Candor Lunar - Livro 2

42 Entre Capítulos - O Chamado do Lobo


Notas iniciais
Olá, minha gente.

Mais um Entre Capítulos curtinho.
Este é apenas para vocês situarem onde Quil e Nessie estarão... é um jeito de mostrar um pouco de todo mundo para que nenhum personagem fique "solto" nos próximos capítulos que serão decisivos.

Finalmente a tempestade chega aos Volturi... e estamos nos últimos capítulos do Livro 2...
Vejo vocês em breve.
abraço.

EEntre Capítulos — O chamado do lobo

Renesmee estava sonhando. Ela sabia que era um sonho por causa da estranha tonalidade do céu e das arestas borradas da realidade, tinha consciência de si mesma apesar de que sua visão estava levemente embaçada e estranhamente ampliada, como se estivesse vendo tudo com lentes de aumento.

Mas não tardou para que sua visão se ajustasse ao sonho e ela se pegasse caminhando por uma planície longa e descampada, o céu tinha uma cor laranjada como quando o sol nascente ergue-se diante de um céu nublado. Ameaçava cair uma chuva. Ela sentiu um cheiro de eletricidade no ar e ouviu trovões ecoarem ao longe, uma tempestade se encaminhava até ela, e Nessie sentiu medo.

Ela girou sua cabeça para todos os lados procurando um local para onde pudesse correr e se esconder da chuva, mas não havia nada, ela gritou e sua voz ecoou pelo lugar vazio e não houve qualquer resposta. Então ela correu ao máximo, usando toda a sua velocidade de vampira, atravessou quase voando a campina até que deu de cara com um muro... um muro de escuridão.

Era como se parte da noite estivesse solidificada à sua frente, um breu tão denso que não era capaz de se ver através dele, Renesmee parou e ficou admirando aquele negrume intransponível imaginando se era possível entrar nele e atravessá-lo, mas alguma coisa lhe dizia para que não fizesse isso e ela recuou. E foi quando viu. Havia um corpo flutuando dentro daquela parede de escuridão, como se aquilo fosse uma piscina de águas negras, o corpo estava vestido de branco e os cabelos longos espalhavam-se ao seu redor e Nessie percebeu que era uma mulher e que ela aproximava-se dela.

A mulher flutuou tranquilamente por aquela estranha treva e então endireitou o corpo e deixou-se cair em pé, caminhou lentamente em direção à Nessie até que estivesse muito próxima do limiar e então parou e sorriu e Renesmee sentiu todo o ar dos pulmões faltarem-lhe... sua mãe a olhava de dentro da escuridão.

Bella tinha o rosto sereno e parecia muito tranquila, ela olhou carinhosamente para a filha, mas quando Renesmee fez menção de andar até ela Bella fez um sinal firme para que a filha ficasse ali.

– Mãe – chamou Nessie desesperada – Saía já daí.

– Eu não posso – respondeu Bella.

– Claro que pode, saía daí.

– Eu não posso, Nessie... veja – e dito isso Bella deu um passo a frente mantendo exatamente metade de seu corpo para fora, ao contrário do que Nessie esperava Bella tinha as roupas e os cabelos secos e não molhados. Bella estendeu a mão e um estranho sol refletiu nela, imediatamente bolhas estouraram da pele de Bella e queimaduras vermelhas e hemorrágicas cobriram seu rosto, mas ela não parecia estar se importando. Nessie gritou.

– Não, mãe, o que foi? O que aconteceu? Não fique aqui... saía do sol, eu vou até aí.

– Mas você não pode, querida... você não pode vir até mim.

– Por que não?

– Porque você foi embora, Nessie, não se lembra? Você partiu para longe de mim.

– O que? — arfou Renesmee assustada — Eu jamais a deixaria.

– Mas você deixou – e a voz de Bella era triste, ela recolheu-se novamente na escuridão e sua pele já não apresentava o sinal das queimaduras – Você deixou todos nós para trás.

Com isso Renesmee notou outras sombras emparelhando-se à de sua mãe, estavam ali Jacob, seu pai Edward, Carlisle, Alice, Jasper, Garret, Kate, Esme... todos eles olhando-a com intensidade, como se há muito tempo não a vissem. Renesmee caiu no chão aos prantos, ela queria que aquilo parasse, queria despertar, queria dizer que nunca iria embora.

E então acordou.

Deu por si sentada na cama de dossel em um dos quartos principais do Pináculo da Luz, Renesmee sentia seu peito subir e descer rapidamente enquanto ela respirava o ar frio da noite, sua mente voltou-se para a janela aberta e para o som do mar furioso remexendo-se nas pedras afiadas lá muito abaixo. O sonho ainda fresco em sua memória, a agonia presa em sua garganta, ela sentiu frio e sabia que não era pelo ar gelado da noite, outrora sua mãe sempre corria para ampará-la quando ela despertava de um pesadelo... lá em sua casa em Forks, mas aqui na Itália, no território dos Volturi, ela não apareceria. Provavelmente as Rainhas não tinham tempo para confortar suas filhas quando tinham sonhos ruins.

Renesmee levantou-se da cama, o chão gelado causou-lhe arrepios nos pés descalços, ela caminhou até a janela e olhou para o oceano negro e gigantesco que existia ali desde épocas imemoriais, a noite reluzindo negra sobre sua superfície plana fazendo-a lembrar-se da parede de escuridão em seu sonho. Mas teria sido apenas um sonho ou uma premonição? Renesmee havia sonhado com a desgraça que cairia sobre sua família meses antes de acontecer, mas não havia lhe dado importância. Não, não fora isso... ela não soubera interpretar os sinais. Mas agora sabia que não deveria pensar com leviandade sobre seus sonhos, eles eram bastante premonitórios... sua mãe tinha sonhos assim quando era humana e pelo visto ela herdara este estranho dom.

Nessie queria dormir, mas não conseguiu... lembrou-se que quando o dia amanhecesse seria o dia do casamento de sua mãe com um rei...

… um rei de vampiros.

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Quil admirou a claridade do sol iluminando o horizonte distante, a linha da borda do mundo adquiria uma tonalidade amarelada enquanto a manhã avançava para o meio-dia, o oceano passou de um verde escuro para um azul profundo. Havia andorinhas cantarolando nos rochedos onde centenas de ninhos haviam sido postos, os pátios do palácio ainda mantinham uma pequena multidão que conversava e gracejava desde a noite anterior.

Deve ser uma maldição, pensou Quil, não poder dormir e ter de passar noite após noite acordado, como é que não enlouquecem?

Claire gostava de ver o sol nascer, lembrou ele, a pequena e delicada garota com sua energia saltitante da infância, sempre pronta a despertar de madrugada apenas para ver o sol levantar-se sob os pinheiros de La Push. E Quil sempre esteve lá quando ela desejava ver o nascer do dia, ele ainda se lembrava da luminosidade cingindo a tonalidade de seus pequenos e curiosos olhos tornando-os dourados e brilhantes. Quil não evitou sorrir, ele desejou com todas as forças de seu valoroso coração que Claire crescesse saudável e que se apaixonasse por um bom rapaz que a trataria com todo o respeito que ela merecia.

Com sorte ela irá esquecer-se de mim, irá crescer e lembrar que teve um grande amigo na infância e esta será toda a lembrança que terá de mim, mas será melhor assim, será uma boa lembrança. Eu não iria querer que ela se sentisse triste por minha causa. Ela pode revoltar-se um pouco agora que está entrando na adolescência, mas a esta fase irá lhe trazer muito mais coisas em que pensar... é melhor assim... melhor assim...

Mas ele sabia que não seria tão simples, Claire tinha quatorze anos agora e ela já entendia muito bem as coisas, era uma garota muito esperta.

Quil desencostou-se da murada do pátio externo e caminhou entre vampiros e humanos, em algum lugar ele conseguiu de um garçom humano três garrafas de vinho, não se dignou a ler o rótulo, ele não entendia de vinhos e só se interessava pelo álcool que a bebida poderia lhe dar. Quil descobriu que alguns vampiros tinham o hábito de misturar vinho ao sangue para dar um gosto levemente alcoólico, mas ele varreu o pensamento de sua cabeça... vinho misturado com sangue parecia ser uma coisa realmente nojenta.

Agarrado às garrafas Quil tropeçou até os jardins onde havia árvores suficientes para produzir sombras frescas, as fontes eram um elemento tranquilizante e o ruído da água caindo lhe deu sono, o lobo sentou-se sob uma árvore e emborcou as três garrafas de vinho de um trago só. Os lobos de La Push tinham um leve empecilho em embebedar-se: seu fator de cura acelerado queimava o álcool em minutos. Mas Quil havia aprendido que se você tomasse um litro de vinho de uma só vez o organismo entrava num leve colapso e a bebedeira pegava por mais tempo.

Aquele era um vinho forte, algum Cabernet Sauvignon caríssimo de alguma safra famosa, mas ele não se preocupou com isso, os Volturi que pagassem os custos da festa, afinal de contas ele também era um convidado, não era? Quil ergueu-se de pronto, subitamente febril, o álcool invadindo sua mente, ele cambaleou para o lado e chocou-se contra uma fonte, seu braço direito caiu na água encharcando a camisa que usava. Olhando para cima ele viu a imagem de um anjo criança nu sorrindo-lhe enquanto água despejava-se de sua cítara.

– Vai te catar nanico – falou Quil para o anjo numa voz embriagada – Vochê nem calçha tem pra ficar aí me julgando... filho da putia.

O lobo endireitou-se, alisou a camisa e deu o primeiro passo... mais vacilante que o segundo. Trombou com uma coluna de mármore e ficou pensando quem fora o arquiteto estúpido que havia colocado aquelas malditas colunas num jardim. Provavelmente Alice acharia o máximo, mas ele considerava um desperdício. Acabou encontrando um lance de escadas e desabou por elas, a pedra dura machucou suas costas e braços, mas a embriagues o impedia de sentir qualquer dor... e qualquer ferimento sararia em segundos. Deu de cara com um pequeno pátio, ergueu-se e trambalhou até a murada que dava para o abismo, quatrocentos metros abaixo o mar quebrava-se nas rochas.

– Cara – grunhiu Quil – Cheria uma queda horroroja daqui de chima.

Ficou ali pendurado e enquanto olhava para a espuma do mar lembrou-se de outro tipo de espuma, o tipo que sai de garrafas, os que chamam de Frisantes. Uma ideia súbita lhe acometeu, não deixar a bebedeira passar, tomaria uma garrafa atrás da outra até fundir a capacidade de seu corpo queimar o álcool... ele poderia não ter condições de impedir um casamento, mas faria o maior fiasco possível. O bom da embriagues era justamente a ausência de pudor... dava para se fazer o que quisesse.

– Garchom... — gritou Quil tentando fazer sua voz chegar até o pátio ao lado onde os convidados da festa amontoavam-se – Ô garchom, tá surdo? É vochê mermo... vêm cá, meu filho. Anda que eu tô com precha...

– O senhor... deseja beber alguma coisa? — perguntou um rapazinho franzino, humano, com o olhar mais assustado que Quil já tinha visto.

– Espumante – arfou Quil – Ou Frisante... ou Champagne... ou qualquer coisa dessas, eu quero uma...

– Taça?

– Que taça o que, meu filho? Me trás uma garrafa – disse Quil e quando o rapaz se afastava o lobo se antecipou e o puxou de novo – Não, duas garrafas, ou melhor... me trax duas garrafas de espumante, frisante, champagne ou sei lá o quê e três garrafas de vinho... entendeu?

– Qual vinho, senhor? — o garçom tentava torcer-se do abraço de Quil.

– De uva – respondeu o lobo e caiu na gargalha da própria piada ruim – Caverneu Sóvinhão... sacou?

– Cabernet Sauvignon? — arriscou o rapaz agora evitando rir.

– Exte mermo... trás três garrafas deste.

– Há whisky também, senhor – o rapaz agora parecia diabolicamente animado como ficam aqueles que se aproveitam de bêbados – Bom whisky, Blue Label... 21 anos.

– Ótimo, ótimo... echelente, pelo menos é de maior, não é mesmo... se fosse de 16 anos não daria não – gargalhou Quil – Manda vir uma desta também... este whisky é caro?

– Bastante caro, senhor.

– Então manda vir duas... e não demore!

– Eu volto já, senhor.

O jovem garçom voltou dez minutos depois com oito garrafas, o rosto do rapaz estava menos assustado e com uma expressão comedidamente travessa, ele deixou as garrafas com Quil e voltou para a multidão de vampiros. Quil abriu um vinho e tomou novamente num gole só para reforçar um pouco sua embriaguez, depois subiu as escadas de gatinho até o jardim das fontes e colocou as garrafas debaixo de uma sombra fresca. Ele estava satisfeito consigo mesmo, daria um jeito de beber todas aquelas garrafas e depois se meteria no meio da multidão pra arranjar briga com algum vampiro qualquer.

Mas este pensamento foi interrompido quando uma voz bonita e musical de menina chamou seu nome.

– Quil?

Ele virou para olhá-la e por um momento não a reconheceu, estreitou os olhos para olhar através da cortina alcoólica e deu de cara com uma garota bonita metida em um vestido vermelho escandalosamente curto.

– Nessie! — espantou-se Quil quando finalmente a reconheceu – Olha só pra vochê... belo decote.

– Você... está bêbado? — arriscou Nessie enquanto tentava inutilmente puxar para cima o vestido para cobrir os seios que malmente conseguiam ficar cobertos – Como conseguiu?

– Técnica de lobo-nincha – afogou-se Quil.

– Lobo o que?

– Lobo nincha... ninchaaaa, entendeu?

– Lobo ninja?

– Ixo aí, garota esperta, foi o que eu disse.

– Mas Quil – Nessie estava horrorizada – A cerimônia vai começar em pouco menos de duas horas...

– Echatamente – o lobo dobrou-se perigosamente para agarrar uma garrafa de champagne, estourou a rolha (que por pouco não atingiu o olho esquerdo de Nessie) e deu um trago – Eu não poxo salvar Bella de toda esta merda... mas poxo fazer estes Volturi do diabo passarem vergonha... voche não concorda comigo?

– Quil... eles vão...

– O que, Renexmee? Vão o quê? — Quil ficou subitamente furioso, gesticulava com as mãos e doses de champagne voaram para todos os lados – Vão me matar? Vão tirar a minha liberdade? Eles já fixeram isso, esqueceu? Eu tô aqui longe de casa, preso com este monte de vampirox de merda, longe da Claire – e agora sua voz baixou uma oitava – Longe de tudo...

– Quil – Nessie tentou se aproximar, mas o lobo se afastou cambaleante.

– Não... não... esta é a minha revoluxão... eu vochê xe junta a mim ou xai fora...

Foi então que Renesmee olhou Quil com espanto para logo em seguida franzir o cenho e cerrar os punhos como sempre fazia quando queria teimar de alguma forma. O lobo pareceu notar pela primeira vez o quanto ela estava bonita; seu cabelo havia sido escovado e preso em uma trança elaborada que caia sobre o ombro num tom castanho avermelhado. Seu rosto havia recebido uma maquiagem simples, porém elegante e marcante, e os olhos, aqueles olhos amendoados como ouro velho haviam recebido contornos escuros de lápis rendendo-lhes um aspecto perigosamente sedutor. O vestido vermelho era apenas uma peça de pano com um decote nas costas e um decote generoso na frente deixando o busto dela sensualmente mal escondido, não era um vestido longo, acabava no meio das coxas e os sapatos de bico fino e salto alto deixavam as pernas de Nessie torneadas e firmes.

Quil sempre viu Renesmee como uma garotinha, só então percebeu que havia se tornado uma mulher... e descobriu o motivo de Jacob ser tão apaixonado por ela.

– Vou fazer parte da sua revolta – disse ela com firmeza.

– Vochê... o quê? — assustou-se Quil.

– Me dá um gole deste negócio – exigiu Nessie erguendo a mão – Minha porção humana deve ficar bêbada.

– Olha, vochê é uma dama de honra – disse o lobo incerto afastando a garrafa – Vai ficar no altar com xua mãe... não vai pegar bem...

– Ora que se dane, Quil. Eu sempre faço as coisas que me dão na telha, e é como você disse, se não podemos livrar minha mãe disso... podemos pelo menos fazer Aro Volturi passar vergonha.

Nessie adiantou-se e usou a sua velocidade de vampira para arrancar a garrafa da mão de Quil, ela tomou um fole profundo e depois desceu a garrafa com um sorriso nos lábios.

– É... tão doce – suspirou ela.

– Ah, mas a ideia é mixturar as coisas – disse Quil catando uma garrafa de vinho do chão, como não tinha abridor quebrou a boca da garrafa no chão e deu para Nessie – Experimenta exe.

Nessie tomou um golão e seu rosto franziu num arrepio.

– Ah, esse é um pouco forte... amargo – reclamou ela.

– Que amargo o que, menina? É um Caverneu Sóvinhão... agora pega esta aqui – disse ele sacando fora a tampa do whisky – Mixtura tudo com isso que a coisa vai bombar... prestenção Nessie, isso aqui é um Rude Mandel, whisky caro, 81 anos... vira duma vez xó, xem xentir o gosto... eu te mostro.

Quil pegou a garrafa num gole longo e quando desceu seu rosto estava vermelho, uma tosse seca saiu de sua garganta.

– Credo – disse ele – Troxinho bem fortinho exe... experimenta aí, vai.

Nessie virou a garrafa e quando a trouxe de volta tossiu com força sentindo o líquido queimar a garganta, ela fez uma careta, respirou fundo e pegou a garrafa de champagne novamente recomeçando o ciclo, fez este revezamento por três vezes e quando terminou olhou para Quil com os olhos levemente desfocados.

– Uau, sabe que o mundo deu uma inclinadinha? – disse Nessie rindo – Levemente, mas deu, é como se as coisas estivessem... meio... lentas.

– Legal, esta garrafa é sua – disse Quil oferecendo a Nessie uma das bebidas e abraçou outra – E esta é minha, bora sentar debaixo da árvore pra beber o resto...

– E depois?

– Depois a chente vai arranchar encrenca com algum daqueles fampiros grã-finos lá.

O sol estava mais alto no céu uma hora depois, assim como o calor e a sensação abafada que o ar marinho trazia, havia uma música como a de um quinteto de cordas tocando em algum lugar e o murmúrio de vozes aumentou consideravelmente. Renesmee tentava manter-se sentada comportadamente, mas o vestido extremamente curto e a quantidade de álcool no sangue estava tornando a tarefa bastante impossível; Quil mantinha-se simplesmente atirado no gramado contando as nuvens que pareciam sempre tomar a forma de lobos quando ele as tentava focar... ainda restava uma garrafa aberta de whisky que ambos tentavam compartilhar, mas Renesmee já estava sentindo a cabeça pesar e seu estômago protestava contra tanta mistura.

– Quil – gemeu ela – Eu to realmente passando mal...

– Deita aí e já melhora – respondeu ele sem se mover.

– Eu não posso deitar, estou de vestido... este maldito festido que colocaram em mim. Minha mãe querida irá se casar de fermelho... sabia?

– Sério? A cor do sangue.

– A cor do sangue – concordou Nessie numa voz amarga – Eu e ela tifemos uma discussão séria de manhãzinha.

– Conta uma nofidade – emendou Quil, uma das desvantagens de se estar ébrio era o fato de falar coisas que geralmente não se teria coragem de falar enquanto sóbrio – Vochês mais brigam agora do que confersam...

– Minha mãe passou a noite com Aro... ontem – a voz dela quase sumiu e Quil deu um pulo colocando-se sentado perigosamente na grama.

– Bella? Vochê tá brincando.

– Não estou não, quando eu descobri e choguei isso na cara dela ela negou que houvesse acontecido alguma coisa entre eles e que passaram a noite toda confersando apenas.

– Então foi isso que acontecheu... ué – Quil olhou com uma certeza absoluta em seus olhos ébrios – Bella nunca iria fasser uma coisa dessas... eu acredito nela, vochê também deferia.

– Mas agora enquanto ela colocava o festido de noiva – choramingou Nessie, havia tristeza em seu olhar, ela respirou fundo, tomou mais um gole amargo da garrafa, fez uma careta e voltou a encarar Qquil com olhos inconstantes – Ela parecia feliz, Quil... parecia não estar se importando de estar se casando com um homem que não o meu pai...

– Ela aceitou seu destino – disse Quil e mesmo com a voz de bêbado ele soou triste – Isso demanda coragem, Nessie... ela é a mais corajosa de nós, seu fardo é o mais pesado.

– Pois ouça o que eu vou te jurar agora, Quil Ateara... — Renesmee ficou em pé, um pouco cambaleante, e ergueu a mão direita num sinal de juramento – Eu jamais serei uma Volturi. Não importa o que aconteça, não importa quem eu magoe ou perca, jamais serei uma Volturi.

Quil sabia, no fundo de sua mente entorpecida, que promessas eram perigosas. Promessas geralmente poderiam tornar-se maldições dependendo da pessoa que a proferisse, promessas poderiam causar mais danos do que soluções e na maioria das vezes prendia a pessoa a um ciclo sem fim de autossubversão. Ele pensou em falar nisso, na verdade ia falar alguma coisa neste sentido, mas no momento em que se pôs em pé, aparado pela árvore do jardim, três sombras surgiram na periferia de sua visão e uma voz irritada soou sobre o murmúrio tranquilo das fontes.

– Finalmente a encontramos.

Três guardas em suas lustrosas armaduras esmaltadas em negro e com um grande V rubro no peito olharam para eles com um misto de impaciência e surpresa. Renesmee os encarou com o queixo erguido e tentou falar na voz mais séria e firme que conseguiu:

– O que vochês querem aqui?

– Oh, diabos dos infernos – chiou um guarda – A menina está bêbada.

– E o lobo tamém – emendou Quil – Agora sumam daqui antes que eu devore vochês.

Quil deu passo grogue para frente e empurrou o guarda que estava mais próximo, com uma rápida estocada atirou a garrafa que tinha na mão contra o rosto do outro, mas o vampiro foi mais rápido, desviou-se do objeto e atirou uma mão espalmada no peito de Quil fazendo o lobo desabar sobre o gramado do jardim.

– Mas quem você pencha que é? — uivou Renesmee indignada atirando-se contra o guarda com a mão levantada, mas o vampiro segurou-lhe o pulso sem qualquer esforço – Vocês sabem que eu sou?

– Eu sei quem você é – disse o guarda afastando-se levemente do cheiro de álcool de Nessie – É a filha problemática da Rainha, mas se pensa que nós vamos abaixar nossas cabeças para você está muito enganada. Você é apenas um estorvo.

Renesmee inclinou-se para frente num movimento rápido em direção ao guarda e... vomitou nele. Um cheiro azedo de álcool misturado com sangue inundou o jardim, o jato atingiu o guarda na perna e ele pulou com nojo para longe de Renesmee que agora equilibrava-se trêmula sobre os saltos desajustados, a trança tinha se desfeito e ela sorriu para os guardas.

– Muito bem, quem é o próximo?

– Peguem esta menina estúpida e levem-na para dentro, as aias que deem um jeito de arrumá-la e colocá-la no altar. Isso não é problema nosso.

Nessie começou a protestar enquanto os guardas agarram-na (tendo o cuidado de se manter seguramente longe dela o máximo que puderam), a menina olhou para trás, mas Quil continuava esparramado na grama... aparentemente roncando. Ela desapareceu pela porta.

O guarda remanescente foi até uma das fontes e jogou água na roupa vomitada até que ela parecesse um pouco menos horrorosa, depois voltou para Quil que dormia roncando na grama e deu-lhe um pontapé na coxa direita, o lobo resmungou sem despertar e o guarda tornou a chutá-lo.

– Levante-se, cão sarnento. Você tem de voltar a sua forma bestial para que o enfiemos na sua roupa de metal. Ande.

Com o terceiro pontapé Quil abriu os olhos e colocou-se sentado, olhou para o guarda com olhos inconstantes e sonolentos e quando abriu a boca para falar, sua voz saiu arrastada:

– Eu vou arrancar esta xua perna que me chutou seu sangue xuga do inferno.

– Eu vou ficar esperando, cão – respondeu com brusquidão o vampiro enquanto agarrava Quil pela camisa colocando-o em pé e arrastando-o para dentro do castelo como seus companheiros haviam feito com Nessie.

Quil foi atirado num salão vazio que também servia de quarto para ele, havia uma cama num canto, mas era tudo o que tinha lá além das janelas e da claridade do sol. O lobo ficou ali, de costas contra o piso gelado, completamente entorpecido por todo o álcool que havia ingerido; ao abrir os olhos o teto pareceu girar e girar como um pião, Quil então sentiu o estômago embrulhar e fez força para não vomitar, fechou os olhos novamente e sentiu que o mundo girava... agora no escuro de sua mente. Era como se o piso se movesse rapidamente e ele cravou as mãos no chão com medo de ser atirado contra um das paredes.

A agonia era tanta que Quil fez para si mesmo a eterna e típica promessa dos bêbados: a de nunca mais voltar a beber.

Mas graças ao seu metabolismo altamente acelerado, a bebedeira não demorou nem mesmo quarenta minutos para passar. Houve uma dorzinha de cabeça bem na base da nuca, mas ela também se foi não deixando qualquer sinal. Quil ergueu-se do chão, respirou fundo, e foi até a janela para sentir um ar fresco, o sol agora estava quase a pino e ele sabia que o casamento estava para começar... considerou-se sortudo por não precisar estar presente na cerimônia.

Então lembrou-se de Nessie... e que a menina não tinha o metabolismo dos lobos.

Espero que você não vomite em Aro, Nessie... ou provavelmente vão te atirar lá em baixo neste precipício.

Quil não teve muito tempo para pensar, três guardas – um deles o que Nessie havia vomitado e que chutara Quil – entraram no salão trazendo a sua armadura de lobo.

– Vamos cão, transforme-se, trouxemos a sua roupa de festa – riu o guarda vomitado – E não demore porque os guardas devem estar presentes na cerimônia, você só será levado ao pátio depois, para ser exibido.

Quil semicerrou os olhos com raiva. Transformado ele poderia muito bem destruir todos os três vampiros naquele salão e aproveitar que o Pináculo da Luz não tinha barreiras mágicas para fugir dali e nunca mais voltar... mas não poderia abandonar Nessie e Bella à própria sorte. Ele sabia que elas entenderiam e sabia que Renesmee ficaria feliz de pelo menos ele estar em liberdade... mas seria egoísta demais.

E, além disso tudo, Quil estava suficientemente triste para fazer qualquer outra coisa senão obedecer o que lhe ordenavam. Num segundo era homem e no outro já era lobo, um lobo grande num tom chocolate escuro, altivo e vivaz, mas com um olhar inexoravelmente deprimido. Ele ficou em silêncio enquanto os vampiros montavam ao redor de seu corpo a carapaça de platina e ouro que o deixava com um aspecto monstruoso e bélico.

Depois que os vampiros se foram ele deitou-se no chão, a armadura rangendo sobre si mesma com o movimento de seu corpo, Quil fechou os olhos e desejou adormecer, depois que acordasse tudo já estaria terminado e Bella seria Rainha dos Vampiros... e o futuro deles estaria traçado definitivamente e irrevogavelmente.

Entretanto, um estalo soou em sua mente e Quil sentiu uma presença imperiosa cair sobre ele como as águas de uma cachoeira, era uma pressão comprimindo seu peito, um sentimento conhecido herdado das épocas do bando em La Push quando andava pelas matas com seus irmãos e tinha um líder de matilha à sua frente.

Era como se ele pudesse novamente ouvir o vento por entre os pinheirais da Reserva, como se tornasse a sentir o cheiro do sol nascendo e aquecendo as pedras dos penhascos, pudesse ouvir o esmagar da areia cascalhenta das praias em La Push.

Quil ergueu-se assustado, uma consciência tocou a dele, uma mente poderosa que erguia-se sobre ele com fúria e determinação... e Quil conhecia aquela presença, conhecia o toque daquela consciência que durante anos compartilhou a sua.

Era ele... tinha de ser ele.

“Quil” — chamou a voz possante em sua mente, a voz de um Alfa.

“Jacob Black” — arfou Quil em total espanto — “Você está vivo”.

“Não há tempo para explicações, Quil” — a mente de Jacob era urgente — “Eu estou aqui, estamos às portas do Pináculo, quando eu o chamar, venha até mim”.

“Vocês irão invadir?” — Quil animou-se “Vieram libertar Nessie e Bella”?

“Sim. Lembre-se Quil... espere o meu chamado. Quando eu o chamar venha com fúria e vingança e destrua todos os que estiverem em seu caminho, abra caminho até mim. Venha ao meu chamado” — havia no som da voz de Jacob o poder impresso do Alfa.

“Eu irei” — respondeu Quil, a vingança doce no paladar — “Eu irei ao seu chamado”.

“Então fique atento... será logo”.

Quil Ateara sentou-se no fundo do salão mirando a porta dupla com atenção, no momento em que seu líder o chamasse ele iria e aquela porta seria reduzida a um monte de lascas disformes. Quil lembrou-se do rosto dos vampiros que o insultaram e o chutaram, lembrou de cada um deles e os marcou, em poucos momentos eles seriam todos destruídos por suas garras e presas.

Seu coração estava leve, Jacob Black estava vivo... e ele vinha para libertá-los. Todos cairiam ante sua fúria. Ele trouea aos Volturi a fúria da tempestade.

Esperem, esperem, seus malditos sangue sugas, hoje eu terei a minha vingança contra todos vocês.

E Quil precisava apenas ser um pouco mais paciente e aguardar...

… pelo chamado do lobo.