Can't let you go.
42 Capítulo 42
Notas iniciais
Alguns dias se passaram sem que os médicos conseguissem abaixar a pressão de Marina.
Antes que Marina acordasse, Paulo e Felipe chamaram Clara para conversar.
– Clara.. — Paulo era cauteloso. — Marina não tá respondendo bem aos medicamentos. Primeiro, a pressão não caía e agora tornou a aumentar. 150 por 90 na última aferição. Uma pressão arterial dessa é perigosa pra ela e pra bebê também. Vamos ter que aumentar mais a dose, o que já não é bom porque a função renal também tem caído. Só que no momento, não temos muitas opções.
Felipe pôs a mão no ombro dela e ela assentiu.
– E a bebê?
– Por enquanto, está bem.
– Por enquanto? — Sua voz falhou.
– Se a pressão continuar subindo…
– Tá. — Clara respondeu logo, não querendo ouvir o resto da frase. — O que eu faço, Felipe? — Chorou.
– Você já tá fazendo tudo que pode. Fica do lado dela.
– Vamos pedir novos exames e alterar a medicação. — Paulo pegou sua mão. — E torcer pra ela responder melhor.
Clara assentiu. — Obrigada, Paulo.
– Faremos de tudo pro melhor delas.
– Eu sei. Muito obrigada.
– Como você tá? — Flavinha pegou sua mão.
– Bem, na medida do possível.
– Bem, Marina? — Vanessa interveio. — Bem?? — Apontou pro oxigênio. — Já tem uns dias que você tá com esse troço e nada.
– Tô sendo bem cuidada, Van. Não adianta eu enlouquecer, seria pior ainda.
Vanessa balançou a cabeça. — Quer que a gente avise seu pai?
– Não, não precisa. Saio do hospital antes de ele chegar no Brasil. Depois eu mesma falo com ele.
– Tá bom, mas é bom que saia daqui logo mesmo, hein?
–----
Durante a madrugada, Clara acordou com Marina apertando seu braço.
– Marina?
– Paulo. — Falou ofegante. — Não consigo.. respirar.
Clara apertou o botão da enfermaria, mas mesmo assim abriu a porta e gritou que chamassem o Dr. Paulo.
– Calma, meu amor, tenta ficar calma.
Uma enfermeira apareceu na porta.
– Rápido!
A enfermeira aumentou o suprimento de oxigênio e Marina foi se acalmando. Clara ainda segurava sua mão.
– Bem.. melhor.. assim. — Marina fechou os olhos e Clara ficou a acariciando pelo resto da noite.
Paulo passou no quarto para vê-la, verificou a pressão de oxigênio e pediu à enfermeira que lhe desse diurético.
Assim que amanheceu, Felipe chegou e já foi ao seu encontro.
– Novidades?
Paulo suspirou. — O edema pulmonar piorou ao invés de melhorar, tivemos que aumentar o oxigênio e diurético, teve uma crise essa madrugada.
Felipe fechou a mão e deu um leve murro na mesa. — E os exames?
– Taxa de filtração glomerular mais baixa que o último exame. E no hemograma, plaquetas baixas. Pressão lá em cima.
– O quão baixas?
– Bastante já, comparando com o valor de referência e exames anteriores.
– E agora, Paulo? Não tá funcionando. Ela já tá caminhando pra insuficiência renal e agora o fígado também. O que vamos fazer?
Paulo respirou fundo, encostou na sua cadeira e pôs as mãos nos olhos. — Você sabe.
Felipe passou a mão na cabeça. — Você sabe que..
– Ela não vai deixar, eu sei. Mas tenho que conversar com ela, com as duas. Não tô vendo nenhuma outra opção no momento. — Se levantou. — Você vem?
Assentiu. — Vou, mas vou como família, não como médico. Não vou conseguir olhar pra Clara de outro jeito agora.
Entraram no quarto.
– Clara.
– Bom dia, Dr. Paulo.
– Preciso conversar com vocês, a Marina….
– Tô acordada. — Abriu os olhos. — Pode falar.
– Como está, Marina?
– Na mesma, parece. Bem melhor com o oxigênio.
Paulo se sentou na beira da cama dela e cerrou os lábios. Marina procurou a mão de Clara.
– Infelizmente..
Marina pôs a outra mão na barriga.
– Eu não tenho boas notícias. — Suspirou.
Clara apertou a mão dela e olhou para Felipe, que olhou para o chão, caminhou até o seu lado e pôs a mão em seu ombro.
– Você não está respondendo ao tratamento, Marina. Sua pressão não para de subir, já está em doses altíssimas dos medicamentos e não podemos aumentar mais porque seus rins não conseguiriam.
– Eu.. eu não me sinto tão mal assim.
– Eu sei. Hipertensão é silenciosa. Insuficiência renal também pode ser até que já esteja muito grave. Essas coisas começam muito antes de você começar a sentir algum sintoma. Mas tem também o edema pulmonar que não te permite respirar normalmente e só piora. Além disso, pelo resultado do exame de sangue de hoje, seu fígado também já está sentindo.
Clara a abraçou. — E.. — Respirou tentando controlar as lágrimas. — E agora?
Paulo olhou para Clara e depois voltou a olhar para Marina. — Você está piorando e muito rapidamente. Estamos falando aqui em insuficiência renal e, num futuro não muito distante, hepática.
– Meu Deus. — Clara sussurrou e chorou.
Marina arregalou os olhos e permaneceu imóvel.
– A gravidez tá te causando isso.
Ficaram em silêncio.
– Não posso aumentar as doses dos medicamentos. Nosso.. último recurso.. veja, nós não temos outra opção... é..
Marina semicerrou os olhos. — Você não tá querendo me dizer que..
– O melhor para você é.. interromper a gravidez. Eu sinto muito.
Clara olhava para Paulo, não acreditando no que estava ouvindo.
– Não. — Falou dura e se sentou na cama ainda segurando a mão de Clara.
– Marina. — Clara tentou segurá-la.
– Não. — Falou mais alto. — Ela não tá pronta ainda. Você.. não ouse. — Elevou o tom de voz. — Você não toca em mim, não toca na minha filha.
As duas choravam.
– Ninguém vai tirar a minha filha de mim. — Gritou. -Ninguém.
– Marina… — Paulo tentou falar. — Tem grande chance..
– Não. — Se virou para Clara e agarrou nos seus braços chorando. — Não deixa, Clara.
Clara chorava sem conseguir acalmá-la.
– Não deixa, Clara. Não deixa ninguém fazer nada com a nossa filha. Não deixa, por favor.
Uma enfermeira apareceu pra ajudar. Marina tentou levantar da cama, e Clara tentava controlá-la.
– Não, me solta, Clara! Eu quero sair daqui. Eu vou sair desse hospital. — Tentou tirar o catéter, mas Felipe evitou.
– Marina, nos escute.
– Ninguém vai matar minha filha! Ela tá bem, eu tô bem, é só.. é só uma falta de ar. Ninguém.. encosta em mim. — Se debatia.
Nesse momento, Clara nem conseguia tentar segurá-la mais, não conseguia parar de chorar.
O monitor começou a apitar porque Marina estava muito agitada.
– Marina, você não pode ficar assim.
– Olha o que você tá me dizendo!! Que o melhor pra mim é interromper a gravidez? Como se isso não fosse nada?? — Gritava. — Ela tá muito novinha, não vai sobreviver.
– Marina..
– Eu não fico mais nem um minuto nesse hospital, ninguém vai tirar nossa filha. — Tentou puxar o catéter de novo e o monitor continuava apitando.
Paulo se virou para a enfermeira.
– Seda ela.
– Não. — Marina gritava e tentava fugir. — Não faz isso, não. Eu não quero dormir. Clara! Não tira ela de mim. Clara! Clara, não deixa. Clara. Clara, por favor. Eu vou dormir, não deixa!
Paulo e Felipe tentavam segurá-la enquanto a enfermeira injetava.
– Eu tô aqui, meu amor. — Voltou pro lado dela e pegou sua mão. — Se acalma, você não pode ficar assim, pensa em você, pensa nela. — Passava a mão em seu rosto.
Marina voltou a se deitar, já se sentindo meio tonta e segurou firme na mão de Clara. — Não deixa, amor. Não deixa. Ana... Carolina... Ana Carolina. Não deixa. Por favor. Por favor. — Fechou os olhos e Clara desabou nos braços de Felipe.
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