sua aventura?
– Não.
Vanessa bufou ironicamente.
– Já me arrependi, meu Deus.
– Não sabe que eu vou pra Londres, ainda. Mas já sabe de todo o resto.
– Vocês se separaram? — Flávia perguntou.
– Estamos nos separando. Já pedi o divórcio, já falei com meu filho.
– E ele?
– Não queria que a gente se separasse, né? Mas quanto a Marina ele está tranquilo. — Sorriu. — Não fecha esse estúdio ainda, heim? Vou fazer de tudo pra trazer a Marina de volta.
Se despediu e saiu.
Ao chegar em casa se deparou com Cadu.
– Clara. — Falou secamente.
– Oi, Cadu. Você saiu e nós nem terminamos nossa conversa.
– Não tem o que terminar. Eu só vim buscar minhas coisas. Depois de tudo o que você disse, de confessar amar aquela mulher, não consigo nem olhar pra sua cara direito. E como o apartamento é seu, estou saindo. — Passou por ela.
Cadu parou na porta.
– Só me diz uma coisa.
Se virou para ele. – Claro.
– Há quanto tempo vocês estão juntas? Você me traiu, Clara?
– Não, Cadu, não. Eu nunca faria isso com você. Nós não.. nós não estamos juntas. Eu não te trairia.
– E as vezes que você dormiu lá? Correu para lá no meio da noite?
– Não aconteceu nada, eu juro. – Falou sincera.
– É um pouco difícil acreditar, Clara. Você vai atrás dela, não vai?
Clara assentiu.
– E quer me dizer que não estão juntas?
– Não estamos. — Respirou fundo. – A Marina nunca passou dos limites, ela sempre deixou claro que me amava, mas nunca fez nada que eu não quisesse. E eu não queria, Cadu. Por mais forte que fosse meu sentimento por ela, você ainda era o meu marido e eu sempre te respeitei. Não aconteceu nada físico entre nós.
Cadu olhou para a agora sua ex mulher e assentiu satisfeito. Sabia que Clara não estava mentindo. Não estava nada contente com essa situação, mas gostava de saber que pelo menos ainda mantinha sua dignidade.
– Eu sei que você está magoado agora, mas tenta não guardar raiva de mim por muito tempo. Pelo nosso filho. Eu tentei evitar, Cadu. Mas foi mais forte do que eu, eu não consegui. Nunca foi minha intenção te machucar.
Não disse nada e saiu com sua mala.
Pegou o computador e comprou passagem para o voo mais próximo que pudesse pegar. Agradeceu aos céus por já ter um passaporte. Tinha feito há alguns anos quando Cadu e ela planejavam uma viagem, que nunca saiu do papel. Mas mesmo assim, tinha que resolver questões legais de visto. Arrumou as suas malas, sem nem saber direito o que por, não tinha roupas para Europa. Pegou suas melhores roupas e a maioria de frio. Já havia agendado uma visita para o visto. Não parecia muito tempo para esperar, mas para ela era uma eternidade. Ficou olhando para a mala, um pouco assustada com a aventura, como Vanessa havia dito. Clara só conhecia o Rio e Goiás, e de repente ia pra Londres! Mas só de pensar que logo estaria com Marina, seu coração aquecia, era só o precisava.
– Me espera!
Naquele dia, Marina não fez muitas coisas. Passou em um café, entrou em algumas lojas, passeou um pouco pela cidade, mas se descobriu sem ânimo algum pra fazer nada. Voltou para o hotel no horário da janta e foi pra cama.
No outro dia, decidiu que sairia. Organizou suas coisas no hotel, pensou num itinerário, se ficaria ali por muito mais tempo ou não. Decidiu curtir um pouco mais de Londres e então passear por outros lugares. Fazer um tour, mais um tour. Era sempre muito bom. E, embora fosse a primeira vez que o faria sozinha, não se desanimou. Já tinha usado viagens antes para se descobrir, quem sabe não se redescobriria nessa.
Não pensar em Clara era mais difícil ainda do que ela já sabia que seria. Em toda loja que entrava via algo que era a cara dela. Algo que antes compraria sem pensar duas vezes para presentear sua amada. Pensava muito no seu último encontro e no email. “Sua. Clara”. Riu. Estava curiosíssima sobre o que a dona de casa queria tanto falar com ela, mas pensou que devia ser algo sobre a saúde de Cadu. Não se importou muito. Se ele estivesse bom ou ruim, não teria nada que ela pudesse fazer. E se Clara precisasse de apoio, tinha sua família. Ela não precisava de Marina, nunca precisou.
À noite, se forçou a ter ânimo. Se vestiu de maneira matadora. Ficou se admirando no espelho. Seu rosto parecia diferente. Era uma pessoa muito diferente de quando havia estado ali anos atrás. Havia amadurecido, claro. Mas também trazia um olhar carregado, triste, bem diferente do que estava acostumada. Tal pensamento trouxe o reflexo de Clara para o espelho.
– Estou ficando louca. – Falou baixinho, pegou suas coisas e saiu.
Andou pela cidade decidindo para onde ir. Era mais fácil quando estava acompanhada. Não fazia ideia do que fazer em Londres sozinha. Se lembrou de um pub GLS que havia frequentado. Conhecia vários, mas sempre gostou mais desse. Pegou um táxi e foi até lá.
Ao entrar no lugar, Marina se sentiu uma completa estranha. Como se estivesse pisando ali, naquele tipo de ambiente, pela primeira vez. Música alta, bebida, conseguia ver vários casais se agarrando na pista, na frente de todos. Já tinha se divertido muito ali, mas agora não parecia encaixar mais. Entrou mesmo assim. Pediu uma bebida e sentou próximo ao bar, correndo o olho no local. Percebeu que já havia chamado a atenção de várias mulheres, o que nem a afetou.
Pouco tempo depois, uma mulher se aproximou, colocando a mão em suas costas.
– Hey. – Marina buscou a dona da voz. Era uma mulher esbelta, ruiva, alta, simplesmente linda. De tirar o fôlego. Trazia uma bebida na mão e um olhar selvagem, demonstrando seu interesse.
– Shall we dance? –Convidou – a para dançar, piscando olho e já descendo a mão para sua cintura e direcionando — a a pista de dança. Marina reparou no quanto a voz era tão sedutora quanto sua dona e se deixou ser levada.
Começaram a dançar juntas e a ruiva chegava cada vez mais perto. Tinha mãos nada quietas, que passeavam pelos lados do corpo de Marina enquanto dançavam. Fazia questão de olhar profundamente em seus olhos e de manter um sorriso. Marina se esforçou para sorrir de volta e se entregar ao clima. Tinha o direito de se divertir.
De repente, a música ficou um pouco mais intensa e a ruiva colou seus corpos, mantendo a mão nas costas de Marina e fazendo movimentos sedutores. Começou a beijar sua orelha, enquanto apertava sua cintura. Marina sentiu uma sensação conhecida se despertar em seu corpo, estava ficando excitada. Seu corpo logo estava em chamas. A música, a bebida e a companhia ajudavam. Mas sua mente gritava não. Pôs as mãos em seu ombro, afastando-a. A mulher olhou para ela perguntando silenciosamente se havia feito algo de errado, enquanto Marina se decidia. Estava tão dividida. Não, seu coração não queria isso. Queria sair dali e voltar para o hotel. Mas para quê? Para se jogar na cama e chorar? Se não conseguia tirar Clara do coração, que tirasse pelo menos da cabeça.
Puxou a mulher de volta e a beijou ferozmente. Sentiu-a gemer em sua boca e empurrá-la até a parede mais próxima. Enquanto Marina segurava seus cabelos e a beijava, a mulher subiu sua mão por sua coxa até o seu centro, sem perder tempo algum. Marina quebrou o beijo gemendo. Sentia falta de ser tocada. Afinal, não tinha estado com ninguém desde que conhecera Clara. A mulher então a arrastou para dentro de um banheiro da boate e colocou a mão por dentro de sua calça e calcinha ao mesmo tempo. Era estranho se deixar ser tomada assim por uma estranha. Mas não se importava mais. Marina encostou a cabeça na parede e fechou os olhos, deixando que seu corpo desfrutasse do toque.
Depois de aproveitar mais a noite com a ruiva, se despediu e foi embora. Mas não sem antes ganhar um cartão com seu número.
Era madrugada e Marina caminhava sozinha pelas ruas de Londres, com a cabeça ainda a mil. Olhou bem para o número no papel, amassou e jogou fora. Não queria se apegar a ninguém. Não estava pronta ainda. Não sabia nem se um dia estaria. E logo mais sairia de Londres, não fazia nenhum sentido fazer ‘amizades’.
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