Candor Lunar - Livro 2

49 Capítulo 46 - O Destino que a todos entrelaça


Notas iniciais
Olá, minha gente! Força, pessoal... este é o penúltimo capítulo. Ainda não comecei a escrever o último, mas pretendo fazer isso este fds. O fim chegou! Ang.

Um sol sonolento se erguia no horizonte dourando de luz as cortinas brancas do aposento, a luminosidade se espalhava por sobre os móveis espantando a escuridão e as sombras tanto do quarto quanto do coração dos jovens deitados na cama. O ar estava fresco e um vento brando e frio entrava pela janela testando com seus dedos tépidos e etéreos a colcha de seda que cobria a menina e o lobo.

Renesmee não dormia. A luz pintalgava seus olhos de dourado, a íris absorvia aquela rajada de sol tornando-se reluzentes, seus cabelos espalhavam-se ao redor do rosto num misto brilhante de ruivo e castanho... a pele dela refulgia ao sol. Estava deitada silenciosamente sobre o corpo nu de Jacob, ouvindo o poderoso coração do lobo retumbar dentro do peito, forte, inabalável, poderoso e seu. Naquele momento a respiração de Jake aquecia seus cabelos e Nessie decidiu que não queria sair dali por nada no mundo, havia esperado dois longos anos para poder tê-lo novamente em seus braços.

Ela suspirou fundo. Fazer amor com Jacob Black havia espantado todos os seus receios e todas as sombras de seu coração, ela não dormira desde que chegaram do Pináculo da Luz durante a madrugada, decidira que permaneceria desperta para aproveitar a presença do noivo o máximo que pudesse. Durante a viagem toda ela havia estado agarrada ao pai, resolveram utilizar os carros que havia no Pináculo e que tinham pertencido aos reis, nenhum deles estava disposto para correr depois de tudo o que passaram. Renesmee chegou a cochilar no colo de Edward enquanto Jacob dirigia, o cheiro e a presença do pai a deixavam segura também, fazendo-a recordar de quando era apenas uma menininha que dormia na sala assistindo TV e Edward a carregava para a cama.

Sua mente vagou levemente para a mãe e foi com uma pontada de dor que ela lembrou que desde que tudo terminara havia se mantido levemente afastada de Bella. Elas haviam passado por coisa demais juntas.

As mágoas ainda estavam lá e Nessie decidiu que não estava disposta a trazê-las à tona... não agora.

Ela sentiu quando Jacob despertou. Virou-se para ele no exato momento em que o lobo abria os olhos e focalizava-a com a expressão de quem ainda estava sonhando, ele ergueu uma mão e colheu o rosto dela sentindo sua pele fria, percebendo que ela estava ali de fato. Renesmee era o seu destino final e apesar de estarem em Volterra, tudo estava bem com a presença dela.

– Sonhei muitas vezes com você – disse Jacob num sussurro – No caminho para cá.

– Como eram os sonhos? – ela respondeu aproveitando a quentura da mão dele em seu rosto.

– Estávamos juntos, mas distantes – Jake estreitou os olhos com a recordação – Como se eu não fosse capaz de alcançá-la, você sempre me chamava me impulsionando a vir até aqui, mas eu jamais era capaz de te tocar. Houve tempestades e um teatro estranho.

– O teatro! – espantou-se Renesmee erguendo-se um pouco para olhá-lo – Eu estive lá com você. Jake... eu vi!

– É claro que viu! – Jacob riu, a pele dele formigou quando os seios nus de Nessie tocaram-no — Estamos conectados.

Nessie sentiu Jacob erguer sua mão espalmando-a na sua, a delicada mão dela escondia-se pequenina na mão forte e bronzeada de Jacob Black. A mão que lhe transmitia segurança e paz. Ela deslizou por cima dele, o corpo levemente gelado dela se opondo ao calor abrasivo e solar de Jake, ela lhe sorriu um sorriso maroto e doce e o beijou, os lábios de Jacob ardiam contra os dela e Renesmee decidiu que jamais se cansaria dos beijos dele. Não tardou a ela se encaixar no lobo e os dois movimentavam-se em sincronia perfeita enquanto o dia raiava e os raios de sol reluziam no corpo nu de Nessie; amaram-se por longos momentos e quando tudo terminou num agonizante êxtase de prazer, Nessie sentiu as lágrimas banhando seu rosto.

Jake tocou de leve o rosto dela.

– Lágrimas não era exatamente o que eu esperava.

– São de felicidade – Renesmee o encarou com sobriedade – Houve... um momento... em que pensei que não suportaria mais, pensei que eles finalmente me fariam acreditar que você tinha morrido. Que eu estava sozinha.

– Eu sinto muito por ter demorado tanto, Renesmee.

– Não foi sua culpa, Jake. Eu não estou reclamando... você veio o mais rápido que pode. E veio... por mim. Apesar de eu não conseguir ainda ter assimilado tudo o que vocês passaram, tudo o que meu pai contou ontem durante a viagem. Principalmente a parte das bruxas... a parte do pântano.

– Aquele sim era um lugar estranho – Jake falou desviando o olhar um pouco – Acredite, eu espero não precisar voltar mais lá. Mas no fim das contas era o destino, acho que até muito além do que eu poderia supor, achei que iríamos lá apenas para conseguir auxílio e justamente no Pântano se encontrava a Impressão de Seth.

– Isso não te parece suspeito? Seth apaixonado por uma vampira?

– Bem, você tem de concordar que é uma vampira bastante bonita e gostosona, não é?

– Jacob Black! – horrorizou-se Nessie dando um tapa ruidoso no braço de Jacob.

– Eu estou brincando. Estou brincando. – Jake riu alto e depois de um tempo seu rosto tornou-se pensativo – Durante muitas vezes nessa viagem eu ouvi Carlisle dizer que o destino é inexorável e começo a acreditar nisso, não sei ao certo o que esta Impressão de Seth por Charlotte significa agora, mas alguma coisa me diz que é maior do que eu posso prever. Sei que existe algo mais, sei que o destino está operando... só não sei para quê.

– Não me importa no momento – Renesmee disse deslizando novamente sobre Jacob – O que me interessa é fazer amor com você

– Ah, interessante – Jake disse entre beijos, então foi obrigado a desviar-se um pouco para rir – Pode parecer uma idiotice, mas ainda sinto que Edward vai entrar por aquela porta e me atirar pela janela.

– Meu lobo medroso – ronronou Renesmee – Se eu fosse você não me preocuparia mais. Esqueceu-se da promessa de meu pai? Depois que tudo terminasse, nós nos casaríamos... ou será que você está tentando fugir do compromisso, Jacob Black?

– Eu não me atirei de um precipício por você? – Jake rebateu – Não vejo a hora de voltarmos para casa para que você se torne definitivamente a senhora Renesmee Carlie Cullen Black.

– Uau, meu nome vai ficar imenso.

– E bastante elegante.

– Está ficando convencido, Jacob... para um cara que nem ao menos pediu sua noiva em casamento ainda.

– Então antes de fazermos amor uma vez mais... você aceita se casar comigo, Senhorita Cullen?

– Sim – disse Renesmee simplesmente. Não havia necessidade de dizer mais nada.

E eles voltaram a fazer amor em Volterra, o antigo palácio e centro do poder dos vampiros agora estava parcialmente destruído, mas isso não impedia que Jacob e Renesmee se perdessem nos braços um do outro. Eles não notavam o vento ou o sol nascente, nada importava a não ser os dois e nada no mundo os poderia separar. Não naquele momento.

§§§§§§§§§

Edward afagava de leve o cabelo da esposa. Bella estava hipnotizada com o clarear do dia, imóvel e totalmente absorta em seus próprios pensamentos, como se estivesse há milhares de quilômetros. Sua mente vagava para algum lugar inacessível a Edward. Uma tranquilidade sorrateira espreitava o quarto e os dois estavam perfeitamente juntos sob as cobertas, encostados e quase unos em seu abraço de saudade, depois de terem feito amor longamente apenas permaneceram ali, lado a lado, permitindo que a compreensão de que estavam novamente reunidos enchesse seus corações.

– Onde você está? – perguntou ele por fim, quebrando o silêncio.

– Estou aqui – respondeu Bella virando-se para Edward e sorrindo – Onde sempre estive.

Ela o beijou, os lábios de Bella eram familiares a ele, como se jamais tivessem deixado de estar por perto, havia saudade em cada beijo, cumplicidade, amizade... amor. Mas Edward não podia negar o mal-estar leviano que se instalava ali, como uma culpa alojada em suas gargantas que arranhava sem querer sair.

– Gostaria de tirar o peso que há em seu coração – disse Edward de forma triste.

– O peso estará lá de uma forma ou de outra, meu amor – ela respondeu enquanto erguia a mão para acariciar o rosto de Edward – Há um peso no coração de todos nós agora, é inevitável. Mas devemos nos lembrar do que fomos um dia e tentar fazer o possível para sermos aquilo novamente.

– Você acredita que podemos fazer isso?

– Por amor, eu acho que sim. Mas não será fácil. Muitas mágoas foram criadas... eu criei muitas mágoas.

– Refere-se à Renesmee.

Bella se moveu, incomodada, desvencilhou-se do colo de Edward e sentou-se na cama abraçando os joelhos. O sol raiava no céu rosado, os olhos dela se tornaram ainda mais rubros e Edward teve de sustentar a raiva que sentiu daquilo.

– Talvez ela nunca venha a me perdoar por tudo o que eu fiz – a dor estava pronunciada na voz de Bella – Talvez nunca venha a compreender. Sinto que ela desviou-se de mim enquanto vínhamos para Volterra... Renesmee não me reconhece mais.

– Ela precisa de tempo, Bella – acalmou-a Edward – Agora tudo se tornará calmo e ela terá tempo de ruminar um pouco sobre o que aconteceu... ela vai entender que você não teve escolha, que tudo o que fez foi para que permanecessem vivas.

Mas nem a você eu contei tudo, Edward. Pensou Bella.

E durante a conversa que tiveram ela realmente não havia revelado muitas coisas, não a parte em que Aro praticamente a convenceu de que os Volturi, apesar de tudo o que faziam, tinham mantido o equilíbrio do mundo e criado mecanismos para que os vampiros se ajustassem neste mundo novo e cheio de tecnologias capazes de os delatar à luz do sol. Assim como também não havia confessado que o envolvimento com Aro chegara a um estágio em que não era apenas farsa, mas estava começando a tornar-se mais que isso... começava a tornar-se real.

E Renesmee sabia disso. Sua filha tinha visto a face da verdade e era por isso que estava tão magoada.

– Eu acreditei que você estava morto – sussurrou ela, culpada.

– Mesmo eu acreditei que estava morto – Edward a abraçou.

– Mas Nessie não, nem por um momento. Ela lutou tanto, Edward! Meu deus, como lutou. Havia aquela força nela que não morria, uma luz interna que sustentava a confiança que ela tinha que você e Jacob estavam vivos; algo que eu e Alice não tínhamos. Talvez a porção humana dela a faça mais forte do que nós, no fim acho que ela é melhor do que eu... uma mulher e uma vampira muito melhor.

– Você é uma mulher forte, Bella. O fardo ficou sobre você...

– Não tente me fazer sentir a heroína que não sou.

– Todos somos um pouco heróis eu acho.

– Heróis de que, meu amor? De termos alterado o mundo? De não sabermos o que virá agora?

– Não faça isso consigo, Bella – Edward aproximou-se mais – Não hoje, não agora.

– O que eu deveria fazer, então? – o rosto dela estava assombrado pela dor e sua voz era suplicante.

– Bom, me beijar continua sendo uma boa ideia, não é?

– Será uma boa ideia para sempre – Bella conseguiu sorrir – Eu te amo.

– Eu sei – havia um sorriso jovial nos lábios de Edward – Também amo você.

Já era meio da manhã quando Edward e Bella decidiram que estava na hora de descerem para ver o que acontecia em Volterra. Bella caminhou pelo quarto que fora seu com familiaridade e desprendimento, parecia flutuar suavemente entre os móveis, Edward acompanhou deliciado a esposa nua se aproximar do closet, abri-lo e escolher para si um vestido... e neste momento Edward percebeu que Bella já não era a mesma.

Distraidamente ela colheu um elegante vestido curto e sério num tom cinza claro, calçou um par de sapatos de salto um tom mais escuro que a vestimenta e depois sentou-se à frente do espelho, aplicou uma maquiagem leve, porém elegante, escovou os cabelos e ergueu-se com uma postura reta e impecável, austera. Seus olhos continuavam distraídos e só foram despertar no momento que ela pegou Edward a olhando com atenção.

– O que foi? – ela quis saber.

– Nada – Edward disfarçou um sorriso sem graça – Você está muito bonita.

– Obrigada – Bella respondeu sem perceber nada.

– Acho que é hora de me vestir também.

Edward levantou-se e recolheu da poltrona próxima uma muda de roupas limpas que encontrou em um dos vários aposentos do palácio, nada elegante quanto à vestimenta de Bella, mas ele apenas não se importava com o que vestia naquele lugar, só desejava deixar o castelo o mais rápido possível. Depois de se vestir ele voltou-se para Bella para pegá-la na varanda olhando distraída para o palácio destruído, parecia insatisfeita com o que via.

– Você se apegou a Volterra? – perguntou Edward diretamente, ele não estava com vontade de florear a conversa.

– Volterra é uma obra de arte, Edward – respondeu Bella com uma voz distante – Grandes gênios estiveram trabalhando aqui, é triste ver tanta beleza destruída, isso nada tem a ver com o que Volterra representa, apenas me lembro de como era, de seu esplendor e fico ressentida de saber que obras de arte seculares jamais poderão ser recuperadas.

– Isso não importa, Bella – ele não parecia satisfeito e sabia que sua voz refletia sua frustração com comportamento da esposa – O importante é que vencemos, matamos os Reis... os Volturi foram destruídos.

E então aconteceu.

Bella se virou rapidamente, a postura impecável, a face vitrificada, os olhos orgulhosos, uma expressão irretocável e austera, o rosto coberto com uma máscara... a máscara da Rainha. Este arroubo, porém, durou pouco mais de segundos até que Bella percebesse que olhava para seu marido e não para um servo, mas foi o suficiente para que Edward notasse a mudança nela, para que percebesse que sua esposa outrora tão despreocupada, tranquila e distraída já não existia mais e em seu lugar havia permanecido uma Rainha.

Aqueles segundo fizeram com que Edward olhasse para Bella e visse Bianca. A mesma compostura, a mesma inexpressiva fúria fria, uma indiferença vazia mesclada a uma soberba irrefreável. Ali estava uma Rainha de Vampiros. Uma senhora de Volterra.

Bella notou o tinha feito, percebeu o choque no olhar dele e imediatamente relaxou, tarde demais, mas relaxou. E depois disso tudo o que se apoderou dela foi uma tristeza sólida como uma parede de aço rebitado com espigões envenenados. Ela recordou-se das últimas palavras de Athenodora sussurradas para ela antes da Rainha de Caius entrar no fogo caminhando para a morte. Vocês serão nós, havia dito Athenodora e Bella sabia que aquelas palavras eram verdadeiras.

– Você não percebeu ainda, não é mesmo, meu amor? – Bella disse e uma tristeza inescrutável pesava em sua voz – Nós somos os Volturi agora.

Edward recebeu aquilo como alguém recebendo um punhal de gelo no peito, as palavras devastaram o que restava de sobriedade nele, como se o cansaço dos últimos dias tivesse finalmente derrubado-o. Bella simplesmente virou-lhe as costas, o rosto aflito, para olhar o céu azul de anil da Itália; Edward ficou ali apenas por alguns momentos tentando absorver o choque e rechaçar a afirmação da esposa... ele não aceitaria aquilo.

Depois virou-se e deixou o quarto... com uma Rainha lá dentro.

§§§§§§§§§

Arian observava com um olhar tranquilo e satisfeito a sua Rainha trocar de roupa. Bianca vestia-se com um vestido fino num tom azul celeste, o decote em V absorvendo o desejável e sedutor colo. Os olhos rubros estavam com um brilho leve e gracioso depois que ela e Arian saciaram-se com o estoque de sangue que havia para a festa de casamento de Aro. Havia um toque de vingança naquele gesto, beber da safra de sangue de um rei tombado.

Os cabelos dourados de Bianca refletiam-se na luz do sol nascente, ela parecia uma deusa alva vestida com águas do mar, indomável, seu rosto guardava a profunda rebeldia e sua mente ocultava os desejos luxuriosos que habitavam sua mente. Mas ali também havia um alívio bastante humano e um sorriso gracejava em seus lábios, sempre florescendo quando a lembrança da liberdade tomava sua mente e suas lembranças. Ela ergueu o rosto, repirou o ar frio que entrava vindo de fora e olhou para o céu e para o mundo que em breve estaria aos seus pés.

– O mundo parece imenso daqui de cima – ela falou, com uma voz sonhadora.

– Teremos muito tempo para ver o mundo, minha Rainha – emendou Arian, tranquilo.

– O que farás com Volterra, meu Rei?

– Não sou rei algum, Bia – Arian soou suave, mas havia um tênue tom de aviso ali.

– Claro que não, eu torno sempre a esquecer-me deste insípido detalhe – retorquiu Bianca numa voz melíflua – Mas sane-me uma dúvida, meu amor, farás a última vontade de Aro?

Vá ao Cofre dos Segredos e leia o Livro Vermelho... o Livro dos Mistérios, a voz de Aro ecoou na mente do guerreiro-deus, as palavras reverberando como uma maldição, uma anátema.

– Lá só haverá mais segredos, Bia. Nenhuma explicação, nenhuma reposta... apenas mais segredos.

– Segredo é poder, meu príncipe.

– E por que haveria eu de desejar mais poder? – riu Arian de forma estrondosa, chacoalhando a cama.

Um esgar de impaciência cruzou o rosto de Bianca, mas dissipou-se logo em seguida, quase que instantaneamente, ela caminhou para o gigante na cama e sentou-se ao seu lado acariciando o rosto dele em seguida.

– O que fará com nossos convidados? – ela perguntou desviando deliberadamente o rumo da conversa.

– Eles estão livres... tenho uma gratidão eterna por libertarem-nos. Aliás, auxiliá-los-ei no que for possível para retornarem à sua antiga vida.

– Eu posso lhe dar uma sugestão?

– Como sempre, minha Rainha.

– Vá até o Cofre dos Segredos, leia o Livro Vermelho que Aro possuiu durante tantos séculos... depois disso, e dependendo do que lá encontrar, troque conselhos com Edward e Carlisle Cullen.

– E que motivo me levaria a fazer isso? – perguntou Arian sentando-se na cama e olhando Bianca com desconfiança.

– Carlisle é um vampiro sábio, Arian. Ele conhece muito deste mundo novo, deste mundo desconhecido para nós dois, ele e Edward podem lhe dar conselhos bons sobre o que há naquele Livro. Seria prudente nos informarmos sobre o impacto que os possíveis segredos que existem naquele livro possam vir a causar neste mundo sem Reis.

Arian suspirou, tinha de admitir que se tratava de um conselho prudente.

– Que seja – disse por fim tornando a esticar-se na cama – Sei que não me deixaria em paz até eu ler aquele maldito livro.

– Está a morder-se de curiosidade tanto quanto eu sobre o que guarda aquele Livro, Arian – Bianca disse levantando-se e seguindo para a porta – Não tente enganar-me, sabe ser impossível.

– Oh, como sei – riu o gigante – Aonde vais?

– Procurar Sofia – respondeu Bianca soprando-lhe um beijo – Está mais que no tempo de ela retornar as antigas. Não tarde a levantar-se daí, bem ou mal és herdeiro de Aro e não fica bem o anfitrião permitir que seus convidados fiquem esperando.

Enquanto a Rainha deixava o aposento, Arian suspirou da cama. Que tipo de herança deixaste-me, pai? Pensou para si mesmo. Por que tenho um pressentimento de que te estava aliviado de partir deste mundo deixando o peso para os ombros de outros? Eu sei que há algo de errado por aqui, enterrado fundo sob este castelo... sinto nos meus ossos.

Alguma coisa vai acontecer... alguma coisa muito sombria.

§§§§§§§§§

Dean Portman caminhava a esmo pelo castelo, perdido, isolado e sem saber ao certo o que diabo havia acontecido. Ele era servo de Madalene, aliada secreta de Marcus, passara boa parte de sua vida como espião enviando segredos dos Volturi para a Confraria do Sangue até que finalmente viu seu trabalho estar chegando ao fim quando Volterra caiu. Mas estava enganado.

Havia muitas questões sem esclarecimentos e ele não gostava disso.

O que Marcus tramava afinal? Ele sempre apoiou o desejo de Erestor em possuir o Livro Vermelho, mas no fim tudo o que queria era a morte dos irmãos através de uma vingança pré-determinada. O Livro nunca fora sua meta primordial contrariando o desejo da Confraria. E o que dizer de Erestor? Ele conhecia o paradeiro das bruxas, mas jamais revelou este detalhe para Marcus, preservando para si o segredo a fim de usá-lo num momento mais apropriado e condizente com seus próprios planos.

Marcus ocultava coisas de Erestor e Erestor ocultava coisas de Marcus, a cabeça de Dean rodava, o que diabos aconteceu naquela torre?Para que lado eu fico sabendo que Marcus não falava a verdade e tampouco a Confraria do Sangue? Será possível que todos têm segredos? Segredos sem fim?

Deixou-se sentar cabisbaixo em um dos degraus semidestruídos do castelo, o dia clareava aos poucos lançando uma luz tênue pelos jardins massacrados, uma fonte murmurava seus esparrinhos de água em algum lugar por ali e Dean sentiu-se só como não se sentia há muito tempo. Estava completamente desamparado, sua arrogância tão atenuante em sua personalidade estava simplesmente apagada.

Principalmente agora que os companheiros de causa haviam partido antes mesmo de chegarem a Volterra. Vrau Urban e Didi não estavam dispostos a deixar que Erestor permanecesse muito tempo sem notícias do que se tinha sucedido, eles estavam ávidos por espalhar finalmente as novas... os Reis haviam caído. O mundo estava livre de Aro, Caius e Marcus.

Por um bom tempo Dean ficou ali atirado nos degraus observando o sol erguer-se nos céus como uma rosa com pétalas de fogo a desabrochar-se, Volterra lhe pareceu subitamente um lugar fantasmal, ermo e abandonado. Mas havia vida nos destroços... uma vida nova que ressurgia das cinzas de um governo destroçado.

Enquanto mantinha-se perdido em seus delírios e em sua ociosa dúvida do que fazer, Dean escutou no corredor longínquo ecos de passos vindo em sua direção, passos curtos e rápidos, apressados e impaciente... passos de uma mulher. Ele o sabia porque não haveria homem na face do mundo que soubesse mais de mulheres que Dean Portman, e o vampiro espião fora recompensado com sua sabedoria, de fato era uma mulher, uma vampira estonteantemente linda.

Quase tão linda quanto a própria Bicanca... quase.

A vampira era elegante em seu caminhar, o rosto angelical emoldurado por cabelos louro-prateados que desciam em forma de cascata para além de seus ombros, a tez alva contrastava com os olhos rubros e claros que denotavam a possibilidade de que enquanto mortal a mulher tivera olhos claros. Era jovem, imortalizada ali pelos vinte, o rosto ainda guardava um ar de menina, mas os modos eram de mulher, vestia a veste escura da guarda, um vestido longo e decotado que inflava ainda mais a perfeição de seu corpo. Dean Portman sentiu-se hipnotizado por ela como jamais sentiu-se por qualquer vampira que fosse, era um sentimento antecipativo, uma coisa que acontecia sem se saber o por quê, imprevisível e sugestivo, algo que o fez erguer-se dos degraus com rapidez a fim de olhá-la melhor.

Distraída a vampira assustou-se com o súbito surgimento de Dean e parou de imediato, interrompendo a sua trajetória. E olhou-o com um ar de surpresa.

– Senhor Portman – disse ela numa voz subserviente – Não o vi!

– Eu tenho o costume de surgir quando menos esperam – respondeu Dean com seu melhor sorriso matreiro – Eu... não me recordo de você e dificilmente me esqueceria de uma mulher tão linda.

A vampira pareceu claramente desconfortável com o elogio.

– Sou Sofia, serva de Volterra. Antigamente aia de minha senhora Bianca. Eu o conheço de vista das vezes em que esteve no castelo acompanhando a Senhora Madalene.

– Sim, de fato, estive aqui vezes sem conta nos últimos anos e nunca me dei conta de você. Como pode?

– Por que haveria de me notar, senhor? — Sofia recuou um pouco.

Aquele ar inocente era uma surpresa ainda maior para Dean, ele já ouvira falar na vampira que agora o olhava com timidez, afinal, como espião tinha um perfil completo de todos que habitavam o palácio. Sofia Alana Aglaê, nascida na Grécia e feita escrava de Volterra há muitos séculos devido a sua peculiar beleza, acabou tornando-se aia da Rainha Bianca e com o passar dos tempos sua amiga e confidente. Com o aprisionamento de Bianca ficou responsável pelos servos domésticos do castelo, temendo a fúria dos reis por sua proximidade com Bianca, Sofia fazia o possível para não aparecer ou para passar despercebida.

Linda, temerosa e delicada, pensou Dean.

– Eu sou também um servo, Sofia – Dean disse em uma voz doce – Por isso não me chame de Senhor, pois não sou um Lorde.

Ela sorriu.

– Mas está em um nível superior ao meu – o tom dela era um pouco menos tenso.

– Creio não haver mais níveis agora, acho que somos todos iguais, não é? Para onde ia com tamanha pressa?

– Estou ansiosa – um sorriso comedido surgiu em Sofia – Estava a caminho para ver Bianca!

Não Rainha ou tampouco Senhora, apenas Bianca, notou Dean com perspicácia, então são realmente amigas.

– Creio que então não seria prudente deixar a Rainha aguardando, não é mesmo? — a voz dele assumiu uma tonalidade ronronante e sensual – Mas espero poder vê-la mais vezes por aqui, Sofia.

– Se é que haver algum aqui, não é mesmo senh... digo, Dean – ela o olhou com cautela.

– Acho difícil Volterra deixar de existir, creio que teremos notícias de um novo rei muito em breve – piscou para ela como alguém que conhece um segredo indizível aos outros.

Sofia lhe sorriu, ela gostava muito da voz dele, do tom aveludado que parecia ondular no ar e penetrar diretamente em sua mente, e sempre que o via perambular por Volterra em missões de sua Senhora sentia-se subitamente tomada por um frescor estranho no peito. Dean Portman era lindo à medida do pecado, algo como um daqueles deuses esculpidos através das mãos geniais dos grandes mestres, ela descobriu que o temia, o receava, como se ele fosse perigoso de uma forma que ela não era capaz de conceber.

Mas mesmo temendo-o, sentia-se atraída por ele... Dean sempre foi o que ela mais desejava em termos de vampiro, e foi na verdade um susto de surpresa por tê-lo encontrado ali nas escadarias de Volterra. E ele foi educado com ela, aqueles lábios perfeitos haviam lhe sorrido... e Dean acabara de dizer que gostaria de vê-la novamente. Era impossível não se sentir agitada com isso.

– Nos veremos novamente, então – ela disse.

E tal qual uma menina, disparou para longe dele seguindo novamente seu rumo, deixando para trás um Dean Portman extasiado. Como poderia existir uma vampira secular que ainda se portasse como uma jovem moça? Era uma descoberta surpreendente! Sofia Alana, tímida e delicada como uma rosa aveludada, doce feito um favo de mel, linda como manhãs de primavera.

Dean sorriu para si mesmo, aquela sim era uma vampira para se passar a eternidade. Apesar de ele não ser homem de uma mulher só, e imaginou se conseguiria controlar sua maldita alma sedutora.

Sua alma de Casanova.

§§§§§§§§§§

A transformação seguia para seus estágios intermediários.

A pele de Giuliana permanecia quente, mas já assumia uma tonalidade alva como neve; os traços de seu rosto estavam se acentuando, adquirindo uma aparência mais refina e elegante, muito mais atraente. O coração ainda pulsava fraco, num ressoar remoto, como um eco numa câmara vazia. O peito ainda subia e descia; a respiração apegando-se aos últimos estágios de vida daquele corpo prestes a ser imortalizado.

Mais alguns poucos dias e tudo estaria completo.

Giuliana tornar-se-ia uma vampira.

Jasper estava em pé ao lado da janela olhando o dia nascer, havia deixado Alice na cama num aposento do outro lado da torre, a esposa parecia distante e aflita, um provável trauma por tudo o que viu e viveu. Ele decidiu que daria um tempo a Alice, teriam que se sentar e conversar longamente sobre o que havia se passado, algo muito mais substancioso que a conversa rápida que tiveram no carro durante o regresso a Volterra. Jasper sabia que havia uma sombra pairando sobre a esposa, Alice não a mencionava, mas ele sentia... teria que descobrir no momento em que ela estivesse preparada para contar.

Giuliana soltou um gemido lento e quase inaudível em seu leito na cama, Jasper aproximou-se e sentou-se ao lado dela colhendo a mão da menina na sua, havia sofrimento no rosto dela, um sofrimento que não era oriundo apenas da transformação que nela se operava, mas também em boa parte pela vida que levara. Giuliana não tinha tido uma vida muito fácil... e isso só servia para que a culpa de Jasper pesasse ainda mais.

Eu a amaldiçoei, pensou Jasper, tirei-a de uma vida ruim para uma vida de tormentos eternos. Que direito tinha eu de fazer isso? Carlisle tinha razão, deveria tê-la deixado partir, descansar, e agora você despertará para um mundo que talvez nem futuro tenha... um mundo onde os vampiros serão livres para fazer o que desejarem sem receber qualquer punição por isso.

Um mundo em que ele ajudou a criar usando a própria Giuliana como massa de manobra para tal. Agora, ali, olhando-a em sua metamorfose, Jasper perguntou-se se havia sido uma boa ideia destruir os Três. Eram vampiros loucos e corruptos, mas a ordem do mundo estava assegurada, muito diferente da atual perspectiva, bem ou mal existia um balanço, um equilíbrio. Agora sem reis não haveria quem mantivesse a ordem, punir que transgredisse as leis, legislar e atuar como um condutor de justiça em meio ao tênue limiar dos dois mundos.

Jasper sentia-se responsável pela menina assim como imaginou que Carlisle sentia-se responsável pelos filhos que criara... e era uma responsabilidade muito pesada, algo que ele não imaginou que pudesse algum dia sentir. Jass suspirou derrotado, agora era tarde demais para qualquer tipo de arrependimento, não adiantava ficar chorando o que não podia ser desfeito.

Ele era um soldado, soldados não reclamavam... agiam.

Jasper ergueu-se dali disposto a encontrar Alice, ele caminhou pelos corredores revirados do castelo, muitos haviam deixado o lugar depois que Arian chegou e ordenou que Charlotte desfizesse a barreira mágica que prendia a todos dentro de Volterra, mas apesar da debandada geral, havia vários servos que permaneceram por ali, não tinham outra coisa para fazer a não ser servir e depois de tantos séculos de escravidão também não tinham para onde ir e nem vontade de tentar fazer alguma outra coisa.

O quarto estava inundado em luz e Jasper chegou ao exato momento em que Alice terminava de se arrumar, ela lhe sorriu de forma distante e automática e o soldado viu uma vez mais a sombra passar o rosto lindo da esposa. Ele aproximou-se e a abraçou, passara muito tempo sem o balsamo que era o perfume de Alice, suas preocupações abrandando instantaneamente. Alice sempre fora o seu elixir, seu remédio contra todas as preocupações. Sua salvação.

– Me conte o que a está preocupando tanto, Alice – ele perguntou suavemente – Sabe que eu a escutarei como sempre.

Jasper sentiu a vampira ficar tensa, mas depois ela suspirou e virou-se para olhá-lo. Havia uma leve pontada de pânico no rosto dela e Alice fez a única coisa que poderia fazer naquele momento: mentir. Não se tratava de uma mentira propriamente dita, o assunto que trataria também a assombrava tanto quanto a verdade inconcebível... a de que o coração agora se dividia em dois.

– O meu dom – começou Alice, timidamente – Jass, estou preocupada com meu poder. Ele... sofreu uma mutação de alguma forma. Transformou-se. Antes eu era incapaz de controlá-lo e as visões vinham sem eu desejar ou esperar, mas agora, depois de tanto tempo retendo o poder para que Aro não tivesse armas para usar contra nós mesmas, bem, sou capaz de utilizá-lo quando quiser. Acho que meu poder tornou-se mais forte e mais perigoso, agora sou capaz de olhar o futuro de quem eu quiser e isso não tudo... vejo o futuro distante, talvez de muitos anos pela frente e não apenas acontecimentos imediatos. Isso me aflige. Minha previsão está tão absurdamente direcionada que sou capaz de ver até mesmo o futuro de Nessie que antes era completamente oculto de mim.

– Você viu o futuro de Nessie? — Jasper parecia preocupado.

– Sim – respondeu Alice ocultado deliberadamente que já tinha dado uma olhada no futuro de Jasper também.

– E consegue fazer isso sempre? Digo, você agora é capaz de ver o futuro de qualquer um anos à frente?

– Acho que não, parece estranho, mas só consigo ver um futuro mais longe quando conheço melhor a pessoa... como foi o caso de Renesmee, tentei fazer isso com Bianca, mas falhei, meu dom parece ligado aos meus sentimentos. Quando desconfio ou não gosto de alguém acabo não vendo quase nada, deve ser algum trauma psicológico, e de uma forma ou de outra, não quero mais fazer isso.

– Não quer mais saber do futuro?

– Jasper, você sabe o peso que o futuro tem? Sabe a responsabilidade de ficar esperando que tudo desmorone e que coisas deem errado? Além do mais, olhei o futuro de Nessie seguidas vezes depois da primeira visão e ele está constantemente diferente.

– Alice, eu acho que você não deveria se preocupar tanto – Jasper olhava para ela de modo seguro – Você melhor do que ninguém tem consciência de que o futuro é incerto e impreciso, há muitas variáveis que ocorrem sempre e que podem alterar o fluxo temporal. Seja lá o que você viu no futuro de Renesmee prova isso, cada pequeno acontecimento desencadeia várias vertentes e tudo isso pode alterar de forma sensível o futuro previsto. O que você vê hoje pode não ser o mesmo que verá amanhã, entende?

– Obrigada, Jass – ela sorriu para ele abraçando-o com força – Você sempre dá um jeito de me animar.

– É a minha função – riu Jasper – E não precisa se preocupar, Alice, eu sempre estarei aqui... não vou a lugar algum.

E dito isso Alice sentiu um arrepio percorrer o seu corpo, as palavras de Jasper aumentando a culpa que ela sentia.

Nem sempre o futuro poderia mudar, porém, em algumas vezes, as coisas aconteciam exatamente como ela tinha previsto.

§§§§§§§§§§

Quil estava no jardim que outrora pertencera a Caius, o Jardim do Bem e do Mal. O gramado havia sido pisoteado alguns canteiros revirados, vasos de flores encontravam-se tombados e rachados e o espelho d'água, outrora imperturbável, crispava-se com o ritmo lento da brisa gelada da manhã, o lobo olhou para as ondas tênues na água e franziu o cenho.

Você sabe que seu mestre morreu? Pensou ele dirigindo sua pergunta ao lago. Será que a pacacidade deste jardim estava ligada à existência de Caius? Pois este lugar parece muito morto sem a presença do rei.

O lobo, entretanto, estava em paz. Havia sobrevivido a dois anos de loucura e escravidão, mas sua espera fora recompensada com a chegada de amigos que ele julgava mortos. Alice, Bella e Renesmee estavam uma vez mais em segurança e a sua vigília, seu cuidado para com elas poderia, enfim, descansar. Ele voltou a sonhar com um lugar incrustado nas florestas da América do Norte, com praias de areia cascalhenta e águas profundas e frias... seu lar. La Push. Desejou rever novamente seus parentes, os amigos que restaram, queria poder fazer uma oração sobre as cinzas dos companheiros tombados que agora o aguardavam nos Campos Eternos. E desejava, acima de tudo, rever Claire.

Ouviu, então, um leve resfolegar de grama sendo pisada e quando se virou encontrou Seth caminhando para ele com seu inabalável sorriso no rosto. A expressão que o rapaz carregava era a de um homem extremamente feliz.

– Pensando na vida? — perguntou Seth, alegremente, enquanto sentava-se ao lado do amigo.

– Pensando em tudo um pouco – respondeu Quil, muito mais circunspecto.

Seth não o culpou, Quil tinha passado por muita coisa, muitas provações, e o jovem lobo ficou um pouco triste por notar que o amigo tinha no rosto o mesmo distanciamento que se pronunciava em Alice, Bella e Nessie. Uma coisa mais profunda como se a beleza do mundo já não os tocasse da mesma forma de antes, como se o sol não os aquecesse com a mesma intensidade. Esta era a marca dos Volturi, a cicatriz que os Reis deixaram em suas almas e corações... uma marca que também havia nele, mas que fora suavizada graças à presença de Charlotte.

– Onde está sua bruxinha? — perguntou Quil com alegria.

– Descansando, ela está sem energias.

– Cansou-a tanto assim durante a madrugada?

– Também – riu Seth – Mas Charlotte está bastante fraca com todo o poder que usou durante a luta no Pináculo... ela gastou boa parte de suas energia tirando o veneno do corpo de Jacob. Se não fosse por ela o nosso destemido líder já seria um tapete de pelos a estas horas.

– Eu sei – Quil tinha um sorriso maroto nos lábios – Como é amar uma vampira?

– Parece surpreso, meu amigo... deveria estar acostumado depois de Jake e Nessie.

– Renesmee é meio humana, Seth. Mas Charlotte é outro nível, uma vampira pura e ainda por cima feiticeira. Seu pai está se revirando no túmulo.

– Provavelmente sim – riu Seth – Mas é coisa de Impressão. Eu vejo pelo lado bom, sempre é interessante namorar uma mulher mais velha, experiência esta, meu amigo, que você nunca teve.

– Golpe baixo, Clearwater... golpe baixo – fungou Quil.

Seth riu alto e neste instante percebeu que Jacob, Carlisle, Renesmee e Garret aproximavam-se do jardim em direção a ele. Nessie vinha abraçada a Garret e Carlisle e Jacob caminhava logo atrás, um homem que parecia julgar estar num sonho dado o seu atual estado de felicidade.

Os companheiros se achegaram a eles à beira do lago espelhado, Quil e Seth ganharam um beijo afetuoso de Nessie no rosto e perceberam entusiasmados que a menina tinha uma expressão sublime ao sentar-se entre as pernas de Jacob no gramado fofo do jardim.

– Crianças – disse Carlisle – Aproveitando a manhã?

– Muito – respondeu Quil, o lobo notou que Carlisle estava feliz e tranquilo, seu rosto aproximava-se em muito da clareza do que fora antes de tudo acontecer, mas mesmo nele havia uma sombra de retidão, muito tênue, mas clara – Conseguiu ter notícias de Esme?

– Consegui – Carlisle lhe sorriu de modo pálido e escuso – Esme entrou em desespero quando ouviu minha voz, era de se esperar, é claro, a última vez que nos falamos foi há dois anos e creio que ela tenha chegado à conclusão de que eu havia morrido. Levou algum tempo para ela se acalmar, mas está tudo bem, ela e Kate estão no Alasca, com os Denali. Esme está aguardando ansiosamente a nossa volta.

– Contou tudo a ela? — quis saber Seth.

– Não tudo, acho que certos assuntos são melhores quando tratados pessoalmente. Além do mais, a queda dos Três deverá demorar um pouco para se espalhar, até lá já teremos retornado para casa.

Ficaram ali naquele grupinho conversando enquanto a manhã prosseguia, Renesmee e Jacob namoravam tranquilamente e neste ínterim surgiu vindo do palácio Dean Portman abraçado folgadamente a Seline e Margot. Viu-os ali e aproximou-se com seu sorriso torto no rosto. Renesmee o olhou com atenção, agora podia ver com mais detalhes que aquele possivelmente era o vampiro mais bonito que conhecera, alto e charmoso, o cabelo negro contrastando com os olhos vermelho claros, o rosto proeminente e elegante. Era um perigo, e seu comportamento denotava isso, tinha ares de um bon vivant e este aspecto era reforçado pelas duas vampiras empoleiradas em cada braço do vampiro.

Seline e Margot eram bonitas como todas as vampiras, mas Margot tinha um leve aspecto mais vivo enquanto Seline era nitidamente um pouco mais recatada, mas naquele momento os rostos de ambas estava afogueado com o fato de estarem tão perto assim do galã vampiro de Volterra.

– Podemos nos sentar com vocês? — perguntou Dean alegremente – Este lugar ficou muito vazio depois que Arian o destruiu, boa companhia é bastante rara.

– Fique a vontade, Dean – convidou-o Carlisle – Aliados são sempre bem vindos.

– Obrigado – agradeceu o vampiro acomodando-se na grama com Seline de um lado e Margot de outro. Ele não tardou a se enturmar, afinal, tratava-se de um patife muito esperto.

Pouco tempo depois se juntou ao grupo descontraído Alice e Jasper. Alice sentou-se perto de Nessie enquanto Jasper acomodava-se ao lado de Seth conversando de coisas triviais que haviam encontrado durante a viagem, Carlisle perguntou sobre Giuliana e a expressão do rosto de Jasper carregou um pouco quando este revelou que não tardaria muito para a transformação estar completa.

Subitamente surgiu Edward, sozinho, caminhando pelo gramado com uma cara de preocupação, ele se achegou ao grupo, abaixou-se para deixar um beijo na filha e moveu-se para sentar-se ao lado de Carlisle na beira do lago. Havia o riso dos lobos e o amor de Jacob e Nessie além da conversa leviana de Dean com as duas vampiras que foram servas de Bella. Isso deixou o humor de Edward um pouco melhor, mas não muito, ele sabia que havia agora uma mágoa de Carlisle direcionada a ele... sentia-a melhor do que nunca agora que as coisas tinham se acalmado.

– Parece que tudo terminou bem – começou Edward com um sorriso sem graça nos lábios.

– E tudo terminou? — Carlisle respondeu, estava calmo, mas a antiga descontração não estava mais ali, sendo substituída por um ar de cautela.

– Você acha que não?

Carlisle olhou de lado para o filho e Edward sentiu que o pai queria lhe dizer algo que estava bastante óbvio, alguma coisa que boiava pela superfície da verdade, mas que Edward, entretanto, teimava em não notar.

– Você não vai compreender as minhas decisões, não é mesmo? — perguntou ele ao pai.

– Não foram as suas decisões que impedem a minha compreensão, Edward. Mas o fato de você tê-las omitido de mim.

– As coisas aconteceram como deveriam ocorrer, Calisle. Se não tivesse libertado Arian não teríamos chances contra Flávius Aurélius e os Mercadores da Morte. Sei que tem o peso na consciência da morte daquele homem cuja alma fora extraída para que Charlotte criasse o engodo com o mercenário, assim como sei que se sente traído por mim sobre Giuliana...

– … que neste momento agoniza e transforma-se em uma imortal – atalhou Carlisle.

– Isso. Exatamente. Mas se nenhuma das minhas explicações lhe parece convincente, Carlisle, pense que sua neta estaria morta a esta altura se Arian não a tivesse salvado.

Carlisle meneou a cabeça, pensativo. Não agradava-lhe muitos os métodos utilizados durante o percurso sinuoso até Volterra, mas também não podia negar que o resultado fora o que tinha de ser: os reis mortos. Mas alguma coisa teimava em pesar-lhe a mente e Edward sabia disso.

– Você está pensando no preço, não é mesmo? No preço que vamos pagar por tudo o que fizemos?

– Seu dom está funcionando muito bem – Carlisle respondeu, não sem um amargor na voz.

– Não, não está – havia dúvida em Edward – Ele está funcionando de modo intermitente, às vezes consigo escutar apenas ecos, às vezes nada; por mais que me esforce não sou capaz de invocar meu dom de forma natural como antes, pelo visto ele só surge em momentos de estresse extremo. Mas eu não preciso do meu dom para saber em que está pesando, Carlisle. Sabe disso.

– Não, não precisa – concordou o patriarca – Pressinto que ainda há mais por vir.

– Mais? Não pode simplesmente aceitar que fomos injustiçados pelos Volturi e que viemos aqui fazer justiça? Carlisle, os reis tiveram o que mereceram, colheram o que plantaram. Por que você quer se responsabilizar por algo? Por que não relaxa e aceita que nós somos os mocinhos e não os bandidos? Do modo como falar parece que tramamos tudo desde o princípio, soa como se desejássemos esta guerra e todas as suas consequências. Lutamos por nossa família e nossa liberdade. Não fomos nós que tramamos isto... foi Marcus.

– Eu sei, mas tentar justificar atos através de bravatas nobres é algo perigoso, Edward. Eu sei que perdi dois filhos para os Volturi, assim como muitos amigos, entendo tudo o que você me diz, mas insisto que a ausência de Aro, Caius e Marcus será sentida com muito mais força do que você, neste momento, é capaz de compreender. Tudo o que sabemos é que os Reis perderam o rumo de sua própria condição, deixaram de olhar apenas para o bem da comunidade vampírica e desviaram-se para interesses pessoais desvirtuando sua responsabilidade. Entretanto, Edward, tudo o que fazemos, para o bem ou para o mal, tem um preço. O mundo não se interessa se você está certo ou errado, ele simplesmente cobra o que lhe é devido. O mundo tem suas próprias leis e estas leis são soberanas, pois estão acima tanto de humanos quanto de imortais.

– No dia de hoje você poderia ao menos esquecer-se disso – Edward falou olhando Carlisle com atenção – Para o bem ou para o mal nós vencemos, Carlisle. Aproveite o fato de estarmos juntos novamente. E o principal... aproveite que está vivo.

Carlisle suspirou, olhou ao redor por um instante, a destruição de Volterra contrastava de modo alarmante para com o grupo ali reunido, alegre e feliz. Todos conversavam animadamente, contando o que viveram, solapando as sombras dos últimos tempos, rindo e se regozijando pela tempestade ter passado e por se manterem intactos a ela.

– Talvez tenha razão, filho – Carlisle sorriu – Estou me preocupando antecipadamente, vou procurar aproveitar o momento... mesmo achando que você mesmo está preocupado.

– Pergunto-me se as coisas voltarão a ser como antes.

– Refere-se à Bella?

– Não apenas a ela – Edward lançou um olhar resignado a Renesmee – Mas a todos nós... sinto que Bella e Nessie estão diferentes uma com a outra, como se estivessem afastadas.

– Elas passaram por muita coisa Edward. Dê-lhes a chance de respirar primeiro. Depois disso eu lhe garanto que tudo tornará a ficar bem. Algum dia as coisas voltarão ao lugar.

– Você acredita realmente nisso? — Edward olhou para o pai buscando a confiança que lhe faltava.

– Eu tenho fé nisso – respondeu Carlisle – E ter fé é o primeiro e o mais primordial dos passos.

§§§§§§§§§§

O guerreiro estava parado em frente ao imenso afresco pintado na parede. Do teto ao chão, de um lado ao outro, ninguém mais e ninguém menos que Michelangelo havia pintado gravuras naquela tela dura e plana. Figuras e sombras e de pessoas em caos, a beleza da Capela Sistina ali estava, mas desvirtuada em sofrimento e agonia, o céu e os anjos havia sido substituídos por demônios humanoides e fogos verdes, havia cavernas em todos os lugares, um pântano de desolação, árvores raquíticas, figuras desoladas perambulando pelo que pareciam ser vilas incendiadas. Os demônios, porém, não tinham chifres, mas presas afiadas, e as pessoas ali andavam em fila indiana, esfarrapados, com grilhões a atarem os pés e as pernas.

Poderia ser o inferno, mas Arian sabia que não era.

Aquela era a representação do mundo dos homens depois que tivesse sido devastado pelos vampiros.

Aro mostrou-lhe aquele afresco, assim como lhe ensinou como abri-lo, afinal, por trás da pintura do mestre estava aquilo que chamava de o Cofre dos Segredos.

O salão onde a pintura foi feita não era o mais popular de Volterra, a bem da verdade ficava nos confins da vazia ala sul onde nada havia a não ser poeira e móveis velhos empilhados, era praticamente a despensa do castelo. Mas fora ali que nos séculos passados Aro pediu para que Michelangelo erigisse sua arte com a desculpa que ali ela ficaria em paz e Aro poderia aprecia-la tranquilamente, longe de todos os distúrbios da vida do palácio. Mas oculto no painel havia o segredo de Aro, um segredo que Marcus já desconfiava; o Cofre onde o Grande-rei matinha todos os seus mais perigosos e pessoais segredos, mas Marcus jamais foi capaz de comprovar sua teoria.

Arian, sozinho, ergueu a mão e espalmou-a contra a parede. Sentiu a pele formigar enquanto a magia que selava a porta do cofre era acionada. Depois fez como Aro o ensinou.

– Eu sou Arian Volturi e exijo passagem para o Cofre dos Segredos.

A pintura, a parede inteira, tremeluziu como quando uma pedra é atirada em um lago e as ondas vão espaçando-se na superfície até perderem-se no infinito. Um som fraco como um zunido baixo pronunciou-se no ar avisando que a magia havia sido acionada, Arian deu um passo para trás para olhar melhor. Uma linha surgiu no meio da parede, dividiu-se em duas e abriu-se para os lados e depois para cima e para baixo formando, enfim, a figura de uma porta grande. As quatro linhas brilharam com uma luz dourada de amanhecer e quando a luz passou tudo o que havia na parede era um recorte retangular e escuro onde a porta abria-se para o vazio.

O gigante adernou no limiar do nada, inspirou o ar de vazio, frio e parado, como num ambiente fechado há muito, muito tempo. Aquele ar viciado lhe dava uma impressão de imobilidade secular, de estranha e consciente sabedoria. O escuro parecia encará-lo com curiosidade, perguntando-se o que, enfim, havia vinho fazer ali.

Arian entrou na escuridão e desceu as escadas ecoantes que se deitavam em espiral através da terra. Desceu e desceu para além dos patamares dos pilares do mundo, sentia o frio da terra grudando em sua pele, sabia que a profundidade ali era imensa, e finalmente os degraus terminaram culminando em uma câmara larga e iluminada por archotes que faiscavam numa tonalidade esverdeada.

O guerreiro-deus torceu o nariz para aquilo, os archotes encantados para proporcionar luz eterna naquela escuridão o irritavam, ele detestava magia e feiticeiros acima de qualquer outra coisa. Deitou um olhar para as prateleiras esculpidas na rocha e divisou ali um sem número de pergaminhos velhos que dissolviam-se com o tempo, havia livros e livros numa quantia incalculável, assim como diários, mapas, folhas soltas e anotações espalhadas pelas mesas e caindo das prateleiras.

Mas no centro de tudo, sob um amplo pedestal e guardado cuidadosamente dentro de uma caixa com tampo de vidro estava o livro dos livros. O Livro Vermelho das Revelações.

Eis a história dos vampiros. Dissera-lhe Aro há muitos anos quando lhe mostrara pela primeira vez o Cofre. Neste volume encerra-se a origem de tudo, aqui você saberá do Pai e dos Primeiros Filhos, de quando nascemos e fomos amaldiçoados, de como os primeiros vampiros vieram à vida. Assim como saberá o perigo que o mundo corre. Mas não agora, és jovem demais para isso, ainda não compreende as nuances da imortalidade, mas chegará o dia, meu filho, que você virá aqui e o tomará para si.

Arian olhou através do vidro o livro e sentiu o peso de sua presença. Era velho além do limite de sua compreensão, de lado as páginas eram volumosas e grossas e ele teve certeza que se tratava de algum tipo de pele de animal e não de papel comum. A capa era grosseira e ele também percebeu a textura de pele nele, o vermelho que outrora fora vivo e lhe dera a cor agora escorria pálido num tom carmesim amarronzado. Mas ele não gostou do que viu, o Livro atraia a sua atenção mais que qualquer outra coisa... parecia vivo. Vivo feito uma maldição.

Quando Arian tocou no vidro percebeu, para seu desgosto, que não era vidro, mas alguma outra substância mágica e diáfana que emulava a translucidez do vidro. Ele soube que Aro tomara medidas sérias para que ninguém além dele pudesse tocar no Livro Vermelho, muito provavelmente aquela magia não permitira ser transposta por outra mão que não a dele. Mesmo que alguém tivesse passado pela porta não seria capaz de retirar o Livro da caixa mágica.

Mas ele o fez.

Arian esperou que o objeto vibrasse em sua mão ou qualquer coisa semelhante ao extraordinário, mas o Livro não fez nada disso. O guerreiro ficou ali, sozinho, olhando para a capa de couro vermelha e somente então percebeu algo que obscureceu seu coração: a capa e as páginas eram realmente feitas de pele... de humanos. A textura e a fragilidade eram inconfundíveis. Arian sentiu uma repulsa crescente daquele volumoso compendio da história vampiresca.

Reverencialmente soltou-o sobre uma mesa velha e empoeirada e sob a luz esverdeada dos archotes começou a ler o Livro dos Segredos.

§§§§§§§§§§

Na companhia de Sofia, Bianca caminhava pelos corredores de Volterra olhando para tudo com atenção, absorvendo os detalhes dos lugares que outrora ela conhecera tão bem. A Rainha vinha ruminando lembranças durante séculos enquanto permaneceu aprisionada nas catacumbas de Volterra, caminhava em sonhos por todos os recantos do castelo que tanto conhecia e que tanto sentia falta; ela estava tão próxima e ao mesmo tempo distante do lugar que considerava como sendo seu lar.

– Tudo parece o mesmo, mas ao mesmo tempo mudado – comentou Bianca.

– Muita coisa se passou aqui, Bia – a voz de Sofia era branda, amistosa – Mas vimos a casa de Volterra cair em desgraça e reduzir-se a um covil de ideias egoístas e mesquinhas.

– Esses dias terminaram Sofia. Arian fará com que tudo retorne ao seu antigo esplendor, Volterra ainda encontrará seu apogeu uma vez mais.

– Mas Arian não pretende sentar-se no trono.

– Ele se sentará – Bianca endereçou à amiga um sorriso doce e perigoso – Arian, neste exato momento, está no Cofre dos Segredos lendo o Livro Vermelho. Eu sabia que ele faria a última vontade do pai, o conteúdo do livro irá apelar para a honra de guerreiro de Arian e ele não terá escolha senão a de assumir o trono... fará isso para salvar o mundo.

– Você conhece os segredos do livro! – Sofia estava estarrecida – Sempre acreditamos que se tratasse de uma das lendas envolvendo os Três e somente agora descobrimos que ele é real... mas como você sabe de tudo isso, Bia?

– Sendo esposa de Aro. Levou séculos para ele me contar os segredos do livro, mas enfim o fez. Eu sei tudo o que é preciso saber sobre o que aquelas páginas decrépitas escondem e isso vai causar um choque em Arian, fazer com que seu antigo fervor por batalhas seja novamente despertado. Tudo o que meu amor precisa é de um incentivo e aquele Livro lhe apresentará o maior oponente que um dia ele pensou em poder enfrentar... alguém com tanto poder quanto ele.

Sofia estava chocada, sempre ouvira falar do precioso Livro Vermelho que dava poder àquele que o lesse, considerava-o um delírio, uma falácia, uma lenda que os servos espalhavam pelo temor de seus amos. Sofia sabia da Confraria do Sangue que supostamente estava atrás desse objeto, ouviu as histórias sobre o alerta de Aro ao filho e ficou preocupada em saber que algo deste tipo realmente existia e estava escondido em algum lugar do palácio. Mas muito além do espanto de descobrir que as lendas de Volterra eram verdadeiras, era saber que Bianca as tratava com tamanho descaso, fosse como fosse, os segredos do livro eram realmente terríveis se tivessem poder de fazer com que Arian se sentasse no trono, e mesmo assim Bianca não parecia se incomodar com eles.

O que poderia, no fim, abalar Bianca? Se o Livro Vermelho realmente previsse o fim do mundo, como podia Bianca simplesmente tratá-lo com tamanho desdém?

Sofia e a Rainha, porém, eram amigas há séculos justamento pelo fato de que a primeira jamais se opôs à segunda de alguma maneira, Sofia sabia que Bianca tinha um bom coração, o problema era que a amiga era mimada e ambiciosa demais e isso constantemente obscurecia a sua possível bondade.

No momento em que as duas enveredaram para o corredor principal que desembocava no hall de entrada do castelo, deram de cara com Bella. As três vampiras encararam-se surpresas. Bella tinha visto Bianca rapidamente quando ela chegou justamente para a execução de Aro, conhecia rapidamente a história da Rainha através dos relatos que Edward lhe passara na viagem de retorno e teve a mesma sensação que muitos ao olhar para Bianca pela primeira vez: uma vampira antiga, absurdamente linda, mimada e com uma queda violenta pelo poder. Mas Bella já havia aprendido como lidar com vampiros com complexo de grandeza durante sua estadia ao lado de Aro, ela sabia que a melhor forma de conquistar alguém assim era através da dissimulação.

Bella sorriu para Bianca e fez uma reverência, dizendo:

– Minha senhora.

Bianca a olhou dos pés a cabeça, mediu as roupas de Bella, os cabelos e o rosto, ficou um tempo em silêncio tentando decidir se aquela vampira lhe seria uma amiga ou uma rival. Então, de repente, riu um riso cristalino e jovem.

– Minha senhora Isabella – Bianca fez um gracejo de reverência – És tão linda pessoalmente quanto através das histórias de vosso marido. Edward não parava de falar em vós, eu fico genuinamente feliz que vocês estejam juntos novamente. Sei bem como é ficar longe de quem se ama.

– Obrigada. Mas pode me chamar de Bella, pois não sou senhora nenhuma.

– Bella então, apesar de que eu não acredito que deixe de ser senhora por muito tempo, quem sabe o que o amanhã nos aguarda não é mesmo? E por favor, chama-me de Bia, eu estendo esta intimidade para aqueles de quem gosto à primeira vista.

Bella devolveu à Bianca o sorriso, mas ela não tinha certeza se aquela proximidade da Rainha era algo realmente bom, parecia determinado, algo planejado, como se Bianca estivesse pensando em tornar Bella não uma amiga, mas uma aliada. A Rainha de Arian definitivamente não era alguém a quem se confiar à primeira vista, mas Bella também não era boba, aprendera a fazer política em Volterra, por isso aceitou quando Bianca emparelhou com ela e entrelaçou o braço no seu.

– Ouvi dizer de uma reuniãozinha num dos jardins lá fora, vamos? – pediu Bianca com seu encanto avassalador.

– Claro que sim... Bia.

Já era meio de manhã e o sol banhava por completo os pátios e os jardins, Bella percebeu distraidamente que se encaminhavam para o antigo jardim de Caius, Bianca tagarelava ao seu lado enquanto a vampira chamada Sofia seguia atrás delas com uma expressão preocupada no rosto. Antes de se aproximarem ela notou que quase todos os amigos já estavam ali, Kaori conversava com Jacob e Seht enquanto Nessie trocava palavras com o pai e o avô; Seline e Margot estavam entretidas com Dean Portman ladeando-o como hienas espreitam um suculento pedaço de carne. Garret e Quil ideavam suas vidas logo depois de terem partido de Volterra, Jasper e Alice se mantinham calados, apenas aproveitando a luz da manhã que os aquecia. Bella também percebeu que Charlotte não se encontrava entre eles, assim como Matheu e Giordano que mantinham-se distantes, sob a cobertura de uma das marquises do palácio, abrigados da luz do sol.

Mas todos se calaram ao notar as duas rainhas chegando.

A presença delas era algo realmente impressionante. Imponente.

Bella acomodou-se ao lado de Edward e Bianca, sem fazer cerimônias, sentou-se ao lado dela, depois olhou a cara de espanto de todos, sorriu e abanou as mãos, dizendo:

– Vamos, vamos, continuem conversando.

Aos poucos o assunto foi retornando, mas um pouco mais encabulado com a presença de Bianca, ela parecia intimidar a todos com sua presença bela e opressiva, e também fazia com que todos se perguntassem por onde andava o dono do coração da rainha, o guerreiro-deus Arian.

Bella notou que Nessie olhou de soslaio para a Rainha e franziu o cenho quando viu a mãe chegando com Bianca, a menina reacomodou-se um pouco mais perto e tocou a mão da mãe com a sua, não demorou muito para que Bella ouvisse a voz da filha em sua mente.

O que ela está fazendo aqui? – quis saber Nessie.

Tentando se enturmar? – Bella respondeu de forma leviana.

Ela é confiável?

Eu não tenho certeza, acabei de conhecê-la.

Tia Alice não gostou dela.

Não podemos ser precipitados, Nessie, ela já foi dona deste lugar e o... não sei o que Arian é dela exatamente... mas Arian é herdeiro disso tudo, é poderoso demais e não acho que seja uma boa ideia deixar transparecer que ela não é bem vinda.

Então precisamos ser falsos? – havia uma leve crítica na voz da menina.

Falsas não, políticas... minha querida. Precisamos saber para que lado vamos seguir agora, fizemos alguns aliados, porém ninguém ainda sentou-se no trono de Volterra, talvez ninguém se sente lá, apesar disso temos que tomar muito cuidado agora. Arian é poderoso demais e não podemos nos desentender com ele ou com Bianca logo de cara. Seria bastante tolo de nossa parte.

Renesmee não pareceu evidentemente satisfeita com a explicação da mãe, sentiu ali a presença da rainha que sua mãe aprendeu a ser, como também percebeu o aviso na última frase, algo que pairava como um alerta de que Renesmee precisava prestar mais atenção às coisas. Mas Nessie simplesmente não compreendia porque tinha de fazer política uma vez que tudo finalmente havia terminado.

Alheia a tudo isso estava Sofia que encarava Dean com um misto de interesse, curiosidade e velada censura ao encontrá-lo abraçado com duas vampiras desconhecidas. Dean, distraído, desviou o olhar de Bianca e de Bella sentadas lado a lado para notar Sofia o olhando de forma estranha, automaticamente ele sentou-se ereto e largou Seline e Margot com um movimento repentino. Margot fechou a cara e encarou Sofia com desgosto, ela não estava contente com a vampira que era claramente o motivo que fez Dean se afastar dela.

Sofia, então, virou a cara e sentou-se elegantemente um pouco mais atrás de Bianca... sem, no entanto, dar qualquer atenção a Dean.

Passados poucos minutos Renesmee pediu a atenção de todos os presentes, este gesto fez Jacob ficar levemente vermelho, a menina sentou-se sobre os joelhos e colheu a mão do noivo com a sua.

– Bem, já que estamos quase todos aqui reunidos... Jacob quer fazer um anúncio – disse ela lançando a Jacob um olhar significativo.

– Sim... bem... – o lobo respirou fundo – Quero fazer um anúncio, um convite... para o nosso casamento, meu e de Nessie.

– Boa – gritou Seth entusiasmado – Até que enfim!

– Casamento? – Edward fechou a cara ao anúncio.

– Você esqueceu-se? – Renesmee disse – Da condição que eu impus quando me obrigaram a deixá-los antes da batalha no Canadá? Você prometeu que depois que tudo terminasse eu e Jacob poderíamos nos casar.

– Isso é verdade – atalhou Bella.

– Acho que não adianta mais ficar evitando isso, não é mesmo? – suspirou Edward resignado.

– Não mesmo – riu Nessie – Enfim, eu ainda pretendo preparar os convites e tudo o mais, mas vocês todos estão convidados, será muito bom tê-los junto de mim neste dia espacial. Você me ajuda a planejar tudo, Alice?

– Mas é claro que sim! – vibrou Alice abraçando a sobrinha.

– Este convite se estende a mim também? – perguntou Bianca que naquele momento soou como uma menina ávida por poder ir a uma festa. Nessie ficou momentaneamente com pena dela.

– Sim... minha senhora. Convidarei a todos os que nos ajudaram a sair vivos deste lugar. Arian e a senhora são meus convidados especiais... principalmente depois que Arian salvou a mim e Jacob da morte.

– Neste caso precisarei de um vestido de festa! – alegrou-se Bianca.

– E eu de um vestido de noiva! – vibrou Renesmee.

– Ah, esperem um segundo... tive uma ideia fantástica – Alice pulou de pé gritando, num segundo ela parecia o que sempre fora, cheia de energia e ideias estapafúrdias – Estamos perto de Paris... que cidade melhor para comprar vestido para todas do que a capital da moda? Conheço uma grife ma-ra-vi-lho-sa para artigos de festas a rigor!

– E você pretende fazer isso quando? – assustou-se Bella.

– Eu não sei... amanhã?

– Alice, nós acabamos de chegar – Carlisle estava quase rindo – Quer levar todas as mulheres para Paris amanhã?

– Por que não? O que mais temos para fazer? Além do mais, Carlisle, não seja insensível... todas nós estamos precisando urgentemente de um banho de loja e estilo, e até mesmo você precisa concordar que os Reis não eram um exemplo de moda, não é mesmo? Com aqueles malditos trajes monocromáticos, pesados ou completamente desprovidos de pudor. Não, tenho que por um fim nisso, e podemos aproveitar para ver o vestido de Renesmee e os nossos vestidos de festa, não é mesmo?

– Levando em consideração a escassez de trajes na minha atual situação eu fico muito entusiasmada para acompanhá-las – anunciou Bianca como quem decidia tudo de uma vez.

– E o que nós faremos enquanto isso? – quis saber Seth.

– Querem ir junto? – perguntou Renesmee – Ficamos bastante tempo longe... acho que é justo deixar os meninos irem conosco, não é mesmo?

– Eu suponho que sim... mas não acha que está tudo muito precipitado? – preocupou-se Bella.

– Passamos anos lutando e se perdendo por aí, Bella – Kaori falou numa vozinha tímida – Acha que não merecemos um tempo para nós?

– Não é isso... mas vocês não podem simplesmente se ausentar agora para comprar vestidos de festa! Estamos no meio de uma confusão dos diabos, o governo dos vampiros não existe mais, quando a notícia se espalhar estaremos encrencados – Bella estava genuinamente preocupada.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

– Então acho melhor a gente fazer festa antes que o mundo acabe – disse Seth rindo.

– Estou falando sério, Seth.

– Acho que não há nada de mal em vocês se ausentarem daqui por um dia apenas, Bella – Edward falou – Afinal, nem sabemos por onde começar mesmo... ou se é que temos que começar alguma coisa.

– Decidimos então – animou-se Bianca.

– Paris amanhã – riu Alice feliz – Não vejo a hora!

A manhã se foi, a tarde chegou e passou e o véu da noite aproximava-se do mundo, sorrateiro e silencioso, puxando sobre si uma cobertura cintilante de estrelas prateadas, mas o grupo não se moveu para partir do jardim. Depois de toda a sombra a que foram submetidos parecia um sonho estar ali na companhia uns dos outros apenas jogando conversa fora e foi algo realmente proveitoso, principalmente para se conhecerem melhor uns aos outros.

Descobriram que Sofia era extremamente tímida, que Seline era teimosa e que Margot simplesmente não tinha o menor pingo de vergonha na cara. Dean era do tipo conquistador e Bella e Nessie decididamente não gostaram dele, parecia o tipo de cara que não tinha escrúpulos principalmente no que dizia respeito às mulheres, parecia olhar para todas como se fossem objetos.

Bianca, apesar do porte arrogante acabou mostrando-se suficientemente simpática, olhava com um interesse lupino, com uma fome voraz, uma curiosidade devoradora. Olhava-se para Bianca e via-se um predador, mesmo quando ela queria parecer querida.

Quando a luz começava a minguar surgiu Arian. O gigante geralmente tinha uma expressão sorridente no rosto, iluminada por um humor ardente de viking, mas agora caminhava como se o peso do mundo tivesse sido atirado sobre suas costas. Ele aproximou-se do grupo, sorriu de forma sorrateira, abaixou-se, beijou Bianca e deixou-se cair no meio deles.

A presença de Arian era maçante. Sua figura imponente e todo o seu poder lhe davam um ar de majestade, ele parecia realmente um rei nórdico poderoso e austero. Vestia uma camisa solta de linho branco e uma calça jeans com sua eterna bota de batalha, deixara em algum canto o machado e a armadura enferrujada, mas mesmo assim parecia um guerreiro, via-se isso nele apenas relando os olhos. Enxergava-se a determinada marca da guerra em toda a sua face, em seus músculos possantes, sua pele marcada por batalhas.

E isso fez com que todos tivessem uma única e irrevogável certeza.

Arian nascera para reinar.

Bem ou mal, Bianca tinha razão.

Ficaram por ali até que o ar tornou-se gelado com a noite adentro e todos ergueram-se como se a partida estivesse previamente articulada, caminharam juntos até a entrada e prometeram encontrar-se por ali no outro dia muito cedo para partirem rumo a Paris a fim de encontrar o vestido perfeito para Renesmee. Edward não ficou muito feliz quando a filha e Jacob seguiram para o mesmo quarto, mas Bella o cutucou e ele foi obrigado a ficar quieto.

Nessie e Jake tinha ficado dois anos longe um do outro e contra todas as possibilidades haviam conseguido se encontrar para ficarem juntos, Edward devia isso a eles, devia isso a Jacob, afinal, o lobo nunca deixou o seu lado na busca pela menina, sempre apoiou as decisões dele por mais perigosas e obscuras que fossem. Ele sabia que agora não tinha o direito de proibir os dois de ficarem juntos, as regras sociais que ele havia aprendido já tinham saído de moda, então que as coisas tomassem seu rumo. O rumo que sempre esteve predestinado a tomar.

Mas antes que todos se separassem para ocupar seus lugares no castelo de Volterra, agora completamente vazio e fantasmagórico, Arian aproximou-se de Edward e Carlisle pedindo para que os dois permanecessem um pouco para conversar com eles, ambos concordaram em esperar e ficaram por ali enquanto todos os outros lhes lançavam olhares nervosos enquanto seguiam caminho. Provavelmente não viam com bons olhos que Edward e Carlisle ficassem por ali junto com o vampiro mais poderoso do mundo, mesmo tendo o pressentimento de que Arian não lhes faria mal.

Bianca aproximou-se do amado antes de seguir para o quarto, em ponta de pés deixou um beijo no rosto de Arian, sorriu-lhe, e então partiu deixando atrás de si o buraco negro que se abria sem a presença de sua beleza. Aquele beijo, porém, parecia ter um significado especial, parecia dizer “vá, faça o que tem de ser feito”.

No momento em que os três encontravam-se finalmente sozinhos no silencioso hall de entrada da ala principal do castelo, Carlisle e Edward olharam para Arian em busca de respostas, ambos tinham curiosidade para saber sobre o que o guerreiro queria lhes falar, e principalmente o motivo de não ter compartilhado com os outros além deles dois.

– Eu estive hoje no Cofre de Aro – disse o gigante com sua voz retumbante – Passei o dia todo a ler o Livro Vermelho, o famigerado Livro dos Segredos.

– Então a existência do livro não é uma lenda – Carlisle estava genuinamente surpreso.

– Infelizmente não.

– Pela sua cara o conteúdo do livro não é nada bom – comentou Edward.

– Na verdade é ainda pior do que imaginávamos.

– Tão ruim assim?

– Pior. Amanhã quando os outros partirem para seu passeio vocês deverão ficar comigo para que possamos discutir o que eu descobri. É o meu pedido e espero que possam aceitar.

– Mas Arian – Edward estava começando a ficar preocupado – Do que trata afinal o Livro Vermelho?

Arian olhou para Edward e depois para Carlisle, em seguida desviou o olhar para as sombras ocultas no salão logo atrás deles, parecia estar determinando se aqueles dois vampiros à sua frente eram dignos de ouvirem o que tinha a dizer, o guerreiro tentava convencer-se de que teriam a coragem necessária para receber os segredos do livro. Arian, apesar de todo o seu poder, estava preocupado, sentia o peso que havia recaído sobre os ombros de Aro ser passado para o seu, ele não conseguiria mover-se sozinho por mais que tentasse... precisaria de ajuda para compreender tudo o que tinha descoberto e aqueles dois vampiros à sua frente eram os únicos capazes de auxiliá-lo naquele momento.

Ele voltou-se para Edward e quando falou sua possante voz tinha o tom velado da desgraça:

– O Livro trata do fim do mundo, Edward Cullen... do fim de tudo o que há.

Notas finais
Próximo Capítulo - Epílogo: O Livro Vermelho