Candor Lunar - Livro 2

43 Capítulo 40 - O casamento na Tempestade


Notas iniciais
Olá. Depois que o site ficou um tempo fora do ar eu acabei me atrapalhando nas postagens. Vou postar este capítulo hoje, mas semana que vem já posto o novo. Grande abraço.

Isabella estava consciente das vozes ao redor dela, havia um burburinho de excitação envolvendo-os e quando Aro afastou-se e a música que dançavam finalmente terminou foi que ela pode ver que praticamente todos os vampiros do lugar os estavam olhando se beijarem. Sem dúvida deve ter sido um show, pensou Bella desgostosa.

Aro, subitamente, deu-se conta de todos estes olhares sobre ele e imediatamente a máscara do Rei subiu-lhe pela face, escalando sua humanidade e ocultando o seu verdadeiro eu, mas Bella, talvez apenas naquele momento, pareceu ter realmente sentido pela primeira vez que Aro realmente a amava... de alguma forma. O Rei havia se exposto a todos os seus vassalos, havia demonstrado que tinha sentimentos quando se permitiu oferecer uma música à sua futura Rainha, beijando-a logo em seguida para o deleite de uma plateia imortal.

Isso, sem dúvida alguma causou certo – e indesejável – sentimento de apreciação por parte de Bella, afinal de contas, convenhamos, ela havia se personificado num objeto de adoração e desejo de um Rei e isso não é de forma alguma pouca coisa.

Bella não se achava bonita, não de uma forma absurda como Alice ou Renesmee, ela poderia ser no máximo moderadamente bonita, ainda mais agora que tinha um porte mais maduro de mulher apesar do seu rosto de adolescente. Decididamente ela não conseguia entender o que tinha dentro de si para despertar o desejo de imortais... primeiro Edward e agora Aro.

Ela ouvia os aplausos para os dois, mais como um eco vindo de outra dimensão, e de repente Bella sentiu-se louca. Como se aquele lugar não fosse o mundo que ela conhecia e que viveu durante todos estes anos, ali, em meio às luzes amarelas que piscavam como estrelas velhas, sob o murmúrio de vozes e de fontes, com o oceano escuro e estrondoso a rugir na noite, Bella imaginou que estava em outra realidade. Uma realidade em que havia um mundo apenas dos vampiros, um planeta recheado de imortais e que ela havia sido uma princesa que agora tornar-se-ia Rainha. E mesmo em sua rápida loucura, ela sabia que havia um pouco de verdade, aquele agora era outro mundo, um mundo em que ela reinaria.

– Vamos, Isabella – chamou Aro – Deixemos nossos convidados se divertirem sem nós.

Os dois deixaram o tablado elevado que aos poucos foi se enchendo de vampiros festeiros que agitavam seus corpos numa dança elegante e felina, a graça dos imortais rendendo-lhes movimentos precisos e medidos. A música erguia-se sobre o estrondo das ondas quebrando contra o rochedo lá muito abaixo, ecoava pelo espaço do pátio vazio e se infiltrava pelos corredores, no hall de entrada Aro parou e olhou para Bella com um sorriso gracejando-lhe os lábios.

– Minha senhora – começou ele – Aceitaria passar a noite comigo em meu quarto?

Aquilo, sem dúvida, foi capaz de deixar Bella sem ar, ela olhou para o rei e sua expressão de choque fez com que Aro Volturi risse com gosto.

– Eu gostaria de passar a noite ao seu lado, Isabella, mas prometo-lhe que jamais tentarei algo que a faça sentir-se constrangida. Eu tenho todo o tempo do mundo para esperar que esteja pronta. Mas sinceramente preferiria passar a noite conversando com você, a celebração de amanhã está me deixando um tanto ansioso e isso é algo que eu não entendo... basicamente desejava a sua companhia. Apenas para me fazer sentir calmo, como você sempre faz.

– Aro... eu... — começou ela, mas ele a calou com outro sorriso.

– Você sabe onde ficam os meus aposentos, se desejar conversar comigo... ficarei feliz em recebê-la. Senão, bem... não custa sonhar, não é mesmo?

E dito isso ele retirou-se silenciosamente e o sorriso ainda mantinha-se em seus lábios, Bella sabia que Aro estava feliz, inclinado para uma tranquilidade soturna; os olhos do Rei pareciam distantes e sonhadores enquanto ele caminhava por entre seus convidados pelos corredores do Pináculo, ouvia a todos, cumprimentava a todos e não era de forma alguma brusco ou soberbo demais. Teria Bella realmente alterado o coração de Aro?

Ela mordeu o lábio inferior e franziu a testa tentando imaginar o que poderia fazer com isso e se realmente acreditava que Aro Volturi poderia mudar. Mas talvez ele devesse receber uma chance. Ao virar-se para as escadarias a fim de se dirigir ao seu quarto deu de cara com Giordano e ladeando-o estava Seline e outra vampira que ela jamais tinha visto, mas sua mente deu um estalo e na hora Bella se tocou de quem era: Margot, a amiga que Seline pediu para ser libertada.

Era uma garota bonita, eternizada em seus vinte e poucos anos, pequena e de rosto marcante. Os olhos eram grandes e aparados por cílios negros e compridos e seus cabelos escuros estavam presos numa trança elaborada. Tinha um ar delicado, mas alguma coisa nela fez Bella pensar “ai ai, essa aí vai me dar trabalho”. Talvez pelo ar arrebitado de seu nariz, parecia que Margot era do tipo que bate e pergunta depois, ou que tem uma resposta rápida para qualquer coisa.

Meu clã está aumentando rapidamente, pensou Bella, agora me arrumaram mais uma encrenca para eu dar conta.

– Minha Senhora – disse Seline numa mesura – Esta é Margot Silverman, minha amiga e sua criada.

– Será um prazer servir a minha Rainha – disse Margot imitando a mesura de Seline. Ela tinha uma voz forte para uma garota, muito marcante e levemente rouca, mas soava musical como qualquer vampira – Agradeço pela grandiosidade de sua pessoa por deixar que nós duas ficássemos perto uma da outra, Seline é como uma irmã para mim.

– Você não precisa agradecer, Margot – respondeu Bella suavemente – Eu fico feliz que vocês duas estejam juntas. Eu sei o quão ruim é ficar longe de uma irmã.

– A minha senhora irá repousar agora ou permanecerá em seus aposentos? — perguntou Giordano com sua expressão sempre séria.

– A sua Senhora irá descansar – respondeu Bella passando por ele e dando um tapinha amigável no ombro do cavaleiro – Vocês, por outro lado, estão livres para se divertirem com a festa desta noite. Aproveitem.

– Minha senhora não precisará de nossos serviços? — o rosto de Seline tinha um brilho jovial.

– Não, minha querida. Vá e aproveite a festa que celebra o meu noivado, amanhã vocês terão de estar cedinho em meu quarto para me ajudarem a me aprontar para a cerimônia. Está certo?

As duas vampiras sorriram e despediram-se de Bella desaparecendo pelo corredor rumo aos pátios onde a música agora tornava-se mais elétrica e dançante. Obviamente Giordano não arrastou o pé de perto dela.

– Venha Giordano – pediu ela – Eu sei que você não saíra de perto de mim mesmo que eu ordene.

As escadarias estavam vazias e o som da música ecoava distante à medida que Bella foi enfiando-se cada vez mais para o interior do castelo onde o silêncio a recebeu com um manto quente e calmo de quietude. As arandelas nas paredes sustentavam tochas bruxuleantes e os ecos pesados dos passos de Giordano a seguiam enquanto ela caminhava para o quarto, não tinha muita ideia do que deveria esperar para aquela noite e muito menos o que esperar para o dia seguinte. O dia de seu casamento.

Parou por um instante de frente para a porta do quarto de Renesmee e pensou em bater, mas então prestou atenção e apurou sua audição para confirmar que a filha já dormia a sono solto, ressonando com tranquilidade. Bella queria muito falar com Nessie, ou poder abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem, mas ela sabia que a filha nunca aceitaria o que estava acontecendo e que seu coração sofreria para sempre pela vida que tinha perdido. Será que Renesmee suportaria a provação de amanhã? Pensou Bella.

Será que eu suportarei, afinal?

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Havia luzes por todos os lados, piscando e reluzindo e os pátios estavam abarrotados de vampiros. As tendas armadas recebiam uma iluminação especial e brilhavam hora num tom amarelo ouro, hora num azul celeste e em outras num verde fosforescente; sobre o tablado elevado que formava a pista de dança dezenas de vampiros dançavam num som hipnótico da batida arrítmica de uma música eletrônica.

Era um rave de imortais. Garçons vampiros passavam com taças e cálices cheios de sangue, ou com sangue misturado a vinho ou a champanhe, e nunca conseguiam andar mais do que poucos passos até terem suas bandejas completamente esvaziadas por mãos ávidas e ágeis.

A noite estava quente e as estrelas empalideciam diante da confluência de luzes para todos os lados, a multidão de corpos espremia-se e esfregava-se luxuriosamente enquanto aqueles seres imortais despejavam na noite a sua liberdade de fazer o que não normalmente podiam no mundo dos humanos. Era uma excitante ciranda de imortais.

Seline agarrou uma taça de sangue com vinho e provou o sabor doce da mistura sentindo-se alegre como não ficava há anos desde que fora transformada em vampira, uma leveza tomava conta de seu corpo e ela sentiu seus quadris remexendo ao compasso da música. Queria fazer aquilo a noite toda. Ela agarrou Margot pelo meio do caminho puxando a amiga para a pista de dança que estava quase tão abarrotada quanto qualquer outro lugar no Pináculo.

Margot girava agarrada em uma taça de sangue, espalhava o líquido para todos os lados, mas ninguém notava, a loucura contagiante do desprendimento estava imbuída em todos os vampiros naquela noite. Ela girava sem se preocupar que sua saia se erguesse, a bem da verdade estava muito propensa em encontrar um companheiro para aquela noite.

– Temos de encontrar alguém para nos divertir hoje à noite – gritou ela para Seline que ria enquanto dançava.

– Oh, não me venha com suas insinuações depravadas, Margot – riu Seline sabendo perfeitamente o que a amiga planejava – Da ultima vez em que dividimos a mesma cama e o mesmo homem eu fiquei a ver navios.

– Problema é seu, não tenho culpa de ser mais flexível que você – respondeu Margot enchendo a boca com quase todo o conteúdo da taça.

Dançaram por horas até que finalmente decidiram deixar o tablado, Seline havia se atracado com um vampiro bonito e alto e estava muito tentada a passar a noite com ele, mas ao lhe dar as costas por um momento, perdeu-o na multidão, provavelmente levado por alguma outra vampira qualquer. Ela não se importou e arrastou Margot de lá para que pudessem sair um pouco da agitação de entrechoques de corpos.

Encontraram, por fim, uma mesa livre perto de um canteiro de glicínias que florescia num tom roxo por toda a cerca, sentaram, não ofegantes graças à resistência vampírica, mas bastante satisfeitas pelo tempo que conseguiriam se descontrair. Seline captou um vampiro olhando-a com uma flamejante ira no olhar e lhe acenou com vigor, Lorde Fingal estreitou os olhos em ira, mas nada fez, afinal de contas Seline agora era uma das preferidas da Corte, a vampira que ganhou a liberdade diretamente da Rainha.

– Você conseguiu uma verdadeira proeza, desta vez – observou Margot vendo a raiva no rosto do antigo mestre de Seline – Se tornar a queridinha da Rainha.

– Não é nada disso – respondeu Seline e seu rosto tinha uma expressão pensativa, mas séria – Isabella é uma vampira diferente, há força nela, ela nasceu para ser Rainha. Você não viu o modo como ela tratou Fingal, como se ele fosse menos do que nada, não, escreva o que eu lhe digo, Margot, o nome de Isabella ainda será mais conhecido do que o do próprio rei. Eu acredito nisso, vale a pena servi-la, então não foi uma proeza, mas sorte.

– Bom, se você gosta dela então eu também gosto. Um brinde a isso.

E as duas brindaram. A música mudou para um country animado e os vampiros arranjaram pares para a dança, Margot foi puxada da cadeira por um vampiro baixo e levemente rechonchudo, mas que tinha um rosto bonito e um sorriso muito esfuziante. Seline acabou recusando duas danças e sete convites, não estava com vontade de dançar naquele momento e depois que Margot retornou tratou de lançar à amiga um olhar enviesado e afiado, dizendo:

– Achei que iria levar o gordinho para o seu quarto.

– Quem? Andreas? — riu Margot – Ele é um amigo meu, jamais faria isso com um amigo e cá entre nós, dizem as más línguas que ele não é de todo bom de cama.

– Tarada.

– Ora, enxergue-se, por favor, Seline.

O vinho misturado ao sangue não deixava os vampiros exatamente embriagados, mas se a quantidade era muita causava certa nebulosidade nos sentidos deixando-os turvos e lentos que era, na melhor das hipóteses, uma embriagues vampírica. E era em meio a este estado que as duas encontravam-se quando, subitamente, Margot agarrou o braço de Seline com força enquanto encarava o outro lado do pátio.

– Margot – reclamou Seline – O que deu em você?

– Olha – murmurou Margot como se estivesse sem fôlego – Olha quem está vindo para cá.

E Seline olhou... e sentiu seu estômago remexer.

De lá do meio da multidão do outro lado do pátio, movendo-se como um leão numa savana, caminhava para elas um vampiro alto com um impecável terno num corte italiano, a camisa branca imaculada brilhava num constaste claro contra a gravata de cor prata. Qualquer homem daquele tamanho ficaria desajeitado num terno daqueles, menos ele, parecia ter nascido para usar ternos mesmo que sua expressão de descaso deixasse transparecer que ele odiava tudo aquilo ali. O rosto esculpido à perfeição não demonstrava emoção alguma enquanto vampiras por todos os lados lançavam-lhe olhares cobiçosos.

Margot segurou um suspiro.

– Dean Portman – disse ela numa voz ávida – O deus grego em pessoa. Um metro e noventa de imortalidade pecaminosa.

– E está vindo para cá – completou Seline puxando o vestido um pouco mais para baixo a fim de ampliar o raio de alcance do seu decote.

As duas tentaram assumir expressões de desinteresse enquanto ele aproximava-se, mesmo que Seline não conseguisse desgrudar o olhar daquele queixo quadrado e perfeitamente desenhado. Elas esperavam que ele passasse por elas sem lhes dar atenção como sempre fizera, conheciam-no há um tempo, e aquela expressão prepotente de quem sabe que é um arraso total sempre as fez apenas se sentirem ainda mais atraídas por ele.

Ambas sabiam que deveriam odiá-lo, qualquer homem que se julgue bom o suficiente para se dar ao desprezível luxo de descartar toda e qualquer mulher naquele lugar deveria ser considerado um lixo metido a besta. Mas Dean Portman era diferente... era impossível odiá-lo, ou pior, mesmo odiando-o era impossível não amá-lo.

E qual não foi a surpresa das duas quando o vampiro simplesmente parou na frente das duas e sorriu-lhes com um faiscar de dentes brancos, dizendo:

– Margot e Seline, já faz algum tempo. Vocês poderiam me deixar ficar na companhia de vocês um pouco?

– S.. sim, é claro que sim – disse Margot chutando a cadeira para frente para que ele senta-se enquanto Seline quase engasgava-se com o sangue que tomava.

– Aproveitando a festa? — perguntou ele, sua voz aveludada surtia o efeito de um tapa de amor.

– E como, você não? — Seline agitou-se falando um pouco mais alto que o normal.

– Certamente que sim, afinal de contas não é todos os dias que um rei se casa não é mesmo? Aliás, eu soube que vocês duas foram aliciadas pela Rainha em pessoa, que honra!

– Ela sabia de nossas... qualidades especiais – Margot disse ensaiando um olhar sensual.

– Decerto que sim – riu Dean – Deve ser muito interessante ser confidente da Rainha, eu imagino o punhado de segredos que estarão ouvindo depois de algum tempo, provavelmente será uma vida muito mais agitada do que a que tinham com aquele retardado do Fingal ou daquele museu do Giliano.

– Ah sim, é muito melhor servi-la, creio que Isabella será uma Rainha maravilhosa – disse Seline empolgada.

– É? E por quê? — interessou-se ele, mas Seline notou que os olhos de Dean tinham um brilho estranho.

– Ela tem uma força própria, como uma estrela, entende? Ela não será do tipo que se deixa dobrar facilmente, tem um temperamento bastante firme a Isabella.

– Agora, me conta uma coisa Dean – começou Margot inclinando-se sobre a mesa até ele – Você tem companhia para a noite?

Dean lhe lançou um olhar enigmático.

– Infelizmente tenho – respondeu – A minha própria... e alguns assuntos de minha senhora Madalene. Tenho certeza de que ficaria encantado com a companhia de vocês, não tão deslumbradas quanto vocês da minha, mas infelizmente tenho de ir. É sempre um prazer vê-las, com licença.

Mas antes de se afastar muito, ele deu uma meia volta rápida e tornou a olhá-las, dizendo:

– Ah, antes que eu me esqueça... aconteça o que acontecer, fiquem próximas à sua Rainha amanhã. Acreditem em mim... será muito mais seguro perto dela.

E dito isso ele tocou de leve o ombro de Seline e piscou para Margot, afastando-se em seguida e desaparecendo no meio da multidão. Aquela aura de arrogância e prepotência parecia segui-lo onde quer que fosse, as duas se olharam e Seline tinha uma expressão de impaciência no rosto.

– O que ele quis dizer com ser mais seguro? — começou Margot, mas Seline a cortou.

– Por que diabo foi dizer aquilo? — perguntou ela – Você o espantou! Acha que um homem como ele já não está cansado de receber propostas indecentes aonde quer que vá?

– Ele disse que tinha assuntos a resolver – defendeu-se Margot.

– Aquilo foi um modo educado de recusar a sua sem-vergonhice.

– A quem você está chamando de sem-vergonha? Estava praticamente comendo-o vivo!

– De uma forma ou de outra ele me desejava mais que a você.

– Sério? — Margot fez uma cara de espanto forçado – E o que lhe fez pensar isso?

– Ele tocou o meu ombro antes de ir embora.

– Mas foi para mim que ele piscou.

– A mão dele era tão... forte.

– Seline, foi só um toque... não comece.

– Ainda assim está claro que ele prefere a mim.

– Se continuar com isso eu juro que te faço engolir esta taça...

Por mais alguns longos minutos as duas continuaram a discussão tola, mas depois resolveram levantar dali e encontrar alguma coisa que tirasse a imagem de Dean da mente. Fosse como fosse Bella havia acertado em sua previsão, ela não fazia ideia da dor de cabeça que Margot e Seline lhe dariam no futuro... principalmente por causa do mal caráter do Dean Portman.

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Há pelo menos uma hora ela permanecia sentada na cama olhando para o nada, em alguns momentos o desespero ameaçou subir-lhe à mente, mas ela empurrou-o para baixo com força e determinação. Talvez houvesse um vampiro com poder de apagar o passado da memória. Haveria? Bella não sabia. Mas se houvesse teria ela coragem de esquecer-se de tudo? Esquecer-se de Edward Cullen?

Uma vez mais sua mente viajou ao passado quando ela estava sentada em uma mesa com alguns amigos num refeitório de uma escola e um rapaz de cabelos cor de cobre entrou caminhando entre eles como se fosse um deus. Ela sabia que seria dele naquele momento, talvez não soubesse exatamente, mas sentiu... e agora ele havia partido. Mas era irrelevante e contraproducente ficar revendo o passado, nada de bom as memórias felizes trazem em um momento triste... um momento onde a salvação não existe.

Será esse o meu final feliz?

Isabella.

Bella.

Esposa.

Mãe.

Rainha.

Seu fardo era este, talvez seu destino fosse este afinal de contas, ser uma rainha imortal. Tudo se alinhou para aquele momento, o momento em que se uniria a Aro Volturi.

Um franzir de cenho surgiu no rosto jovem de Bella.

– Aro Volturi – ela sussurrou o nome para si mesmo no escuro do aposento.

Tanta coisa era Aro Volturi, tantos homens em um só, tanta escuridão e segredos, mas ao mesmo tempo tanta profundidade e sabedoria. Um homem de milhares de anos. E havia aquele sorriso, o sorriso que a intrigava e que Alice havia brincado chamando-o de “o sorriso de Bella”, pois era apenas para Bella que Aro o formava. Aquele estranho brilho no olhar, a verdadeira face por trás da máscara do Rei, o homem que a amava, o senhor de todos os vampiros, que a havia chamado de anjo... que a responsabilizara com a tarefa de torná-lo bom.

Mais um fardo. Um que ela não tinha certeza que poderia carregar.

Afinal, Aro Volturi teria salvação?

O coração dela dizia que sim e isso a fez estremecer.

Quase sem perceber ergueu-se da cama e caminhou até a porta e ao abri-la recebeu o costumeiro olhar significativo de Giordano.

– Eu... preciso ir até os aposentos de meu senhor Aro – disse ela numa vozinha de menina, quebrada e insegura.

– Como quiser, minha senhora – respondeu o cavaleiro, mas Bella achou que vira a sombra de um sorriso quando Giordano virou-se para o corredor vazio.

O quarto de Aro ficava na parte de trás do castelo, muito distante dos pátios e da confusão da festa pré-casamento, o silêncio era bastante opressor ali onde nenhum único ruído podia ser ouvido além do som do mar contra os rochedos. Silenciosamente, Giordano a conduziu através de uma escadaria antiga de madeira ainda coberta por um tapete puído que outrora deveria ter tido uma coloração vermelho sangue. As paredes eram de pedra crua e as tochas estavam muito distantes uma das outras e Bella sempre entrava em um mar de escuridão entre uma e outra.

Giordano postou-se, então, ao lado de uma porta dupla e larga que representava o quarto de Aro, ele assentiu para ela e retornou pelo corredor de onde tinham vindo; o cavaleiro sabia que seu rei não desejaria que ele ficasse à porta enquanto estivesse sozinho com sua rainha.

Bella alisou o vestido que usava com mãos nervosas e por um instante se perguntou o que estava fazendo ali, mas a resposta em sua mente foi clara.

Eu não sei.

Suspirou e bateu na porta e depois fechou as mãos cravando as unhas nas palmas para que elas não tremessem. Houve um momento de tensão até que Aro abriu a porta... abriu-a como um rei e um segundo depois transformou-se. A máscara caiu assim que avistou-a.

– Isabella – disse ele como se Bella fosse a encarnação de seus melhores sonhos.

E lá estava o sorriso e aquele brilho verdadeiro em seu olhar. Por mais que fosse doloroso, Bella havia aprendido a gostar da forma como Aro se portava quando se encontravam. Era como se ele a tiveste visto pela primeira vez toda vez que a via.

– Você está radiante – disse ele saindo de lado para que ela entrasse.

– Eu não mudei de roupa desde o começo da noite – declarou Bella caminhando para dentro do aposento e virando-se para Aro no momento em que ele fechava a porta – Você não precisa me dizer isso toda vez que me vê.

– Isso a irrita?

– Não.

– Então vou continuar dizendo. Sente-se, por favor.

Bella caminhou até uma poltrona confortável que estava disposta ao lado de uma pequena mesa redonda, sobre a mesa havia um exemplar da bíblia sagrada e Bella a tomou nas mãos com a surpresa arqueando-lhe uma sobrancelha. Ela se voltou para Aro e viu que ele estava sentado na cama olhando-a com atenção.

– Uma Bíblia?

– É uma leitura interessante, apesar de tudo – Aro deu de ombros – Foi muito alterada depois de suas primeiras versões, mas há passagens que aprecio. Como o Apocalipse.

– Obviamente você gostaria do Apocalipse – disse Bella com um sorriso – Você estava vivo naquela época, quero dizer, quando crucificaram Jesus Cristo...

– Eu não estava lá se é isso que quer saber. Ouvi rumores de um homem que diziam fazer milagres e que fora condenado e morto por um romano e por seu próprio povo. Mas isso aconteceu ao oriente do mundo e naquela época eu não estava mais na Grécia, mas na Europa... então não posso lhe dizer com certeza se ele existiu. Mas a vida dele não foi como as bíblias atuais dizem apenas para manter a santidade da história, no fim das contas toda e qualquer religião é apenas uma bobagem dos homens.

– Você não acredite em Deus?

– Acredito que nossa mente mundana é pequena demais para compreender algo tão grandioso quanto um deus, mas se existir O Deus, acho que ele simplesmente não se importa conosco.

Bella ficou em silêncio, mas movimentou-se pelo quarto sobre o cuidadoso olhar do rei, olhou em volta para a ornamentação dos móveis e parou em frente a uma janela para olhar a escuridão do mar, depois, sem escolha, tornou a encarar Aro e ele lhe sorriu, dizendo:

– Eu fico feliz que tenha aceitado o meu convite. Venha, sente-se.

Bella sentou na cama com ele, uma distância precisa para não ficar tão próxima ou desconfiadamente distante.

– Qual é a hora do dia que você mais gosta? – perguntou ela abruptamente tentando começar um assunto aleatório.

– Ninguém nunca me perguntou isso – comentou Aro surpreso – Acho que estes assuntos pessoais não são interessantes num rei.

– Não estou perguntou ao rei – disse Bella naquele tom crítico que geralmente deixava escapar e que, por mais estranho que fosse, Aro adorava.

– A hora amarela. Eu gosto da hora amarela do dia – respondeu ele e ante a cara de dúvida de Bella, explicou – A hora amarela é aquela hora que ocorre no final das tardes de primavera, ou de virão, onde o céu está totalmente límpido e sem nuvens. O sol esta quase se ponto e lança aquela luz amarelada e sorridente sobre todas as coisas, é como se houve uma claridade mais tênue e menos obtusa sobre o mundo, uma espécie de aviso a nós mundanos, como se o universo dissesse: Vejam, mundanos, parem agora o que estão fazendo, deixem suas tarefas loucas e seus trabalhos enfadonhos e parem para olhar a beleza do entardecer. Então acho que gosto desta hora amarela.

Bella sorriu para ele, não queria sorrir, mas sorriu.

Ela gostava do modo como Aro falava sobre as coisas.

– E você? Qual a sua hora preferida do dia? — perguntou ele.

– Acho que também gosto da hora amarela... mesmo não sabendo antes que nome dar a ela – respondeu Bella depois de pensar um minuto.

E Aro sorriu.

Conversaram sobre muitas coisas durante muito tempo, a lua havia deixado o céu e as horas frias da madrugada estavam se aproximando, Bella deitou-se na cama apoiando-se num braço e Aro a imitou. Ali deitado ela parecia apenas um jovem rapaz de vinte e três anos, com olhos ansiosos e ambiciosos, Bella não imaginou que seria possível conversar com ele sem que o assunto esbarrasse em Volterra ou no mundo dos vampiros, mas estava errada... Aro era muito mais que Volterra. Muito mais que o rei.

– Dante Alighieri? — surpreendeu-se Bella depois de um tempo, ela soltou uma risada alta que não pode conter — Sério mesmo?

– Eu juro – respondeu Aro com um riso cristalino – Ali pelas idas de mil e trezentos. Era o homem mais amargo, chato e enfadonho que eu conheci. Ah, só de conversar com ele cinco minutos você teria vontade de socá-lo. A Divina Comédia foi escrita enquanto ele estava tomado pelo álcool. Escreveu a maior obra de sua vida estando completamente bêbado.

– Bem, só assim para descrever o inferno com tanta clareza.

– Ele escreveu coisas boas, como “No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise”.

– Ou seja, não fique em cima do muro – riu ela.

– Exatamente.

– Foi isso que o levou a lutar na 2ª Guerra? — perguntou Bella.

– Eu estava entediado – respondeu Aro pensativo – Mas a guerra serviu para eu perder a fé nos homens, você não acreditaria em todas as atrocidades que vimos, eu e Caius, jovens despedaçados e chorando por todos os lados. Foi a última vez que inventei de participar das sociedades humanas numa tentativa de entender o homem. Uma bobagem. É impossível compreender ou traçar o sentido da vida dos mortais. São completamente infantis.

– Isso explica porque não está no Iraque?

– Estou velho demais para estas coisas.

– E está velho demais para quantas outras coisas?

– Espero que não muitas – disse Aro e vagarosamente alcançou a mão livre de Bella estendida sobre a colcha, ela não fez qualquer movimento para se afastar – Mas desconfio que guerra de paintball seja uma delas.

– Do que mais sente falta da vida humana? — ela quis saber.

Aro não respondeu de imediato, ele endireitou-se na cama e deitou-se de costas apoiando a cabeça no travesseiro, isso lhe dava uma visão da janela e das estrelas lá fora, ele suspirou pensativo.

– De dormir eu acho, depois de muitos séculos aprende-se a entrar num estado de letargia que é parecido com o sono dos humanos, mas mesmo assim há uma leve consciência das coisas. Eu, Caius e Marcus estamos estudando a ideia de revezarmo-nos no trono, um de nós dorme durante cem anos enquanto um governa e assim sucessivamente a fim de diminuir a carga dos anos. Então acho que dormir... e você, minha linda Isabella, do que sente mais falta?

– Milk Shake de morango – disse ela lhe sorrindo e Aro riu com vontade.

O rei estendeu o braço para que Bella deitasse com ele, por um segundo ela hesitou, mas em seguida aninhou-se nos braços do rei apoiando a cabeça contra seu peito. Ela lembrou-se que ficava assim com Edward em tardes ensolaradas de verão... mas varreu a memória da mente com aspereza. Aquela época de sol havia passado, ela agora vivia em uma época de escuridão.

– Você acha que um dia será capaz de me amar, Isabella? — perguntou Aro e avia uma pontada de apreensão na voz dele.

– Se você parar de destruir tudo o que toca... quem sabe.

– Isso pode levar tempo.

– A pressa é sua – riu Bella.

– Alguma dica de bom grado?

– Vocês poderiam por um pouco mais de luz naquele Salão dos Tronos, entendo que vocês querem impressionar e tudo mais, mas é realmente chato ficar lá em baixo naquele breu, me sinto uma rata num ninho.

– Verei o que posso fazer – riu Aro.

– E deveriam enfeitar o castelo no natal. Ficaria lindo e as pessoas da cidade iriam adorar.

– Tecnicamente não tentamos chamar tanta atenção dos mortais, caso não tenha notado.

Bella se virou e colocou-se de barriga para baixo erguendo-se sobre os cotovelos e olhando Aro com uma expressão de crítica.

– Luzes de natal não remetem necessariamente a vampiros, Aro Volturi.

– Não sabia que gostava de luzes de natal.

– Eu não gosto de mega festas de casamento, mas adoro luzes de natal.

– O casamento de um rei é um evento social – explicou Aro prendendo delicadamente uma mecha de cabelos soltos de Bella atrás da orelha esquerda dela – Muitos vampiros esperam ansiosamente por um evento deste. E você estará linda amanhã...

– Num vestido vermelho? — Bella cortou-o, ela estreitou os olhos, mas Aro riu.

– Ah, não me olhe assim, a culpa não foi minha. Athenodora achou que uma cor berrante iria destacá-la mais. Ela é sua madrinha, não eu.

– Eu não fico bem de vermelho.

– Isabella... seria impossível você não ficar linda em qualquer cor de vestido que exista.

– Ah, não comece, Aro Volturi – disse ela afastando a mão dele com força, mas apesar disso um sorriso desenhava-se em seus lábios – Eu sei o que você planeja com estes seus galanteios.

– É inevitável... apesar de que você me disse que eu não preciso mais pedir para beijá-la.

– De fato... eu disse – respondeu Bella desviando o olhar.

Aro inclinou-se na direção dela e a beijou.

Um beijo sereno, tranquilo e quase familiar... e depois afastou-se.

– Eu tenho que ir – disse Bella rapidamente erguendo-se da cama.

– Eu imagino que sim – Aro respondeu sem se levantar – Eu realmente me sinto feliz por não ter mais de passar as noites sozinho, Isabella... conversar com você será a melhor mudança em minha vida em séculos.

– Boa noite, Aro – ela sorriu para ele enquanto deixava o quarto.

Bella saiu para o corredor escuro em silêncio, mas ao chegar na escadaria desabou no primeiro degrau abraçando os joelhos e escondendo o rosto nos braços, ela não conseguiu abafar um soluço de um choro seco que se derramava dentro dela. Ela sabia que havia feito o que tinha de ser feito para proteger as pessoas que amava e para se manter viva, mas havia uma culpa que ela não era capaz de se desfazer, que pesava sobre o seu peito com força demais.

A culpa por ter gostado de um rei que destruiu sua vida.

– Eu te odeio – ela sussurrou para o lugar vazio, sua voz soando abafada em seus ouvidos – Eu odeio você, Edward Cullen... por ter ido embora e me deixado aqui sozinha. Me deixado sozinha e sem escolha. Te odeio.

E odiava realmente. Odiava um tipo de ódio de amor para uma pessoa que se ama mesmo se odiando. E a falta que Edward fazia na vida dela ardia como um fogo a tostar-lhe a pele, como uma ferida que mesmo cauterizada insistia em latejar em noites frias; um ódio originado da ausência, da falta, da consciência de que jamais tornaria a rever a pessoa amada.

Bella odiava estar sozinha.

Odiava ter de se casar.

E odiava, sobretudo, estar se acostumando a gostar de Aro Volturi.

§§§§§§§§§§§§§§§§§§

– Pelos Céus, Isabella. Você está linda! — a voz de Athenodora vibrava enquanto ela olhava Bella metida em seu vestido de noiva.

E, de fato, estava.

Era um vestido simples, mas como todas as coisas simples que guardam em si a elegância e a grandiosidade, acabava se tornando o vestido mais bonito que Athenodora já vira para uma noiva. O corte elegante caia até um pouco além dos joelhos e o decote era bastante generoso, deixou Bella muito sensual.

Os cabelos dela foram presos atrás da nuca e deixados levemente ondulados, a maquiagem era um pouco mais pesada do que a que ela estava habitualmente acostumada, mas deu-lhe um ar misterioso e um tanto quanto sobrenatural. Os lábios estavam pintados de um batom vermelho que mais parecia sangue. Bella realmente parecia-se com uma Rainha de vampiros, mas o toque minimalista em sua vestimenta implicava a espécie de rainha que ela seria: mais ligada aos problemas de sua raça do que à grandiosidade de sua posição.

Este fora o toque que Athenodora intencionou dar.

– Para um vestido vermelho está realmente bonito – disse Bella – Apesar de ser um tanto quanto chamativo.

– Ah Isabella, por favor – reclamou Athenodora – Você é uma rainha, poderia estar embrulhada em um rolo de papel higiênico que as pessoas iriam se deslumbrar do mesmo modo. Ela não está linda? — perguntou a Rainha olhando para Seline e Margot que, sentadas na cama, admiravam Bella.

– Maravilhosa – definiu Seline com sinceridade.

– É a noiva mais linda que eu já vi – emendou Margot.

– Ótimo, nunca imaginei que vocês duas fossem duas bajuladoras de primeira – riu Bella olhando-as de lado – Só não compreendo porque tive de me vestir agora, às dez horas da manhã, para uma celebração que só se dará ao cair da tarde.

– Sessão de fotos – murmurou Athenodora.

– Dora, francamente, às vezes você é tão pior quanto Alice... não sei o que farei com vocês duas pelo resto da eternidade – respondeu Bella numa voz desanimada.

Mas a Rainha de Caius, porém, não foi capaz de responder porque neste instante a porta abriu-se de supetão e Renesmee entrou no quarto com um olhar de morte pendendo do rosto.

Ela estava linda.

Usava um vestido parecido com o da mãe tirando o fato de que o dela, diferente do de Bella, não tinha nem sequer um terço da quantidade de pano usado para confeccioná-lo. O vestido malmente cobria-lhe as coxas e o decote era tão escandaloso quanto o de Bella, e as costas estavam quase que completamente desnudas e Bella imaginou que caso as duas alças finas que o prendiam no ombro de Nessie escapassem, o vestido deslizaria tranquilamente para o chão sem qualquer pudor.

Nessie tinha uma maquiagem simples e elegante no rosto e seu cabelo avermelhado descansava sobre o ombro partindo de uma trança elaborada. Renesmee estava linda, um pouco escandalosamente, mas linda. Apesar de que ela nunca era dada a usar tão pouco pano daquele modo.

Mas Renesmee, equilibrada em um salto alto, caminhou com dureza até a mãe e agarrou-lhe com força o braço, dizendo numa voz afiada.

– Você dormiu com ele? — atirou a menina como se não houvesse ninguém mais no quarto.

Porém, antes que Isabella sequer pensasse em responder, Margot havia cruzado o espaço entre elas como um raio e agarrado Nessie pela garganta.

– Mas quem você pensa que é para dirigir-se à tua rainha desta forma? — a voz de Margot estava furiosa, mas ele sentiu um toque forte em seu ombro e olhando para trás percebeu que era Selina e o rosto da amiga estava temeroso.

– Margot... esta é Renesmee, filha da Rainha Isabella – disse Seline – Pelo amor de deus, solte ela.

– Então agora você está colecionando servas para que não precise responder as perguntas constrangedoras? — cuspiu Nessie com raiva, um hematoma vermelho surgindo em sua garganta onde Margot a havia agarrado.

– Renesmee – começou Bella numa voz gelada – Nada ratifica uma atitude mal educada destas, até onde sei não foi esta a educação que eu lhe dei. Se quiser minha atenção terá de esperar até que todos se retirem deste quarto e somente então eu pensarei em conversar com você, principalmente se tirar deste rosto esta ar de insolência.

Ali estava a máscara da Rainha e isso doeu em Renesmee tanto mais do que se tivesse levado uma bofetada. Mas a menina teve de admitir para si mesma que a mãe havia adquirido uma força e um alto controle invejável, talvez tenha sido esta força que Aro tenha visto nela escolhendo-a para se tornar sua rainha.

– Como queira, minha senhora – disse Nessie simplesmente, os olhos ardendo para segurar as lágrimas. Ela caminhou até a varanda e deixou-se ficar lá fora.

A costureira presente terminou de acertar alguns ajustes do vestido e deixou o aposento, Isabella dispensou Seline e Margot, a última parecia bastante envergonhada por ter agredido uma princesa, mas Bella não a censurou em momento algum. Athenodora, por sua vez, estava com um sorriso complacente no rosto, ela deixou um beijo leve no rosto de Bella, murmurando:

– Não se preocupe, ela é ainda muito jovem... um dia vai se acalmar e entender.

– Eu rezo para que este dia não tarde muito a chegar – respondeu Bella dando um sorriso forçado e assim que Athenodora saiu ela respirou fundo, mas quando falou sua voz saiu autoritária e dura – Renesmee?

Ela veio lá de fora com os olhos vermelhos, não havia chorado, pois sua maquiagem ainda estava intocada, mas era visto que Nessie segurava as lágrimas.

– Eu a proíbo de tornar a usar um comportamento destes – repreendeu-a Bella visivelmente irada.

– Você vai manter a máscara da Rainha até quando falar comigo? — a voz de Nessie estava quebrada.

– Pelo menos até você deixar de se comportar como uma criança.

– Você fez? Dormiu com Aro Volturi?

– Como você ficou sabendo disso?

– Então é verdade?

– Não. Eu passei quase a noite toda em companhia do Rei, mas ficamos apenas conversando. Acha realmente que eu faria isso? Que eu simplesmente me entregaria a Aro como uma qualquer? Como uma prostituta?

– E não é como você tem agido ultimamente? — as palavras de Nessie voavam como facas – Tornando-se uma mártir para salvar todos? Era preferível morrer a ter essa desonra de se deitar com o Rei dos Vamp...

Mas o tapa calou as palavras de Renesmee. E aquele tapa, um tapa de reflexo, foi forte o suficiente para fazê-la cambalear para trás, Nessie sentiu seu rosto queimar onde a mão da mãe a havia atingido e agora, por mais que tentasse, ela não foi capaz de sustentar a represa de suas lágrimas que rolaram quentes pelo seu rosto.

E ao encarar Bella foi como se ela tivesse levado um segundo tapa, desta vez, diferente da primeira vez que a mãe lhe batera em Volterra, o rosto de Bella não estava quebrado ou magoado, mas cintilando de raiva. Os olhos da Rainha fulguravam num brilho rubro de ira e indignação e pela primeira vez na vida Renesmee sentiu medo de Isabella.

– Como você ousa? — disse Bella, a voz como um chicote de aço, ela deu um passo para frente e agarrou os braços de Nessie com força fazendo a menina gemer de susto e dor – O que você entende da vida, afinal? O que entende de amor? Você conhecia seu pai como eu conheci? Conhecia Jacob como eu conheci? Não, você malmente teve tempo suficiente para saber que amava Jake e o que fez com este amor? Nada de bom. Você seduziu Jacob e dormiu com ele despertando a ira de seu pai e magoando a nossa família toda e vem aqui me falar de honra? VOCÊ OUSA VIR ATÉ AQUI PARA FALAR DE HONRA?

Renesmee desprendeu-se de Bella e deu um passo para trás, mas a Rainha estava implacável em sua fúria e a menina sentia as palavras de raiva queimando-lhe como agulhas em brasa.

– Quase todos os lobos de La Push morreram para tentar salvar você. Você se lembra deles, Renesmee? Lembra-se das matilhas, dos bandos, você é capaz de se lembrar de Sam Uley? Você se lembra de Emett e Rosalie? Seu pai, o meu marido, o único homem que amei na minha vida, aquele por quem eu entreguei meu corpo, minha alma e minha mortalidade morreu tentando salvar a vida da filha dele... você acha que é capaz de sentir mais falta de Edward do que eu? Acha? Eu afasto a cada segundo a memória de seu pai da minha mente porque se eu me lembrar dele não serei capaz de continuar. Eu o amei durante todos os dias da minha vida desde que o conheci e quase morri inúmeras vezes para manter este amor... e faria tudo de novo. E você vem aqui duvidar da minha palavra? Insinuando que eu traí a memória de Edward? QUEM VOCÊ PENSA QUE É?

– Sabe quantas vezes Jacob arriscou a vida por mim? Sabe tudo o que eu e ele passamos antes de você nascer? Você acha que eu não sinto a falta dele, ele que para mim era um irmão? Eu que o amei um dia mais do que um irmão? Eu vi Jacob morrer, eu vi seu pai morrer... acha que eu não sinto a falta deles?

– E agora você vem até aqui com toda a sua imatura honra, seu senso deturpado de lealdade, julgar a mim que sacrificou a própria alma para salvar você, sua tia e Quil? O que você entende de amor? Você com seu amor egoísta por Jacob? Amor que seria capaz de condenar a todos apenas para você poder encher a boca e dizer que não é uma Volturi? Pois bem... EU SOU UMA VOLTURI! Eu sou uma Volturi por amor a você, a Alice e ao Quil. Por amor a Carlisle e Esme e a Charlie e Renné que eu ainda desejo ver e de quem eu sinto falta todos os dias. Você não tem o mínimo direito de me julgar, sua criança egoísta. Eu julguei que por você crescer num lugar recheado de amor como era a casa de Carlisle cresceria com um pensamento totalmente diferente, mas no fim não passa de uma teimosa cabeça dura que não pensa em ninguém A NÃO SER EM SI MESMA!

– E é sem dúvida alguma muito fácil fazer cara feia e chorar, criticar ou ficar pelos cantos medindo os esforços dos outros, mas você deixou o peso em minhas costas, Renesmee, nas minhas e nas da sua tia e nas de Quil. Nada fez para nos apoiar, para nos ajudar a suportar este fardo. Apenas chorou e chorou como uma criança mimada. E ainda tem a ousadia de entrar neste quarto e me JULGAR?

– QUEM VOCÊ PENSA QUE É E COM QUE DIREITO VEM JULGAR OS MEUS ATOS?

Renesmee estava em choque e seu corpo tremia como se ela tivesse nua num deserto de gelo, as palavras de Bella haviam-na ferido muito mais do que o tapa que recebera. Ela viu os olhos da mãe queimarem em sua direção, mas depois disso Bella recuou e sentou-se exausta na cama, a máscara da Rainha partida no chão, o rosto refletindo uma tristeza infinita que seria capaz de cobrir o mundo todo. Nessie deu um passo, mas Bella ergueu a mão para que ela não se aproximasse.

– Eu lhe dou uma escolha – e agora a voz da Rainha estava estilhaçada pela dor – Você fica ao meu lado e me ajuda a carregar este fardo ou parta. Deixe-nos aqui com nossa maldição e seja livre. Eu darei um jeito para que Aro a liberte nem que pare isso eu precise dormir com ele. Talvez esta seja a sua honra, não é mesmo, minha filha? A de deixar sua mãe, sua tia e seu amigo para trás só para poder sair daqui com a cabeça erguida dizendo a todos que jamais se curvou para os Volturi.

– Mãe... — chamou Renesmee numa voz soluçante, mas Bella balançou a cabeça e fechou os olhos.

– Vá. Eu não quero mais falar com você hoje, faça o que quiser. Eu preciso que você esteja firme naquele altar por mim, preciso que seja forte por mim, para me ajudar a suportar. Mas se não puder fazer isso... então saberei que não poderei mais contar com você. Eu salvei a sua vida e pagarei o preço por toda a eternidade, fiz a minha obrigação de mãe, o que você fará com esta dádiva será responsabilidade sua.

Nessie não respondeu, não podia. O soluçar não a deixaria. Passou pela mãe e retirou-se do quarto sem olhar para trás, passou por Giordano e desceu as escadas e antes de chegar ao hall principal, parou e secou as lágrimas, não daria aos vampiros ali o gostinho de vê-la chorar. Mas a dor que dilacerava seu peito era grande demais e ela precisava respirar.

Tinha de respirar de alguma forma.

Mas as palavras da mãe perseguiam-na como fantasmas armados com açoites.

Nada fez para nos apoiar, para nos ajudar a suportar este fardo. Apenas chorou e chorou como uma criança mimada.

Ela apressou o passo em direção aos pátios secundários.

VOCÊ OUSA VIR ATÉ AQUI E FALAR DE HONRA?

As lágrimas ameaçando afogar-lhe uma vez mais.

Eu sou uma Volturi por amor a você...

Então ela finalmente abriu a porta para o pátio e foi envolvida por um vento cálido, foi como se ela tivesse emergido das profundezas do mar para respirar o ar puro dos céus. O sol lhe cegou por uns momentos enquanto ela descia trambalhando os degraus de pedra. Pretendia ir até a muralha do pátio, talvez transpô-la e atirar-se contra os rochedos. Uma queda de quatrocentos metros de altura provavelmente daria conta do recado... ela livraria sua mãe do fardo. Não seria uma boa ideia? Ou seria apenas mais uma de suas ideias horríveis? Talvez sim, ou não, mas agora que sua mãe a odiava talvez fosse o mais certo. Mas ela teria coragem?

Só que Nessie não chegou nem na metade do caminho quando percebeu um vulto grande emergindo cambaleante em sua frente. Ela olhou-o através de uma cortina turva de lágrimas até que o reconheceu com uma surpresa.

– Quil?

O lobo se virou e ela notou que havia alguma coisa errada, Quil estreitou os olhos num esforço claro para reconhecê-la e então falou na voz mais arrastada possível:

– Nessie! Olha só pra vochê... belo decote.

– Você... está bêbado? Como conseguiu?

– Técnica de lobo-nincha – afogou-se Quil.

– Lobo o que?

– Lobo nincha... ninchaaaa, entendeu?

– Lobo ninja?

– Ixo aí, garota esperta, foi o que eu disse.

– Mas Quil, a cerimônia vai começar em pouco menos de duas horas...

– Echatamente, eu não poxo salvar Bella de toda esta merda... mas poxo fazer estes Volturi do diabo passarem vergonha... voche não concorda comigo?

– Quil... eles vão...

– O que, Renexmee? Vão o quê? Vão me matar? Vão tirar a minha liberdade? Eles já fixeram isso, esqueceu? Eu tô aqui longe de casa, preso com este monte de vampirox de merda, longe da Claire. Longe de tudo...

– Quil – Nessie tentou se aproximar, mas o lobo se afastou cambaleante.

– Não... não... esta é a minha revoluxão... eu vochê xe junta a mim ou xai fora...

E algo pareceu se partir dentro de Renesmee. Um ódio absoluto contra o único responsável pela morte de seu pai e de Jacob, o responsável por sua mãe agora odiá-la... Aro Volturi. Ela sabia que a mãe desaprovaria, mas ela não estaria fazendo isso para atingir Bella, queria atingir Aro, queria ao menos envergonhá-lo diante de toda a sua corte.

– Vou fazer parte da sua revolta – disse ela por fim.

§§§§§§§§§§§§§§

Foi com um receio óbvio que Bella viu o sol baixar, depois da briga com Renesmee ela pareceu perder todas as energias. Já fazia horas que estava deitada na cama, olhava através das portas abertas da sacada as nuvens brancas flutuando pelo céu de anil. Ela sentia que o tempo estava correndo rápido demais, conduzindo-a inexoravelmente para seu destino fatídico.

Ela ouviu a porta se abrir, mas não fez menção de se mover até que ouviu a voz assustada de Athenodora.

– Isabella! Você vai amarrotar o seu vestido todo e o seu cabelo? Mas o que foi que aconteceu?

– Problemas com uma filha adolescente – reclamou Bella num gemido.

Athenodora parou na frente dela, ela já estava arrumada e bastante elegante num vestido azul com brilho, o cabelo estava preso num coque e seu rosto tinha uma maquiagem muito leve, quase imperceptível. O azul caia bem em Athenodora, combinava com sua pele clara e seus cabelos dourados.

Inesperadamente, Athenodora descalçou os sapatos e escalou a cama colocando-se sentada e encostando-se na cabeceira da cama, em seguida alisou o vestido e puxou Bella para que ela repousasse a cabeça em seu colo. Exatamente como Alice fazia. Athenodora delicadamente pousou a mão na cabeça de Bella.

– Por isso eu não tive filhos – disse ele com leveza.

– Dora, você é uma vampira, não pode ter filhos – lembrou-lhe Isabella sentindo-se estranhamente segura ali, no colo da Rainha.

– Ah, por favor, não seja impertinente. Você se atém muito aos detalhes, Bella.

– Não sei o que eu faço com Nessie.

– Ela vai entender... um dia. Ela é jovem demais, é uma criança. O melhor professor é o tempo, você sabe disso. No futuro Nessie olhará para trás e dirá: realmente, agora eu entendo a minha mãe. Não é assim com todos? Quando somos jovens não ligamos para o que os mais velhos dizem e não compreendemos seus conselhos, mas depois aprendemos da maneira mais difícil... vivendo.

– Eu acho que fui muito dura com ela – Bella fechou os olhos, uma expressão de dor no rosto – Será que fiz tanta coisa errada para que ela me odeie tanto? Eu só quis protegê-la, quis mantê-la em segurança.

– Isabella – a voz de Athenodora tornou-se firma, mas ainda soava gentil – Renesmee não a odeia, como poderia? Vocês duas são tão parecidas, suas personalidades são fortes, mas sua filha jamais a odiaria? Você morreu para dar a vida a ela e depois disso fez tantos sacrifícios, não, é bobagem acreditar que uma menina inteligente como Nessie não veja isso. Só que levará tempo, deixa-a assim por enquanto. Ela vai entender... vai sim.

– Espero – disse Bella se levantando e sorrindo para Athenodora – Obrigada por tentar me animar. O que eu faria sem você... Athenodora, a Rainha Sorridente?

– Provavelmente nada – riu Dora – Agora vamos, temos a sessão de fotos.

– Você está brincando?

– Mas é claro que não. Você acha que nós não temos álbuns de fotos? Eu não quero perder de ter uma recordação apenas de nós duas no seu casamento.

Bella sorriu e levantou-se, arrumou o vestido e ajudou Athenodora a colocar os calçados. Ela estava feliz com a companhia da Rainha, apesar de que sentia uma falta gigantesca de Alice.

§§§§§§§§§§§§§§§§

– O que foi que aconteceu? — inquiriu Aro com uma expressão desgostosa enquanto entrava na sala – Posso saber o que pode demandar a minha atenção exclusiva a poucos minutos do meu próprio casamento?

– Meu mestre Aro – a voz de Chelsea estava temerosa – É sua enteada.

– Renesmee? O que foi que ela aprontou desta vez.

– Veja pelo senhor mesmo.

Aro caminhou com Chelsea até o fundo do aposento onde uma outra porta dupla se encontrava e que conduzia à biblioteca do Pináculo, uma sala oval repleta de livros, esculturas e obras de arte. O chão era de pedra bruta, mas os móveis e as prateleiras dos livros eram feitos de uma madeira polida e avermelhada. No sofá estava Nessie sentada numa posição escandalosa, ladeada por um desgostoso Félix.

– O que ela tem?

– Meu rei – Félix começou – A menina está bêbada.

– Como assim?

– Está completamente embriagada, caindo de bêbada, mal consegue se manter em pé.

Nessie endireitou a cabeça, focalizou Aro e emitiu um gemido, ergueu-se sobre pernas cambaleantes e caminhou até Aro só não desabando sobre o rei porque Félix a segurou com força.

– Ah, aí está o noxo rei – disse Nessie numa voz arrastada – Pois saiba que eu acho o senhor um baita de um bundão!

Chelsea levou as mãos à boca e Félix arqueou as sobrancelhas, mas Aro nada fez.

– Eu me sinto como aqueles pobres homens que encontram uma mulher maravilhosa, mas são obrigados a suportarem uma filha louca – suspirou o rei – O que espera conseguir com isso, Renesmee?

– Envergonhar você seu velhote – disse Nessie – Voxê matou meu pai e meu noifo... fodeu a vida da minha família e tem a petulância de cassar com a minha mãe. Eu te odeio. Bundão.

– Agora já chega, menina – Félix lhe deu um empurrão.

– Chelsea – chamou Aro numa voz cansada – Use seu dom nela, mantenha-a sob controle.

– Meu rei, vou fazer isso, mas a porção humana da menina continuará embriagada, eu temo que ela não seja capaz de manter um comportamento digno durante a cerimônia.

– Faça como eu ordenei – suspirou Aro – É importante para Isabella que a filha esteja presente, a mantenha sob controle pelo menos durante a cerimônia, depois nós a colocaremos em algum outro lugar. Que ela fique quieta já é um progresso. E a limpem, por favor, deem um jeito de torná-la apresentável. Vocês têm quarenta minutos.

Saindo da biblioteca Aro subiu até o quarto de Bella, ele havia esperado que ela completasse sua sessão de fotografia com Athenodora para depois falar com ela. Tinha um assunto a tratar antes que a cerimônia ocorresse.

Giordano, como sempre, estava na porta e colocou-se em prontidão assim que Aro aproximou-se, o rei o cumprimentou e bateu de leve na porta, entrando em seguida.

Quando viu Bella seu rosto assumiu uma expressão de espanto. Era como se ele tivesse encarado um milagre, uma obra do universo. Simplesmente ficou sem fala e Bella o encarou com surpresa. O rei só se moveu quando Athenodora surgiu do nada estapeando-lhe o ombro.

– Aro Volturi – disse Athenodora numa voz irritada – Um noivo não pode ver a noiva antes do casamento... dá azar!

– Minha cunhada querida – riu Aro – Com todos os nosso milhares de anos e você ainda se prende a uma superstição estúpida destas?

– Dá azar ver a noiva antes do casamento – insistiu a Rainha.

– Oh, muito bem então – Aro virou-se e fechou os olhos – Está bem assim?

– Aro – riu Bella – O que está fazendo aqui?

– Você está diabolicamente linda.

– Veio aqui só para me dizer isso?

– Não, mas nunca imaginei que pudesse ficar ainda mais linda do que já é. Você me surpreende todos os dias.

– Mesmo você tendo acabado com o encanto da surpresa do altar – reinou Athenodora.

– Bem, há o empecilho sobre a entrada da noiva – disse Aro ignorando a cunhada – Bella não pode entrar sozinha pela tradição, então Lorde Valentim de Milão ofereceu-se para a honra de conduzi-la até mim. Valentim é um amigo de longa data, achei que você não se importaria, Isabella.

– Não quero ser conduzida por um Lorde – Bella falou e Aro suspirou por já conhecer aquele tom que dizia que sua Rainha não seria contrariada.

– Isabella, minha querida, se não for com um Lorde, quem mais a conduzirá?

– Giordano – disse Bella e Aro riu.

– Bella, ele é um cavaleiro... um servo.

– Ou eu entro com ele ou não entro – teimou Bella percebendo que soou exatamente como Nessie.

Aro suspirou.

– Você me causará um AVC antes de completarmos um dia de casados, não há chance de você reconsiderar?

– Você quis casar comigo, Aro... eu sou assim e você não vai conseguir me mudar. Ou você prefere reconsiderar e não se casar comigo?

– Bella... — disse Aro numa voz de súplica já se virando para vê-la, mas Athenodora o impediu – Eu nunca tenho chance nestas discussões. Giordano!

O guarda entrou e fez uma reverência para o Rei.

– Você aceitaria conduzir sua Rainha até o altar? — perguntou Aro num tom polido.

– Eu? — Giordano nitidamente não sabia onde enfiar a cara – Meu rei, sei que há vampiros nobres para conduzir minha senhora Isabella. Sou um cavaleiro, eu não tenho posição para...

– Giordano – a voz de Bella era doce, quase travessa – Você negará um pedido meu? Negará um favor à sua Rainha?

– Justamente por não estar à altura... — balbuciou Giordano.

– Você me deixaria inacreditavelmente triste se não aceitar – Bella virou-se para o cavaleiro – Será que me tem em tão baixa estima que não seja capaz de me acompanhar até o altar?

Giordano olhou para aquela vampira possuidora de apenas três décadas de idade, com um rosto de uma jovenzinha de dezoito anos, uma moça com mais coragem do que muitos guerreiros que ele conheceu, com mais caráter do que qualquer rei, linda como o alvorecer, e olhando-a ele soube que jamais teria a coragem de negar qualquer pedido que fosse feito pela sua Rainha-menina.

– Será a maior honra que até hoje recebi, minha senhora, a de poder acompanhá-la até o altar.

– Então está feito – disse Aro sorrindo e sem se voltar para Bella ele saiu pela porta.

§§§§§§§§§§§§§§§§

Bella estava parada no hall de entrada que encontrava-se deserto naquele momento, havia apenas um guarda na porta principal esperando para abri-la liberando o caminho até o pátio principal onde Aro a aguarda no altar. Ao seu lado, Giordano esperava bonito e elegante em sua armadura dourada resplandecente. Bella respirou fundo quando lembrou que do lado de fora centenas de vampiros e três mil Mercadores da Morte aguardavam para vê-la passar enquanto se dirigia para o lugar onde se tornaria Rainha.

Então o som delicado da melodia rítmica de um quinteto de cordas começou a soar e ecoar por sobre os pátios e Bella sentiu-se congelar. Ela odiava aquilo, já odiou o casamento na casa de Carlisle onde algumas poucas dezenas de pessoas assistiam, imagine agora onde milhares de vampiros aguardavam para olhá-la.

Então, de algum lugar veio um sinal, e o guarda abriu as portas do hall inundando o lugar com o sol do fim da tarde, rubro e glorioso, Bella caminhou até a porta e avistou o pátio principal. As tendas alvas adejavam ao vento marinho; resplandeciam numa tonalidade áurea e pura e lá, além das tendas, um oceano de olhos rubros virou-se para olhá-la. E depois deles um altar quase na boca do precipício, lá no fim do pátio, e sobre o altar estava Aro.

Sorrindo tanto quanto o sol.

Bella sentiu a brisa tocar-lhe o rosto e foi como se os dedos etéreos do destino a tivessem acariciado. Quando o quinteto de cordas soou a marcha nupcial ela sentiu seus pés se tornarem geleia e uma sensação de Déjà vu se apoderou dela.

– Não me deixe cair, Giordano – sussurrou ela para o cavaleiro enquanto agarrava o braço dele com força.

– Jamais, minha senhora – respondeu Giordano, sólido como uma rocha.

Bella olhava fixamente para o altar, lá estava o reverendo, um vampiro que realizaria a cerimônia, um sujeito baixo e de óculos (o que fez Bella considerar que era um mero capricho uma vez que vampiros não precisam de óculos), Athenodora, resplandecente em seu vestido azul-turquesa, com Caius ao seu lado. Nessie também estava lá e parecia tranquila, mas estranhamente distraída e com um olhar vago.

Aro a olhava completamente extasiado.

Pareceu a Bella que a distância era quilométrica enquanto ela passava entre os bancos lotados de vampiros sentados que a olhavam com atenção, ela ouvia murmúrios, se falando dela ou pelo fato de um servo a estar conduzindo ela não sabia, simplesmente ignorou-os. Sentia que poderia virar-se e sair correndo dali para nunca mais voltar, mas quando seus olhos caíram sobre a filha ela firmou o passo e continuou.

Então, sem perceber, estava no altar. Giordano lhe deu um sorriso encorajador e um momento depois Aro estava em sua frente, tomando-lhe a mão e ajudando-a a subir os degraus. Dali de cima Bella viu o mar tocando o céu, sentiu a vertiginosa queda do precipício, ouviu o uivo do vento e as ondas do mar quebrando contra o rochedo. E ficou ciente dos milhares de olhos ansiosos presos nela.

O vampiro responsável pelas palavras começou a falar e Bella notou que era muito diferente da homilia dos humanos, jamais havia algo sobre amor eterno ou sobre saúde e doença, resumia-se a confiança e sobre liberdade. Foi um monólogo de quase vinte minutos.

– Aro e Isabella – disse o vampiro – O amor dos imortais é diferente do amor dos homens. Nós vivemos para sempre e o termo “amor eterno” não se aplica aos vampiros uma vez que temos consciência que os sentimentos mudam com o tempo. Viver tempo demais é mudar para sempre. Então hoje, aqui, perante todas as testemunhas que fazem parte da Corte Volturi, vocês devem aceitar que viverão do amor de ambos até que este amor possa porventura terminar e se isso acontecer permitirão que um ou outro parta em paz e com a liberdade de seus sentimentos. Mas aqui também aceitamos que o amor pode durar para sempre e vocês poderão seguir até a eternidade... juntos.

A eternidade juntos, pensou Bella, não era com Aro que eu pretendia passar a eternidade.

– Aro Volturi – disse o vampiro – Você aceita amar Isabella enquanto o amor de vocês persistir pelos séculos sem fim?

– Eu aceito – respondeu Aro sem pestanejar.

– Isabella Volturi, você aceitar amar Aro enquanto o amor de vocês persistir através dos séculos sem fim?

Pelo tempo da batida de um coração Bella hesitou. Ela pensou em Edward, mas empurrou a lembrança para baixo, se ela fraquejasse colocaria tudo a perder. Alice a aguardava nas catacumbas para ser libertada e ela não poderia falhar com a irmã agora. Não poderia perder a coragem.

– Aceito – disse ela e foi como se naquele momento o mundo todo se calasse e até mesmo as ondas pareciam ter suspendido seus golpes contra as rochas. O rosto de Aro se iluminou.

Bella não ousava olhar para o rosto da filha, mas julgou que o fato de Nessie não estar gritando já era uma boa notícia.

O reverendo sorriu enquanto olhava de um para o outro e pediu para que Aro segurasse a mão de Bella e ele o fez de forma gentil e protetora. Bella estava em choque o suficiente para não saber se o seu sorriso estava tão falso quanto ela imaginava, mas pelo visto Aro não era capaz de perceber isso estando embriagado de amor. Ela só queria ter certeza de que realmente estava sorrindo e não fazendo cara de choro.

– Agora, como é praxe – disse o reverendo num sorriso meio envergonhado – Dentre toda esta nobre comunidade, há alguém que por ventura se oponha à união de Aro e Isabella Volturi?

O silêncio se tornou mais profundo, mas então uma voz soou do meio da multidão.

– Eu me oponho!

Aro virou-se rapidamente para onde a voz tinha vindo, seu sorriso escorrendo do rosto, um olhar de fúria se formando. Todos se viraram tentando encontrar o autor da loucura. Mas Bella sabia. Reconheceria aquela voz mesmo no meio de uma tempestade de raios, os olhos dela arregalaram-se de surpresa e ela soltou as mãos de Aro dando um passo à frente. Mas não podia ser. Era impossível.

– Quem disse isso? – exigiu Aro Volturi sobre os murmúrios que enchiam o pátio – Mostra-se, teu rei te ordena.

– Eu disse – a voz soou ainda mais perto, ainda mais alta – E eu não sou um de teus servos, Aro.

Então, repentinamente, surgindo no meio do corredor entre as cadeiras dos convidados, pelo mesmo lugar por onde Bella havia passado, um vampiro começou a surgir como uma miragem; emanava do solo como se um véu de invisibilidade lhe fosse descortinado da cabeça. Centenas de vampiros arfaram ao surgimento do desconhecido.

Bella sentiu como se fosse desmaiar, como se todo o sangue do seu corpo tivesse vazado pelos poros deixando-a seca e sem forças para fazer nada além de se espantar. Ela quase sentiu seu imóvel coração explodir no peito e duvidava do que os seus olhos estavam vendo. Era um truque! Só poderia ser uma das armações dos Volturi para testar sua lealdade, não poderia haver outra explicação. Mas havia. Seu coração dizia-lhe a verdade.

Era ele.

Os cabelos acobreados e eternamente bagunçados espalhavam-se ao vento, rebeldes, os olhos, de um dourado cristalino como ouro liquefeito tinham uma ira acumulada que seria capaz de queimar o mundo. E ele olhou para ela e ela sentiu como se um choque elétrico passasse por ela, o mesmo choque que sentira desde a primeira vez que o viu num refeitório colegial há anos atrás.

O tempo pareceu desacelerar como se ela nunca tivesse estado longe dele, apartada de seus braços e distante de seus lábios.

E quando o choque dela passou, quando o mundo voltou a emitir seus sons, ela foi capaz de ouvir sua própria voz dizer uma única palavra, um nome que, apesar do ruído dos vampiros reunidos ali, pareceu ecoar por todo o Pináculo da Luz.

– Edward!