Candor Lunar - Livro 2

37 Capítulo 36 - Bella e Aro: Antes que o dia termine


Notas iniciais
Olá.

Bem, vejam só! Estou conseguindo escrever mais vezes...

Ou seja, pode ser que haja mais postagens mensais...

Enfim, este é um daqueles capítulos que deixam muita gente pensando. Leiam nas entrelinhas, lembrem-se.

Boa Leitura.

Ang

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O som do mar pareceu-lhe eterno. O constante fluxo e refluxo da maré vazante rebentando contra os paredões de rocha, lá muito abaixo, estrondavam como o som de dezenas de trovões retumbando e reverberando por todos os corredores e cômodos do castelo. Lá fora, o oceano abria-se muito além daquela pequena baía rochosa, a água profunda passando de um tom azulado para um verde escuro e imperscrutável, faiscando sob a luz do sol.

O ar tinha um cheiro salgado, marinho, e um vento cálido soprava do mar mesmo sendo outono e o dia estava claro e recheado de promessas e isso a fez franzir o sobrolho de forma grave. Estava esquecendo-se de quem era.

Bella já havia notado isso há algum tempo, simplesmente parecia que sua mente apagara quem ela era e tudo o que vivera a fim de sobreviver, havia dias que pegava-se procurando saber mais de Volterra, de sua história, dos Lordes vassalos dos Volturi e de como funcionava as leis dos Reis sobre seu povo vampiresco. Foi com surpresa que descobriu a existência do Banco Oculto, um banco como qualquer outro, mas que servia especificadamente para guardar as riquezas dos vampiros através dos séculos. Era muito prático afinal, num banco normal os clientes não são imortais, um vampiro teria que inevitavelmente dar conta, um dia, de uma possível morte e de criar novas identidades a fim de transferir suas riquezas. Aro havia lhe explicado que isso era muito enfadonho, o vampiro tinha de matar sua identidade e criar uma nova, fazer um testamento para seu novo nome para que o banco não notasse nada de errado.

No Banco Oculto não. Simplesmente era um banco de imortais e a riqueza de um vampiro estava lá para sempre, sempre disponível a seu cliente que jamais era obrigado a mudar de nome ou fazer testamentos ou enganar seu gerente. Obviamente o banco pertencia aos Volturi. Há muito tempo Marcus dera a ideia e os irmãos concordaram em mantê-lo, o Banco Oculto matinha sua luxuosa sede na encantadora Genebra.

Isso e tantas outras coisas, os Volturi possuíam negócios em todos os cantos do mundo. Petrolíferas na Arábia Saudita, mineradoras norte-americanas, madeireiras brasileiras, lojas de departamentos europeias; um dos maiores arranha-céus em Hong Kong pertencia a eles, assim como parte das ações da IBM e Microsoft, e Bella adoraria ver a cara de surpresa dos adoradores de carros esportivos se desconfiassem que a poderosa Automobili Lamborghini S.p.A também era uma empresa volturiana. Além, é claro, de hotéis, aplicações na bolsa, propriedades de terra, castelos e palácios, iates, cargueiros... havia tanta coisa que a riqueza dos Três era simplesmente incalculável.

Não que isso importasse a Isabella, afinal de contas, ela jamais deu qualquer atenção ao dinheiro, mas, ainda assim, era de impressionar o quão longo era o braço de Volterra. Há um tempo – o que para ela agora parecia uma eternidade – Bella ficara desconcertada com a riqueza dos Cullen, mas os Cullen seriam apenas uma pequena família miserável perto de tudo o que os Volturi possuíam.

Mas o pior foi descobrir outras coisas. O lado humano dos Três.

Havia mal chegado ao Pináculo da Luz e Athenodora, a Rainha Sorridente, lhe arrastara para os jardins a fim de mostrar-lhe os fontanários que, realmente, eram impressionantes. O Pináculo, esculpido há quatrocentos metros de altura e encarapitado no alto de um penhasco, erguia-se majestoso acima das ondas do mar, na parte leste do castelo, quase sempre banhada pela luz solar, ficava o Jardim das Fontes Murmurantes.

Um local amplo e aberto, com colunas de granito erguendo-se do solo como dentes brotando de gengivas cinzentas, havia um gramado fresco e aparado ao ponto de parecer um tapete e entre colunas e grama havia vinte e cinco fontes jorrando uma água cristalina que cintilava feito vidro. Todo o lugar era banhado pelo som murmurante da água caindo aos borrifos e esparrinhando-se sob as bacias grandes de mármore lustrado. Era realmente um lugar de sonhos, fresco, tranquilo, surreal. Sempre invadido pelo vento do mar, sempre sob o som da água gemendo, com o cheiro doce do gramado e com a imacularidade do granito refulgindo à luz do sol... e uma vez mais Isabella surpreendeu-se com a arte que os Volturi criavam para seu próprio deleite.

– Fora ideia de Didyme – contou Athenodora lhe sorrindo – Ela adorava jardins e havia estudado desenho e geometria com um velho geômetra grego, quando Aro e Caius tomaram o Pináculo da Luz para si próprios, ela reivindicou este espaço para criar um outro jardim, mas como Didyme estava farta de tantas flores substituiu-as por fontes, e em homenagem ao som que a água faz ao jorrar, batizou-lhe de Jardim das Fontes Murmurantes.

Isabella passou pelas fontes e tocou na água gelada borbulhante, realmente o lugar lhe passava um sentimento de tranquilidade e paz, ela imaginou o motivo pelo qual os Volturi possuíam tantos Jardins, parecia-lhe que criavam coisas belas como remorso por todo o mal que causavam ao mundo. Athenodora pareceu-lhe ler os pensamentos e riu num gracejo juvenil.

– Você se pergunta por que os Volturi amam todas as artes e coisas belas deste mundo se só são capazes de fazer maldades?

– Já decidi que o bem e o mal não são simples de ser definidos – respondeu Isabella.

– Ah, Isabella, você é terrível, entendeu o conceito sem aceitar o fato. Mas eu folgo em saber que ao menos isso você está fazendo, apesar de que continua com esta bobagem de que os Volturi são maus e que nós não fazemos coisas boas. Já ouviu falar na Unesco, certamente.

– O órgão das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. O que tem?

– Caius teve um grande apresso por Thomas Huxley, à época de 1925 fora o principal defensor da teoria de Charles Darwin sobre a evolução das espécies. Pois bem, a Unesco foi criada pela antiga Liga das Nações que tinha uma grande preocupação com problemas de Cultura e Educação pelo mundo. Em 1946 ocorreu a primeira Conferência Geral da Unesco e era preciso estipular um diretor para o órgão, Caius, seguindo sua amizade por Thomas fez o que pode para que as Nações Unidas aceitassem seu neto, Julian Huxley para ser eleito Diretor-geral.

– Sir Julian Sorell Huxley – continuou Athenodora com um ar sonhador – Biólogo, escritor, humanista. Era um dos queridinhos da Coroa Britânica tanto que foi ordenado Cavaleiro da Rainha, mas Caius sempre viu algo a mais nele... sabia que este homem mudaria o mundo. Eu me recordo quando a Unesco ecoou pelo mundo seu discurso contra o preconceito e a discriminação racial, emociono-me até hoje quando lembro das palavras lidas por Julian. Fiquei profundamente triste quando ele se foi, já beirava os noventa anos de idade, mas sua mente continuava tão lúcida como quando tinha vinte.

– Está dizendo que Caius teve influência direta na escolha de um diretor-geral da Unesco? — espantou-se Isabella – Que interesse ele teria nisso tudo?

– Ora, qual interesse poderia ser, Isabella? Tornar o mundo um lugar melhor. Julian fez isso muito bem e Caius se satisfez de ter escolhido um homem à altura do desafio. Desde então os Volturi acompanham de perto o órgão e contribuem consideravelmente todo ano. Ah, por favor, não faça esta cara, contribuímos com a Unesco assim como para a ONU, FAO, IFAD, PAM, OMS... FMI.

– Por que fariam isso? — teimou Isabella agora demonstrando claramente seu mal humor.

– Para que os humanos consigam conviver em paz neste mundo caótico – respondeu Athenodora sorrindo sem se importar com o humor de Bella – Nós somos muito responsáveis pelos humanos, Isabella. Entenda, os homens pensam agir como adultos, mas não passam de crianças perdidas; nós, ao contrário, somos deuses e justamente por isso temos de mostrar-lhes o caminho.

– Depositar quantias astronômicas num órgão humanista não é essencialmente uma boa ação, Athenodora. Um traficante de drogas ou de armas pode muito bem enviar dinheiro para entidades beneficentes e nem por isso ele pode ser considerado bom. Um ato de boa fé não é capaz de anular dezenas de má fé.

– Você continua presa a ideia de que somos essencialmente maus – suspirou Athenodora levemente chateada – Faça um exercício a si mesma, Isabella, imagine um mundo sem os Volturi.


Agora em seu aposento, no alto da torre principal, Isabella lembrou-se do conselho de Athenodora, seus olhos estavam hipnotizados pelo oceano gigantesco estendendo-se até o horizonte infinito, as ondas do mar lhe davam uma espécie de sonolência cadente que parecia embalar seu pensamento.

Como seria o mundo sem os Volturi?

Vampiros: seres imortais, orgulhosos e temperamentais. Seria prudente soltar no mundo seres tão poderosos sem uma supervisão aguçada? Definitivamente não e Isabella sabia disso, seria um caos se os vampiros não tivessem qualquer força para lhes restringir a capacidade de dominar tudo. Bastaria um vampiro para causar um estrago bem grande ao equilíbrio mundano, os homens mortais não lidariam bem com a revelação de um mundo sobrenatural e noturno, suas crenças, suas religiões, sua espiritualidade estaria fadada ao fracasso. Tudo poderia entrar em colapso. Um governo de vampiros era realmente necessário.

Nem todos os vampiros tornavam-se sábios com o passar dos anos, alguns tornam-se essencialmente egoístas e a ânsia pelo poder absoluto os corrompe absolutamente. Sem um governo para regê-los, liderá-los, puni-los... como ficaria o mundo dos humanos? É certo que os vampiros são uma sociedade oculta graças à incansável vigília dos Volturi, eles que já haviam erradicado revoluções, infestações de lobisomens, de crianças-imortais de recém-nascidos, eles que criaram as leis e protegiam os humanos.

Protegiam os humanos.

Este pensamento reverberou pela mente de Isabella. Por que os Volturi prezavam tanto o anonimato de sua raça? Justamente para proteger a infante e frágil raça humana. No fim não foi surpresa os Volturi estarem vinculados a entidades e órgãos humanitários e beneficentes, mas que interesse verdadeiro havia nas atitudes dos Volturi? Uma coisa era proteger a raça humana dos vampiros, outra era desejar o bem estar de toda uma civilização mortal.

E o que dizer da lei que impede os Volturi de matar humanos em seus territórios? A técnica de sugar sangue de humanos sem matá-los é realmente estarrecedora e contrariava tudo o que Bella já havia ouvido falar. E pior! Por que Carlisle ou Edward jamais haviam lhe revelado que os Volturi já não matam humanos quando se alimentavam deles?

Mas isso não significava também que eles demonstravam respeito ou valor para com a vida humana, a chacina no cargueiro durante a viagem para a Itália foi um exemplo disso. Todas aquelas pessoas morreram e serviram aos desígnios dos Volturi. Então talvez este fosse o pior pecado dos Três, faziam leis que serviam apenas para os outros e não para eles mesmos.

Era um problema normal em uma monarquia ou tirania, afinal, o Rei ou o Tirano – ou o Rei Tirano – usava e abusava de seus súditos, fazia o que bem entendesse e quando seu reino estava em paz e prosperava o povo não se importava em ser tiranizado. Funcionava assim com os vampiros, os Volturi permitiam que os nômades matassem humanos como alimentos desde que o anonimato fosse mantido e isso não tornava ninguém um fora da lei. Mesmo temendo Volterra os vampiros do mundo todo aceitavam esta realeza porque sentiam-se seguros, porque sabiam que os Volturi tomavam conta de todos.

Tomavam conta de humanos... e vampiros.

E a isso Isabella concluiu algo que a deixou profundamente deprimida. Não poderia haver um mundo equilibrado sem a presença dos Volturi. Eles eram o peso e a medida e mesmo fazendo coisas repreensíveis ainda eram essenciais para que tudo permanecesse em seu lugar apropriado. Há milênios eles vêm arrumando o mundo, séculos e séculos de planejamento... e Isabella suspirou longamente e acabou por se conformar com o fato irrevogável. Não há paz no mundo sem os Volturi.


Olhando para o relógio Isabella deu-se conta de que estava quase na hora de descer e encontrar-se com Aro, era preciso fazer alguns preparativos para o casamento e isso apenas serviu para tornar seu estado de espírito um tanto mais triste. Alice cuidaria de tudo muito bem sem precisar de sua opinião, mas, ao que parece, uma Rainha é obrigada a escolher por conta própria sem a intromissão de opiniões alheias. Isabella engoliu o horror que tinha por estas coisas e caminhou até o guarda-roupas.

Escolheu um vestido azul celeste que caia-lhe plissado até os joelhos e um par de sapatos num tom um pouco mais escuro, ao redor da cintura amarrou uma peça de seda branca e permitiu que os cabelos permanecessem soltos. Olhando-se no espelho não reconheceu-se, parecia uma mulher de alta classe. Lembrou-se com saudosismo da época em que vivia de tênis, calças jeans e camiseta e se perguntou se algum dia poderia voltar a usar roupas mais comuns. Não, pensou consigo mesma, depois de me tornar rainha aquela Bella morrerá completamente.

Estava bonita. Nunca fora escancaradamente linda como Alice ou Rosalie, mas era bonita. Os cabelos lisos ondulavam ao redor do rosto emoldurando-o, e os contornos da face ainda mantiveram aquele ar adolescente de dezoito anos, mas seus olhos eram os de uma mulher: maduros, misteriosos e insondáveis. Obviamente não chamaria tanta atenção quanto Athenodora, mas ela desconfiava de que acabaria sobrepondo a outra Rainha se continuasse a agir como vinha agindo. Todos pareciam notar-lhe a presença.

Giordano, como de costume, encontrava-se postado ao lado de fora de seu aposento. O grande cavaleiro trajava sua armadura esmaltada de dourado e o manto branco caía-lhe pelos ombros, a lança postava-se ereta ao seu lado e ele fez uma reverência no momento em que a viu. Isabella lhe sorriu e silenciosamente esgueirou-se pelas ramificações do castelo até o térreo onde seu noivo a aguardava.

O Pináculo da Luz não era luxuoso como Volterra, havia uma aura espartana reinando pelo lugar, tudo se ornava de forma simples e rude. Nem uma tapeçaria maculava suas paredes de rocha crua, tampouco o chão, e os móveis ali dispostos eram práticos, mas pareciam ter sido atirados a esmo e sem qualquer cuidado. As luminárias eram rústicas, candelabros de latão desciam pelo teto atirando uma luminosidade fátua pelos cantos, apesar de que, diferente de Volterra, as janelas eram imensas e a luz do sol transbordava por todos os lados e o ar passeava pelos corredores, arejado e salgado.

Isabella já habituava-se às torres e coruchéus, aos pátios e jardins, aos cômodos sem fim e aos salões sempre cheios de vampiros. Lembrava-se que em outra vida fora uma garota comum, com uma casa comum e com pais comuns, mas depois disso tudo se tornou estranho e sobrenatural, como um sonho interessante. Por alguns breves momentos ela se sentia arrependida por ter se casado com Edward e por ter se tornado vampira, afinal, no fim das contas, meteu-se num problema cuja solução era inexistente e pior... seria assim por toda a eternidade.

Já havia um movimento considerável pelo castelo, muitos humanos trabalhavam ali vindos de empresas de decoração, floriculturas, iluminação, ou qualquer outro ramo de negócios que trabalhasse com eventos em grande escala. Havia sempre um vampiro aqui e ali, mas muito discretos, apenas fiscalizando a ação dos humanos e isso deu a Bella um conhecido sentimento de estranheza. Pobres mortais, vivemos entre eles sem que saibam que estamos aqui, pensou ela.

No salão térreo Isabella parou por uns instantes e olhou através das portas duplas que, abertas, conduziam para uma ampla sacada donde o pátio principal podia ser admirado em sua totalidade. Vários homens lutavam, com suas parcas forças humanas, para erguer a armação de ferro do que viria a ser uma imensa tenda a céu aberto, outras dezenas de menores tendas já estavam espalhadas pelo pátio e uma procissão de floristas ornava tudo com rosas tão vermelhas quanto o sangue arterial. O pátio seguia a curvatura do penhasco e dali de cima podia-se admirar toda a costa e o mar azul faiscante quebrando-se lá muito abaixo nas rochas.

Suspirando, Bella já estava prestes a dar meia volta quando notou um vampiro ricamente vestido discutindo com uma vampira pequena. O vampiro era alto e dotado de uma barriga tão ampla quanto um tonel de cerveja, tinha uma papada tripla e olhos escuros como breu, os cabelos eram acobreados e encaracolados e suas mãos pareciam presuntos, Isabella não podia adivinhar sua idade real, mas na transformação deveria ter tido algo passado dos trinta anos de idade, levando em conta as leves rugas que formavam-se ao redor do olhos. Vestia um terno de risca de giz alinhado – apesar do volume de sua pança – com um colete verde escuro e uma camisa branca.

A vampira, por sua vez, era não muito mais alta que Bella, tinha as feições bonitas e delicadas apesar de uma testa ampla e parecia possuir algo em torno dos vinte anos ou tão próximo disso que não faria diferença; seu cabelo era cor de chocolate e caia liso até a cintura, era bem formada de corpo, esguia e com bustos firmes e fartos, em sua pele marmórea e alva se podia perceber pequenas sardas de quando ainda era humana cobrindo seu rosto delicado logo acima do nariz. Ela usava um vestido branco num modelo parecido com o de Bella, mas a saia era bem mais curta, mal cobrindo as coxas torneadas da moça. E quando Bella olhou para seus olhos notou seu desconforto, apurando os ouvidos a princesa foi capaz de ouvir a voz azeda do vampiro que falava num tom irritadiço.

– Não ouse falar comigo neste tom insolente, Seline – disse o vampiro – Eu lhe dei instruções precisas sobre os documentos que precisavam ser trazidos, antes do casamento tenho uma reunião com Caius e o que fez você? Esqueceu-se justamente do que eu precisava para garantir mais fundos à nossa casa. Tola.

– Eu trouxe a maleta que pediu – respondeu a vampira num tom de voz acusador, mas servil – Que culpa tenho se você se confundiu? Aliás, sempre se confunde meu senhor, o problema é que jamais admite suas culpas.

O vampiro não respondeu, apenas moveu a mãozorra golpeando a moça no rosto com força, a vampira, pega de surpresa, desequilibrou-se e foi obrigada a apoiar-se na parede para não cair, tirando o cabelo do rosto ela lhe olhou com um olhar carregado de susto, temor e raiva. O vampiro tornou a erguer a mão, mas antes que pensasse no ato, Isabella moveu-se como o vento e posicionou-se justamente entre a menina e o homem de terno que a olhou com espanto.

– Isso não é assunto seu, estranha – declarou o vampiro em tom de escárnio – Desapareça da minha frente.

– Pois eu sugiro que baixe a mão, seja lá você quem for – replicou Bella furiosa, entretanto, o vampiro não lhe deu ouvidos e com arrogância ergueu a mão atirando-a contra o rosto de Bella, mas antes mesmo do golpe percorrer metade do caminho, uma mão couraçada de aço aparou sua trajetória. A mão de Giordano segurava com força o pulso do vampiro que o olhou com incredulidade e rancor.

– Como ousa, Cavaleiro? Sabe quem eu sou?

– Meu Lorde Fingal – começou Giordano com uma voz firme demonstrando que sabia perfeitamente quem era o vampiro – Permita-me apresentar-lhe Isabella Volturi, Princesa e futura Rainha de Volterra. Minha senhora Isabella, este é Lorde Fingal MacDavis, Senhor do Feudo de Verona e antigo vassalo dos Três.

Lorde Fingal olhou de Giordano para Isabella com confusão no olhar, como poderia ele imaginar que aquela vampira sem necessariamente nada de muito especial seria a sua Rainha? Rapidamente livrou-se da mão de Giordano com um movimento brusco e curvou-se ante Isabella numa saudação apressada.

– Minha Senhora de Volterra – disse ele – Perdoe-me, jamais seria capaz de erguer uma mão contra minha Rainha.

– Eu não sou sua rainha ainda, Lorde Fingal – respondeu Isabella com desprezo – E preferira que não erguesse a mão para mulher alguma.

– Permita-me, alteza – disse o Lorde puxando a menina para si, ela olhou para Isabella com surpresa e respeito – Esta é Seline, minha serva. Terá de perdoar-lhe os modos, mas é uma vampira muito jovem, tem apenas dois anos de idade e ainda não se habituou à vida imortal em uma corte. Seline, haja com modos e cumprimente nossa Rainha.

– Minha senhora – inclinou-se ela numa reverência tímida, tinha um sotaque britânico e elegante e sua voz era bonita e instrumental, assim como a voz de Alice, lembrava o vento de primavera em folhas jovens das árvores e Isabella lhe simpatizou instantaneamente.

Talvez por ser uma vampira jovem, talvez por lembrá-la de Renesmee quando a filha ainda era apenas uma adolescente ingênua e pura, talvez por aquele olhar lembrar dela mesma quando ainda não havia passado por tudo o que passou e antes de ter recebido todas as cicatrizes que ganhou. Seline tinha aquele ar deslumbrado como todo jovem vampiro, olhava para tudo como se fosse a primeira vez numa tentativa compreender a si mesma.

– É um prazer conhecê-la, Seline – disse Bella por fim – Como foi que Lorde Fingal a encontrou?

– Eu a transformei, minha senhora – interferiu o vampiro antes mesmo da menina abrir a boca – Ranna, minha... secretária anterior, mostrou-se profundamente incompetente e eu fui obrigado a destruí-la, como preciso de alguém para me auxiliar na administração de Verona, escolhi Seline. Era uma jovem universitária que formava-se em contabilidade e seria muito útil para mim, infelizmente ainda a estou educando.

– E você procurou saber se ela tinha interesse em ser uma vampira, Lorde Fingal? — quis saber Isabella e quando o vampiro titubeou, ela ergueu uma mão impaciente e olhou novamente para Seline – Minha querida, você é feliz em Verona? Não, por favor, não precisa ter medo de responder, garanto-lhe que Lorde Fingal não tornará a censurá-la.

– Minha senhora – começou Seline – Eu tinha uma família e agora não tenho mais, tinha uma vida e uma namorado que amava e foi-me tirado tudo isso, amo Verona, mas realmente não tenho qualquer interesse em partilhar a cama de lorde Fingal.

– Achei que procurasse uma secretária, lorde Fingal e não uma amante – Bella acusou, azeda.

– O que posso dizer, minha senhora, sou um homem voluptuoso.

– De fato, e creio que trouxe presentes ao meu senhor Aro por seu casamento?

– Mas é claro, minha rainha, presente riquíssimos, e para a senhora também.

– Não tenho interesse em presentes materiais, e como creio que sempre pretende agradar o meu futuro marido, sei que me permitira escolher um presente adequado. Eu preciso de uma auxiliar pessoal, Giordano é um bom amigo e guarda, mas é terrivelmente desinformado em questões femininas, assim sendo, exijo que me ceda Seline.

– Ceder... Seline? — gaguejou o lorde não compreendendo de imediato – Mas a minha senhora pode ter a criada que desejar, Seline é muito abstrata e perdida e vive a sonhar, não seria uma boa escrava para uma Rainha.

– Eu não coleciono escravos, Lorde Fingal, e estarei eu compreendendo bem? Estaria um dos servos de meu Rei Aro negando um pedido de sua Rainha?

Fingal olhou de Bella para Seline e depois para Giordano parado atrás das duas com cara de poucos amigos, Isabella sabia que havia desafiado um Lorde Volturi, mas, afinal de contas, se ela era Rainha não teria ela direito sobre seus vassalos? Fingal molhou os lábios com a língua e sorriu, mas Bella notou que o sorriso não lhe chegou aos olhos, o lorde estava furioso por ter sido obrigado a livrar-se de sua concubina, mas também sabia que enfrentar deliberadamente uma rainha, e logo a esposa de Aro, não era uma boa jogada.

– Ela é toda sua, Vossa Radiância – disse ele numa reverência – Desejo de todo o meu coração que Seline a sirva melhor do que me serviu.

E dito isso afastou-se a passos largos.

– Minha senhora tenha certeza de que encontrou um opositor na corte, Lorde Fingal não é homem de engolir afrontas – disse Seline temerosa, mas Bella virou-se para ela e sorriu.

– Eu sou uma Rainha, querida, não há ninguém que possa se opor a mim, mas se preferir permanecer em Verona eu posso devolvê-la a lorde Fingal.

– Não – apressou-se Seline a responder – Eu fico feliz que tenha me salvado.


Havia uma tenda um pouco menor do que a que os homens sofriam para armar, logo na borda do pátio, com vista para a costa italiana e para o Mediterrâneo, ali dentro uma câmara fria do tamanho de um contêiner fora deixada ligada a um motor à diesel. Mesas estavam sendo montadas e cálices de cristal eram retirados de caixas, Isabella se perguntou quanto teria custado cada um deles e também percebeu que ali não havia nem um humano trabalhando... apenas vampiros.

Aro estava de costas para ela e virado para uma imensa cristaleira agora repleta de um líquido rubro e grosso que Isabella compreendeu de imediato ser sangue, e humano, seu olfato foi rapidamente atraído para o cheiro doce que exalava daquele sangue pungente. Quando os ouviu chegando, Aro voltou-se com sua máscara de rei e sorriu para Bella de modo parcimonioso.

– Isabella, está especialmente radiante – começou ele, mas seu olhar recaiu sobre Seline e ele fez uma leve careta de entendimento – Suponho que você seja a serva de lorde Fingal, não é mesmo?

– Secretária – corrigiu-o delicadamente Bella, Aro teria de se habituar, ela não gostava da existência de servos e escravos – E veja só, Lorde Fingal é muito generoso, presenteou-me com Seline para ela me auxiliar em meus assuntos pessoais, fiquei muito feliz, e Seline também aceitou ficar comigo, não é bom?

– Lorde Fingal é criador desta mocinha, ele a presenteou simplesmente? — perguntou Aro com um olhar desaprovador e então com um gesto amplo das mãos e erguendo a voz falou para todos os presentes na tenda – Saiam, preciso ficar a sós com minha Rainha.

Não demorou um segundo para que os vampiros trabalhando ali largassem o que faziam e saíssem imediatamente da tenda, Bella voltou-se para o cavaleiro e a menina e sorriu-lhes gentilmente.

– Giordano, Seline, podem ficar a vontade. E Giordano, por favor, tem minha licença para não permitir que Seline não seja incomodada, está bem?

– Minha senhora – disseram os dois em uníssono deixando a presença dela.

E ao virar-se para Aro ela notou aquela mudança instantânea que se operava nele sempre que ficavam sozinhos, a máscara do Rei desaparecia e o rosto de Aro metamorfoseava-se de uma frieza ácida para um homem jovem e bonito, com olhos alegres e um gracejo sorriso brincando pelos lábios. Até sua voz tornava-se macia e Isabella, mesmo contra a vontade, sentia-se levemente satisfeita por saber que ela era a única que conhecia Aro Volturi daquele modo.

– Isabella, o que exatamente aconteceu? — Aro perguntou num falso tom de censura.

– Flagrei Lorde Fingal agredindo Seline e o censurei por conta disso, mas ele teve o bom senso de se desculpar doando-me a menina para me auxiliar em meus assuntos – respondeu Bella tendo o cuidado de não mencionar que Fingal erguera a mão contra ela.

– Lorde Fingal é um aliado antigo e muito temperamental, além de orgulhoso e rancoroso. Ele não ficará satisfeito em ter perdido sua cria, principalmente por que nós sabemos que Seline era muito mais que uma secretária.

– Um motivo a mais para tirá-la dele, deveria ser contra a lei aproveitar-se deste modo de uma recém-nascida, a não ser se a intenção de Lorde Fingal fosse desposá-la. E, além de tudo, meu senhor Aro, o que poderia um lorde fazer contra nós?

– Então o sabor do poder já lhe tocou o paladar – sorriu Aro de forma lupina.

E Isabella tocou-se deste pensamento. Ela havia interferido, humilhado e ironizado Lorde Fingal partindo do pressuposto de que ela era intocável, afinal de contas, seria uma Rainha e logo não teria por que temer um vassalo do Rei, seu futuro marido. E a expressão que fez parece ter sido capitada por Aro.

– Não seja ingênua, Isabella – disse ele lhe franzindo o cenho – Seu poder é para ser exercido, mas sinceramente eu não acho saudável você ficar libertando todos os escravos de que dispomos.

– A ideia de escravidão por si só é absurda, Aro.

– Sim, sim, eu sei. Você sempre irá defender seu ponto, talvez com o tempo perceba que é impossível. O mundo dos vampiros é diferente do mundo dos humanos, querendo ou não é assim, mas não vou apressar as coisas até que você esteja completamente inserida neste mundo novo. Agora, venha cá, olhe, sinta o aroma... está suficientemente apetitoso não é mesmo? — disse Aro aproximando o cálice de que bebericava do rosto de Bella.

– Sangue humano – disse a Princesa – Aro...? Você por acaso não andou abrindo gargantas …

– Não, não, é claro que não – ele respondeu rindo da cara de espanto dela – Mas se me permite, você fica linda quando está brava.

– Não me venha com seus galanteios furados, por favor.

– Dizem que as mulheres adoram receber elogios – rebateu o Rei.

– O problema não é o elogio Aro Volturi, mas sim o fato de você sempre tentar me comprar com seus galanteios.

– Sinto-me ofendido, Isabella, sempre fui muito sincero nos meus elogios. De todas as vampiras acho a senhora a mais bela.

E o sorriso de Aro era realmente sincero, assim como o elogio, e Bella sabia disso.

– O sangue, Aro – lembrou Bella mantendo o rosto sério.

– Sim, é de um banco de sangue que estamos mantendo há dois anos – respondeu o Rei – A ideia foi de Marius De Lavega, Lorde do Feudo de Madri, um jovem e promissor membro de nossa família. É geneticista e desenvolveu o projeto do Banco de Sangue que visa o fornecimento deste nosso vital líquido.

– Significa que vampiros não precisarão matar humanos?

– Não, minha querida. O que acontece é que, bem, você não deve saber, há muitos lugares que vampiros comuns frequentam para se divertir, casas de show assim digamos, pubs, bares, boates. Os Volturi tentaram por um tempo coibir estes lugares, mas até mesmo nós fomos obrigados a admitir que os imortais também merecem sua cota de divertimento, assim sendo, permitimos que tais lugares funcionassem, mas o custo era perigoso. Você pode imaginar o que era consumido nestes lugares?

– Sangue.

– Exatamente, o problema era que a fonte do sangue era uma complicação – disse Aro bebericando da taça – Houve numa noite, num pub britânico, um saldo de setenta e oito humanos mortos em uma festa vampírica.

– Setenta e oito? — horrorizou-se Bella.

– Os humanos eram convidados a uma festa comum, mas em determinado momento viraram o jantar, com o perdão do gracejo. Inevitavelmente isso foi uma tragédia, uma cidade pequena no interior da Inglaterra... você deve imaginar o trabalho para ocultar este escândalo. E também não podíamos nada fazer para punir o dono do lugar, afinal, Volterra dera seu aval para este tipo de estabelecimento. Em um de nossos conselhos com todos os Lordes, Duques e Arquivampiros, Lorde Marius levantou a possibilidade de fundarmos um Banco de Sangue que iria suprir o sangue utilizado nestes eventos, assim como em qualquer festa ou reunião de vampiros. Não podemos ficar sem sangue em nossas celebrações, mas também não podemos mais assassinar tantos humanos de uma só vez, no mundo atual, com os humanos vigiando cada passo que dão e cada canto deste mundo, o desaparecimento em massa de pessoas está fora de cogitação.

– E todos aceitaram?

– Bem, não imediatamente – sorriu Aro – Mas nós fazemos as leis e os outros obedecem. Não é algo maravilhoso na verdade, quando humana você deve ter tomado um suco artificial e um suco com a polpa fresca da fruta, não é mesmo? Pois bem, o natural é muito melhor, nada se compara ao sangue saído da artéria de um humano, mas nós aquecemos o sangue para bebermos e este método é capaz de saciar nossa sede. Até não é ruim, quer provar?

– Os doadores? — insistiu Isabella desconfiada.

– Oh sim, temos um campo de concentração com cinco mil humanos, alimentamo-los e retiramos seu sangue diária e sistematicamente.

– O que? — gritou Bella, seu olhar tornou-se incrédulo – Vocês não fazem isso.

– Mas é claro que não, estou brincando – e Aro caiu numa gargalhada cristalina e marota, ele riu por um tempo e depois parou ante o olhar inquisidor e mal humorado de sua noiva – Eu estou brincando Isabela, por favor, o nosso Banco do Sangue é ocultado por uma instituição que recolhe sangue para hospitais, como um ambulatório comum, uma fachada para seu real propósito, nem um humano é lesionado ou ferido de alguma forma. Para ser franco uma pequena parte deste sangue realmente é enviado para emergências de hospitais, afinal, temos que manter a fachada funcionando, mas oitenta por cento é remetido para nossos estoques particulares que são repassados através do mundo para saciar a sede de nossos vampiros festejadores – e quando Bella não pareceu satisfeita, Aro fez-lhe uma reverência e tocou-lhe a mão com cuidado – Penso que não tenho permissão para gracejar com minha Rainha, não é?

– Ah, era para ser engraçado? — casquinou Bella – Seu humor negro é tão terrível quanto suas ameaças, Aro. Por que não levaram este estoque de sangue para o navio?

– Bem, nós levamos, mas também precisávamos de humanos naquela vez, eu sinto por isso. Mas não tratemos de assuntos nebulosos num dia tão belo, você quer provar? — e sem esperar resposta, Aro ergueu uma taça e com a concha encheu-a com um sangue espesso e perfumado oferecendo-a a Bella.

– Realmente não há meios de eu beber o sangue de algum cavalo dos estábulos ou qualquer coisa do gênero? — perguntou ela afastando-se da taça, mas Aro identificou no olhar da vampira a fome e a sede pelo sangue oferecido, o sangue humano, colhido ou tomado da fonte, não se comparava em sabor.

– Volturis não se alimentam de animais, por favor minha Princesa, é só sangue.

Isabella pegou o cálice da mão do Rei e olhou para o líquido escuro que refletiu seus olhos, o perfume do sangue humano lhe inebriava os sentidos, era diferente do sangue dos animais, era como beber de uma fonte doce que fazia o sangue de animais parecer água, sem gosto, sem vida... sem prazer. Ela olhou para Aro e viu que ele a olhava com entusiasmo. Estou me perdendo, pensou ela, não, tolice a minha, já me perdi completamente. Levou o cálice aos lábios e bebeu, a princípio com moderação e cuidado, mas bastou o sabor do sangue espalhar-se por sua língua para que o cálice fosse esvaziado quase que imediatamente.

– Você gostou? — perguntou Aro ansioso.

– Sim, eu poderia beber sangue estocado desta forma ao em vez de me ensinar a beber diretamente dos humanos correndo o risco de matá-los.

– Beber de humanos sem matá-los é muito útil, Isabella, é adquirir o poder de se controlar no meio deles sem ser obrigado a beber sangue de animais. Mas, enfim, até acostumar-se com isso eu não vejo problemas em beber sangue estocado, você quer mais um pouco?

– Um pouco – pediu Bella sem jeito, mas tomou avidamente o cálice que Aro lhe ofereceu.

– Tenho mais um presente, venha comigo, por favor – disse o rei pegando-lhe pela mão e afastando-se da tenda.

Aro caminhou pelo pátio ao sabor da brisa marinha, o sol faiscava sobre a pele cintilante e Isabella notou que ele estava bonito em seu terno cor de chumbo, a camisa era de um linho egípcio e imaculadamente branco. Pode não ser escancaradamente bonito, pensou Bella, mas tem esse ar elegante. Ele a conduziu até o parapeito rochoso de onde a vista privilegiada da costa abria-se em todo o seu esplendor, ali o vento era forte e desarrumou os cabelos de Bella, e só depois de tirá-los dos olhos ela notou que havia um pacote, uma caixa pequena, embrulhado em papel vermelho e delicadamente amarrado com uma fita verde.

– É para você – disse Aro repentinamente sério.

– Se for alguma joia tão cara quanto este castelo, Aro, está perdendo seu tempo.

– Abra-o, desconfio que possa se surpreender.

Isabella suspirou e pegou o pacote desembrulhando-o com cuidado, ao abri-lo encontrou um celular. Olhou para Aro com a dúvida plantada no olhar e isso fez com que o rei sorrisse.

– É para você ligar para seus pais – disse o Rei – Sei que deve sentir falta deles, depois do casamento e de tudo o que se seguir, você estará livre das obrigações de Volterra, poderá ir visitá-los e, também, ir até Carlisle para convidá-lo a ficar em Volterra com você e Alice. Pode ficar com seu pai ou sua mãe pelo tempo que achar necessário, eu sou velho e meus pensamentos são lentos, aprendi com os séculos que meses nada significam.

Isabella olhou para Aro e quando pensou em falar-lhe, palavra alguma escapou-lhe da boca. Ela esperava alguma coisa cara, estapafúrdia, voluptuosa, luxuosa e irrelevante, mas, entretanto, aquele celular revelava uma coisa que ela não esperava do Rei... aquilo era um gesto que demonstrava que Aro realmente se preocupava com ela.

– Você... me deixaria partir? — perguntou ela com cuidado.

– Não a quero presa o tempo todo em Volterra, Isabella, só deus sabe o quanto aquilo pode ser monótono a uma jovem mulher de sua idade, você estará sempre livre para sair quando quiser e pelo tempo que quiser. Fale com seu pai, avise que daqui a algumas semanas você estará com ele... você e Renesmee é claro. E quando estiver satisfeita com a visita poderá voltar para Volterra, uma Rainha tem suas atribuições também.

Bella segurou o aparelho entre as mãos, não queria sentir-se grata a Aro, afinal de contas, era por ele que ela estava ali tendo que ligar para o pai, mas inevitavelmente, incompreensivelmente e imprevisivelmente... começava a sentir afeição por aquele vampiro estranho.

– Você está aprendendo... Aro – sussurrou ela emocionada.

– Eu viverei para servi-la, Isabella – respondeu ele – E acho que finalmente fui capaz de surpreendê-la... de um modo bom, pelo menos.

Ele fez um gesto liberando-a de sua presença e dando-lhe permissão de sair e telefonar para o pai, Isabella afastou-se dele vagarosamente e sem se conter olhou uma vez para trás a fim de encará-lo, Aro a olhava com tranquilidade e com carinho. Seria Aro Volturi realmente capaz de amar? Pensou ela sentindo um arrepio percorrer-lhe o corpo.


Isabella titubeou por um instante antes de discar o número. Há tanto tempo não falava com os pais, como estaria Renée... como estaria Charlie depois de todos estes meses sem notícias? Os pais notariam pelo seu tom de voz que ela mudara? Depois que soubessem que Bella agora era Isabella e que a filha tornara-se rainha dos vampiros, uma classe poderosa de seres imortais, como reagiriam? Era certo que Charlie sempre mantivera lá no fundo de seu bondoso e fechado coração um resquício de mágoa de Edward, mas como reagiria sabendo que o genro fora morto e que ela agora casava-se com seu algoz?

Bella está morta, pensou consigo mesma, Bella morreu junto de Edward.

Após um segundo de indecisão, discou o número da casa de Renée e depois de uma longa espera a secretária eletrônica anunciou o pedido para deixar o recado, Bella desligou o telefone com uma mescla de alívio e decepção, tinha saudades da voz da mãe. Respirando fundo ela discou o número de Charlie, não sabia se era ou não seu dia de folga ou se estaria em casa ou dentro da viatura da polícia, e se seu coração batesse ainda, estaria ribombando no peito a cada sinal de chamada do telefone.

– Charlie Swan – disse a voz de Charlie do outro lado da linha. E naquele momento Isabella, Princesa e Rainha de Volterra, afogou um soluço de choro e sentiu-se como a menina que fora a dez anos atrás, assustada e temerosa, e ansiosa para poder esconder-se no seu quarto na casa de seu pai – Alô, tem alguém aí?

– Pai – respondeu Bella com a voz embargada e rouca – Sou eu.

– Bella? — repetiu Charlie e a voz dele soou baixa numa mistura de surpresa e susto – Meu deus, Bella, onde você está? Sabe a quanto tempo não tenho notícias? — e agora sua voz estava zangada e magoada.

– Eu sei pai, eu sei. Escute, não há como eu te contar tudo agora, mas vou visitá-lo em breve e então lhe explicarei tudo o que aconteceu.

– Me visitar? De jeito nenhum, onde está Nessie e Edward? Ou Jacob? Há meses a casa de vocês está vazia, nem Esme ou Carlisle ficaram aqui para me contar o que houve. Alice apareceu naquela tarde para que Renesmee se despedisse de mim e eu soube que havia algo errado, mas depois disso nem uma única informação. Nem mesmo Billy me conta muito, sei que houve uma luta entre o povo de vocês, vários meninos de La Push morreram Bella, eu vi seus túmulos, vi o lugar onde enterraram suas cinzas... vocês estão bem?

– Renesmee e eu estamos bem, Charlie – a voz de Bella parecia sair de um sonho – Houve uma batalha, houve muita coisa, mas eu quero que saiba que eu vou vê-lo daqui há algumas semanas e lhe contarei tudo, prometo. Você está bem?

– Se eu estou bem? — fungou Charlie contrariado – Minha única filha desaparece com toda a família e acha que eu estou bem? Tudo por conta daquele crápula do Edward Cullen, maldito o dia que aquele peste me apareceu nesta cidade... o que aquele mauricinho aprontou agora?

– Edward está morto, pai – disse Bella, ela parecia ter apenas atirado as palavras no ar, como se aquilo não fosse verdade.

– O que... como?

– Na batalha... nesta luta, Edward foi morto.

– Eu sinto muito, Bella – disse Charlie, sua raiva desfazendo-se como orvalho sob o sol – Você precisa me contar alguma coisa, eu vou ajudá-las, preciso de alguma forma fazer algo, como eu conseguirei ficar aqui sem vocês? E Jacob?

– Pai, eu preciso ir – disse Bella, ela não conseguiria contar mais nada mesmo que quisesse – Eu o verei em breve, prometo isso. Liguei pra dizer que te amo, que sempre o amei, que sentia sua falta todos os dias quando você e mamãe se separaram, e eu te amarei pra sempre pai... pra sempre.

– Amo você também filha – disse Charlie numa voz derrotada – Te amo desde o primeiro momento em que a vi. Fique bem Bella, e cuide de Nessie.

– Sempre cuidarei, eu entro em contato logo. Tchau Pai.

Ela desligou o telefone e olhou para o mar. Havia lágrimas queimando-lhe por dentro, lágrimas que jamais lhe brotariam pela face, ela levou as mãos ao rosto e afogou os soluços... tanto fora perdido e tanto ainda seria depois que ela se tornasse Rainha. Teria Charlie razão? Seria maldito o dia em que Edward Cullen voltara a Forks e condenara tantas pessoas a um destino cruel? Será que era este o peso que Edward sentia sobre os ombros? Ela tinha certeza de que teria uma vida simples em Forks, teria se casado com Jacob talvez e seria uma dona de casa, ou poderia ter aberto um pequeno negócio... mas seria humana e seria normal.

O destino é inexorável, falou para si mesma, uma força que a impeliu até ali naquele momento. Isabella recordou-se de todos os pormenores, de todo viés, de cada pequeno fragmento de acontecimento que a carregou até ali, até aquele castelo, onde se tornaria Rainha de um Rei. Rainha de uma nação imortal. Teria ela nascido, no fim, para se tornar um rainha? Teria sido o destino que fizera com que conhecesse Aro quando Edward fora a Volterra pra se matar? No fim o destino talvez não fosse Edward Cullen, mas Aro Volturi... talvez ela tenha se tornado imortal não por amor, mas para se tornar Rainha.

Sua mente rodava confusa, cansada, mas Isabella se recompôs. Tinha de se recompor, ela jogara fora a oportunidade que tivera quando Aro lhe ofereceu a Liberdade dos Volturi, mas ela negara por covardia, negara por não suportar ver a filha morrer. E agora Alice estava presa nas catacumbas e era sua responsabilidade tirá-la de lá... ela havia prometido isso a Alice e não faltaria com a palavra.

Ela sentia falta de Renée e de Charlie... e de Esme e Carlisle. E onde estariam Esme e Carlisle? Se a casa deles em Forks há tempos estava desabitada, significa que eles partiram, mas para onde? Para o Alasca talvez, refugiando-se na casa de Eleazar. Ou para muito longe, pensou Bella, para um lugar seguro, desistiram de nós, talvez.


Mas neste momento ela retornou a si e o som do mar e dos trabalhadores montando as tendas invadiu seu mundo fechado, o dia faiscava sobre sua cabeça e o céu imensuravelmente azul clareava também de azul o oceano gigantesco. E foi quando ela notou que Aro aproximava-se, agora já não sentia a súbita repulsa de sua presença, ela estava-se habituando-se a ele, acostumando-se ao homem responsável por sua desgraça.

Mas fora realmente Aro o responsável? Ou todas as suas escolhas a conduziram a este fim? Ela fora egoísta por querer se tornar imortal... talvez tivesse de ter esquecido Edward de uma vez por todas ao em vez de não suportar esquecê-lo. O que sentira fora amor profundo ou uma obsessão doentia? Agora, depois de tanta coisa, não conseguia distinguir, mas sabia que torcia para que tivesse sido amor, até mesmo por que, o amor consegue também ser completamente egoísta.

– Minha senhora Isabella parece triste, talvez o telefonema não tenha sido uma boa ideia? — perguntou Aro de forma comedida.

– De forma alguma, eu fiquei contente em ouvir a voz de meu pai – respondeu ela olhando para o mar – Mas me dói saber o quanto ele sofre por minha causa.

– Um pai sempre sofre pelo filho – disse o rei e sua face tornou-se sombria.

– Você já foi pai, Aro?

– Sim, você teve uma experiência transcendental sendo mãe de Renesmee, eu ao contrário transformei meu filho dando-lhe a vida imortal, mas isso não significa que o amei menos.

– E o que aconteceu a ele? — perguntou Isabella receosa.

– Arian está aprisionado nas catacumbas de Volterra a quase mil anos – disse o Rei e sua voz continha uma tristeza infinita.

Quase como um lampejo de contrariedade, Isabella pensou em censurar Aro, mas simplesmente não o fez, sempre havia algo por trás das ações dos Reis e todas as vezes em que ela tentara atirar certas coisas na cara de Aro, ele conseguira argumentar e contrapor sua opinião. Ao lado do Rei, Isabella percebera que sempre era afoita e que julgar sem antes ouvir era algo irresponsável, por isso olhou para o vampiro com atenção.

– E o que fez Arian para merecer isso? — perguntou-lhe com suavidade.

– Arian foi, e ainda é, o vampiro mais poderoso que este mundo já viu, Isabella – a voz de Aro era baixa e distante – Nasceu poderoso demais e com um coração volúvel demais. Arian era um guerreiro habilidoso, mas sua mente não focava na responsabilidade de se ter um poder tão grande. Ele simplesmente lutava pelo sabor das batalhas, e não por alguma coisa ou por alguém. Fora ele quem dizimou as hordas de lobisomens no leste europeu... sem Arian o mundo teria sido solapado por aquela peste, mas nós conseguimos manter o mundo dos homens em segurança uma vez mais graças a ele. Arian era um bom filho, eu e ele éramos amigos além de qualquer outra coisa. O pecado de Arian foi ter-se apaixonado pela sua Rainha, minha esposa... Bianca.

– Oh, os dois... — começou Bella, mas as palavras faltaram-lhe.

– Sim, Caius tinha a certeza de que Arian e Bianca pretendiam tomar Volterra para si mesmos. Arian, poderoso como era não teria dificuldades em nos destruir e tomar o trono para sua amada, Bianca, mesmo sendo minha rainha, tinha uma sede temível por poder, nunca me amou, acho que amava o Rei e não o Homem, amava o que eu era e não quem eu era. No fim, aprisionamos Arian depois de ele quase destruir a cidade e assassinar boa parte dos Mercadores da Morte, e para que Bianca sentisse a pena de seu amante, ela também fora selada lá. Para ser franco, eu deveria tê-los matado... Arian e Bianca, juntos, são um perigo grande demais. Arian por seu poder e Bianca por sua ganância de poder. Arian não serve para rei, é desligado demais de responsabilidades e Bianca não serviu para rainha pois sua sede de poder ultrapassava em muito o bem comum. É uma pena, ambos possuíam potencial suficiente para mudar o mundo.

Sempre sofrendo por amor, Aro, pensou Bella, traído pelo filho e pela esposa. Isabella sentiu um leve pesar pelo Rei, um homem que vivia para ordenar, punir e fazer cumprir as leis, sempre odiado e temido, e traído por duas pessoas que ele amava e confiava. Isabella, por mais que detestasse, deu razão a Aro, como seria o sentimento de ser traído assim? Não seria a toa que ele tornara-se desconfiado e sombrio, ela mesma se tornaria assim se Nessie a traísse desta forma... o Rei era feito de decepções e pela primeira vez Isabella teve consciência do peso sobre seus ombros.

– Eu sinto muito – disse ela.

– Milhares de anos vividos neste mundo, seria ingenuidade da minha parte pensar que eu passaria incólume e sem qualquer mágoa. Mas somos feitos de mágoas e alegrias, minha senhora, constituídos de coisas boas ou más e tudo o que merecemos é oriundo disso, sem sempre conseguimos fazer as escolhas certas, durante a maior parte do tempo escolhemos errado, mas não temos opção a não ser prosseguir. No fim das contas, como você mesmo disse, Isabella, somos feitos de poeira e vento.

– Poeira e vento – repetiu Bella – Você amou mais que odiou em todos estes anos, Aro?

– Odiei mais que amei – confirmou ele – Mas quem sabe isso mude agora.

– Você me ama? — perguntou ela, seus sentimentos estranhos mesclando-se entre desinteresse e apreensão. Mesmo sabendo que não amava Aro, decidiu que aceitava-o como era.

– É o mais próximo do amor que cheguei há muito tempo – disse ele com sinceridade – Talvez aprenda a amá-la cada dia mais. Ainda pensa da mesma forma? De que sou incapaz de amar?

– Não, não penso mais assim. Sei que é capaz de amar, assim como compreendo agora que há muita coisa a se pesar antes de definir o que é certo ou errado neste mundo de sombras, acho que você é complicado, no mínimo. Mas gosto de você como Aro e não como o Rei, como Rei você é angustiante demais.

– Com você sou apenas Aro, um homem antigo e que viu muita coisa. Você desnuda minha coroa, Isabella, desproposita meu trono e nubla minha visão de soberba, como isso aconteceu? Não sei. Em minha mente você sempre pareceu uma moça assustada e agora tornou-se uma mulher que apesar de frágil é forte como até então desconhecia. Mas eu jamais serei um rei para você, sempre serei apenas eu, mesmo este eu não sendo grande coisa.

– Eu acho esse seu eu melhor que o Rei – riu Isabella com naturalidade e nem se surpreendeu com isso.

– Você acha... que de repente... — começou Aro comicamente sem jeito – Eu poderia beijá-la?

Isabella encarou o vampiro e uma leve sensação ruim lhe tomou. Passarei a eternidade beijando Aro Volturi? E eu sonhava passar a eternidade beijando Edward. Mas este pensamento, porém, foi afastado de sua mente instantaneamente, Edward Cullen havia morrido e ela havia feito sua escolha, preferiu viver a morrer definitivamente, ser livre a passar a eternidade em uma cela. Era chegada a hora de matar definitivamente Bella Cullen.

– Meu Rei pode beijar-me sempre que desejar – respondeu ela por fim.

– Seu Rei não quer beijá-la, Isabella, eu quero... o homem que vive por baixo do Rei.

– Acho que não há mais necessidade de ficar pedindo-me isso, Aro – disse Isabella e então, sem sentir, sem imaginar como aquilo soaria, natural e instintivamente ela lhe lançou um sorriso maroto e sorriu com clareza – Mas não agora, há pessoas demais vendo, um Rei e uma Rainha não se podem ficar beijando em público desta maneira.

– Sim, tem razão – respondeu Aro com um sorriso esfuziante no rosto – Então quando?

– Depois... a noite, quando viremos até aqui para o teste da iluminação, terá menos pessoas.

– A noite é muito tempo, Isabella.

– Então antes que o dia termine... — respondeu ela afastando-se dele com um olhar significativo.

– Antes que o dia termine, não se esqueça – gritou Aro antes de ela desaparecer entre as tendas.


Os que viam aquela vampira caminhando entre as tendas compreenderam que era a Senhora do lugar. Os vampiros sabiam que tratava-se de sua futura Rainha, o porte de Isabella não deixava dúvidas.


Edward Cullen havia morrido.

E Bella Cullen teria de morrer também.


Restaria apenas Isabella Volturi.


Rainha de Vampiros.

Rainha de Volterra.