Notas iniciais
Oi, geeeente. :) Obrigada mais uma vez pelos comentários. Tô amando. Eu promeeeto que tá acabando, tá bom? Podem ficar calmas. Cês não devem lembrar, mas nos capítulos iniciais (séculos atrás) eu coloquei pedaços de uma música, ela volta aqui: Lies, de Marina and the Diamonds. Também coloquei partes de Immortal, também dela. Coloquei letra e tradução. :) Beijos

Diogo só saiu do lado dela porque finalmente deixaram Ivan entrar e o número de visitas no quarto havia sido limitado por Paulo.

– Como estou? — Perguntou se olhando no espelho e ajeitando o cabelo.

Clara não acreditava na pergunta. — Marina...

– Não quero assustar o Ivan, Clara. Ele já vai ter que me ver aqui com esse oxigênio e esses aparelhos. Quero pelo menos aparentar bem.

– Tá bem.

Ela voltou a olhar para o espelho.

– Tá linda, como sempre. Mesmo com oxigênio e esses aparelhos. Você é incapaz de ser menos que linda, Marina. Como você não sabe disso ainda? — Clara passou a mão no rosto dela e a beijou. — Tão linda que eu não consigo tirar os olhos de você, desde aquela primeira exposição.

Marina sorriu. — Não me faz chorar, amor. Tô tentando ficar apresentável.

Clara riu. – Apresentável. — A beijou. — Vou buscá-lo.

– Tá bom. — Ela suspirou. — Tô morrendo de saudades já.

Ivan entrou no quarto e andou até Marina com cautela. Notou que ela parecia mais pálida e mais magra que antes, além do oxigênio.

– Mãe?

– Meu amor, eu já não tava aguentando de saudades. — Ele a abraçou com força.

– Ninguém me explica as coisas. Você já tá aqui tem tempão e eu sei que não tá bem. — Chorou desarmando a postura que Marina tinha tentado construir para não assustá-lo.

Clara, que também começou a chorar, saiu do quarto e ficou encostada na porta de olhos fechados, tentando se controlar.

– Você vai voltar pra casa, né? Vocês duas? Quando? Já tem muito tempo que tá aqui. — Pôs a mão na barriga. — Fica bem logo, por favor.

– Tô tentando, bichinho. — Passou a mão no rosto dele. — Eu juro que tô tentando. E olhe pra mim, eu preciso de um favor. Antes da sua mãe voltar, me promete uma coisa?

Ele assentiu.

– Sua mãe tá achando que eu estar doente é culpa dela.

– Por quê?

– Porque ela é uma boba. — Sorriu. — Não deixa ela pensar assim, tá bom? Cuida dela, e não deixa ela pensar assim.

– Tá me assustando. — Ela o abraçou de novo.

– Não é pra te assustar. — Beijou o rosto dele. — Eu só tô preocupada porque sua mãe é muito teimosa e ela não me escuta. Você que é nosso homem da casa, por isso você tem que falar com ela pra mim, tá bom? Ela não pode ficar pensando assim.

Ele assentiu.

– Me promete?

– Eu prometo.

– Obrigada. – Sorriu. — Eu te amo, meu filho. — Mexeu no cabelo dele, o abraçou de novo e ficou sentindo seu cheiro. — Te amo muito, você e sua mãe foram as melhores coisas que aconteceram em toda a minha vida.

– Todinha?

– Todinha. — Ela sorriu. — Por isso sua mãe não pode pensar que eu estar doente é culpa dela.

– Eu vou falar com ela. — Ele segurou sua mão.

Clara entrou na sala novamente e ficou ao lado dos dois, com o braço no ombro de Ivan. E vendo os dois ali na sua frente tão assustados, o medo bateu em Marina e a fez pensar, pela primeira vez, se tinha mesmo tomado a melhor decisão.

“I… can’t let you go, can’t let you go.”

(Não posso te deixar ir)

O horário de visitas acabou e Ivan teve que ir, não sem antes dar vários beijos e abraços apertados nas duas. Marina, porque ele estava com medo do quão mal ela estava. E em Clara porque via o quanto sua mãe estava precisando.

Marina pegou a mão de Clara. – Não fica assim, tá bom? Não é sua culpa, por favor, eu quis tanto quanto você. Mais que você até. A ideia inicial foi minha, isso era uma necessidade minha. — Pegou na pulseira de berloques de corações que deu à Clara no aniversário de casamento, e o quarto coração já estava nela. — Nada disso é sua culpa, e nada acabou ainda. Eu te amo tanto, ver você sofrendo assim acaba comigo. Eu te prometi a maior felicidade do mundo e não é isso que tô vendo agora.

– Você cumpriu, sim. Só que agora você está doente, amor. E eu tô com medo. Eu não posso te perder.

– Eu sei. — Marina a abraçou. Queria dizer que ia ficar tudo bem, mas ela já não sabia mais disso e não queria prometer nada à Clara que não pudesse cumprir.

– Te amo muito.

Ficaram abraçadas por vários minutos, até que Clara sentiu o corpo de Marina amolecer.

– Amor?

Marina virou os olhos e caiu na cama tremendo. Clara correu até a porta e gritou ajuda e depois correu até Marina, não sabendo se devia por as mãos nela ou não.

– Marina, fala comigo.

Os enfermeiros entraram e um deles afastou Clara.

– O que tá acontecendo? Eu quero ficar aqui, não me tira.

– Ela tá tendo uma convulsão. Deixa a gente ajudá-la.

Um deles injetou um novo medicamento.

O celular de Paulo apitou.

– É a Marina!

Ele e Felipe correram até o quarto.

– Paulo, Felipe! — Clara chorava. — Façam alguma coisa.

Felipe olhou para Marina e abraçou Clara.

– O que é isso? — Perguntou assustada.

– Eclâmpsia.

– Prepara uma sala para cirurgia, estou subindo com ela imediatamente. E chame a Fátima.

– Quem é Fátima? — Clara perguntou.

– Pediatria.

Marina não se debatia mais, estava inconsciente e os enfermeiros empurravam a maca. Clara parou na frente deles.

– Espera.

Segurou o rosto dela e a beijou.

– Pelo amor de Deus, não me deixa. — Pegou sua mão. — Eu te amo muito. Você conseguiu me dar toda a felicidade do mundo, mas três anos é muito pouco, amor. Todo o tempo do mundo não seria suficiente. Volta, tá? Por favor. – Chorou.

– Clara.. — Felipe a afastou, mas ela se soltou dele e correu até Paulo.

– Paulo, me escuta. Você passou esses últimos meses com a gente, mas você.. você não conhece bem a Marina. Você não conversou com ela além da gravidez. Você já viu alguma foto dela? Alguma exposição? Você não a conhece. Você não sabe o que essa mulher é! Você não faz idéia. Você não sabe o que ela passou pra me conquistar, você não sabe o que ela lutou, o que nós sofremos pra ficarmos juntas. — Soluçava e agarrou na gola do jaleco dele puxando. — Não. Deixa. Ela. Morrer. Você... . faça o impossível pra salvar minha mulher. Eu não posso, nós não podemos perder as duas. Não deixa a Marina me deixar. Eu te imploro.

Ele pegou as mãos delas para que ela o soltasse e olhou em seus olhos. — Nós faremos tudo que pudermos por vocês, Clara. Tudo em nosso poder. Isso eu te prometo.

Ela assentiu e o soltou. Ele foi até a porta.

– Felipe, você vem?

Ele pegou nos ombros de Clara. – Não, vou ficar com ela.

– Felipe, vai! Por favor.

– Você vai ficar bem?

Ela negou. – Mas é melhor você lá com ela.

– Eu vou chamar a mamãe, tá bom?

Ela assentiu e logo o quarto estava vazio e com um silêncio insuportável. Se sentou na poltrona com as mãos no rosto e começou a rezar.

– Nossa vida inteira não seria suficiente.

“When you love somebody,

(Quando você ama alguém)

They’ll always leave too soon (…)

(eles sempre vão embora muito cedo)

If I could buy forever at a price

(se eu pudesse comprar o ‘para sempre’ por um preço)

I would buy it twice, twice.

(compraria duas vezes)

But if the Earth in fire

(mas se a Terra acabar em chamas)

And the seas are frozen in time,

(e os mares congelarem no tempo)

There’ll be just one survivor,

(haverá apenas uma sobrevivente)

The memory that I was yours and you were mine.”

(a memória de que eu fui sua e você minha)

Chica entrou na sala.

– Minha filha, vem cá. — A abraçou. — Vamos rezar pra elas ficarem bem.

– Eu não posso perder a Marina, mãe. — Falava em meio às lágrimas.

– Eu sei. Nenhum de nós. Não foi fácil ver você mudando tanto, mudando toda sua vida por ela. Mas.. eu aprendi a amá-la como minha filha também. Elas têm que sair dessa.

– O jeito que ela tava falando comigo há pouco tempo, parecia que ela tava se despedindo. – Se desesperava.

– Não, meu amor. Ela devia estar assustada, com medo, é natural. Mas não foi despedida, ela vai voltar daquela sala e bem. Tá bom?

Clara assentiu, cada pedacinho do seu corpo se agarrando naquelas palavras.

“Ela vai voltar daquela sala e bem. Elas têm que sair dessa.”

– Vamos esperar lá fora? Tá todo mundo lá.

– O Ivan tá lá? Não quero que ele me veja assim.

– Não, ele já foi. Cadu buscou.

Clara saiu do quarto, amparada por Chica. Chegando na sala de espera, seu olhar encontrou o de Diogo e ela correu para abraçá-lo.

– O que tá acontecendo?

– Ela piorou, teve uma convulsão. Eles levaram ela pra cirurgia.

Diogo engoliu suas lágrimas. — E a bebê?

– Não sei. — Clara tentou dizer, mas só conseguiu sussurrar.

Ele a abraçou de novo, pensando “Mal sobrevivi perder a Ana, não posso perder minha filha agora.”

Vanessa e Flávia permaneciam sentadas de mãos dadas.

– Ela não vai me perdoar por falar com ela daquele jeito. Pra tirar a menina.

– Vai sim. Você tava desesperada, todos estamos, ela sabe disso. Mas não seja dura com a Clara, amor. Ela já mal tá aguentando.

– Eu sei. Não é culpa dela. Só é.. ai, é a Marina, Flávia! E é tão estranho pensar que há pouco tempo atrás ela tava tão bem, sabe? Pra agora estar aqui assim.

– Eu vou.. pra capela do hospital.

– Helena, vá com ela. Eu vou buscar as roupinhas da neném, podemos precisar.

Helena assentiu. — Senhora vai conseguir dirigir nesse estado?

– Eu vou com ela. — Ricardo respondeu.

Helena foi atrás de Clara. Diogo sentou com Vanessa e Flávia.

Já tinham ligado para Cadu e avisado da piora. Ele não ia dizer nada à Ivan ainda, mas o menino percebeu o semblante do pai ao telefone e já pediu para voltar ao hospital. Ivan ainda era criança, mas tinha o direito de estar lá e a presença dele ajudaria Clara, então ele não discutiu.

Clara estava de joelhos na capela, olhos fechados e as mãos juntas. Helena ao seu lado. Ivan chegou e ajoelhou do lado dela também.

– Meu amor? Quem..

– Meu pai não me disse nada, mas eu vi a cara dele quando o telefone tocou. Pedi pra me trazer ou eu vinha sozinho.

Clara beijou a cabeça dele e ficaram de mãos dadas.

– Senhora sabe que não é sua culpa, né, mãe?

– O quê? Como..?

– Ela me disse que você tava pensando assim. Pediu pra eu cuidar de você e não deixar.

– Ela pediu? — Clara chorou e o abraçou.

– Não fica assim, mãe.

– Eu tô com tanto medo, meu filho.

– Eu sei, eu também. Mas não é culpa sua.

Felipe e Paulo se preparavam para cirurgia.

– Tem certeza que consegue ficar aqui? Você tá muito envolvido.

Ele assentiu. — Devo isso à minha irmã.

Fátima entrou.

– Cesariana de emergência? — Começou se preparar também.

– Sim, eclâmpsia.

– Chegou agora ou?

Ele negou. — Paciente minha, tenho acompanhado.

– Quanto tempo?

– Completando 30 semanas. Dei corticóide.

– Okay. Já ligaram o aquecedor do berço?

– Já. Vamos, não podemos esperar mais tempo.

Entraram na sala de cirurgia, Marina já estava anestesiada e pronta na mesa.

Fátima entrou e se posicionou ao lado do berço com uma interna.

– Vamos lá, Marina. Bisturi. — Estendeu a mão pedindo. Fez o primeiro corte.

Fátima olhou para o rosto da mãe.

– Marina Meirelles? A fotógrafa?

– Sim, conhece?

– Não pessoalmente, infelizmente. Mas já fui em algumas exposições, ela é maravilhosa. Conhece o trabalho dela?

– Não. Mas vamos tirar ela dessa mesa bem, porque a próxima eu não perco de jeito nenhum.

Paulo continuou cortando as camadas.

– Ela não é lésbica?

– É. — Felipe respondeu. — Casada com a minha irmã Clara. Elas fizeram inseminação.

– Legal. Não sabia que ela estava grávida. Qual o sexo do bebê?

– Menina. Ana Carolina.

Fátima se aproximou mais e olhou para Marina.

– Força, minha filha. Pras duas.

Quis passar a mão em sua cabeça, mas já estava usando luvas e seu trabalho ali era focar na recém nascida. Voltou pro lado do berço.

– Como ela está, Felipe?

Felipe olhou para o monitor. — Estável, bem. — Ele sorriu.

– Isso aí, Marina. Agora vamos pro útero.

Felipe se afastou um pouco, Paulo fez o corte e o líquido amniótico espirrou.

Paulo soltou o bisturi e enfiou as mãos para tirar a criança.

Logo já estava com Ana que cabia direitinho em suas mãos, mas não chorava.

– Felipe.

Felipe cortou o cordão umbilical. Fátima se aproximou para pegar Ana Carolina

– Ela não tá respirando. — Passou para Fátima com cautela.

Fátima já estava a levando pro berço quando Paulo a chamou mais uma vez.

– Fátima.

Ela olhou e ele não precisava dizer mais nada. Assentiu.

– Sucção e vamos estimulá-la. — Colocou no berço. — Nosso minuto de ouro já está passando.

A interna começou a sucção, limpando a boca e vias aéreas da bebê enquanto a pediatra auscultava. Fátima tirou o estetoscópio e pôs no pescoço.

– Sem batimentos. — Iniciou as compressões. — Inicie ventilação. Se precisar, vamos entubar. Cadê o carrinho de parada?

Felipe se concentrou na criança. Paulo já tinha começado a suturar Marina quando o monitor começou apitar.

– Felipe!

– Batimentos caindo. — Ele arregalou os olhos e voltou pra ajudar Paulo.

– Nada ainda. — Disse Fátima. — Injete epi. — Continuou as compressões e deu uma última olhada em Marina.

“But the only thing that doesn’t die is love.

(Mas a única coisa que nunca morre é o amor)

So keep me alive.”

(Então, me mantenha viva)

Notas finais
Todo mundo respirando fundo.. vamos manter a calma!!!