Candor Lunar - Livro 2

48 Capítulo 45 - Os Semeadores de Tempestade


Notas iniciais
Olá pessoal. Vamos que vamos... aí está o antepenúltimo capítulo de Candor 2 Quase no fim - finalmente. abraços. Ang.

Havia apenas a velocidade da queda.

Nada mais.

Uma velocidade terminal.

A velocidade terminal baseia-se na velocidade da força gravitacional empurrando constantemente um objeto se opondo à resistência do ar, uma força constante que atira qualquer coisa a 195 km por hora, ou, em outros termos, 54 metros por segundo. Num abismo de mais ou menos 400 metros de altura, bem, levaria algo menos que dez segundos para chocar-se contra as rochas pontiagudas e mortíferas... mas nestes termos desesperadores, durante tal queda vertiginosa, dez segundos tornam-se uma eternidade.

Jacob Black endireitou o corpo e esticou os braços e as pernas tentando aumentar a massa de atrito do ar e desacelerar um pouco a queda, ele precisava alcançar Renesmee, não tinha qualquer esperança tola de sair vivo de uma queda daquelas, principalmente porque seu corpo estava convalescido pelo resquício de veneno de vampiro que ainda corroia suas veias. Mas ele não podia permitir que a noiva morresse. De jeito nenhum.

A queda e o som ensurdecedor do vento que uivava não permitira que ele gritasse, e para ser sincero, Jacob estava de tal forma aterrorizado que dificilmente teria forças para gritar, apenas encarou os olhos grandes e amendoados de Nessie que exalavam um misto de horror e alegria. Nessie percebeu o que Jacob queria fazer e assumiu a mesma posição que ele para aumentar o atrito do ar, Jacob mergulhou rápido e um pouco desajeitadamente conseguiu abraçar com força Renesmee.

A voz da menina, através do dom inato dela, soou na mente do lobo como uma cascata revigorante de força.

“Jacob!” — gritou ela — “Você está vivo. Eu sabia que estava... eu sabia”.

“Eu vim, claro que eu viria... você duvidou disso?” — perguntou o lobo, contente apesar da situação, o corpo de Renesmee se encaixava familiarmente com o dele, como se os dois fossem moldes perfeitos um do outro. Ele sentiu as lágrimas dela tocarem a pele do seu rosto.

“Nem por um segundo” — Nessie afirmou, emocionada, mas em seguida sua voz tornou a ficar trite — “Ao menos morreremos juntos... nós não vamos conseguir”.

“Nós não” — no ar, com dificuldade, ele girou o corpo colocando-se no lugar de Nessie para receber todo o impacto da queda — “Mas você vai”.

Nessie percebeu o que Jacob pretendia fazer e debateu-se tentando voltar à posição original, sem, no entanto, qualquer sucesso. As lágrimas ganharam um novo ímpeto e eram atiradas para o ar através do vento violento que os cercava.

– Eu não vou permitir que você morra por mim – ela gritou para que Jake a escutasse, mas ele prendeu os olhos da menina nos seus e sorriu aquele eterno sorriso lupino e maroto que definia-se como a marca registrada de Jacob Black.

– Você não tem escolha... vim aqui para isso – ele gritou de volta.

– Não vou deixar – Nessie se debatia – Jake, não vou perdê-lo agora que acabei de reencontrá-lo. Você é meu! Não vou ficar aqui neste mundo sem você... morremos juntos. Você e eu.

Ela o beijou. Depois de dois anos ela o beijou. Na velocidade terminal, envoltos em um mundo de ventos cortantes, Renesmee Cullen tornou a sentir o sabor dos lábios quentes de Jacob Black. E naquele instante nada importou, a queda mortal não tinha sentido, o amor deles sobreviveria além do mundo dos homens e dos vampiros... os dois seriam lembrados para sempre pelo amor que sentiam um pelo outro.

Jake não se arrependia de ter se atirado naquele abismo por causa de Nessie, ele sabia que havia sido condenado a este amor no momento em que viu a menina nascer... acontecesse o que acontecesse, Jacob Black estafa fadado a isso, morrer junto de sua amada Renesmee.

O universo havia conspirado para aquele momento... o momento em que os dois unir-se-iam para todo o sempre. A Impressão era inexorável. Jacob Black nascera para esperar por Renesmee, e os dois iriam morrer juntos, em meio a um beijo apaixonado de saudade, atirado contra o mundo a uma velocidade impressionante.

Uma velocidade terminal.

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Kaori estava sentada em uma posição de hyoga com as pernas cruzadas em si mesma, as mãos descansavam no joelho enquanto sua mente ouvia todas as informações que eram passadas entre os seus amigos. Ela funcionava como uma telefonista, fazendo as conexões psiquicamente sempre que um pensamento era atirado para algum lado, às vezes ficava difícil, mais de uma intenção era disparada para a mesma pessoa ou várias para vários interlocutores. Sua cabeça já estava doendo, um serviço melindroso era aquele de conectar todos entre si.

Ela havia descoberto muita coisa, principalmente a trama de Marcus, não conseguira pegar todos os detalhes, mas soube da agitação no Salão dos Tronos assim que os companheiros conseguiram atingir seu objetivo. Charlotte lhe avisara do ferimento de Seth e de como Jacob passara correndo por ele para ir se unir ao resto do pessoal, mesmo ferido o lobo não tinha vacilado.

Paralelamente à empreitada dos Cullen com os Reis, Kaori notou pelos fragmentos de notícias que Arian havia matado Flávius Aurélius, dispersado os Mercadores da Morte e já alçava voo pelos céus... quando aconteceu.

Há dois anos Kaori não ouvia em sua mente um grito de Bella, quando a vampira ampliou o seu poder de escudo mental a todos os aliados, automaticamente o poder de Kaori a havia absorvido para dentro da rede psíquica de comunicação e agora a angustia de Bella e seu desespero foram tão avassaladores que o grito soou não apenas oralmente, como mentalmente também. Assustada, Kaori viu através de fragmentos de informação dissipada por todos os seus amigos a imagem quebrada de Caius jogando Renesmee do alto da torre para um vazio letal e, um segundo depois, a corrida desembestada de um guarda que atirou-se através da parede de vidro quebrada atrás da menina em queda livre. Levou nanosegundos para que Kaori percebesse o que Edward já sabia, que o guarda era na verdade Jacob.

Kaori ergueu-se de um pulo, o rosto travado numa máscara de horror, tanto Alice quanto Bianca olharam-na com espanto, mas ela não tinha tempo de explicar agora. Sua mente voou, direto para Arian, e sua voz explodiu na mente do guerreiro-deus com uma assombrosa força de terror.

“ARIAN, você precisa salvá-los... Caius atirou Renesmee da torre, ela e Jacob estão caindo”.

“A filha de Edward?” — a possante voz de Arian retumbou na cabeça de Kaori.

“Sim, salve-a, por favor... salve-a!”.

“Vamos ver qual é o limite para a minha velocidade” — respondeu o guerreiro e depois Kaori sentiu sua mente desligando-se da dele.

Ela só poderia rezar.

– O que aconteceu? — a sinfônica voz de Alice estava preocupada. Kaori virou-se para encarar a linda vampira que a olhava com apreensão.

– Marcus está morto, Renesmee e Jacob estão despencando para a morte da torre mais alta... caso Arian não seja capaz de salvá-los – respondeu de uma só vez.

– Ah... ah... meu deus – Alice pôs as mãos na boca e sentiu-se subitamente fraca.

– Vamos, chegou o momento de eu encarar novamente os meus dois algozes – disse Bianca com a voz displicente, parecendo alheia a tudo o mais que acontecia.

– Vamos? Arian mandou você ficar aqui conosco – lembrou Kaori, nervosa – E como você pode estar tão calma?

– Tu não conheces Arian como eu – respondeu a Rainha – Ele não permitirá que a filha do homem que o libertou morra tão facilmente e ainda mais pelas mãos de Caius. Não. Quanto ao ficar aqui, era para me proteger, eu não ficarei parada, tenho de ver com meus próprios olhos a derrocada dos Três, ou Dois, agora. Então, se quiserem servir de minhas guardas, terão de vir comigo. Além do mais, não há mais inimigo algum para enfrentar.

– Os Lordes dos Volturi ainda estão espalhados pelo Pináculo.

Bianca riu com escárnio.

– Os Lordes são vassalos covardes, com os guardas e seus seguranças mortos eles não farão nada. A maioria corre agora para seus casteletes espalhados pela Itália se perguntando o que acontecerá se os Reis caírem. Fora isso, creia-me, será muito interessante estar lá quando Arian ceifar a vida de Caius e Aro.

§§§§§§§§§

Apesar do uivo do vento mesclado à violência das ondas se espatifando contra as rochas, Renesmee estava realmente satisfeita. Ela havia reencontrado Jacob e tudo estava em seu devido lugar... fora o fato de que estavam para morrer esmagados contra o mar; ela delicadamente descolou os lábios dos do lobo, focalizando os olhos do noivo com atenção, cuidado e alívio.

“Eu te amo” — disse Nessie usando seu dom — “Vou te amar para sempre”.

“Eu te amo” — repetiu Jacob abraçando-a com força — “Vou te amar para sempre”.

Ela retribuiu o abraço firme de Jake e girou com força o corpo para que os dois ficassem de lado durante a queda, ela não queria que Jacob recebesse o impacto sozinho tentando salvá-la, se era para morrerem, então morreriam juntos, um não sobreviveria no mundo sem o outro.

Renesmee colou seu rosto no rosto quente de Jacob, seus cabelos eram atirados para todos os lados durante a queda e o silvo veloz do vento não cessava, mesmo sem querer ela abriu os olhos e encarou as rochas frias e cruas lá, muito abaixo, mas aproximando-se assustadoramente rápido. E em questão de segundos metade do caminho já havia sido deixado para trás e o fim dos dois era iminente. Nessie encarou o mar espumante e os rochedos negros e por mais que quisesse fechar os olhos, por mais que a assombrasse a ideia de se espatifar contra aquelas lâminas afiadas e pontudas, estava hipnotizada pelo próprio fim e a lembrança do rosto dos pais clareou em sua mente e as lágrimas continuavam a cair de seus olhos e serem varridas pelo vento, logo em seguida.

Então, finalmente, faltavam apenas algumas poucas dezenas de metros para o fim, para as rochas e para a morte. Nessie sentiu seu coração parar, sentiu o medo dominá-la, sentiu a quentura de Jacob em seus braços e sentiu por todos os sonhos que jamais viria a realizar.

E quando finalmente sentiu o cheiro das ondas, o frio das pedras, lentamente... sua queda começou a simplesmente retardar. A velocidade foi diminuindo e ela sentiu seu corpo mudar de posição enquanto o vento em seus ouvidos tornava-se menos volumoso e ensurdecedor, quando finalmente o corpo de Jacob ficou sobre o seu e ela viu-se olhando para o céu, Nessie sentiu que sua queda havia sido interrompida e os dois flutuavam pelo ar.

Mas no momento em que a surpresa tomava conta da menina, Renesmee olhou para o alto e viu a coisa mais assombrosamente atordoante que algum dia havia chegado a presenciar: um homem, não um homem, um vampiro imenso e cravejado de uma armadura de aço, flutuando acima deles e com um braço poderoso segurava a gola da armadura da Guarda que Jacob usava.

O vampiro era tão grande quanto Jake, ela notou, maciço, poderoso... divino. Seu rosto era belo, porém austero e régio, o manto rubro enfunava-se ao redor dele com a força do vento que soprava pelo penhasco, os olhos vermelhos do vampiro olharam para ela com uma impiedosa paciência. Renesmee abriu a boca completamente embasbacada e neste momento o vampiro voador riu, uma risada que poderia rivalizar com um trovão.

– Não disseram-te, Jacob Black, que lobos não têm o dom de voar? — ribombou Arian em sua voz trovejante.

– Isso nem me passou pela cabeça – respondeu Jacob que apesar de contido estava claramente aliviado e grato — Agora, se puder nos devolver ao Salão, Arian, eu tenho que esmurrar um rei filho da puta.

– Será um prazer – disse o guerreiro que no mesmo instante voltou seu rosto para cima e começou a ascender com a força de seu poder.

Renesmee sentiu o corpo se endireitar como se estivesse em pé enquanto era puxada para o alto e então percebeu que tremia quase convulsivamente, ela abraçou Jacob com mais força sentindo a segurança daquele par de braços que jamais a soltariam. Com as mãos trêmulas ela tateou o rosto do noivo forçando Jacob a encará-la.

“Jacob... quem... quem?” — começou ela num gaguejar mental.

“Renesmee, meu amor, este é Arian Volturi... o filho de Aro” — respondeu Jacob e seu rosto estava sério — “Ele é o vampiro mais poderoso que já caminhou por este mundo e havia sido aprisionado pelos Reis há mil anos. Não sei como posso te explicar isso, a extensão de tudo o que é Arian porque eu o conheci há poucas horas... mas se os vampiros acreditam em um deus, bem, Arian definitivamente seria o deus dos vampiros”.

Nessie tornou a erguer os olhos para o vampiro que os içava novamente à vida... e ela notou o que Jacob queria dizer. Arian exalava uma aura de poder e uma intimidante altivez, ela passou dois anos com os Três Reis e via neles apenas uma corrupta versão de reinado, não sentia em Aro, Caius ou Marcus uma postura real; mas bastava olhar para Arian para saber como um rei deveria se parecer. Havia um poder em Arian, algo palatável, sensitivo, algo que dava a estranha certeza de que aquele vampiro nasceu para reinar sobre tudo... e todos.

A menina voltou a olhar para o noivo e só então percebeu que o rosto de Jacob estava marcado pelo sofrimento, ele provavelmente estava ferido... e gravemente, mas não era apenas isso, Renesmee apenas podia imaginar por tudo o que Jacob havia passado para estar ali com ela, para vir ali para salvá-la. Ela encostou o rosto no rosto dele e suspirou pesadamente... tanta coisa havia acontecido para que eles pudessem estar juntos novamente... tanta tragédia.

“Finalmente conseguimos” — disse ela.

“Ainda restam dois reis” — respondeu Jacob sério.

“Só dois”.

“E depois disso nada poderá nos separar novamente”.

“Nada” — respondeu ela lhe beijando, um momento depois Jacob a olhou com estranheza.

“Você está cheirando... álcool”.

“Os Volturi me... eles tentaram... me acalmar de todas as formas” — respondeu ela pensando rápido, achou que não seria uma boa ideia entregar Quil como responsável por uma bebedeira tola, Jake não ficaria feliz.

“Malditos Volturi... é um alívio saber que já acabamos com quase todos eles” — bufou Jacob, injuriado.

Nessie não respondeu, ela não poderia ter noção do estrago que Jacob e seu pai haviam conseguido fazer em Volterra e nem como haviam logrado tamanho êxito, mas muito provavelmente tinha alguma coisa a ver com o gigante que agora voava de encontro à torre lá no alto de onde haviam sido atirados. Mas a menina sabia que havia uma história terrível por trás de tudo.

Ela respirou fundo pressentindo o fim.

Há poucos metros dela o destino finalmente seria selado...

Para todos eles.

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Bella gritou, Edward impulsionou-se para frente sendo impedido automaticamente por um irado Felix; Jasper rapidamente saltou para o tablado dos reis indo aterrissar perto de Caius, todos os outros atiraram-se para frente, mesmo sabendo que seu ímpeto era irrelevante.

Antes mesmo de o grito de Bella morrer, Edward ainda não havia conseguido desvencilhar-se de Felix, os outros não tinham nem ao menos chegado aos degraus e Jasper, apesar de toda a sua carga em batalhas, recebeu um poderoso golpe de Caius um pouco abaixo do queixo que atirou-o novamente para o salão onde ele estatelou-se no chão.

Tudo tornou-se um alvoroço nos cinco segundos em que se seguiu a queda de Renesmee e Jacob no abismo, houve um confusão de tentativas para correr até a beira da torre, mas o que restava da Guarda Volturi atrapalhava o caminho e os reis, através do gesto de Caius, dificilmente se entregariam sem lutar. Então, no desespero de todos, houve um rumor, um sugestivo deslocar de ar e de repente os olhos de Carlisle se arregalaram de espanto e o mesmo aconteceu com todos os outros que olharam através dos reis para a parede quebrada, o que lá se encontrava estava além de qualquer possibilidade do inacreditável.

Lentamente os dois Reis voltaram-se para o fundo da torre onde erguia-se nada além de uma parede de vidro estilhaçada, o vazio do céu... e Arian. O guerreiro-deus flutuava no ar como um deus vingador e seguramente preso em sua mão direita estava o casal de amantes recém salvos de uma morte certa. Caius respirou fundo e Aro pareceu encolher diante do vampiro que os encarava com um profundo rancor nos olhos, os dois reis tiveram a certeza, finalmente, de que não é prudente trair um deus.

Com um leve impulso independente, Arian aproximou-se da torre e colocou Jacob e Nessie no chão, pousando logo em seguida. Renesmee correu para o pai que a abraçou com uma força incontrolável. Edward Cullen conseguiu relaxar enquanto Felix nem se deu ao trabalho de incomodá-los uma vez que estava colocando-se próximo aos reis ante a ameaça iminente de Arian.

– Você está bem? — perguntou Edward olhando para a filha com intensidade, estudando aquele adorado rosto que a personificava a exata metade do seu todo, um todo que completava-se com Bella.

– Eu pensei que jamais voltaria a vê-lo – Nessie falou, as lágrimas borbulhando em seus olhos – Você consegue imaginar o quanto senti a sua falta, pai?

– Nem quero, mas garanto que não foi o quanto eu senti a sua.

Os dois se viraram, Jacob aproximava-se e Bella se colocava ao lado de Edward, todos agora olhavam para o tablado dos Reis. Arian deu um passo firme, o rosto uma placa pétrea e ilegível, olhou com seus olhos rubros de Caius para Aro e lentamente desprendeu o machado de guerra da cinta às costas. Renesmee piscou algumas vezes, o vampiro era realmente impressionante, parado ali em sua armadura e com o manto ondulando nas costas, altivo como um rei, poderoso feito uma tormenta... indestrutível como um deus.

– Então a vingança dos Cullen está completa – disse Aro com um sorriso triste nos lábios – Eu nunca imaginei que eles poderiam tê-lo libertado, Arian. Quem diria quão longe puderam ir! É uma lástima, de fato, tudo o que aconteceu. Mas se este é o fim, então que seja.

– Não cairemos sem lutar – rosnou Caius afastando-se para o lado de Athenodora que a tudo assistia como se estivesse dentro de um sonho confuso.

– Não seja tolo, Caius... não há como resistir a Arian. Não é mesmo, meu filho?

O guerreiro-deus não respondeu de imediato, apenas sustentou o olhar do pai com uma imperiosa frieza. O fogo que Marcus iniciou estava queimando e estalando, consumindo tudo o que encontrava de móveis e tapeçaria na parte direita do salão, um fumaça branca de cheiro ocre espalhava-se por todos os lados criando uma espécie de neblina que escapava pela parede de vidro quebrada.

– Este dia era previsto – anunciou Arian sobressaltando a todos com o estrondo de sua voz – Desde o dia em que me aprisionaram este dia estava previsto. Haveria outra forma de ser? Vós, Aro e Caius, estavam condenados; homens fadados à morte desde o momento em que perpetraram a traição contra mim. Sempre vivendo com medo e à sombra de minha presença, construíram o império dos Volturi sabendo que um dia ele ruiria, tendo a certeza de que eu solaparia toda a vossa meticulosa e cuidadosa criação.

Arian deu um passo pesado para frente e Caius instintivamente retrocedeu um.

– Fique onde está – ordenou Caius, a boca torta num esgar de horror – O que pensa que vai fazer, Arian? Nós governamos este mundo há milênios, ele não sobreviveria sem nós, você está para causar um mal irreversível. Nós não podemos ser destruídos!

– E que força irá me deter? — havia a sombra de um sorriso maldoso nos lábios de Arian.

Talvez pelo ímpeto adquirido através de séculos de servidão, talvez porque no fim a lealdade existia de fato, num movimento veloz Felix se colocou entre Caius e o gigante num gesto de certa forma comovente... e inútil. Felix, apesar de toda a sua descomunal força, não era páreo para Arian. Um dos últimos remanescentes da outrora orgulhosa Guarda Volturi, Felix adiantou-se com o máximo de sua velocidade, mas o seu máximo não era nada comparado ao máximo do guerreiro-deus, Arian simplesmente impeliu-se para o lado a fim de evitar o punho de Felix e no momento em que o Guarda passou por ele sem nem tocá-lo, Arian cravou-lhe o machado nas costas com uma força brutal. A arma enterrou-se no corpo de Felix muito além da metade, o vampiro cambaleou diante de todos tentando em vão compreender o que havia acontecido, vários olhos estarrecidos assistiam a cena que parecia se desenrolar lentamente; Felix caiu de joelhos diante da parede aberta da torre, o vento forte com cheiro de mar açoitava seus cabelos e uma expressão de descrença pairava em seu semblante. Arian caminhou para ele de modo displicente, com um único puxão arrancou o machado de seu corpo e com um potente chute nas costas atirou o antigo e poderoso guarda Volturi para fora da torre da mesma forma que Caius havia feito com Nessie.

Felix desapareceu no ar como se nada fosse, simples como um folha morta despenca de uma árvore no outono.

Edward olhou com um misto de desgosto e triunfo enquanto Arian atirava Felix para a morte. Desgosto porque ele próprio não fora capaz de dar cabo de seu algoz enquanto Arian o fizera com a mesma facilidade com que um leão destroçaria um filhote de gnu, mas ao mesmo tempo ele sentia-se triunfante por ter visto finalmente o maléfico Felix ter pagado por todos os seus pecados.

Mas o mesmo efeito não foi compartilhado por Renesmee que sentiu um arrepio de mal presságio cruzar sua pele. Ela não tinha qualquer misericórdia por Felix, sabia que ele não merecia qualquer sentimento desta espécie, porém, não foi a morte dele em si que mexeu com a menina, mas a forma como ele foi morto acendeu uma luzinha de alerta em sua mente. Renesmee sabia que Felix merecia, talvez, uma morte mil vezes pior do que a que teve, porém, foi Arian que a assustou mais. O guerreiro simplesmente o matara de forma banal, quase com desmazelo, ceifou-lhe a vida como alguém esmaga uma formiga sem querer ao caminhar pelo jardim, não houve nada além de golpes automáticos, planejados e precisamente desferidos dando a Nessie a impressão que Arian sabia como matar todos eles, como se já tivesse planejado como fazer caso alguém lhe afrontasse.

Mas se os vampiros acreditam em um deus, bem, Arian definitivamente seria o deus dos vampiros, a voz de Jacob ecoou em suas lembranças. Nessie não tinha como saber de onde viera aquele Arian, mas alguma coisa nela, algo em seu âmago, decidiu que não confiava nele... uma força estranha, quase como uma centelha de consciência, dizendo-lhe que poder demais assim só faria mais mal do que bem. Arian lhe salvara a vida, mas descobriu que acabara de começar a temê-lo.

O guerreiro-deus virou-se novamente para os reis.

– Mais alguém? — perguntou.

E no momento em que perguntou, sentiu. Logo na base da nuca, como se uma agulha incandescente abrisse sua pele e se cravasse cada vez mais fundo em seu corpo, atravessando a garganta até o outro lado. Uma dor furiosa. Mas ele já sentira dores piores, muito piores. Arian, sem se dar ao trabalho de girar o corpo, riu alto, e com a postura inabalável, falou:

– Jane, sua bruxinha malvada... então você resolveu também defender teus reis?

Jane, do outro lado do tablado, deu um soluço involuntário e então Arian voltou sua face com um sorriso maligno faiscando nos lábios e quando moveu-se, rápido como o som, Jane tentou fugir, mas Arian agarrou-lhe a roupa pela frente, puxou-a de encontro a si, e desferiu um murro estrondoso na cara de Jane. O impacto apagou a vampira que ficou frouxamente pendurada na mão do gigante, em seguida Arian atirou-a no chão e lhe quebrou as duas pernas, fácil como se partisse gravetos.

– Teu destino será diferente, pequena Jane... muito diferente dos demais – declarou Arian. Em seguida ele olhou para a parca Guarda que ainda restava em pé, vivos, cerca de pouco mais de meia dúzia. Arian atirou-lhes um olhar zangado – Fujais enquanto permito, deixem este lugar e façam o que quiserem de vossas vidas, mas se ficarem... morrerão.

Os guardas encararam seus reis, encaram Jane destruída no chão e olharam novamente para Arian, o gigante-guerreiro que havia chegado voando e cujo surgimento causou o horror em seus mestres, não havia alternativa, era ficar ou morrer, o ultimato do guerreiro havia sido claro. Lentamente eles viraram-se a caminharam rumo a porta de saída, os que tinham armas as atiraram ao chão, os que nada tinham apenas caminharam através da fumaça para deixar aquele salão de morte. Os dois reis nada disseram, assim como nenhum guarda olhou para trás.

Arian voltou sua atenção novamente para os reis, na frente dele estava apenas Chelsea, o guerreiro-deus parou muito próximo à vampira, assomando sobre ela como uma montanha cresce imensa sobre as árvores; Chelsea ergueu os olhos temerosos para encarar Arian e havia medo em seu rosto bonito e elegante.

– Faço-te a mesma proposta – rugiu Arian – Vá e viva, fique e morra.

Chelsea congelou, seu corpo rígido de medo e então Nessie libertou-se dos braços do pai dando um passo à frente, a menina nunca foi amiga de Chelsea, mas havia visto na vampira um toque de sensibilidade quando Chelsea defendeu-a de Jane e se compadeceu de sua situação precária. Renesmee tinha certeza de que ela não era um má pessoa, por mais que não quisesse admitir em voz alta, ela sabia que sua mãe tinha razão... nem todos os Volturi eram maus.

– Chelsea, por favor – a vozinha de Nessie soou fina e frágil, ela estendeu a mão num chamado suplicante – Venha, por favor, não a quero ver morrer... você não é como eles, eu sei disso.

Chelsea encarou Nessie com surpresa, aquela linda e delicada menina estava tentando salvá-la, ela servia os reis há séculos, mas olhando para aquela família, olhando os Cullen, ela sentia uma tentação imensa de ser como eles, de participar de um núcleo familiar naquele modelo, sem culpas ou ações, sem segredos e mentiras, apenas pessoas ligadas pelo laço fraterno de um amor desmedido. Ela olhou para Bella, Edward e Nessie e viu neles uma luz de pureza.

– Vá, menina – a voz de Aro soou atrás dela – Não é todo dia que algum de nós recebe uma segunda chance.

– Meu senhor Aro – murmurou Chelsea aflita, apesar de tudo era difícil se desvincular de laços erguidos há tantos e tantos anos.

– Vá – insistiu Aro, o sorriso triste novamente nos lábios.

E Chelsea foi. Desceu os degraus como se estivesse num sonho, caminhou para longe da morte como alguém que está se afogando e subitamente irrompe na superfície para respirar, aproximou-se dos Cullen afastando-se dos Volturi e segurou a mão pequena de Renesmee, a menina imortal com o coração mais puro que algum dia ela conheceu, a criança que acabara de lhe salvar a vida.

– Você está se entregando como um covarde, Aro – chiou Caius que estava envolto nos braços de uma aterrorizada Athenodora.

– A inevitabilidade nos atingiu, irmão – suspirou Aro – Consegue enxergar alguma escapatória? Eu não a vejo. Além do mais estou cansado, terrivelmente cansado, não vejo mais motivos para resistir – e neste ponto ele olhou para Bella – Motivo algum para continuar vivendo.

Caius olhou para Arian, a ira flamejando em seu rosto atemporal e belo, com um impulso ele agarrou Renata que estava atrás de Aro, tentando manter-se salvo com o poder de escudo físico da vampira.

– Você não será capaz de me tocar, Arian – a voz dele soava quase lunática.

Arian não se moveu, olhou para Caius com seu rosto ilegível, imperscrutável, não havia emoção no guerreiro-deus, apenas uma frieza calculada e acumulada em séculos de aprisionamento, era visto que Arian havia planejado este momento dia após dia durante quase mil anos.

E subitamente, inesperadamente, Renata gritou e seu corpo incendiou-se numa labareda flamejante e rubra como se um fogo vivo emanasse de seus próprios poros feito um sangue incinerante. Athenodora assustou-se assim como Bella e Renesmee que ainda não haviam presenciado o dom de Arian de fazer com que seus inimigos entrassem em combustão espontaneamente... e sem qualquer defesa.

Não tardou para que a agonia de Renata terminasse, seu grito morreu com seu estertor final no momento em que seu corpo caiu desmanchando-se em cinzas. Bella e Nessie olharam horrorizadas para Arian, imaginando de que profundezas Edward o havia tirado e de que forma poderia haver no mundo um ser tão poderoso capaz de voar e de incinerar as pessoas somente com a força de seu pensamento. Era poder demais para um único ser... um poder assustador e avassalador demais.

Arian deu um passo em direção aos reis, mas deteve-se quando a voz de Carlisle soou em meio ao silêncio acusatório.

– Arian, eu preciso pedir para que você se detenha... há muitos meios de Aro e Caius pagarem por seus crimes, nem sempre a morte é a solução – Carlisle tinha o semblante sereno e sua voz soava um pouco desesperada, mas mesmo assim o gigante parou olhando com atenção como se estudasse suas intenções.

– És um estranho vampiro, Carlisle Cullen – disse Arian com o cenho franzido – Mas este tempo não é meu, estou fora de minha época e até onde compreendi o mundo tornou-se um pouco mais civilizado, pelo visto os vampiros também – neste ponto o gigante apontou para os reis – Está aqui a decadência do velho modo de governo dos vampiros, estes são os homens que desgraçaram tua família, mataram teus filhos e teus amigos. Este é meu pai, meu criador, que trancafiou-me por quase um milênio e eu lá teria ficado se não fosse por teu próprio filho, Carlisle. Somente a morte é a solução para Aro e Caius.

– A morte nunca é solução para nada, Arian. A morte deles nos trará apenas satisfação pessoal e nada mais, compreendo a sua dor e a sua revolta por ter permanecido tantos anos aprisionado, mas entenda, mesmo Caius e Aro foram enredados por uma trama maior do que eles e perpetrada por Marcus apenas com o intuito da vingança. Mesmo você Arian, foi um peão nos planos de Marcus, que, obviamente, nem sempre saíram como o planejado, mas sempre seguiu seu curso de forma intuitiva e racional. Nós todos, eu e minha família inclusa, fomos joguetes nas mãos de Marcus que ludibriou até mesmo seus aliados em uma sociedade chamada Confraria do Sangue e que tinha como outro mentor ninguém menos que Erestor, o Velho.

– E que motivos teria Marcus, o Terceiro, em querer ver a tragédia dos próprios irmãos?

Silêncio, Arian notou a hesitação de Carlisle, sabia que mais algum golpe viria.

– Aro e Caius conspiraram para a morte de Didyme, irmã de Aro, esposa de Marcus. — foi Edward quem respondeu de forma irascível — Consideraram que ela atrapalhava o julgamento do Terceiro, que estava prestes a deixar Volterra. Os dois tinham que manter Marcus junto deles, era essencial, a tríade do poder tinha de se manter unida. Com a morte de Didyme, Marcus não partiu e sua letargia não incomodou Aro e Caius, afinal, era da presença imponente do irmão que precisavam, do que ele representava, e não de sua felicidade.

Arian voltou-se para o pai que o olhava em silêncio, a face do guerreiro-deus escureceu e quando falou, sua voz soou estranhamente descrente.

– Matas-te tua própria irmã? O que eu poderia então esperar de vós, pai? Aprisionar um filho de criação não deve ter sido tão difícil para um homem capaz de matar a própria irmã de quem tinha laços sanguíneos... laços reais de família. Mesmo agora, tantos séculos depois, ainda surpreende-me com teus segredos macabros.

– Arian – começou Carlisle, mas o gigante ergueu o punho para silenciá-lo.

– Estes são os homens que você quer evitar que morram, Carlisle Cullen. Olhai-os! — a voz de Arian trovoava de raiva – São Senhores da Morte, os Três, quantas vidas foram ceifadas pelo governo deles? Quantos foram atraídos para sua causa peçonhenta? Há sangue demais nas mãos destes dois, Carlisle, sangue demais... que só poderá ser limpo com a morte deles.

Não houve qualquer outra argumentação vinda de Carlisle, nem mesmo ele poderia anular todo o mal que os Três causaram no mundo todo, e daquele grupo reunido ninguém se manifestaria para salvá-los. Mas então, subitamente, Bella deu um passo para longe do marido olhando para Arian com cuidado.

– Você foi libertado – ela falou – Como disse, foi o meu marido que lhe trouxe novamente para o mundo, Arian, através daquela feiticeira chamada Charlotte; se você foi solto eles podem ser aprisionados. Pague sua vingança na mesma moeda, não os destrua... aprisione-os nas catacumbas pelo tempo que achar que lá devem permanecer, mas não os mate.

Ela disse isso olhando para Aro , mas antes mesmo de Arian responder houve um rumor como o ronco de um animal ensandecido, e Caius deu um passo para frente, o rosto lívido de raiva, as feições distorcidas, a boca arreganhada com as presas expostas e perigosas.

– Tolos! Todos tolos se pensam que me submeterei à suas leis, às suas decisões medíocres. Eu não vivi todos estes anos como rei para viver feito um indigente atirado em um poço. Não, não terão o gosto de trancafiarem Caius Volturi.

Em seguida Caius atirou-se contra Arian num ímpeto afoito, irresponsável e louco. Usando de toda sua descomunal velocidade adquirida através do passar dos séculos, Caius atingiu um murro no rosto de Arian, que nada fez além de mover a cabeça do gigante alguns centímetros para o lado. No momento em que o Segundo atirou mais um golpe, Arian segurou-lhe o punho, esmigalhou a mão do rei com sua força e com a mão livre agarrou a garganta de Caius erguendo-o do chão.

Athenodora gritou de terror e já estava dando o primeiro passo em direção ao marido quando sentiu que não podia se mover, uma força invisível a estava mantendo no mesmo lugar, impedindo que realizasse qualquer movimento. Arian olhou para ela com seriedade.

– Dora – disse ele – Nunca tivemos atritos e eu a considerava uma amiga, mal algum será feito a ti, mas teu marido, por outro lado, terá de pagar por tudo. Este é o intuito de minha presença aqui.

Caius debateu-se um pouco, mas a mão de ferro de Arian forçou-o a ficar quieto, o rosto do rei assumia uma expressão de raiva e medo, uma mistura que transformava seu rosto belo em uma máscara descaveirada e feia. Arian aproximou seu rosto do do rei.

– Esta é a retribuição, Caius. Morrerá sem dizer uma última palavra e o mundo esquecer-se-á de teu nome corrupto. E no mundo além deste, quando encontrar a alma de todos os que tiranizou e assassinou ao longo dos milênios, diga-lhes que podem agradecer a Arian Jötunheimr, Filho de Aesir. Que agradeçam a Arian Melchiorre Volturi... filho de Aro.

E num gesto simples, sorrateiro e quase delicado, Arian separou a cabeça de Caius de seu corpo, matando-o instantaneamente. O rosto do Segundo ficou eternizado com a agonia da morte numa expressão de descrença. Com o corpo e a cabeça em suas mãos, Arian virou-se e caminhou até o lado direito do tablado e num impulso leviano atirou para o fogo os restos do rei, o mesmo fogo que Marcus começara e que ainda queimava como uma criatura viva e ansiosa por comida.

O silêncio só foi rompido no momento em que Arian libertou Athenodora de seu poder, ela caiu no chão de joelhos, soluçando descontroladamente. Nenhum dos participantes daqueles episódios extraordinários dizia qualquer coisa, nem os Cullen, nem seus recentes aliados, ninguém parecia realmente acreditar que algum dia veria os reis serem mortos, podiam lutar contra eles, conspirar contra seu reinado, mas provavelmente ninguém concebeu seriamente a ideia de que os Três poderiam ser mortos... de que viveriam num mundo livre do domínio dos Volturi.

Mas era exatamente isso que estava acontecendo, por mais inacreditável que pudesse parecer.

Aos poucos Athenodora se recompôs, colou-se em pé e assumiu uma postura reta de Rainha, olhou para Arian, mas através dele, para o fogo que crepitava sem parar no salão.

– Você fez o que tinha de fazer, guerreiro – disse ela numa voz morta, dura – Agora permita-me fazer o que eu tenho de fazer.

A Rainha iniciou uma caminhada lenta e elegante rumo ao outro lado do salão, rumo ao fogo. Corin que estava ali, estarrecida e encolhida num canto, percebeu o que a sua senhora tencionava fazer e gritou de desespero. Bella, alarmada com a morte de Caius, foi desperta pelo grito da serva de Athenodora e também percebeu o que a Rainha pretendia. Ela deslocou-se rapidamente colocando-se à frente de Athenodora, bloqueando-lhe a passagem.

– Dora – disse Bella assustada – O que pensa que vai fazer?

Athenodora baixou o olhar para ela e a máscara da Rainha desapareceu, havia um ressentimento em seus olhos, mas mesmo assim ela sorriu quando pareceu se lembrar que gostava de Bella.

– Minha doce Bella – disse Athenodora tocando o rosto de Bella com a mão – Aquela que havia sido a escolhida para mudar o coração dos Volturi, e você teria conseguido, teria sim, eu acreditava em você – e aqui a voz dela se tornou um sussurro – Você o teria mudado.

– Não faça isso, por favor – suplicou Bella.

– Você jamais entenderia, mas eu amava Caius. Ele outrora fora meu cavaleiro brilhante, era tão sonhador e bondoso quanto seu Edward, e era assim comigo e apenas comigo. O mundo o mudou, o reinado o mudou porque foi preciso, talvez de todos aqui apenas você compreenda o que eu digo. Mas eu não conseguiria viver sem Caius, você sobreviveu imaginando que seu marido estava morto porque tinha uma filha para cuidar... eu não tenho. Não há ninguém por quem viver. Não mais. Tudo o que eu conhecia foi destruído e é chegada a hora de partir.

– Eu não vou deixar que faça isso – a voz de Bella era firme, a máscara da Rainha havia subido à sua face.

– É minha escolha – e dito isso Athenodora se aproximou beijou-lhe o rosto com carinho, depois sussurrou alguma coisa no ouvido de Bella, algo que deixou a vampira completamente estática, com os olhos arregalados de medo. A Rainha se afastou e sorriu uma última vez – Adeus... Bella, minha última e querida amiga.

E dito isso, Athenodora contornou Bella que permaneceu imóvel olhando para o vazio, e entrou no fogo no mesmo lugar onde Arian havia atirado o corpo de Caius. Houve um gemido de dor e angustia e um aumentar no calor do fogo enquanto consumia o corpo da Rainha... e depois nada. Athenodora, a Rainha Sorridente, havia seguido seu marido para a morte.

O silêncio mais uma vez cobriu a todos, Bella ainda sentia-se horrorizada com as palavras que Athenodora havia lhe dito; com a morte da Rainha, seu estupor só terminou quando a voz de Aro soou de algum lugar no alto do tablado.

– Bem, meu filho, agora é a minha vez.

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Havia uma suspeita tensão antecipativa pairando no ar enquanto Aro caminhava até a ponta do tablado, descia os degraus até o chão e ficava na altura dos olhos de seus inimigos, o rei estava envolto em uma inatingível aura de conformismo como se todas as forças de batalha o tivessem abandonado. Aro era um homem no fim da linha, caminhando pelo corredor da morte consciente de que não havia escapatória, de que não tinha para onde correr e que o fim, finalmente, chegara.

Arian acompanhava os passos do pai de cima do tablado, atento como um gato olha para um rato, cobiçoso, paciente. Mas apesar de tudo, era visto que Aro não pretendia correr ou fugir, o rei havia aceitado seu destino e permaneceria ali até que o filho lhe executasse a sentença. Com um olhar atento o rei varreu os rostos ali presentes que o encaravam, mediu a presença de cada um tentando calcular suas intenções, medir a força de seu caráter.

– Não enganem-se – anunciou Aro – Vocês terão obstáculos inimagináveis pela frente, talvez mesmo intransponíveis. Julgam-nos tiranos a mim e meus irmãos, não é mesmo? Olham-me e veem um homem que conspirou para assassinar a própria irmã e aprisionou o filho em uma masmorra no centro do mundo. Diante de todos aqui eu sou o réu e vocês os juízes... e meu filho o executor, o carrasco. Mas antes de partir eu preciso avisá-los: sua empreitada não será fácil. Pensam que os Volturi surgiram do modo como vocês nos viam, tirânicos, impiedosos... malignos? Fomos moldados às necessidades, lapidados às exigências, esculpidos aos rigores que o mundo nos impôs. Mas minhas palavras, eu sei, encontram ouvidos moucos. Não acreditam em mim, mas vocês verão, entenderão o que eu tento dizer com o mundo do amanhã, o mundo que vocês estão prestes a criar com a nossa queda. Não enganem-se, a vida de vocês não será mais a mesma... vocês serão os responsáveis.

– Oh, eu nunca poderia imaginar que no derradeiro fim te tornarias melodramático, Aro – disse uma voz suave, melodiosa, doce e risonha que soou da entrada do salão.

Todas as cabeças se voltaram e lá, na boca do salão, estavam três lindas vampiras, a da frente, a mais bela, olhava para tudo com um sorriso irônico gracejando-lhe a face, os olhos inteligentes encarando o rei, faiscantes.

Bianca.

No momento em que Bella colocou os olhos nela soube que aquela vampira-menina lhe daria trabalho, algum tipo de trabalho, talvez futuramente. Uma Rainha. E mesmo sabendo muito pouco da história rápida que Edward lhe contou, ela não precisava que alguém lhe dissesse que aquela era Bianca, amante de Arian, ex-esposa de Aro, bastava olhar para Bianca para detectar aquela máscara de arrogante altivez que as Rainhas costumavam sustentar em seus rostos. Mas havia algo mais, algo que Bella apenas pode pressentir, Bianca tinha um ar diferente do de Athenodora, uma postura diversa da de Sulpicia, Bianca parecia mais... uma Imperatriz.

E ladeando-a estavam Alice e Kaori. O coração de Bella sentiu-se subitamente leve ao avistar a irmã e, ao mesmo tempo, um alívio tremendo ao encarar o rosto triste e bonito de Kaori, a vampira que surgira tão imprevisivelmente em suas vidas e que se tornara um membro fundamental dos Cullen.

– Bianca – Aro soou saudoso, um tanto perplexo e levemente perdido – Continua desesperadamente linda.

– Obrigada, meu senhor – respondeu Bianca aproximando-se com seu caminhar flutuante – Faz muito tempo, Aro.

– Minha senhora – Arian retumbou de cima do tablado – Pensei ter pedido que permanecesse longe daqui, não é seguro.

– O Pináculo esta vazio Arian, meu amor, não há mais ninguém aqui ou estão mortos. Os Lordes fugiram, não permaneceram para lutar por seus reis. Está tudo terminado e eu não poderia ficar sem ver o fim.

– Perfeitamente compreensível, Bianca – disse Aro de forma leviana – Você muito provavelmente não perderia o meu fim por nada, mas é bom saber que os séculos não lhe fizeram perder o viço ou a energia de antes.

Alice se colocou ao lado de Jasper e evitou de todas as formas olhar para Matheu, alto e calado, no canto do salão, próximo ao fogo que lançavam chamas vermelhas que se refletiam em sua armadura amassada e suja. Kaori abraçou Nessie, a menina lhe sorriu profundamente feliz por ela estar ali também, viva e bem, apesar de que no rosto mantinha um olhar assustado.

Aro olhou para Carlisle.

– Meu antigo amigo – começou o rei – Você será muito necessário no mundo que virá.

– Você não tem como saber se o mundo que virá se tornará assim tão ruim sem os Volturi, Aro.

– Não me refiro aos Volturi, mas você saberá... em breve, talvez.

Dito isso ele virou-se para Arian e deu um leve aceno de cabeça, o gigante repetiu o gesto, agarrou com força o cabo do machado e desceu do tablado colocando-se ao lado do pai, Aro lançou um olhar triste.

– Eu sinto muito Arian... por tudo.

– Você tornou-se bastante sentimental, Aro – retorquiu o guerreiro olhando-o com atenção.

– Talvez seja isso que os anos que se passam façam conosco – riu Aro – Ou o fim, inevitavelmente, nos transformem no que éramos antes de todas as nossas máculas – o rei olhou para Bianca – Minha senhora, cuide bem do meu filho.

– É o que sempre planejei fazer, meu senhor – Bianca fez uma meia reverência, mas sua voz não continha traço algum de arrependimento, estava totalmente inflexível – Não imaginei que se entregaria tão facilmente.

– Um homem deve aceitar o seu fim com a cabeça erguida, afinal, um rei, por pior que seja, deve morrer como rei.

Não houve qualquer comentário, nem poderia haver, depois da declaração de Carlisle tentando conter a fúria de Arian nenhum outro vampiro presente tentou esboçar qualquer apoio ao rei. Aro não teria qualquer simpatizante e Carlisle não mais se pronunciou depois de ter percebido que sua voz seria silenciada pelo consenso da maioria, seus filhos e seus aliados queriam a morte e a morte encontraram na figura vingativa do guerreiro-deus Arian.

Num gesto muito significativo, Aro ajoelhou-se perante os olhares cheios de expectativa de seus algozes, mas não havia desafio em seu olhar, apenas um suave descaso, como se Aro quisesse lhes dizer que sabia o que todos enfrentariam e que sentia pena deles, o olhar do rei transmitia uma mensagem: seus tolos, não sabem o que fizeram, eu é que tenho sorte de estar partindo deste mundo e vocês são azarados por ficarem vivos nele.

O movimento de Arian posicionando-se ao lado do pai com o machado na mão foi acompanhado com tensão, o gigante olhou para o rei medindo sua raiva e seu ressentimento, ali estava o ser que lhe tornara imortal. Por maiores que fossem os pecados de Aro, talvez Arian tenha sido o presente mais perigoso que o rei deixara para o mundo.

– Diziam na minha terra que um homem colhe o que planta, Aro – disse Arian erguendo o machado – Assim como há um sábio ditado afirmando que aquele que semeia vento acaba por colher tempestades. Vocês três semearam muitos ventos... meu pai.

– E acabamos por colher uma tormenta, meu filho – respondeu Aro.

– Exato.

Aro baixou a cabeça, houve um movimento involuntário enquanto ele virou-se para procurar por Bella, mas o rei pareceu tomar o controle de seus sentimentos e impediu-se de olhar para ela, seus olhos giraram até o ponto limite para não focalizá-la e depois se fecharam a fim de evitar o contato.

Bella sentiu-se subitamente sem ar, como se um peso desproporcional tivesse pousado sobre seu peito, algo como uma agonia recém instalada que tornava quase impossível que ela se movesse. Ali estava Aro e ele estava prestes a ser destruído, até onde Bella sabia isso era inevitável, o rei causara muito mal no mundo e desgraçara a sua família, mas ela também tinha consciência de algo que era uma sombra de um segredo: intimamente Bella não queria que Aro morresse. Por sentimentos que nem mesmo ela gostaria de admitir a si mesma.

– NÃO! – ela ouviu de repente sua própria voz gritar sabendo que não havia conseguido disfarçar o desespero. Subitamente, assim como no grito inconsciente, Bella correu até onde Aro estava ajoelhado, evitou com todas as suas forças olhar para Edward e ao chegar junto ao rei, ajoelhou-se na frente dele e seu rosto estava coberto de medo – Aro, você não precisa morrer.

Aro olhou-a surpreso e uma transformação operou-se nele instantaneamente, uma mudança que Bella já estava acostumada a ver e que acontecia somente para ela; a máscara do rei escorreu do rosto de Aro e um momento depois estava ali aquele homem antigo de rosto jovem e elegante por quem Bella, contra todas as chances, aprendera a gostar. Ali na frente dela estava o vampiro que não era o rei, apenas um homem com sonhos e tristezas, com amores e arrependimentos, alguém que Bella conseguia ver como muito melhor do que parecia.

– Eu não serei capaz de passar a eternidade aprisionado, Isabella – disse Aro lhe sorrindo com condescendência – E suspeito que naturalmente nenhum dos presentes neste salão me permitiram viver em liberdade feito um ermitão como Erestor.

– Você não é mal, Aro – Bella disse numa voz um pouco falha, ela buscava as palavras sem saber ao certo como expressar o que sentia – Eu sei disso. Sei que há bondade em você, sei que você tem a capacidade de se tornar melhor do que é, de ser um rei que inspirara todos os vampiros e não apenas um tirano. Talvez você tenha se desviado do caminho por um tempo... mas eu acredito sinceramente que você pode mudar, que pode ser um homem bom.

As palavras de Bella ecoaram ao redor deles e uma expressão de gratidão se pronunciou no rosto de Aro, dentre todos, ela era a única que acreditava nele... e justamente por isso ele a amou, apenas por isso decidiu mudar quem era para poder merecer Isabella.

A bem da verdade, no futuro, muitos escribas vampiros que se dedicam a contar a história da nação vampiresca afirmarão que Aro aceitou sua derrota no momento em que soube que Volterra caíra e que Arian estava liberto, afinal, quem poderia se opor a um vampiro-deus cujo poder era suficiente para dizimar exércitos inteiros? Outros historiadores diriam que Aro se rendeu quando toda a sua guarda fora desbaratada, seus Lordes evadidos e seus irmãos destruídos. Mas a verdade única e pura, a verdade cristalina que poucos historiadores evocaram era, por sinal, a única verdade: Aro Volturi aceitou sua derrota no momento em que Edward Cullen surgiu no ar impedindo sua união com Isabella e solapando qualquer oportunidade de tê-la para os anos vindouros.

– Mesmo tendo conspirado para o assassinato de minha irmã e tendo aprisionado meu filho por todas estes anos você ainda crê que tenho um bom coração? – perguntou Aro.

– Você é mais culpado pela morte de Didyme do que qualquer um – disse Bella – Mas depois disso também caiu na rede de planos de Marcus, talvez algumas de suas ações mais sombrias não tivessem sido necessárias se Marcus não estivesse constantemente buscando vingança... apesar de justificada.

– Sou culpado de muitas coisas, Isabella, talvez eu tivesse a chance de futuramente me tornar novamente um bom homem... mas este futuro não existe mais. Este é o fim.

– Aro... eu... você precisa... – gaguejou Bella, mas Aro delicadamente lhe tomou a mão e lhe sorriu. Um sorriso daqueles que tentava dizer que estava tudo bem.

– Eu sei – ele falou, sua voz assumindo um tom de despedida – Eu sei. Vá, Isabella, não há mais nada a que se fazer.

Como que para aproveitar a deixa, Edward moveu-se e pegou gentilmente Bella pelos braços erguendo-a do chão, ele não estava com uma cara muito boa, provavelmente surpreso pela esposa ter tentado impedir a execução de Aro, mas Edward sabia que muita coisa havia acontecido em dois anos e que ele demorara muito a chegar. Nessie também olhou para a mãe como quem não conseguia compreender a atitude e o único que apoiou silenciosamente a tentativa de Bella fora Carlisle.

– Isabella – chamou Aro – Tudo o que eu lhe disse naquela noite era verdade... cada palavra.

Bella sentiu-se novamente sem ar, as palavras do rei ecoando em sua mente como uma maré vazante: Eu não me importo se os céus são contra, se não tenho o direito. Entendo que todos podem ser contra o fato de eu amá-la, mas é isso o que sinto e não há nada que possa fazer para deixar de sentir o que sinto. Tenho consciência de que desejá-la é o mesmo que um demônio desejar um anjo dos céus, mas não vejo saída para mim... estou condenado. Sou rei e homem. Mas ambos pertencem a você. Eu não vou desistir de você. Se for preciso cem anos ou mil... vou continuar tentando. Você é a luz que busquei por tanto tempo, a minha chance de me redimir por todo o mal que espalhei pelo mundo tentando fazer o certo. Eu tenho tanto a aprender agora, pois você tinha razão... eu não era capaz de amar, não desta forma, não verdadeiramente, não até agora. Então eu lhe peço perdão, perdão por ser quem eu sou, mas tudo o que você vê aqui será seu... com falhas ou possíveis qualidades; eu não me escondo de você. Você vê o que sou. E eu sou isso... e amo você assim mesmo.

E naquele momento Bella compreendeu que sabia o quão escura havia sido a alma de Aro, assim como sabia que ele poderia se tornar algo melhor, mas descobriu que o havia aceitado como ele era, com todos os seus erros e segredos havia permitido que Aro se aproximasse. Era demais para o coração de uma única mulher ser atraída em uma mesma história pelo mocinho e pelo bandido... Bella sentia-se completamente perdida e com medo do que a morte de Aro representaria, afinal, ela havia compreendido o ponto de vista Volturi. De uma forma ou de outra, bem ou mal, Bella sabia o quanto os Volturi haviam feito pelo mundo e que sua queda geraria um desequilíbrio imenso cujas ondas de impacto reverberariam muito mais longe do que qualquer um deles poderia controlar.

– Chegou a hora – anunciou Arian, sua voz de trovão sobressaltando a todos – Aro, meu pai, eu sou a vossa Ruína como é sabido desde o dia em que me agraciou com a vida eterna. Ao contrário de Isabella, eu sou incapaz de crer que te tornarias um homem melhor, e mesmo que assim fosse, os teus pecados regressos são demasiados para que a justiça seja esquecida. Mas em respeito à época em que fomos amigos permitirei que anuncie tuas últimas palavras no mundo dos vivos.

– Então minhas últimas palavras serão um pedido, meu filho – disse Aro encarando Arian com seriedade – Um pedido não para mim, mas para o mundo que permanece depois de mim. Arian, meu amigo e meu filho, você é o único que conhece a passagem para lá, então vá ao Cofre dos Segredos e leia o Livro Vermelho... o Livro dos Mistérios.

– Mais um segredo debaixo de segredos – retorquiu Arian insatisfeito – Você quer me legar o Livro que apenas você teve acesso, Aro... para quê? Para que minha mente seja atormentada como a sua sobre coisas que podem nem vir a ocorrer? Sobre supostas profecias que existem e que falam do fim do mundo? Por que eu haveria de ler este precioso Livro Vermelho que você mantém a salvo e seguro há tantos séculos?

– Dê-me o benefício da dúvida, Arian. Considere isso o meu último pedido. Se você quiser crer ou não no que está escrito lá, fica a seu critério. Mas acredite quando lhe digo que os segredos do Livro Vermelho de Nínive... irão mudar a forma como você vê o mundo.

– Que assim seja – disse Arian com o machado no alto – Adeus, Aro.

O machado desceu e o tempo desacelerou.

Todos os vampiros presentes assistiram hipnotizadas a lâmina do machado cortar o ar, brilhante e letal, através da luz tardia de um sol rubro, numa trajetória descendente e graciosa rumando inexoravelmente para a garganta do rei. Um pouco antes da arma de Arian atingir Aro, o rei olhou para Bella com seu rosto meditativo e desprovido de temor, ele moveu os lábios e apesar de que qualquer som os deixou, Bella foi capaz de compreender as palavras sopradas para ela através do movimento da boca do rei.

Poeira e vento, disse-lhe Aro.

E o machado caiu separando a cabeça do rei do resto de seu corpo e antes mesmo que qualquer um pudesse perceber, antes que pudessem se mover, Arian, num último gesto piedoso, coletou o corpo de Aro e seu crânio atirando-os no fogo que também deu cabo dos irmãos. As chamas gulosas cintilaram vermelhas e alaranjadas com o novo alimento e tudo então tornou-se silencioso feito um túmulo.

Assim partira Aro Volturi, o Grande Rei, Senhor dos Vampiros.

O crepúsculo cobria o mundo aos poucos findando aquele dia de guerras e mortes, um vento soprou pela parede aberta lançando um golpe de ar fresco que pareceu despertar a todos no salão como se um sonho estranho tivesse passado. O fogo pareceu ganhar novo ímpeto e estava ávido para devorar o que restava do salão dos reis, agora silencioso já que rei algum restava.

E com o findar da tarde uma nova era chegava, sorrateira como as sombras da noite e repleta de incertezas, uma era em que os vampiros não tinham governantes, ninguém para lhes punir os excessos, deter suas transgressões. Não tardaria para que a notícia se espalhasse feito o fogo em uma floresta de arvores mortas: os Três haviam caído. Volterra estava em ruínas.

Como o mundo sobrenatural reagiria a tal notícia?

– Muito bem – disse Carlisle fazendo todos se sobressaltarem – O que fazemos agora?

– Vamos para casa – disse Bianca aproximando-se de Arian, abraçando-o.

– Sim – respondeu Arian – Voltemos para Volterra por hora, temos que celebrar antes de decidir o que se fará de agora em diante.

– Esta é a questão primordial, Arian – disse Carlisle – O que faremos agora?

– Seja o que for, Carlisle, não o faremos aqui nesta tumba. O que era para terminar... terminou. Nossa jornada, a jornada de todos chegou ao fim. É hora de descansarmos.

Renesmee atirou-se nos braços de Jacob e os dois beijaram-se apaixonadamente. O último rastro de luz iluminou o salão avivando as cores do fogo, a jornada sombria dos Viajantes havia terminado depois de dois anos de uma estranha empreitada. Depois de sangue e morte havia uma esperança brotando no coração de todos à medida que respiravam aliviados.

Os Três estavam mortos.

Mas Carlisle ainda estava em dúvida com essa vitória, afinal, será que eles próprios não estariam agora semeando o vento? E se sim, não teriam que, inevitavelmente, colher suas próprias tempestades?