Candor Lunar - Livro 2

50 Capítulo 47 - Epílogo: O Livro Vermelho


Notas iniciais
Minha gente... Finalmente o epílogo... o último capítulo de Candor Lunar 2. No fim do capítulo deixarei alguns agradecimentos. Até o Livro 3... !!! Ang

Uma vez mais o dia nasceu num relampejar dourado e azul nos céus cálidos da Itália, uma manhã que para muitos surgia como um sinal de esperança e paz. Com o cheiro de vitória e promessas de tranquilidade... mesmo que a tranquilidade ainda estivesse distante e a comodidade da rotina longe de ser a mesma de antes.

Mas o caminho era aquele. Bastava trilhá-lo.

Bella tinha deixado o marido no quarto, Edward voltara da conversa com Arian um pouco perturbado, mas não havia revelado nada além de que Arian queria discutir assuntos com ele e Carlisle, coisas sobre o mundo atual que ele não conhecia. O guerreiro havia pedido para que ambos se mantivessem em Volterra enquanto os outros passeavam por Paris. Bella não gostara, não estava disposta a ficar longe de Edward, mas teve de concordar com o marido que deviam muito a Arian. Deviam-lhe a vida da filha e não podiam negar-lhe os pedidos que fazia.

Mas até quando poderemos ficar acatando tudo o que Arian pede? Questionou-se Bella. Agora são pedidos insignificantes, mas e depois... o que virá? O que acontece se o negarmos alguma coisa?

Com a mente absorta em pensamentos e preocupada com várias outras coisas, Bella só se deu conta dos passos atrás de si quando se virou para trás e encarou a cara séria, sóbria e solene de Giordano. O cavaleiro vinha envergando sua armadura dourada, o manto branco estava imaculado e a lança na mão tinha sido polida e afiada. Ele lhe fez uma reverência.

– Minha senhora.

– Eu não sou senhora de Volterra, Giordano – riu Bella – Você não serve mais a mim, está livre.

– Então sou livre para escolher e escolho servir-lhe – respondeu ele com brandura, também sorrindo de leve.

– Eu não sei o que fazer com você. Pode me acompanhar até decidirmos sobre isso, mas por favor... não me chame de senhora na frente dos outros. Eu não sou uma Rainha.

– Como devo chamá-la então, minha senhora?

– Bella. Chame-me pelo meu nome... como todos.

– Eu vou tentar.

Bella riu por saber que Giordano não conseguiria chamá-la pelo nome, mas apesar de tudo havia se acostumado tanto com a presença do cavaleiro que achou estranhamente reconfortante tê-lo por perto enquanto caminhava pelos corredores de Volterra. Com Giordano as coisas ali pareciam um pouco mais familiares... mais encaixadas em seu devido lugar.

Foi com um sentimento de tristeza que ela viu quadros raros de pintores renascentistas destruídos no chão, vasos de porcelana e móveis históricos despedaçados; a empreitada do marido e dos amigos conseguira arruinar muitas obras que jamais seriam repostas... mas este era um pensamento egoísta. Bella jamais o pronunciaria em voz alta, seria o mesmo que desfazer do esforço que todos tiveram para salvá-las. Do sacrifício que fizeram.

Logo chegou ao quarto que Renesmee usara durante a estadia em Volterra. A porta estava fechada, mas Bella sabia que a filha estava sozinha, pois ela encontrara Jacob no saguão com Seth e Quil; mesmo um pouco temerosa, Bella bateu na porta.

– Está aberta – a voz de menina de Nessie flutuou lá de dentro.

Bella entrou. Renesmee estava sentada na cama banhada pela luz do sol, vestia um simples vestido curto de malha branca e tênis baixos, o rosto estampava um sorriso feliz de garota apaixonada enquanto escovava os cabelos. O mesmo sorriso que fraquejou levemente quando ela percebeu que era a mãe que estava ali.

– Oi... mãe – disse ela um pouco sem jeito.

Bella sorriu-lhe mesmo notando que a filha se surpreendera com a sua presença.

– Eu posso fazer isso? — ofereceu-se Bella.

– Claro.

Bella sentou-se na cama atrás da filha passando a escovar os sedosos cabelos de Renesmee, o perfume era doce como morango, mas ela sentiu que Nessie ficou subitamente tensa.

– Eu me lembro de quando você era pequena e me fazia ficar durante horas escovando seus cabelos – disse Bella de modo afável tentando quebrar o gelo.

– Era uma vantagem você não cansar o braço – respondeu Nessie, relaxando.

– Sim, mas a desvantagem foi que você cresceu rápido demais e eu não pude aproveitar para fazer isso por muito tempo.

Nessie riu, mas o silêncio constrangedor novamente instalou-se entre as duas como uma camada de gelo, resfriando tudo, distanciando-as. Antes este silêncio não existia e apenas surgiu para comprovar a Bella o quanto a filha estava magoada com ela. Bella escovou os cabelos de Nessie por mais um tempo, então parou e delicadamente obrigou a filha a virar-se para olhá-la. A mãe segurou as mãos da menina com cuidado.

– Sei que está magoada comigo e sinto muito por isso – disse Bella.

Nessie olhou para a mãe... mas o que encontrou foi uma Rainha. Bella não era mais a mesma de antes e a menina sabia que era egoísmo exigir que uma pessoa que passou por tantas coisas como a mãe simplesmente continuasse a ser da mesma forma que fora. Seria errado imaginar que ela fez tudo o que fez por outro motivo que não o de manter a filha a salvo, seria uma atitude vil culpar a mãe por fazer os sacrifícios que fez apenas por ela. Por amor a ela.

Mas no momento em que os olhos avermelhados de Bella faiscaram no dia claro, Nessie ficou novamente com raiva... mas descobriu também que a raiva não era da mãe, Nessie amava Bella. Ela tinha ódio dos Volturi... pelo lhe fizeram.

Transformaram sua família num bando de estranhos.

Nessie tentava manter os pensamentos conflitantes longe dela, mas era bobagem tentar esconder de si mesma o quanto Jacob estava distante. Ela ouvira algumas histórias amarguradas do que ele foi obrigado a fazer apenas para chegar até ali, Jake teve que vender parte de sua alma para a escuridão, render seu coração a escolhas duvidosas a fim de conseguir resgatá-la. E o mesmo acontecia com seu pai. Edward agora era muito mais taciturno, comedido e distante... muito diferente do rapaz bonito e sorridente que ela se lembrava, a tranquilidade havia abandonado Edward e deixado uma pedra fria e sombria em seu lugar.

Carlisle também tinha este comportamento desconfiado agora, como se alguma coisa estivesse prestes a saltar das sombras para atacá-lo ou como se uma traição estivesse a ser perpetrada.

E o que dizer de sua mãe? Se os homens de sua vida haviam sido afetados... o pior caso tinha sido justamente o dela. Bella, a Bella que Nessie amava, era distraída, estabanada, feliz e timidamente inocente, mas a vampira à sua frente não era nada disso. Ali estava uma Rainha, austera, ereta, comportada, elegante, régia, analítica. Bella não tinha mais nada de tímida ou inocente, de retraída ou estabanada, seus modos eram perfeitos e precisos, seus olhos analisavam tudo e calculavam qualquer traço de comportamento inaceitável. Por mais que Nessie tentasse afastar a imagem, sempre que olhava para a mãe via Bianca, Athenodora ou até mesmo Sulpícia. Mas não Bella.

Os Volturi haviam mudado toda a sua família e ela os odiava por isso... os odiaria mesmo que os reis não mais passassem de cinzas, odiaria os Volturi, Volterra e tudo o que eles representavam por terem alterado e mutilado de forma tão irreversível a sua família. Os odiaria para sempre por terem feito as pessoas que ela amava se esconderem atrás de cortinas de segredos.

– Eu sinto muito por tudo também, mãe – ela disse por fim.

Bella a abraçou e Nessie correspondeu ao abraço... ou pelo menos fez o possível para assim parecer.

– Você acha que nós conseguiremos voltar a ser como antes? — a voz de Nessie estava quebrada – Todos nós?

Bella a olhou com atenção e ali havia uma tristeza indizível, algo imensurável, concreta e profunda; ela não conseguiria mentir para a filha.

– Eu não sei, Renesmee – disse Bella por fim colando a fronte na da filha – Mas prometo que vou amar você até o fim da eternidade.

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Os carros enfileiravam-se na frente da entrada principal do palácio, sujos da viajem do Pináculo já que não havia mais um servo que os lavasse, mas ainda assim modelos bonitos e caros. Bianca olhava para eles com um ar intrigado enquanto Garret educadamente lhe explicava como funcionavam as engrenagens do motor que os fazia rodar. A Rainha absorvia fascinada a explicação e neste instante esquecia-se da própria máscara, parecia apenas uma jovem menina curiosa e excitada com o mundo moderno que proporcionava encantos inimagináveis dos da época em que havia nascido.

Perto dela estavam Dean e Sofia. O vampiro fazia o possível para que seu charme surtisse efeito na aia da Rainha, mas parecia estar tendo dificuldades. Sofia lhe sorria educadamente, mas mantinha uma distância saudável do galã, ela parecia ter ficado desconfiada do bonito vampiro desde o dia anterior quando o pegou no jardim abraçado a duas outras moças imortais que eram servas de Isabella. Sofia poderia ter mantido o ar inocente, mas era uma vampira com séculos de idade e não era boba a ponto de se deixar levar por um homem de caráter falho como Dean. Mas mesmo ela sabia que era difícil conseguir resistir a ele e seus modos sedutores.

Seline mantinha-se entretida enquanto conversava com Bella, mas Margot lançava olhares oblíquos direcionados a Dean e Sofia. Giordano estava perto de sua senhora ignorando completamente o assunto entre elas.

Nessie estava abraçada a Jacob que conversava animadamente com um Seth radiante e com uma introspectiva Charlotte. A bruxa usava um dos vestidos de Bella e parecia realmente muito mais bonita do que trajando sua roupa surrada de viagem e um casado estranho cheio de bolsos secretos. Quil sorria de uma piada boba de Seth.

Jasper e Carlisle trocavam algumas palavras enquanto Alice sentava-se ao volante de um dos carros aguardando impaciente para partirem rumo a Paris. A viagem seria longa, mas ela não abriu mão de poderem ir confortáveis em automóveis, sem se preocuparem com nada além da distância que cobririam facilmente em algumas horas. Um dos servos restantes do palácio informou que havia um território Volturi às beiras da fronteira com a França de onde não havia qualquer fiscalização e eles poderiam passar sem a obrigação de apresentarem documentos.

Edward mantinha-se por perto da esposa, mas estava quieto e distante.

Alice deu uma buzinada forte.

– Vamos logo ou demoraremos muito para voltar! São mais de mil quilômetros até Paris — gritou ela impaciente.

– Bella – gritou Bianca – Já que nossos maridos vão permanecer aqui parlamentando, faz-me companhia?

Bella sentiu o olhar de Edward e Nessie, mas como poderia recusar o convite de Bianca? E não apenas por respeito ou por boa conduta e etiqueta, mas ela parecia tão feliz, leve e desprovida de sua prepotente máscara de rainha que Bella não encontrou coragem para enviá-la sozinha na viagem.

– Será um prazer, Bia – disse ela sorrindo. Depois virou-se para Edward – Você ficará bem?

– Não se preocupe, será uma daquelas tardes chatas onde ficaremos discutindo a política do mundo dos vampiros – respondeu Edward lhe dando um sorriso forçado.

– Então até amanhã, meu amor – disse ela beijando-o com carinho e depois se encaminhando até onde Bianca a esperava.

– Tchau, pai – Nessie veio até ele abraçando-o.

No momento em que fizeram contato, Edward sentiu a mente da filha tocando a sua.

“Eu não gosto de Bianca perto da mamãe”.

“Bianca não é assim tão má, filha. Ela está tentando se enturmar... já é alguma coisa”.

“Não confio nela e você deveria tomar cuidado com Arian”.

– Aproveite a viagem e compre um bonito vestido – disse Edward, tranquilizando-a – Tudo vai ficar bem.

Os que iam a Paris finalmente embarcaram e partiram. Toda alegria e conversação cessaram assim que os carros desapareceram pelo portão principal e um silêncio agourento e maroto tomou conta de Volterra que agora mais se assemelhava a um castelo fantasma. Carlisle e Edward ficaram ali olhando para o vazio do pátio, mas a vantagem é que tinham a certeza de que pelo menos desta vez se encontrariam novamente no outro dia... e este era um pensamento familiar e reconfortante.

– Bem, é hora de ir a Arian – suspirou Carlisle, cansado.

– Creio que não adianta postergar o inevitável – completou Edward – Ele nos aguarda no Salão dos Tronos.

Desceram. Ambos em um silêncio de expectativa. O castelo estava quieto como se também esperasse que os segredos tão bem guardados reverberassem, enfim, pelos seus corredores afora. E havia uma friagem ali, Edward não sabia se era do temor que sentia ou do próprio vazio dos corredores, mas sentiu-se feliz por ao menos ter a companhia de Carlisle, seu amigo mais antigo. Seu pai.

As portas duplas do salão continuavam tombadas pelo chão, rastros negros do fogo riscavam o chão, resquício das cinzas de todos os inimigos que Arian queimara acumulava-se pelos cantos. Um cheiro ocre de fumaça ainda pairava pelo ar. Os dois companheiros entraram no recinto, o trono de Aro continuava tombado e Arian encontrava-se parado do outro lado do salão, atrás de uma mesa larga e ampla.

Sobre a mesa descansava um volume por debaixo de um pano.

Arian desviou os olhos do volume e olhou para os dois, cumprimentou-os com um sorriso acolhedor e fez sinal para que se aproximassem. Edward e Carlisle pararam do outro lado da mesa, ambos não desviavam os olhos do volume.

– Agradeço-vos por terem ficado – a voz trovejante de Arian sobressaltou-os.

– Não havia motivos para negar o pedido – disse Carlisle – Principalmente diante de sua preocupação.

– Este é o livro? — quis saber Edward.

Arian não respondeu, limitou-se a puxar o pano e revelar o que havia ali embaixo.

Tanto Edward quanto Carlisle estreitaram os olhos para a revelação. O Livro Vermelho parecia emitir uma aura pesada de morte e segredos. Erguia-se volumoso em suas páginas velhas sobre capítulos e capítulos de memórias armazenadas pelo tempo através das Eras. Não era um livro comum, continha o desespero do futuro e do passado.

– Isto... é pele? — comentou Edward, incerto.

– Humana, sim – respondeu Arian.

– E desconfio que também não seja tinta a tingir a capa.

– Não, é sangue – analisou Carlisle tocando de leve a capa rígida do Livro – Descasca. E isso também explica porque a coloração tem este matiz tão específico.

O patriarca Cullen tinha razão, o Livro Vermelho era, na verdade, quase negro. A capa banhada a sangue ressecado pelos séculos transmutara-se num bordô escuro e profundo, a vermelhidão só podia ser notada quando alguma luz incidia sobre o Livro, mas olhando-o da penumbra, o Livro Vermelho era tão negro quanto a própria escuridão.

– E aí dentro você encontrou as profecias do fim do mundo? — perguntou Edward.

– Eu ainda não o li por inteiro – respondeu Arian – Mas o pior trecho, o que eu considero definitivo, irei compartilhar com vocês dois. Depois disso tomaremos algumas decisões imediatas. Este livro foi escrito por Níneve, a Última Cainita, a Mais Velha, que está adormecida em algum lugar do mundo desde tempos remotos quando a humanidade ainda construía suas pirâmides e adorava deuses diversos. Preparem-se... o que vão ouvir pode abalar as suas convicções e seus corações. Esta é a história dos Vampiros. De como surgimos... de como e quando nascemos.

Arian ergueu o Livro de modo reverencial, abriu-o pouco além das páginas iniciais e mostrou aos dois vampiros apreensivos a sua frente.

– Que linguagem é esta? — Edward franziu o sobrolho não reconhecendo os símbolos.

– Hebraico? — arriscou Carlisle.

– Exato – confirmou Arian – A língua dos Hebreus.

– Você pode ler hebraico? — espantou-se Arian.

– Posso ler muitas das antigas línguas, Edward Cullen – riu o gigante – Mas esta escrita, porém, foi particularmente complicada, trata-se do Hebraico Clássico que nos dias de hoje é impronunciável, não há vogais em sua constituição.

Edward piscou, aturdido. E eu imaginando que se tratava de um bruto desmiolado, mas Arian surpreende-me novamente. É um poliglota. Um poliglota de línguas antigas e mortas. Se ele era perigoso apenas sendo forte, imagine tendo um cérebro.

– Aro ensinou-me as línguas antigas justamente para este fim – continuou o gigante com um sorriso – Mesmo assim eu nunca fui um aluno muito aplicado... precisaremos de Baltazar para estudos mais aplicados.

– Baltazar? — estranhou Carlisle.

– Eu já ouvi este nome em algum lugar – disse Edward.

– Viste a tumba de Baltazar na mesma profundidade da de Bianca – esclareceu Arian – Baltazar era o escriba de Caius, um vampiro estudioso nos antigos costumes e na história dos vampiros. Agora teremos de libertá-lo também... Baltazar será de vital serventia para a leitura do Livro.

– Por que ele foi aprisionado?

– Quem pode dizer, Edward? Pela loucura de Aro, talvez. Ou porque ele, no fim, ficou sabendo de muitas coisas. Baltazar é velho como os reis, tem um conhecimento profundo e para Aro o conhecimento era a maior riqueza e o maior poder. Assim que terminarmos por aqui e assim que a bruxa retornar da viagem, teremos de libertar Baltazar.

– Então os dados que você extraiu do Livro podem estar incertos? — perguntou Carlisle.

– Não – Arian ficou sério – Eu consigo extrair a história exata do hebraico deste Livro, mas há línguas mais antigas nestas páginas. Línguas como o idioma ugarítico, ou o próprio cainítico que eu desconfio ser a língua materna de Níneve, uma língua muito mais velha que o hebreu e que tem formas cuneiformes estranhas para mim. Mas também há páginas em fenício e aramaico, por isso precisaremos de Baltazar. A história primordial, porém, a que relata o nascimento dos vampiros eu posso ler no hebraico.

– O nascimento dos vampiros – repetiu Carlisle pensativo – E as informações deste livro serão exatas? Serão seguras?

– Este é outro problema, talvez o mais primordial – disse Arian – Mas dado as línguas antigas e o fato de ser o Livro de Níneve e que Aro o guardava tão secretamente... não tenho certeza sobre duvidar tão rapidamente do conteúdo dele.

– Se é para ouvirmos, então nos conte o que diz o Livro, Arian – pediu Edward impaciente.

Arian começou a ler com sua voz possante.

As palavras impressas no livro numa caligrafia antiga, estranha e elegante foram ouvidas por Carlisle e Edward. E à medida que ouviam tinham certeza de escutar o eco das Eras remotas saindo do livro como um hálito gelado.

E este foi o relato de Níneve que Arian contou:

Eu sou Níneve. No idioma dos hebreus sou Nīnewē. Ninua para os babilônios. Mas muitos chamavam-me Ninus e com o tempo transformei-me em um epônimo.

A grande cidade de Nínive teve este nome graças a mim, eu fui sua fundadora, eu a criei das areias lodosas das margens do grande e sagrado Tigre. Eu fui a mãe de uma nação.

Assim como fui a última de outra grande nação e de outro grande povo que existia às margens do mundo dos homens. Sou a mais velha e a última dos Primeiros Filhos. Eu sou a última filha de Caim, o Pai.

O primeiro.

A minha história enreda a história de todos os Filhos do Sangue. Os que possuem a Marca de Caim. A minha vida é contígua à vida de todos os Primeiros filhos e de como nascemos e de como nosso amado Pai Caim nos matou. Apenas eu sobrevivi, pois Caim amava-me mais que aos outros, amava-me e deixou-me viver e eu vivi durante Eras até descobrir a verdade. E a verdade amaldiçoada sobre o meu Pai que eu tanto amo e sinto falta.

Eu tive a Visão e a Visão me mostrou o fim para todos os Filhos do Sangue. Mostrou-me que a Benção de Caim tornar-se-á sua Maldição.

Pois os Segundos Filhos tornar-se-ão os Primeiros e o mundo será inundado em sangue. Eu profetizo o fim. A Visão me mostrou um mundo tomado pelos Filhos de Caim, um mundo controlado pelos meus filhos, pois eu sou a mãe dos Segundos.

Eu e ninguém mais.

E por amar meus filhos, os que vieram depois de mim e que não compartilham a Marca, que escrevo estas crônicas. Escrevo o Livro das Revelações para que as profecias de Níneve alcancem o mundo além do amanhã daqui a milhares de anos para evitar que os Segundos Filhos recebam a Marca maldita de meu Pai Caim.

Sem saber quem lerá estas profecias resta-me apenas iniciá-las do princípio.

De como nascemos.

Pois nascemos de Caim.

Caim de Eloah.

Caim de Nod.

Os hebreus contam inverdades a respeito de nosso Pai. Caim fora o primeiro filho de Adão que, por sua vez, fora o primeiro dos homens mortais a caminhar livremente pelo mundo. Caim tinha um irmão chamado Abel. Abel era o amor de Caim e Abel fora também sua ruína.

Caim era forte e bem disposto, bem formado, belo, ao passo que seu irmão Abel nasceu mirrado, doentio e fraco. Desde sempre houve ciúme de Abel por nosso Pai. Nisto os hebreus erram, não era Abel o bom, mas Caim. Abel era perverso, ciumento e sagaz. Sempre instigava a Caim ideias perigosas sobre dominar o mundo que era deles, sobre libertar-se das amarras do pai Adão e do Único Acima, o deus que os criara a todos.

Mas nosso Pai não dava atenção aos sussurros de Abel, pois conhecia a índole do irmão apesar de amá-lo. E Caim respeitava Adão... e temia o Único Acima que lhes dera um mundo maravilhoso para explorar e viver, seu pai Adão lhe explicava que deveriam ser fieis ao Deus das Alturas, que deveriam agradá-lo e que render-lhe sacrifícios de amor para Ele. Num tempo sem data, quando Caim e Abel já eram velhos e o ancião Adão era tão velho quanto eles, chegara a época de agraciar o Único Acima com uma oferenda pela colheita farta e Adão intimou os filhos a ofereceram a Deus aquilo que mais amavam no mundo, pois Deus não aceitaria nada menos do que isso.

Abel, preguiçoso e fraco, ofereceu a Deus um animal doente de seu rebanho imundo e sofreu a decepção de seu pai Adão e de sua mãe Eva. Mas Caim, entretanto, temeroso e desejoso do amor do Criador e incapaz de magoar os seus pais mortais só imaginou uma única coisa a oferecer ao Único Acima, ao Deus de seus pais. A única coisa que amava mais que ele próprio. Uma pessoa. E nosso Pai Caim convidou seu irmão para sentar-se no altar a fim de que fosse oferecido como oferenda ao Deus Criador, mas Abel, egoísta, mesquinhou da oferta de Caim dizendo que o irmão era tolo. Caim, então, temendo a ira de Deus, forçou Abel a caminhar até o altar, mas Abel era fraco e Caim forte, e sem medir sua força nosso Pai acabou infligindo no irmão egoísta ferimentos incuráveis e Abel morreu no altar de oferendas ao Único Acima.

Adão e Eva caíram num desespero lamentoso ao perceberem o que um dos filhos fizera ao outro. As lágrimas de Eva lavaram a terra e a tristeza de Adão escureceu as tardes de primavera, mas Caim, porém, não se lamentava, pois acreditava que dera ao Deus do pai a sua melhor oferenda, seu amado irmão Abel. E não merecia o Criador receber aquilo que ele mais amava?

Mas Adão esconjurou o filho. Chamou-o de assassino e prometeu que o Deus das Alturas iria amaldiçoa-lo com toda a sua fúria, que a vingança dos Sete Céus recairia sobre os seus ombros e que ninguém mais falaria com ele ou tomar-lhe-ia companhia. Adão expulsou Caim de suas terras, expulsou-o de seu convívio e da amizade dos seus... desertou-o, exilou-o com sua própria maldição. Adão enviou nosso Pai para o lado escuro do mundo afirmando que jamais voltasse ou pela glória e justiça de Deus teria o mesmo fim do irmão.

Caim desesperou-se, mas partiu dado que todo o povo do pai agora olhava para ele como se fosse um criminoso. Magoado e traído, Caim dirigiu-se para terras ermas onde nem animal ou planta vivia; um lugar árido e triste, desolado e abandonado. Caminhou por este mundo morto até encontrar um lago escuro e imenso, do outro lado do lago ele avistou uma terra sombria, uma floresta profunda de árvores altas, cujas copas balançantes eram dotadas de folhas verdes, escuras como a noite.

Durante três dias Caim contornou o lago estéril e na noite do terceiro dia alcançou o limiar da floresta escura, mas lá chegando sentiu medo. Estava faminto e sentia-se abandonado, daquele mar de árvores negras emanava um frio que transcendia a carne e alcançava os ossos e nosso Pai tremeu. Mas mesmo amedrontado ele não tinha escolha se não outra além de entrar na mata, diferente de tudo o que vira a floresta parecia ter vida e olhava-o como um predador encara uma presa.

Havia olhos na escuridão, olhos famintos.

E faminto também estava nosso Pai. Ele chafurdou naquela escuridão durante dias, chorando por ter sido injustiçado, amaldiçoando o seu pai mortal Adão e o Criador que foram displicentes com sua oferta, sua oferenda de amor. E foi então que Caim avistou uma árvore cujos frutos verdes eram suculentos de se ver, cristalinos como se uma luz emanasse deles e o estômago de nosso Pai gemeu desejoso daquele néctar da sobrevivência, mas no momento em que se aproximou da árvore, no instante em que alçava a mão para colher um fruto, uma risada fria e cacarejante chegou até ele e uma voz inumana lhe disse “não, meu pobre, não toque nestes frutos, são frutos da maldição... sementes de Lilith”.

Nosso Pai voltou-se e avistou um homem esfarrapado, sujo e escanzelado, os dentes eram limosos e afiados e os olhos eram estranhos, amarelos como os olhos de um cão; e o homem soltava risadinhas como se fossem latidos, era evidentemente louco e Caim recuou para trás. “Quem é você?”, perguntou nosso pai. O homem louco riu, dizendo “Eu sou Lycos, Segundo Filho de Lilith, o segundo a comer da Árvore da Maldição. Sou um Filho da Lua”.

E Lycos alimentou Caim com caça da Floresta Sombria, mas nosso Pai achava a carne escura dos animais muito dura e fibrosa, por isso passou a apenas beber de seu sangue. Lycos lhe contou sobre Lilith que fora a Primeira a Despertar, mesmo antes de Adão, e que fora amaldiçoada pelo Único Acima por não aceitar seguir suas ordens. Por querer ser livre. Mas Lilith morrera há muitos séculos e no seu local de repouso eterno brotou uma árvore que as criaturas da floresta chamaram de Árvore da Maldição e desde então apenas dois indivíduos haviam provado de seus frutos: Lycos que se tornou um Filho da Lua e Cariban que se transformou em um Necromante.

“O que é um Necromante?”, perguntou nosso Pai a Lycos, certa vez. Mas o Filho da Lua ficou sério, dizendo: “Não habite com os Necromantes, não coma da carne deles e nem prove de seu sangue, pois o sangue deles lhe trará a loucura e seus segredos, a morte. Observe-os, aprenda como eles guerreiam, admire a selvageria deles, mas jamais converse com eles, jamais confie neles. Os Necromantes trazem a loucura a você. Trazem a Morte”.

E com o passar do tempo Lycos e Caim tornaram-se irmãos, um comia a carne e outro bebia o sangue das presas, e Caim sabia que por mais que Lycos comece ele continuava sempre faminto, pois esta era sua maldição. A maldição da Fome. E Caim passou a amar Lycos como um dia amou Abel e aprendeu a controlar a fúria de Lycos quando a Noite Prateada descia dos céus em sua plenitude. Quando o Disco Prata surgia, em noites claras como o dia, o corpo de Lycos sofria uma mudança e ele transformava-se numa criatura horrenda e poderosa, capaz de ceifar árvores da floresta com apenas um golpe furioso. Mas Caim não temia seu novo irmão e aos poucos canalizou a irracionalidade de Lycos para outros propósitos... vingança.

Nosso Pai percebeu que o poder de Lycos era grandioso e ele conduziu o amigo até as zonas fronteiriças onde o povo de seu pai, já muito numeroso, habitava. Observou os homens semeando e as mulheres pastoreando as cabras, olhou para as crianças brincando e sentiu ódio. Era para ele estar ali, ser herdeiro de tudo aquilo, mas seu pai Adão o expulsou e não aceitou sua oferenda de amor e agora todos pagariam.

Duas noites depois surgiu a Noite Prateada e Lycos tornou-se um monstro. Caim o atiçou contra a aldeia e houve gritos e mortes e Caim se banhou em sangue humano pela primeira vez, sangue daqueles que o exilaram. Caim e Lycos demoraram-se na aldeia, admirando sua devastação e então perceberam, estarrecidos, que assim que o Disco Prateado surgiu no céu na noite seguinte, alguns do que foram mordidos por Lycos ergueram-se de sua morte e tornaram-se Filhos da Lua iguais a ele. Não tão poderosos, mas igualmente irracionais. E Lycos, admirado, chamou-os para se tornarem seu povo e os chamou de filhos.

Com o tempo, entretanto, a semente da inveja brotou no coração de nosso Pai Caim, pois ele via o poder dos Filhos da Lua e agora Lycos não mais estava sozinho, mas cercado por filhos de sua própria maldição e até mesmo por uma companheira que aquecia suas noites. Caim também queria um povo só para si e também cobiçava o poder que Lycos detinha e decidiu que iria retornar à Floresta Sombria e provar de um dos frutos amaldiçoados de Lilith, a Deusa Tempestade.

Lycos tentou impedir nosso Pai de retornar ao lugar da Árvore da Maldição explicando que a vida de filho de Lilith não era fácil, que ele seria um pária, mas nosso Pai não lhe deu ouvidos. “Eu já não sou um pária, filho de ninguém? Não sou Caim de nação alguma? Eu criarei meu próprio povo como você agora tem o seu, meu irmão, e seremos irmãos em nossa maldição”. E dito isso Caim partiu sozinho e atravessou o deserto estéril alimentando-se apenas do sangue dos animais e nunca de sua carne, pois sua carne lhe dava náuseas, mas seu sangue lhe refrescava o espírito.

E finalmente, depois de semanas vagando solitário, o Pai tornou a avistar o lago negro e a floresta escura, recebeu com felicidade o ar gelado de morte da mata e sentiu-se em casa. Caçou sozinho as criaturas a fim de lhe beber o sangue e observou à distância os Necromantes em sua feitiçaria e selvageria, maravilhando-se com suas magias e técnicas obscuras. Finalmente, então, chegou à Árvore da Maldição de onde os frutos luminosos lhe pareceram tão suculentos quanto da primeira vez que os vira e Caim colheu um fruto e saboreou-o com gosto.

Mas o fruto era amargo, azedo e ácido. Queimou sua boca como fogo e secou sua saliva. Caim sufocou e caiu no chão em convulsões, ficou cego e seu corpo suava a frio e sentiu as veias arderem como se brasas incandescentes passeassem por suas entranhas. E então ouviu uma voz. Uma voz melíflua, sedutora e maternal cantava para ele. Palavras de amor e escuridão, de ódio e vingança vagaram pela mente de Caim.

A voz de Lilith.

Sua Mãe.

“Venha para o meu abraço, Caim de Adão, venha para o meu enlace”.

“Tu agora é do Nod e o Nod é teu, pois provaste da fruta de Lilith, da fruta da imortalidade”.

“Eu sinto tua ira, saboreio teus sonhos, eu compartilho de tua sede... pelo sangue”.

“Não tema, meu pequeno, não tema, tudo agora ficará bem”.

“Foste injustiçado por teu povo, foi traído por teu pai. Meu pequeno Caim, venha para o meu povo, aceita o abraço de Lilith”.

Nosso Pai teve receio a principio, mas o abraço de Lilith era caloroso e ela lhe falava de imortalidade e poder, de como Caim poderia ter seus próprios filhos, seu próprio povo e que ele perduraria para sempre e que seriam tão poderosos quanto os Necromantes ou os Filhos da Lua.

E nosso Pai aceitou o fruto, o poder e a marca de Lilith.

A Marca queimou Caim por dias e dias. Sozinho ele se contorcia de dor enquanto seu corpo morria e se transformava até que finalmente... morreu. Mas não definitivamente, ao despertar nosso Pai estava mudado e não era mais apenas um mero humano, não, era muito mais do que isso, era um deus, assim como Lycos e talvez até mesmo mais poderoso.

Sua vista alcançava o horizonte, a noite era clara feito dia, o corpo movia-se como o vento e ele tinha a força de muitos homens. Descobriu pouco tempo depois que era capaz de alçar voo nas alturas assim como os pássaros e que por mais que se machucasse seu corpo sempre tornava a sarar rapidamente. E ele não precisava do Disco Prata no céu para ter poder. Mas enquanto regojizava-se em seu pleno poder, o Pai ouviu dentro de si a voz de Lilith alertando-o.

“Cuida de alguns assuntos, filhinho. Cuida bem.” Dizia Lilith. “Pois tua vida é fruto da minha arte e por isso é amaldiçoada aos olhos dos homens e do Criador, tu jamais tornarás a ver a luz do sol novamente, a luz o destruirá, reduzirá a cinzas o teu corpo e alma. Nunca toque a luz, nunca permita que a luz te toque. E tu agora só verterás lágrimas de sangue, por isso evite chorar, evite sentir dor em teu coração imortal. Só poderá beber sangue e teus filhos e filhas também, apenas o sangue saciará tua sede, e tu saberá que qualquer criatura cujas veias corra sangue será tua presa, sereis o Caçador do mundo. Dominará todos os povos e tua prole também. A prole que nascerá de teu abraço assim como você nasceu do meu. Mas aviso-te, filhinho, pois sou tua mãe e o amo, não se alie aos Necromantes e não se indisponha com os Filhos da Lua, pois são teus irmãos. Nunca dispute território com nenhum deles e nunca tente tomar soberania sobre o povo deles, ou guerras acontecerão e o desequilíbrio do mundo causara seu fim. Agora vá e voa pela noite, meu pequeno Caim, tome para si o mundo que lhe pertence. Agora tens a minha Marca, Caim de Nod. A Marca de Lilith.”

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Arian fez uma pausa e olhou para os companheiros.

– É uma reformulação da história de Caim e Abel – comentou Edward estupefato.

– Ou a história original – disse Carlisle.

– Você já tinha ouvido algo sobre esta versão da origem dos vampiros?

– Não com tamanha riqueza de detalhes, Edward. Havia lido fragmentos desta história de Caim assim como o conto de origem dos Lobisomens, ou Filhos da Lua. Mas isto que está no Livro Vermelho é muito mais profundo e... assustador.

– Parecem versos bíblicos – decidiu Edward.

– A Bíblia cristã em sua magnitude é antiga, Edward Cullen – disse Arian – Mas mais antiga é Níneve. É possível que a Bíblia dos homens tenha sido inspirada em algum ponto na Bíblia dos Vampiros, este Livro Vermelho aqui. Mas obviamente foi desvirtuado tirando toda a tendência sobrenatural e colocando as criaturas da noite como demônios e monstros malignos que assustam a humanidade desde épocas imemoriais.

– Você acredita que há algum ponto verdadeiro nisso tudo? – Edward estava cético – Arian, é o mesmo que crer que existiu um Jardim do Éden e que Deus criou a mulher da costela de Adão.

– Você está levando as coias muito literalmente, Edward – advertiu-o Carlisle – Mas o que diz o Livro é muito provável. Veja que em momento algum nós temos uma “voz divina” exigindo que Adão faça alguma coisa, toda a crença vem do homem e apenas ele. Adão decidiu que deveriam fazer oferenda ao Criador e eles o fizeram, assim como acreditavam que vivam num lugar bonito, num paraíso, pois o clima era bom e havia abundantes terras para plantações e animais para criação e a este lugar consideravam abençoado. Assim que Caim cometeu aquele fratricídio, bem, foi expulso da comunidade onde morava e perambulou para muito além das terras conhecidas pelo homem e foi parar em uma região inóspita, selvagem e temida que os homens daquela época chamavam de Nod e consideravam um anti-Éden. O que lá Caim encontrou? Pelo que pudemos ver esta área selvagem guardava muito mais do que serpentes, lá ele encontrou o primeiro Lobisomem e os primeiros feiticeiros que chamavam de Necromantes... e também a mãe de todos os monstros: Lilith.

– Que aparentemente possuía o dom de criar seres sobrenaturais – emendou Arian.

– Mas quem, afinal, era Lilith? – quis saber Edward.

– Uma criatura antiga, talvez a mais velha que este mundo já viu – disse Carlisle – É difícil definir, algumas culturas ancestrais afirmam que foi a primeira a pisar no mundo e talvez realmente tenha sido a primeira cria sobrenatural. Ela era capaz de replicar seus poderes doando-os a outros indivíduos, assim criou as três raças de seres sobrenaturais que existem no mundo: feiticeiros, lobisomens e vampiros. No momento apenas os vampiros ainda persistem, pois os lobisomens foram extintos e os feiticeiros já deixaram de existir, há apenas uma sombra deles em vampiras como Charlotte e Salesiana que fundiram sua imortalidade ao dom da necromancia. O livro conta mais alguma coisa a respeito dela, Arian?

– Não sei – respondeu o gigante – Como eu disse, não sou o mais apropriado para traduzir línguas mortas. Para saber o que mais resta de segredos no Livro teremos de libertar Baltazar. Mas eu apenas fiz uma pausa para que vocês pudessem absorver um pouco a história toda. Este não é o fim de minha narrativa. Vou adiantar um pouco as coisas para chegar no principal, outra hora, provavelmente, voltaremos às partes em que Níneve narra o desafeto que surgiu entre Lycos e Caim quando o segundo tentou fazer com que o lobisomens se tornassem escravos dos vampiros gerando, com isso, uma guerra sangrenta entre as duas espécies. Eu vou pular esta parte. Preciso que vocês ouçam outro relato sobre Nínive, agora há muitos séculos depois que Caim tornou-se um vampiro através das artes de Lilith, e é justamente este relato que me assombra. Ouçam mais este pequeno fragmento.

Arian folheou o livro várias páginas a frente, localizou a que queria e recomeçou a leitura.

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Nosso Pai estava cansado e decidiu adormecer.

Depois das Guerras Sombrias entre os Filhos do Sangue e os Filhos da Lua, houve paz selada entre Caim e Lycos com a promessa de ambos que não haveria mais filhos nem de um e nem de outro. Nosso Pai revelou que no momento em que adormecesse os seus filhos perderiam o poder e não passariam de poeira ao vento, com isso Lycos aceitou o adormecimento, pois aparentemente não podiam matar-se um ao outro.

Mas meu Pai amava-me mais que aos outros, pois além de sua filha fui também sua companheira e ele revelou-me que todos os Cainitas teriam um fim logo... menos eu, sua amada. E por mais que eu amasse meu Pai os Cainitas precisavam ser detidos, seu poder e sua selvageria eram grandes de mais e sem os lobisomens para equilibrarem o meio ambiente, os vampiros tornaram-se predadores soberanos e dizimavam cidades inteiras em sua sede luxuriosa. Eu não desejava o mal para meus irmãos, mas eles precisavam ser controlados, sua devastação trazia infelicidade ao meu Pai e tristeza para seu imortal coração. Quando Caim decidiu por um fim aos Cainitas ele dividiu comigo a sua marca, pois não suportaria a ideia de me vez morrer e depois disso eu fui obrigada a vagar solitária pela terra.

Oculta nas sombras eu vi meu Pai Caim partir com Lycos para seu local de descanso eterno, o filho da Lua auxiliou no adormecimento de meu pai, um lugar ermo e que ninguém conhece a não ser o próprio Lycos. Mas o local onde Lycos adormeceu eu conheço, pois antes de partir o meu Pai Caim revelou-me a localização da Tumba do Lobisomem.

Depois que meu Pai se foi os meus irmãos morreram. Caíram num sono eterno e o sol e a luz os reduziram a cinzas, ou os populares cravaram-lhes estacas de madeira no coração fazendo com que explodissem numa polpa sanguinolenta. Mas o Cainitas se perderam, foram amaldiçoados por Caim que retirou deles a sua Marca durante o adormecimento. Restou apenas eu e durante muito tempo caminhei solitária pelas trevas do mundo, meus olhos vertiam lágrimas de sangue porque eu era a última Cainita e a única dos Filhos do Sangue que outrora foram milhares.

Mas finalmente, numa noite chuvosa eu encontrei uma menina jovem caída num beco, haviam-lhe espancado e estuprado e ela morria vertendo sangue aos meus pés, eu decidi que a mataria rapidamente para evitar seu sofrimento. Entretanto, havia tanta miséria em sua situação e tanto medo de morrer em seus olhos que ao sugar seu sangue, hesitei, e ao invés de matá-la trouxe-a para minha casa a fim de lhe curar os ferimentos até que ela se recuperasse.

O que aconteceu acabou sendo o contrário do que eu esperava. Sempre absorvi o sangue de minhas vítimas, mas jamais alguma ficou viva. A menina que eu poupei não melhorava nos dias que se seguiram, pelo contrário, parecia morrer aos poucos num estupor catatônico e doloroso. E para meu assombro, diante de meus olhos eu vi ela se transformar em algo inesperado.

Uma Filha do Sangue.

Mas não com a Marca de Caim. Nasceu sobre a minha Marca. A Marca de Níneve.

E como Primeira Filha eu percebi, horrorizada, que havia criado outra Cainita em uma segunda geração a partir do fragmento da Marca que Caim manteve em mim para que eu sobrevivesse. Eu poderia gerar meus próprios filhos. Seria a Mãe como Caim um dia fora um Pai. E não mais estaria sozinha.

Mas percebi que minha filha era diferente de mim. A luz do sol não a maltratava, mas ela era dezenas de vezes mais frágil do que eu, muito menos rápida, muito menos forte e sem qualquer dom dos talentos com os quais eu mesma nasci. Então eu soube que meus filhos seriam diferentes dos filhos de Caim. Nasceriam mais frágeis e mais fracos.

Os Segundos Filhos.

Sahaari foi minha primeira filha, meu primeiro amor depois de muito tempo. No início foi difícil controlar sua sede, mas depois ela aprendeu e se transformou em minha companheira para sempre. Mas Sahaari apaixonou-se por um rapaz que era pescador e também o imortalizou e ele também foi um Segundo Filho, e eu percebi que os filhos de meus filhos também seriam Segundos Filhos e que apenas eu permanecia como a última Cainita, apenas eu detinha ainda a Marca de Caim.

Recordava-me do terror que os Cainitas infligiram no mundo, temia que meus Segundos Filhos fizessem o mesmo, mas o tempo mostrou-me que meus filhos não eram tão selvagens quanto os filhos de Caim. Os Segundos Filhos espalharam-se pelo mundo sem, no entanto, destruí-lo. Talvez a minha Marca não fosse tão amaldiçoada quanto a Marca de meu Pai.

Passou-se tempos e minha cidade crescia e transformava-se à medida que mais pessoas vinham recorrer à mim. Eu estava feliz que meus filhos estivessem controlados em respeito à minha pessoa. Algumas vezes fui obrigada a punir os que não se comportavam e como eu, sendo uma Primeira Filha, era muitas vezes mais poderosa que meus próprios filhos, nunca tive problemas, pois eles me temiam. Temiam o poder da Mãe.

Mas nem tudo foi sonhos, pois eu tive a Visão e a Visão me aterrorizou tanto quando qualquer outra coisa que eu já tivesse presenciado no mundo. Eu vi os meus filhos tomando o mundo de forma descontrolada, os meus ensinamentos haviam sido esquecidos no futuro daqui a milhares de anos e os Segundos se esqueceram de Caim, de nosso Pai, esqueceram-se de sua Marca. E os meus filhos tomavam conta do mundo transformando-o num caos de sangue e de ódio. Numa coisa anômala e selvagem quase tão ruim e tão maculada quanto os Cainitas.

E isso se tornaria ainda pior, pois a Visão revelava também o despertar de Caim. A Volta de nosso Pai traria com ele a Marca. Os Segundos Filhos transformar-se-iam nos Primeiros e o mundo seria inundado em sangue, pois meus filhos seriam tão poderosos quanto eu ou Caim e seriam ainda mais selvagens e nada seria capaz de os deter uma vez que nossos inimigos naturais, os Filhos da Lua, já não existem mais.

Assim, por mais que eu ame meu Pai, meu amado Caim, devo lutar para que ele não desperte, pois o mundo que amo, o equilíbrio entre os povos seria estilhaçado. Os Vampiros não teriam limites para seu poder se os Segundos receberem a Marca de Caim. Numa tentativa de salvar o mundo eu decidi adormecer também. Com sorte os meus Filhos terão o mesmo destino de meus irmãos e os Segundos se reduzirão a pó como os Cainitas.

Amo meus filhos, mas não posso permitir que eles tornem-se os Primeiros quando o alvorecer de uma nova era despertar meu amado Caim. Deixarei este Livro de Revelações onde constam as minhas Visões. Deixo-o de herança para os mortais que deverão impedir que Caim desperte num tempo além do meu. O Mundo está cheio de meus filhos e eu temo que o tempo do Despertar tenha chegado. Vou adormecer para que não haja desgraças. Vou adormecer para que os Segundos não se tornem os Primeiros.

Mas cuidem, mortais, cuidem para que meu amado Caim não desperte.

O mundo dos homens não suportaria a sua presença.

Nem a presença de outros Cainitas.

Eu sou a última dos Primeiros Filhos.

Sou Níneve de Caim.

Mãe dos Segundos Filhos... e que eles me perdoem pelo que tenho de fazer.

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O silêncio tomou conta do Salão dos Tronos. Nenhum dos três vampiros ali presente fez qualquer movimento ou disse qualquer coisa. Arian fechou o livro e o colocou reverencialmente sobre a mesa, depois ergueu os olhos para os dois companheiros e limitou-se a fitá-los como quem espera qualquer pronunciamento.

Foi Edward quem falou primeiro.

– São informações bem... abrangentes – disse ele com o cenho franzido.

– Compreenderam a extensão do problema? — perguntou Arian com sua voz retumbante.

– Acho que temos de ir por partes – Edward falou erguendo as mãos num sinal de calma – Se entendi bem, nós somos estes Segundos Filhos, correto? Os Segundos Filhos tem a marca de Níneve e não de Caim, pois Caim já estava adormecido, nós somos muito mais fracos e menos irracionais do que os Cainitas, os primeiros filhos de Caim, é isso?

– Continue – disse Arian.

– Aparentemente, Níneve temia que seus filhos se transformassem em Cainitas no momento em que Caim despertasse uma vez que ele é o vampiro original, assim sendo, adormeceu para matar todos os Segundos filhos assim como Caim fez com os Primeiros... então por que ainda estamos vivos?

– Patologicamente falando, Caim detinha o vírus original – Carlisle respondeu – O vírus que Níneve desenvolveu era diferente e não tinha uma correlação com suas crias. Há lendas que afirmam que Caim era ligado a seus filhos, laços de memória e telepatia, mas Nínive não detinha este traço, os Segundos Filhos eram independentes dela... por isso quando ela adormeceu, nós persistimos.

– Há muitos furos nesta história toda – Edward falava e havia ceticismo em sua voz – Primeiro, por que todos os outros Cainitas criavam também Primeiros Filhos e apenas Níneve deu origem a nós... totalmente diferentes dos vampiros originais?

– Provavelmente porque a Marca de Caim tinha desaparecido – argumentou Arian – Quando ele adormeceu apenas uma impressão da maldição ficou em Níneve, mas ela mesma afirma que Caim deixou nela a Marca para que não morresse quando ele adormecesse.

– Muito bem, mas mesmo que toda esta história mirabolante seja real – continuou Edward – O que nós temos em comum com Caim? Nada. Mesmo que ele voltasse a vida de sei lá deus onde está enterrado... isso não poderia nos afetar, pois não somos Cainitas. Somos Segundos Filhos.

– Isso é mais forte do que parece – Carlisle estava pensativo – Caim é o primeiro vampiro. O vampiro original. Teoricamente falando a Marca dele está em nós através de Níneve, pode ser que esta impressão seja o suficiente para que nos tornemos Cainitas se ele acordar. Somos todos filhos de Caim, Edward.

Edward calou-se e olhou com atenção de Carlisle para Arian, depois tornou a erguer as mãos e abanar a cabeça, havia um sorriso descrente em seu rosto quando ele falou:

– Vocês estão realmente considerando toda esta loucura? Carlisle, você é o homem mais racional que eu conheço, como pode crer em tudo o que está escrito neste livro velho? Não podemos fazer interpretações literais destas coisas, seria o mesmo que pegar a bíblia cristã e crer que Jó enfiou-se na goela de uma baleia! Eu me recuso a acreditar que um único livro contém toda a verdade sobre a história dos vampiros. Como jamais ninguém teve acesso a informações como esta? Como nunca temos registros sobre os Cainitas e todo o mal que causaram?

– Há registros, Edward – respondeu Carlisle – A cultura é um registro. De onde você acha que vem a ideia de que vampiros não podem sair à luz do sol ou que choram lágrimas de sangue? Nós não fazemos isso, mas os Cainitas sim. Isso é passado entre os humanos que viveram na época deles e sabiam o que podiam fazer, obviamente, com o passar do tempo, estes ensinamentos sobre os vampiros se tornaram lendas, mas eles insinuam sim que os Primeiros Filhos podem ter existido.

– Mas aí acreditar em todo o resto?

– Não temos todo o resto, Edward Cullen – disse Arian – O que li para vocês não passa de um fragmento, uma parte de toda a história que foi escrita numa linguagem ainda inteligível. Mas as visões, as grandes Visões de Níneve são quase que praticamente inalcançáveis.

Arian tornou a pegar o Livro Vermelho, folheou-o até encontrar o que queria e depois mostrou-o a Carlisle e Edward. Pai e filho observaram nas folhas amareladas de pele humana uma escrita muito semelhante ao cuneiforme, mas aqui e ali pontilhavam símbolos como antigos hieróglifos.

– Não posso afirmar com certeza, mas creio que esta é a linguagem dos Cainitas – disse Arian.

– Uma língua... puramente vampira? — Edward pestanejou.

– Sim, e talvez nem mesmo Baltazar saiba tanto sobre ela, provavelmente mesmo ele leve anos para conseguir traduzir estas páginas. O que estou tentando dizer é que há muitos segredos neste Livro, coisas que nem imaginamos, talvez até mesmo o paradeiro da Tumba de Lycos e nem todas as informações nos são acessíveis... creio que nem mesmo Aro sabia de muita coisa deste Livro.

– Isso tudo pode não passar de uma artimanha – Edward não se deixava convencer — Aro pode muito bem ter isso na manga apenas para manter os Volturi no poder...

– Isso já é superficialidade, Edward – alertou-o Carlisle.

– Vocês vão me dizer que Marcus e Caius realmente não sabiam nada do Livro?

– Sabiam apenas o que Aro queria que soubessem – disse Carlisle – Caius era muito sagaz e Marcus provou-se mais astuto do que poderíamos imaginar, mas no fim, como todos sabem, era Aro quem segurava as rédeas.

– Estão verdadeiramente pensando em dar ouvidos a este Livro hipotético? Nem sabemos de onde ele surgiu, de onde veio, e agora estamos aqui discutindo o que pode perfeitamente não passar de lendas sobre os vampiros. Coisas que poderíamos ler em qualquer livro de RPG.

– Eu sou uma lenda, Edward Cullen? – disse Arian – Há pouco mais de setecentos anos fiquei aprisionado e muitos vampiros consideravam-me uma lenda, mesmo eu estando aqui sob os pés destes mesmos vampiros descrentes. O que poderá ser verdade ou mito? O que sabemos realmente sobre os fatos que se originaram lá na aurora do mundo?

– Daqui a pouco vamos descobrir a tumba do Conde Drácula se continuarmos neste passo! — exasperou-se Edward.

– Quem é Conde Drácula? — estranhou Arian.

– Um personagem das histórias dos mortais – explicou Carlisle – O problema, Edward, é justamente este: não sabemos o que é verdade ou não.

– E se isso tudo foi uma besteira, Carlisle?

– E se não for? — contrapôs Arian – Se as lendas forem reais, Edward Cullen, o mundo terminará num banho de sangue se este Caim despertar e nos transformarmos nas histórias fantásticas dos mortais. Seremos muito mais intempestivos. Consegue imaginar-me irracional e selvagem? O que apenas eu sozinho poderia fazer se perdesse o controle?

Houve novamente silêncio quando os argumentos tornaram a conflitar. Edward estava em desvantagem, mas então percebeu que Arian e Carlisle estavam pensando em pontos diferentes dos dele.

– Em que estão pensando, afinal? — perguntou por fim.

– Se este Livro não fosse tão perigoso Erestor e Marcus não teriam feito tudo o que fizeram para botar-lhe as mãos – disse Arian – Olhe para ele Edward Cullen, olhe-o e afirme que não lhe desperta desconfiança, que tudo o que está escrito nele são falácias.

Edward olhou para o livro e depois, sem querer, seu dom defeituoso voltou a ativa e ele captou os pensamentos possantes de Arian.

Sou um guerreiro, Cullen, meus instintos para o perigo e para a batalha foram lapidados durante incontáveis anos. Há algo de estranho neste livro, algo de estranho e macabro e eu não serei tão estúpido como tu para descartar perigos que batem à nossa porta.

Edward suspirou, Arian não seria facilmente convencido do que acreditava. Era teimoso feito um boi.

– Muito bem, não temos como precisar se isso é verdade ou não, Arian – disse ele – Você está convencido que este Livro é tenebroso e que seus segredos devem ser analisados antes que acabemos nos tornando monstros sanguinários... mas como planeja fazer isso, afinal?

Arian não lhe respondeu, olhou para o Livro sobre a mesa e depois para o patamar mais alto do Salão onde os Tronos dos Três descansavam vazios. Em silêncio deu a volta na mesa a encaminhou-se para o tablado, subiu os degraus e foi para ao lado do trono tombado do pai. Olhou-o como alguém que encara uma cobra venenosa.

– Jamais desejei ser rei – disse Arian como se falasse para si próprio – Meu pai mortal era rei e meu pai imortal também, isso por si só já prova que eu não tenho escolha. O reinado sobre os vampiros é algo muito maior do que apenas ter um pequeno reino sobre um povo. Isto é reinar sobre uma nação. Agora surge no horizonte um desafio quase insuperável se comprovar-se real; algo que pode vir a destruir este mundo, um mundo que me foi negado e que eu desconheço. Mas aprendi desde menino que os que têm a força também tem a responsabilidade de fazer o melhor por aqueles que dependem de nós. Não posso negar a este mundo a chance de enfrentar este desafio. Não posso virar as costas e entregar os mortais a uma possível perdição. Não posso e não o farei.

Com um gesto simbólico Arian ergueu o trono caído de Aro para em seguida sentar-se nele. Edward sentiu um arrepio diante do gesto. Aro sempre pareceu um vampiro traiçoeiro, alguém mesquinho e egoísta sentado numa grande cadeira de poder, mas Arian não passava tal impressão. O guerreiro parecia ter nascido para ser Rei. Havia realeza em seu semblante sério, em seus olhos de guerra e seu poder que se refletia em cada músculo tensionado. Aquele sim era um Senhor de Vampiros.

– Mas não o farei sozinho – continuou Arian. Carlisle e Edward ergueram o olhar para ele, aturdidos – Mesmo Aro, Caius e Marcus, corruptos como eram, tinham a noção de que apenas um rei teria dificuldades em cuidar de toda a extensão do reino dos vampiros. Um único rei torna-se soberano e tirano, dois reis podem tornar as coisas mais equilibradas, mas o terceiro sempre foi decisivo. Em uma questão complicada como esta são necessárias três cabeças, três linhas de raciocínio... e não vejo ninguém melhor para ocupar os dois outros tronos ao meu lado do que vocês dois.

Edward olhou com descrença para Arian, um sorriso bobo e desajustado surgiu em seus lábios, por um momento considerou aquilo uma brincadeira, mas os olhos frios e austeros do guerreiro não davam margem para gracejos indolentes.

– O que? — Edward conseguiu perguntar.

– Carlisle é um homem sábio e tu és um homem justo, Edward Cullen – respondeu Arian – Conhecem o mundo deste tempo que eu não conheço, sabem como é o modo de vida dos vampiros desta época. Conhecem vampiros pelo mundo. E, além de tudo, são os dois únicos que eu conheço e que confio... confio porque meus instintos dizem que posso confiar em vocês. Que são honestos e isso me basta. Deverão tomar o meu lado nesta demanda. Temos a missão de descobrir se os fatos narrados no Livro Vermelho são ou não reais e se operam perigo para o mundo.

Arian não estava brincando, Edward deu um passo para trás, a cabeça negando o pedido com veemência. Renesmee lutou com todas as suas forças contra eles... prometeu que jamais seria uma Volturi, o que faria se me descobrisse um rei deste lugar?

Mas para seu total assombro, Carlisle olhava para o lugar que fora de Marcus e sem dizer palavra, sem qualquer comentário deu um passo para frente em direção ao tablado, Edward reagiu instantaneamente e segurou o pai pelo braço. Carlisle virou-se lentamente para o filho e seu rosto estava afundado em uma tristeza infinita, uma coisa tão profunda que não podia ser mensurada, explicada ou definida. Era o rosto de um homem derrotado... de um homem que não via saída.

– Carlisle... — tentou começar Edward, mas o pai o cortou.

– Edward, você se lembra de quando descobrimos o preço pela magia de Charlotte, que ficamos presos naquele Pântano por dois anos?

– Eu me lembro.

– Lembra-se do que eu lhe disse naquela ocasião?

Edward lembrava. As palavras de Carlisle subitamente invadiram sua mente vindas de uma memória bem recente. O mundo estará mudado e nós fomos os responsáveis por esta mudança. Mudanças têm um preço, Edward, assim como a magia de Charlotte. E haverá um preço para o que estamos prestes a fazer, talvez um preço muito mais alto do que apenas dois anos de nossas vidas.

O preço... — suspirou Edward.

– Exato – até mesmo a voz de Carlisle estava triste – Este é o preço que vamos pagar por termos alterado as coisas, Edward. Sabe, às vezes mesmo buscando justiça e agindo pela honra somos capazes de causar algum mal. Mesmo atos bondosos têm consequências, nem sempre se paga bondade com bondade ou maldade com maldade. Fizemos tudo isso por amor, mas o preço que eu terei de pagar é bastante alto... o que eu sacrificarei por isso? Agora não sei mais. Mas nós dois somos responsáveis pela queda dos Reis, não podemos meramente virar as costas deixando para trás a nossa responsabilidade por este golpe. Há muitas perguntas sem respostas, segredos obscuros nos espiando das trevas. Arian precisará de ajuda e eu, como um dos responsáveis por estas mudanças sou obrigado a ajudá-lo... mesmo sabendo que isso nunca foi algo que planejei. Assim como Arian, jamais quis ser rei... mas agora rei serei.

Carlisle libertou-se gentilmente do aperto do filho e caminho resoluto para o tablado, subiu os degraus e encarou o trono que fora de Marcus e depois de um momento sentou-se. Este gesto fez o sangue de Edward congelar, pois Carlisle sentado num trono era uma visão quase tão inaceitável quanto Bella num altar ao lado de Aro.

Edward de um passo para trás.

– O preço – ele tornou a falar.

Um preço alto demais.

Sem se ater ao que fazia ele chocou-se contra a mesa e ao virar-se deu de cara com o Livro Vermelho. Aquela coisa parecia olhá-lo de uma forma medonha, dava para quase ouvir palavras milenares em uma língua antiga sendo sussurradas através daquelas páginas mortas, segredos das Eras... maldições. O Livro os amaldiçoara a todos. E então Edward sentiu que Arian tinha razão, aquele Livro, os segredos daquele livro, não eram uma forjadura dos Volturi, não se tratava de um golpe de Aro... era real. Aquelas páginas feitas de pele humana, aquele sangue negro... tudo aquilo era real. Assim como os segredos. Assim como Níneve, a mãe de todos eles, de todos os Segundos Filhos.

E Edward sentiu um desalento atravessando-o.

O Preço.

Tornou a olhar para Carlisle e para Arian. Eles o esperavam. O trono de Caius o aguardava. Chamava-o. Atraía-o.

Edward não queria aquilo, era sandice. Loucura! Ele derrotou os reis para ser livre, libertou Arian para ser livre e agora o preço que pagaria seria a sua própria derrota, o seu aprisionamento em Volterra. O lugar que sempre temeu, que sempre rejeitou. Como poderia ser ele Rei de Volterra, um Volturi!? Como poderia ser o Segundo e Carlisle o Terceiro?

Tua esposa já é Rainha, uma voz fria sussurrou em sua mente.

E então, com o efeito de um violento murro no estômago, Edward ouviu a voz de Bella ecoando de suas lembranças. Você não percebeu ainda, não é mesmo, meu amor? Nós somos os Volturi agora, disse-lhe Bella. Eles se transformam nos Volturi no momento em que mataram os Reis.

O Livro lhe encarava. Arian e Carlisle lhe encaravam.

O preço.

Sim, o inequívoco preço.

Tudo o que desejava era vingança, queria fazer justiça. Correu meio mundo para isso, envolvendo-se com feiticeiras, magia negra, patifes no meio da estrada. Enfiou-se debaixo da terra para libertar uma rainha e um deus. Mexeu com a ordem natural das coisas, com a ordem estabelecida e isso tinha um preço. O preço mais caro que ele poderia pagar.

Eu resisti, pai, disse-lhe Nessie orgulhosa durante a vigem de carro até Volterra, eu jamais me tornei uma Volturi. Jamais serei uma Volturi.

– O preço – tornou Edward a repetir em voz alta.

E assim, sem qualquer iniciativa, como se tivesse perdido o controle de suas ações, Edward sentiu sua perna sendo atraída para o tablado e deu um passo em direção ao trono, depois mais um e outro mais. Havia um eco em sua mente, o peso dos segredos do Livro e ele indagou-se como Aro conseguira viver tanto tempo sabendo de todas aquelas coisas horríveis. Ele caminhou como um homem caminhando para a morte... era como um sonho. Um pesadelo horrível.

Antes do que queria estava subindo os degraus e encarando o trono que um dia pertencera a Caius. Havia um grande V esculpido na madeira polida e macia, o veludo negro do respaldo e do assento brilhava e um estranho ar gelado parecia emanar dali. Sem se dar conta do que fazia Edward girou o corpo e um segundo depois acomodou-se no Trono do Segundo. Dali o Salão parecia imenso e escuro, silencioso e austero, imediatamente ao seu lado ele via Carlisle e um pouco à frente Arian. Sentiu-se estranhamente perdido.

– Está feito – proclamou o gigante – Que façamos um trabalho melhor que os reis anteriores.

– No início Aro, Caius e Marcus não eram maus – disse Carlisle.

– Então rezemos para que não nos percamos como eles – retorquiu o gigante.

– O que faremos agora? — perguntou um Edward assustado.

– A princípio preocupe-se com o casamento de tua filha, Edward – orientou Arian – Depois disso terei meu próprio casamento com minha rainha e então nós libertaremos Baltazar e o colocaremos para trabalhar no Livro. Se alguma coisa lá for verdade teremos de descobrir. Se Níneve existe vamos encontrar sua Tumba, e com isso descobrir onde Lycos está adormecido e, por conseguinte, onde ele enterrou Caim. Mas há muito até lá. Temos um palácio a reconstruir e uma reputação a erigir. Teremos muito trabalho.

– Vocês acham que foi por isso que Aro era obcecado com a ideia de colecionar vampiros talentosos? Por medo de que quando mudassem se tornassem ainda mais perigosos? — ponderou Edward.

– É uma possibilidade – respondeu Carlisle – Se os Volturi tinham o temor de seu povo, seria mais fácil controlá-los caso a história do despertar de Caim se mostrasse real. Mas temos que saber mais sobre o que há no livro, temos que aprender inclusive sobre o dom dos vampiros e por que nós, filhos de Níneve, não nascemos com todos os dons dos Cainitas e porque outros nascem completamente sem dom algum. Mesmo você, Arian, me intriga. Você tem vários dos dons dos Primeiros Filhos em si.

– Outra questão a ser esclarecida – disse o guerreiro – Talvez descubramos a resposta enquanto tentamos evitar que tudo se reduza a cinzas, pó e destruição. Agora, mesmo contra nossa vontade, vamos reinar.

Quando todos pensavam que estavam a salvo... uma nova ameaça tinge o horizonte de vermelho. Segredos de Eras remotas surgem para revelar a sombria história dos vampiros.

A tempestade se formava.

Agora não apenas alguns indivíduos estavam envolvidos, mas toda a nação vampira. A realidade dos imortais nunca mais seria a mesma.

Pois em breve todos os vampiros do mundo descobririam que Aro, Caius e Marcus tinham sido derrotados e que nos três tronos de Volterra sentavam-se três novos Reis.

Arian, Carlisle...

... e Edward.

Fim do Livro 2

Notas finais
Bem, eu gostaria de agradecer muito a presença de todos. Candor Lunar é um trabalho imenso pra mim que se iniciou desde de 2010 e vem seguindo agora para o seu 3º Livro. Agradeço de coração a leitura, as sugestões, as críticas, os comentários, as curtidas, as "favoritadas" que a fic recebeu neste tempo. Candor Lunar ficou e atualmente está como uma das Fics mais lidas e comentadas no gênero Livro de Crepúsculo e isso para mim é um orgulho. Nunca fiz propaganda e jamais mudei minha história e é muito bom saber que mesmo assim conquistei alguns fãs com minhas escrita. Agradeço a vocês de coração. Desta vez não há meios de eu agradecer a cada um como eu fiz no Livro 1, é muita gente... kkkkk. Então deixo um grande abraço a todos que acompanham Candor desde seu início e através de todos estes 4 longos anos... (e vai saber quando vai terminar!).... hahah. Gente. Meu muito, muito, muito Obrigado. Vocês são meus ídolos... escrevo para vocês. Candor é de todos os que leem. Agora, dentro de poucas semanas começarei a postagem do Livro 3. Que será talvez diferente de tudo o que foi escrito até agora. Espero contar com a presença de todos lá também. Prometo que no Livro 3 vou negligenciar menos o Nyah e prometo postar os capítulos com mais rapidez. Enfim... ufa... foi uma longa jornada que está quase no fim. Mais uma etapa vencida... graças à companhia de vocês. Um grande beijo. Um forte abraço... Vou para ali e aqui e volto um dia destes... (ou não) kkk Ang (qnveFR)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!