– Duas vezes no mesmo dia. É isso mesmo?! — disse enquanto ela se sentava ao meu lado na areia.

– Sabia que passear na praia foi uma das coisa que mais senti falta durante todo esse tempo que fiquei fora? — disse Marina com um ar nostálgico — Lembra das vezes que saímos da escola e vínhamos para a praia passar o tempo? Tinha vezes que ficávamos para ver o por-do-sol, lembra?

– Pow, isso virou rotina nos últimos meses do terceiro ano.

– Verdade! Depois que você terminou com o Igor ficamos mais próximas ainda. Como fomos deixar nossa amizade terminar daquele jeito? Não consigo acreditar que ficamos sem nos falar quase cinco anos. — disse Marina triste.

Ficamos olhando uma nos olhos da outra em silêncio por um tempo. Ela pegou a minha mão com carinho.

– Clara, senti muita saudade de você! Sei que não deveria ter te beijado no dia anterior a minha viagem, mas foi mais forte do que eu. Simplesmente não conseguia mais sofre calada. Precisava arriscar. Precisava falar que estava te amando. Não conseguia mais conviver com a presença da ausência do seu amor.

– Marina, também senti muito a sua falta, mas aquele e-mail me machucou muito. Não sabia como lidar com o que estava sentido, com o que tinha acontecido entre a gente e as palavras escritas por você naquele e-mail. A melhor solução era romper de vez mesmo. Seria mais fácil assim. Ainda mais que você já estava em outro país. — disse com um pesar na voz.

– Por várias vezes achei que meu sentimento por você era correspondido, mas não tinha certeza absoluta. Não queria arriscar ficar longe de você igual aconteceu quanto te contei que sou lésbica, mas quando te beijei tive certeza que meus sentimentos por você não eram unilateral. — disse Marina — Depois fiquei confusa de novo. Você não foi atrás de mim, não me ligou, não pediu para eu desistir da viagem. Tinha certeza que você tinha retribuído meu beijo com a mesma paixão e intensidade. Cheguei em New York e o vazio me consumiu. Você não deu nenhum tipo de sinal de vida. Não queria arriscar te perder novamente, por isso mandei aquele e-mail, mas acabou que não deu muito certo, né?

– Né?!

– Acho que acabou que eu não fantasiei seus sentimentos por mim, afinal você está namorando a Maria Eduarda, certo? — perguntou Marina sem ter certeza de que gostaria de ouvir a confirmação de que Clara estava namorando.

– Marina, não vou negar. Estou namorando a Duda. Apesar de estarmos junta já a algum tempo, só recentemente que contei para a minha família. Você tem razão. Eu era, e acho que ainda sou, — disse muito baixinho esta parte, quase inaudível — apaixonada por você, mas admitir e me aceitar plenamente foi um processo muito doloroso. Não estava pronta naquela época para bancar minha verdadeira orientação sexual e com você indo morar em outro país... Não havia razão para eu sair do armário naquela época. Cheguei a namorar outro menino na época da faculdade, mas acabou que não deu certo. Vi que não tinha mais como fugi. Precisava me aceitar.

– Eu te entendo, Clara. Apesar de sempre ter sido muito bem resolvida com a minha orientação sexual e da minha família ser mente aberta, sei que não é fácil admitir que é diferente. — disse Marina compreensiva.

O dia amanheceu e nem vimos o tempo passar. Ela me contou sobre o seu tempo em New York, sobre as exposições, sobre como teve a ideia de fotografar mulheres nuas, sobre a faculdade de fotografia e contei um pouco do que aconteceu na minha vida durante esse tempo que ficamos afastadas. Parecia que nunca ficamos sem nos falar, nossa conversa tinha a mesma cumplicidade e ar de confiança de antes.

– Nossa! Já amanheceu. Caramba, já são 6h30! Tenho que ir. Minha mãe vai me esganar se descobrir que dormi fora de casa! Tchau, Marina — disse já levantando e senti ela segurar minha mão.

– Clara, será que a gente pode almoçar hoje? A sua companhia me faz tão bem. — disse Marina.

– É... É que, geralmente, sábado almoça todo mundo junto. A família inteira. Não vai dar, mas a gente pode marcar outro dia. — disse com um meio sorriso.

– Conheço toda a sua família, mas não vou me intrometer. Almoço de família é almoço de família. Seu número de celular ainda é o mesmo?

– Ainda tem meu número? — perguntei surpresa

– Porque não teria? Só porque você me ignorou por quase cinco anos?! — disse Marina rindo — Não costumo guardar rancor das pessoas, principalmente, das pessoas que gosto muito! Vou te ligar para a gente marcar de se encontrar, posso?

– Claro, né! Agora deixa eu ir. Senão minha mãe vai me matar — disse rindo e me abaixei novamente e beijei seu rosto — Até!