Can't let you go.
44 Capítulo 44
Notas iniciais
Diogo só saiu do lado dela porque finalmente deixaram Ivan entrar e o número de visitas no quarto havia sido limitado por Paulo.
– Como estou? — Perguntou se olhando no espelho e ajeitando o cabelo.
Clara não acreditava na pergunta. — Marina...
– Não quero assustar o Ivan, Clara. Ele já vai ter que me ver aqui com esse oxigênio e esses aparelhos. Quero pelo menos aparentar bem.
– Tá bem.
Ela voltou a olhar para o espelho.
– Tá linda, como sempre. Mesmo com oxigênio e esses aparelhos. Você é incapaz de ser menos que linda, Marina. Como você não sabe disso ainda? — Clara passou a mão no rosto dela e a beijou. — Tão linda que eu não consigo tirar os olhos de você, desde aquela primeira exposição.
Marina sorriu. — Não me faz chorar, amor. Tô tentando ficar apresentável.
Clara riu. – Apresentável. — A beijou. — Vou buscá-lo.
– Tá bom. — Ela suspirou. — Tô morrendo de saudades já.
Ivan entrou no quarto e andou até Marina com cautela. Notou que ela parecia mais pálida e mais magra que antes, além do oxigênio.
– Mãe?
– Meu amor, eu já não tava aguentando de saudades. — Ele a abraçou com força.
– Ninguém me explica as coisas. Você já tá aqui tem tempão e eu sei que não tá bem. — Chorou desarmando a postura que Marina tinha tentado construir para não assustá-lo.
Clara, que também começou a chorar, saiu do quarto e ficou encostada na porta de olhos fechados, tentando se controlar.
– Você vai voltar pra casa, né? Vocês duas? Quando? Já tem muito tempo que tá aqui. — Pôs a mão na barriga. — Fica bem logo, por favor.
– Tô tentando, bichinho. — Passou a mão no rosto dele. — Eu juro que tô tentando. E olhe pra mim, eu preciso de um favor. Antes da sua mãe voltar, me promete uma coisa?
Ele assentiu.
– Sua mãe tá achando que eu estar doente é culpa dela.
– Por quê?
– Porque ela é uma boba. — Sorriu. — Não deixa ela pensar assim, tá bom? Cuida dela, e não deixa ela pensar assim.
– Tá me assustando. — Ela o abraçou de novo.
– Não é pra te assustar. — Beijou o rosto dele. — Eu só tô preocupada porque sua mãe é muito teimosa e ela não me escuta. Você que é nosso homem da casa, por isso você tem que falar com ela pra mim, tá bom? Ela não pode ficar pensando assim.
Ele assentiu.
– Me promete?
– Eu prometo.
– Obrigada. – Sorriu. — Eu te amo, meu filho. — Mexeu no cabelo dele, o abraçou de novo e ficou sentindo seu cheiro. — Te amo muito, você e sua mãe foram as melhores coisas que aconteceram em toda a minha vida.
– Todinha?
– Todinha. — Ela sorriu. — Por isso sua mãe não pode pensar que eu estar doente é culpa dela.
– Eu vou falar com ela. — Ele segurou sua mão.
Clara entrou na sala novamente e ficou ao lado dos dois, com o braço no ombro de Ivan. E vendo os dois ali na sua frente tão assustados, o medo bateu em Marina e a fez pensar, pela primeira vez, se tinha mesmo tomado a melhor decisão.
“I… can’t let you go, can’t let you go.”
(Não posso te deixar ir)
O horário de visitas acabou e Ivan teve que ir, não sem antes dar vários beijos e abraços apertados nas duas. Marina, porque ele estava com medo do quão mal ela estava. E em Clara porque via o quanto sua mãe estava precisando.
Marina pegou a mão de Clara. – Não fica assim, tá bom? Não é sua culpa, por favor, eu quis tanto quanto você. Mais que você até. A ideia inicial foi minha, isso era uma necessidade minha. — Pegou na pulseira de berloques de corações que deu à Clara no aniversário de casamento, e o quarto coração já estava nela. — Nada disso é sua culpa, e nada acabou ainda. Eu te amo tanto, ver você sofrendo assim acaba comigo. Eu te prometi a maior felicidade do mundo e não é isso que tô vendo agora.
– Você cumpriu, sim. Só que agora você está doente, amor. E eu tô com medo. Eu não posso te perder.
– Eu sei. — Marina a abraçou. Queria dizer que ia ficar tudo bem, mas ela já não sabia mais disso e não queria prometer nada à Clara que não pudesse cumprir.
– Te amo muito.
Ficaram abraçadas por vários minutos, até que Clara sentiu o corpo de Marina amolecer.
– Amor?
Marina virou os olhos e caiu na cama tremendo. Clara correu até a porta e gritou ajuda e depois correu até Marina, não sabendo se devia por as mãos nela ou não.
– Marina, fala comigo.
Os enfermeiros entraram e um deles afastou Clara.
– O que tá acontecendo? Eu quero ficar aqui, não me tira.
– Ela tá tendo uma convulsão. Deixa a gente ajudá-la.
Um deles injetou um novo medicamento.
O celular de Paulo apitou.
– É a Marina!
Ele e Felipe correram até o quarto.
– Paulo, Felipe! — Clara chorava. — Façam alguma coisa.
Felipe olhou para Marina e abraçou Clara.
– O que é isso? — Perguntou assustada.
– Eclâmpsia.
– Prepara uma sala para cirurgia, estou subindo com ela imediatamente. E chame a Fátima.
– Quem é Fátima? — Clara perguntou.
– Pediatria.
Marina não se debatia mais, estava inconsciente e os enfermeiros empurravam a maca. Clara parou na frente deles.
– Espera.
Segurou o rosto dela e a beijou.
– Pelo amor de Deus, não me deixa. — Pegou sua mão. — Eu te amo muito. Você conseguiu me dar toda a felicidade do mundo, mas três anos é muito pouco, amor. Todo o tempo do mundo não seria suficiente. Volta, tá? Por favor. – Chorou.
– Clara.. — Felipe a afastou, mas ela se soltou dele e correu até Paulo.
– Paulo, me escuta. Você passou esses últimos meses com a gente, mas você.. você não conhece bem a Marina. Você não conversou com ela além da gravidez. Você já viu alguma foto dela? Alguma exposição? Você não a conhece. Você não sabe o que essa mulher é! Você não faz idéia. Você não sabe o que ela passou pra me conquistar, você não sabe o que ela lutou, o que nós sofremos pra ficarmos juntas. — Soluçava e agarrou na gola do jaleco dele puxando. — Não. Deixa. Ela. Morrer. Você... . faça o impossível pra salvar minha mulher. Eu não posso, nós não podemos perder as duas. Não deixa a Marina me deixar. Eu te imploro.
Ele pegou as mãos delas para que ela o soltasse e olhou em seus olhos. — Nós faremos tudo que pudermos por vocês, Clara. Tudo em nosso poder. Isso eu te prometo.
Ela assentiu e o soltou. Ele foi até a porta.
– Felipe, você vem?
Ele pegou nos ombros de Clara. – Não, vou ficar com ela.
– Felipe, vai! Por favor.
– Você vai ficar bem?
Ela negou. – Mas é melhor você lá com ela.
– Eu vou chamar a mamãe, tá bom?
Ela assentiu e logo o quarto estava vazio e com um silêncio insuportável. Se sentou na poltrona com as mãos no rosto e começou a rezar.
– Nossa vida inteira não seria suficiente.
“When you love somebody,
(Quando você ama alguém)
They’ll always leave too soon (…)
(eles sempre vão embora muito cedo)
If I could buy forever at a price
(se eu pudesse comprar o ‘para sempre’ por um preço)
I would buy it twice, twice.
(compraria duas vezes)
But if the Earth in fire
(mas se a Terra acabar em chamas)
And the seas are frozen in time,
(e os mares congelarem no tempo)
There’ll be just one survivor,
(haverá apenas uma sobrevivente)
The memory that I was yours and you were mine.”
(a memória de que eu fui sua e você minha)
Chica entrou na sala.
– Minha filha, vem cá. — A abraçou. — Vamos rezar pra elas ficarem bem.
– Eu não posso perder a Marina, mãe. — Falava em meio às lágrimas.
– Eu sei. Nenhum de nós. Não foi fácil ver você mudando tanto, mudando toda sua vida por ela. Mas.. eu aprendi a amá-la como minha filha também. Elas têm que sair dessa.
– O jeito que ela tava falando comigo há pouco tempo, parecia que ela tava se despedindo. – Se desesperava.
– Não, meu amor. Ela devia estar assustada, com medo, é natural. Mas não foi despedida, ela vai voltar daquela sala e bem. Tá bom?
Clara assentiu, cada pedacinho do seu corpo se agarrando naquelas palavras.
“Ela vai voltar daquela sala e bem. Elas têm que sair dessa.”
– Vamos esperar lá fora? Tá todo mundo lá.
– O Ivan tá lá? Não quero que ele me veja assim.
– Não, ele já foi. Cadu buscou.
Clara saiu do quarto, amparada por Chica. Chegando na sala de espera, seu olhar encontrou o de Diogo e ela correu para abraçá-lo.
– O que tá acontecendo?
– Ela piorou, teve uma convulsão. Eles levaram ela pra cirurgia.
Diogo engoliu suas lágrimas. — E a bebê?
– Não sei. — Clara tentou dizer, mas só conseguiu sussurrar.
Ele a abraçou de novo, pensando “Mal sobrevivi perder a Ana, não posso perder minha filha agora.”
Vanessa e Flávia permaneciam sentadas de mãos dadas.
– Ela não vai me perdoar por falar com ela daquele jeito. Pra tirar a menina.
– Vai sim. Você tava desesperada, todos estamos, ela sabe disso. Mas não seja dura com a Clara, amor. Ela já mal tá aguentando.
– Eu sei. Não é culpa dela. Só é.. ai, é a Marina, Flávia! E é tão estranho pensar que há pouco tempo atrás ela tava tão bem, sabe? Pra agora estar aqui assim.
– Eu vou.. pra capela do hospital.
– Helena, vá com ela. Eu vou buscar as roupinhas da neném, podemos precisar.
Helena assentiu. — Senhora vai conseguir dirigir nesse estado?
– Eu vou com ela. — Ricardo respondeu.
Helena foi atrás de Clara. Diogo sentou com Vanessa e Flávia.
Já tinham ligado para Cadu e avisado da piora. Ele não ia dizer nada à Ivan ainda, mas o menino percebeu o semblante do pai ao telefone e já pediu para voltar ao hospital. Ivan ainda era criança, mas tinha o direito de estar lá e a presença dele ajudaria Clara, então ele não discutiu.
Clara estava de joelhos na capela, olhos fechados e as mãos juntas. Helena ao seu lado. Ivan chegou e ajoelhou do lado dela também.
– Meu amor? Quem..
– Meu pai não me disse nada, mas eu vi a cara dele quando o telefone tocou. Pedi pra me trazer ou eu vinha sozinho.
Clara beijou a cabeça dele e ficaram de mãos dadas.
– Senhora sabe que não é sua culpa, né, mãe?
– O quê? Como..?
– Ela me disse que você tava pensando assim. Pediu pra eu cuidar de você e não deixar.
– Ela pediu? — Clara chorou e o abraçou.
– Não fica assim, mãe.
– Eu tô com tanto medo, meu filho.
– Eu sei, eu também. Mas não é culpa sua.
Felipe e Paulo se preparavam para cirurgia.
– Tem certeza que consegue ficar aqui? Você tá muito envolvido.
Ele assentiu. — Devo isso à minha irmã.
Fátima entrou.
– Cesariana de emergência? — Começou se preparar também.
– Sim, eclâmpsia.
– Chegou agora ou?
Ele negou. — Paciente minha, tenho acompanhado.
– Quanto tempo?
– Completando 30 semanas. Dei corticóide.
– Okay. Já ligaram o aquecedor do berço?
– Já. Vamos, não podemos esperar mais tempo.
Entraram na sala de cirurgia, Marina já estava anestesiada e pronta na mesa.
Fátima entrou e se posicionou ao lado do berço com uma interna.
– Vamos lá, Marina. Bisturi. — Estendeu a mão pedindo. Fez o primeiro corte.
Fátima olhou para o rosto da mãe.
– Marina Meirelles? A fotógrafa?
– Sim, conhece?
– Não pessoalmente, infelizmente. Mas já fui em algumas exposições, ela é maravilhosa. Conhece o trabalho dela?
– Não. Mas vamos tirar ela dessa mesa bem, porque a próxima eu não perco de jeito nenhum.
Paulo continuou cortando as camadas.
– Ela não é lésbica?
– É. — Felipe respondeu. — Casada com a minha irmã Clara. Elas fizeram inseminação.
– Legal. Não sabia que ela estava grávida. Qual o sexo do bebê?
– Menina. Ana Carolina.
Fátima se aproximou mais e olhou para Marina.
– Força, minha filha. Pras duas.
Quis passar a mão em sua cabeça, mas já estava usando luvas e seu trabalho ali era focar na recém nascida. Voltou pro lado do berço.
– Como ela está, Felipe?
Felipe olhou para o monitor. — Estável, bem. — Ele sorriu.
– Isso aí, Marina. Agora vamos pro útero.
Felipe se afastou um pouco, Paulo fez o corte e o líquido amniótico espirrou.
Paulo soltou o bisturi e enfiou as mãos para tirar a criança.
Logo já estava com Ana que cabia direitinho em suas mãos, mas não chorava.
– Felipe.
Felipe cortou o cordão umbilical. Fátima se aproximou para pegar Ana Carolina
– Ela não tá respirando. — Passou para Fátima com cautela.
Fátima já estava a levando pro berço quando Paulo a chamou mais uma vez.
– Fátima.
Ela olhou e ele não precisava dizer mais nada. Assentiu.
– Sucção e vamos estimulá-la. — Colocou no berço. — Nosso minuto de ouro já está passando.
A interna começou a sucção, limpando a boca e vias aéreas da bebê enquanto a pediatra auscultava. Fátima tirou o estetoscópio e pôs no pescoço.
– Sem batimentos. — Iniciou as compressões. — Inicie ventilação. Se precisar, vamos entubar. Cadê o carrinho de parada?
Felipe se concentrou na criança. Paulo já tinha começado a suturar Marina quando o monitor começou apitar.
– Felipe!
– Batimentos caindo. — Ele arregalou os olhos e voltou pra ajudar Paulo.
– Nada ainda. — Disse Fátima. — Injete epi. — Continuou as compressões e deu uma última olhada em Marina.
“But the only thing that doesn’t die is love.
(Mas a única coisa que nunca morre é o amor)
So keep me alive.”
(Então, me mantenha viva)
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