Can't let you go.
40 Capítulo 40
Notas iniciais
– Senhora? — Marina abriu os olhos. — Pode me dizer seu nome?
– Marina Meirelles.
– Senhora Marina, sabe onde está? — Observou seus olhos com a lanterna.
Marina virou o rosto incomodada com a luz. — Algum hospital de Niterói. Cadê a Clara?
– Clara é...?
– Minha mulher.
– Fazendo sua ficha.
– Minha bebê?
– Vamos checar.
Se dirigiu ao enfermeiro. — Põe ela no soro com antiemético e checa dados vitais. Ei, você, avisa a obstetrícia para um ultrassom.
O enfermeiro começou a preparar o soro.
– Clara disse que você se referiu à pontos escuros na visão.
– Aham.
– Alguma outra alteração na visão?
– Não. — Fez uma careta ao sentir a agulha do soro.
Vinícius apertou os pés de Marina com o polegar. — Bem edemaciada, cacifo 2 cruzes. Vamos pedir um urina rotina.
– Batimentos rítmicos, dois tempos, sem sopros, 105 batimentos por minutos.
– Taquicárdica.
– Frequência respiratória de 25, pressão 130/80mmHg.
– Um pouco alterada, mas pode ser o estresse da situação, checa de novo depois.
O enfermeiro assentiu.
– Marina. — Clara entrou na sala. — Tô aqui, meu amor. — Pegou sua mão.
– Minha bebê? — Perguntou de novo.
– Vamos ver agora. Vou levá-la pra ultrassom. — Um outro médico respondeu.
Tiveram que empurrar a maca até uma sala com ultrassom e Clara foi atrás. Na sala, as duas olhavam apreensivas para o monitor, mesmo que não entendessem muita coisa, mas só de ver os números que indicavam os batimentos cardíacos fetais já ficavam mais calmas.
– Olha, parece que tá tudo bem com ela. Só é pequena.
– Parece? — Marina olhou para Clara. Clara assentiu e saiu da sala para ligar para Dr. Paulo, que não atendeu.
– Droga — Foi atrás do Dr. Vinícius.
– E a bebê?
– Ele acha. — enfatizou a palavra. — Que tá tudo bem. Eu queria levá-la pro Rio...
– Ela vai ter que ficar internada, pedi alguns exames.
– Eu sei, é que já temos um médico lá, tem meu irmão também. Será que não podemos transferir pra lá?
– Não tem motivo algum pra isso. Podemos cuidar dela aqui. — Saiu sem dar atenção à Clara, que apertou o celular na mão com raiva e tentou ligar de novo, voltando pra perto de Marina.
– E aí?
Marina entregou o laudo do ultrassom pra ela. — Não falou mais nada. Colheram xixi. Ligou pro Paulo?
– Tentei, não atendeu. Vou tentar mais vezes. Como você tá? — Passou a mão em seu braço.
– Enjôo passou. Mas a visão ainda tá meio.. turva, sei lá. — Clara beijou sua testa e suspirou.
– Não querem te transferir. Expliquei que já temos médico lá, mas..
Marina fechou os olhos.
– O que será que tá acontecendo, meu amor? — Pôs as mãos na barriga.
Clara pegou sua mão e tentou ligar mais algumas vezes.
À tarde, finalmente conseguiu uma resposta.
– Alô, Dr. Paulo? — Tampou o microfone do celular. — Atendeu, Marina. — Cochichou e saiu da sala. — Paulo, é a Clara, mulher da Marina Meirelles.
– Claro, tá tudo bem?
– Não, não tá. Nós estamos em Niterói, a Marina passou mal e está internada num hospital aqui.
– O que houve?
– Ela reclama de visão turva, inchaço, ouvi o médico dizer cacifo 2 cruzes, nem sei se isso tem algo a ver. Enjôo, até vomitou. E tá aqui. Fizeram ultrassom e ele disse que nossa bebê parece bem, mas pequena. Mas só “parece bem”? Não gostamos disso. Pediram exame de urina e ela tá no soro.
Paulo respirou fundo. — Qual hospital? Tô indo aí.
Clara falou o hospital e ele anotou.
– Te deram o laudo do ultrassom?
– Sim, tá comigo.
– Ótimo, manda no meu celular. Já eu chego aí.
Enquanto Clara estava no telefone, Vinícius retornou com o resultado do exame.
–Marina, seu exame mostrou muita proteína na urina, o que não é esperado, tá mais que o normal. É por isso que você tá com edema, tá perdendo muita proteína, como a albumina, o líquido sai dos seus vasos. Isso demonstra que sua função renal tá prejudicada, vamos fazer outro exame mais completo pra checar e, enquanto isso, vamos começar reposição volêmica. — Se virou para o enfermeiro. — Checa os dados vitais novamente em meia hora.
– Mas eu nunca tive nenhum problema renal!
– Vamos esperar o resultado, por hora é o que os sinais clínicos indicam. — Saiu.
Clara retornou.
– Ele está vindo. — Sorriu.
– Médico teve aqui, acha que é algum problema renal.
Clara olhou para ela preocupada e deitou a cabeça em seu braço.
– Vão fazer outro exame.
Clara beijou o braço dela.
No carro, antes de sair, Paulo olhou as imagens.
– Pequena, já era pra estar maior à essa altura. — Ligou o carro.
Não muito tempo depois, Paulo chegou ao hospital perguntando por Marina e indicaram onde estava.
– Marina, cheguei.
– Ai, ainda bem, Paulo. Eu não tô me sentindo nada bem nesse hospital, não conheço ninguém, ninguém conhece a gente, não explicam nada direito.
Ele assentiu. — A Clara já me passou o quadro, eu vou conversar com quem te atendeu agora e já volto.
Ela concordou.
Paulo procurou a sala de Vinícius.
– Com licença. Prazer, meu nome é Paulo. Eu sou médico da Marina lá no Rio.
– Dr. Vinícius. — Apertaram as mãos.
– Como ela tá? Já sei o que houve antes, mas pode me passar o que vocês já tem desde que ela chegou aqui?
– Bom, ela chegou aqui acordada, edema em membros inferiores, 2 cruzes. Fizemos exame de urina.
– Hm, e aí?
Ele pegou o resultado. — Proteinúria moderada.
– Proteinúria? — Ficou pensativo.
– Pedimos outro exame para verificar a função renal. De dados vitais, um pouco taquicárdica e a pressão de 130 por 85, que atribuímos ao estresse da situação.
– Como é que é? Da pressão?
– 130 por 85. Bem, dada a situação, foi uma alteração leve.
– Leve? Grávidas são hipotensas, é uma das coisas da gravidez. A Marina é minha paciente, tô acompanhando há meses, e pelo histórico, a pressão dela já era 110 por 60 antes mesmo de engravidar! Quer dizer que é leve ela estar em 130 por 85??
– 140 por 90, segundo a última aferição. — O enfermeiro entrou.
Paulo passou a mão na cabeça e se virou para Vinícius. — Estresse da situação??? — Passou a mão o rosto. — Proteinúria, edema, hipertensão. — Enfatizou a última palavra. — Ela tá com DHEG! — Se virou pra sair, mas parou na porta. — Chama uma ambulância porque eu vou levar ela embora. E vou deixar meu email na recepção, me manda o resultado do último exame assim que o tiver.
Saiu atrás de Marina resmungando. — Claro que não ia se sentir bem aqui. Estresse da situação?
– É um alívio te ver aqui, Paulo!
Ele suspirou. — É sim, e eu pedi uma ambulância pra gente voltar pro Rio.
– Ainda bem. — Clara pegou a mão dela.
– O que tá acontecendo? Eles disseram que tô com algum problema renal.
– Olha, Marina, eu vi o ultrassom, a Clara me enviou. Nós vamos repetir no Rio, mas eu esperava nossa bebê um pouco maior do que ela está. Vamos ver o que tá acontecendo. — Respirou fundo. — Pelo quadro, eu tô suspeitando de doença hipertensiva específica da gravidez.
– Que isso? — Marina enxugou lágrimas.
– Significa que a gravidez tá te deixando hipertensa.
– Mas por quê? Eu nunca tive problemas de pressão, e tô nova pra isso, né?
– Tá, mas às vezes acontece na gravidez.
O enfermeiro interveio. — A ambulância tá pronta.
– Vamos embora, eu te explico tudo na viagem, tá bom? — Pegou sua mão.
– Eu vou com vocês. Vou pedir alguém pra buscar o carro.
Na ambulância, Paulo voltou à explicar.
– Isso é comum. — Suspirou. — Geralmente aparece na segunda metade da gravidez. É o que tá causando tudo isso que você tá sentindo. Vou te explicar de um jeito mais fácil. Tem a ver com o início da gravidez, com a remodelação das artérias uterinas, a causa ainda não é muito bem conhecida, pensa-se em fator imunitário. Por isso acontece mais na primeira gravidez. A consequência é uma alteração vascular útero-placentária que pode trazer vários problemas. Por enquanto, o que temos é o seu quadro e o pequeno tamanho da sua bebê.
Marina e Clara choravam de mãos dadas, mas ouviam atentamente.
– Mas ela tá bem, né? Só tá pequena? — Ele assentiu. — Os maiores problemas estão acontecendo com você.
– Menos mal.
– Essa doença hipertensiva, associada ao edema e a proteína que encontraram na sua urina caracterizam um quadro de pré-eclâmpsia.
Clara arregalou os olhos. — E o que fazemos agora?
– Agora nós vamos começar o tratamento, o mais rápido possível.
Clara começou a tremer.
– Eu posso…? Meu irmão, Felipe, é médico. Eu posso ligar para ele ir pro hospital e ficar acompanhando?
– Claro, à vontade.
Marina ficou calada. Não sabia muito bem o que estava acontecendo, mas já tinha ouvido o nome antes e sabia que boa coisa não era. Segurou na mão de Clara com mais força e ficaram em silêncio por toda a viagem.
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