Marina estava encolhida, deitada em uma das poltronas de seu estúdio, no final de um dia de trabalho. A maioria das meninas já tinham ido embora, mas ela tinha trabalhado até a noite. Olhava para cima pensando em Clara. Os últimos dias tinham sido tão bons que nem pareciam reais. Elas estavam mais próximas. Clara não tinha se entregado ainda, mas Marina conseguia ver que era correspondida, que a assistente fazia o maior esforço do mundo para se manter numa distância segura.

Se lembrou do dia em que Cadu brigou com ela, e Clara correu lá tarde da noite só para vê-la, com flores. Marina sorria pensando nas lágrimas de Clara, não que ela estivesse feliz pela tristeza dela, mas sim porque aquelas lágrimas significavam que Marina não estava sozinha naquele sentimento. Os abraços de Clara gritavam isso, ela sentia.

E os quase beijos? Ah, como ela queria beijá-la, colocar todo seu amor num beijo. Mas respeitava Clara, o suficiente para não fazer nada que ela não quisesse ainda. Não podia fazer nada para assustá-la, e, portanto, esperaria. Não se importava de esperar, pois a cada dia conseguia ver a mudança nos olhos de Clara. Até ciúmes da Vanessa ela parecia ter agora. Abria um sorriso imenso só de pensar em Clara sentindo ciúmes dela.

- Marina, a gente tem que terminar de montar as fotos pra esse projeto do dia das mães. O pesso... – Vanessa parou, vendo que Marina não havia escutado uma palavra. – Marina. Oiê, Marina, estou falando com você. – Estalou os dedos na sua frente.

- Oi, Van. O que você disse?

- Em que mundo você está, heim?

- No mundo Clara. – Sorriu apaixonada.

- Ai, me poupe. Estou falando de coisa mais importante, o projeto das mães, tem que ficar pronto o mais rápido possível.

- Eu sei, eu sei. Já tá quase pronto. Trabalhei nessas fotos até tarde. Vai dar tudo certo. – Se levantou. – Vou subir. Tomar um banho e dormir. – Beijou seu rosto.

Marina entrou em sua banheira, ainda pensando em Clara. No dia em que dançaram juntas. Mesmo que tenha sido só uma dança, Marina nunca tinha vivido algo tão íntimo com alguém antes. Elas se conectaram nesse dia. Clara se entregou ao seu toque, ela percebeu. E de novo, aquela vontade de beijá-la. Juntava toda a sua força para manter os seus lábios só o rosto dela. Bem próximo ao canto de sua boca. Mas duvidava que Clara negaria se tivesse tentado algo mais.

- Eu finalmente tenho uma chance real. – Sorriu e foi pra cama, se sentindo imensamente feliz.

Enquanto isso, no apartamento de Clara, as coisas também iam bem. Cadu havia ouvido o conselho de Nando de parar de brigar com ela. Até tinham voltado a fazer amor. Clara se sentia cada dia mais confusa. Não negava o toque do marido, mas ao mesmo tempo, lhe parecia estranho. Mesmo que estivesse tão acostumada àquele momento, sua mente sempre vagava pra Marina. Era preciso fazer um tremendo esforço para manter a fotógrafa fora de sua mente e se concentrar em Cadu, que estava ali, em cima dela.

E nessa noite, tudo ficou melhor, ou pior. Cadu estava lhe dando uma aliança nova.

- Um símbolo de recomeço. Quer se casar comigo de novo?

O coração de Clara batia forte no peito, Cadu estava lhe oferecendo a chance de deixar todas as mágoas, todas aquelas palavras ditas para trás, e começar de novo. Poucos segundos se passaram, mas parecia uma eternidade. Olhava para o marido ali em sua frente e a aliança em sua mão, e sua mente formava a imagem de Marina. Antes, tudo parecia perdido, seu casamento estava cada dia mais decadente, era evidente o final. Mas agora, agora Cadu lhe dava outra opção, a chance de começar como se fosse do zero.

- E aí?

Sorriu para ele, passando a mão em seu rosto. Ainda era o mesmo homem por quem tinha se apaixonado há dez anos. Claro que tinham brigado muito, e Cadu tinha se mostrado uma pessoa diferente nos últimos dias, mas.. ele estava magoado. Era natural brigar quando se sentia ameaçado. E ali agora, na cama, ela olhava para ele e ele ainda era aquele mesmo homem. Ivan estava tão feliz que os dois estavam se tratando melhor. Quem sabe não era a chance que sua família precisava? Marina apareceu em sua mente de novo, e Clara balançou a cabeça tentando afastar sua imagem. Não conseguia trocar o certo pelo duvidoso. Olhava para Cadu, ainda com amor. Talvez não paixão, mas sim com amor. Um amor diferente, mas ainda era amor. Quem sabe isso bastava?

- Sim. – Falou deixando algumas lágrimas escaparem.

Cadu sorriu imensamente, tirando a aliança da caixinha e colocando em seu dedo. Se abraçaram e Clara chorou esperando que tivesse feito a escolha certa.