Can't let you go.
2 Capítulo 2
Notas iniciais
– Acorda, Marina. – Era Vanessa, passando a mão em seu cabelo. – Acorda que hoje nós temos muita coisa pra fazer.
– Hmm.. mais cinco minutinhos, Vanessinha.
Vanessa riu. – Em cinco minutinhos eu quero você dentro daquela banheira que acabei de preparar, me ouviu? — Beijou sua testa e saiu.
Marina se espreguiçou na cama e foi para o banho. Trabalhar significava que veria Clara de novo, e quanto mais, melhor. Desceu para o estúdio, já procurando por ela.
– A Clara não chegou ainda?
– Bom dia, Vanessa. Bom dia, Flavinha. Tudo bem, Giselle? – Vanessa zombava. – Não, a Clara não chegou ainda. E adivinha, só? Vai se atrasar. Como sempre. Acho que a gente já podia até ajustar esse horário dela, por que, né?
– Larga de ser chata, Vanessa. Deve ter um bom motivo.
– Sempre tem.
Em casa, Clara havia recebido café da manhã na cama.
– Que chique, Cadu. Quanto tempo você não fazia isso pra mim, heim?
– Depois de ontem, era o mínimo que eu podia fazer. – Se beijaram, e comeram juntos.
– Ó, adoraria ficar mais aqui com você, mas eu já tenho que ir pro bistrô.
– Claro, e eu tenho que correr pro banho e ir pro trabalho. – Beijou – o de novo. – Pode ir. – Se levantou.
Cadu quis comentar que não queria que Clara continuasse no estúdio, mas preferiu deixar pra depois. Sabia que ela seria relutante e não quis estragar essa manhã maravilhosa.
– Te vejo mais tarde. E pode deixar que eu levo o Ivan, você já está atrasada.
Clara agradeceu e entrou para o banho. Não demorou muito para pensar em Marina. Marina nunca saía de sua cabeça realmente. Se perguntava com que cara ia trabalhar hoje. Com a mesma de sempre, ué. Afinal, não acontecia nada entre elas.
Não, acontecia sim. Clara não podia ser hipócrita e dizer que não. Marina mexia com ela e ela gostava. Mas tudo acabaria, porque ela mostraria sua nova aliança e toda essa indecisão, essa confusão de sentimentos, acabaria. Ela respeitaria sua decisão, e seriam só amigas. Mas será que ela queria mesmo que acabasse? Gostava tanto da atenção que recebia, dos olhares longos, do carinho, dos abraços, da voz, do cheiro de Marina. Clara interrompeu seu pensamento. Gostava demais de tudo da Marina. E não, não queria que acabasse, mas devia respeito ao seu marido. Também não queria magoá-la, sabia que Marina gostava dela de verdade, não ia mais se fazer de desentendida. Mas tinha que acabar se quisesse que seu casamento voltasse a funcionar.
Clara se vestiu lembrando-se da vez que dançaram juntas. Do quanto seus corpos se encaixavam perfeitamente, do quanto sua pele era suave, seu toque. Se lembrou dos arrepios que sentiu quando ela passou o nariz em seu pescoço. Se arrepiou novamente, suspirando.
– Ai, Marina. – Balançou a cabeça e sentiu uma lágrima rolar.
Antes mesmo que Clara entrasse no estúdio, Marina sabia pelo barulho dos passos quem estava chegando e sorriu involuntariamente.
– Bom dia, meninas!
– Clarinha! – Tirou os óculos e correu para abraçá-la, afundando o rosto em seu pescoço.
Clara a abraçou forte, sentindo seu cheiro, com medo de que depois que dissesse que iria retomar seu casamento ela se afastasse.
– Já estava com saudades. – Beijou seu rosto e roçou o nariz.
– Eu também. – Clara acariciava seu rosto, sentindo o coração palpitar.
Só amigas. Elas eram só amigas. Amigas que sentiam um turbilhão de coisas. Marina queria mais, claro. Ela.. também? Quem sabe? Mas não podiam ser mais que amigas.
– Vem ver nossas fotos, estão maravilhosas. – Marina entrelaçou seus dedos puxando a assistente com ela.
Ela estava tão feliz, tão leve, que Clara mais prestava atenção nela do que nas fotos. Sentiu uma vontade imensa de passar a mão no seu rosto, mas se conteve.
Pensou todo o momento em quando iria falar com ela, e como o faria. E agradeceu por não terem tido privacidade ainda. Marina estava extasiante com esse novo projeto e Clara queria prolongar essa felicidade o quanto podia.
Mas, assim que ficaram sozinhas pela primeira vez, Clara decidiu falar. Não seria fácil, mas tinha que falar. Era estranho porque sentia como se ela estivesse prestes a terminar com Marina. Só que não estavam num relacionamento. No entanto, sentia como se fosse a mesma coisa.
Limpou a garganta. – Marina.
– Oi?
– Tenho que falar com você.. sobre uma coisa.
– Que foi, Clara? Que cara é essa? Estou ficando preocupada, tá tudo bem? – Perguntou pegando sua mão e acariciando.
– Não, tá! Tá tudo ótimo, na verdade. – Sorriu. – Não poderia estar melhor.
Marina sorriu de volta. Era impossível não se derreter perante o sorriso de Clara.
– Então me conta! O que que trouxe toda essa felicidade aí pra você? – Estava animada.
– Eu e o Cadu, nós.. nós tomamos uma decisão.
Marina sentiu o coração pular no peito, cheia de esperanças. Será que Clara iria finalmente dizer o que ela queria tanto ouvir? Segurou sua mão mais forte.
– Nós.. – Puxou sua mão da de Marina e a mostrou, mostrando a aliança. – Nós renovamos os nossos votos. Vamos dar uma segunda chance ao nosso casamento, nosso amor. – Sentiu seus olhos se enchendo de lágrimas, que julgou ser de felicidade e sorriu. – Eu o amo. – Deu de ombros.
Marina sentiu como se tivessem jogado um balde de água fria nela. Seu sorriso se desfaleceu e o coração que há pouco pulava, parecia nem bater mais. Os olhos se enchiam de lágrimas. Piscou várias vezes tentando afastá-las, tentando se conter. Retomaram o casamento? Ela o ama. Ela sempre sabia que Clara amava Cadu, mas pensava que não da mesma forma, não do mesmo tipo que sentia por Marina. Os últimos dias tinham lhe enchido de esperanças. Clara correspondia. Correspondia. Gritava em sua mente, franzindo o cenho, tentando entender. Não correspondia? Só.. só era sua amiga? Estava curiosa, talvez? Lisonjeada por ter uma mulher que a desejava, mais que isso, que a amava.
Flashes, memórias, passavam pela sua cabeça. Do afastamento, da queda, Clara correndo de madrugada só para vê-la.
“Estou te amando, Clara.”
"Eu precisa vir, para te falar que eu... te adoro, Marina!"
Não conseguia falar, parecia ter perdido a voz.
– Que.. que bom, Clara. – Tentou sorrir, mas também não conseguiu.
Clara via que seus olhos não correspondiam suas palavras. Os olhos de Marina haviam perdido o brilho, pareciam mais duros, mais escuros, mais distantes.
– Eu.. eu sei que, nós. – Respirava fundo. – Mas eu não posso, Marina. Eu amo o Cadu. – Repetia. – Nós temos um filho, somos uma família. E agora tudo vai voltar ao que era antes.
Marina mordia o lábio, seu queixo tremia, estava prestes a irromper em lágrimas.
– Você.. Marina, fala alguma coisa! Se você quiser, a gente dá outro tempo. Ele não deve querer mesmo que eu continue aqui, porque você... você sabe? Mas eu vou adorar ficar, se você deixar. Mas eu entendo que você possa precisar...
Marina balançava a cabeça e finalmente olhou nos olhos dela. Não precisava dizer nada, Clara conseguia muito bem decifrar o seu silêncio.
– Eu pensei – Engoliu o choro. – Eu pensei que... – Tremia. Não conseguia falar.
– Marina.. –Tentou por a mão em seu ombro, mas Marina se afastou, balançando a cabeça e suas mãos na frente, pedindo em silêncio que ela não chegasse mais perto e sentindo as lágrimas rompendo.
“And please don't stand so close to me
I'm having trouble breathing
I'm afraid of what you'll see right now
I give you everything I am
All my broken heartbeats
Until I know you'll understand.
And I will make sure to keep my distance
Say ‘I love you’ when you're not listening
How long can we keep this up?”
Correu em enxugá-las e forçou um sorriso que parecia mais uma careta.
– O importante.. é que você seja feliz. – Se virou para ir embora.
– Marina, espera. — Clara chorou.
– Não vem atrás de mim. – Gritou e saiu correndo.
Não conseguia se segurar mais. Não queria desabar completamente na frente dela. Chorou, copiosamente. Mal conseguindo enxergar por onde andava até chegar a seu quarto. Bateu a porta, escorou nela e caiu no chão chorando alto. Estava arrasada. Como poderia ter entendido tudo errado? Achou que Clara sentisse o mesmo por ela. Achou que finalmente tinha uma chance real com ela. Achou.. achou tudo errado. Chorava, sem se importar se alguém ouvisse.
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