Can't Run From It Anymore
8 Capítulo 8
Entrei em casa com os sapatos na mão e na ponta dos pés seguindo em direção ao meu quarto torcendo para minha mãe ainda não ter acordado. Sabe como é. Mãe tem o poder de dormir com a antena ligada. Nunca vi. Quando eu estou dormindo o mundo a minha volta simplesmente não existe, nunca ouço nada. Já minha mãe, sempre sabe a hora que a gente chegou. É impressionante!
– Você dormiu na casa da Maria Eduarda? — perguntou minha mãe meio brava sentada no sofá da sala — Tá. Sei que você já tem 23 anos. Sei que os tempos são outros, mas podia ao menos avisar, né?! Atender o celular também é bom!
– Mãe?! — disse sem graça e assustada — Desculpa. Perdi a hora. Quando percebi já tinha amanhecido. Meu celular deve estar no silencioso...
– Já te disse para tirar essa porcaria de celular do silencioso e não deixar na bolsa — disse ela me interrompendo.
– Mãe, desculpa. Não dormi na casa da Duda. Eu estava na praia. Estava precisando ficar um tempo sozinha pensando na vida. Deixei a Duda na casa dela depois que saímos da exposição e voltei para Copacabana. Estava sentada na areia e a Marina apareceu lá. A gente ficou conversando. Perdi a hora. Desculpa. — disse com sinceridade.
– Conversando na praia?! — perguntou ela desconfiada — Clara, Clara...
– Mãe, estou falando a verdade. Se quiser ligar para a Marina, ela pode confirmar essa história para você.
– Clara, só vou te falar uma coisa. Não foi fácil para mim aceitar que você está namorando uma menina, mas estou tentando. Mas independente de namorar uma mulher ou um homem é muito importante ser leal e verdadeira com o seu/sua parceiro/a. A Maria Eduarda trabalha com você. Pensa bem no que você está fazendo.
– Não estou te entendendo, mãe. Não fiz nada de mais. Só ficamos conversando. Fazia quase cinco anos que a gente não conversava e nem se via.
– Clara, pelo que você me contou, você ainda não superou completamente a sua atração pela Marina, mas apesar disso você parece estar se dando super bem com a Maria Eduarda. Já estão justas há quase 1 ano. E querendo ou não, ela foi a razão para você sair do armário. Será que vale a pena arriscar isso tudo pela Marina? Você nem sabe se ela vai voltar para New York ou se vai ficar mesmo no Rio.
– Mãe, não começa a colocar mais caraminhola na minha cabeça. Eu estou com a Duda. Gosto dela e respeito muito ela. Não seria capaz de sacanear com ela. Não voltei a falar com o Cadu, porque não posso voltar a falar com a Marina? — perguntei meio indignada com as suposições feitas pela minha mãe.
– Cada cabeça uma sentença. Você sabe muito bem que o que sente pelo Cadu é totalmente diferente do que sente pela Marina. Pensa bem!
– Tá, mãe. Vou dormir. Estou morrendo de sono.
– Coloca o despertador. O pessoal e a sua namorada vêm almoçar aqui e eles devem aparecer aqui por volta das 11h30.
***
Não dormi nem três horas, mas mesmo assim deu para descansar um pouco. Quando acordei com o despertador, tinham 5 ligações da Duda no meu celular e uma mensagem que dizia: “Levei um bolo mesmo?! Vacilo!”. Isso só pode ser praga da minha mãe. Não acredito que esqueci que a gente tinha combinado de correr no calçadão às 8h30.
– Posso entrar? — disse a Duda batendo na porta e abrindo devagar
– Oi, Duda! — disse levantando e indo em direção a ela — Desculpa, acho que dormi demais.
– E dorminhoca! Que cara de sono é essa?! Bem que sua mãe me falou que era capaz de você ainda estar dormindo. Acabou de acordar, né?
Apenas ri meio sem graça.
– Vou tomar banho rapidinho, tá?! Já volto. Você escolhe o programa de hoje a tarde. — disse com um meio sorriso dando um beijo no seu rosto.
Escolhi uma roupa e fui tomar banho. A Duda ficou lá no quarto me esperando.
– I ai? Escolheu? Praia, cinema, museu? Qual é a programação da tarde? — perguntei saindo banheiro ainda penteando meu cabelo.
– Seu celular tocou! — disse Duda com uma voz um pouco irritada.
– Sério?! Você viu quem era? — perguntei com um pouco de medo da resposta. Se tem uma praga que pega é de mãe.
– O número não estava salvo na sua agenda, mas logo em seguida recebeu uma mensagem e foi impossível não ler a parte da mensagem que apareceu com a tela do seu iPhone bloqueada.
Peguei meu celular que estava ao lado dela e li a mensagem
“Clarinha, como estava com saudade das nossas conversas na praia. I ai? Sua mãe já tinha acordado? Está encrencada? Estou organizando meu estúdio, você não quer vir me dar uma força depois do seu almoço? Beijos, Marina”
Terminei de ler a mensagem e só fechei os olhos. Estava encrencada, eu sabia. A Duda era meio ciumenta. E a pior parte é que não tinha feito nada de mais.
– Você ficou no praia até amanhecer? — disse ela meio brava — Com quem? Foi por isso que não foi correr comigo?
– Duda, eu não fiz nada de errado. Já te falei que não tem motivo para ficar assim. — disse tentando amenizar as coisas.
– Vou adivinhar! — disse ainda brava — Foi com a Marina que você ficou na praia, não foi? Ela não era só sua amiga, né? Foi ela a única menina que você tinha beijado antes da gente ficar pela primeira vez, não foi?
– Duda,... — disse procurando as palavras.
– Clara, sério. Não vou ficar aqui tentando concorrendo com alguém que você não conseguiu esquecer completamente em cinco anos. Você sabe o que eu sinto por você. Sabe muito bem que tenho planos para a gente, mas não tenho vocação para ser feita de besta. E parece...
– Duda, — disse interrompendo-a — você sabe que você é muito importante para mim. Eu gosto muito de você, mas não vou negar. Sempre disse que tento ser o mais verdadeira possível nos meus relacionamentos. Eu nunca esqueci a Marina. A nossa ligação é impressionante, mas eu estou com você! Não seria justo eu te trocar assim, só porque alguém do meu passado voltou para minha vida.
– Pena é a última coisa que eu preciso de você, Clara — disse ela me interrompendo indo em direção a porta do meu quarto.
– Duda! — disse tocando no seu ombro e fazendo ela ficar de frente para mim — Eu gosto muito de você! Eu também acredito na nossa relação! Não vai embora! Não tem motivo para a gente terminar assim. Se você não fosse importante para mim, acha que eu teria contado para minha família que gosto de meninas?!
Ela deu um meio sorriso. Cheguei mais próximo dela, rocei meu nariz no dela, beijei seu pescoço, segurei na sua nuca e a beijei com intensidade. Ela tentou resistir, mas logo se entregou ao beijo. Fomos andando em direção a minha cama com os lábios colados e com nossas línguas dançando dentro da boca uma da outra de forma perfeita e intensa. Deitei-a na cama, separamos o beijo buscando o ar, olhei nos olhos dela, ficamos assim por alguns segundos e ela veio para cima de mim. Me beijou e virou ficando por cima de mim na cama.
Minha mãe bateu na porta e começou a abri-la lentamente quebrando o clima. Levantamos rapidamente e ficamos sentadas uma do lado da outra na cama com um meio sorriso sem graça. Não seria muito legal se minha mãe nos visse nos pegando dessa forma.
– Clara, seus irmãos já estão aí e sua tia também. — disse minha mãe.
– Tá, mãe! A gente já vai.
– Vê se não demora!
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