Can't let you go.
21 Capítulo 21
Notas iniciais
Clara acordou sentindo o peso do corpo de Marina sobre o seu. Olhou rapidamente para o relógio no criado mudo. Sete horas. Elas tinham um ensaio naquele dia, mas ela ainda podia deixar Marina dormir mais um pouquinho. Olhou para ela, sua expressão serena, parecia um anjo. E mesmo com o cabelo todo jogado nas duas, ainda era a mulher mais linda que Clara já havia visto. Olhou para o teto sorrindo e passando a mão no cabelo de Marina levemente, para não acordá-la.
Resolveu levantar para poder ajudar as meninas com a preparação do ensaio. Demorou um tempinho para conseguir sair do abraço de Marina sem acordá-la e sorriu ao ver que tinha conseguido. Era incrível o quanto sua namorada dormia. Deu um selinho de leve em seus lábios e foi tomar seu banho.
Quando terminou de se arrumar, o relógio apontava oito em ponto e Clara decidiu acordar Marina. Se ajoelhou e encostou o corpo na cama, passando a mão no cabelo dela novamente.
– Bom dia, minha dorminhoca. Acorda, meu amor.
Marina fez um careta e puxou o edredom mais perto, sem intenção alguma de abrir os olhos.
Clara riu, e com esse som a carranca de Marina se desfez. Clara lhe deu um beijinho de esquimó e depois beijou sua bochecha.
– Acorda, meu anjo. – Beijou seus lábios, e Marina logo correspondeu, querendo mais, fazendo com que Clara se afastasse rindo novamente. – Abre logo esses olhos, sua bandida. – Bateu em seu braço de leve e Marina sorriu.
– Só mais cinco minutinhos, Clarinha.
– Não mesmo, eu te conheço. Esses seus cinco minutinhos são de mineiro. Levanta que você tem uma sessão em meia hora.
– Hmmmmm.. – Marina fez beicinho e abriu os olhos. — Você já tomou banho?! Nem me esperou. – Sentou na cama, ajeitando o cabelo.
– O tempo tá passando e eu não consegui nem te tirar da cama ainda. Se nós fôssemos juntas pro chuveiro, não tinha sessão hoje. – Riu. — E eu sei que você está louca pra fotografar!
Marina pôs a mão na testa, segurando seu cabelo e sorriu. Suspirou, vencida. – Bom dia.
Clara sorriu de volta se sentando do lado dela. — Bom dia.
Beijou-a novamente e dessa vez Marina não deixou ela se afastar. Puxou-a pela cintura, aprofundando o beijo e tentou deitar Clara, mas ela pôs a mão no seu ombro e se afastou. Encostou a testa na dela e sorriu. – Banho, Marina. Agora!
– Mandona. – Marina riu, lhe deu um beijo rápido e se levantou.
Clara a viu entrando no banheiro e desceu.
– Bom dia, meninas.
– Bom dia, Clara. – Flávia respondeu.
– A Marina já levantou?
– Já, Vanessa. Ela tá no banho.
– As modelos já devem estar chegando.
– Unhum. – Clara começou a ajudar Flavinha com a organização do espaço.
– Bom dia, meninas.
– Bom dia, Marina. – Vanessa a recebeu com um sorriso.
– Que bom humor, Vanessinha!
– Tô feliz que finalmente vamos botar esse estúdio pra funcionar novamente. – Lhe deu um beijo na bochecha e ouviram barulho. – E ó, as modelos acabaram de chegar. Deixa eu ir lá.
Marina foi até Clara e a cumprimentou com outro beijo.
Logo Vanessa já tinha preparado as modelos e elas se apresentaram para as fotos. O ensaio era sobre a moda retro e as meninas estavam todas vestidas de maneira vintage. Embora estivesse mais acostumada com o nu, Marina estava adorando aquela ideia.
– Ai, gente, só faltou uma bonequinha de luxo aqui hoje. – Falou entusiasmada. – Essas fotos vão ficar uma maravilha.
Marina colocou os óculos, o cabelo de lado e começou a fotografar, com a ajuda de suas assistentes. Clara se dividia entre ajudar, tentar aprender alguma coisa e, é claro, assistir. Adorava assistir Marina trabalhando.
– Clara, olha só isso aqui. – Sinalizou com a mão. Quando Clara se aproximou, Marina pôs a câmera em suas mãos. Clara olhou para ela meio assustada.
– Marina..
– Olha, olha pela lente.
Clara hesitou, mas tentou.
– Isso, olha só como vai ficar lindo.
– Ah, Marina. Você que faz ficar bonito, né?
– Tenta, sua boba. – Riu. E Clara começou a fotografar.
– Isso. Van, diminui um pouco aquela luz ali. – Apontou. – Isso, obrigada. Agora, meninas, eu quero que vocês olhem diretamente pra lente...
Marina dava as coordenadas e Clara se divertiu tirando algumas fotos antes de timidamente devolver a câmera.
Marina pôs a mão na câmera, sem antes pegá-la por completo. – Tô louca pra ver o resultado disso aqui. – Roubou um beijo de Clara e voltou ao trabalho.
Marina deu uma pausa e revisou algumas das fotos na câmera.
– Acho que já estou satisfeita, meninas. Nós temos um material muito bom aqui. –Sorriu para elas. – É suficiente. Obrigada.
Vanessa as direcionou para a troca de roupas. Marina e Clara ainda passaram um tempo olhando as fotos e fazendo planos para elas.
– Vamos almoçar, meu amor?
– Vamos sim. – Clara pegou sua mão. – Flavinha?
– Eu vou esperar a Van, a gente.. já tinha combinado.
– Tá bom, nós já vamos num lugar aqui perto mesmo porque eu marquei de ir ao galpão. Tenho uma reunião com.. o Laerte. — Fez careta.
– Ai, você se importa de eu não ir com você? Depois de tudo que ouvi que o Laerte andou aprontando com a minha sobrinha, não quero nem ver aquele cara.
– Não tem problema, ele é bem desagradável às vezes, pode deixar que eu o aturo sozinha. É coisa rápida. Provavelmente vai querer me dar um sermão pelo meu sumiço.
Clara beijou seu rosto e lhe deu um sorrisinho de compaixão.
Marina passou o almoço todo entusiasmada com esse novo projeto.
– Ai, Clarinha, é tão bom estar trabalhando de novo.
– Eu sei. – Sorriu. – Dá pra ver nos seus olhos o quanto você ama fotografar e te ver trabalhando é maravilhoso. – Pegou sua mão, e Marina beijou a dela. – Minha atividade favorita.
– A preferida, é? – Clara olhou para ela confusa. — É mesmo? – Abaixou a voz. — Dentre todas as coisas que eu faço... – Sorriu.
– Ai, Marina. Sua boba. – Clara ficou vermelha, olhando ao redor enquanto Marina ria dela. – Você é impossível.
– E você... me ama. – Sorriu e lhe mandou um beijo. – Ás vezes eu nem acredito que é verdade.
– Mas é. – Acariciou sua mão.
Depois do almoço, Marina deixou Clara no estúdio e dirigiu até o galpão. Ao entrar percebeu que também havia sentido falta do local, afinal era um lugar cheio de arte, e ela gostava das aulas. Foi muito bem recebida por Verônica, que a levou até Laerte.
A conversa dos dois não demorou muito e não foi tão desagradável quanto Marina temia. Na verdade, Laerte parecia estar ansioso para sair. E já que as aulas não tinham sido abandonadas realmente, ele não viu muito problema. Além do mais, os alunos haviam sido compreensivos.
Quando já estava saindo, ao passar pelo bistrô, inevitavelmente topou com Cadu.
– Opa... Cadu. – Falou meio sem jeito.
– Marina Meirelles. – Ele olhou para ela, sério. – Quanto tempo! Não tanto assim, pra quem saiu daqui determinada a não voltar nunca mais até que voltou bem cedo, não acha?
– Não poderia ter sido diferente.
– Claro que não. Afinal, a Clara – pronunciou o nome ainda com certo rancor – não podia deixar que isso acontecesse, não é mesmo?
– Cadu.. – respirou fundo – a gente pode conversar?
Riu secamente. – A gente já está conversando.
– Não aqui. – Marina olhou ao redor, o bistrô estava lotado.
– Eu não tenho nada pra falar com você. Se bem que eu deveria mesmo te dizer muita coisa que tá aqui ó... entalado na garganta.
Verônica percebendo a tensão resolveu intervir. – Gente, tá tudo bem aqui?
– Está. – Cadu respondeu e virou se afastando. Parou no meio do caminho. – Você vem ou não? Não tenho o dia todo à disposição da artista.
Marina deu um sorrisinho para Verônica e o seguiu.
Cadu entrou numa sala e Marina o seguiu, com cautela. De repente se perguntou se havia sido uma boa idéia. Clara vivia repetindo que Cadu era um bom homem, e Marina sabia disso, mas também sabia que devia ser a pessoa mais odiada por ele no momento.
Cadu foi para o outro lado da sala, mantendo certa distância. — O que você quer comigo?
– Não vai dizer nada? Disse que tinha tanta coisa entalada.
Seu rosto demonstrava toda sua raiva. — E vai resolver alguma coisa? Devia ter te colocado em seu lugar antes de você se infiltrar na minha família.
Marina olhou para baixo rapidamente e então olhou em seus olhos.
– Eu queria te pedir desculpas, Cadu. – Falou suavemente.
Cadu riu, sarcasticamente. – Um pouquinho tarde para isso, não acha não? O que foi? Agora que já venceu o jogo e conseguiu tirar proveito de tudo que Clara tinha para te oferecer, você já se cansou e tomou alguma consciência, é isso? Ou veio aqui tripudiar?
Dessa vez Marina retribuiu o mesmo olhar duro e se aproximou mais do chef. – Não fala assim da Clara. E nem de mim. A Clara não é e nunca foi um troféu. Nada do que aconteceu foi um jogo. Isso nunca foi uma competição entre nós dois, tudo que aconteceu foi entre mim e a Clara. Somente. – Sua voz era mais grave.
Cadu novamente riu, zombando dela, mas ela continuou. – Eu vim te pedir desculpas porque sei que te tomei algo muito precioso, de valor inestimável. Eu sei que me intrometi no seu casamento, como você mesmo diz. Eu não sou só uma pessoa superficial, mimada, que faz tudo para conseguir o que quer não, Cadu. Sei que é isso que pensa de mim, mas não é verdade. Eu não podia e não posso fugir do que eu sinto pela Clara.
Cadu bufou.
– Eu soube no momento que a vi que eu não podia perdê-la de vista. Eu sinto muito pelo que eu te causei, mas não me arrependo em momento algum. Eu a amo de uma forma que não dá nem para expressar, eu podia falar o dia inteiro e você não iria compreender. Eu a amo mais do que sempre amei qualquer pessoa e qualquer coisa, até mesmo a fotografia. — Sorriu. – E eu podia ver nos olhos dela ela começando a sentir o mesmo por mim. Um amor desse tamanho simplesmente não podia não ser correspondido.
Cadu desviou o olhar.
– Ela fugiu bastante de tudo o que sentia por mim. Em momento algum nós te desrespeitamos....
Ele riu novamente.
– Fisicamente. Não houve nada físico entre nós até Londres, até que já estivessem separados. Ela sempre te respeitou demais para isso, e eu respeitava a vontade dela. Eu sei que você sempre a amou e é por isso que te peço desculpas. E ela também.. ela ainda te ama, de certa forma.
Cadu olhou para ela novamente. – Você foi embora porque sabia que ela não ia agüentar ficar aqui sem você, não foi? Golpe baixo. – Bateu a mão na parede, assustando Marina um pouco, mas ela não se deixou abalar.
– Eu fui embora porque ela me disse que não me queria, vocês tinham renovado os votos. Eu sabia que tinha que abrir mão da minha vida com ela naquele momento, da minha felicidade. Mas eu não ia suportar – olhou para cima lutando contra as lágrimas. – Eu não ia suportar tê-la tão perto, e não tê-la. Eu precisava fugir. Mas o que nós temos é maior até do que nós mesmas, não dava para evitar. Eu só queria que você entendesse que a Clara não é um capricho meu, ela não é só mais uma na minha vida. Eu nunca quebraria um casamento por capricho. Ela é o amor da minha vida, e por isso sim... eu iria até o fim do mundo. Pela nossa felicidade. E eu acredito que há mais para você também.
– Eu não preciso de um prêmio de consolação, Marina. Nem que vocês tenham dó de mim.
– Não é disso que estou falando. – Suspirou. — Você tem todos os motivos do mundo para me odiar, eu te entendo. Mas.. tente entender a Clara. Eu sei que ela quer continuar sendo sua amiga, é importante para ela. E para o Ivan, filho de vocês. Eu sei que você é um homem bom. Eu vi um pouco disso antes disso tudo, e a Clara vive repetindo isso. – Riu. – Meu pedido de desculpas é sincero, mas eu repito.. não me arrependo. E nem espero que me perdoe, mas se te valer de alguma coisa, te prometo que a farei a mulher mais feliz do mundo.
– Tá dizendo que eu não a fazia feliz, é isso?
– Não, Cadu. Dá pra sair da defensiva por um segundo, por favor? Você a fez feliz sim. Poxa, vocês dois juntos tiveram o que há de mais importante nesse mundo para ela, que é o Ivan. E sei que pra você também. Só estou dizendo que se nós nos apaixonamos, esse passou a ser meu dever, e direito também. E fazê-la feliz é minha prioridade. Ela e o Ivan.
Cadu a olhou com seriedade novamente, fechando os punhos. – Não gosto de você perto do meu filho.
– Por que não?
Ele riu. – Você é inacreditável.
– Porque você me odeia, claro. Mas o Ivan não. A gente se dá muito bem. E eu gosto muito dele, Cadu. Eu.. – sua voz tremeu – eu o amo. – Marina olhou para suas mãos, enquanto ele olhava para ela. – Eu nunca vou tomar seu lugar de pai ou seu lugar no coração dele, nem no da Clara. Você é muito importante para eles. E nem é essa minha intenção. – O fitou novamente. – Por mim, se você quiser e quando estiver pronto, nós podemos todos conviver bem. É o melhor para o Ivan, pra todos. Eu nunca tive nada contra você, até gosto de você. Tá.. você pensa que eu só roubei a sua mulher, mas só quero que saiba... que não foi em vão.
Cadu não voltou a olhar para ela, e Marina estava perto o suficiente para tocar seu braço brevemente antes de sair, deixando Cadu com lágrimas nos olhos.
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