Candor Lunar - Livro 2
20 Capítulo 19 – Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal
Notas iniciais
Agradecimentos para dan, amando, Isabella Black e Jessie Monique Angel que gentimente recomendaram a fic. Obrigada pelo carinho meninhas. ;)
Curtam o episódio!
Os primeiros raios de sol lançavam lâminas luminosas através do translucido vidro da janela; Bella sentia o perfume leve e jovem dos cabelos de Renesmee que ressoava pesadamente envolta em seus braços. Com seus olhos de vampira, Bella conseguia observar, como em câmera lenta, uma miríade infinita de pequenos flocos de poeira navegando suspensos pelo ar, iluminados pelos feixes de luz.
Alice sentava-se em uma cadeira alta com um livro aberto nas mãos, mas seus olhos passeavam pelos céus e seus pensamentos estavam distantes. Já fazia quase quatro dias que Nessie apenas dormia no quarto de Alice, levanta-se a contragosto para tomar banho e se alimentar com o sangue que um servo trazia... tirando isso, o trauma que Jane lhe imputara a obrigava a dormir boa parte do tempo a fim de esquecer onde estava.
Com cuidado, Bella se levantou e piscou para Alice, sua cunhada lhe sorriu de leve e assentiu, ela permaneceria com a menina adormecida enquanto Bella regressaria aos aposentos para trocar de roupa. Parecia que a pompa dos Volturi ultrapassava até mesmo o gosto de Alice por trocas de roupas, Aro não admitia que as duas jovens princesas de Volterra trajassem o mesmo vestuário por dias seguidos.
Não houve troca de palavra entre as duas. Alice permanecia taciturna servindo a Marcus em boa parte do tempo enquanto Bella, por sua vez, era obrigada a permanecer ao lado de Aro; as duas Cullen agora tinham certeza de que haviam se precipitado em jurar lealdade aos Volturi, não havia brecha alguma como Alice planejou no princípio.
Alias parecia que agora, como princesas, as duas eram ainda mais observadas, agraciadas e... desejadas. Em três dias Alice recebera nada menos do que três propostas de casamento por parte dos senhores vassalos de Volterra, o próprio Lorde Protetor de Veneza permaneceu em pessoa após o banquete somente para cortejar Alice. Mas Marcus, graças aos céus, desconversou o Lorde afirmando que ainda era cedo para casá-las uma vez que haviam jurado lealdade aos Volturi não fazia nem uma semana.
Bella descobriu que era normal os Três transformarem moças formosas e bem nascidas em vampiras apenas para casá-las com os Lordes Vampiros a fim de reforçar
os laços entre Volterra e seus servos. Bella ficara impressionada com mais esta jogada política dos Volturi, parecia com os reinados de antigamente onde o pai casava as filhas com príncipes e lordes a fim de ter uma relação mais forte com reinos mais poderosos.
Por motivos óbvios, nenhum outro vampiro tentou se aproximar de Bella.
Seu quarto ficava vários metros acima em uma torre que mais parecia um pináculo; ao entrar, a luz banhou a pele de Bella que resplandeceu como um diamante bruto. Preguiçosamente ela foi até o seu closet e escolheu mais um pomposo e luxuoso vestido verde claro que fora colocado ali para ela usar. Era um bonito vestido, mas Bella sentia falta de suas calças jeans.
Nua, olhou-se no espelho e viu o que sempre via: uma garota esguia e sem curvas... Bella nunca fora dona de curvas insinuantes como Rosalie ou Alice, mas gostava do modo como seu busto se aconchegava em forma de gota em seu colo... ficou se perguntando o que Aro vira nela no fim das contas. Primeiro Edward, que fora o garoto mais misterioso e bonito do colégio, agora um Rei? Ela não se considerava uma garota feia, mas era normal até mesmo para os padrões dos vampiros, então por que será que homens como Edward e Aro lhe deitavam tanto interesse?
Ela escovou os cabelos e deixou-os soltos sobre os ombros, o vestido era comprido, mas seu decote escandaloso descia aberto quase até o umbigo e Bella ficou se olhando e imaginando como poderia conseguir andar com aquilo o dia todo sem que seus seios saltassem para fora da roupa. Ela decidiu que descobriria quem era o responsável por vesti-las e pediria algo no mínimo mais Vitoriano.
Estava ali, perdida em pensamentos quando uma leve batida na porta lhe afastou dos devaneios, em seguida, o vampiro mais velho que Bella já havia visto entrou pela porta trazendo consigo um cálice de sangue quente.
- Alteza – disse o velho – Os cumprimentos de mestre Aro.
- Sangue de...? – perguntou Bella.
- Um garanhão, senhora – respondeu o vampiro – Andaluz é a raça, muito forte e encorpado, é um orgulho nos estábulos de Volterra.
- Oh meu Deus, vocês não mataram o pobre animal apenas por...
- Não, não – apressou-se o velho – Foi lhe tirado apenas esta quantidade, o animal está bem, Mestre Aro mandou apenas para a senhora degustar como café da manhã.
Bella tomou a taça quente em suas mãos e bebericou rapidamente o sangue do cavalo, tinha um gosto realmente mais forte que o dos cervos ou animais silvestres que vagavam pela região de Forks... havia uma vivacidade quente naquele líquido groso e fibroso. E Bella acabou tomando o resto num só gole... sangue era sangue.
Quando terminou voltou a observar o vampiro a sua frente, era mais baixo que ela e caminhava com as costas eretas, tinha um porte altivo e a barba era alva como a neve do inverno. Seus olhos eram de um vermelho opaco e sua expressão era serena e terna, tinha o rosto bondoso e indicava que sob todas aquelas rugas e marcas de expressão fora um jovem belo no passado. “Eu jamais vi um vampiro tão velho”, pensou Bella e no momento em que o pensamento passou sua mente ela se recordou que há muito tempo atrás Garret lhe falara sobre um aliado que tinha dentro de Volterra... um velho vampiro que conhecera durante uma de suas andanças pelo mundo... um ancião que servia aos Três Reis de Volterra.
- Eu nunca o vi antes – começou Bella.
- Eu sirvo apenas à Realeza da Casa Volturi, minha senhora, às rainhas, princesas, príncipes, barões, lordes... enfim, aos Três e somente a quem mais eles me designarem.
- Seu nome?
- Ícaro, senhora. Ícaro de Samos.
- Mas você é...?
- Um servo leal de meu mestre Aro – respondeu o velho com um olhar inquisidor e cheio de significados. Ele era o velho que Garret conhecia e que havia passado informações sobre o paradeiro dos Volturi no passado, era o vampiro que auxiliava Heidi na tarefa de capturar presas.
Mas, por motivos óbvios, ele não poderia dizer isso a ela, afinal, se Aro descobrisse que o velho Ícaro era um depreciador dos Volturi... o pobre velho seria desmembrado.
- Claro – respondeu Bella – É um prazer conhecê-lo.
- O prazer de servi-la é meu, senhora – disse o velho numa meia mesura, mas seus olhos estavam tristes e brilhavam num tom de desculpas por tudo o que acontecera a elas.
- Ícaro, já que você passa grande parte do tempo servindo a corte... teria alguma informação sobre nossas famílias? – perguntou Bella, era a primeira vez que ela ousava tentar saber alguma coisa dos que restaram em Forks.
Por um segundo o velho baixou o olhar e Bella sentiu um dedo gelado ziguezagueando por suas cotas, naquele olhar desviado ela viu a resposta que há dias, semanas e meses tentou evitar. Mas a verdade é inexorável, não importa quanto você se esquive dela, não importa quanto tente não crer... a verdade é como uma lança aguçada e sempre irá lhe ferir.
- Receio que as notícias não são boas, alteza – Ícaro disse em tom arrastado – Pensei que a senhora já tivesse consciência dos fatos, é uma pena que tenha que ser eu a lhe informar isto, mas os únicos sobreviventes foram o casal Denali, Carlisle e a esposa e parece que uma dezena dos lobos que lhes auxiliaram na batalha.
Bella sentiu suas pernas fraquejarem e por pouco ela não errou a cama, o vampiro a auxiliou e fê-la sentar-se sobre o colchão macio. “Estão mortos” pensou Bella, “Edward... Jacob e Jasper estão mortos, mortos como Emett e Rosalie”. Ela engoliu um soluço de dor e desespero, no fundo ela sabia que eles estavam mortos... mas por que motivo seu coração teimava em lhe dizer o contrário?
- Você tem certeza?
- Foi o General Flávius Aurélius quem confirmou a informação. Segundo ele, seu marido foi derrotado por Felix; Jasper Hale morreu pelas mãos dos Mercadores da Morte e Jacob Black caiu ante a lança do próprio General.
Bella não acreditou nas palavras do velho, mas um segundo depois as lembranças varreram sua mente com a força de um tsunami; ela vira Edward se embrenhar na mata com Felix e apenas o Volturi voltou de lá; ao mesmo tempo enquanto ela, Nessie e Alice eram arrastadas do campo de batalha, Jasper estava cercado por uma dezena de vampiros enquanto tentava proteger o pequeno Quilan. E todos viram quando Jacob fora transpassado pela lança de Flávius Aurélius... ela ouvira seu coração deixar de bater enquanto o lobo dava forma ao humano.
Sim, Ícaro de Samos tinha razão.
- Eu sinto muito, minha senhora – disse ele, mas nada do que dissesse faria diferença, nada do que qualquer um dissesse mudaria o fato de eles estarem todos mortos.
Bella afogou um choro que não surgiria. Não disse qualquer palavra ao velho Ícaro, apenas saiu do quarto sentindo sua visão embaçar; suas pernas pareciam feitas de geleia e com muito custo conseguiu descer apenas um dos lances de escada em espiral da torre. Precipitou-se pelo corredor errado um andar acima de onde Alice se encontrava e ali se deixou cair no chão duro de pedra; nem mesmo o carpete velho e mofado parecia ser capaz de protegê-la no frio que emanava da rocha... mas Bella sabia que aquele frio era oriundo de sua própria alma.
- Alice... – chamou Bella sem voz rogando para que a irmã a escutasse – Alice, por favor... venha até aqui.
E um segundo depois os braços de Alice a envolveram erguendo-a gentilmente do chão, Alice foi obrigada a sustentar o corpo de Bella, pois as pernas da vampira teimavam em não conseguir se firmarem sozinhas.
- Bell, o que houve? – perguntou Alice assustada.
- Um servo de Aro me visitou hoje... um vampiro velho chamado Ícaro.
- Espere, não é este o vampiro que...
- Serve Aro – reforçou Bella para que Alice compreendesse que a informação não podia ser verbalizada — Eles estão mortos Alice. Estão todos mortos... Edward, Jasper... Jacob.
- Do que está falando?
- Flávius Aurélius confirmou a informação. É por isso que até hoje Aro, Caius e Marcus nunca se importaram de mandar alguém a Forks, só Esme e Carlisle ficaram vivos, Garret e Kate e alguns lobos... mas Edward, Jasper e Jacob...
- Não pode ser – declarou Alice deixando Bella e tombando contra a parede oposta tentando em vão fazer com que suas pernas sustentassem o corpo.
As duas vampiras, sem qualquer apoio, deslizaram para o chão e ficaram ali encarando a outra, lendo nas expressões que faziam o desespero e a dor, contando lágrimas imaginárias ao descobrirem que seus maridos, seus amores, seus companheiros... haviam tombado durante a batalha.
Alice parecia mais pálida que de costume e Bella mantinha um olhar vidrado e morto, ali, naquela torre, naquele corredor vazio, elas partilhavam a dor da perda. A notícia agora caía como um meteoro em suas cabeças, ninguém viria salvá-las, elas realmente estavam sozinhas... e o plano havia afundado completamente. As duas sempre trabalharam com a esperança de que o que restara de sua família viria atrás delas para resgatá-las, ou, no mínimo, unir-se a elas numa escravidão eterna.
Mas agora este fiapo de esperança havia sido também sepultado.
- É uma jogada deles – disse Alice.
- Não... Ícaro não teria motivos para mentir, você sabe disso.
- Mas Bella.
- Nós ouvimos o coração de Jacob parar de bater, Alice. Eu vi quando apenas Felix deixou a floresta... e Jasper estava cercado por uma dezena de Mercadores da Morte...
- Eu não posso acreditar que Jasper tenha...
- Eu também não.
- O que faremos agora?
- Eu não sei – respondeu Bella encarando a irmã.
As duas permaneceram ali durante um bom tempo, olhando uma para o rosto da outra, compartilhando uma tristeza profunda, dividindo aquele buraco que se formou em seus corações. A perda por si só era terrível, mas também a certeza de que jamais deixariam Volterra e jamais tornariam a ver seus amores... isso minou completamente a vontade de ambas... suas forças estavam exauridas, sua resistência havia sido destroçada. Seus corações partidos.
- Não podemos contar a Nessie por enquanto.
- Mas Bella, ela tem de saber.
- Ela está muito frágil, Alice. Não posso expor minha filha a mais esta tragédia, ela não aguentaria, Nessie enlouqueceria se soubesse que Jake partiu.
- Então manteremos segredo por enquanto?
- Sim, por enquanto. Até ela estar recuperada.
- Eu não acredito que Jass se foi...
- Eu não quero acreditar nisso também, Alice, mas a verdade é que estamos perdidas... completamente perdidas.
Então a verdade pesou sobre seus ombros. Uma verdade amarga como fel. Além de terem perdido as pessoas que amavam, além de terem sua família destruída... Alice e Bella agora eram princesas de Volterra. Princesas e servas daqueles responsáveis por terem destruído tudo o que amavam. A morte seria bem recebida neste momento, mas as duas sabiam que não ganhariam esta liberdade, ao em vez disso, seriam presas nas masmorras para sempre caso decidissem romper seu juramento.
- Há algum motivo para permanecermos vivas, Bella?
- Você – respondeu Bella – Quill e Nessie são meus motivos para permanecer viva, eu não quero Renesmee presa em uma masmorra para todo o sempre, ainda tenho meu pai e minha mãe e você ainda tem Carlisle e Esme... talvez nós devamos entrar em contato com eles para que se unam a nós aqui.
- Você quer trazê-los para cá?
- O que eles têm agora, Alice? O que restou a Carlisle e Esme se não uma casa vazia repleta de fantasmas? Aqui ao menos eles teriam você e eu, teriam a neta. Seriam tratados com honra pelos Volturi... nós não temos mais escolha Alice.
- Você está se entregando? – sussurrou Alice desesperada.
Mas Alice não precisava da resposta, os olhos de Bella já lhe diziam a verdade: o plano falhara espetacularmente. Com seus maridos mortos, com sua família despedaçada, ninguém viria até elas... a esperança lhe pregara uma peça mortal e agora elas teriam de se virar com o que o destino lhes dera: migalhas.
- Não posso permitir que Nessie passe a eternidade presa enlouquecendo de sede e de solidão, Alice – disse Bella com um olhar vidrado e distante – Nós perdemos. Perdemos tudo... só nos resta nossas vidas agora.
Por um segundo Alice pensou em protestar, mas então ela sentiu seu próprio olhar pesar e assumir um tom de derrota; Bella tinha razão, elas haviam perdido. A morte lhes seria algo maravilhoso nesta etapa dos acontecimentos, mas morte significaria liberdade e isso era uma coisa que os Volturi jamais lhes dariam. A prisão perpétua seria dolorosa demais, viver para sempre com sede remoendo pensamentos e lembranças... uma prisão eterna era tão pior do que servir aos reis que destruíram sua família.
- Só restou nossas vidas – ela repetiu tristemente.
Bella ergueu-se com dificuldade e ofereceu a mão para que Alice se ergue e quando o fez, ela soube que havia levantado como uma viúva; assim como Alice... assim como Nessie.
O problema maior que Bella e Alice enfrentavam agora, além das suas perdas descomunais, era conseguir convencer Renesmee de que não tinham escolha a não ser servirem aos Volturi. Era isso ou passar a eternidade presas. Bella se preocupava com a reação da filha quando ela descobrisse que o noivo morreu na batalha.
Mas Bella agradeceu por Renesmee continuar dormindo quando voltou ao quarto de Alice, e a menina permaneceu assim por toda a tarde até que a noite começou a se insinuar... só então ela lentamente abriu seus olhos e percebeu a mãe sorrindo para ela, deitada na cama ao seu lado.
- Sabe, se continuar dormindo assim, você será a Bela Adormecida do castelo – riu Bella tentando parecer normal, mesmo que seu sorriso tenha tremido um pouco.
- Eu gostaria de acordar e não estar aqui, às vezes antes de abrir os olhos eu imagino que despertarei no meu quarto, em Forks, e que tudo não passou de um pesadelo horrendo – disse Nessie sentando-se na cama.
- Eu sei querida, eu sei, mas se serve de consolo... ao menos você tem a vantagem de poder dormir, pior sou eu e sua tia que somos obrigadas a permanecer acordadas o tempo todo.
- Seria muito vantajoso dormir para sempre, mas, enfim, como conseguiu me manter em paz e isolada este tempo todo no quarto sem que viessem me hipnotizar para fazer o trabalho sujo de Caius?
“Porque eu e sua tia juramos lealdade aos Volturi”, pensou Bella, mas não disse nada, elas não haviam contado esta parte a Renesmee e isso era outra ponta de preocupação a torturar Bella. Um dia ela não teria escolha e quando Renesmee despertasse de uma noite de sono ela teria de lhe contar que Jacob morrera e que a mãe agora era uma princesa de uma cidade de vampiros.
- Bem, eu dei um jeito e é isso o que importa. Você quer sair um pouco? Tomar um ar?
- Não, de jeito nenhum. Prefiro ficar aqui no quarto de Alice mesmo... sinceramente mãe, se eu pudesse não sairia mais daqui.
- Renesmee, você não pode se deixar abalar... eu já dei um jeito em Jane e ela não vai mais chegar perto de você. E, além disso, estou negociando sua alforria completa dos poderes de Chelsea.
- Sério? – e pela primeira vez Nessie ensaiou um sorriso.
- Sim, claro – respondeu Bella – Vou tentar pedir isso mais uma vez a Aro daqui a pouco.
- Eu não gosto de vê-la tendo que pedir favores a Aro Volturi, e por que você tem que ficar toda noite com eles agora?
- É o jogo dos tronos, Nessie. Não temos escolha a não ser dançar conforme a música... mas quero que se lembre de uma coisa, está bem? Tudo o que eu faço, faço por você.
E mãe e filha se abraçaram com força enquanto as estrelas despontavam no céu escuro da Itália, Bella segurou Nessie em seus braços numa tentativa de fazer com que a menina compreendesse os seus atos... que ela entendesse as loucuras que haviam sido feitas só para mantê-la em segurança.
- Vai ficar no quarto de Alice mesmo? – perguntou Bella deixando um beijo no rosto da filha e se erguendo da cama.
- Sim, vou aproveitar e ler o livro que tia Alice deixou aqui... com sorte ele me dará mais sono e eu esquecerei de toda esta loucura por mais algumas horas.
Os corredores eram os mesmos, assim como os vasos imensos e caríssimos da era Ming chinesa; os quadros renascentistas, a tapeçaria persa, as tochas de bronze com suas chamas tremeluzentes se insinuando para a escura pedra que cobria o chão luzidio. Os candelabros do teto com suas dezenas de velas a bruxulear pelo espaço ocioso, a luz monótona e as sombras esguias que dançavam pelas paredes... tudo isso era o mesmo de sempre, mas Bella, agora, as considerava diferente.
Ela sentia como se tudo em Volterra lhe parecesse subitamente familiar... mas também sabia que isto não se dava a uma repentina simpatia com o lugar, para ela, o castelo ainda parecia uma prisão mesmo que agora pudesse andar sozinha por todos
os lugares; apenas sentia que de forma inexorável ela estava enredada com aquele lugar... o lugar onde passaria o resto da eternidade.
A porta dupla do salão dos tronos estava aberta, ao passar os dois sentinelas fizeram uma reverência para ela, uma princesa sempre era reverenciada ali, mas Bella nunca se adaptaria àquilo... receber reverência não era seu estilo. Para sua surpresa, boa parte da guarda pessoal estava reunida próxima aos tronos: a ereta Chelsea, Jane com seu olhar assassino para Bella (o rosto da vampira menina ainda mostrava marcas do golpe que recebeu), Felix com seu ar desinteressado, o grande Santiago silencioso como uma sombra, Renata sempre levemente preocupada e Heidi... linda, estatuesca, e com um olhar prepotente sobre todos.
Os três reis sentavam-se em seus respectivos tronos, Aro no centro um pouco a frente de Caius à sua direita e de um sonolento Marcus acomodado à sua esquerda. Alice estava em pé, com as vestimentas da guarda real, logo atrás do trono de Marcus. Bella entrou sem dizer palavra, e tão silenciosa quanto o vento noturno, subiu elegantemente os degraus para o tablado superior colocando-se imediatamente atrás do trono de Aro.
- Está especialmente bela hoje, Isabella – disse Aro de forma sutil para ela.
- É gentileza sua, meu mestre Aro – respondeu Bella baixinho.
Aro havia feito seu gracejo sem desviar os olhos do centro do salão, mas à resposta de Bella foi obrigado a virar o rosto em direção a vampira... e nisso houve uma ruga de estranheza na pele antiga e imaculada do Rei, ele estranhou particularmente o tom de Bella: o desafio sempre constante em suas palavras não estava mais ali... a voz de Bella lhe soou incomodamente servil.
- Estamos para receber um visitante ilustre, minha querida – disse Aro por fim – O senhor Guilhermo Pizzano, o atual prefeito de Volterra.
“Claro” pensou Bella consigo mesma. Afinal, Volterra não era constituída apenas do La Tana del Re, o palácio da cidade onde todos os vampiros da cidadela moravam, não, muito mais do que uma representação, mais do que uma máscara, Volterra era uma cidade de verdade onde pessoas comuns moravam neste que era um dos cartões postais mais elegantes da Itália. Para os olhos do mundo todo Volterra era uma cidade turística com suas ruelas antigas, suas praças e fontes românticas... caminhar por Volterra transportava seus visitantes para um Itália do século XV, um
estilo medieval e saudosista. E, obviamente, a lei dos homens e dos governos italianos deveria se fazer presente... mas Bella não ficou surpresa de que o Prefeito da cidade de Volterra estivesse ali para visitar os Reis, muito provavelmente, os Três controlavam a política da cidade através de suas marionetes humanas. Guilhermo Pizzano seria apenas mais um destes fantoches.
Passaram-se apenas alguns minutos até que a porta do salão se abriu para dar passagem a um homem baixo e roliço que gingava seu corpanzil de forma bamboleante e deselegante. O rosto redondo e vermelho estava banhado em um suor viscoso e o pescoço se ausentava sob uma camada tripla de papada caída, os olhos porcinos do homem olhavam temerosos para cada um dos vampiros ali presentes. Agora Bella compreendera o porquê de toda a guarda Volturi estar presente: o pobre homem parecia visivelmente aterrorizado.
- Signore Sindaco, al quale dobbiamo l'onore della vostra presenza? – perguntou Aro com um sorriso venenoso nos lábios, o sorriso que Bella já se habituara a ver quando o Rei se encontrava com outros vampiros inferiores ou humanos.
Aro Volturi era uma criatura estranha e Bella não o compreendia, parecia um cavalheiro antigo quando estavam a sós, mas no momento em que era obrigado a incorporar o Rei, Aro mudava totalmente sua personalidade. Então Bella se perguntava quem era o Aro que ela convivia a contragosto? Quem era a máscara? O Rei ou o vampiro educado?
- Una cosa terribile, mio Re, Un delitto efferato tra le mura delle vostre signorie – respondeu o pobre homem tremendo da cabeça aos pés.
Ali, sozinho, no centro do salão, ante todos aqueles vampiros, o Prefeito parecia um pequeno e assustado menino roliço e Bella sentiu pena dele. Pelo que ela pôde compreender da conversa em italiano que os reis e o homem trocavam, algo muito grave havia acontecido nas ruelas mais baixas da cidade.
Volterra, como qualquer cidade murada que outrora fora um Reino, mantinha seu ponto mais alto como o lugar mais fortificado, no caso, a La Tana del Re. O castelo dos Reis erguia-se absoluto no alto de uma colina e toda a cidade o rodeava descendo suas construções antigas pelo declive, espalhando-se de forma circular e ampliando-se
gradativamente até os muros altos que cercavam tudo. A cidade parecia como uma onda circular causada por uma pedra no espelho d’água da superfície.
As partes mais baixas eram justamente aquelas mais próximas da muralha que era, por si só, muitos metros mais alta do que os muros que cercavam o próprio castelo dos Reis. Ali era muito escuro e frio e parte das pessoas mais humildes residia no que era chamado de strade dimenticate, ou ruas perdidas. Havia mendicância em Volterra, assim como pequenos furtos e transgressões, tudo isso supervisionado de perto pelos Volturi, eles não desejavam que Volterra parecesse uma cidade perfeita e este tipo de coisa poderia atrair atenções indesejadas.
Mas o que acontecera ali fora muito mais grave. O Chefe de Polícia foi ter com o Prefeito pela manhã com uma notícia que ainda não havia chegado aos ouvidos dos Volturi, dois rapazes haviam agredido e estuprado duas estudantes que moravam na parte baixa da cidade. Estavam voltando bêbados de uma festa logo que o dia raiou e encontraram as estudantes indo para o colégio, para piorar, as meninas eram irmãs e menores de idade.
Bella, como mãe, sentiu a repulsa afogar-lhe a garganta, e Alice a encarou com o mesmo asco no rosto, mas a expressão de Aro era sombria e em seus olhos uma fúria fria queimava rubra e intranquila. Era a mesma expressão que assumiu quando Bella teve que dar explicações aos Reis por ter golpeado Jane... quando Aro descobriu o que Jane fizera ele a proibira terminantemente de encostar em um único fio de cabelo de Nessie sob a pena de ser punida com muito mais severidade.
Apesar de não estarem propriamente enfurecidos com o destino das duas adolescentes, os Três primavam pela ordem acima de tudo dentro dos muros da cidade e do seu palácio. Crimes como este eram intoleráveis.
- Felix si prenderà cura di esso. C'è qualcos'altro, Sindaco? – disse Aro numa voz venenosa.
- No, signore – respondeu o prefeito tremendo da cabeça aos pés, ele fez uma reverência desajeitada e saiu escoltado por Heidi e tropeçando nos próprios pés.
- Portare vivi, Felix – disse Aro se dirigindo à Felix. O imenso vampiro deslizou silenciosamente pelo salão e havia um sorriso assassino desenhando-se em seu rosto.
Aro disse vivos... não inteiros.
Não houve mais assuntos naquela noite, por um tempo os Três permaneceram em silêncio em seus tronos conjecturando com a quietude do salão e de seus servos. “Este lugar parece um túmulo” pensou Bella, “E de fato é. Afinal, estamos todos mortos. Um bando de mortos a passar a eternidade sob o serviço dos Três Reis em uma cidadela de vampiros”.
Aro levantou-se de súbito e deu um passo em direção aos degraus, ele voltou-se para trás encarando Bella.
- Per favore, Isabella, acompanhe-me.
- A questão de Angelina, irmão? – perguntou Caius em voz baixa.
- Deixe-a para amanhã quando Felix voltar com os garotos, teremos dois julgamentos e, com isso, economizamos tempo. Manteremos Angelina presa até amanhã, ela não tem pressa para ser julgada por seu crime.
Caius não respondeu, limitou-se a se erguer de seu trono e deixar o salão em seus passos flutuantes e silenciosos, ele dispensou com um aceno Renata, Jane e Santiago e enquanto Bella seguia Aro para o lado exterior do castelo apenas Chelsea e Alice permaneceram ao lado de Marcus.
Passaram-se vários minutos desde que Bella havia deixado o salão com o Rei quando finalmente Marcus acenou para que Chelsea e Alice partissem.
- Vão, minhas crianças – disse ele numa voz farfalhante que apenas os apurados e sobrenaturais ouvidos das vampiras foram capazes de captar – Vão aproveitar a juventude de seus anseios e permitam que um velho vampiro permaneça sozinho remoendo suas lembranças.
Silenciosamente, Alice e Chelsea deixaram o Salão dos Tronos e precipitaram-se para fora, caminharam juntas pelo espaço de um corredor; Alice sentia a presença fria e nada amigável de Chelsea e seu coração se comprimiu ainda mais por falta de seu marido e por não ter ninguém com quem poder conversar durante a noite uma vez que Aro sequestrou Bella mais uma vez.
Mas foi aí que teve um súbito desejo.
- Chelsea – Alice chamou no momento em que a vampira havia desviado para um corredor lateral e já se afastava – Onde encontro Matheu?
- Matheu? – estranhou Chelsea, mas em seguida uma centelha de entendimento se fez em seu rosto – Sim, Matheu, ele é o Cavaleiro do Portão Leste. Irá encontrá-lo lá. Basta atravessar o Jardim do Bem e do Mal.
- O Jardim do....?
- O local de descanso de Caius.
- Obrigada, Chelsea.
A vampira assentiu e então seguiu seu caminho sem mais palavras com Alice.
Os Três Reis viveram muito tempo e suas experiências de vida às vezes precisavam ser repassadas em suas mentes em locais mais calmos do que a vida do castelo. Para tanto, há muito tempo atrás eles criaram para si um intrincado sistema de Jardins... o de Aro era esplendidamente ornado com estatuas esculpidas por Miguelangelo, estufas de rosas, canteiros de begônias... fontes, muros cobertos por heras e trepadeiras sempre-verdes, além de uma miríade de portais e pequenos pórticos na ala sul do palácio. Chamavam esta área de o Jardim dos Campos Coloridos.
Os jardins de Marcus, por sua vez, refletiam exatamente seu estado de espírito. Era conhecido como os Jardins dos Lamentos, pois seus muros estavam desabados em montes de entulhos e as colunas em estilo grego jaziam ao solo quebradas e cobertas por uma camada de musgo úmido. As flores que ali cresciam eram oriundas das plantas daninhas, as flores belas de narcisos e copos de leite foram esganadas pelo mato e as árvores não eram podadas tornando-se um emaranhado de verde sombrio e triste. Dizem que Marcus havia construído este lugar em homenagem à sua esposa Didyme que adorava copos-de-leite, antigamente, quando Didyme vivia, o Jardim era conhecido como Recanto do Silêncio. Mas desde que ela morrera o jardim foi abandonado, assim como a felicidade de Marcus.
Mas o mais extraordinário deles era, sem sombra de dúvidas, o Jardim do Bem e do Mal de Caius. Toda a parte leste do Castelo era tomada por um campo verdejante de grama baixa e aparada... não havia canteiros de flores nem estatuas, ou pórticos ou portais, ou colunas ou muros. Era apenas um gramado absurdamente reto e deliciosamente macio, corria por centenas de metros quadrados e tão perfeito que a grama parecia na verdade um tapete de veludo. Não havia luminárias ali, somente a luz das estrelas banhava o lugar. Apenas no centro do Jardim fechava-se uma cerca
natural onde um espelho d’água sorria para o céu noturno refletindo tudo ao seu redor.
Bancos de mármore branco rodeavam o pequeno lago que era cravejado de pedras redondas e polidas em seu fundo, ao redor, milhares de flores de jasmim cercavam tudo com uma tonalidade impressionante... brancas nas bordas e douradas no centro. Parecia uma constelação faiscante que apenas ornava ainda mais aquele lugar fantástico.
Era um campo de gramado perfeito e no centro apenas o lago imaculado, seus bancos como nuvens alvas, e os jasmins florescendo em cor viva. Ali Caius chamou de o Jardim do Bem e do Mal, pois, segundo ele, o silêncio era tão profundo que qualquer homem, vampiro ou não, conseguia ouvir sua própria alma.
O portão Leste do castelo abria-se imediatamente do lado oposto do Jardim do Bem e do Mal e Alice resolveu cruzar pelo gramado aveludado a fim de cortar caminho. O orvalho da noite já começava a formar-se vagarosamente na grama verde e as estrelas cintilavam solitárias pelo céu noturno, a vampira movia-se em total silêncio e somente quando se aproximou um pouco do centro foi que percebeu duas formas escuras contemplando o lago-espelho do Jardim.
Bella e Aro.
Por um instante, um instante muito rápido, Alice pensou de ouvir o que o Rei e a Princesa conversavam, mas decidiu que seria muito ruim caso Aro percebesse sua presença ali, provavelmente ele ficaria furioso em ter sua intimidade compartilhada com alguém mais que não Bella...
Então, finalmente, apressou o passo rumo ao portão leste e desejou boa sorte a irmã, ela não sabia agora o que Bella faria com as investidas de Aro, antigamente elas tinham um plano e a aproximação de Aro era parte deste plano, mas agora, com sua família desfeita e seus maridos mortos... de que serviria um plano falido e a paixonite de Aro por Bella?
Mas Aro não percebeu a presença próxima de Alice. Ele havia conduzido Bella até o jardim do irmão sem emitir qualquer palavra, apenas caminhou em silêncio sob o céu noturno seguido de perto pela princesa. Mesmo entristecida, Bella ficou surpresa
uma vez mais pelos encantos que o palácio de Volterra escondia, ela já havia escutado rumores sobre o jardim de Caius, mas, ali, diante do lago-espelho, sua respiração ficou presa no peito diante de tamanha e delicada beleza.
O Jardim do Bem e do Mal realmente era algo único na face do mundo, era quieto, como se o som de qualquer tipo tivesse sido proibido de entrar em seus domínios, apenas o sibilo murmurante da brisa noturna era ouvido enquanto passeava com seus dedos aéreos em meio aos jasmins infindáveis. O perfume das flores pairava doce pelo ar e o espelho da superfície do lago não era incomodado por nada e dormia deitado sobre a campina como uma imensa gota de mercúrio líquido.
O silêncio não incomodava Bella, ela observou Aro enquanto o vampiro ancião admirava as estrelas distantes e notou que aquele Rei era um Rei diferente do que estava presente no Salão dos Tronos instantes atrás, este era um vampiro antigo, sábio e um tanto quanto... solitário. Aro havia deixado a máscara do Rei no salão e agora era apenas um vampiro perdido em suas lembranças antigas.
- O Jardim de Caius é espantoso – ela disse baixinho quando o silêncio ameaçou lhe trazer uma onda de pânico gratuita.
- De fato — respondeu Aro um minuto depois, sua voz soou distante e distraída – Meu irmão Caius sempre teve um gosto modernista para tudo, este é o estilo dele... um jardim sem nada além de uma única espécie de flor, um lago e um gramado impecável. Caius é um tanto asséptico demais para mim.
- Eu gosto.
- Imaginei que gostaria de um lugar mais calmo para esta noite.
- E quanto aos rapazes que cometeram o crime? – perguntou Bella ignorando a resposta misteriosa que Aro lhe dera.
- Serão julgados, obviamente – respondeu Aro com os maxilares travados, sua voz fria como um silvo do vento de inverno – Não admitimos este tipo de crime leviano em Volterra, se os jovens desde cedo cometem estes crimes hediondos por não serem capazes de conter seus desejos pueris, bem, corta-se o mal pela raiz.
- Irá matá-los.
- Veremos.
- Quem é Angelina? – apressou-se Bella a perguntar para evitar o assunto dos rapazes.
- Uma vampira francesa que transgrediu regras em solo italiano... agora, infelizmente, ela terá de ser punida.
- O que ela fez?
- Matou um humano, um vendedor de flores em Nápoles.
Por um segundo, Bella se perguntou se Aro estava se divertindo às suas custas mesmo sabendo que o vampiro não era dado a gracejos, ela o encarou e ele permanecia com os olhos contemplativos grudados no céu estrelado como se procurasse uma estrela específica.
- Desde quando é crime um vampiro matar um humano? – ela perguntou, afinal de contas, até onde sabia apenas uma parcela mínima da população vampira se alimentava de animais.
- Em solo Italiano desde 1826 – respondeu Aro.
- Mas como vocês se alimentam? Correm até a Alemanha?
- Nós não matamos humanos, Isabella, apenas nos alimentamos deles.
Bella encarou Aro por um tempo, o Rei permaneceu imóvel até que notou os olhos descrentes da menina em seu rosto, ele então virou-se para ela e quando falou sua voz soou levemente impaciente.
- Nós tivemos dois pais há muitos anos, séculos na verdade. Um deles chamava-se Erestor, hoje é considerado um dos mais velhos vampiros a caminhar sobre a Terra. Erestor desenvolveu uma afeição pouco natural aos humanos e então inventou o Gole Curto, ou Gole Veloz... Leve Tragada, havia muitos nomes de que ele chamava. Basicamente consiste em beber sangue humano, sem matar a fonte.
- Sem matar a pessoa?
- Exato. Veja bem, leva-se décadas, às vezes séculos para aprender a não matar a presa, tudo depende do controle da pulsação do coração, quando você está drenando demais o humano começa a morrer, a ideia é encerrar a drenagem assim que o coração começa a bater mais lentamente. Claro que é mais fácil falar do que fazer, os vampiros num geral ainda possuem a selvageria imbuída em seu ser, assim, doutrinar seu próprio corpo para não ceder à tentação de absorver todo o sangue do corpo de um humano é um trabalho hercúleo. Mas é possível sim. Com muita determinação.
- Mas eu vi, certa vez, vocês atraíram dezenas de turistas para as partes inferiores do castelo a fim de se alimentarem... – disse Bella confusa.
- Isabella, você tem noção do inconveniente que se formaria se centenas de turistas desaparecessem do nada em Volterra? Imagina o quão incomodas poderiam se tornar as autoridades? Além disso, a Itália detém a maior concentração populacional de vampiros do mundo, como esperava que todos os Lordes vampiros pudessem se alimentar e a seus súditos sem chamar a atenção? Como poderíamos manter os Mercadores da Morte com suas fileiras se cada um deles precisasse matar um humano? Não, Isabella, nós não matamos humanos, apenas nos alimentamos deles.
- Eu nunca soube...
- Claro que não, a maioria prefere nem saber qualquer coisa acerca dos temíveis Volturi, não é sua culpa, quando decidimos que a Itália seria um feudo nosso resolvemos impor esta regra. Demorou dezenas de anos até que todos os nossos vassalos conseguissem dominar a técnica criada por Erestor, mas assim que o Gole Curto foi oficialmente estabelecido, nossa vida tornou-se muito mais fácil. Não tínhamos mais que lidar com cadáveres, ocultar seus corpos, deixar de dar explicações aos familiares... foi o melhor meio que adquirimos de poder manter o controle sobre tantos vampiros em nosso reino.
- Então por que nunca estabeleceram isso como medida para os vampiros do mundo todo?
- Apesar de todos temerem os Volturi e de mantermos as leis, nem todos os vampiros do mundo são nossos súditos, Isabella. Você melhor do que ninguém sabe disso, quando nos juram lealdade nós estabelecemos esta regra, Volturis não se alimentam de animais, mas tampouco matamos humanos a nosso bel prazer. No mundo atual isto não é possível, está cada vez mais difícil manter nosso povo no anonimato.
- Então quando um vampiro jura lealdade a Volterra... – começou Bella.
-... é imediatamente proibido de matar um ser humano – completou Aro.
- E as pessoas no navio?
- Aquilo, infelizmente, foi um caso a parte – respondeu Aro incomodado – E não estávamos em solo italiano.
Certa náusea perpassou o estômago de Bella. Mais uma das coisas que ela descobria sobre os Volturi que apenas fazia com que os odiasse ainda mais... antigamente era muito mais fácil pensar neles como assassinos frios e calculistas, vampiros sociopatas e tirânicos que regiam tudo a ferro e fogo. Mas vivendo em Volterra Bella descobria que não era assim. Tudo era feito de forma organizada e sincronizada, suas leis mais serviam para preservar os seres humanos do que para reger os vampiros em si, o anonimato era seguido à regra e agora Bella descobriu mais uma surpresa de Aro.
- Há quanto tempo você não mata um humano? – ela perguntou não entendendo o motivo de sua curiosidade.
- Há mais de cento e oitenta anos, desde que a data foi estabelecida. Obviamente nos alimentamos de humanos, mas sem os matar.
- Mas como ninguém percebe?
- A ferida fecha-se quase que automaticamente depois que deixamos de sugar o sangue – explicou Aro – O sangue vampiro se injetado numa quantidade mínima cauteriza a ferida e age como um anticoagulante permitindo que a pele se regenere rapidamente sem que qualquer sinal ou cicatriz permaneça. Obviamente, este fato nunca nos foi observado, e somente depois de anos de estudos Erestor desenvolveu a técnica. Na época nós não demos importância às suas ideias, mas com o passar do tempo e com o aumento exponencial de vampiros no mundo, bem, tivemos de nos adaptar.
- Então é possível se alimentar de sangue humano sem matá-los?
- Eu tentei em vão mostrar isso a Carlisle, mas ele sempre foi irredutível. Eu não o culpo totalmente, com o sangue humano é difícil resistir, leva-se décadas até se conseguir dominar a técnica, até lá muitos humanos morrem, é claro. Carlisle considerava perigoso isso, para ele, um vampiro poderia muito bem perder o controle e matar humanos quando bem entendesse. Eu entendo a posição dele. Mas o sangue humano é muito mais poderoso que sangue animal, na verdade, um vampiro consegue ficar até três ou quatro meses sem se alimentar quando ingere sangue humano. No caso de vocês, a sede lhes atacava com menos de quatro semanas. Mas Carlisle jamais provou sangue humano, então ele não teria como saber...
- E esta Angelina?
- Ela conhecia as regras – disse Aro e sua voz assumiu novamente um tom mais gélido – Não era a primeira vez que visitava a Itália, e tinha consciência de que neste território ela não poderia matar humanos, ainda assim o fez. E agora será punida como pede a lei, compreende isso Isabella?
- Compreendo, meu mestre Aro – respondeu Bella de forma pacata e sua voz destituída de sentimentos causou novamente uma contrariedade em Aro.
- Se me permite Isabella, você está levemente diferente de antes. Algo a está incomodando? Geralmente eu aguardaria uma enxurrada de críticas ao nosso modo de governar nosso povo.
- Edward está morto, assim como Jacob e Jasper. Minha família foi desfeita... eu não me importo mais. Farei o que for possível para manter minha filha em segurança.
Aro assumiu uma expressão que beirava o desconforto, era como se ele desejasse não ter participado da batalha onde lobos e vampiros foram mortos. Por mais que ele tentasse explicar não conseguiria e quando seus lábios se moveram palavra alguma saiu de sua boa... foi a primeira vez que Bella vira o Rei Vampiro ficar sem palavras. Para tanto, Aro apenas deu as costas para ela e voltou a encarar as estrelas e seu rosto tornou-se saudoso e triste.
- Eu não consigo me recordar de todas as escolhas ruins que fiz durante todos estes séculos de vida, Bella – ele falou – Tento me recordar se as escolhas boas algum dia poderiam dizer se de fato eu sou um ser tão detestável como você pensa ou se há algo de bom em mim. Eu amei várias mulheres, mas jamais tive este amor correspondido... assim como tive um filho e no fim este filho me odiou mais do que tudo. Pergunto-me se tudo o que faço realmente transforma-se em pó como você disse certa vez e que sou desprovido da capacidade de amar. Eu só quero que saiba que não foi uma decisão fácil a de ir até vocês com o intuito de destruí-los, mas não tive escolha... pelas leis dos vampiros vocês representavam ameaça. Eu não queria que Edward tivesse morrido, e sinto por ele ter perecido daquela forma.
- Nada do que seja dito faria qualquer diferença agora, Aro – respondeu Bella e sua voz era indiferente e desprovida de qualquer sentimento de dor. Parecia que ela
estava anestesiada com tudo – Eu apenas sinto falta deles, você acha que Carlisle e Esme poderiam vir para Volterra ainda?
Aro então se virou para Bella e um misto de espanto e ansiedade mesclava seu rosto eternamente jovem, ele aproximou-se cautelosamente da vampira e a olhou com uma atenção desmedida.
- Acha que poderia realmente convencer meu amigo Carlisle a se juntar a nós? – ele perguntou e havia uma esperança em sua voz que chegou a incomodar Bella.
- Talvez... eu não sei... – ela respondeu desconfortável – Acho que com Alice e Nessie aqui eles estariam melhores do que sozinhos em Forks ou em qualquer outro lugar do mundo. Isto parece lhe agradar, por quê?
- Eu gosto muito de Carlisle, Bella – respondeu Aro – Ele sempre foi um bom amigo apesar de não concordar com o meu modo de reger os vampiros, mas eu gostaria que ele pertencesse à nossa casa novamente. É uma pena saber que ele viria para cá por não ter mais nada, e pensar que eu lhes implorei para aceitar o meu pedido.
- Nós só queríamos viver em paz – disse Bella sem forças, ela realmente não se importava mais, com Edward morto nada mais importava.
- Eu também, Bella... eu também – respondeu Aro dando um passo em sua direção.
A muralha do castelo tinha pelo menos oito metros de altura e era feita de pedras pesadas e escurecidas pelo tempo, no alto uma paliçada meio desabada teria servido no passado para uma fileira de arqueiros defenderem o palácio. Alice caminhou rente ao muro até que encontrou a grande abertura, a muralha tinha pelo menos dez metros de extensão naquele ponto e no final, o portão era uma grade maciça e pesada de ferro bruto que caia pesadamente do alto para barrar a passagem de qualquer pessoa.
O portão estava aberto, e sob ele, envergando sua cintilante armadura cor de ouro envelhecido, estava a figura alta, forte e solitária de Matheu.
Alice caminhou silenciosamente sem saber por que caminhava em direção ao guarda-cavaleiro, seu coração estava sangrando... estava magoada e triste, e ela não
entendia por que estava ali se dirigindo para o vampiro que durante meses foi sua única companhia.
Antes de chegar perto o suficiente, Alice notou a imensa lança em riste segura pela pesada mão do cavaleiro, a armadura reluzia sob a luz das estrelas, ali não tinha luz alguma a não ser a da noite prateada e dos vaga-lumes que zuniam sua fosforescência amarelada para a escuridão. Assim que ela se aproximou, Matheu virou-se e um sorriso delicioso de surpresa se espalhou por seus lábios; seu rosto belo e jovem emoldurado pelo brilho da armadura, e seus cabelos desciam pelas costas sobre o manto branco como uma cascata escura.
- Minha princesa Alice – disse Matheu fazendo uma reverência para ela como todos os guardas da Cidadela.
- Você não precisa fazer referências para mim, Matheu – disse Alice encostando-se à parede e mantendo uma distância segura do cavaleiro, aquele rosto bonito deixava Alice levemente constrangida.
- É uma princesa, todos lhe devem reverência. E é uma honra receber uma visita tão ilustre no posto tão solitário.
- O Cavaleiro do Portão Leste – sussurrou Alice forçando um sorriso – Parece um personagem de livro, aqueles em que as mocinhas sempre se apaixonam.
- Não as princesas, eu temo – respondeu Matheu diretamente e Alice se calou incomodada – Você está triste Alice, sinto isso na sua voz. Aconteceu alguma coisa?
- Tirando o fato de eu ter me transformado em uma princesa do mesmo reino cujos reis dizimaram minha família? Bem, hoje eu confirmei que de esposa dedicada me transformei em viúva... a pior parte de ser vampira é não poder derramar uma lágrima sequer.
Matheu encarou Alice e um ar de desculpas pairou por seu rosto perfeito, ele baixou os olhos e tocou o rosto dela com a mão direita, mas foi um toque gentil de solidariedade e a vampira não se afastou dele.
- Se eu pudesse livrá-la deste peso eu o faria, minha princesa. Mas, infelizmente, cada um de nós carrega o fardo que nos é entregue; eu sinto muito por seu esposo, era um homem de sorte ímpar por ter tido a oportunidade de amar uma vampira como você, Alice. Sei que ele lutou bravamente para não permitir que lhe
tirassem dele, eu faria o mesmo. Mas saiba que Jasper provavelmente não se arrependeu de ter morrido por você... eu não me arrependeria.
- Eu me sinto sozinha agora... como se não pertencesse a lugar algum – disse Alice com a voz quebradiça como gelo.
Matheu se aproximou dela, ele era muito mais alto do que Jasper, seu manto alvo como a neve flutuava silenciosamente sobre seus ombros e ele a abraçou com cuidado. Alice apoiou o rosto da armadura fria e dura do cavaleiro, e sentiu o cheiro de Matheu caindo sobre ela como um manto de proteção; ela envolveu a cintura do vampiro com os braços e apertou com força e se perguntou o que estava fazendo quando ergueu o rosto para encarar os olhos vermelho-sangue de Matheu.
O belo vampiro a olhava com cuidado, mas não demorou muito para baixar o rosto e colar os lábios frios nos de Alice, ela não resistiu, ou melhor, pensou em resistir, mas não o fez. Não tinha forças para fazê-lo. E quando permitiu que Matheu a beijasse, desejou sentir como se estivesse beijando Jasper, mas não era a mesma coisa. Matheu era diferente. Era um Volturi.
“Assim como você” disse uma vozinha maldosa na mente de Alice.
Ele a prendeu em seus braços e a ergueu do chão, ele era muito alto e só assim Alice conseguiu enlaçar seus braços ao redor do pescoço do cavaleiro, seu beijo era frio, mas doce e irresistível, e ele beijava com uma paixão lenta e incomum, como se não beijasse uma mulher há décadas e décadas. Alice se deixou ficar envolta naqueles braços fortes cravejados de ferro dourado, a capa soprada pelo vento envolveu os dois tornando aquele lugar, o Portão Leste, um recanto apenas deles.
Alice não sabia quanto tempo ficaram ali abraçados, tomados por um beijo interminável, mas, então, sua consciência até então entorpecida pareceu voltar à tona e ela se assustou consigo mesma. “Jasper está morto e você se entregou a outro homem” disse a sua voz interior com um grito de raiva em sua mente.
Depois disso Alice se soltou dos braços de Matheu de forma súbita, ela caminhou poucos passos para longe dele e lhe virou as costas tentando esconder seu rosto envergonhado. O cavaleiro não foi até ela, ao em vez disso, manteve-se distante dando-lhe tempo para respirar e Alice o odiou por isso... “por que ele tem de ser tão perfeito?” pensou consigo mesma.
- Eu ainda amo Jasper – ela disse numa voz baixa e soluçante – Ele se foi, mas eu ainda vou amá-lo enquanto eu viver. Perdoe-me Matheu. Eu não deveria ter permitido isso. Eu só estou confusa demais para conseguir fazer alguma coisa certa...
- A culpa não é sua, minha princesa – disse Matheu se aproximando e delicadamente a virando para encará-lo – A culpa será sempre minha por amar uma vampira tão linda e delicada como a senhora; mas eu prometo que estarei aqui o quanto tempo leve para que seu coração se recupere. Apesar de ser uma princesa e eu um cavaleiro, meu coração, minha lança e meu amor serão seus para sempre... e eu prometo que só voltarei a beijá-la quando a senhora me pedir. Até este dia, permanecerei aqui e estarei disposto a escutá-la e confortá-la com minha amizade. O Portão Leste é minha casa, sempre que precisar, saberá onde me encontrar.
- Obrigada, Matheu – disse Alice sorrindo para ele com sinceridade – Obrigada.
Os olhos de Aro, ígneos e profundos, eram como dois poços de lava incandescentes, não era possível discernir se aquele brilho era devido à paixão ou à sede, ou qualquer outro sentimento oculto nas mil faces do antigo vampiro. Eram olhos velhos e insondáveis e Bella afastou-se apenas um passo para longe dele.
- Chegará o dia em que você confiará em mim, Isabella? – disse ele numa voz profunda.
- Você foi o responsável pela minha desgraça, Aro – respondeu Bella tentando soar como antigamente, mas ela percebeu que sua voz saiu indiferente, como se ela já não se importasse com nada – Eu até compreendo os seus motivos, seus medos sobre Renesmee e uma nova espécie, mas ainda assim, Edward morreu sobre seu comando.
- Eu faço qualquer coisa pelo seu perdão, Isabella. Diga-me, o que deseja?
- Basta me devolver a minha família, meu mestre Aro.
- Eu preferia quando você se portava com ousadia e me desafiava constantemente, Isabella. Este estado letárgico não lhe cai bem. Você é uma vampira ímpar, única, de uma forma que eu não compreendo acabou me hipnotizando como poucas já fizeram antes. Chega a ser curioso.
Bella não recuou quando Aro estendeu a mão para tocar seu cabelo, era como se ela estivesse amortecida desde manhã quando o velho Ícaro lhe confirmara a
informação de que Edward morrera... e com ele, seu coração. Agora, com a proximidade de Aro, Bella não soube o que fazer, apenas permaneceu impassível enquanto o Rei dos Vampiros aproximou seus lábios dos dela.
Para Bella, beijar Aro assemelhava-se a beijar a morte, seus lábios frios não continham o calor dos lábios de Edward, um calor gerado pelo amor absoluto que ela sentia pelo marido. Aro, apesar de possuir o corpo jovem, exalava uma aura antiga e pouco ou nada confiável. A princípio Bella pensou seriamente em estapear o Rei, mas do que isto resultaria? Ela havia se surpreendido com tudo o que aprendera acerca dos Volturi, mas rejeição não parecia fazer parte da lista de paciência de Aro.
Se ela o rejeitasse era possível que ele ameaçasse Nessie ou Alice, tudo em Volterra parecia cercado de ameaças e ali, naquele momento, no Jardim onde o Bem e o Mal conviviam juntos, sem o amor e a presença de Edward, não fazia diferença a Bella se Aro a beijava ou não. Seu marido estava morto. O vampiro por quem ela se apaixonara no colegial, o pai de sua filha... que mais restava a ela a não ser servir como uma ânfora sem alma?
Ela não reagiu ao beijo de Aro.
Era uma princesa... seu fardo era servir.
E quando o Rei afastou-se depois de lhe provar os lábios, Bella abriu os olhos brilhantes e dourados e encarou Aro, mas provavelmente havia algo em sua expressão que denotava contrariedade e o vampiro percebeu isso.
- Eu não devia ter feito isso – ele falou e havia um leve tom constrangido em suas palavras.
- Não mesmo – respondeu Bella talvez rápido demais.
- Perdoe-me Isabella, não foi minha intenção parece que estou me aproveitando de um momento delicado para você. Eu apenas... me sinto impelido a tocar seus lábios. É algo que nem ao menos eu consigo compreender direito. Mas agora vá, deixe-me só com as estrelas, eu preciso meditar sobre uma coisa. Aproveita a noite para ficar com sua filha. Vá.
Bella pareceu levemente confusa, Aro parecia realmente incomodado por tê-la beijado, talvez um Rei beijar uma princesa fosse algo que iria contra a hierarquia dos romances vampiros, mas, pensando bem, Bella não conhecia nenhuma rainha vampira
a não ser Athenodora e Sulpicia. Apesar de Aro ter libertado Sulpicia, a vampira não pareceu muito triste de deixar Volterra.
Mas a reação de Aro lhe foi estranha, era como se ele estivesse envergonhado de seu ato, como se beijar a viúva do homem cuja vida foi tirada por suas leis radicais lhe parecesse muita presunção. Ele realmente achava que teria o coração de Bella? Aro realmente havia se apaixonado por ela?
Atravessando o gramado imaculado do Jardim, o gosto do beijo de Aro ainda não a havia abandonado e isso lhe causava arrepios, o que aconteceria a seguir? Ela agora estava atada a ele, lhe fizera um juramento, e se Bella não seguisse este juramento não só a vida dela corria perigo bem como a de Nessie, Alice e Quil.
Tão perdida em devaneios, Bella não percebeu que seus pés a conduziram rapidamente para dentro do castelo, os sentinelas lhe fizeram a esperada reverência e ela passou rápido por eles em direção às escadas que lhe conduziriam até a torre onde morava. Mas antes de chegar aos corredores de acesso às escadarias, Bella deu de cara com Alice parada no hall de entrada como se não conseguisse se lembrar de onde estava.
- Alice? – ela chamou quando se aproximou da irmã.
- Bella – respondeu Alice com uma voz espectral.
As vampiras não trocaram mais qualquer palavra, apenas se olharam e suas expressões já diziam tudo, não havia necessidade de falar o que as afligia, Bella e Alice se conheciam bem demais para perceber que alguma coisa de muito errado havia se abatido sobre as duas. E assim, mudas, elas se abraçaram com força.
- Matheu me beijou – confessou Alice numa voz chorosa.
- Aro me beijou – disse Bella parecendo um fantasma.
- Meu Deus, Bell, nós estamos enlouquecendo?
- Não, querida – respondeu Bella cansada afagando o rosto triste da irmã – Nós apenas somos Volturis agora.
E enquanto Bella e Alice subiam abraçadas para seus aposentos, uma dúvida pairava na mente das duas. Algo abstrato e insubstancial, um medo que sempre rondou suas mentes enquanto viviam em paz na casa de Carlisle, um medo que
rondava Carlisle e seus companheiros enquanto rumavam para Volterra numa esperança vã de salvar as mulheres que amavam e o amigo aprisionado.
Eles sempre temeram o poderio Volturi, temeram sua guarda real e a insanidade nos atos dos Três Reis... mas estavam todos errados. Não eram os vampiros, os Lordes, os guardas, os cavaleiros, os Mercadores da Morte que fazia Volterra uma Cidadela de Vampiros perigosa. Não. Era muito mais que isso...
O que tornava Volterra perigosa é a loucura que se instala... nos que nela habitam.
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