Candor Lunar - Livro 2

36 Capítulo 35 - A Queda de Volterra


Notas iniciais
Olá.

Coisas novas estão acontecendo e finalmente o destino da fic está se formando.

Aproveitando, meus agradecimentos atrasados à Jessica Joseph Jackson que recomendou a fic e me fez rir muito com o Ruan... huahuahua.

Boa leitura
Ang.

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Os corredores ecoavam com passos apressados, havia quadros caídos pelo chão, vasos raros e antigos destruídos, espelhos partidos, lustres espatifados e tapeçarias tortas, aparadores tinham tombado e vasos de flores tinham se espalhado pelo chão. Quando atingiram o hall de entrada, as belas e lustrosas colunas de mármore negro receberam-nos com rachaduras, e o chão também havia se movido revelando leves fendas no mármore rosado e polido. O grupo precipitou-se pelas escadarias rumo ao Salão dos Tronos, por ali também havia destruição, grandes e pesados blocos de pedra haviam se desprendido do teto e das arcadas, tochas tinham se soltado das arandelas e as portas duplas e pesadas do salão tinham se soltado das dobradiças pendendo tortas e vencidas.

Nenhum guarda as precedia.

– Eles não podem entrar aqui? — perguntou Garret, Alice anuiu.

– Guardas do palácio não tem permissão, mas levando em conta que trata-se de uma invasão e que os Três aqui não estão, bem, não posso garantir completamente.

Por precaução, o grupo recuou até o lado esquerdo do salão onde o teto era mais baixo formando uma espécie de sala sem paredes, ali seria um bom lugar para formar um posto de defesa, Jacob ficou na frente esperando, a voz dos guardas que os seguiam ecoava pelo corredor informando-os que não estavam tão longe.

Súbito houve um segundo tremor, não tão poderoso quanto o primeiro, mas forte o suficiente para que o chão voltasse a balançar. Por um segundo as vozes ecoantes deixaram de soar e um silêncio grudento aderiu ao recinto tornando tudo mais tenso, Carlisle encarou por um instante os três tronos vazios imaginando o quão absurdo se transformara sua empreitada, estavam no coração de Volterra, no Salão dos Tronos, encurralados.

Mas, antes que qualquer ideia surgisse no meio do grupo, Jacob Black sentiu uma conhecida consciência esbarrando na sua, uma consciência que até então estava distante dele... submersa num lugar tão profundo e encantado que simplesmente não podia ser ouvida. Mas agora havia retornado, deixando o poderoso lobo surpreso.

“Seth” — chamou Jacob — “Está tudo bem?”

“Jake” — a voz de Seth soou levemente nervosa — “Onde diabo você está?”

“Nos andares inferiores do palácio principal, no Salão dos Tronos onde aqueles três doidos ficam sentados... o que aconteceu? Você sentiu o tremor?”

“Sim, na verdade estou acompanhando o motivo do tremor... Jacob, Edward libertou Arian”.

“Entendido” — respondeu Jacob — “Vamos ficar aqui tentando permanecer vivos até vocês chegarem”.

“Não vai demorar muito” — tornou Seth numa voz estranha, Jacob percebeu que o amigo havia notado sua falta de surpresa a respeito da libertação de Arian.

Apesar de a telepatia dos lobos estar funcionando, aparentemente o dom de Kaori que os interconectava ainda permanecia fora do alcance, sem meios de se comunicar com seus companheiros, Jacob não teve escolha a não ser retornar à forma humana... chegou o momento de contar aos outros o que Edward havia feito.

– Escutem – disse ele se virando para os outros sem se importar com sua nudez – Edward libertou Arian, o filho de Aro. Foi ele quem causou o tremor e estão na superfície já... parece que a maré está virando.

– Então era por isso que ele estava tão estranho – disse Jasper – Tinha em mente queimar tudo.

– Ele não deveria ter feito isso – Vrau Urban parecia realmente perturbado – Arian não estava na equação, sua presença pode afetar tudo e de um modo bastante prejudicial... nós não temos poder suficiente para lidar com ele.

– Se Seth está vivo significa que ele não deve ser tão mal – contrapôs Jacob.

– Quem é Arian? — quis saber Alice, perdida.

– O que não deveria ser libertado – Carlisle respondeu – O filho de Aro que estava aprisionado a quase mil anos, o vampiro mais poderoso que existe.

– Está feito e ponto final – falou Garret fazendo um sinal para a porta – Temos que nos preocupar conosco agora.

Som de passos em debandada os alcançou, Jacob tornou à forma de lobo enquanto os ecos e gritos se aproximavam numa crescente tal qual uma tempestade, não era um grupo pequeno e provavelmente não tinha a pretensão de parar às portas do Salão mesmo com a restrição dos Reis. O som foi aproximando-se, estalando como um chicote nas paredes de pedra do corredor, o grupo preparou-se para se defender e Jasper empurrou Alice para trás a fim de protegê-la. De repente uma luz fulgurou como uma explosão e o corredor clareou como se um incêndio estivesse correndo de encontro a eles.

E neste momento Didi irrompeu pelo salão gritando a plenos pulmões feito um doido desvairado.

– ELES TEM UM LANÇA-CHAMAS, ELES TEM UM LANÇA-CHAMAS – descabelou-se o anão – PELOS DEMÔNIOS DO INFERNO, SEUS FILHOS DE UMA PUTA... ME AJUDEM.

Por alguns momentos ninguém foi capaz de se mover, a repentina aparição do anão deixou a todos perplexos até que, finalmente, sete vampiros surgiram na boca do salão e o que corria a frente vinha carregando um lança-chamas que cuspia um fogo rubro em jatos de luz incandescente, parecia que as chamas eram líquidas e se aderiam mesmo à rocha bruta do salão. As portas imediatamente incendiaram-se e parecia que o vampiro não se importava se os próprios tronos dos reis se incendiariam.

Garret moveu-se em sincronia com Jasper seguido de perto por Jacob, Carlisle agarrou na mesa comprida que se estendia pelo salão, ergueu-a e atirou-a contra o vampiro com o lança-chamas, no momento em que o guarda direcionou o jorro para o móvel Jasper e Garret destruíram-no com um golpe combinado. Os outros seis avançaram para eles e Jacob pulou sobre os dois primeiros para lhes deter o avanço, Vrau Urban arremeteu sobre o terceiro, mas o vampiro era mais forte que ele e atirou-o contra os degraus de rocha do salão. Alice correu para lhe golpear, mas antes mesmo que chegasse perto o guarda foi banhado pelo fogo, Jasper havia envergado o lança-chamas e disparou-o contra seus atacantes envolvendo a todos num mar de calor.

O fogo ficou ali por um tempo, mas a rocha fria não podia ser consumida e as chamas passaram lentamente a desvanecer-se, a mesa incendiada foi atirada pelo corredor e Jasper atiçou o fogo nas portar para afugentar outros possíveis atacantes.

– De onde eles tiraram este lança-chamas? — perguntou Garret.

– E eu vou saber, diabos? — cuspiu o desbocado anão cujos cabelos estavam levemente chamuscados – Eles tem um arsenal em algum lugar desta merda de castelo, um lança-chamas é muito bom para torrar vampiros, como vocês deram muito trabalho... bem, eles tiveram de apelar.

– Por onde você andou, Didi? — quis saber Vrau Urban.

– Eu não conheço esta merda como você, tá legal? Me perdi em algum lugar daquela porcaria de ala norte, só tem museus e galerias para lá, depois que o tumulto começou resolvi descer e ver se vocês já estavam todos mortos.

– Você estava se escondendo em algum lugar, isso sim – Garret ralhou.

– O teu cu que estava seu palerma – tornou o anão com violência.

– Basta – falou Carlisle – Didi, quantos guardas estão lá fora?

– Estes foram os que correram atrás de mim, se quer saber estavam tão assustados quanto eu... guardas, você pergunta? Não há mais guarda algum... há uma guerra lá fora, pura destruição e um gigante com um machado na mão matando todo mundo.



Restava cento e quarenta guardas aptos a defender Volterra, este grupo estava reunido no pátio principal em frente a entrada do Palácio principal procurando uma alternativa para perseguir os intrusos. Ao redor deles jaziam mortos mais da metade de sua força, pedaços de companheiros espalhavam-se pelo chão, vampiros feridos acumulavam-se por ali tentando recuperar-se e o castelo acabara de sofrer um abalo que nem um deles era capaz de explicar.

– E agora? – perguntou o que estava mais atrás.

– Desceram para o Salão dos Tronos – respondeu o da frente e que espreitava o hall de entrada do palácio – Devem imaginar que não os seguiremos uma vez que não temos acesso ao Salão sem a permissão dos Reis.

– Temos de ir pegá-los – comentou um terceiro.

– É? — casquinou o da frente – E como faremos isso? Aquele maldito meche com os humores da gente, se chegarmos perto ele nos arranca a cabeça, sem contar aquele lobo gigante... se descermos lá, morremos.

– E o que acha que os Três farão conosco depois que souberem que um bando de intrusos invadiu as muralhas, se enfiou nas prisões, libertaram a prisioneira e depois se sentaram nos tronos deles?

– Sem contar que o terremoto quase partiu o castelo ao meio, olhe só, está tudo uma baderna.

– A ideia de arrancar o calçamento foi sua, Ewan – reinou o que estava para trás – E para terminar a bagunça o tremor deve ter acabado com todas as vidraças deste lugar, se as cúpulas com as pinturas de Marcus sofreram qualquer dano...

– Ficar imaginando merda não vai nos ajudar – disse o que estava na frente, deu uma olhada mais longa para o hall de entrada – Realmente, eles se enfiaram no Salão dos Tronos. Se chegarmos perto estamos mortos, temos que arrumar um jeito de atacá-los a distância.

– Tem umas armas lá no arsenal – disse aquele que chamava-se Ewan – Quem sabe encontremos alguma coisa de útil lá.

Alguns guardas assentiram sobre a ideia, raramente vampiros usavam armas, mas isso não impedia de haver algumas no arsenal de Volterra, geralmente relíquias que os Três guardavam quase como artigo de decoração. Mas antes de qualquer um deles resolver ir dar uma olhada nas armas, um vampiro surgiu correndo e parou derrapando perto deles.

– Estamos ferrados – anúncio o recém-chegado.

– Halec, o que descobriu? — perguntou o Ewan.

– Não podemos sair, um deles deve ser feiticeiro ou qualquer coisa parecida, cheguei até os portões, mas deles não passei... há alguma coisa invisível lá que não permite que saiamos, uma barreira.

– Em todo o lugar?

– Estive nos quatro portões, trepei na muralha... sem chance. Estamos presos aqui dentro.

– Merda – soou o que estava na frente.

– Você acha que eles também estão presos aqui? — perguntou Ewan.

– Eles tem um feiticeiro seu idiota – rugiu Halec — Podem sair a hora que quiserem, o que pretende fazer, Goto?

Goto era o da frente, parecia ser uma espécie de líder ou o mais perto disso, seja lá o que fosse os outros guardas estavam seguindo o que ele lhes dizia, talvez por que parecia mais simples sentar e esperar os reis voltarem do que serem todos mortos por um lobo gigante. Goto olhou-os franzindo o sobrolho.

– Halec, pegue mais uns cinco ou seis e vá até o arsenal, veja se tem alguma coisa lá que sirva para acertar os pulhas à distância. Se não me engano havia alguns lança-chamas velhos, talvez um ou dois ainda funcionem, assim poderíamos assá-los sem ter de nos aproximar.

Halec saiu correndo rumo ao arsenal e pelo caminho colheu alguns companheiros para segui-lo, o resto dos guardas permaneceu ali amaldiçoando o seu azar por ter de enfrentar intrusos justamente quando os Reis não estavam ali. E eles sabiam que independentemente de matarem os intrusos, todos seriam punidos pelo estrago que o castelo recebera... e principalmente pelas prisões terem sido violadas.

Goto tornou a olhar para dentro do hall de entrada, viu os quadros caídos e as colunas de mármores, com seus veios dourados, rachadas e soltou um leve assovio, realmente os Três ficariam furiosos, atrás de si os guardas estavam amontoados num grupo compacto como se temesse que algum invasor saísse de algum lugar e lhes arrancasse a cabeça... “bando de imbecis” pensou Goto.

Mas o medo deles não era tão imbecil quanto lhe parecia.

Foi então que mais um abalo se seguiu, não tão forte quanto o primeiro, mas o suficiente para fazer o chão tremer, e no fundo do pátio, onde ficava a entrada para as catacumbas, a parede explodiu, o portal ruiu e pedras do tamanho de mesas de escritório voaram para todos os lados, uma fumaça de ruínas levantou-se e os guardas deram um pulo de susto.

Das ruínas e do meio da fuligem do entulho surgiu uma sombra, uma sombra que foi crescendo e agigantando-se a cada passo dado, um som de metal raspando em metal pontuava suas passadas e quando a fumaça se foi um gigante surgiu no pátio olhando-os. Um homem grande forrado de aço e segurando nas mãos um machado igualmente grande de lâmina dupla, o vampiro tinha uma barba dourada e olhos vermelhos e sanguinolentos, o problema era que aqueles olhos eram olhos de um demônio. Goto encarou aquele homem, olhou em seus olhos e soube que estava morto.

Estavam todos mortos, seja lá quem fosse aquele vampiro... seria demais para ele.

E foi aí que o gigante sorriu e arremeteu contra eles.



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Seth corria e corria.

O coração do lobo parecia preste a explodir no peito, sentia a pequena e frágil Giuliana agarrando-se ao seu pelo com força enquanto o mundo desabava sobre os dois. Atrás de si ouvia os passos desesperados de Edward, Kaori e Charlotte, mas nem ao menos pensou em olhar para trás... não havia tempo, se olhasse estava perdido.

Arian havia desaparecido à sua frente, movia-se como um vento de ódio, muito mais veloz que qualquer outro vampiro, muito mais veloz que qualquer lobo de La Push e até mais do que Jacob. Descemos muito fundo pensou Seth com amargor, e agora aquele claustrofóbico túnel desabava sobre eles enchendo tudo com uma maldita nuvem de poeira e entulho, o lobo amaldiçoou a ideia de Edward. Não gostou de Arian assim que o viu, seres poderosos tendem a ser egoístas e era isso que para ele Arian representava... um egoísta. Deu aquela demonstração de poder abalando as estruturas de Volterra e agora ali estava ele, correndo feito um condenado nas entranhas do mundo para evitar de ser soterrado.

Deveria ter me mudado para Nova York quando tive a chance, pensou arrependido.

Há alguns anos Carlisle havia lhe oferecido para ir estudar em uma cidade grande, viver um pouco fora da sombra de La Push, conhecer outras pessoas, estudar numa faculdade conceituada... conhecer algumas garotas universitárias. Mas Seth havia apenas agradecido dando a desculpa de que como jamais envelheceria ou morreria poderia deixar estas coisas para dali há alguns anos. Resolveu ficar em La Push junto da família e dos amigos... apenas para ver a irmã morrer.

Seth corria e corria.

Subia os degraus a passadas de lobo, mas tudo ali era igual, centenas de milhares de degraus de pedra fria e rocha, o túnel desabando sobre ele e sobre a menina. E se não houvesse mais tempo? Ele morreria sufocado ali no destroços de um túnel escuro, soterrado sob o peso do mundo, numa escuridão que jamais cessaria. Suas pernas possantes aumentaram o ritmo, uma pedra acertou-o do rosto e ele sentiu a mandíbula amortecer, não tem problema, pensou, o fator de cura dá conta de consertar isso. E continuou correndo, respirando aos arroubos, a fuligem espetando-lhe os olhos, as pedras desabando ao seu redor, e os degraus tornando-se cada vez mais infinitos.

Tudo era breu, seus olhos sobrenaturais lhe permitiam ver um pouco na escuridão total, porém, ainda assim, era o mesmo que estar tateando às cegas por um quarto apenas com a luz tênue de uma vela. Seth atirava-se cada vez mais rápido, cada vez mais desesperado tentando com todas as suas forças salvar a menina mortal que agarrava-se à suas costas... proteger a integridade da vida humana disse Seth a si próprio, é para isso que os lobos de La Push existem, eu tenho que salvar esta menina a qualquer custo. Três vezes maldito seja o Jasper por tê-la metido nisso tudo.

Continuava a correr, quando outro fragmento pesado atingiu-lhe entre as espáduas ele se curvou, sentiu Giuliana quase se soltar, mas forçou o corpo a reagir e mesmo queimando toda as suas energias continuou subindo. Sua correria desabalada ascendia-o para a superfície que parecia nunca chegar, uma chuva de rocha caia sobre ele, mas ele não parou nem por um momento.

Até que finalmente alcançou a Terceira Profundidade com um salto para a liberdade... ele recebeu com alívio o ar vazio do salão, mas mesmo ali o teto estava fendendo-se e a rocha caia derrubando tudo ao seu redor, talvez com sorte aquele salão conseguisse se manter e o vampiro ali aprisionado não ficasse para sempre selado. Seth pousou derrapando pelo chão e já se preparava para subir à Segunda Profundidade quando notou que ninguém o seguia.

“Onde vocês estão”? — chamou com a mente buscando pelo elo mental de Kaori, mas o silencio que se seguiu causou-lhe um arrepio percorrendo a espinha. Olhou pelo túnel de onde vinha, pedras e terra ainda desabavam, mas não tinha outra escolha.

Metamorfoseou-se novamente à forma humana.

Pegou Giuliana e colocou-a sobre o portal que conduziria à Segunda Profundidade, depois obrigou a menina a olhá-los nos olhos, o corpo dela todo tremia de medo.

– Giuliana, ouça com atenção – Suba pelo túnel até chegar ao andar de cima, acho que lá as coisas estão mais tranquilas, não me espere, apenas vá... você me entendeu?

– Sim, senhor – respondeu a menina – Você acha que eles...?

– Não, agora vá... rápido.

Giuliana pôs-se em pé, ilhada na jaqueta de Kaori e começou a lentamente subir pelo túnel. Seth voltou à forma do lobo e atirou-se pelo túnel que desabava, desceu e desceu uma centenas de degraus até que chocou-se contra uma parede de destroços... e o desespero ameaçou embargá-lo.

Haviam sido soterrados... Charlotte, Kaori e Edward.

Haveria o peso das rochas podido matá-los? Será que todas aquelas toneladas seriam capazes de romper aquela pele indestrutível que tinham? Seth não parou para pensar, com o mundo ruindo ao seu redor atirou-se ao trabalho de escavar os escombros, suas garras afiadas cortavam a rocha feito papel, mas seu avanço era lento e ele sozinho não conseguiria ir tão longe. Estariam muito distantes dele? A que altura do túnel havia ficado soterrados e por que não saíram de lá sozinhos já que tinham suas forças de vampiro? Mas a pergunta era tola, era muita destruição até mesmo para que os vampiros a vencessem.

Mas se estivessem vivos, por que Kaori não lhe respondera com seu dom?

“Kaori” — gritou Seth em sua mente, mas o silêncio o respondeu com ironia.

Continuou escavando, enquanto terra caía-lhe por cima e rochas se soltavam às suas costas, um fragmento grande o atingiu no dorso, mas ele não se deu ao trabalho de reparar no ferimento e continuou escavando sem parar, mesmo com suas forças se exaurindo ele prosseguiu, e prosseguiria até encontrar Charlotte... ou morreria tentando.

“Kaori” — gritou novamente no silencio de sua mente.

Pedras caiam, desabando ao seu redor, um odor mofado de terra úmida lhe atingiu o nariz, pedras grandes eram fatiadas e um entulho em forma de brita se formava atrás de si quando removia o que estava na frente, o ritmo frenético não podia diminuir, imaginou se Giuliana iria conseguir chegar a tempo à Segunda Profundidade, se Alice já estava com Jasper e se sobraria alguma coisa do castelo quando ele finalmente deixasse aquele maldito lugar claustrofóbico.

“KAORI” — gritou desesperado e com ainda mais força, mas milagrosamente, desta vez, conseguiu uma resposta.

“Seth” — respondeu a voz de Kaori, parecia distante e assustada.

“Onde você está? Onde estão? Está tudo bem?”

“O túnel desabou sobre nós, Edward foi o único que conseguiu permanecer desperto, ele escavou à nossa volta até voltarmos à consciência, mas é tudo apertado e muito pesado... e sufocante. Não sei como conseguiremos sair, estamos cavando, mas nem sei a que altura”.

“Faça o mais rápido possível, eu estou indo até vocês” — disse Seth com urgência.

Continuou cravando as garras nas rochas, revirando o entulho, cortando a terra, ao mesmo tempo em que o próprio túnel colapsava-se sobre ele Quantos metros havia cavado, cem, duzentos... um quilômetro? Não sabia, sua consciência estava longe dele próprio, a única coisa que havia ali naquele túnel que desabava, no meio de rochas caindo e terra afogando-o, era a ação de escavar.

Mas foi então que...

“Seth” — soou a voz de Kaori — “Estou te ouvindo, estou te ouvindo...”

E foi como se Seth atravessasse uma parede oca, ele encontrou um bolsão de ar onde Edward, Charlotte e Kaori haviam escavado os entulhos ao redor de si mesmos. O aspectos deles era horrível. Estavam todos feridos, a pele rachada como quando uma casca de ovo descama e quebra-se, Kaori tinha o braço num ângulo ruim de se ver e Edward tinha uma grande nódoa no lugar do nariz, Charlotte também parecia mal... os três estava cobertos de pó e tão sujos quanto se poderia imaginar, mas estavam vivos.

Graças a um lobo que voltara para buscá-los.

Seth Clearwater.

Amigo.

Guerreiro.

Herói.

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Chegaram à superfície para encararem um céu estralado e limpo que, por si só, foi suficiente para lhes tirar toda aquela sensação de opressão que lhes empurrava o peito para dentro, o ar puro gorgolejou por seus pulmões e mesmo os vampiros cuja respiração era irrelevante, alegraram-se por sentir a aquela substância aérea e insípida tomar-lhes o corpo.

Edward agarrara Giuliana no meio do caminho para a Primeira Profundidade, a menina estava tão suja quanto eles e tremia, mas no geral acolheu com naturalidade os braços do vampiro e seus olhos assumiram uma vez mais aquele aspecto sonhador e distante. Nem por um momento deu indícios de que queria fugir dali e toda aquela loucura... e de fato era uma loucura.

Arian havia demolido o pórtico de acesso às Catacumbas – assim como boa parte do chão – E agora se via frente a frente com mais de cem guardas do palácio, mas o sorriso em seus lábios, Edward notou, não indicava que o poderoso vampiro nutria qualquer preocupação contra o desafio que se lhe apresentava.

– Arian – chamou Edward – São os guardas do palácio.

– Cuidarei deles – ribombou Arian com sua voz de trovão – Ficai para trás, Edward Cullen, e protege minha Rainha.

– São muitos mesmo para você – replicou Edward quando o gigante deu o primeiro passo rumo à multidão que se aglomerava à sua frente, mas quem lhe respondeu foi Bianca.

– És um tolo, Edward Cullen.

Os guardas fungaram em desaprovação diante de mais esta surpresa em sua noite já conturbada, três correram contra Arian... sem saber que estariam decididamente condenando a si próprios. Não se lutava contra um deus com a certeza de sobreviver. O gigante ergueu o machado que transformou-se num borrão metálico contra o ar, rápido demais pensou Edward, os dois guardas da frente não tiveram talvez nem tempo de pensar em desviar, a lâmina brutal cortou o primeiro do ombro à virilha e o segundo da virilha ao ombro quando Arian ceifou-o aproveitando o movimento ascendente da arma.

O terceiro vampiro saltou sobre ele arreganhando os dentes, mas Arian limitou-se a agarrá-lo pela garganta com um punho imenso e poderoso, um movimento de seu braço atirou o guarda contra a parede do castelo, o corpo do vampiro estalou e quebrou-se como uma fina e delicada placa de mármore.

Depois disso tudo silenciou.

Os guardas avaliavam aquele novo oponente, grande, forte e que destruíra três vampiros sem ao menos piscar... mas apesar de estarem cônscios de sua força, eles estavam em maior número, eram mais de uma centena contra apenas um, como haveria de serem subjugados?

– Peguem o maldito – gritou um dos guardas perto da porta e que parecia ser o líder.

Desta vez oito guardas precipitaram-se contra Arian, o gigante deu um passo despreocupado em direção a eles e ergueu o machado de batalha. Seth moveu-se intranquilo, como todo guerreiro não apreciava apenas servir de espectador de uma batalha, mas no momento em que pensou em partir para ajudar Arian, uma mão tocou-lhe o flanco impedindo qualquer movimento.

“Não vá, Seth” — farfalhou a voz de Charlotte em sua mente — “Apenas observe”.

Desta vez os guardas não tinham a intenção de dar uma chance a Arian apanhá-los um de cada vez, com um único e fluído movimento, como um ataque ensaiado à exaustão, os oito guardas saltaram contra o gigante de uma só vez pousando a poucos metros dele e imediatamente atacaram-no de todas as frentes possíveis não permitindo que houvesse qualquer brecha para a defesa.

Como estavam enganados, mas não havia como saber, aqueles pobres guardas submissos aos Três, que enfrentavam a mais temida força caminhante sobre o mundo, quando estavam a pouco mais de um metro de distância de Arian, os guardas simplesmente pararam, estáticos como oito esculturas de mármore. Seus corpos ficaram ali, em posições bizarras de corrida, com rostos raivosos e imóveis e olhos rolando assustados nas órbitas com a súbita cessação de seus movimentos.

Mas Edward sabia o que aquilo significava, as palavras de Alec ecoaram em sua mente: Ele é um manejador de dons, um arquiteto de manifestações de sua própria vontade. Aquilo era um dos dons que Arian escolhera para poder lutar, um dom extremamente útil numa luta, afinal, o que poderia ser mais ofensivo do que um poder de paralisar seus oponentes? E o pior é que Edward sabia que este era apenas um dos dons de Arian e uma vez mais a voz do fantasma de Alec chegou até ele: ele pode acumular até dez dons.

E seu pensamento e a certeza sobre a estrondosa força de Arian foi varrida com um golpe de machado, Arian havia decapitado todos os seus atacantes, com um único e abrangente golpe circular não permitindo qualquer meio de defesa. Os corpos dos vampiros caíram por terra enquanto suas cabeças rolavam para longe... os guardas entraram num frenesi ao olhar para aquela cena de horror.

“Ele não luta com honra” — reinou Seth na mente de Edward.

“Ele luta para jamais perder” — contrapôs o vampiro sabendo que as coisas eram muito mais complexas do que se podia supor em parcas palavras.

– Ouçam – disse de repente a voz retumbante de Arian e os guardas pararam para olhá-lo – Eu sou Arian Melchiorre Volturi, não há necessidade de mais mortes, não lhes desejo mal e nada tenho contra vós, sois apenas servos dos mesmos reis que aprisionaram-me, sendo assim serei indulgente. Baixai vossa resistência e não sereis dizimados.

Houve um burburinho entre a turba restante de guardas, alguém lá no meio sussurrou novamente o no nome Volturi, ele disse que é um Volturi, mas logo os rostos retornaram para Arian e o que parecia ser o líder dos guardas ergueu a voz para os companheiros.

– Ele não é ninguém, só outro intruso, e temos de contê-lo até que os reis voltem – não houve uma imediata aprovação das ordens do capitão, os guardas temiam o novo inimigo, mas Goto voltou a berrar-lhes – Malditos covardes filhos de porcas, os que têm armas, avante! Façam uma frente para destruirmos este verme, se os Três chegarem e encontrarem algum invasor vivo nós todos seremos esfolados a ferros quentes.

Rapidamente, pelo temor do açoite de seus mestres, duas vintenas de guardas armados com lanças, espadas e massas – alguns tinham blocos de calçamento na mão – se posicionaram numa linha defensiva na frente de Arian. Seus rostos continham o temor, mas, ao mesmo tempo, tinham que contar com o dever para com os Três, afinal, se não morressem enfrentando um inimigo... seriam destruídos pelos Reis como sendo irrelevantes à sua causa.

– Eu vos avisei – disse Arian por fim.

“São muitos, mesmo para ele” — avisou Seth e Edward concordou.

– Vamos ajudá-lo.

Mas uma vez mais Bianca os impediu.

– Aconselho-vos a permanecer aqui – disse ela em sua voz angelical.

A linha armada dos guardas avançou para Arian, lado a lado e enfileirados os vampiros defensores de Volterra vinham marchando na direção do gigante, mas Arian nem ao menos dignou-se a desmanchar o sorriso dos lábios. Avisara-os, entretanto, Edward sentia que Arian estava grato por aquele embate, há mais de setecentos anos não lutava e pelo que todos contavam o filho de Aro, um viking, era sedento por batalhas e desafios. Mas algo no olhar de Arian fez Edward imaginar que aquela tênue e quebradiça linha de guardas não era nem de longe um desafio à altura de Arian... e estava certo.

Arian desfez o sorriso bruscamente e seus olhos tornaram-se ainda mais rubros... quase negros e então aconteceu subitamente. A linha de guardas incendiou-se. Os quarenta vampiros que avançavam para ele entraram em combustão a menos de quarenta metros de Arian, um fedor ocre de corpos queimando empesteou o ar, gritos de desespero ecoaram enquanto as chamas consumiam os corpos marmóreos dos vampiros. Mesmo daquela distância, Edward pode sentir o calor do incêndio e aquilo o estarreceu absolutamente, Arian incendiara seus inimigos, consumira-os em chamas sem pestanejar, sem hesitar... apenas fulminou-os com um poder infernal.

– Deus misericordioso – arfou Kaori – O que foi que ele fez?

O dom da combustão, pensou Edward consigo mesmo, será possível?

Há muito tempo, quando Edward ainda era um jovem vampiro, Carlisle lhe contara uma história sobre a antiga descendência dos vampiros e lendas sobre o início da raça; nessa história havia um único criador – um vampiro original – e sua prole, sua primeira prole, foi chamada de Primeiros Filhos. Edward não se recordava integralmente da história agora, nunca deu importância para a árvore genealógica dos vampiros, mas sabia que Carlisle disse algo sobre a crença de que um ramo de sangue dos Primeiros Filhos havia criado descendentes de alguma forma através das gerações e que estes descendentes eram muitas vezes mais poderosos que vampiros comuns e que ao passar dos séculos desenvolviam dons excepcionais.

Seria Arian Volturi um descendente da antiga e lendária linhagem dos Primeiros Filhos?

Como poderia haver uma linhagem sanguínea de vampiros?

De todo modo, o horror do ataque de Arian fez com que os guardas debandassem, alguns saíram correndo pelos pátios, mas Edward viu quando um grupo passou correndo seguido pelo que parecia ser uma criança e atiraram-se pelo hall de entrada adentro. Depois disso o pátio caiu num silêncio onde o único som que era ouvido era o do crepitar dos corpos dos vampiros feitos em chamas.

– Está feito – estrondou Arian, e para terminar emanou mais uma parcela de seu poder e outro tremor imenso atingiu o castelo e Edward teve certeza de ter ouvido pessoas lá na cidade, além dos muros, gritando de pavor. A ala oeste do palácio desabou, Edward percebeu isso quando viu os telhados afundarem-se para além do palácio central, depois uma nuvem de pó ergueu-se muito alto caindo sobre eles como uma chuva de cinzas. Uma torre da ala leste também não foi capaz de se sustentar e derreteu-se como gelo, uma fenda imensa correu pelo pátio engolindo o pátio principal e dois fontanários que ali estavam; os primeiros jardins da entrada norte também sucumbiram, a terra engoliu seus gramados aparados e suas flores cheirosas.

Volterra havia caído.

Mas súbito um grito ecoou e um dos guardas desvairado atirou-se pelo pátio investindo contra Arian. Tolo, pensou Edward, o que poderia fazer um único guarda sozinho contra um deus? Mas ele jamais chegou a saber o que o guarda pretendia fazer ou como Arian iria destruí-lo, no meio do caminho uma lança prateada surgiu do nada cortando o ar e traspassou o guarda com tal força que atirou-o pelo ar cravando-o contra uma parede de rocha. A haste da lança ficou ali vibrando com o impacto enquanto o guarda se retorcia de dor.

Do outro lado do pátio, do lugar de onde a lança veio, um grande vampiro trajando uma armadura dourada olhava-os com surpresa.

– Você está ficando lento, meu velho amigo – ribombou o cavaleiro dourado.

– Estás me caçoando, irmão? – disse Arian, o gigante soltou uma gargalhada alta que ecoou pelos pátios destruídos, parecia uma explosão ribombando, e aproximou-se do recém-chegado dando-lhe um abraço apertado capaz de trincar costelas – Matheu, cafajeste dos infernos, estás vivo? O que fizeste para que meu pai não o metesse numa cela?

– Prisioneiro durante todo este tempo, Arian – respondeu Matheu sorrindo para ele, os olhos brilhando numa clara felicidade por ter reencontrado o gigante – Aro transformou-me em Cavaleiro do Portão Leste e eu não podia piscar sob a ameaça de ele lhes fazer algum mal.

– Estes tempos terminaram, velho companheiro. Venha, venha, Bianca há de estar ansiosa por ver-vos.

Matheu era alguma coisa mais baixo que Arian, Edward observou, fora transformado em vampiro muito jovem, pouco além dos vinte anos, tinha um rosto bem feito, honesto, reto e bonito e seus olhos, apesar de rubros, transmitiam um ar risonho – o mesmo ar que Arian tinha nos olhos. Seriam, no fim das contas, homens honestos? Pensou Edward. Matheu parecia muito esplendoroso em sua armadura reluzente, os cabelos de um negro tão profundo quanto madrugadas sem lua escorria pelo manto alvo que esvoaçava atrás dele. Pareceu estranho que a classe dos Cavaleiros fosse abaixo da classe dos Guardas. Cavaleiros pareciam muito mais majestosos do que Guardas.

– Matheu – sorriu Bianca e Edward notou que ela tinha novamente aquele sincero ar de menina quando olhou para Matheu, deixando de lado sua máscara de rainha – Amigo meu, tantos anos sem ver este rosto belo e desaforadamente honesto.

– Minha Rainha – respondeu Matheu a abraçando – Jamais passei um dia sem pensar em você.

– Oh, estás até a falar com este modo estranho desta estranha época – riu-se Bianca.

– Os tempos mudaram muito, minha senhora. Mas garanto que adorara este mundo de hoje – E foi quando Matheu deitou um olhar para os estranhos.

– Ah, Matheu, estes são os intrusos que nos libertaram – apresentou Bianca com leviandade já envergando novamente sua arrogância real.

– Eu sou Edward Cullen – apresentou-se Edward – Este é Seth Clearwater, Kaori Sayuri e Charlotte, filha de Salesiana. E esta é Giuliana.

– O irmão de Alice – falou Matheu com surpresa – Sim, ouvi falar de vocês, assim como ouvi notícias de suas mortes, mas estão aqui e é uma surpresa. Edward Cullen, vós libertaste meu irmão e minha Rainha, por este gesto você tem minha lealdade e minha lança, é uma pena que Isabella e Renesmee não estejam em Volterra, elas sofreram muito quando souberam de sua morte.

– Eu planejo ir buscá-las em breve, Matheu. Mas agora tenho de encontrar meus companheiros.



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O tremor fez cair as finas tapeçarias das paredes dos tronos – ao menos aquelas que não haviam sido incineradas – pedras caíram do teto desabando sobre os tronos carbonizados dos três; um pó foi soprado pelo corredor formando uma bruma cáustica dentro do Salão dos Tronos. Tochas suspensas nas arandelas apagaram-se e a única luz fraca que entrava era oriunda dos poços de luz no teto, apesar de que alguns destes poços haviam sido selados com rochas quebradas e desabadas. O chão vergou-se um pouco e o grupo perdeu o equilíbrio por alguns momentos.

– Mas que diabo? — arfou Jasper – Carlisle, seria isso obra daquele vampiro?

– Acho que não tardaremos a descobrir – respondeu o patriarca Cullen com uma expressão sombria no rosto – Volterra foi tomada.

O grupo permaneceu ali meio sem saber exatamente como agir, Jasper abraçava Alice que agarrava-se a ele, Garret estava perto dos degraus enquanto Vrau Urban inspecionava uma parede que não aprecia ter nada de especial a não ser o recente negrume que o fogo lhe causara. Carlisle também estava junto da filha enquanto Didi deixou-se sentar displicentemente sobre o trono carbonizado de Caius. Bem, pensou Jasper, com Volterra caindo aos pedaços, nada custa elegermos um rei anão.

Jacob, por sua vez, sentou-se num canto do salão, seu rosto de lobo enfezando.

Passou-se poucos minutos e até então o grupo não tinha certeza se deveria esperar ou sair... ou se tinha alguma coisa viva lá em cima nos pátios.

– Você acha que Edward está morto? — perguntou Jasper, a voz retumbando no silêncio sepulcral do recinto vazio.

– Não, Seth teria nos avisado – respondeu Carlisle pensativo – O que me preocupa é o tipo de pacto que Edward pode ter feito com este ser.

– Não deveríamos subir novamente aos pátios?

– Melhor não, penso que inevitavelmente o filho de Aro virá apreciar o trono do pai.

E, de fato, Carlisle não se enganava.



******************************



Arian caminhava à frente no túnel. Bianca, solitária, flutuando atrás dele com seu porte imaculado de rainha. Kaori e Charlotte seguiam logo atrás, Kaori, Edward notou, nutria uma leve distancia dele... provavelmente ela não o perdoava por ter permitido que Alec fosse executado sem nem mesmo ter tido a chance de se defender. Mas quem poderia deter a mão de Arian naquele momento?

Edward caminhava parelho a Seth que gingava seu corpão lupino com tranquilidade, em seu dorso, Giuliana seguia deitada olhando para o túnel com olhos febris e, talvez pela primeira vez, Edward percebera o tom arroxeado de seus lábios e as bolsas escuras sob seus olhos. Teria a menina adoecido? Pensou ele.

– Como você está, Giuliana? = perguntou Edward.

– Bem, obrigada – respondeu a menina com seu olhar sonhador, apesar de que sua respiração parecia sair com dificuldade e o coração mantinha um ritmo lento.

O corredor estava escuro, as tochas se haviam apagado e tudo estava um caos e coberto por pó e por destroços causados pelo abalo, havia marca de fogo também, alguns pontos da parede estavam cobertos por uma camada preta de fuligem. Estava tudo silencioso, mas, ainda assim continuaram seguindo, Edward perguntava-se para onde havia ido o resto de seus companheiros.

Matheu fechava o grupo caminhando imponente e solitário.



Finalmente, depois de percorrer o túnel que inclinava-se para baixo, atingiram uma antecâmara onde outrora erguia-se as portas duplas, altas, de carvalho pesado e reforçada de aço, caídas por chão, queimadas. Arian atravessou a ruína das portas... e o grupo seguiu-o depois. Por um momento o gigante encarou os vampiros ali dentro com seu olhar indiferente e divino.

Carlisle sentiu um mal estar no momento em que deu com os olhos em Arian, era como a primeira impressão que Edward teve do guerreiro: alto, imperturbável, divino. Logo Bianca colocou-se ao lado de seu amado e Seth trotou para perto de Jacob e Jasper baixou a menina do seu dorso sob um olhar atento de Alice.

Mas Alice não perdeu muito tempo olhando para aquela estranha menina humana, ao menos não quando, depois de Edward, Matheu entrou no salão vestido em sua armadura dourada com o manto branco enfunando atrás de si. Automaticamente sentiu um choque elétrico no coração, Matheu havia sobrevivo por ela e sua presença serviu para lembrá-la que seu coração estava dividido, ela virou o rosto com rapidez, apenas para dar de cara com o pai que a olhava com interesse, ante o olhar de Carlisle a vampira apressou-se em olhar para o chão e tratou de permanecer assim por um tempo.

– Pessoal – anunciou Edward – Este é Arian Volturi e sua Rainha, Bianca. Matheu, amigo de Arian. Arian, Bianca, Matheu, este é meu pai e criador Carlisle Cullen, meu irmão de criação Jasper e sua esposa e minha irmã, Alice. Garret, um grande amigo e aliado. Vrau Urban que nos auxiliou na entrada a Volterra e Didi, seu companheiro – e neste momento Didi deu um salto do trono de Caius e tratou de sair do tablado real o mais rápido possível – E Jacob Black, senhor dos Lobos de La Push e líder da alcateia de lobos da qual Seth faz parte.

– Uma família de estranhos – riu Arian com seus modos de guerreiro – Bem vindos sejam a Volterra, a Cidade dos Vampiros... ou pelo menos o que ainda resta dela. O que pensas, senhora minha Rainha, devo deitar o que resta deste palácio caquético imediatamente?

Não é um rei, pensou Carlisle. Arian era apenas um guerreiro no fim das contas, tinha um riso rápido e igualmente rápida era sua ira, duas características que não servem a um governante, Aro não era assim, o Rei sempre fora comedido em seus sorrisos e igualmente comedido em sua fúria. Mas Arian, seu filho, era absolutamente diferente. O olhar de Arian era um olhar enfadado, como se fora de uma luta tudo fosse monótono, seus movimentos eram os de um urso pesado e não a de um elegante pavão. Quando seus olhos passaram pelos tronos enegrecidos pelo fogo, não foi o brilho da cobiça que Carlisle identificou ali, mas sim um olhar de curiosidade.

Mas o mesmo não se pode dizer de Bianca. No momento em que os seus olhos caíram sobre os tronos um brilho de soberba se apoderou deles. É ainda tão bela quanto diziam as histórias, disse Carlisle a si mesmo, mas como pode alguém ser tão terrivelmente bela? Não, definitivamente esta beleza não é benfazeja, nenhuma mulher no mundo deveria ser tão absurdamente linda... amaldiçoaria todos os homens ao seu redor. E o patriarca Cullen soube que ela não deixaria tão cedo assim o posto de Rainha.

– A pressa sempre foi vosso defeito, meu príncipe – disse Bianca passando a mão delicadamente pelo braço do gigante, lançou-lhe um sorriso doce, mas carregado de luxúria e desejo – Atenta para o que pode ainda ocorrer depois que destruíres os Três, meu amor, onde moraríamos neste mundo mudado? Não, mantém o palácio por agora, ou preferíeis ver-me a dormir ao relento?

Arian ribombou uma gargalhada alta e cristalina que ecoou pelo Salão vazio.

É estranho, pensou Edward, é como se ele realmente não fosse mal. O temor vem de todo o poder que possui.

Jacob piscou algumas vezes ao ver Bianca, seu coração pertencia a Renesmee e seria dela para sempre, mas não havia meios do lobo conseguir disfarçar o fato de que Bianca era sem sombra de dúvidas a mulher mais absurdamente bela que havia visto. Sua bela era fatal e isso fez com que Jacob não gostasse dela nem um pouco. Essa ainda vai dar problema, segredou ele a sua própria alma.

– E agora? — perguntou Garret, mas sua pergunta jamais foi respondida,



Guardas jorraram pela porta e pelos poços de luz como uma onda barulhenta e psicótica, caiam, erguiam-se e corriam, tentando a todo custo alcançar os invasores que lhes escorraçara três quartos da tropa e devastara o tão adorado castelo de seus reis. Muitos carregavam no olhar a loucura da batalha, ensandecidos ao mesmo tempo de medo e de ódio, a ideia deles era surpreender seus inimigos caindo-lhes rápida e impiedosamente.

Quão tolos foram.

Como poderiam aqueles pobres escravos de Volterra enfrentar Arian Volturi e Matheu Di Galeone? Como seriam capazes de resistir à velocidade, às presas e garras de Jacob Black e Seth Clearwater?

Arian ria enquanto socava seus oponentes, o machado de batalha adormecido na bainha às costas do Gigante, ele rodava ao redor de Bianca não permitindo que ninguém tocasse sua Rainha, esmurrando, socando e chutando os guardas sem, no entanto, destruí-los.

– Não mate-os, irmão de armas – retumbou a vozeirão de Arian para Matheu – Assim estes pobres podem erguer-se novamente e divertirem-nos um pouco mais.

– Os séculos não aliviaram sua sede de batalhas, Arian – disse Matheu que havia acabado de arrancar a cabeça de um guarda e já afastava-se do gigante a fim de posicionar-se perto de Alice. Era um Cavaleiro e sua obrigação era a de proteger sua Princesa, mas antes de chegar nela viu Jasper golpeando um vampiro que aproximou-se dos dois. Ela agora tem o marido para protegê-la, pensou ele com desgosto.

Jacob e Seth também não partilhavam a ideia estapafúrdia de Arian, deixar guardas vivos apenas para brincar com eles? Um absurdo. As garras e presas dos lobos rasgavam a pele de seus atacantes tão facilmente quando partiriam palha... e os guardas aprenderam que os lobos significavam a morte e que não era prudente aproximarem-se muito. Entretanto, a loucura estava naqueles pobres escravos e eles apenas corriam sem medo de morrerem.

Garret chutou a cara de um guarda enquanto outro lhe laçara o pescoço, mas por sorte Vrau Urban estava sobre eles e arrancou os braços do guarda. Edward ajudou Kaori a destruir um dos agressores enquanto Charlotte parecia rezar baixinho, não se sabia se era um encanto para ninguém tocá-la, mas se fosse estava funcionando, pois guarda algum a molestou.

Carlisle limitou-se a empurrar os guardas que se aproximavam dele, mas como ficara perto dos dois lobos quase ninguém surgia para lhe dar combate. O problema era que guardas e mais guardas entrava, aquela centena que havia restado parecia ter se resolvido a tentar matá-los ali em baixo.

– Você poderia acabar com eles de uma vez? — berrou Matheu para Arian.

– Por que haveria de fazer uma coisa destas? — gargalhou o gigante – Pretende tirar-me o divertimento, velho amigo? Estou deveras contente em poder esmurrar algumas caras após tantos séculos.

“Maldito lunático” — xingou Edward em sua própria mente.

O problema era que se Arian se divertia com aquilo, era o único a fazê-lo. Edward estava ferido, assim como Kaori e Charlotte, receber toneladas de rocha sobre o corpo não era fácil mesmo para vampiros. Garret, Vrau, Carlisle e Jacob estavam feridos da batalha nos pátios dos palácios e vampiros podiam curar-se, mas não tão rapidamente. Jasper estava esgotado por ter usado seu dom durante tanto tempo e com tamanha intensidade, assim como Seth que exaurira suas energias para salvar Giuliana ao mesmo tempo em que escavara meio mundo para libertar os amigos que haviam sido soterrados.

E estes ferimentos e a estafa cobravam agora o seu preço.

Alice gritou quando um vampiro a golpeou, mas Jasper estava afastado dela tentando manter Giuliana viva, quando Alice caiu e o vampiro estava prestes a atacá-la novamente, a vampira sentiu o toque gentil da capa de Matheu sobre ela e um segundo depois seu agressor havia tido o rosto esmagado pelas grevas de aço do Cavaleiro.

– Você está bem, minha Princesa? — perguntou Matheu olhando-a com cuidado, o toque da mão do Cavaleiro lhe deixando, como sempre, sem fôlego.

– Obrigada – respondeu sem saber ao certo como olhá-lo nos olhos.

E foi quando Giuliana gritou.

Jasper, cansado como estava, não conseguiu lutar contra um guarda corpulento ao mesmo tempo em que tentava manter Giuliana a salvo, quando tentou usar seu dom para afastar o adversário recebeu um potente murro na boca que fez seu maxilar amortecer de imediato, ergueu o braço livre para golpear o guarda, mas o vampiro apenas aparou seu golpe e desferiu outro murro no peito de Jasper com força suficiente para fender uma parede de rocha.

Jasper sucumbiu ante o golpe do guarda e levou Giuliana consigo para o chão, quando o inimigo deitou-lhe por cima, golpeando-lhe com uma saraivada de murros, Jasper empurrou Giuliana para o lado a fim de afastá-la dos golpes. Matheu corria para socorrê-lo, mas três guardas interpuseram-lhe o caminho e ele foi impedido de ajudar, Alice tampouco foi capaz de chegar perto do marido.

Giuliana abriu os olhos e sentiu uma tontura tomar-lhe a visão, teve certeza de que o veneno lhe fazia efeito agora com mais força, tentou ficar em pé, mas as pernas já não lhe obedeciam como antes, a morte espreitava em sua espera. Mas viu que o guarda golpeava Jasper sem parar, a pele do vampiro já se rompia parecendo uma casaca quebradiça de ovo. Pobre senhor Jasper, pensou a menina, me trouxe aqui para ajudar e me mostrei uma inútil, acho que o veneno vai matar-me por fim, então o que custa ajudá-lo antes de morrer?

A menina ergueu-se sobre pernas instáveis e mancou até onde os dois vampiros estavam, Jasper aparava golpes um atrás do outro, mas o guarda era forte e não lhe permitia escapar às garras, Giuliana foi até eles da mesma forma que uma criança caminha para dois filhotes de cachorro e quando chegou perto só teve forças para agarrar nos cabelos do guarda e puxá-los com força.

O guarda não sentiu nada, mas o esforço de Giuliana serviu para distrair sua atenção, entretanto, furioso pela intromissão, o guarda olhou para o lado e fuzilou a menina com um olhar raivoso. Ergueu um punho feroz e poderoso e desferiu um golpe potente contra Giuliana cujo frágil corpo levantou voo indo quebrar-se contra uma das colunas de rocha negra que sustentava o Salão.

Aproveitando a súbita fúria e distração do guarda, Jasper empurrou-o para cima e ativou seu poder, sentiu suas forças desvanecendo no que, provavelmente, seria o seu derradeiro ataque, um segundo depois o guarda caiu de joelhos lamentando-se, o poder de Jasper lhe influindo os mais terríveis medos e pesadelos. E Jasper não teve nem uma piedade do guarda, laçou-lhe a cabeça e arrancou-a com um estalo de raiva.

– Giuliana – gritou Kaori assustada enquanto corria para a menina e seu grito serviu para chamar a atenção de Arian, o corpo alquebrado da menina fê-lo acordar de seus jogos de guerra. Logo o ar agitou-se pesado e os corpos dos guardas incendiaram em fogo e um vento poderoso varreu suas cinzas.

Os vampiros que ainda não haviam entrado no salão fugiram pela porta ou treparam pelos poços de luz como aranhas fugindo de uma enchente. Carlisle olhou abismado para a nuvem de cinzas que outrora havia sido guardas atacantes e horrorizou-se, aquele era o poder de Arian... o poder de um deus? Seria ele descendente dos Primeiros Filhos? Pensou consigo mesmo.

“O que foi que ele fez?” — soou a voz surpresa de Jacob na mente de Seth.

“Isso não foi nada” — disse-lhe Seth — “Você precisava ter visto o desgraçado derrubando o teto daquelas catacumbas.”

O ruído dos guardas fugindo ainda ecoava pelos corredores quando Jasper atirou-se para o lado onde Kaori segurava o corpo inanimado de Giuliana, o rosto da menina estava ensopado com um sangue rubro que agitou os sentidos de todos os vampiros presentes. Mas, entretanto, apesar da sede descomunal que deveriam sentir, Arian e Bianca não fizeram qualquer menção de atacar a criança moribunda.

– Ela não está bem – murmurou Kaori.

– Carlisle – chamou Jasper, mas o vampiro já estava ali ao lado dele.

– É bastante grave – anunciou Carlisle com um olhar clínico – Há algum lugar aqui que possamos deitá-la?

– O meu aposento fica na torre aqui logo acima – disse Alice com o rosto transtornado – Podemos levá-la para lá.

– O máximo cuidado possível Jasper – aconselhou Carlisle enquanto Jasper erguia o inerte e quebrado corpo de Giuliana nos braços.



O quarto de Alice recebeu-os num silêncio velado, apenas Carlisle e Kaori seguiram-nos até ali e Alice sentiu um estranho e familiar sentimento quando entrou no aposento, afinal, aquele quarto na torre fora seu refúgio durante meses infindáveis enquanto aguardava ser salva. E quando finalmente acreditava que não havia salvação e que Bella se tornaria Rainha e ela provavelmente seria casada com algum lorde vampiro... a maré resolveu virar.

Jasper deitou Giuliana delicadamente sobre a cama de Alice, a menina tinha o braço esquerdo enviesado num ângulo feio, o rosto havia sido destruído no choque contra o chão, tinha uma fratura feia no pulso direito, mas o pior só se revelou após o diagnóstico apressado de Carlisle.

– A espinha está partida – declarou ela numa voz fúnebre – Com o choque a coluna dela se desfez, é um milagre estar viva, não sei como ainda respira estando ferida desta forma.

– O que vamos fazer? — perguntou Jasper que tinha no rosto uma pontada de desespero muito atípica para ele que sempre fora frio e contido.

– Francamente, meu filho, eu não acho que haja algo a ser feito.

E neste momento, com um arquejo de dor, Giuliana despertou para um mundo de dor. A cor havia sumido de sua face e seus olhos, de um castanho brilhante, estavam opacos e perdidos, a vida escorria-lhe do frágil corpo como água entre os dedos.

– Giuliana – chamou Jasper preocupado sentado-se ao lado dela na cama.

– Senhor Jasper – disse a menina com a voz falha, tão baixa que não passava de um sussurro farfalhante – Deu tudo certo?

– Sim, você foi muito corajosa, Giuliana.

– Está é a sua esposa, não é? — perguntou ela olhando para Alice, agora, ali, sob a luz da aurora que nascia, a menina pode admirar melhor Alice – Ela é realmente linda.

– Ela é – Jasper falou com um sorriso trêmulo no canto dos lábios – Giuliana, eu não conseguirei cumprir a promessa de devolvê-la à sua casa...

– Não é sua culpa, Senhor Jasper. De uma forma de outra eu morreria.

Uma sombra de dor caiu sobre o rosto da menina e ela contorceu-se num espasmo violento, de seus lábios um fino fio de sangue corria, uma mostra de que sua vida findava. Jasper segurou-lhe a mão e Alice aproximou-se para olhar aquela menina que seu marido havia colhido por ali para servir de chave para as celas das catacumbas. Depois de um tempo a dor pareceu abrandar, arfando Giuliana tornou a olhar para Jasper.

– Há dias eu planejava a minha morte – disse ela febrilmente, as palavras saiam lentamente – Minha mãe era muito boa. Eu a amava. Ela não tinha marido, meu pai morrera quando eu não tinha nem mesmo um ano de vida e ela me criou sozinha, um dia casou-se com um homem duvidoso e depois disso minha vida ficou terrível. Meu padrasto foi um homem violento e geralmente brigava e agredia minha mãe até que ela não aguentou mais a própria vida e se matou tomando veneno. Depois disso eu fui alvo não apenas da violência de meu padrasto, mas também de sua asquerosa virilidade... ele abusou de mim por seis meses. Fugi e ele me encontrou e me deu uma surra tão grande que nunca mais tive coragem para fugir.

Agora havia lágrimas descendo por seu rosto pálido.

– Ontem a tarde eu decidi que terminaria com tudo isso assim como minha mãe fez – continuou ela numa voz baixa – Ao cai da noite, ingeri um vidro de um produto que o padrasto usava para matar ervas daninhas no jardim e me deitei para morrer, no começo da noite vomitei e me senti fraca e fiquei com medo. Me levantei e tomei banho e desejei poder deitar-me e morrer em paz, mas pouco depois de adormecer ouço uma batida leve na minha janela e quando olho, para minha surpresa, vejo você, Jasper, encarapitado na sacada. Você me sorriu e eu achava que havia morrido e que um bonito rapaz havia vindo me dar as boas vindas ao céu... mas aconteceu melhor que isso. Você veio para me levar para uma última aventura, Jasper, eu nunca fiz nada de mais na minha vida, nada de que me orgulhasse, nada que fosse importante, mas agora eu descobri que existem vampiros e lobos e reis e rainhas, princesas a serem salvas por heróis que vieram do outro lado do mar. Descobri que há imortais e castelos encantados e bruxas de verdade, e você me mostrou que havia um ser poderoso preso no núcleo do mundo e que há cavaleiros em armaduras brilhantes. Você me salvou, Jasper, eu lhe serei eternamente grata por isso.

– Mas eu prometi que lhe devolveria em segurança para sua casa, Giuliana – disse Jasper e a voz do vampiro, sempre imparcial e fria, estava embargada com uma rara demonstração de emoção – Eu lhe prometi.

– E eu lhe enganei, me perdoe – retorquiu Giuliana com um sorriso morno – Eu sabia que morreria, enquanto Seth corria pelas catacumbas para me salvar eu sentia o veneno me enfraquecendo e soube que estava morrendo ali mesmo, mas eu não me importei. Já havia tido a minha aventura e agora poderia morrer, quando achei que aquele vampiro iria te matar... decidi fazer algo por mim mesma antes do fim. E a isso também eu lhe sou grata, Jasper, você me deu a chance de também ser corajosa.

– Giuliana...

– Não precisa ficar triste, não por mim, eu estou bem, estou feliz – Giuliana fechou os olhos demoradamente e depois abriu-os de novo para dar um último sorriso a Jasper – Você é o meu salvador, Jasper. Obrigada por me mostrar este mundo de fantasia e sonhos... espero que você e Alice sejam felizes para sempre como naquelas histórias que eu lia nos livros. Independente do que aconteça, você me salvou e será para sempre... o meu herói.

E dito isso ela resfolegou e seus olhos fecharam-se, os vampiros ali reunidos ouviram seu coração diminuir o ritmo e sua respiração tornou-se quase inexistente. Jasper encarava horrorizado para Giuliana e Alice soluçou baixinho, Kaori balançou a cabeça desalentada. Carlisle suspirou entristecido, uma vida inocente perdida nesta cruzada, pensou ele, o que nos tornamos a ponto de permitir que uma menina assim morresse por nós?

– Querido – chamou Alice abraçando Jasper – Você deveria despedir-se dela.

Mas Jasper negou veementemente e fechou os olhos cerrando os punhos com raiva.

– Jasper, filho – disse Carlisle com delicadeza – Despeça-se dela, não há mais nada a ser feito. Ela não pode ser salva, se os ferimentos não a matarem, o veneno que ela tomou para o suicídio daria conta disso.

– Não – sibilou Jasper categórico – Há um meio de salvá-la.

O silêncio retumbou como um túmulo. Jasper ergue-se e olhou para os outros, Alice o encarou com surpresa assim como Kaori, mas o olhar de Carlisle estava recheado de pena. Na cama o corpo quebrado de Giuliana ia aos poucos morrendo e sua respiração não passava de um ressoar fraco.

– Jasper... você não pode – começou Alice, mas ele a interrompeu com impaciência.

– Por que não?

– Jasper – Carlisle falou com calma – Eu entendo seu desespero, mas o que está pensando é importante demais, apesar do gesto de tentar salvá-la dando-lhe a vida eterna, transformando-a em uma de nós, no caso de Giuliana só pioraria tudo. Você poderia condená-la ao em vez de salvá-la. Pense, Giuliana é uma suicida, ela já havia envenenado-se para morrer, por que haveria você de dar a vida eterna a uma menina que não mais quer viver?

– Isso explica porque ela não tinha medo de nada – disse Kaori de repente – Olhava tudo com espanto, mas jamais com medo. Ela não temia a morte, pelo contrário, desejava-a.

– Deixe que ela se vá, Jasper – reforçou Carlisle – Permita que a alma dela descanse, Giuliana teve uma má sorte em sua pouca vivência neste mundo, quem sabe no mundo-de-lá ela encontre algum conforto.

– Talvez não haja mundo de lá – retorquiu Jasper, ele olhava a menina morrendo com olhos distantes e perdidos – Eu sou responsável por ela, tirei-a de seu quarto e trouxe-a para esta loucura, não, não permitirei que ela morra. Ninguém sabe o que há para além da muralha da morte, Carlisle, você melhor do que ninguém sabe disso, não foi por isso que salvou Edward e Rosalie? Não foi por isso que salvou Esme? Quem melhor do que você conhece o peso de ser responsável por uma vida? Eu trouxe aquele homem para o maldito feitiço de Charlotte, eu e mais ninguém. A alma daquele pobre desgraçado foi-lhe tragada pela boca, Carlisle, você e Kaori viram tanto quanto eu, eu posso ter uma saca de pecados pendurada nas costas por tudo o que fiz antes de encontrá-los, mas pelos céus sobre a minha cabeça, não permitirei que esta criança morra por uma escolha que fiz. Ela veio para nos ajudar e a recompensa dela será a morte?

– Eu lhes avisei disso antes de entrarmos aqui.

– Eu sei de todas as suas palavras de amor, paz e ponderação, Carlisle – rosnou Jasper agora com raiva na voz – Mas nenhum conselho culto vai salvá-la numa situação destas. Não vou permitir que ela morra, ao menos isso na minha vida farei certo.

– Então dê-lhe a vida eterna – suspirou Carlisle – E que os céus lhe permitam estar fazendo a coisa certa.

Carlisle retirou-se do quarto e Kaori o seguiu lançando a Jasper um olhar de dúvida. A menina suspirava na cama, o estertor final não tardaria e Jasper sentou-se ao lado dela, descolou-lhe p cabelo úmido da testa febril e secou-lhe as lágrimas que ainda deitavam de seus olhos fechados.

– Jasper – chamou Alice – Você realmente precisa fazer isso?

– Preciso – respondeu ele – Não sei por que, mas sou responsável por ela. Já fiz muitas coisas repreensíveis na minha vida, Alice, mas não pretendo permitir que uma menina inocente e que tenha sofrido tanto na vida morra por minha causa. Talvez como imortal Giuliana aprenda que há coisas boas na vida.

– Mas ela decidiu morrer, Jass... decidiu isso por conta própria.

– Então eu a salvarei por conta própria.



E dito isso, Jasper, o Vingador, debruçou-se sobre a menina que morria. O sangue dela lhe inebriou os sentidos, mas então ele fez algo que não havia feito até aquele dia, usara seu poder em si mesmo para ignorar o cheiro e o sabor do sangue de Giuliana e inibir sua sede.



Ele que era um guerreiro, um soldado fadado a tirar vidas, e estava disposto agora a impedir que uma menina que mal conhecia morresse definitivamente.



Mas, entretanto, seria a imortalidade uma verdadeira salvação?